Vandalize o discurso de ódio nas eleições!

Texto assinado pelas coordenações
das Blogueiras Feministas e pelo Biscate Social Club.

No último domingo (28/09), foi realizado um debate ao vivo entre os principais candidatos a presidência do Brasil transmitido pela Rede Record.

Ao longo do debate, o candidato Levy Fidelix (PRTB) proferiu diversas ideias preconceituosas. Em relação a usuários de drogas, disse que: “o País tem mais de 1 milhão de drogados apenas nas grandes capitais. Esse pessoal todo não trabalha, não produz nada, além de serem, honestamente, peso para qualquer governo”. Em outro momento, ao elaborar uma pergunta ao candidato Pastor Everaldo (PSC), ofendeu presidentes da América do Sul dizendo que “Evo Morales vai trazer mais cocaína pra cá”, além de chamar Cristina Kirchner de louca. Porém, o pior ainda estava por vir.

Em determinado momento, a candidata Luciana Genro (PSOL) questionou Levy Fidelix: “os homossexuais, travestis, lésbicas sofrem uma violência constante. O Brasil é campeão de mortes da comunidade LGBT. Por que as pessoas que defendem tanto a família, se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo?”.

Na resposta Levy Fidelix derrubou um caminhão de chorume, fazendo relação direta entre o conceito de família com reprodução, além de se referir a homossexualidade como uma doença e relaciona-la a pedofilia. Por fim, ainda bradou que a maioria não deve aceitar essa minoria, que é preciso enfrentá-los. Praticamente conclamando a população para agir com preconceito e violência contra lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans*.

O silêncio dos outros candidatos

Após essas declarações, houve o momento das considerações finais, mas nenhum candidato usou esse tempo para repudiar veementemente as declarações absurdas de Levy Fidelix. É assustador pensar que NENHUM dos candidatos tenha usado seu tempo para repudiar a fala de Fidelix.

E, se nenhum deles o fez, se ninguém quis marcar posição nesse momento tão importante diante de uma manifestação fascista de um candidato a presidência em rede nacional, então fica difícil endossar as falas e programas dos candidatos quanto ao tema dos direitos LGBT.

É fácil estampar tais temas em programas de governo ou discursos de campanha. O uso demagógico das lutas das minorias não é novidade. Porém, responder de modo enfático e imediato é o atestado de quem tem a sensibilidade para perceber a gravidade do discurso homofóbico, lesbofóbico, bifóbico e transfóbico proferido. E isso não aconteceu.

O candidato Eduardo Jorge (PV) reconheceu em declaração no twitter que errou ao não repudiar o discurso de ódio no momento do debate. Após o debate, Luciana Genro publicou em seu twitter uma mensagem de repúdio. Ao que parece os outros candidatos não irão declarar nada quanto ao que foi dito por Levy Fidelix.

Nessa hora em que alguém mostra todo o seu ódio em rede nacional, não responder só mostra o quanto essa pauta é pequena para a nossa política. Que dia triste esse em que um sujeito incita a violência contra homossexuais dizendo: “Vai para a avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los”; e assistimos os demais silenciarem.

O discurso de ódio será vandalizado

O discurso de Levy Fidelix é homofóbico e também carrega muitos outros discursos de ódio. Porém, é preciso lembrar que não devemos desumanizar Levy Fidelix, como ele faz quando se refere a gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans*. Esse discurso não é coisa de um monstro horroroso que mora em um lugar distante ou de apenas um candidato nanico isolado. Não. Esses discursos estão no cotidiano dos corpos marginalizados.

É o discurso que rasga, violenta e mata diversas pessoas todos os dias. Esse discurso não vem só de Levy Fidelix, vem também de nossos vizinhos, amigos, parentes, etc. O que você faz quando alguém diz: “tenho até amigos gays, mas não quero que nenhum chegue perto”? Ou que “respeita, que tolera”, que “não entende como tem homem que gosta de outro homem”, que diz que “a mulher é lésbica porque nunca achou o homem que a pegou de jeito”?

Esse discurso limpinho de tolerância é o suficiente para você? A piada feita com aquelas pessoas que não se encontram dentro de uma categorização normativa de gênero e orientação sexual é engraçada para você?

Apoiamos as diversas manifestações populares em repúdio a Levy Fidelix. Estão sendo organizados desde beijaços na Avenida Paulista até campanhas de denúncias em massa ao Ministério Público Federal. Exigimos que o candidato não possa mais participar dos debates, porque não aceitamos que discursos de ódio sejam proferidos em canais de televisão que são concessões públicas.

Não, não é fácil ouvir Levy Fidelix fazer um discurso extremamente violento em um debate para candidatos a presidência. Não desce. Não tem como dar conta disso. E por isso, esse tipo de discurso não pode mais ser admitido. Nem no debate de candidatos para presidente, nem por aquele seu amigo do trabalho, nem pelo tio no jantar de família. Não aceite ser tolerado. Não aceite ser apenas respeitado. Nós não merecemos migalhas. Nós merecemos existir da forma que queremos e não dentro dessa categoria normativa que engessa. Vandalize essas categorias e vamos à luta! Vandalizar a política!

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Foto de Danilo Verpa/Folhapress.

+ Sobre o assunto:

[+] OAB pede cassação da candidatura de Fidelix por declarações homofóbicas

[+] Luciana Genro e Jean Wyllys apresentam representação contra Levy Fidelix por discurso homofóbico em debate

 

Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

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 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

Eu Fiz Um Aborto

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Eu fiz um aborto. E, não, não foi porque me deu na telha e eu estava sem nada pra fazer e fui lá e fiz. Fiz um aborto no início do ano quando me deparei com uma gravidez indesejada, depois de fazer um segundo exame de gravidez. O primeiro deu um falso negativo. Coisas da ciência, vai entender. Eu poderia citar uns cem motivos para ter feito, mas o que mais importa é esse: eu não queria um filho agora. Simples assim. Ou nem tanto. Muito provavelmente não terei filhos porque não os desejo. Pelo menos, não biológicos. Não passa pela minha cabeça a ideia de gravidez.

Quando eu fiz o segundo exame e, finalmente, deu positivo, eu já sabia o que fazer. Em nenhum momento a minha criação católica bateu forte e eu balancei. Eu estava bem certa do que queria só não sabia, ainda, que essa seria uma das experiências mais marcantes da minha vida. E até hoje não sei precisar se foi boa ou ruim. Sei apenas que marcou a minha história, o meu corpo, e o meu olhar sobre o mundo.

Claro que por ser uma mulher de classe média pude desembolsar mil reais numa tarde. Simples. Fui lá e saquei no banco. Mas em nenhum momento, deixava de pensar naquelas mulheres que não têm o privilégio que eu tive. Quando entrei na clínica, me sentia uma criminosa. Ficava olhando para todos os lados, vendo se não tinha câmeras me filmando. Enquanto conversava com o médico, vivia num mundo paralelo em que a qualquer momento um grupo de pró-vidas junto com a polícia ia entrar pra me prender. Dei meu endereço errado e meu telefone também, por precaução. Sei lá se isso adiantaria de alguma coisa, mas era o máximo de controle que eu podia ter naquele momento.

O médico colocou quatro comprimidos de misoprostol no fundo da minha vagina. Não me deu nenhuma orientação. Eu, que sou feminista, que pesquiso sobre aborto, que participo de debates, escrevo, discuto sobre isso me sentia a mais ignorante das pessoas na frente daquele homem. Uma amiga, que também fez um aborto com ele, foi quem me disse o que eu sentiria. Os efeitos colaterais: a febre, a dor de barriga, o sangramento. Me lembrou de comprar absorventes noturnos.

Eu tive a sorte de estar com meu então companheiro. Ele segurou a onda, me ajudou a pagar o procedimento, comprou absorvente, segurou minha mão e velou meu sono agitado. Sonhei o tempo todo que a polícia invadia o quarto que eu estava e me levava presa. A noite toda. A noite toda.

Só fui sangrar 12 horas depois. Parecia uma menstruação forte, mas nada que assustasse. O pior só foi ocorrer quatro dias depois, quando estava numa cidade de interior com meu companheiro. Tive uma hemorragia no meio do nada e estávamos a uns 200 km da capital. Bom, não morri de hemorragia como vocês podem perceber, mas o médico queria me cobrar mais R$ 3000,00 pra fazer uma curetagem. Eu não tinha o dinheiro e achei um absurdo ele me cobrar isso. Fui para casa sangrando e assim fiquei por uns dois meses. Bom, eu sobrevivi.

Eu sobrevivi. E quando pensamos numa legislação punitiva como a brasileira, eu sei que isso é muito. Jandira e Elizângela não sobreviveram. Elas também pagaram para fazer um aborto clandestino como o meu. A diferença entre mim e elas, aquela que separa a vida da morte, é que eu fiz um aborto em um hospital particular, que oferecia minimamente condições sanitárias. A diferença entre mim, Jandira e Elizângela é que a hipocrisia da classe média me salvou. Eu fiz um aborto onde todas as mulheres de classe média, brancas e escolarizadas fazem. Todo mundo sabe que ali funciona uma clínica de aborto clandestino, mas seus donos são influentes o suficiente para manter-se a salvo da polícia.

Ainda hoje me pego pensando nas possibilidades. E se eu não tivesse dinheiro, e se eu não tivesse descoberto no início, e se eu não tivesse feito numa clínica, e se eu tivesse ido pra um hospital com hemorragia, e se eu tivesse sido presa. Fazer o aborto foi algo que mudou tanta coisa em mim que ainda não sei precisar. Dessa experiência que ainda está sendo significada dentro de mim, eu tenho duas certezas: eu sou uma privilegiada e eu merecia ter feito um aborto seguro e legal.

Apesar de todo o medo que me acompanhou – o de ser presa e o medo da morte, que parecia muito perto em alguns momentos – me sinto uma privilegiada, pois dentro da criminalidade com que o Estado brasileiro joga as mulheres, eu ainda pude escolher. Eu ainda pude pagar por um serviço em uma clínica particular, eu ainda pude contar com uma rede de acolhimento de amigos e meu companheiro na época. Eu pude ir a uma médica particular para tratar do sangramento que durou meses. À Jandira e Elizângela, que já tinham outros filhos para criar, o Estado brasileiro só reservou a morte.

Ainda que me sabendo privilegiada numa sociedade sexista que pune mais as mulheres que os homens, que se recusa a discutir o aborto abertamente como política pública, eu me senti lesada ao fim desse processo. No mundo em que eu quero viver e que eu luto para construir, eu e todas as mulheres que fizeram aborto nesse país, não seríamos criminosas. Eu não teria sangrado durante dois meses e nem elas morreriam de hemorragia e teriam seus corpos queimados. Eu não teria tido tanto medo de morrer, não teria chorado tanto, elas não seriam maltratadas por profissionais de saúde, nós não teríamos medo de ser presas anos depois desse episódio, como as mulheres de Campo Grande. No mundo que eu pretendo habitar, aborto será uma escolha das mulheres. O Estado vai garantir e a sociedade vai respeitar.

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Mais sobre o assunto: Jandira, a vítima já condenada

O Caso da Elisângela Barbosa

Tem uma categoria inteira no Blogueiras feministas pra você se informar: Aborto

Palatável

Vamos lá… muitxs companheiras criticam essa ou aquela mulher por ter um discuso feminista digamos… palatável. Daí fui no pai (oi, patriarcado!) dos burros (oi novamente, patriarcado!) e achei o seguinte sobre a palavra…

1. Palatável
Por Alvaro Fraga (BA) em 02-01-2008
[Do ingl. palatable.]
Adj. 2 g.
1. Que é grato ao paladar ou gosto; que sabe bem.
2. Fig. Aceitável, tolerável:
“Seu papel [o de Getúlio Vargas] era corrigir os excessos, tornar a coisa palatável ao país e útil ao exercício real do seu domínio.” (Gilberto Amado, Depois da Política, pp. 1-2.)

Então…
1- eu mermo gosto do que tem gosto bom, “é grato ao paladar e gosto e que sabe bem” (ui!). Tanto que estou comendo chocolate nesse momento.

2- Gosto de ser aceita ou tolerada por pessoas que se pudessem escolher me matariam. Já que não podem gostar de mim, pessoa maravilhosa e muito da legal, dos males…

3- Esqueçamos Getúlio porque senão vou ficar falando da falta de representação das mulheres na política e tals.

Resumindo… que mais pessoas se digam feministas. Porque mesmo que não seja o feminismo que VOCÊ acredita, a utopia feminista é uma porta de entrada para leituras diversas sobre igualdade e diferenças. Para questionamentos, mesmo que leituras não aconteçam. Para conversas de mesa de bar e no jantar da família. Para enfrentar brigas que pouca gente quer tomar para si.

Sim, obviamente merdas acontecem, mas quem nunca? Claro que não se está, aqui, fazendo apologia de um feminismo que agrade gregos, troianos e machistas de estirpe e costas largas. O que se propõe é a) espaço constante pro diálogo, b) compreensão de que o machismo é estrutural e vamos, vez ou outra, enfiar o pé na jaca – todos nós – e,  c) principalmente, dar-se o direito de curtir quando coisas legais acontecem.

feminismo

Por exemplo? Esses dias a jovem Emma Watson, mais conhecida como Hermione, fez um discurso (pró) feminista na ONU. Um feminismo branco, de primeiro mundo e cissexual? Certamente. Mas um discurso que inspira e que diz, em maiúsculas, FEMINISMO pra jovens que crescem em uma cultura que trata o movimento como menor, revanchista e mal-intencionado. E ela vai e diz: sou feminista, ser feminista é procurar a igualdade de gêneros, vamos todos nesse embalo?

Pode não ser o discurso feminista que você faria. Provavelmente não é nem mesmo o discurso feminista que eu faria. E é, como todo discurso, passível de ser criticado e repensado. Mas não é, na minha opinião, um discurso a ser menosprezada ou ignorado só porque não é perfeito. O feminismo é, em processo.

Seriam as feministas super mulheres?

Adorei esse post da colega biscate, Sara Joker, mas esse comentário da Danusia no post mexeu muito comigo:

“(…) mais uma consideração… tem uma coisa que ainda me incomoda muito no discurso feminista. Vejo as feministas publicando textos lindos na internet, lindos mesmo… Mas todas elas dizem que são super bem resolvidas sexualmente. Todas. Acho que ainda não li nenhuma feminista insegura na cama. Pois bem, eu sou. feminista, e nem um pouco bem resolvida, em VÁRIOS aspectos da minha vida. o que não me faz nem um pouco menos feminista. E já tive sim vários problemas de ser rejeitada por ser gorda. VÁRIOS. Sendo gorda me tornei invisível pro homens.”

Mas achei que minha resposta ao invés de comentário devia virar post.

Sempre me defini como feminista desde que conheci o feminismo lá nos idos de 80/90 mas encontrar esse grupo de mulheres feministas pela internet e depois tê-las também na vida offline mudou bastante a minha vida.  Não sou a mais militante de todas, mas manifesto minhas opiniões sempre que possível, visando explicar o quanto o mundo ainda é machista e porque precisamos do feminismo (um parêntesis de agradecimento ao discurso da minha eterna Hermione) , ou participar de marchas e outros eventos sempre que dá.

O feminismo que vivo hoje é de acolhimento, parceria, debate, questionamento. Desde que encontrei minhas amigas de idéias e ideais me sinto menos só e de quebra tenho companhia deliciosa par várias conversas. Esse tipo de irmandade e comunhão você pode achar também em sua religião, aliás, a sensação de pertencimento e acolhimento é uma das coisas que faz as pessoas frequentarem suas igrejas. Mas isso você também pode achar na militância. Essas sensações fazem bem para autoestima, é inegável. Mas serei eu uma super mulher sempre correta? Longe disso, tanto que adorei o post da Sara e me identifiquei.

Mas o que isso tem a ver com supostamente as feministas terem autoestima aparentemente mais elevada ou serem mais bem resolvidas consigo mesmas e na cama?

Como disse a Luciana, sempre sabiamente (minha gurua) , posso dizer por mim. Olha, feministas são como todas as pessoas, tem medos e  inseguranças, mas no aprendizado diário com as amigas aprendemos todas a ver que somos mais, muito mais, que as mulheres de Nova que a mídia teima em vender (e até mesmo a mídia vem mudando isso: um exemplo são as campanhas da Dove de “real beleza”),  aprendi a curtir o meu  estilo próprio, a ser menos fútil, a prestar mais atenção no próximo. (sobre ser menos fútil, ainda curto coisas lindas, mas foco mais no “ser” que no “ter”) . Consequentemente, a gente encana menos com o corpo, o sexo, as relações amorosas. O foco da vida muda, é mais crítico às demandas exteriores da sociedade, e isso dá leveza.

Veja bem, mesmo com isso tudo o medo de não ser aceita, de ser gorda, de ser feia (verdadeiros monstros na cabeça de uma mulher) diminui muito, quase some, embora    às vezes espete aqui e acolá. Mas temos amigas maravilhosas que botam a gente no devido lugar: o de rainhas de nós mesmas.

Sobre sexo, bom, ao não julgar o comportamento sexual de alguém pelo meu parâmetro (é certo o meu? Certo para mim, não obriga ninguém) também me vejo mais livre sexualmente e com menos medo de ser julgada.  E também fico mais livre, mais livre fico mais segura de mim. São pequenas atitudes que mudaram em mim a partir da convivência com o feminismo, embora eu já fosse livre, só encontrei que não me julgue.

Ademais, é natural das pessoas na internet sempre mostrarem o seu melhor, raramente mostrando os seus defeitos. Talvez por isso as feministas fiquem parecendo fantásticas super mulheres.  Mas observe que mesmo parecendo super,  sempre tem um post de autocrítica, de questionamento e exposição de medos, como o que me inspirou a escrever este post.

Na verdade isso é só fruto de encontrar gente bacana parecida com a gente e que nos apoia. Então o feminismo é autoajuda? Não, mas é também  amizade e suporte. E isso faz toda a diferença.

O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

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Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Eu tô cansada dessa merda

Eu tô cansada dessa merda
Da violência que desmede tudo
Da minha liberdade clandestina
De ta no meio dessa briga, Chega!*

Porque tem dias em que eu me canso. Chego em casa rouca, as pernas cansadas, a voz brigando por resultado nenhum. Não, é mentira. A gente tem resultados. E é assim que eles germinam: baixinho, em silêncio, crescendo rasteiros na grama do jardim. Em cada olhar sensibilizado, em cada pequena iniciativa de proteção à mulher, à diversidade, à fala da população que é sempre calada pela mídia de massa e pela política perversa de exclusão.

Eles estão sempre lá, os donos do poder. Os Sarneys da vida. Os “macho” usurpadores da liberdade feminina. Os machistas agressores. Os homofóbicos. A voz dominante da opressão aos pobres. Aos negros. A grana suja do tráfico lá no Congresso, e todo mundo fazendo de conta que tá tudo bem, que as drogas devem continuar todas ilegais porque “fazem mal”.

As campanhas financiadas pelas grandes empresas que querem grana, e mais grana, seus whiskys importados no iate na praia, suas mulheres plastificadas de silicone, sua viagem para a Europa arrotando caviar e degustando a elite soberba que sempre cagou na nossa cabeça brasileira. É essa grana mesmo, que cresce e destrói coisas belas. Se ao menos as mães fossem felizes. Mas nem isso. Essa vida consumista é vazia. E a violência contra a mulher existe lá também, no paraíso de praias artificiais com grama sintética e champanhe francês.

Eita!
Que o sangue pinga nas notícias
Vendidas como coisa bela
A merda já tá no pescoço
E a gente acostumou com ela

Aqui embaixo tá foda. Todo dia é uma notícia nova de corrupção, de violência, de morte. Mulheres morrem por abortos clandestinos às pencas, enquanto a grana cala e paga o preço da hipocrisia. Porque lá em cima, na montanha, mulher que aborta não morre e ninguém fica sabendo. Aborto de rica é só uma solução para um problema. Aborto de pobre é crime.

Negrxs apanham por coisa nenhuma. Lésbicas são agredidas por amarem. Gays são espancados por não “falarem como homens”. Trans são agredidas até dentro do próprio movimento feminista! Xs militantes do SUS estão esgoelando que a saúde vem sendo sucateada e vendida à preço de banana e ninguém fala nada. Não, minto de novo. Falar a gente fala, mas a todo momento temos nossos microfones cortados nas grandes arenas decisórias.

A máquina acordou com fome
Vem detonando tudo em sua frente
Comendo ferro, carne e pano
Bebendo sangue e gasolina

Mas eu acredito. Que temos que gritar contra as violências e injustiças. Que temos que nos mobilizar. Que temos que brigar por um mundo melhor. Que temos que denunciar. Que não podemos nos calar. Que temos que juntar nossas forças, parar de atacarmos os aliados, os movimentos tantos que estão despontando com causas diversas de luta, e lutarmos com essa grande lógica perversa capitalista e excludente, branca, machista, homofóbica, elitizada e concentradora de renda, riqueza, bens e outras parafernálias tantas que nos fazem consumidores vazios e desumanos.

É que hoje eu cansei. Vou dormir um sono bom, e voltar com mais energia para as brigas tantas.

*versos da banda Eddie. Eu tô cansado dessa merda. 

Sou Bissexual Não Sou Indecisa

Texto de Sara Joker com participação especial de Thayz Athayde

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Porque você fala tanto que é bissexual? Pra que falar sobre isso se você, atualmente, namora um homem? Poderia deixar quieto e viver sua vida sem preconceito? Ora, porque namorar um homem não me faz hétero, a minha orientação sexual continua sendo bissexual.

Eu poderia deixar quieto se conseguisse apagar todo o preconceito que passo por ser bissexual, mas não posso apagar, sou bissexual desde sempre, já amei mulheres cis e trans, já amei homens cis. E esconder uma parte da minha identidade me fará incompleta e infeliz. Passei anos da minha adolescência escondendo minha sexualidade, por me achar estranha. Acreditava que amar mulheres e homens era errado, que tinha algo errado comigo.

Se eu me abrir, lutar, brigar junto axs minhxs companheirxs de militância, e isso puder fazer com que outras pessoas não pensem que são erradas, que não são aberrações (como eu pensei de mim mesma), continuarei levantando a bandeira de bissexual.

No movimento LGBT, somos invisíveis, esquecem de nossa existência, somos xs enrustidxs, xs indecisxs. Algumas pessoas acreditam que não sofremos tanto preconceito, pois podemos escolher ter uma relação heteronormativa. Não é verdade, não há escolha, não escolhemos quem vamos amar. Tipo “ah, acho que hoje vou me apaixonar por uma mulher!” Não é assim, sofremos com a insegurança de algumxs parceirxs, namoradxs, ficantes. Mulheres bi são alvo de objetificação por alguns homens (“pegar menina bi é legal porque ela é liberal e vai fazer ménage. Mas não namora não porque ela pode te trocar por outra mulher.”). Mas, mesmo assim, assumimos nossa bissexualidade.

Uma amiga lésbica me disse, uma vez, que eu era corajosa, que acha bonito eu levar tão a sério a militância LGBT. Na época, estava em um relacionamento bem estável e longo, ou seja, poderia me esconder naquele relacionamento de anos, como posso me esconder no atual, e fingir ser hétero. Poder, eu podia, mas não devia, seria desonesto comigo mesma. E era isso que ela admirava em mim, eu estava dando a cara a tapa, mesmo sabendo que podia me esconder. Pra mim, ser bissexual é dar a cara a tapa todos os dias contra a invisibilidade.

Não é possível esconder a bissexualidade. Pelo menos não de mim mesma. Então, assumir-se bissexual e lutar contra a bifobia não é apenas uma questão de escolha mas é dar cada vez mais visibilidade à bandeira bissexual e demandar respeito e espaço. É desconstruir estereótipos sobre a bissexualidade, entre eles, que quando uma mulher, como eu, está em um relacionando com um homem, isso não faz com que eu me “torne” heterossexual. Namorar uma mulher não me torno lésbica. A luta pela visibilidade bissexual é justamente para que as pessoas entendam que não existe apenas orientações monossexuais. Mesmo estando em um relacionamento com uma pessoa de determinado gênero, ainda assim, continuo sendo bissexual.  É como diz aquele música que não canso de gritar nos protestos: eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser.

Leia também: (in) visibilidade bissexual no Blogueiras Feministas

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual organizada pelo Bi-Sides.

Você não tem que saber

Eu não acho que você tenha que saber. Não acho mesmo. Ninguém nasce sabendo, e a gente nasce na sociedade que está aí. Essa aí. Essa das mulheres nas capas de revistas, como pedaços de carne expostos. Essa em que todo dia se mede, se pesa, se julga, se aponta. Essa em que a mulher que não é considerada bonita tem que estar sempre se explicando. Como se não lhe bastasse ser. Como se algo faltasse, como se para ser mulher fosse necessário ser bonita.

Essa sociedade em que, com três mulheres candidatas à presidência, a aparência é questão todo dia. Em que “quem você pegaria das três” é assunto. Não ocorre que talvez não seja algo relevante a ser discutido, quando se fala de candidatas à presidência. Nem relevante, nem necessário, e definitivamente prejudicial. Não ocorre, afinal, “é só uma brincadeira”, “você é que está mal-humorada”. Mal comida, talvez? Logo vi.

Então. Eu não estou dizendo que você tenha que saber. Só estou sugerindo que talvez fosse bom escutar. Pensar. Prestar atenção. Dar importância às falas. Não desprezar, não achar que é fruto da TPM. Pensar nas consequências dela ser, mesmo, esse “ser igual” em que você diz que acredita. Ser igual, no sentido dos direitos. O mesmo respeito. O mesmo espaço. O mesmo tempo para falar. Sobretudo – sobretudo! –  a mesma atenção.

Não “tomar como um dado”. Não achar que algo lhe é devido. Respeitar a diferença, a individualidade, os quereres, os desejos, os limites. Saber que ela é sujeito pleno. Dona de si e da sua própria vida. Perguntar antes, caso seja. E depois, se precisar. Deixar quieto, em certas horas. Aceitar, se for para deixá-la ir embora.

Deixá-la ir embora faz parte, por tantos motivos. Porque ela se apaixonou por outro cara. Porque aquela história não é mais. Porque não tá mais dando pra ficar juntos, embora ainda haja amor. E é isso, aceitar. Chorar no canto, que seja. Chorar sempre, se possível. Se embebedar, ouvir música, estar com os amigos. Ficar sozinho. Mas aceitar. Largar mão. Dar espaço. Recuar.

E cada uma é uma, cada jeito é um, cada história é nova. Não dá pra fazer igual, pra prever pelo passado, pra deduzir o que será. Dá pra tentar aprender algumas coisas, sim. E, talvez, quem sabe, retomar, tentar diferente, começar de novo olhando pelo avesso. Também pode ser.

Mas tenta. Não é fácil. Porque o mundo, esse nosso aqui, moldura, limite, fado, diz o tempo todo diferente. Aí tem que fazer contrapeso. Abrir frestas. Deixar o vento entrar. Jogar idéias velhas fora, sem dó nem piedade. Não, não é tudo ao mesmo tempo. Devagarinho. Um passo de cada vez. Tenta.

Não diz nada ainda.

Espera.

Você vai ver.

Gorda

Everyday I fight a war against the mirror
I can’t take the person starin’ back at me
I’m a hazard to myself

Don’t let me get me
I’m my own worst enemy
Its bad when you annoy yourself
So irritating
Don’t wanna be my friend no more
I wanna be somebody else

Pink – Don’t Let Me Get Me

Me sinto incomodada com o meu corpo, estou passando por uma transição de mentalidade, preciso compreender porque não aceito meu peso, sou obcecada por emagrecer. Esse sentimento estranho, antes eu utilizava a desculpa de “fui magra a adolescência toda, esse não é o meu corpo natural”. Mas, se eu fui magra 17 anos da minha vida, sendo nesses 17 anos, apenas em 4 deles meu corpo já era adulto, como poderia assumir meu corpo de infância como o corpo real? Sim, meu corpo da maior parte da minha vida adulta é um corpo em sobrepeso. Não sei se sou gorda de verdade ou se apenas não sou do manequim 40. Mas, vestir 48 foi um problema dos meus 18 até hoje, são quase 12 anos nessa tortura de “emagrecer por saúde”. O que me incomoda não são os olhares de outras pessoas, é o meu próprio olhar, é o incomodo ao enxergar as dobras, a barriga, o rosto redondo.

Na infância, ainda era magra

Na infância

Ser saudável eu já sou, de acordo com uma cardiologista que ia quando tinha uns 90 e tantos quilos, meus exames são de dar inveja em muitx esportista, então qual é a minha doença? Probabilidade de infarto? Problemas de coluna? Acho que minha doença é um preconceito que tenho sobre o meu corpo. Minha felicidade depende de eu vestir 40? Serei mais realizada se isso acontecer? Realmente, entre meus planos de futuro, sempre esteve o manequim 40, o mestrado e o doutorado, a casa própria. Coisas de uma menina de classe média, que, sem querer, aprendeu que ser feliz é poder usar biquini sem gorduras pulando por cima da calcinha do biquini.

Final da adolescência, 17 ou 16 anos, ainda era magra

Final da adolescência, 17 ou 16 anos

Estou começando a me aceitar, afinal, é doentio eu olhar mulheres e homens gordxs a minha volta, considerar todxs lindxs, mas não me aceitar linda. O que falta para que eu seja linda? Falta autoestima, falta empoderamento? Talvez seja só isso, o manequim 48 seja parte de mim, uma parte que eu TENHO  que amar também. Não por conformismo, mas por liberdade! Me libertei de tantos preconceitos, mas esse é o mais difícil de todos de libertar, talvez por aprender a vida toda que gordura é sinonimo doença, falta de saúde, preguiça, baixa auto estima.

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Eu nunca enxerguei pessoas gordas como muitxs enxergam, pessoas solitárias, infelizes, sem companheirxs, sem vida sexual. Até porque eu sempre tive vida sexual ativa, estando gorda ou magra. Não tenho e nunca alimentei o preconceito que mulheres gordas não arrumam alguém, nunca foi minha preocupação. Não só por não viver pra ter um marido/namoradx/esposa, mas por ser educada pra viver por mim apenas. Entendam, não tenho medo de ser solitária, na verdade, ser solitária às vezes pode ser libertador. Meu medo é diferente do medo de não ter ninguém que me deseje ou me ame.

Auge do meu emagrecimento, menos 15 kg

Auge do meu emagrecimento, menos 10 kg

Meu drama com o peso e com o manequim sempre foi muito “classe média”, eu queria comprar roupas pra mim e, ao invés de lutar pra que as roupas se adaptassem a meu tamanho, eu lutava pra me adaptar a ditadura magra e alta que sempre fui imposta. E, quando aprendemos que saúde é diretamente relacionada com esporte e alimentação, você se acostuma a achar que todx gordx é doente, não faz esporte e não controla a boca. Eu era a primeira a me cobrar.

Foto de quando estacionei meu emagrecimento

Houve uma época em que malhava todos os dias, contava calorias das refeições, fazia capoeira,hap ki do. Estava chegando aos 70kg, esses 70kg foi o menor peso que tive de forma “saudável”, menos que isso só quando tomei inibidor de apetite e ansiolítico. Depois desses 70kg, só emagreci passando fome. Comecei a enlouquecer comigo mesma, eu estava fazendo algo errado, tinha que ter algo errado. Entrei em depressão, engordei um bocado de novo, troca de hormônios, tudo misturado.

Foto atual

Foto atual

Não sei se voltarei aos 70kg, não acredito que isso seja importante, preciso trabalhar outra área da minha saúde, a psicológica, a aceitação do meu peso. Pois, agora, acordei para um medo muito maior que ser gorda, que é ter um distúrbio alimentar por acreditar que “preciso emagrecer”. Essa luta é muito mais importante, já que sei que meus exames estão todos em taxas super saudáveis, o peso não interfere em minha saúde. Estou começando a me aceitar, usar roupas curtas e justas, sem raiva do espelho, mas tem dias que não consigo me sentir feliz com o que enxergo.

Now and then, I get insecure
From all the pain, I’m so ashamed

I am beautiful no matter what they say
Words can’t bring me down
I am beautiful in every single way
Yes, words can’t bring me down
So don’t you bring me down today

Christina Aguilera – Beautiful

Racismo

Não posso falar da condição de opressão imposta pelo racismo. Sou antirracista e me policio para não cometer racismo em minhas atitudes e falas há um bom tempo. Mas, independente do quanto me doa e indigne atitudes racistas, nunca saberei de verdade o quanto doi, humilha e destroi. O meu lugar de fala é do lugar que oprime. Gostando disso ou não, detenho privilégios raciais. Reconheço isso com tranquilidade e com a disposição de não piorar ainda mais a situação.

Negras e negros não precisam das minhas considerações, opiniões, autorização ou conhecimento sobre a realidade deles e nem mesmo que eu fale em seu nome. A realidade é deles, quem sabe são eles e quem fala em seu nome são eles mesmos. Tudo o que posso fazer é tentar não atrapalhar e principalmente recusar, não dispor dos privilégios que minha condição de branca me dão. De sua libertação cuidam eles.

A solidariedade necessária e urgente que negros e negras precisam é serem ouvidos quando dizem e apontam que estão sendo ofendidos e violentados. Basta não duvidar da palavra e da condição de vítima da opressão racial.

Aranha (foto: Santos FC/ divulgação)

Aranha (foto: Santos FC/ divulgação)

Jogo Grêmio x Santos em Porto Alegre em jogo válido pela Copa do Brasil. O goleiro santista Aranha é xingado de “macaco” por centenas de torcedores na Arena do Grêmio. Apenas uma torcedora foi identificada e está sendo responsabilizada, embora fosse possível identificar e responsabilizar outros individualmente além da torcida da qual a moça faz parte, e que costumeiramene entoa cânticos racistas dirigidos a torcida rival.

Ok, a moça foi hostilizada de forma machista e misógina, o que não cabia e nem é resposta ou justiça ao seu ato racista, mas ela em nenhum momento reconheceu o erro, apenas tentou desesperadamente se justificar. Aranha não se comoveu e manteve a denúncia. O Grêmio foi condenado com a desclassificação da Copa do Brasil. A torcida gremista aos poucos foi se revoltando contra Aranha, a vítima, insuflada pela imprensa que teve suas intenções de armar a reconciliação entre vítima e agressora diante das câmeras (e faturar com isso) frustradas com a recusa de Aranha em participar do circo.

Dias antes de um novo confronto Grêmio x Santos em Porto Alegre agora pelo Brasileirão, o técnico gremista Luiz Felipe Scolari acusou Aranha de ter sido o “responsável pela confusão no jogo da Copa do Brasil, ao provocar a torcida gremista”. Sim, em uma semana Aranha foi de vítima a vilão por 1) não ter aceitado o papel de vítima, 2) por não ter aceito participar do circo proposto pela imprensa, 3) porque é consciente de sua condição e continua exigindo respeito e que a justiça seja feita no caso. Detalhe: não precisava. A postura de Aranha não atenua a violência que sofreu e nada, nada, nadinha do que ele venha a fazer ou dizer desfaz o crime cometido pela torcida gremista naquela noite.

Depois de passar a semana desfilando em programas de tevê e sites de notícias tentando justificar/negar seu ato racista, Patricia Moreira, a torcedora gremista flagrada xingando Aranha de macaco teve sua casa queimada em Porto Alegre e disse querer “ser um símbolo nacional contra o racismo”. Hã? E veio o anúncio de que foi contratada pela Ong CUFA (Central Única das Favelas) para contar sua experiência com o racismo. E ela ainda contou na entrevista já ter ficado com negros, o que — claro!!! — atesta que ela não é racista. HÃ??????????

Até eu que sou branca consigo ver que tem algo de muito errado nessa história…

Veio o novo jogo na Arena do Grêmio e a torcida gremista, toda ela, vaiou Aranha quando ele entrou em campo e toda vez que ele pegou na bola, confirmando que o ato racista contra ele não era um caso isolado mas uma prática cotidiana da torcida gremista. Dessa vez não o chamaram de macaco, mas o chamaram de “viado” e de mais uma dúzia de outros insultos. E as vaias tinham outro sentido além de apenas desconcentrar o goleiro adversário. E como já estava pouco de racismo, tinha que ter homofobia também. A imprensa? Na transmissão pelo no Sport TV (Globo) disse o repórter: “tá bonito o duelo atrás do gol entre o Aranha e os gremistas”. O bonito para o repórter era Aranha sendo vaiado e insultado. O mesmo repórter tentou colocá-lo em várias saias justas na entrevista após o jogo. Aranha tirou de letra, embora não precisasse, é um show de consciência e respeito próprio. Uma verdadeira aula de dignidade. Assistam aqui a entrevista de Aranha após o jogo de ontem (18) em Porto Alegre.

E só para mostrar que não é um caso isolado, vou compartilhar as notícias e discussões sobre racismo que me chegaram nos últimos dias. Nenhum é ameno.

Danièle Watts detida, algemada pela polícia (foto: reprodução/facebook)

Danièle Watts detida, algemada pela polícia (foto: reprodução/facebook)

A atriz americana Danièle Watts foi algemada pela polícia na rua, sob suspeita de prostituição. Segundo a polícia, lhe foi pedido que apresentasse identidade após “demonstração de afeto”. Ela e o marido branco estavam se beijando. Clique aqui para saber mais detalhes.

R10 macaco_carlos trevino

Ronaldinho Gaúcho se apresentou ao seu novo clube, o Querétaro da cidade de Querétaro, no México (segunda cidade mexicana mais rica) na última sexta-feira (12). A apresentação foi feita diante de 35 mil pessoas no Estádio La Corregidora no intervalo da partida válida pela séire do Mexicano, e trancou o trânsito da cidade. E foi por causa do engarrafamento que o político Carlos Trevino xingou R10 de macaco no facebook e disse não gostar de futebol. Trevino pediu desculpas, mas pelo twitter e já cancelou seus perfis em ambas as redes.

Zezé Motta servindo, como Sebastiana em Boogie Oogie (foto: GShow)

Zezé Motta servindo, como Sebastiana em Boogie Oogie (foto: GShow)

Zezé Motta, atriz e cantora brasileira que dispensa apresentações, completará 70 anos de vida e 50 anos de carreira interpretando Sebastiana, empregada doméstica do elenco de apoio na novela das 18h da Rede Globo, Boogie Oogie. (*)

Estreou na Rede Globo “O Sexo e as Nega”, série que segue a linha de Sex And The City, só que com um narrador branco, uma protagonista branca, hipersexualização da mulher negra, o reforço do racismo e machismo quando as personagens negras em situações de discriminação e violência não reagem de forma positiva. Isso sem falar no título… A Charô Nunes e a Bia Cardoso escreveram muitíssimo bem a respeito e ainda virão outras análises bem apropriadas pelo seu lugar de fala e contestação.

A modelo Mahaneela Choudhury-Reid foi agredida fisicamente e xingada com insultos racistas no metrô de Londres. Mahaneela denunciou a violência sofrida pelo twitter e o diretor do metrô londrino diz que os 700 funcionários do metrô estão instruídos a orientarem as vítimas de casos parecidos a denunciarem na Polícia de Transporte Britânica (PTB), o que a modelo já anunciou que fará.

Cleide Donária, candidata ao governo de Minas Gerais pelo Partido da Causa Operária (PCO) relatou ter sido agredida, cuspida e ter ouvido insultos racistas e misóginos por defender a desmilitarização da Polícia Militar. O agressor deixou claro em meio aos insultos o motivo da agressão.

Presidenta Dilma Rousseff em campanha pela reeleição disse ‘ter muitos negros no segundo escalão’. Dilma encontrou com integrantes de movimentos negros e grupos de congado em Minas Gerais e durante entrevista sobre propostas de combate à desigualdade entre negros e brancos disse: “Eu tenho muitos negros no segundo escalão. E acho que isso reflete também o fato, por isso é muito importante a lei de cotas nas universidades. Nós temos de formar pessoas negras para ocuparem os postos mais altos desse país. Temos de fazer isso”, declarou. Juro que prefiro não comentar.

E essas foram as percepções de apenas UMA semana…

Racismo não se tolera, não se empurra pra debaixo do tapete nem se justifica. Racismo se combate. A começar ficando alerta com nossas próprias atitudes.

(*) percepção do Gilson que compartilhou em casa comigo e eu chupei pro meu texto.

Da Fantasia

Ela enterra o rosto no travesseiro e pronuncia, tomando cuidado para não produzir nenhum som:

 - (…) *

Não é ele que está ali. Enfiando o pênis com enorme vontade sua vagina adentro.

Olha para trás. Pela expressão de prazer do outro, de fato, não produziu nenhum som. De qualquer forma, ela está de quatro, alguns gemidos esparsos. Seria preciso muito para desconcentrá-lo do seu próprio esforço de chegar ao gozo. Arriscou então um sussurro, ainda junto ao travesseiro:

- (…)

Olhou pra trás novamente. Não, ele não ouviu. Pode então, levar os dedos ao clitóris, movimentá-los com algum vigor e gozar. Enquanto os espasmos aconteciam, repetia o nome mentalmente repetidas vezes. Se concentrava para visualizar aqueles olhos. Pra se lembrar a cor morena exata da pele. Pensava nos nós dos dedos das mãos. Minutos depois, insone, enquanto o homem ao seu lado ressonava, se perguntou: como diabos eu vim parar aqui?

Ele era um amigo. Só um amigo. Bonito. Atraente. Mas um amigo. Só um amigo. E nem tão amigo. Amigo de trabalho. Viam-se uma vez por dia. Ocasionalmente um abraço. Conversavam fatos do mundo e da vida. Confidências poucas. Algumas piadas que possibilitavam outro sentido, porque era do feitio dele. Quando, certa feita: BOOM. Ela se viu pensando mais. Esperando que ele chegasse. Insistindo nos abraços. E imaginando que fosse ele a estar enfiando o pênis com resoluta vontade sua vagina adentro. Olhando-a com aqueles olhos de comer e estraçalhar, enquanto ela estivesse de joelhos, sugando seu pênis com dedicação. Dizendo-a com aquela voz tão suave, quase como que produzida dentro de campos de algodão, o quanto sua bunda era grande, seus peitos eram belos, sua buceta era molhada. – a este ponto, já falariam em bucetas e paus, e no prazer de todo o resto.

Começariam a conversar algum dia. Uma coisa levando a outra, ele contaria que sempre que a via sentada, com as costas eretas, na cadeira do escritório, imaginava-a nua, sentada sobre ele. Ela diria que todas as vezes, nos abraços, quando ele levava a mão à sua nunca, imaginava-o puxando-a pelos cabelos, direcionando sua boca para beijar-lhe todo o corpo. Ela confessaria que tremeu de tesão naquele dia em que desceram as escadas juntos e sozinhos. Ele, que o batom vermelho dela o botava louco.

Esperariam, então, que todos os outros se fossem. Inventariam que o compromisso atrasou-se e não poderia ser deixado para o outro dia. Encaminhariam-se, já se beijando, sem nada dizer, para dentro do banheiro e foderiam ali, de pé, roupas postas, com pressa e sofreguidão. Encostados à pia, o espelho apenas a testemunhar o desejo. O pau ereto arranharia as mucosas, na falta de preliminares apropriadas. Mas, uma vez inteiro dentro, os líquidos desceriam abundantes e o movimento tornaria-se fácil. Ele agarraria os peitos dela ainda sob blusa e seguiria metendo-se com determinação e força. Gozaria. Ela não faria questão. Queria sair de lá levando a expectativa consigo. Queria permanecer sentindo a circulação pulsar. Como um “quase” físico. Como uma esperança de que mais haveria. Apaixonariam-se.

E então, ela notou que a esse ponto, não era mais da vagina que a fantasia fluía. Mas daquele lugar sabe Deus onde fica, de onde a gente espera demais da vida, quando lá está. Fechou este livro então aberto e depois os olhos. Adormeceu. Sonhou com ele, mas não lembrou detalhes. No outro dia, pegou-se pensando no quão clichê, para os outros, seria: reivindicar-se a vida toda tão biscate e tornar-se infiel.

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