Abuso não será discurso

Foto de Miroslav Tichy

Foto de Miroslav Tichy

E foi noite dessas, num restaurante com meus dois filhos, que entabulei uma conversa simpática com uma mulher (porque tudo foi dito na simpatia e no bom humor) que acabou me derrubando ao final: “você só tem meninos, né? Eu também. Três meninos. E ainda quero adotar mais um…”

“Outro menino?”, perguntei, educada.

“Ah, sim. Menina dá muito trabalho. Vejo por aquelas que aparecem batendo no meu portão…” E, se virando para o meu filho de 13 anos, completou: “Por isso, abusa, viu?! Abusa mesmo das meninas porque tá sobrando!”

Nada disse. Saímos de lá, conversei rapidamente com o Mateus sobre o ocorrido, mas, só pensava mesmo naquilo que continua latente, na base de tantos discursos e atos de violência contra mulher que sabemos, presenciamos e vivemos.

Por favor, eu pensei, que venham tempos que meninas não sejam consideradas um fardo. Que os estereótipos de gênero que fundamentam as proibições sobre elas e as permissões a eles caiam.

Que meninas possam buscar amigos, namorados ou flertes sem que isso legitime abuso. Que elas possam fazer isso sem constrangimento, com segurança e bom humor e que sejam recebidas com respeito.

Que a palavra abuso não seja trivializada numa anedota debochada. Que eu sequer precise explicar ao meu filho que a gente não abusa das pessoas, em hipótese alguma, porque essa possibilidade sequer será considerada. Não será parte de um conselho.

Porque ninguém mais será educado a acreditar que algumas pessoas merecem.

Nunca.

Claire Underwood, a política e o feminino

Por Andréa Moraes*, Biscate Convidada

Atenção: spoiler da terceira temporada.

 

Esse texto é pra quem acompanha a série “House of Cards”, exibida pela Netflix. Quem não conhece, talvez já tenha visto memes do seriado compartilhados no facebook. No Brasil, o personagem central de “House of Cards”, Frank Underwood (Kevin Spacey, magnífico), já foi comparado ao Deputado Eduardo Cunha por suas manipulações, mentiras e estilo autoritário de fazer política. Sucesso de audiência, a série apresenta as disputas no interior da máquina política do Estado norte americano, ao mesmo tempo em que reflete sobre dilemas experimentados pelos personagens. Na minha interpretação, a série é uma versão da obra “O Príncipe”, de Maquiavel, adaptada ao universo da política bipartidária dos Estados Unidos da América. Um monte de gente é fã de carteirinha. Fiquei absolutamente viciada, confesso, e agora aguardo ansiosa a estréia da quarta temporada que será lançada no ano que vem.

Na série, a atriz Robin Wright interpreta Claire Underwood, esposa do congressista democrata Frank J. Underwood. O trabalho dela é sensacional e a atriz já ganhou alguns prêmios por sua atuação. Claire é uma personagem complexa. Encarna simultaneamente o ideal da mulher dedicada ao marido e da autonomia feminina. Claire é previsível e surpreendente ao mesmo tempo. Até a segunda temporada da série, o casal está em sintonia na busca por um projeto de poder que inclui em seu horizonte, a chegada a Presidência dos Estados Unidos da América.  Claire é uma parceira ativa nesse projeto, embora mostre hesitações em diferentes momentos, ela conduz ao lado do marido estratégias nem sempre bem sucedidas e absolutamente inescrupulosas de aproximação do objetivo principal: a posse do salão oval. Nesse caminho, Claire defronta-se com outras imagens femininas: a jovem jornalista carreirista, a idealista e competente ambientalista, a primeira dama dos EUA e passa por cima delas usando todos os clichês que a idéia de sororidade inventou. Claire não tem nenhuma empatia por essas mulheres, mas usa uma suposta aliança feminina para, num último golpe, derrotá-las. Algumas vezes com ódio e outras com alguma dose de remorso.

Outras mulheres são marcantes na série: a candidata oponente de Frank, Heather Dunbar e a congressista, supostamente aliada, Jackie Sharp, uma ex-combatente do exército americano. Mas, elas, diferente de Claire Underwood, mostram poucas ambigüidades e nuances. Claire é o retrato da angústia: forte e corrompida por sua própria força. Pragmática e instintiva, dúbia e decidida.

  Uma vez atingido o alvo – Frank Underwood chega à Presidência coordenando, ao lado de Claire, uma estratégia de deposição do Presidente em exercício – o problema “maquiavélico” clássico se coloca: como manter o poder? Como permanecer no salão oval? É a partir daí que Claire se coloca como uma protagonista da série. Uma versão atormentada do Príncipe de Maquiavel.

 Claire sabe que poderia ser ela a Presidente, sabe que pode almejar esse posto até mais do que o marido. Ela não duvida da sua capacidade, mas fez um acordo e alguns sacrifícios pessoais ao longo da vida para construir a figura de Frank como o potencial Presidente. Ela aceitou doar uma parte de si para fazer esse homem e agora Claire quer de volta o que emprestou a ele. O mito de Adão e Eva é invertido: Frank é que foi feito a partir da costela de Claire e Claire agora coloca em questão a sua obra.  Enquanto a Presidência era só um sonho, os dois podiam encenar um jogo simétrico de poder entre eles. Mas, agora que o sonho torna-se possível, a assimetria estabelece-se e Claire se vê num lugar de coadjuvante quando poderia ser a principal. E, de fato, ela só não é a principal porque é mulher.

A forma como Claire vai se dando conta da “verdade óbvia”, da verdade do seu sexo, é representada pela atriz com sutileza e sofrimento profundo. Em uma das cenas finais da terceira temporada, após uma discussão brutal com o marido, Claire é chamada na porta de seu quarto por um funcionário, ela deve embarcar em uma viagem com Frank Underwood. A câmera mostra a face da atriz virando-se para a porta do quarto para dizer que “já está descendo”, mas podemos ver nos seus olhos que ali está uma pessoa devastada, ali está outra Claire. Ali está uma mulher que se deu conta dos seus limites. Resta saber como Claire Underwood vai virar esse jogo.

O espaço das mulheres na política institucional sempre foi marcado pelo gênero. Nunca se fala do lugar do homem na política porque esse lugar é naturalizado para eles. As mulheres arregimentam um arsenal para poder se livrar da marcação de seu sexo e assim ascender na escala do poder político. Claire Underwood faz um caminho até agora peculiar: ela chega ao poder ao lado de um homem, como esposa e, ao mesmo tempo, constitui-se em potencial adversária. Claire Underwood é a única que pode vencer Frank Underwood. Ela não se fez como herdeira política do marido (ou do pai), o que é uma das poucas maneiras pelas quais mulheres se fazem na política. Vamos lembrar a viúva poderosa, Evita Peron, por exemplo. Não, Claire não é Evita. Mas, também não é Margaret Thatcher. Thatcher seria o caso extremo da anulação da representação do feminino na política. Claire parece mesmo estar mais próxima de Hillary Clinton do que de qualquer outra mulher que tenha alcançado poder político institucional. O mito Hillary da esposa companheira e, ao mesmo tempo, uma aliada política que tem vôo próprio. Claire pode chegar lá porque ela inventou um marido presidente. Nesse sentido, “House of Cards” é uma série sobre o teatro do poder político; um teatro em que a mulher “coadjuvante” pode se tornar central, mesmo que para isso, tenha que primeiro viver todas as vicissitudes de seu sexo.

AndreaBiscate*Andrea Moraes[@M5Andrea] é carioca, pisciana, tem 43 anos, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

As vilãs e o sexo nas novelas

As novelas têm perdido audiência, a tv aberta têm perdido audiência, e a cada estréia de um novo produto e a cada queda do IBOPE os mandachuvas correm em busca de novos culpados em busca da audiência perdida. Pode ser o casal homoafetivo da vez, pode ser o vocábulo ateu,  pode ser a moça que não vai ser mais prostituta mas sim amante  e pode ser a vilã ninfomaníaca

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Peraí. Ninfomaníaca? Ahhh transou com mais de 3 já é ninfomaníaca. Bem, não é bem assim. O apetite sexual excessivo, hipersexualidade, desejo sexual hiperativo (DSH), ou ninfomania (em mulheres) e satiríase (em homens) é um transtorno sexual caracterizado por um nível elevado de desejo e atividade sexual a ponto de causar prejuízos na vida da pessoa. Trata-se de um tipo de vício com sintomas compulsivos, obsessivos e impulsivos, e seu tratamento é similar ao de outros tipos de dependências. Ou seja, é preciso que cause sofrimento e transtorno na vida da pessoa e não prazer.

Pois bem, Beatriz tava lá feliz,  de boas, transando com um carinhas aqui e acolá e me parece que o fetiche dela tá mais para mandar, poder, e o perigo de ser flagrada. Quem nunca, né? Fetiche, cada um com o seu. Mas aí a Dona de casa, de acordo com sei lá que  grupo de pesquisa, resolveu que Beatriz é ninfomaníaca. Já patologizaram a moça.

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Mas sexo em novela, e na tv em geral, nunca é uma coisa bem resolvida, sempre vem com um caminhão do tipo fenemê de culpa junto. Notem que as mocinhas sempre são virginais, só amam e transam, por amor, com um só mocinho, e ai delas se fizerem isso com mais de um ou por puro prazer. Castigos terríveis surgirão, separações, gravidezes indesejadas e por aí vai.  Basta ver a Márcia na reprise de o Dono do Mundo que foi dar pro homem errado e teve o posto de protagonista roubado pela prostituta arrependida da Taís (prostituta se for arrependida, pode, deve ter algo a ver com Maria Madalena, mas tem que sempre sofrer, por óbvio).

Já as vilãs, ahhh essas são terríveis! Elas são sensuais, adoram sexo. Com mais de um, se puderem.  Gostar de sexo pra vilã mulher está associado com, veja bem, vilania. E pagam  muito por gostarem de sexo as pobres. Bastante. Se não forem vilãs o máximo que pode acontecer é que a personagem fogosa é o alívio cômico da trama, tipo Tina Pepper ou Tancinha, e sempre quase pega os caras, mas nunca chega aos finalmentes, como diria madrinha noveleira,  porque na verdade só tem um grande amor e tal.

Já vilão homem gostar de sexo faz parte mas não é castigado, é bacana, é sexy sem ser vulgar. Nem o personagem engraçadinho que trai a mulher,  nem o que tem 2, 3 famílias  e por aí vai. Lembrem-se de Cadinho, Seu Quequé , Laerte e Laerte2, o retorno (ops, desculpa, Luís Fernando).

Na verdade nossas tv parece moderninha mas continua nos anos 50. Que o diga Fátima Bernardes e seu encontro matinal com a máquina do tempo.  Espero que no próximo aniversário de 50 anos da emissora minhas netas  ou netos possam assistir mulheres que transam e não são chamadas de ninfomaníacas, ou até lá a globo faliu e o Netflix ou outros dominam. Sonhar nunca é demais.

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Das Brechas

Por Camila Pavanelli, Biscate Convidada

Marie Calvert teve cerca de três mil parceiros sexuais ao longo da vida (leia mais aqui: Experience: I’ve slept with 3,000 men).

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Aos 28 anos, ela e o marido começaram a praticar suingue e não pararam mais, tendo inclusive aberto sua própria casa de suingue na Inglaterra anos depois. O relato de Marie é uma linda celebração da paixão pelo sexo e vale a pena ser lido.

Ocorre que Marie, que agora tem 63 anos, diz o seguinte ao fim do texto:

Não sou o tipo de pessoa que vai se vestir como uma mulher com metade da sua idade só para chamar a atenção.”

(Que é quase como dizer “Faço bastante sexo mas me dou ao respeito, não sou uma qualquer.”)

No que eu faço algumas considerações:

1) E se uma mulher se veste de forma sexy & vulgar – seja porque tem a intenção declarada de “chamar a atenção” (eufemismo para despertar o desejo alheio) ou por qualquer outro motivo – o que catso o resto da humanidade tem a ver com isso?

2) Não tendo o resto da humanidade nada a ver com isso, que diferença faz se a mulher em questão tem 18 ou 98 anos? Aos 18 anos tá permitido ser sexy e vulgar, aos 98 não pode mais? Quem disse? Quem decide? Qual é a lógica e qual é o limite? Até os 59 tá OK usar minissaia e decotão, aos 60 você recebe pelo correio uma carteirinha de sócia do Clube das Vovós e fica proibida de se vestir como quiser?

3) Nem todo o sexo do mundo é capaz de domar o ímpeto de controlar a sexualidade alheia – especialmente, é claro, a sexualidade feminina.

4) Por outro lado, não deixa de ser libertador constatar que, se essa pessoa super liberada que transou com mais pessoas do que eu tenho de amigos no Facebook não está livre de fazer um comentário machista, não sou eu que vou estar. É da vida. Não é o fim do mundo. É contornável. Ao se perceber falando bobagem, basta fazer piada de si mesmo – e pedir desculpas, quando for o caso.

541411_10200997937499241_1209699544_n-290x290*Camila Pavanelli é daquelas. Daquelas que sabe rir, muitas vezes de si mesma. Daquelas, marota, que nos faz rir também. E pensar. Daquelas que faz biscoito em casa – e de gatinho! – porque sabe que a vida dói, mas isso não deve nos impedir a ternura e o bom. Daquelas que recorda, repete e elabora no seu blog (aqui). Ah, claro, não se pode esquecer… Camila é daquelas: gente de humanas.

Preliminares

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Há sempre muita conversa sobre a importância das preliminares, a forma das preliminares, a duração e natureza das preliminares. Para falar a verdade, se você olhar com cuidado, ninguém sabe mesmo como devem ser preliminares.

Preliminar é aquele jogo antes do jogo principal, em geral um sub-20 meio mambembe para distrair quem chegou cedo no estádio, um jogo de meninos em um campeonato que ninguém sabe direito se é o estadual, se é o nacional ou se nem é nada disso, se é só um amistoso extemporâneo. Perá lá, o telefone…

- Alô? Oi, Silvia!
- Cara, esquece o futebol, você esté escrevendo no Biscate, futebol é no outro site. Aqui é ripa na chulipa e pimba na gorduchinha, para de enrolar!
- Mas estava construindo a metáfora…
- Apaporra, Paulo, metáfora de futebol com sexo já tinha cansado minha mãe, lá na época que o Pelé jogava futebol em vez de falar bobagem!
- Tá, tá, eu paro…

Como eu ia dizendo, preliminar vem do latim limens, limite. “pre”, todo mundo sabe, é antes. Antes do limite, mas que limite? Ora, ainda gastando o latim, num antigo manual de sexo atribuído a Cícero, o grande orador romano escreve: “Ante coitum pre limens sed”, implicando que as preliminares são tudo o que vem antes da penetração. Telefone de novo, segura aí…

- Oi, Rê!
- Latim, Paulo? Latim??
- Ah, eu estava só me divertindo…
- Mas onde o Cícero escreveu essa porra?
- Em lugar nenhum, né? Eu inventei tudo, até a frase. Mas preliminar vem de pre limens mesmo.
- E limens é onde está a paciência da leitora..
- Quantas editoras tem esse site, afinal?
- Quantas forem necessárias para fazer você parar de enrolar e ir direto ao ponto.
- Ou pelo menos ir bem indiretamente ao ponto, para deixar crescer a tensão, né?
- Mas lembra da paciência no limens, rapaz.
- Lembro sim.

A verdadeira natureza das preliminares é alvo de algum debate. Os americanos, que gostam de definições precisas e objetos mensuráveis, costumam situar o início das preliminares de forma um tanto exata no momento em que os parceiros começam a se tocar, mesmo ainda completamente vestidos.

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 A ação propriamente dita envolve beijos na boca, abraços, mãos passando pelos corpos, apertões, chupões no pescoço, beijos pelos corpos (quando a roupa começa a sair), mãos roçando bucetas e pirocas. Hmm. Deixa eu perguntar uma coisa aqui…

- Oi Paulo, tudo bom?
- Oi, Lu! Eu estou com uma dúvida. Aqui pode piroca?
- Por que não poderia?
- Sei lá, outro dia deu um problemão lá num grupo de novela…
- Você vê novela?
- Não, mas adoro o grupo de novela. E daí teve uma piroca e um moço ficou muito ofendido.
- Com a piroca?
- Com a palavra.
- Ah. Mas pode. Pode piroca, pode buceta, pode cu, pode o caralho a quatro. Parece que você nem lê o que eu escrevo.
- Era só para confirmar. Vai que está rolando alguma interdição da piroca e eu não sei.
- Pode tudo. Mas um aviso: não use diminutivos. Se você falar em xoxotinha, piupiuzinho e coisas assim, a gente vai rir de você daqui até o fim dos tempos.
- Tá, não se preocupe.

O Consenso de Las Vegas, a lendária reunião dos principais sexólogos americanos ocorrida em meados de 1995, determinou que as preliminares terminam no momento em que o órgão de um dos parceiros é tocado.

Na verdade, o Consenso de Las Vegas determinou um monte de outras coisas, como a ordem em que as partes do corpo devem ser estimuladas, a duração destes estímulos, as variações aceitáveis dependendo do sexo e da orientação sexual de cada um dos parceiros, etc. Se é verdade que as determinações de Las Vegas fizeram um estrondoso sucesso nas redações de revistas femininas e masculinas por todo o Ocidente, se tornando a base de 99% dos artigos sobre sexo publicados desde então, a reação do resto do mundo não foi menos feroz.

Já em 97, um artigo coletivo de um grupo de sexólogos, antropólogos, anarquistas latino-americano denunciava o Consenso como “a base do neo-liberalismo sexual” e “uma bobagem sem tamanho”. Um ano depois, a nota final do Congresso Pan-Europeu de Sexologia criticava o Consenso sem meias palavras. “La merde réductionniste américain”, era o título da nota, cujo tom e vocabulário causou certo espanto na época.

A polêmica sobre a natureza real das preliminares se arrastou por toda primeira década deste século. Com o reducionismo empiricista do Consenso desacreditado, restou-nos tentar uma visão mais abrangente, menos presa a dogmas e a fenômenos diretamente mensuráveis, ainda que talvez menos precisa e mais genérica.

Quando começam as preliminares? Ora, talvez elas comecem no instante em que os parceiros decidem que vai ter sexo. Pode ser um olhar, pode ser um leve toque, pode ser um beijo. Mas também pode ser uma calcinha descendo, um vestido subindo, um zíper se abrindo urgente. Mas talvez elas comecem antes, um roçar de pernas sob a mesa, um dedo subindo distraído pelas costas, uma mordida despretensiosa na orelha. Numa mensagem de texto, num inbox de Facebook.

Quando elas terminam? É uma pergunta difícil. Claro, todo mundo concorda que quando ocorre uma penetração as já preliminares terminaram. Mas quando elas terminaram exatamente? O orgasmo não é parâmetro, pode acontecer a qualquer tempo. O toque em um órgão genital, como queriam os americanos, é um parâmetro insuficiente e claramente errado – a brincadeira pode ir e voltar dos ditos órgãos por um longo tempo. Pior ainda, dissemos ali que quando há penetração, as preliminares terminaram. Mas e se não houver penetração? Quem disse que sexo envolve necessariamente e sempre a penetração? Se alguém chupar o outro até os confins do êxtase, sem penetração, não é sexo? E se alguém se deixar amarrar e vendar e bater e quase morra de gozar no processo, não é sexo? E duas mulheres perdidas com as línguas no outro clitóris, estão fazendo o que, senão sexo?

Um pergunta de outra ordem talvez ajude. Qual a função das preliminares? Excitar-se, excitar o outro? Deixar paus duros e bucetas molhadas, prontos para a ação principal? Divertir os parceiros? Ver quem aguenta mais tempo sem gozar? Tudo isso junto?

As preliminares talvez terminem quando a atenção do jogo se foca decisivamente no orgasmo de um, de outro ou dos dois. A tensão já subiu até o limite (o limite, lembra?) e agora muda natureza da dança. Claro, isso não diz nada sobre duração. Pode durar os cinco ou dez segundos necessários para abrir o zíper e afastar a calcinha. Pode durar horas. Pode até ter por objetivo não deixar o outro gozar.

Mas ainda cabe aqui um epílogo mais antropofágico, por assim dizer. Uma outra forma de ver a natureza mesma do sexo, uma forma menos compartimentada, mais afastada das receitas fáceis das revista femininas. Porque para alguns de nós, parafrasendo Paul Veyne, as preliminares não são uma ciência e não tem muito a esperar das ciências; elas não se explicam e não tem método; melhor ainda, as preliminares, das quais muito se tem falado nesses dois últimos séculos, não existem.

 Ah, claro, o telefone. Como não ia tocar…

- Oi de novo, Rê
- Paulo, meu filho, ninguém tem nem ideia de quem é Paul Veyne…
- Mas povo não lê mais “Como se faz a História” no primeiro ano da faculdade?
- Temo que não.
- Lá quando a gente fez faculdade acho que só os engenheiros escapavam. O quê eles leem agora?
- Vai saber. Acho que alguma apostila ou outra bobagem assim. Com certeza não leem historiadores franceses amigos do Foucault.
- Bem, Biscate também é cultura, quem sabe alguém se anima a ler…
- Você é que sabe…

Por que eu digo isso? Por que eu acho que posso dizer isso? Não estava claro para todo mundo que as preliminares tem função, começo e fim? Pois então. Estava claro que algumas pessoas querem que as preliminares tenham função, começo, meio e fim. Método, técnica e sentido. Se possível, que sejam mensuráveis e que se possa dar nota aos participantes. Mas e se não? E se todo o objetivo do jogo fosse jogar, sem ponto de partida ou porto de chegada?

 O caso aqui é por em dúvida alguns dogmas. O primeiro é a centralidade do orgasmo. Toda a visão de que existem preliminares se baseia na visão anterior, de que o auge e o fim do sexo é o orgasmo. Mas se você toma o orgasmo como passagem e não como ponto de chegada, você muda todo o paradigma. Porque aí você precisa questionar o outro dogma, do sexo como algo separado da vida e delimitado por momentos, ambientes e regras. Algo com método e técnica. Algo além de uma narrativa.

 Pense numa paisagem. Nessa paisagem existem lagos, rios, talvez um braço de mar por vezes calmo, por vezes bravio. Tem montes, montanhas, vulcões. Tem bosques, campos, florestas. Talvez tenha até geleiras e pântanos. E ligando cada acidente desses, caminhos: vias expressas, trilhas difíceis, caminhos batidos e caminhos perdidos, estradas de terra, de asfalto, de tijolos amarelos. Cada acidente um orgasmo, cada caminho um jeito de chegar lá. Mas os caminhos não começam nem terminam  nos acidentes, nem os acidentes estão lá para serem necesariamente alcançados. Por vezes os caminhantes querem apenas andar a esmo. Olhar de longe a montanha, contemplar as ondas quebrando.

Se vida e sexo são um só, a distinção entre preliminares e sexo em si perde qualquer razão de existir. Você até pode tentar manter a diferença, mas vai acabar com um conceito circular – as preliminares começam exatamente quando termina o “sexo”, atravessam aquilo que os manuais chamam de “pós-sexo” e vão terminar lá no próximo “sexo”. No fim, um conceito que não serve para nada. Porque o sexo existe, pode existir, o tempo todo. Qualquer gesto, qualquer olhar, qualquer toque, pode desencadear a escalada do vulcão, o banho no lago ou a corrida pelo campo florido. Basta uma mudança na direção do olhar. Basta encarar a vida como uma imersão contínua e eterna num oceano de sexo sem fim.

Claro, todo mundo precisa dormir, trabalhar, comer e ir ao supermercado. Mas quem disse que cada uma dessas atividades não são parte da vida e, portanto, da vida enquanto sexo?

Não estou sugerindo que você saia agarrando sua chefe, a caixa do supermercado, o garçom do quilo. Você até pode fazer isso, se eles quiserem e vocês combinarem de orientação, mas não é essa a ideia aqui. A ideia aqui é que qualquer momento pode e deve ser aproveitado para se mover na paisagem dos orgasmos – basta prestar atenção aos sinais que você manda e recebe. Basta encontrar outro alguém tenha ânimo para fazer da vida não uma sequência de orgasmos, mas um contínuo de sexo, que ocupa todo no tempo e desfaz as fronteira do espaço.

Porque dormir também é dormir juntos sem roupas, comer também é cozinhar e alimentar alguém, e não preciso nem dizer como isso pode ser sexual, trabalhar também é pensar continuamente em cenas explícitas enquanto a reunião se arrasta ali fora, imaginar mil jeitos de sair dali e ir andar até um acidente orgásmico ou simplesmente mandar uma flor, uma língua ou uma boca vermelha no whatsup.

E tudo retorna a uma nova caminhada em direção ao mesmo ou a outro, um novo encontro com o mesmo ou com outro, uma nova visita ao pântano, uma um novo passeio pela estrada dourada, um novo mergulho no vazio…

PauloCandido* Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Nem Tão Silenciosa Assim

Porque nos reencontramos, reencontrei o desejo que eu já nem sabia. Você falava e eu quis, como na canção, rodar as horas pra trás e ficar no tempo em que eu vadiava em seu dizer. Mais: em que seu dizer vadiava em meu corpo. E não só ele. Voltar a uma tarde que não ficara, em mim, tão silenciosa como eu imaginava.

Trouxe o desejo pra casa, comigo. Como quem sabe o bom, esperei deitar-me pra sentir o querer inteiro. Queria sim. Queria assim. Queria, outra vez, essa risada que me distrai, assim, pertinho, ao pé do ouvido. Fazer reais, úmidos e curiosos os beijos educados que se espalham nas palavras que trocamos. Sem nenhum talvez, confesso: queria renovar o estoque de vinho. Queria voltar a saber mãos, pele, olho. Língua, queria sabê-la. Queria aquela força com que me colocaste de bruços no sofá. A mordida, queria. Queria que você sentisse agora, como eu sentia – mesmo ali, naquele espaço tão cheio de gentes e assuntos outros – que as roupas nos atrapalhavam, como sentimos antes. Queria o dedo duro molhando-se na minha cona. Queria os apelidos engraçados que no esfregar das peles se fizeram tesão. Queria ter a boca ocupada de você. Queria outra vez aquele choque de te ter percorrendo sem dúvida o que eu nem pensava que viesses a demandar. Queria aquela dor que gozei, cada vez mais e cada vez melhor. Queria o peito molhado da tua agonia quase riso. Queria o sem jeito do depois. Os olhos enevoados. O sutiã na maçaneta da porta. O telefonema antecipado. O adeus apressado. O banho corrido. E a rua, aquela esquina e tanta vida que seria.

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Sobre ser gorda e ser livre

Por Bruna Giorjiani de Arruda*, Biscate Convidada

Durante grande parte de minha vida, acreditei que chegaria o dia em que eu, finalmente responsável e esforçada, abandonaria minha “falta de vergonha na cara” e emagreceria. Achei que haveria de chegar o dia em que, de fato, eu mostraria meu valor para a sociedade e conseguiria atingir o ponto máximo da vitória, a conquista de um corpo esbelto.

Lembro-me, de maneira clara, as inúmeras vezes que, frustrada com a imagem do espelho, convencia-me de que aquilo acabaria e, na próxima segunda, eu começaria o caminho de uma vida melhor. A crença no amanhã perfeito me roubou risos, me roubou a autoestima e manteve-me presa na esperança de que, se somente os magros são felizes, em breve, eu seria também.

Acreditava que todos os meus problemas eram fruto direto de minha gordura e que, quando triunfasse, nunca mais teria motivos para chorar. Relacionamentos, roupas, espelhos, comidas, sorrisos, amor próprio confinados em algum canto obscuro dentro de minha mente, enquanto o que assumia o controle de meus pensamentos era a minha constante falha enquanto ser humano, a de ser gorda.

Demorou muito tempo para que eu, de fato, sentisse a libertação de todo estigma social que rondou a minha existência desde sempre. Nasci e cresci gorda. Em algumas épocas mais; outras, menos, mas sempre gorda. Descartada do conceito de “normalidade” corporal, demorou muito para que eu encaixasse o tamanho do meu corpo no tamanho da delícia de viver.

Meu processo de libertação teve início quando entrei em contato profundo com o feminismo. Foi difícil compreender que os padrões estéticos, estes que meus próprios olhos diziam ser perfeitos, eram, na realidade, uma manipulação da escolha sobre o “ser belo”. Entender a trajetória do corpo feminino e como, em tempos distintos, fomos tratadas apenas como adorno, enfeite, objeto de deleite masculino, fez grande diferença na compreensão do fato de que os padrões nada mais são do que grades que condicionam as mulheres em um viver passivo, sem ação e sem sentido. Enquanto nos preocupamos em sermos lindas e desejáveis (dentro dos moldes escolhidos pelos homens), perdemos nossa capacidade de entender o que nos é desejável e o que achamos realmente lindo na vida.

O corpo que eu, durante tanto tempo, neguei é o corpo que entendo hoje como meu templo de prazeres. Ele é gordo, mas sente; ele é gordo, mas goza. O sabor da liberdade, de ser sem prestar contas, de mostrar sem se constranger e de sentir sem medo de ser ridicularizada é palatável. É com base na liberdade que alcancei que me nego a viver em dietas ou fazendo exercícios intermináveis. É dessa liberdade, também, que emana minha ânsia pela vida e o desejo da saúde. Meu corpo é minha escolha. Ele não foi feito para o prazer do outro, ele foi feito para a minha satisfação. Não sou produto, não sou objeto e o sucesso que tanto desejava foi alcançado. Amo minha profissão, meu companheiro, minha família. Amo minhas gatas e, acima de tudo, amo meu corpo. Em mim, a sociedade, de fato, falhou. Falhou no projeto de me fazer infeliz e frustrada, falhou no projeto de submeter mais uma mulher aos anseios masculinos. Sou de fato, um erro, uma falha e, por isso, sigo feliz.

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11156222_10200533571418304_7454700366930713511_n* Bruna Giorjiani de Arruda é formada em ciências sociais, pós graduada em sociologia política e ensino de sociologia. Residente em São José do Rio Preto, professora da rede pública e privado e do ensino superior. Militante feminista e comunista, destaca dentro de sua militância a luta anti-gordofobia.

Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

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Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

 caetanoveloso

Das pessoas que passam pela nossa vida

Não acredito que nada seja perene, pra sempre ou eterno… talvez nem enquanto dure (desculpa, Vinícius). E assim também não é com as pessoas. Elas passam… no mínimo, todo mundo vai morrer um dia, inclusive nós mesmos. O mais importante, acho, é contudo o que eles deixam na nossa vida.

Paula Rego Flying Children

Paula Rego – Crianças Voando

Experiências, boas ou más. Experiências, dóceis ou abruptas; contínuas, interrompidas, frequentes. Experiências… sim, elas deixam experiências. Cada pessoa que passa em nossa vida, por mais singular que seja, as vezes quase imperceptível, as vezes como um turbilhão e as vezes como mar calmo em dia de muito vento, são experiências a serem aproveitadas, conhecidas, reconhecidas e elaboradas.

Boas ou más, experiências são oportunidade de autoconhecimento. Nada automático, tampouco cartesiano… não há uma relação binária ou mesmo linear entre uma experiência e um aprendizado, muito menos há uma relação temporal, mas o conhecimento de si vem… se vem!

E é bom… conhecer(se) é bom, a gente gosta e goza! E pra quem é biscate, quanto mais gente, melhor! Porque mais gente é mais oportunidade e gente é outra alegria!

São dessas coisas a vida… deixar as pessoas passarem… permitir, sobretudo, que elas permaneçam, pelo tempo que quiserem, como quiserem, enquanto for bom pra gente também. É sempre um também… vida sem também é uma vida sem experiências, é uma vida em que o conhecer-se não se resolve.

Como como diria o poeta, passar por essa vida é se dar, é chorar, é amar, é sofrer, porque, por incrível que possa parecer, esse é um dos caminhos de satisfação, de ser feliz… se sofrer, na vida, é um compasso de autoconhecimento, sofrer é também um passo de sublimação, de epifania… sofrer é parte do processo de amar, de se amar… Porque passar por pessoas, viver pessoas e se conhecer com essas pessoas é um ato de se amar…

Teatro do Oprimido na Maré

Por Felipe LSM*, Biscate Convidado

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Domingo,  29 de março, aconteceu a primeira Mostra do Teatro do Oprimido na Maré.

A apresentação, divulgada como ensaio aberto*, envolvia três grupos de  jovens, cada um trazendo conflitos do dia-a-dia problematizados em forma de peça:  A garota que queria jogar futebol e o pai não deixava, o garoto que queria fazer teatro e não trabalhar na oficina, o pai que abandonava a família e voltava como se nada houvesse acontecido… Algumas das histórias passavam mesmo a impressão de clichês.

Até você se dar conta de que eram cenas baseadas nas experiências e vivências das pessoas ali. Até você se dar conta de que os clichês vêm de algum lugar. O que torna a cena mais pesada da mostra – uma situação em que o pai abusa sexualmente da filha, que não consegue contar para os amigos e não recebe apoio da mãe – ainda mais assustadora.

E aí você pensa um pouco mais e percebe que quase todos os problemas apresentados se reduzem a um: machismo. Só consigo pensar em uma história dentro da apresentação (que envolvia um garoto discriminado no trabalho por morar na Maré) cujo problema não estava ligado a machismo e papéis de gênero.

Em TODAS as peças, se encontrava uma família na seguinte estrutura:

O Pai: sempre o chefe da família e tomador decisões. O Pai fazia o papel de antagonista e opressor.

A Mãe parecia estar sempre resignada à sua condição de oprimida e, apesar de em geral concordar com a filha, dificilmente tinha forças ou vontade para se opor ao Pai. Mesmo trabalhando fora, recaíam sobre a mãe todas as tarefas da casa, e a cena típica (que apareceu várias vezes) mostrava a mãe fazendo o jantar e servindo o marido, que além de não ajudar, só reclamava).

A Filha: geralmente o centro do problema em questão, A Filha era a oprimida que de fato tentava lutar contra a opressão do Pai. Às vezes recebia o apoio da Mãe, mas nunca de forma muito enfática. Em uma das histórias, havia um filho nesse papel, com uma questão que envolvia fazer uma atividade que não era “de macho” (teatro), com a qual o pai (claro) não concordava.

Algumas das famílias incluíam uma irmã, um irmão, uma tia, mas – independente de estarem ou não no papel de oprimido – esses personagens não pareciam interessados em questionar o patriarcado.

Analisando esses arquétipos das personagens, talvez seja interessante lembrar que as peças foram concebidas por grupos de teatro jovens, e retratam vivências do seu cotidiano.

Como acontece tradicionalmente no teatro do oprimido, as situações nunca chegavam a uma resolução e, ao final de cada apresentação, as pessoas da plateia eram encorajadas a tomar o lugar de uma das personagens numa cena e buscar resolver o conflito apresentado. Havia alguma variação nas soluções: umas mais sérias e argumentativas, outras mais engraçadas e impulsivas. Dependendo da cena, das abordagens e dos atores participando do improviso, algumas funcionavam melhor do que outras. Na primeira intervenção, um garoto assumiu o lugar da mãe e expulsou o pai ausente de casa sob ovação da plateia. Aliás, em todas as cenas, havia meninos fazendo papel de meninas, meninas fazendo papel de meninos.

Maré2

Mas, no final de tudo, sempre vinha o “curinga” (como são chamados os animadores que fazem a intermediação com a plateia), lembrando que aquilo tudo era reflexo de um mundo real. Que aquelas personagens eram pessoas, e as histórias, vidas. E de repente nenhuma resposta parecia boa o suficiente. E de repente você se via perguntando, de novo e de novo: o que fazer?

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Felipe LSM assina assim porque não quis escolher um sobrenome. Gosta de criar laços e entender pessoas, odeia impotência, morre de medo da solidão e tem conflitos com essa coisa de paixão.

(Não) sendo feminina

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Tem aquela coisa de ser delicada, ne? ~ Feminina ~. Nunca fui. Especialmente nos gestos. Quer dizer, acho até que correspondo a alguns estereótipos, mas sempre no exagero, na retumbância: um batom vermelho aqui, uma unha roxa acolá, um cabelão cacheado todos os dias…

Mas, gestual contido e fino não esperem de mim. Falo alto, rio alto, piso forte, sou desajeitada e desastrada (“tímida e espalhafatosa…”), torço o pé até de chinelo havaiana parada na fila do banco e ainda quebro copos, derramo bebida na roupa alheia (sem-pre!). E, bom, de vez em quando, cometo gafes.

Daí que quando eu tinha 10 anos minha mãe resolveu me matricular no balé pra ver se eu ficava mais “delicada”. E com minhas coxas grossas tinha eu que me esforçar pra fazer o pliê sem deixar uma roçar na outra e ainda fazer de conta que era magra.

Não fiquei mais de dois anos por lá. Menos pela compleição física e mais por não conseguir dançar em conjunto mesmo. Eu simplesmente não consigo fazer passo marcado, coreografado.

Não sei dançar em bloco.

Mas,  sem querer desistir da dança, sai do balé e fui pro jazz. O desajeitamento não mudou muito, mas com o passo rápido dava pra me embolar no meio da muvuca e enganar. Cheguei a me apresentar na 2a fila. Só no carão. E na coxona. Yes!

Até que um dia…

Dancei. Sai do palco, fui pra trás do cenário, subi numa mesa pra ver melhor a coreô seguinte e… fomos eu, a mesa, o cenário, a minha cara… tudo pro chão! Morri de vergonha. Muita mesmo. Quis morrer. Mas, ao mesmo tempo, me dei conta que eu não tenho jeito. Tipo isso: não sou jeitosa.

Aí, sim, comecei a me saber de verdade.  O impacto disso só percebi bem mais tarde, mas ao menos comecei a me entender melhor…

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

E quando teve aquela entrevista de trabalho amarrei tudo de uma vez. Encontrei uma conhecida na recepção e nos cumprimentamos com entusiasmo.

Na hora da entrevista, a recrutadora me disse, algumas vezes, em tom de reprovação, que eu falo muito alto. E foi tudo ladeira abaixo a partir disso. Falar com vocês que nem me esforcei muito em mudar a impressão. Seria mentira. E, de posse do meu entendimento sobre mim, senti um cansaço enorme.

Porque é isso, né. Temos que falar baixo, não gargalhar, não falar palavrão, não nos embebedar, não arrotar, não peidar… A vida resumida aos “bons modos”, à “classe” e sorrisos doces e simpáticos, de preferência.

E vai ficando pior quando saímos dos trejeitos engraçadinhos e entramos mesmo nas características que fazem com o que seja visto como positivo num homem seja altamente criticado numa mulher. Autoconfiança x arrogância. Firmeza x grosseria. Liderança x centralização. E por aí.

Inclusive, me pergunto, fosse eu um homem cumprimentando de maneira entusiasmada e expansiva um amigo que encontrasse por acaso, seria meu tom de voz um dado percebido? E, se fosse, visto como negativo?

(Pausa prum suspiro)

Falar com vocês que este texto ainda tinha mais coisa e eu cortei pra não virar (mais) textão (ainda). Mas, nem só por isso. Tô aqui me perguntando quantas vezes eu mesma já li textos sobre estereótipos de gênero antes.

E quantos mais ainda lerei pela vida. Tantos, né?!

Às vezes, não sei. Me canso disso tudo e quero só assistir novela. Mas, aí, me lembro que na das nove mulher que gosta de sexo é patologizada e vira “ninfomaníaca”. E depois desvira.

E rio de minha ingenuidade. Tem como ficar alheia? Vamos nessa, então, sendo a chliquenta monotemática!

Autoestima , lutando por uma vida plena

liberdade

Para mim, como feminista, há quatro grandes lutas: violência contra mulher, descriminalização do aborto, acesso a creches e igualdade salarial.

Tenho notado que no mundo feminino há outro grande tema sempre muito falado que gera muita simpatia e vário cliques: a autoestima. Mas sempre se fala da autoestima com foco na nossa aparência, eu queria falar, de novo, de autoestima como foco no amor próprio e mais falar de algo que pouco se fala e que vou denominar aqui de educação sentimental.

Somos ensinadas, como mulheres, e isso é uma aprendizagem cultural, mais que instintiva, que nascemos para cuidar do outro, dos outros. E mais, que devemos ter um parceiro romântico (lembrando que o conceito de amor romântico nasceu lá pelo século XV, antes disso casamento era um negócio), um homem para chamar de nosso, ou não temos nenhum valor social, ou seja, só temos nosso valor reconhecido se um homem nos quiser e colocar um anel no nosso dedo. E além disso, devemos ter filhos porque seremos completas só assim. E assim vai nascendo o malfadado conceito de mulher para dar e mulher para casar. E assim vamos aprendendo a nunca sermos felizes por nós, mas para os outros, pelos outros, para a sala.

Não estou dizendo que casar é ruim, ter filhos é ruim. Estou dizendo que fazer isso se não é o que você realmente deseja, se for para cumprir papéis socialmente impostos, talvez seja um passo largo dado rumo à infelicidade. Estou dizendo que viver a vida em função de ter um homem a seu lado talvez seja um passo largo rumo à infelicidade. Não somos ensinadas que existem outras coisas na vida. E tem tantas: estudos, carreira, artes, amigos, viagens. Amigos, principalmente. Criar a ilusão de que nossas felicidade depende de estar somente com uma pessoa, a receita do amor romântico, é talvez um passo para a dependência emocional , algumas vezes para a violência doméstica que pode vir em forma de abuso verbal, não precisa ser de violência física, a dependência financeira, e finalmente uma prisão. De novo, não me ponho aqui contra o amor, mas contra uma noção de amor de co-dependência, que é a que existe nos contos de fada da tv, dos filmes românticos. Amor é cuidado, companheirismo, parceria e também liberdade. Liberdade de ser quem você é, de sair e voltar, com respeito e carinho. Se falta isso, não é amor. É abuso. 

Mas muitos de nós vivemos, em casa, grandes ou pequenas situações de abuso, de co-dependência. Vimos nossos pais, avós, tios, tias em relações por vezes desgastadas mas que continuavam lá em nome do amor ou dos filhos e crescemos achando isso tudo bem. E isso se torna sem querer um padrão aprendido, internalizado, e a gente repete, sem ver. Mas isso não era amor. Era medo, era falta de grana para sair dali, era  uma espécie síndrome de Estocolmo, era falta de perspectiva, era co-dependência.

Enfim, era falta de educação sentimental. Era falta de terapia, de psicólogo, de um suporte emocional. É que muita gente acha que terapia é coisa de gente maluca ou problemática. Não é. E também, não precisa ser só através da terapia, as amigas, o reforço da amizade, os laços, falar sobre nossos medos e desejos, ter suporte, ou seja, falar sobre ao invés de varrer para debaixo do tapete. Tudo isso é uma forma de se conhecer e, principalmente, de aumentar a autoestima. Autoestima, amor próprio, esse que nada tem a ver com aparência mas com vontade de viver sua vida e ser livre, inteira. E ser livre tem tudo a ver com o feminismo. Tem tudo a ver com o que desejo pra mim e todas vocês. E toda vez que vejo uma mulher presa em si mesma e nas amarras do mundo  machista em pleno século XXI algo em mim se parte. Nossa luta ainda é imensa.

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