Mensagem Para Uma Paixão de 20 Anos

Por Mabel Dias, Biscate Convidada*

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Era um dia como outro qualquer. Acordei para ir ao trabalho e como sempre  faço chequei as mensagens no Whatsapp. Deparei-me com uma que chamou minha atenção. Era de um amigo  com quem há muito tempo não conversava. Achei estranho, pois ele nunca me mandava mensagens, nosso contato era tão formal que mal nos falávamos virtualmente. Apesar de achar estranho, fiquei contente com aquele contato. Tomei café e segui para o trabalho normalmente.

Ao chegar lá, comentei com uma amiga sobre a mensagem que havia recebido. Ela me sugeriu conversar com ele e saber qual é.

– Ah, amiga, se você soubesse, eu sempre fui a fim desse cara!

Sorrimos.

No dia seguinte, checando mais uma vez o aplicativo de mensagens, mais uma. Desta vez, com a foto de uma flor e a pergunta de como eu estava. Isso me enchia de felicidades e ao mesmo tempo de angústia. Não tinha coragem ainda de perguntar o que estava acontecendo.

Conversando com outra amiga, ela me disse para desencanar, pois podiam ser apenas cuidados e gentilezas de um amigo. Mas, dentro de mim, havia algo que sinalizava que não era apenas isso. Mesmo assim, não quis criar coisas na cabeça.

Os dias foram passando  e eu fui me acostumando a, toda manhã, ser acordada com estas mensagens de carinho. Minhas manhãs eram tristonhas, pois havia acabado de sair de uma depressão, e o que ele estava me proporcionando eram momentos de alegria, que me reenergizavam.

De repente, as mensagens se tornaram mais explícitas. E aí, o sinal vermelho acendeu: Nossa, será que ele está apaixonado? Este não era o problema, mas sim o fato dele ser casado. Isso para mim era um choque.

Criei coragem e perguntei o que ele pretendia com tudo aquilo.

– Pretendo pretender….não sei – ele disse.

E eu a cada dia ficava encantada e perturbada. Se fumasse, já tinha fumados os cigarros do mundo inteiro, tamanha minha angústia. Era o homem de quem eu tinha sido a fim na adolescência, que eu sempre quis e que agora estava aí, atraído por mim. Mas, eu também pensava: já foi, é passado, ele perdeu a chance, me perdeu, não vai mais me ter. Ficava num dilema. Parecia ter voltado à adolescência. Era de fato um pouco tarde para isso. Ele vem agora. Casado. Seria tudo isso um pesadelo? Sem falar nessa condição que nos impedia de ficarmos juntos, morávamos em cidades diferentes. 600 km nos separavam.

Apesar de todos os empecilhos, eu me via apaixonada, via a oportunidade de ficar com ele. Mas, mantinha meus pés no chão, pois não sabia ainda – apesar dos evidentes sinais – o que estava acontecendo.

Conversava sempre com minha amiga sobre esta situação, para poder ter a opinião de alguém que estava de fora. Ela, sempre moderada, me alertava para “ter cuidado” e “não cair em armadilhas”.

Em um dia que estavámos conversando via Whatsapp, perguntei a ele se tudo isso não era uma aventura para ele. O casamento devia ter caído na rotina e ele queria apenas se distrair comigo. Ele negou. Porém, em nenhum momento, ele me disse que estava apaixonado. Ao passo que eu já estava e dizia. Ele não admitia. Ou não estava.

Nossas conversas se tornaram  mais íntimas e ele me perguntou se não estava sendo machista por não falar com a esposa sobre o que estava acontecendo. Disse a ele que deveria criar coragem, saber o que realmente queria e aí então conversar com ela.

Toda vez que falávamos nesse assunto, me vinha uma aflição. Já imaginava que ele não iria deixa-la, pois tinha um relacionamento de muito tempo, tinham filhos e até um neto. Aí eu recuava e dizia a ele que era melhor não nos falarmos mais. Voltar ao contato formal. Mas, ele insistia que não queria parar de falar comigo e que não se imaginava um dia sequer assim.

– Você me preenche – ele dizia.

Eu parava e olhava para aquelas palavras piscando em meu celular, suspirava e não sabia o que dizer. Ponderava a situação, pensando sempre nos prós e os contras.

Tudo o que acontecia entre nós era maravilhoso, meu peito enchia-se de alegria. Sinto que fui egoísta em alguns momentos em não pensar em como a esposa dele ficaria, caso ele a deixasse. Ao mesmo tempo, sentia que isso não era problema meu. Não era eu quem tinha um compromisso. Mas não queria que ela se magoasse. Olha só, eu já pensava que estava com ele.

Eu não sabia o que podia acontecer. Ao final, podia ser eu a magoada, pois existe também essa  história de que os homens casados, depois de algum tempo, veem as esposas como mães, cuidadoras, e aí isso passa a nutrir o casamento, embora não haja mais paixão e às vezes nem sexo. Ou a estabilidade da relação deles poderia oferecer um encanto que a nossa não poderia. Ou a idéia de monogamia como caminho único e obrigatório podia magoar todo mundo.

Enquanto isso, eu ficava naquela situação surrealmente feliz. Em minha cabeça o impasse de dar seguimento a tudo ou dar um basta e dizer: não!

Não tem resposta certa e caminho fácil. Não tem modelo ou prescrição. Histórias são em aberto, sem soluções ou definições. Tudo pode acontecer, nada pode acontecer. Importa que a vida é minha, o caminho é meu. Um espaço se abriu, algo já aconteceu. Daqui pra frente….  verei para onde os passos que dou me levarão.

mabela*Mabel Dias, é jornalista, deu uma força na realização da Marcha das Vadias de João Pessoa e faz parte do Coletivo de Comunicação Intervozes. É uma mulher que luta por um mundo melhor para todas!

Uma história de escola

Por Andréa Dutra*, Biscate Convidada

Eu tenho uma turminha muito querida. São mais jovens e super animados em aprender. Tinha o projeto de sair da escola, mas aquela turminha…a-que-la-tur-mi-nha…acabei ficando.

No início do ano, uma aluna, S., me surpreendeu pela idade, 10 anos no 7° ano. Era ex-aluna da “escola-desejo” dos outros alunos. Falamos muito rapidamente sobre a escola de onde eles vieram e ela me disse que lá era horrível e que não tinha amigos. Achei que era uma reclamação normal. Devia ter tido um ano ruim. Mas me apeguei a ela, como à turma toda, e passei a perguntar sempre a ela se estava gostando, se estava bem (coisa que tento fazer com todos, mas nem sempre funciona)…e ela sempre com um sorrisão no rosto, dizendo que estava feliz. Realmente, ela desabrochou, fez amigos, se diverte com tudo e até os defeitos da escola leva com graça.

Corta pra reunião de responsáveis de hoje. (De responsáveis mesmo. A maioria na sala eram avós e tias).

Comecei conversando com um pai que conheci na semana anterior. O filho, F., fez 15 anos e decidiu que não queria mais estudar. “Professora, pelo amor de Deus, conversa com ele! Não deixa ele largar a escola não!” E vamos lá: “Fulaninho, a escola blablablablabla.” Hoje F., sempre tímido, voltou e veio me abraçar: “Tia, eu voltei!”
Do lado uma senhora, a mãe da S.

_Oi, tudo bem? A senhora é mãe da S.? Ela parece bem feliz aqui, o que a senhora tá achando?

_Professora, a S. tá muito feliz. Deus sabe o que sofri com essa menina. Ela passou 2 anos sofrendo por bullying na outra escola (particular, cara pros padrões do local, cheia dos gueri-gueri). Ela toma remédio todo dia pra dormir. Aqui, graças a deus, sempre que eu pergunto, ela tá sorrindo, tá feliz demais com os colegas, os professores. Ela gosta de todo mundo.

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E eu parei. Caralho, ela tem 10 anos! Ela toma remédio pra dormir. Porque é traumatizada e foi vitimada por outras crianças e professores como eu. E quis chorar. Mas fiquei feliz logo depois, porque ela tá saindo dessa, acompanhada por psicólogos, pela família, pelos amigos e por nós. Fico pensando no quanto tem muito mais que ensino nessa coisa de educação. E o quanto é gostoso estar atento e participar da ascensão do amor. pelo amor.

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Andréa nasceu no Rio, mas ama mesmo a Baixada Fluminense, e lá satisfaz seu complexo de Xuxa, sendo parada em todo canto por aluno, pai de aluno, mãe de aluno, vó de aluno, filho de aluno…

O test drive do coelhinho do prazer

Já que tão fudendo a gente todo dia, já que a cada dia a gente acorda e tem um 7 x1 diferente pela frente, que tal fuder da forma gostosa de verdade? Que tal fazer um 5 x 1? (desculpem, piada horrível, num resisti) .

Mas como fazer isso se: tô cansada, solteira, o bofe ou a gata mora longe, estou com a mão engessada, a cara metade tá fazendo doutorado? (sei lá, mil questões)  Seus problemas se acabaram-se! (ao fundo toca a musiquinha das organizações da tabajara)

Amiga-companheira-feminista que curte um sexozinho ilícito, se jogue no maravilhoso mundo dos sex toys. Ah, mas eu tenho vergonha, ah mas se eu comprar pela internet o porteiro vai ver, ah mas o marido/parceiro/boy/gata/peguete/etc não vai gostar, vai achar que estou substituindo ele/ela, mais outros trocentos argumentos baseados no desconhecimento, medo, vergonha e temperados no preconceito.

Amadas amigas-amantes-biscates, em primeiro lugar a gente tem menos orgasmos e menos prazer quanto menos se conhece. Para isso a gente deve explorar nossos pontos, nosso ritmo e nossas imaginação. Dedos, mãos e sim, por que não, brinquedinhos. Claro, dedos e mãos são imprescindíveis. Acho incrível como se fala pouco de masturbação feminina quando é sabido que nosso orgasmo é muito mais clitoriano que vaginal (sobre isso indico esse post ótimo) . E para isso além, óbvio dos dedos, a gente pode usar os deliciosos vibradores clitorianos.

Em segundo lugar as sex shops podem parecer lugares amedrontadores com umas parafernálias esquisitas. Então chame uma amiga ou um grupo ou vá ou ainda compre on line. Eu já comprei, mais de uma vez, juro que o porteiro não vai saber o que está chegando, a embalagem é comum, de entrega e não há logomarca de identificação etc. Ademais, se o problema é vergonha, sozinha em casa na internet a gente pode fuçar mais, né?

Em terceiro lugar: sex toy não é substituto pra nada, é só um outro tipo de sexo. Tem tantos… Ah e não, não vicia, não faz mal, não dá doenças e tal. É delícia. Mas, e então?

Antes, parêntesis: vou esclarecer que esse blog não é um blog patrocinado e eu não sou a Pugliesi do sexo. Mas, sim, vou indicar algumas coisas. E, bom, pra indicar a gente faz test drive, né? Se o pessoal faz test drive de carro por que não fazer de sex toy?

O fantástico mundo dos sex toys vai bem além dos dildos (ou pênis, prefiro dildos, já que pênis é só o de verdade e só conheço alguém que tinha um na caixa:  Perpétua da novela Tieta  e óleos. Atualmente os materiais são bem mais duráveis, mais fáceis de limpar, alguns têm bateria recarregável (adeus pilhas, o bolso agradece, a natureza também #sexosustentável #marinasilvaaprova) e tem design e cores que são um charme.

Sua mãe, a faxineira (a minha perguntou se era brinquedinho dos gatos <3), a vizinha frutriqueira, a cunhada até vão ver na sua mesinha de cabeceira e pensar que, sei lá, é um despertador, um timer e você aderiu à técnica pomodoro. Tudo bem diferente de quando comecei a frequentar sex shops (uns 18 anos atrás), quando os dildos eram de um plástico horroroso.

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Daí que como o orgasmo mais delícia é o clitoriano e adoro um design resolvi fazer um test drive com o produto queridinho do https://fluidlab.com.br/ – o laboratório do prazer – e assim chegou aqui em casa o  coelhinho estimulador (olha que coisa fofa, gente!).

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O fluidlab é uma loja on line com um blog com uma proposta muito diferente dos demais sex shops, a gente percebe de cara no visual mais clean, bonito. É de uma amiga também feminista. O site tem informações sobre sexo, saúde da mulher e uso e conservação do seu brinquedinho. Vale a pena ler os posts, muita informação bacana. Inclusive um ótimo post sobre masturbação .

Vamos ao que interessa né?  Para que comprar vibradores se eu posso fazer isso com a minha mão? Olha, você pode e deve fazer isso com suas mãos e dedos, você tem que conhecer seu ritmo, seu tempo e gozar é uma delícia, mas garanto que, assim como as sensações com cada pessoa que transamos são diferentes, o gozo com um estimulador também é diferente. É outro tipo de delícia, bem como de um estimulador para outro também há diferenças ( como na vida as pirocas são diferentes né, gente,  pode mudar por causa da velocidade do aparelho a maciez do material etc.

Eu tenho 2 vibradores/ dildos que tem estimulador clitorianos acoplados e já os usei sem penetração também. Qual a diferença que achei pro coelhinho? Bom, em primeiro lugar: design. É lindo! Muito fofo e discreto, guardo na gaveta da cômoda. Ademais ele não precisa de pilhas, é recarregável, a bateria dura 2 horas (testei e durou pra eu gozar umas 3 vezes  e não acabou ulalá). O material é de altíssima qualidade. Ele tem 3 velocidades que a gente controla apertando o controle que são os olhinhos do coelho. Mas, olha, de todos os que tenho, achei a velocidade, digamos, mais potente e gostosa. Tenho usado muito para relaxar e dormir. Indico muito, principalmente se a sua cota diária e 10 homens pra sexo ilícito não estiver chegando ao destino (aka sua cama).

Mas vibrador clitoriano é pra usar somente sozinha? Então… resolvi fazer mais um test drive, dessa vez acompanhada ( ui), aproveitando uma viagem curtinha no feriado e… pois bem, o coelhinho foi bem útil. A gente não tem medo dele ser visto no raio-x da bagagem de mão do aeroporto, né? Parece um brinquedinho qualquer. Mas olha, como foi útil o bixim… De bruços e ele embaixo encaixadinho no clitóris foi ótimo! E depois descobrimos novas funções pras orelhas do coelho, pode entrar em alguns lugares e tal, até porque o material dele é fácil de limpar e bastante higiênico.  Ah, enquanto isso… a bateria lá, firme e forte. Duas horas sem sair de cima, ou de baixo, ou de dentro….enfim…  Sim, claro, sex toy não tem limite de uso, cada um faz com o seu o que quiser, a imaginação não tem limites.

Espero ter em breve grana para comprar mais uns sex toys novos. Por enquanto, de olho em bolinhas porque pompoar é tudo de bom ( fica a dica).

 

A Praia

Voltei à nossa praia esses dias. Refiz o mesmo caminho, passei pelo posto onde compramos cigarro, mas dessa vez não parei. Segui pela mesma estradinha estreita, vi as casas dispostas em círculo, lembrei das histórias que me contou da sua infância. Sorri ao me lembrar de você. Dessa vez não tinha sua mão na minha perna, nem a cerveja entre as minhas coxas.

Refiz todo o caminho, mas cheguei à praia por outro lado. Engraçado isso. Ver que existem outras saídas, outras formas de se chegar àquele lugar tão bonito e tão esquecido. Olhei o mar e lembrei de você. Na verdade, falei de você por um bom tempo enquanto chegava lá. Olhei o mar e me joguei. Pela primeira vez. Sozinha.

Mergulhei naquelas águas calmas em consonância com meu peito agora tranquilo. Deu saudade de você. Deu saudade daquele dia ali com você. Vi o mirante de longe. Sorri aquele canto de boca das lembranças de volúpia da noite que passamos ali.

Aquele mar me lembra você. Entrei nele sabendo que era preciso ressignificá-lo. Ir “à nossa praia” foi a minha maneira de ressignificar os lugares por onde passamos juntos, ressignificar você na minha vida. Entrei no mar e mais uma vez me deu saudade de você. Imaginei teu corpo bronzeado mergulhando ali. Uma pintura bonita. Mergulhei e tive a certeza de que fiz a coisa mais certa que eu podia fazer, a decisão mais sensata que eu podia tomar. Voltei à superfície feliz com que eu sou.

Saí do mar e me esperavam na areia com uma cerveja. As coisas agora eram diferentes. O mesmo cenário, outras histórias. Começo de temporada. Fiz questão de almoçar naquele mesmo restaurante, disse a todo mundo que era o melhor peixe da região. Acho que é o único por ali, né?

Voltei pra casa por outro caminho. Aquela praia não é mais a minha praia com você. É mais uma praia por onde já andei, que está no meu roteiro, que posso dizer que já a conheço. Vivenciei outras alegrias, estive com outras gentes. Você ainda é a pessoa que me apresentou aquele lugar até então desconhecido, mas não é mais minha única referência. Você agora é lembrança doce que me visita vez ou outra.

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Aparências

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A gente passa metade do tempo militante lutando para ninguém julgar ninguém pela aparência. E a outra metade julgando e disparando mágoa e animosidade nas pessoas que tem uma determinada aparência.

Não é a existência da pessoa dita bonita que sustenta o padrão de beleza excludente. Não é a existência de alguém que sustenta uma situação estrutural. Ela, no máximo, reproduz. No caso da aparência física, isso nem mesmo é uma opção.

A sustentação da exclusão e marginalização se dá via mecanismos materiais alinhados a um discurso naturalizador. Cobrar posturas individuais, culpa e autoflagelação não muda a estrutura. Nem faz cócegas nela. No máximo satisfaz parcialmente nossa fome de um sofrimento alheio que se equipare ao nosso.

Quando eu era criança, meus pais (?) me ensinaram a prestar atenção quando estou apontando o dedo. É um pra lá, um meio confuso e três pra mim. Bobo, né? E, no entanto. Poucas coisas mais verdadeiras (diferente do “nem escuto a zoada da mutuca”, que é mais a enunciação de uma intenção que de um fato, mas divago).

Eu acho que cheguei estragada para a militância feroz. E para a militância sentida, magoada. E, mais que tudo, para a militância que não se pergunta sobre ela mesma. Coloco (contente) na conta de dois barbudinhos, Freud e Horkheimmer. Eu já escrevi umas mil vezes (mas aprendi também que tem um gozo na repetição) que o caminho é tão importante quanto o local de chegada. Que ele determina o local de chegada. Que temos que nos inquirir sobre nossos processos, nossas motivações, nossas chaves e nossas falhas e nunca, nunquinha, supor os processos, motivações, chaves e falhas internas alheias.

Acho que a gente acabou entendendo errado o negócio do privilégio. Ou fui eu que entendi na contramão, forçando o conceito pra meu horizonte de referências. Eu sempre entendi que privilégio era algo pra gente ir dando conta dos nossos em relação a. Tem duas coisas embutidas aí: o privilégio dos outros não é da minha conta, não sou eu quem tem que apontar, identificar, qualificar, analisar, questionar, whatever, isso porque (aí vem o loutro lance, mais importante) o privilégio (o meu e o de qualquer outro) não é absoluto nem cristalizado. Privilégios são em relação. São forças, dinâmicas. Não rótulos estanques. Ninguém (acho eu) deveria ser “acusado” de um determinado privilégio. Mas, claro, reconheço que eu posso ter forçado o conceito pra poder compartilhar dele. Se não for isso, se rpivilégio é alguma coisa que a pessoa tem, absoluta, definível, identificável a priori e sem contexto, estou desde agora parando de usar e deixando de achar útil na militância.

Sair da modo-culpa-de-funcionamento, seja nossa, seja demandando a alheia, penso que seria um passo importante para uma dinâmica de relacionamentos interpessoais bem mais, na mais superficial das hipóteses, divertida.

Vivemos numa sociedade excludente. Sim. Um dos aspectos em que isso se evidencia é na questão da aparência física. Sim. Nesse quesito unem-se preconceitos vários como racismo, gordofobia, transfobia, preconceito contra deficientes físicos, etc. Sim. Isso fica material na hora de sentar na cadeira do avião, de tirar foto pra documento, de ler uma vaga de emprego que fala em boa aparência? Sim. Isso também aparece na hora que você vai pra balada e sua amiga magra, loira e malhada parece ter mais olhares desejosos do que você, baixinha, gorda e meio índia? Sim. Mas. Enquanto dá pra gente discutir novos tamanhos de cadeira no avião, demandar novos softwares de leitura de imagem e fiscalizar a equidade nos processos seletivos, não tem ação externa que dê conta do desejo (e nem é pra ter mesmo).

O desejo, os afetos, os amores, os relacionamentos, são atravessados por construções sociais? Não. Eles mesmos são construções sociais. Nem por isso são voluntários, domesticáveis, moldáveis conforme a disposição política e militante.

A dinâmica de transformação da realidade social é dialética, vamos mudando o dentro e lutando no fora e ao mudar o fora vamos redimensionando o dentro. Demora? Sim. Vai continuar doendo ir pra balada e não pegar as pessoas todas que a gente nem queria pegar mas queria que quisessem nos pegar? Sim (ou não, vai que a gente aprende também a não ficar olhando o que não tem e aproveitar melhor o beijo na boca disponível). Mas a transformação do quem e como se deseja nunca será por imposição ou vontade consciente.

A única coisa que pode resultar da fiscalização do tesão e dos relacionamentos alheios é moralismo. Imposição. Doutrinação. Culpa. Pecado. Ou seja.

O que a gente pode ir construindo é um território onde os desejos e relacionamentos que não são no “padrão” não sejam ridicularizados, escanteados ou causem temor e vergonha. Isso é um passo. O que a gente pode tentar é desenvolver comportamentos e discursos com menos foco na aparência física. Isso é um passo. O que a gente pode ir fazendo é lutar por representatividade. Outro passo. O que a gente pode ir incentivando é mais generosidade com nossas nomeadas imperfeições, sem esquecer que o lugar de onde essa limitação vem não tem relação com o corpo em si, com o que ele faz e oferece, mas com uma dinâmica que busca criar a insatisfação. Mais um passo. O que a gente pode ir fazendo é lembrar que o mundo que a gente tem de horizonte ainda vai ter esta gente toda que habita neste (a não ser que, mas então nem estamos do mesmo lado da trincheira), eles sendo do jeito que a gente quer ou não. E que a gente não deveria achar que tem o direito de determinar que alguém seja de algum jeito (mas sim que a sociedade funcione de determinada forma).

O que a gente pode ir fazendo é gozar. E deixar gozar. Abrir mão da culpa. Nossa. Do outro. É parar de exigir enquadramento, seja ele qual for. Vamos gozar. O prazer é subversivo.

Um Sol Sem Graça

Cara, cês já viram médic@s terem que brigar para afirmar sua profissão como importante? É isso que artistas e (quase) todas as pessoas que trabalham na cadeira produtiva da Cultura (e nisso incluo @s professor@s) tem que fazer todos os dias. TODOS OS DIAS! Para família, amig@s, empregador@s e principalmente, para si mesm@s. É que no Brasil ainda somos considerad@s profissionais substituíveis, sabe? Nas escolas ou somos encarad@s como meros “decorador@s” para festas ou de nós é exigido o domínio (teoria e práxis) de TODAS as especialidades de “nosso” campo (música, teatro, dança e artes visuais), mesmo com cursos universitários e pesquisas na área sendo entendidos como coisa de vagabund@. Da galera que tá fora de sala de aula, a maioria não consegue sequer pagar as contas no final do mês, mesmo produzindo e “vivendo” arte e cultura 24 h por dia…

Então, se isso já era difícil de lidar com um Ministério específico pra nossa área, imagina sem um?

Ah, esqueci… talvez você e eu desaprendamos a imaginar. Porque né? Imaginar não é útil em diante da tal crise que está aí, nem tampouco contribui para o crescimento de nosso País nos ditames da tal “Ordem e Progresso”.

“Olha não tem ninguém na praça/

Só tem um sol sem graça/

Não tem ninguém para ver e contar…”

“Ah, mas só foi uma transferência, Raquel…”

O único só para mim nessa história é que Cultura é um babado do campo simbólico, Brasil. Portanto, atrelar Cultura a Educação é um desserviço que ecoará na produção artística de toda uma geração. Quer praticamente dizer que toda obra ou trabalho terá que ter uma “moral da história”. E no caso desse governo específico, cara, quero nem pensar em qual seria.

Ah, eu imagino sim.  Ainda?

Peças de teatro com conteúdo bíblico? Imitações de “estaltas” gregas com saia abaixo do joelho? Cinema com mensagens edificantes sobre ser “bela, recatada e do lar”?

Num vai “dar bom” isso não…

E (ainda) por falar em Cultura, muitas, muitas mulheres, em sua maioria pobres, fizeram e fazem cultura em nosso país. No intervalo do cuidar dos filhos, da casa, depois da lida na roça, cansando olhos, costas e coração.

Para ajudar num orçamento quase inexistente, insistiram na renda de bilro, no crochê, no ponto cruz. Para continuarem vivas e darem de comer as filhas e filhos a baiana montou seu tabuleiro e a paneleira acendeu seu forno de queima de cerâmica.

Talvez, também, para insistir em belezas cotidianas no meio de tanta dor? Acredito que…

No entanto, apesar disso acontecer desde que fomos “descobertos”, muitas dessas mulheres, até hoje, se envergonham do que produzem e não sabem “botar preço” no próprio trabalho. Porque, talvez, ainda não o entendam como tal?

Aí o “gênio” da moda, o chef estrelado, a loja no shopping se apropriam de suas criações para que a madame e o senhor, que contribuem com essa injustiça e alienação, ao acharem exorbitante pagar R$ 50 num “paninho”, desembolssem contentes R$ 50.000 numa peça que quem produziu jamais conseguiria pagar. Essas mesmas pessoas não sabem porque se chama alta costura a alta costura. Artesanato, senhoras e senhores. E cultura!

O valor do humano ali na sua frente, materializando tempo, paciência e heranças.
No país do quartinho de empregadA ainda temos muito que aprender e deglutir.
Por exemplo: que não há beleza alguma na morte da representatividade (essa morte em vida), não há apaziguamento possível diante da tentativa de nos calarem.

Porque de tantas formas “eles” tentaram, que aprendemos a “falar” e nos fazer entender de formas que sequer imaginam, esses sinhozinhos… mesmo quando parece que estamos servindo. Invisíveis. De joelhos.

Também aprendemos a ver, porque aprendemos na porrada e com o olho roxo, o que é feio e vil. Ainda que chegue-nos disfarçado como suposto respeito e consideração.

Portanto, não é “favor” algum dar-nos, enquanto mulheres, UM cargo de fachada num ministério extinto. Somos metade desse país, porra! Então é isso! Vai ter LUTA, SEUS MERDAS!

E lembrem, somos biscates… “Com a nossa rapa você não é capaz!”

 

Brasil, 12 de Maio de 2016

Por Renata Correa, Biscate Convidada

Filha,

Falta um mês para o seu aniversário de quatro anos. Todos os dias antes de dormir a gente conversa sobre sua festa. Você já quis dinossauro, sereia, bailarina, baleia. Depois você me pede duas histórias e uma música para aceitar fechar os olhos. Daí você pega no sono entrelaçada no meu corpo e eu vou me desvencilhando de você para terminar de trabalhar, conversar com os amigos, tomar banho, ver as notícias.

Nos últimos meses eu tenho pensado muito nas histórias que eu vou te contar. Sua bisavó nasceu em 1930, e não votou para presidente até sua avó nascer. Sua vó nasceu em 1956 e não votou para presidente até depois do meu nascimento. Eu nasci no fim de uma ditadura militar e nas primeiras eleições para presidente eu já tinha sete anos. Já quando você nasceu eu já tinha votado para presidente três vezes e uma mulher era presidente da república.

Eu queria contar para você que, nós, essas quatro mulheres, vimos ano a ano uma democracia se fortalecer e estabelecer. Mas a verdade filha, é que a república do café com leite lá da época do nascimento de sua bisavó ainda está em vigor. E que as instituições que matavam, torturavam e desapareciam com pessoas na época da sua avó nunca foram punidas e continuaram em pleno fucionamento. E é por isso que estamos vivendo o que estamos vivendo hoje.

Imagina que hoje filha, alguns homens conseguiram, sem nenhuma justificativa, retirar uma presidente da república de seu mandato. Uma mulher que desfilou em carro aberto ao lado da sua filha também, quando foi tomar posse. Uma mulher que foi eleita pela maioria do povo brasileiro.

Desculpa filha. Quando eu comecei a pensar em política, achei que democracia era uma coisa dada, inabalável, um direito inalienável. Sua avó já tinha lutado por ela, bastava agora aperfeiçoá-la, incluir nesse sistema aqueles que nunca puderam usufruir plenamente dela. Errei.

Forças conservadoras sempre irão tentar esmagar subjetividades e impor retrocessos se isso representar poder. Queria te dizer para ficar sempre atenta e vigilante quando eu não puder estar. Nada está permanentemente conquistado, tudo está permanentemente em processo.

Eu gostaria de te prometer uma coisa: a mamãe vai continuar, tá? Agora um pouquinho mais calejada. Eu, assim como a sua bisa, e a sua avó, fizeram antes de mim, não vou desistir. De ter um País mas justo, igualitário, onde a disputa política não se converta em ódio, onde o cinismo não seja maior que o amor.

Espero que um dia você possa ler essa cartinha sem medo de ser agredida por suas opiniões. Sem medo de amar e ser amada. Sem medo de lutar as próprias batalhas. E claro, que também possa ter a tranquilidade de estar vivendo um sistema democrático pleno. Quero ter daqui uns anos uma história mais bonita pra te contar, filha. Não sei se vai acontecer. Mas eu prometo tentar.

Beijos da mamain.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Não Há Resgate

Por Tarsila Mercer de Souza*, Biscate Convidada

Quando a gente tem 17 anos, ou quando a gente está apaixonado, nos ocorrem algumas ideias estúpidas, como prometer algo impossível de se cumprir.

Coisas como o amor eterno, a amizade infinita, a fidelidade incondicional, a lua e todo tipo de patifarias que poderiam servir pra comprar mais alguns minutos com a pessoa que a gente deseja.

Nesse mesmo contexto, as pessoas fazem outro tipo de coisa estúpida que é justamente comprar essas promessas.

A consequência lógica é a história de Ícaro. As asas de cera que foram inventadas pra chegar ao sol começam a se derreter com a própria presença do sol. Soa familiar?

Não temos asas, é claro. E seguimos, aos tropeços, apesar do tombo. Eventualmente, vamos sacando outros esquemas menos toscos pra voar: mais seguros, ou mais inovadores, ou mais complexos ou mais atrapalhados – alguma ideia maluca, algum plano futuro, alguma fantasia delirante pra ajudar a empurrar o nosso tempo interno adiante.

Eu ia dizendo que não há resgate.

É que esses tombos amorosos, essas promessas furadas, derrubam pessoas, literalmente. Ainda que as ‘asas’ sejam metafóricas. Quem nunca se trancou num quarto pra chorar e perdeu um dia de sol? Quem nunca esmurrou uma parede? Quem nunca atirou um celular no chão? Quem nunca lambeu o meio fio?

Depois de tentar voar no rabo dum relacionamento platônico que se desmanchou com a concretude. Ou depois de tentar se pendurar num amor eterno que se mostrou inteiramente dependente de uma contingência pra lá de específica.

Pois então. A gente derruba, e se derruba.

Quando a gente está na creche e a gente derruba o coleguinha, a professor nos faz pedir: Des-culpa.

Ora:

Como se desculpar pela ignorância? Ou pior, por uma ignorância que se escolheu livremente?

Como presumir culpa desta situação toda, para que se possa des-culpar?

Como lidar com a morte de um sonho? Como viver e conviver depois do sonho, olhando ainda pras caras de quem participou dele?

Não há resgate. Mas há o resgate de não haver resgate; saber que a matéria transformada jamais será novamente a mesma – mesmo que se retransforme, será uma nova história, um novo contexto. E isso faz dos caminhos dessa matéria – que são os nossos afetos, nesse caso – tão aleatórios, tão contingentes, tão acidentais quanto qualquer outra bela invenção que fazemos. Tão neutros, o que quer dizer: tão potencialmente bons.

Uma amiga, a Renata Correa, me disse esses dias: desromantizar para poder amar, para poder sentir direito. Resgatar o fato de que não há resgate pode, no fim das contas, ser uma boa notícia.

Um pedido de desculpas não des-culpa, não resgata, não redime, não desfaz a queda, não restitui um sonho.

Mas pode ser qualquer tipo de re-começo. Um jeito de não adoecer mais pela falta da redenção. Uma forma de aprender a reutilizar os pés.

foto perfil*Tarsila Mercer de Souza é escritora, pesquisadora qualitativa, gosta de inventar passos de dança.

Novelo

Início: 06/05

Para Ângela e Duda.

Meu pai está morrendo.

O facebook e suas lembranças. Lunna me escrevendo há alguns anos dizia-me...

“Somos diferentes, não é mesmo? Talvez por isso você tenha disparado aquela pergunta em nosso último diálogo. Você se lembra? “por que?” – indagou você. Eu não sei o seu tom de voz. Nunca nos falamos se não por palavras escritas. Então imagino um tom acima, animado que vai se silenciando enquanto o discurso é feito. Não teve pausa o seu questionamento, mas eu a inseri aqui para dar o peso necessário a esse discurso que chegou a mim assim “eu me pergunto porquê eu insisto em conversar com você”…”

Meu pai está morrendo.

Lunna. Ah, Lunna…

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira”. – Carlos Drummond de Andrade.

Meu pai está morrendo.

Falamos de amizades, sororidade e rupturas.

Penso cinematograficamente. O que é complicado, tendo em vista as inúmeras possibilidades dessa forma de fazer e viver arte. Sem roteiro fica complicado. Do que eu ia falar mesmo?

Meu pai está morrendo.

As personagens aqui: Mãe, Beth, fogo, menstruação

As personagens fora: Leide Jane, Raísa, Camila, HipHop, Feminino Sagrado

Bijoux. Paciência. Bela, recatada e do lar. Bruxas.

Meu pai está morrendo.

Novelo Prateado. Fotos Performance LuzdelLuna

Cabelo Branco. Gatos. Fonte. As coisas que aconteceram.

Lu, Cláudio, visitas. Lunna reaparecendo. O texto de Lunna.

Filiação ao Psol.

Meu pai está morrendo.

Novelo do Mundo

Pensei em não pintar mais os cabelos, criar muitos gatos, banhar-me no chafariz Felliniano que ia instalar em sonhos no jardim. Pensei em consolar-me ranzizamente em ervas, cristais, esconjuros, benzeduras, divinações e na paz de andar nua e descalça na grama. Mas é que tem maldade andando nas ruas e “pessoas assim” podem morrer assassinadas a qualquer momento.

Meu pai está morrendo.

Enfim… muito tempo sem escrever. Acho que perdi o jeito. O prumo. As rédeas. As palavras. Elas tomaram conta do ambiente e se esparramaram sem controle.

Meu pai está morrendo.

A sensação de não caber no que esperam. Do que falo eu que possa interessar? – questionei durante o todo tempo em que a pesquisa e as palavras ficaram em pause. Organizando o caos no Word. Peço ajuda porque sim. Dependo dessa (re)construção coletiva do que tenho apreendido de mim e nos outros.

Das certezas: grande parte das minhas crises existenciais rolam quando eu estou com fome ou com sono. As maiores quando estou com fome E com sono. Mas sou teimosa demais para me admitir tão óbvia assim. Dramas de uma taurina.Parte superior do formulário

Meu pai está morrendo.

Hoje é o primeiro dia de Lua Nova. Em algum momento vai fazer sentido, sussurra-me o homem com a voz do deus. “Invento o amor e sei a dor de me lançar”. Repito baixinho e timidamente antes de prender a respiração para esquecer os medos todos. Bobos.

Mergulho.

Meu pai está morrendo.

De perdas virtuais etc.

Sou do tipo que não se desfaz de amigo. Amigo, se é amigo, é amigo. Discordo, discuto, contesto: só que é amigo, ora. E assim será.

Mas esse texto – de que gostei muito – me fez pensar em outra circunstância: aquelas pessoas com quem convivo em redes sociais, algumas que até  já encontrei pessoalmente, e que se desfazem de mim. Assim, sem nenhuma briga, nada: elas me “desamigam”, provavelmente por não concordar com algo que eu disse, que eu postei, ou por terem problema com as pessoas com quem interajo. Por não aderirem à minha opinião, por achar que tenho más frequentações, por se sentir atingidas por uma indireta que não mandei.

Algumas dessas eu gostava de ler, com outras de interagir. Com algumas dessas eu já conversei inbox, já troquei e-mail: um passo à frente nas relações virtuais. Outras ainda eu já encontrei “no mundo real”, já sentei em bar, já tirei dúvidas, compartilhei preocupações e alegrias.
E, claro, é sempre possível brigar. Se desentender de verdade, achar que pra tudo há um limite e que não dá pra continuar daquele jeito. Não é disso que estou falando: é do desamigar fofo, sem aviso prévio: de repente, você vai falar com a pessoa e ela não está mais ali, na praça virtual em que se encontravam todo dia.

A minha reação, nesses caso, é assim, em geral: lamento um pouco pela relação que eu achava que era e não era.

Sinceramente, é só um pouco: porque, de verdade, o que fica mais forte é o “que não era”. E eu sou boa de me adaptar a choques de realidade. Se não era, então… não era. Porque alguém que corta relações comigo por esses motivos, sem nem dar um tchau, afinal, não era amigo, não é mesmo?

Vida que segue.
É aprender a entender a falta, lamentar sinceramente, e seguir adiante. Desapegar, soltar, deixar ir o que não é mais.
(E, sim, eu estou escrevendo um texto inteiro sobre corte de relações virtuais: pequenas coisas que têm a ver com coisas maiores, virtual-real que a cada dia mais são dimensões de uma realidade só.)

Se poupar? Economizar relações? Ficar protegida e resguardada? Não é a minha praia. Não é “do lado de fora”, não será “do lado de dentro”. Prefiro estar sujeita a isso: a descobrir, de repente, que uns que achava que era não eram. Até porque afinal, tem os outros: aqueles que, de verdade, são. E aí é de grão em grão. De clique em clique. De post em post. A gente vai construindo. Desbravando, caminhando, conhecendo. Se escrevendo, comentando, discutindo. Gostando, sim. Gostando, ué. Faz parte.
Bora lá. Me adiciona aí que eu tô com um bom pressentimento.

fogueira

Super Sincera?

Patati, patatá, rala e rola, rola e rala e pá: gosto de tudo contigo. Huumm, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, sim, sim, sim. Gostas de tudo comigo? chupchup, sleptslept, nhaminhami, uma reflexão breve: até agora, ventos a favor. Pode até acontecer um: aí não, ainda não, agora não, assim não. Pode. Mas não aconteceu ainda e tá tão bom… sim, sim, sim, gosto de tudo contigo. E mais vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora, aaaiiii, seriãoquenegózibom, sou todo teu. Ops. Todo? Meu? Possessivos sendo empregados assim tão a sangue-frio? Ui. Mas, né, seriãoquenegózibom, quegostoso, quedelícia, seriãoquenegózibom, é dele ele dá pra quem quiser: ok. Meu, meu, meu, mais, mais, mais, hhhuuuummm, isso é até legal. Estou gostando. És toda minha? uóoonnn, uóoooonnn, alerta vermelho, alerta vermelho, todos os sistemas são suspensos automaticamente. És toda minha, querida? [pausa] [silêncio] [e agora: dizer que sim só pra não bagunçar a brincadeira que está tão boa? abraçar a causa da liberdade e reafirmar posição dizendo não, sou toda minha, quem você pensa que é? propor um meio termo razoável: escolha aí duas ou três partes pro seu usufruto exclusivo e o resto eu uso como me aprouver?] suspira, geme, geme, enche a boca pra disfarçar, fim da pausa, reinício do patati, patatá, rala e rola, rola e rala, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora… é tudo meu, mas você pode gozar do que conseguir agarrar agora.

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Por uma resistência biscate

Há uma proposta tramitando no Congresso Nacional que quer exigir que todo candidato a cargo público tenha diploma de nível superior.

É exatamente isso que é a revolta do pato, em síntese. Porque quem defende o pato e a ideologia do pato pensa exatamente assim: que sem diploma universitário não há como conferir status de cidadão a alguém.

Não adianta, mesmo, a gente querer dourar a pílula, argumentar que a proposta está desconectada da “voz das ruas” que ecoaram na revolta do pato. Não está.

Assim como não é contraditória nesta lógica a proposta que pretende conferir às igrejas a possibilidade de questionarem diretamente ao poder judiciário a constitucionalidade de alguma lei ou outro dispositivo. Outra questão central na ideologia do pato é a figura de deus como norteador do homem de bem. Sim, um deus que confere caridade ao homem comum, à família, aos ideais. A ideologia do pato não é laica: ela pode não ser católica, evangélica ou judia, mas ela tem deus como elemento central da bondade humana.

Há outras propostas que estão na cesta da ideologia do pato amarelo. Uma, das que destaco com mais louvor, é a de que beneficiários de programas sociais não pudessem votar. Meio que de brincadeira tratamos estas pérolas: não devíamos mais. O voto censitário é uma bandeira, sim, da revolta do pato.

É óbvio ululante, também, que todas estas ideias centrais do pato-logismo não vêm à tona todas de uma só vez. Há, sim, um desconforto dos donatários que às vezes os deixa envergonhados, com pequenos pudores. Mas, Cunha está aí para nos esfregar na bunda, as relativizações no pato-logismo são moeda corrente.

Outra bandeira do pato amarelo é a que quer o exorcismo nas escolas, afastando cada vez mais as aulas de história, geografia, sociologia, antropologia dos currículos escolares. Primeiro, através de medidas que visem delimitar o que pode ou não pode um professor ou professora dizer numa sala de aula. Depois, questionando as verbas de pesquisa para temas que não tem “finalidade prática”. Por fim, a gente muda mesmo o currículo e que se dane.

A revolta do pato é – ao cabo de tudo – a tentação dos donatários de querer se manter em seu imenso condomínio, seguro e protegido. De preferência, de carro para ir na padaria da esquina.

É hora de nos melecarmos, como resistência, desconfio. De gozos, suores, palavrões, abraços, gente pelada, beijo, macumbas, bicicletas, famílias de papai e mamãe, de papai e papai, de mamãe e mamãe, de papai mamãe e de mamãe papai. Hora de nos lambuzarmos de mel, de cervejas geladas, de piada, poesia e cataclismas. Mas, sobretudo, é hora de deixarmos a redoma que nos protege do desconforto de ficar esfregando na cara dos amigos, colegas e conhecidos o que eles estão a cumprir ao apoiar a ideologia do pato.

E que os deuses, e sobretudo as deusas, salvem a psicanálise, a desobediência civil, os ateus e o amor.

O pato, senhouras e senhoures, não é só um plágio e uma fraude. Ele também é um vexame. Um imenso vexame.

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