Sexo sem…

sexo sem...

sexo sem…

Pinto. Pau. Caralho. Pênis. Caráleo. Parte fálica avolumada por entre as pernas. Masculino, penetrante, intenso, jocoso, duro. Gostoso. Esperma, jorro, gozo, penetração. Encaixe profundo, remelexo por dentro. Uma boa biscate sabe o gosto bom disso tudo e sabe, sobretudo, desfrutar as boas sensações que podemos experimentar sem pudores e sem medo do universo fálico.

Mas o que quero falar aqui, neste espaço de hoje, é das delícias e possibilidades do sexo sem. Sem o falo. Sem o pau de carne e osso no meio das pernas. Sem a protuberância masculina. Eu quero falar sobre a possibilidade escolhida e, sim, nada temerosa, do sexo sem. E do sexo sem que navega pelo universo feminino, que mora ali entre duas (ou mais) mulheres que, juntas, descobrem outros portos para o desejo e o para o prazer.

Já perdi as contas de quantas vezes ouvi a infeliz e machista frase: “ah, fala sério, o que duas mulheres fazem na cama?”. Ou pior: “ah, duvido que vocês não sintam falta de um pinto, vai! Impossível”. Ou, na versão mais repugnante de todas, a pérola: “ah, essas aí não foram bem comidas!”. Pobres pessoas sem imaginação!

O sexo entre mulheres, apesar de tão comum e tão praticado desde os primórdios da história grega, é tão incompreendido nesse nosso mundo de tabus e moralismos enrustidos. Talvez pelo fato de vivermos numa sociedade machista que não concebe, e não consegue conceber, a possibilidade de felicidade sexual sem um falo, o sexo entre mulheres é assunto velado. É tema camuflado que transita entre a fantasia erótica masculina, as aventuras sexuais de casais entediados (e outros nem tanto), os sustos das carolas sentadas no banco da praça, o receio de pais controladores, o medo masculino de perder a supremacia fálica para dar prazer, a curiosidade de olhos femininos.

Biscatemente, claro, vamos ao que interessa. E partimos direto para o nosso querido e saudoso Rauzito. Raul Seixas, ícone que tanto respeito, cantou e escreveu o famoso “rock das aranhas”. Ele sobe lá no muro do quintal e vê uma transa que “não era normal”. Duas mulheres “botando a aranha pra brigar”. Surpreso e nada delicado, proclama: “vem cá mulher deixa de manha minha cobra quer comer sua aranha”.

Pobre Raul, não entendeu nada. As aranhas não querem sua cobra, meu amigo! Elas estão lá felizes e aquilo que você viu, com espanto e indignação, não era uma briga: era amor, tesão, sexo. Simples assim. E um sexo que não quer, e não precisa, do seu pinto para ter prazer.

Mas não tenha medo Rauzito. Se você olhar com um pouquinho de cuidado, vai perceber que sexo está além, muito além, da penetração pinto-buceta, essa fórmula básica e tão boa de ser desfrutada. Sempre se pode experimentar algo mais, ou andar por outros rumos, para se ter prazer. Mesmo em relações heterossexuais esse encaixe não é requisito ou passaporte da alegria. Nem garantia de nada. Pode-se tudo, sempre. Pode ser bom e pode ser mais, com ou sem pinto. Porque a descoberta do prazer é um território vasto e sem demarcações. Um território sempre a ser reinventado, e redescoberto.

Meu amigo Raul, você e tantos outros masculinos desolados, acalmem-se: vocês não perderam as suas importâncias sexuais, e nem deixarão de serem desejados por outras mulheres. É fácil de entender: mulheres que fazem sexo com mulheres apenas desejam outros territórios e outros sabores, apenas sentem tesão em outros lugares. E elas podem, sim e sempre, serem penetradas por outras mulheres (de vários e inimagináveis jeitos), serem satisfeitas por outras mulheres, serem desejadas por outras mulheres, sem que isso signifique a derrota masculina. Tem espaço para todo mundo. Vamos lá no dicionário, só para um exemplo?

Significado de Orgasmo. s.m. O mais alto grau de satisfação sexual, quando se atinge a plenitude das sensações.

Sim senhores, orgasmo e satisfação sexual acontece de tantos jeitos e não depende de um pinto. Cada um, e cada uma, alcança a plenitude das sensações, ou busca essa plenitude, em lugares diversos e distintos. E que bom. Duas mulheres (ou mais se formos ainda mais criativos) podem se explorar livremente e com possibilidades múltiplas de satisfação. Pernas firmes, encaixes muitos, dedos, línguas, quadris, seios, pele. Combinações diversas e incontáveis. Para mais.

E garanto-lhes, por fim, que elas não são “mau comidas” (muitos antes pelo contrário), ou tem algum tipo de trauma com o masculino (pode ser que a violência de gênero – infelizmente ainda tão usual – tenha deixado marcas fortes, mas estamos aqui em outra janela). Apenas tem outra busca, nem mais nem menos. Essas mulheres apenas descobriram novas possibilidades de gozo e prazer. E tá tão bom ali, mas tão bom, que não cabe mais. Ou quem sabe um dia.

Vocês podem ir para casa cantando outra música. Sempre existirão aranhas para as suas cobras. Agora deixem em paz as que estão brincando com outra aranha no fundo do quintal. Tem lugar para toda troca e todo espaço é pouco para o desejo. Machismo, homofobia e violência é que estão por fora, seu Raul! Essa é a transa que não é normal e que aqui, nesse clube, a gente repudia e deixa de fora. Porque de resto, pode tudo. E tudo é normal quando se trata de ter prazer.

A Esquiva ou Somos Sempre Culpadas

Essa semana assisti “A Esquiva” um filme do qual nunca tinha ouvido falar (mas isso nem é novidade, sou mesmo desinformada, desligada e vários outros “de” como devassa, mas acho esse não vem ao caso dessa vez). O certo é que vi. “A Esquiva” (L’Esquive, 2003) é um daqueles filmes com cara de baratinho que agiganta sua forma via conteúdo. Dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche, tem um enredo aparentemente simples e lança um olhar sobre jovens de um bairro na periferia parisiense.

O filme me conquistou pela interpretação cativante dos atores e pelo movimento pendular entre dureza e delicadeza no tratamento dos dramas dos personagens, especialmente das meninas/mulheres. O filme está cheio de personagens femininos. São elas que conversam, que agem, que gritam. Qual não foi minha surpresa ao começar a me preparar pra escrever este post lendo (as poucas) resenhas que encontrei e vendo-as, todas, centradas no personagem masculino, Krimo, e sem nenhuma palavra sobre o que recai sobre as meninas: os julgamentos, as obrigações, os papéis sociais, as queixas, as responsabilidades pelo seu próprio desejo e pelo desejo do outro.

Elas falam, agem, gritam...e sofrem.

Elas falam, agem, gritam…e sofrem.

Mas vamos por partes, o cenário: a periferia de Paris, uma escola, os ensaios pra apresentação de uma peça.  Os personagens: adolescentes. Os pesos: as paixões em ciranda, o fato de serem minoria étnica, os padrões e reputações que “precisam” ser mantidos. Krimo é um adolescente retraído que, ao terminar um namoro, apaixona-se por uma colega de sala. Esta mesma colega é a atriz principal da peça ( ”O Jogo do Amor e do Acaso”, de Marivaux) que é ensaiada na escola. Para estar perto dela, entre outras coisas, Krimo suborna um colega para atuar como par romântico na peça.

Uma das coisas mais interessantes do filme, na minha opinião, é o confronto entre a linguagem da peça ensaiada (rebuscada, elaborada) e a linguagem dos adolescentes (direta, corrente, simples). Outra coisa interessante é a forma como se relacionam “arte” e “vida”, como a trama da peça (pessoas que se fazem passar por outras pra seduzir) se enreda com os amores e dramas juvenis. Há ainda o mote da peça que se coloca como pergunta que atravessa o filme: somos determinados pela nossa classe social, geografia e cultura? Somos presos ao de onde viemos? A linguagem é mais um personagem na trama, ela não leva ao entendimento, ela é expressiva mas não faz convergir, antes isola, separa, cinde. É o que não se pode ou não se deve dizer que aflige os jovens.

Há muito a se falar sobre o filme, especialmente como ele foge dos lugares comuns sem, no entanto, subtrair-se das questões difíceis, sem calar-se sobre o cenário político e social que opera sobre os protagonistas. O filme não vai tratar de integração dos imigrantes, de roubos e marginalização, de diferenças culturais ou religiosas, mas está tudo lá, sutilmente implicado, os pais na prisão, a impaciência da professora, a brutalidade dos policiais. O pulo do gato está em imbricar estes elementos aos mais universais – o romance, as dificuldades de passar da infância à idade adulta, as relações de amizade – e, assim, criar uma dinâmica em que se ultrapassam os estereótipos comumente usados para tratar deste cenário.

Lydia (Sara Forestier) em "A Esquiva"

Lydia (Sara Forestier)

Mas eu não escolhi falar deste filme pra tratar de nada disso. Eu escolhi falar desse filme por causa da Lydia. A primeira vez que vemos Lydia ela está negociando o vestido com que interpretará a personagem principal da peça. É tocante o seu entusiasmo, a sua persistência, a sua entrega. É a Lydia que ocupará o centro da ação dramática embora ela tenha pouco interesse em qualquer outra coisa que não seja a peça. Mas, mesmo assim, independente do seu interesse ou desejo, ela é convocada. Eu explico. Krimo se apaixona por Lydia e, a partir daí, ela é cobrada por todos os lados como se tivesse uma obrigação por ter “despertado” esse sentimento. Ela é xingada de puta e oferecida pela ex-namorada do Krimo (como se o “bom moço” só pudesse ter sido envolvido de forma passiva, como se ele tivesse que ser seduzido pra desejar) quando ainda desconhecia que o amigo agora fosse um apaixonado. Quando Krimo enfim se declara e ela pede um tempo pra decidir se quer namorar ou não é julgada pelas amigas como se uma mulher não pudesse pensar pra decidir sobre si mesma, tem que saber “na lata”, se não agir assim é porque está jogando, “fazendo doce”, etc. A sua dificuldade de saber se quer ou não ou mesmo a sua dificuldade de ceder ou negar ao seu desejo é ignorada por todos e tratada com violência e segregação.

Lydia é como uma qualquer de nós na boca de tantos: biscate se enuncia seu desejo, biscate dissimulada se não é capaz de fazê-lo. Assisti com aquele desconforto de reconhecer tanta gente e tantas situações parecidas: a mulher é culpabilizada pelo que “provoca” no outro e qualquer violência contra ela é justificada com “alguma coisa ela deve ter feito pra merecer isso”, a mulher é responsabilizada por coisas diversas que passam por usar uma minissaia e assim está “pedindo” a cantada, a passada de mão, o estupro até a justificativa por ter sido espancada ou morta por não “avisar” ao parceiro que é uma mulher trans. O filme não foge a essa cobrança em relação à mulher (fico pensando se foi intencional, torço que sim), a todo momento parece que se pergunta: porque ela não se decide logo, ora? Como se fosse um grande favor do moço tão legal se interessar por ela.

À Lydia (e às meninas, moças, mulheres, de maneira geral) não é concedido o benefício da dúvida. Não é aceitável que ela pense, que ela pare, que ela não tenha certezas. Ela é um corpo de mulher a ser dado ou negado sem reflexão, automaticamente, porque o corpo feminino é público até ser requisitado por alguém. Aí passa a ter “dono” – que não é a pessoa a quem o corpo originalmente pertence, atente-se.

“A Esquiva” é um belo filme, daqueles tão ricos e complexos que, certamente, atinge os diversos expectadores de diversas formas. Eu acho que nunca vou esquecer o tapa que uma das personagens recebe apenas porque é mulher e amiga. Vai doer aqui nessa biscate aqui um tempão.

Quando perco o equilíbrio!

Amanhã é um dia importante para pessoas que lutam contra a pedofilia! Esse assunto me tira de.órbita, me faz perder o equilíbrio. Sou uma mulher sexualmente ativa, feliz, mas fui uma criança vítima do abuso sexual. Fui também uma adolescente vítima do abuso, cantadas, passadas de mão. Mas, meu trauma vem de infância, desse primeiro abuso, numa idade tão inocente, onde nada deveria me fazer mal, onde deveria ser protegida. Proteção essa negada por uma das pessoas que deveria fazê-lo para proteger o abusador das acusações!

http://www.comitenacional.org.br/o-que-e-18-maio-000.php

http://www.comitenacional.org.br/o-que-e-18-maio-000.php

Essa semana discuti com os colegas de trabalho, chefe, uma psicóloga e advogado sobre o ECA, maioridade penal e violência sexual contra crianças e adolescentes. No momento em que falavam sobre violência sexual infantil, sobre a vítimas e x abusadorxs eu me encolhia, bambeavam as pernas, via tudo tremido. Como profissional, eu fiquei, fui mais forte, mas o assunto me faz mal, sou frágil a essa sensação de dor alheia, pois se assemelha a minha.

Apesar da vida ativa de Biscate sexual e politicamente, tenho traumas que nunca entendi mas são desencadeados pelo abuso na infância. Tenho um certo incômodo com visualizar sexo, filmes pornográficos, em sua maioria, me brocham, a voz muito próxima ao timbre da voz do abusador me incomoda. E o pior dos traumas, não consigo falar sobre o acontecido com a parte da família que fingiu que nada ocorreu. Demorei para perdoar esse grupo de pessoas, como um ser humano passível de erros, eu comecei a minha jornada de perdão.

O curioso é que eu me sinto menos mal com o fato do abuso do que com o fato desse abuso ter sido encoberto por pessoas que deveriam me amar. Não pergunte o motivo, só sei que passei muito tempo lutando contra a ideia autodestrutiva que não era digna de ser amada, que meu abusador merecia mais ser amado que eu.

Fui uma adolescente incomodada com o amor, demorei a amar. Sentia que se me liberasse para amar seria abandonada, preterida a qualquer outrx indivídux, não tinha valor para mim mesma, era o lixo do lixo! Como acreditar no amor se eu mesma não sabia me amar?

Foi com análise, arte, amor e muita vontade de amadurecer que aprendi que não era a culpada disso tudo. Aceitando a realidade, de que uma pessoa sou admirável, mas que, infelizmente, tenho alguns familiares machistas! Vivi por anos muito bem, até quase passar por isso novamente. Sim, passei pela tentativa de abuso sexual de um parceiro, que não viu, em momento algum, motivos para eu chorar, para eu pedir para que ele parasse. Eu estava distorcendo o amor dele, vendo tudo errado! Esse indivíduo, na minha opinião, tinha características de pedófilo, por histórias que me contou. Complicado saber quando um homem não vê diferença de idade como impedimento ou quando sua atracão por mulheres mais novas beira a pedofilia. Sem contar a possessividade, controle da vida de sua parceira, como se você fosse um cachorrinho preso em um canil. Incapaz de compreender o coração, a opinião e a decisão de sua parceira. Qual o motivo de ficar com uma pessoa assim? Fraqueza, talvez. Fui fraca, não reparei nos detalhes? Sei lá. O que sei é que meu corpo viu de novo aquele filme passar na frente dos meus olhos, enxergava ambos abusadores tão parecidos ao olhar seus rostos e eram fisicamente tipos opostos!

Estou convivendo, sobrevivendo com os traumas, que me fazem me sentir cada dia mais forte! Abuso sexual na infância, abuso sexual de um parceiro e assédio sexual, fantasmas meus que estou exorcizando. Acho válido falar disso por aqui, mesmo sendo um Blog divertido e irreverente! Nunca é demais falar sobre esse tipo de trauma!

Assenta a polêmica, sobe o chorume

Por Cíntia Morais*, Biscate Convidada

Todo mundo viu a polêmica dos R$ 100,00?

[Pra quem não viu, aqui está]

Pronto, passou polêmica, certo?

Não. Vamos esclarecer algumas coisas: Estávamos discordando e conversando a partir do que tuitou a moça. Em algum momento alguém disse que não ia comentar mais nada porque a opinião automaticamente seria ofensiva. A moça que iniciou a conversa depreendeu que seria chamada de puta – por uma feminista, veja só, como se fosse cabível, mas decerto era o que ela queria ouvir para poder se justificar naquela confusão de suas declarações. E fez um texto em cima dessa ‘falácia’, “dessas feministas que chamam outras mulheres de puta” (esse aqui, ó), construindo toda a argumentação em cima de algo que não aconteceu, ridicularizando uma luta na tentativa de fazê-la parecer incoerente, para justificar a sua própria. Isso só me faz ver como o texto é um grande buraco que nem a autora sustenta. Que bom! Estranho seria se com premissas verdadeiras ele continuasse a fazer sentido. No mais, ninguém ia chamá-la de ‘puta’, era só ‘babaca’.

Usando dessa premissa falsa, o texto foi um sucesso, afinal, não cansamos de ver mulheres com síndrome de princesa, como bem definiu Nina Lemos: independentes, donas de si, mas que não resistem e fazem questão de serem tratadas como princesas, bonecas, damas.

Isto posto, agora acabou? Não.

Hoje pela manhã fui convidada por uma jornalista a conceder uma entrevista sobre “esse curioso/interessante e instigante” ponto de vista que vai contra o “machismo benevolente” e que prega o “anti-cavalheirismo”. A mesma jornalista que já tinha dito sobre o caso: “cuidado para numas de ser contra o machismo vocês, garotas, não ficarem DURAS demais, ok”?

Não. Não acho que ficaremos duras, querida. E se ficássemos, não vejo problema, nada nos obriga a ser dóceis.

voto-feminino

Entrevista não concedida. Ainda que a jornalista insistisse que não seria um artigo opinativo e, sim, uma reportagem, acho que de saída tudo já estava errado. Que divirjamos nesse tipo de questão, não é sobre ela ter uma opinião diferente da minha apenas, é sobre dar crédito e chance para que isso se perpetue, é estar do lado que concorda que uma opressãozinha ‘de nada’ não faz mal a ninguém. Machismo benevolente, assim como homofobia benevolente e escravidão benevolente são coisas que não existem.

Sem esquecer do uso do termo anti-cavalheirismo, que reforça essa imagem de dureza que querem impor às feministas. Como se nós estivéssemos lutando contra algo bom, inocente, como se rejeitássemos algo bonito que estão fazendo pela gente. Feminista ingrata, essa anti!

Como está bem desenhadinho nesse texto do Pedro Munhoz: “O cavalheirismo não é gratuito e pouco tem a ver com gentileza ou empatia: é um código cultural que só faz sentido se considerarmos que as mulheres a quem esse código socorre são inferiores. Prova disso é que mulheres também podem ser gentis ou empáticas, mas apenas homens podem ser cavalheiros. A palavra que se quer como o feminino de “cavalheiro” na língua portuguesa, “dama”, carrega em seu significado papéis sociais distintos e complementares ao dos seus pares do sexo oposto: a dama é frágil, comedida, discreta, não lida com dinheiro, anda bem vestida (“sem vulgaridade”) e tem, no máximo, uma profissão compatível com sua “feminilidade”. Se o cavalheiro é um controlador, a dama é um ser dócil, domado, que atende a todos as expectativas de um ideário machista e elitista.”

E, destaque-se, como fez o Alex Castro: O indivíduo cavalheiro, que trata sua mãe e sua noiva de maneira gentil e benevolente (porque elas merecem, porque são dignas, direitas, honestas) é o mesmo cara que vai exercer sua dominância e seu machismo hostil sobre as mulheres ditas não-direitas, sobre as vadias e sobre as vagabundas, sobre qualquer um que não conforme ao ideal tradicional de mulher. Quem é considerada “fácil” provavelmente não vai merecer as benesses do cavalherismo. Mais ainda, o cavalheirismo é como o machismo premia as mulheres que são da cor certa e da classe social certa.

Gentileza e carinho independem de gênero. Ser cavalheiro é subestimar, é pressupor que mulheres não podem desempenhar certas tarefas, que são damas e que seu papel na sociedade é de enfeite – devemos ser delicadas, virtuosas, maternais, pacientes, “esperarmos pelo nosso amor e sermos só perdão”. Obrigada, mas não.

De novo sinto aquela sensação de estar batendo na mesma tecla, seguida da sensação de parecer necessário bater nessa mesma tecla.

No mais, quando os relacionamentos não se calcarem em cavalheirismos e em outros papéis de gênero, ficará mais fácil entender que do gênero sequer dependem nossas relações.

cintcha*Cíntia Morais é ex-jornalista, feminista e caipira.

Poesia e Rap contra a menoridade penal

Por Antonio Miotto*, Biscate Convidado

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Volta e meia a discussão da redução da maioridade penal aparece como a solução para a violência. Mais do que uma solução mágica que não existe, essa discussão traz em si o preconceito social e o racismo estruturais da nossa sociedade embutidos. Recomendamos um excelente texto publicado ano passado no Blogueiras Feministas. Lá, diz a jornalista Cecilia Olliveira:

De 60 milhões de crianças e adolescentes, 60 mil cometem algum tipo de delito, que pode ser desde um furto de um vidro de xampu a um homicídio. Ou seja: 0,1%! O maior número de crimes cometidos é em relação ao patrimônio. No país há NO TOTAL, 1600 homicidas.
Redução da maioridade penal não faz nenhum sentido. É apenas mais uma vertente do “vamos tirar o sofá da sala”. Em média, para cada dez mil adolescentes, entre 12 e 17 anos, há 8,8 cumprindo medida de privação e restrição de liberdade, o que representa 0,09% deste universo. Ou seja, 0,9% do total de adolescentes do país comete delitos e as pessoas querem alterar a vida de 99,1% deles.

Até o ministro da Justiça reconhece que não é solução. José Eduardo Cardozo disse nessa segunda-feira passada, 13 de maio, que reduzir a maioridade penal é “inconstitucional” e só poderia ser feito com uma nova Constituição. Disse ainda que somente mudar a lei “não resolve” o problema de segurança pública e apenas “maquia” a realidade.

E já que a discussão é cíclica e sentimos os Direitos Humanos e garantias individuais em risco nesse momento no país, se iniciou um movimento social para combater a ideia da redução da maioridade penal. Uma campanha está rolando há quase um mês para que rappers e poetas/poetisas gravem vídeos com rap ou rima de protesto sobre o tema. A essa campanha se somaram poetisas e rappers mulheres.

Carol Peixoto, poetiza de rua -- Foto Antonio Miotto

Carol Peixoto, poetiza de rua — Foto Antonio Miotto

Tati Botelho cantando seu rap -- Foto Antonio Miotto

Tati Botelho cantando seu rap — Foto Antonio Miotto

Rap da Luisa Valente:

Rap da Lurdes da Luz:

Rap da Tati Botelho:

E a poesia da Carol Peixoto:

Se você sabe fazer rap e ficou interessado em dar sua contribuição, faça sua rima. Os vídeos podem ser gravados com webcam ou celular, à capela — a ideia é focar na mensagem — e enviar para o email contramaioridadepenal@gmail.com

Redução da maioridade penal é assunto hoje também no Blogueiras Negras. Vai lá conferir o excelente texto da historiadora Letícia Maria, ela até “desenha” e apresenta uma lista de dez motivos para sermos contra a menoridade penal.

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Toni*Antonio Miotto (Toni) é um paulistano que há 47 anos transita quase que por toda a cidade, historiador por formação, e abraçado profissionalmente a uma lente como giz. Um atento observador social caminhando e pedalando na megacidade com uma câmera na mão, que acredita na integração do sujeito com o seu contexto social.

Quem garante?

Apesar da correria insana, ontem arranjei um tempo para ouvir música. Porque proporcionar alguns momentos (ainda que mínimos) de prazer era fundamental para mim num dia f*dido como foi essa última segunda-feira.

cachorro música

Ownn… *-*

Entre um álbum e outro (dos trocentos mp3 guardados no celular) e uma estação e outra de metrô, me deparo com Tiê (é, nem só de rock são feitos os ouvidos da biscate que vos escreve). Mais precisamente, a canção Perto e Distante. E comecei a prestar uma atenção especial na letra:

 

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que seguindo adiante eu possa enfim viver?

Sem me comparar
Sem entristecer
Sem tentar mudar
Sem poder entender.

Não dá
Eu vou ter que sair pra poder voltar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro enxerga?

 

idealização

Idealizando…

Acho que todo mundo já teve a mesma sensação que eu: “puxa, a música certa no momento certo”. Momento este em que eu estava pensando justamente em como a gente idealiza tanto os sentimentos e as pessoas a ponto de achar que elas são “perfeitas”. A ponto de achar que elas devem fazer exatamente aquilo que a gente gostaria que elas fizessem. A ponto de julgarmos que as atitudes do outro deveriam acontecer de acordo com o que acreditamos ser correto ( eu já disse que odeio demais essa palavra???).

Eu estou tentando “aceitar” (juro) que somxs feitxs de carne, ossos, erros, acertos, escolhas e anseios. Mas é difícil!!! Idealizar é tão reconfortante. Tão cômodo. Tão menos amargo do que armar-se da mais pura racionalidade. Tão mais rápido do que procurar em algum lugar dentro de nós o “tal” do bom senso…

Você garante que o que você é, é o que o outro enxerga ou espera de você???

Abolição, ou pelos olhos do lobo*

Meu lugar em casa sempre foi a cozinha. O lugar onde sempre me identifiquei. Onde sempre brinquei com as panelas entre as pernas da minha mãe; onde sempre ajudei a tomar conta dos meus irmãos; onde sempre fiz todas as refeições, sem exceção para escapadelas na sala vendo televisão; onde sempre fiz meu dever de casa e estudei; onde sempre conversei sobre tudo e ainda converso. A cozinha é o meu lugar em casa.

Filho Bastardo - Adriana Varejão

Filho Bastardo – Adriana Varejão

Ainda que de família pobre, mas de imigrantes europeus e sírio-libaneses (com um passado caboclo e indígena tão no fundo que não é sequer possível identificar), a trajetória da minha família sempre esteve fadada a cumprir a “Boa Nova da América”. Crescer, multiplicar, vencer na vida e dar trabalho a quem precisa. E, nisso, se dar ao luxo de ter, ainda que passando de classe média-baixa, média-média e média-alta, conforme o tempo, empregadas pra a tranquilidade da família.

Não me lembro de ter ficado, durante minha vida, muito tempo sem empregadas. E, vivendo num estado esbranquiçado como o é o Espírito Santo, não raro elas foram de todos os tipos e lugares, mas principalmente mineiras e baianas, negras. Mulheres das mais diversas características. Mas a cor não era um senão, ou pelo menos a entendia como se não fosse.

Viver em áreas de transição, estudar em escola pública, brincar na rua sempre me possibilitou um contato muito grande com negros. Isso sempre me fez senti-los como próximos, mas sempre diferentes, por uma simples questão de status social, afinal, eu sempre era, na infância, da família de melhor condição de vida, o filho do funcionário público, aquele cuja família tinha empregada, lavadeira e que, claro, não tinha negros na família.

Em um tempo (isso remonta há pelo menos 25 anos atrás) em que a injúria não era velada, cresci ouvindo e utilizando os piores registros linguísticos para denominar um negro! Piadas de toda sorte, que meus colegas negros da rua também contavam e riam. E ainda hoje alguns são capazes de rir, dizendo que se não rirem da própria desgraça não podem rir de nada…

Mas foi principalmente na cozinha, onde sempre recebi o cuidado das empregadas, que conheci o que era, naquela época, ser negro. Conviver com mulheres que abdicam da própria família, dos próprios filhos, da própria personalidade para passar oito, nove, dez horas por dia, a semana inteira na sua casa é um aprendizado. Cruel, mas um aprendizado. Não entender como isso remonta a uma necessidade diariamente auto-afirmada de sobrevivência é criminoso.

Na cozinha da minha casa vi mulheres de todos os tipos, jeitos, caracteres, credos, estimas e estigmas. Conversei com todas, convivi com todas. Fui mimado, educado, aconselhado, recriminado por todas. Não que tivesse pais ausentes, pelo contrário, mas quando se passa muito tempo na cozinha de casa, é impossível não atrapalhar o serviço das empregadas com coisas de crianças!

Carpeaux  - "Pourquoi naitre esclave" - Abolição

Carpeaux – “Pourquoi naitre esclave” – Abolição

Essas mulheres nunca se mostraram a mim como vítimas e também nunca as vi assim. Quando já “grande” e nas melhores escolas e segundo grau, quase sem negros em volta, mas ainda com empregadas (e, agora, com todos ao meu redor na mesma situação), nunca consegui me curvar ao discurso da vitimização. As mulheres que, durante a minha infância, ajudaram a formar aquilo que sou, nunca me deram essa idéia, nunca se colocaram de um ponto de vista frágil. Pelo contrário, sempre me foram um modelo de que a vida se vence, pela luta e por todos os meios que a condição de inferioridade se nos colocam nessa luta.

O que eu entendi, depois com minhas aulas de história, geografia, sociologia, filosofia, direito, ética, é que essas mulheres são o exemplo velado de um falso modelo de sociedade. Essas mulheres, em sua abnegação ao próprio, em sua vulnerabilidade ao individual, em sua atenção (as vezes extremada, as vezes branda, as vezes negligente) àquilo que não lhes pertencia por ser seu, mas por buscarem nisso (a minha família) a própria sobrevivência, me deram uma dimensão de respeito ao outro que não tenho como recusar.

E essa consciência, tampouco, representa algo que me assumiu em uma epifania. Ninguém acorda no dia seguinte ao ler Casa Grande e Senzala e se dá conta disso. Ao contrário, muitos que leem Casa Grande e Senzala (e se regozijam com isso) apenas o reproduzem de forma mascarada. E é recorrente aquilo que vejo e aprendo na cozinha de casa.

Ao longo dos anos, foram essas mulheres que me trouxeram o cheiro da realidade que só me pintava às mãos pela tinta dos jornais, ou apenas me era aceso aos olhos pela luz da televisão. Foram essas mulheres que me trouxeram o outro lado da realidade, a que se vive e que, em certo sentido eu convivi na infância, mas que hoje não faria parte do que me é dado (ou do que procuro) conhecer do mundo.

É só por essa realidade que sou capaz de entender que, em 125 de abolição, o que a sociedade em que eu vivo representa é um recorrente choque de ordem. Choques de ordem que se empenham em conceder migalhas de direitos. Choques de ordem que buscam encobrir um estado social em que o trabalho e o esforço só são capazes de gerar a sobrevivência, mas nunca a vitória.

Choques de ordem que mantém pobres, os miseráveis; negros, os criminosos; e as mulheres que trabalharam ao longo dos anos na minha cozinha, as mesmas mulheres que, sem motivo nenhum para ter vergonha, continuarão lutando pela própria sobrevivência e abdicando das próprias vidas. E não se trata só de pensar em “o que é que eu posso fazer para mudar isso?”. Abolição não é algo que se faz, abolição não é algo que se entrega e se diz “vá, agora és livre, cuides da tua vida, deixes de ser aquilo tudo que sempre fostes e muda”.

Abolição é como a sociedade vive e se constrói e, perdoem-me, as mulheres que entram na minha cozinha todos os dias de manhã só são capazes de me mostrar, ainda, que essa abolição não é plena. Não é plena, porque mesmo com as subsequentes conquistas e dádivas de direitos, ainda não fomos capazes de reconhecer no outro aquilo que queremos como sociedade para nós. Ainda não somos capazes de aquiescer no outro a legitimidade na luta e a busca por oportunidades, por mais impossíveis que às vezes elas pareçam.

Estamos longe e considerar próprio que libertos tomem, quaisquer que sejam os meios legais ou legítimos que os levaram lá, lugares de destaque, sem ouvir, nos mais diferentes tons possíveis a reprovação acompanhada, não raro, da expressão (quando muito bem politicamente correta colocada) “aquele negro”.

Enquanto a cor, o sexo, ou condição continuarem a ser um parâmetro de identificação na nossa sociedade, não se enganem, a abolição ainda não terá chegado. Enquanto for necessário ver na ação e na conquista algo que tenha que ser tomado como igual ao invés de sê-lo, nossa realidade ainda estará fadada a criar meios de exclusão. Enquanto a cidadania tiver que ser celebrada como um meio de conquistas esparsas e não como um âmbito da satisfação de direitos, ainda estaremos apenas reproduzindo um vulto daquilo eu nos foi posto como liberdade.

E é isso. Em 125 anos de abolição, a noção de fraternidade foi a que menos se esboçou para nós. Aqui, vista pelos olhos do lobo e através dos exemplos diários que entram e saem da minha cozinha, parece que uma tensão cada vez maior se forma e que conquistas ou dádivas são capazes de criar celeumas impensáveis em nome do status vigente. A abolição da escravatura, jamais significou e ainda não significa a plenitude de direitos, ela sequer tergiversou sobre o reconhecimento do outro como igual em direitos.

É esse reconhecimento que, pela busca da própria sobrevivência, essas mulheres me trouxeram e ainda trazem. É esse reconhecimento que, hoje mais claro pra mim, me parece negligenciado por um discurso do que deveria ser próprio e meritório a cada um, quando na verdade não é. Abolição não se trata só de permitir, seja em que nível for, que os demais sejam livres, trata-se de viver isso!

*Post vinculado à Blogagem Coletiva pelos 125 anos de Abolição, convidado pelo Blogueiras Negras.

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Às mães possíveis, um domingo qualquer

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Mães de Cesárea ;-)

Vocês já sabem que a gente é do contra, né? Então, não esperavam uma homenagem de dia das mães aqui, certo? Errado. Até pensamos na possibilidade. Mas, não rolou. Sabem por que? Porque a gente é biscate, oras. Porque dentre nós as que são mães não são especiais, santificadas, abnegadas ou “a melhor mãe do mundo”. É capaz até de estarmos entre as piores, se levarmos em conta os critérios usados para definir “as especiais”, as de comercial de margarina.

Somos mães possíveis, humanas, falhas, “de cesárea”, imperfeitas. Mas ainda assim, mães. Porque é assim, ué! Por um conjunto de decisões ou circunstâncias tivemos nossos rebentos, mas defendemos o direito de escolha de cada uma não ter, de não passar por essa experiência se assim julgar mais conveniente para si.

Mas é preciso dizer que para as mulheres que decidiram ser mães que isso não as transformou num modelo de maternidade, nem as absolveu de pecados previamente, menos ainda lhes conferiu um caráter de santidade. Não precisamos da redenção conferida (por quem, mesmo?) pela maternidade para o pecado do prazer. Porque do pecado, digo, da fruta do prazer continuaremos comendo até o caroço. E continuaremos sendo humanas, falhas, tortas, erradas, errantes, às vezes, certas e acertantes, às vezes perfeitas (nem sempre exatamente no que esperavam).

E é para essas mães, as mães possíveis, as mães biscates, da vida, com seus rebentos gratos pelo cumprimento do nosso papel ou não — rebento de biscate tende à revolta, sabem comé… –, que desejamos que esse domingo seja apenas um domingo qualquer, com suas chateações e alegrias, brilhos e sombras e que sobrevivamos a ele sem maiores desgastes e sigamos a vida, na luta por liberdade e libertação das amarras, caixas e papéis pré-definidos que tanto nos desumanizam e nos distanciam de nossa essência.

Liberdade para não morrer

Já estamos em clima da Marcha das Vadias no Brasil (clique nas siglas para ver a página de cada Marcha: RJBSBBH – SP – indiquem as que não achei, que vou acrescentando). Em Quito já rolou a Marcha das Putas e eu achei tão mais bacana esse nome… :P

E por que a Marcha das Vadias é necessária? Por que além dos desafios do feminismo não estarem superados ou vencidos (como disse no meu último post — sim, esse é uma continuidade daquele), o machismo é estrutural e estruturante dessa sociedade em que vivemos e sustentamos (e sustentamos inclusive o machismo, não se iludam) e sua face mais perversa é a violência sexista, que inibe, obstrui, marca, mata e nos impede de viver livremente.

Avançamos muito, é verdade. Mas, nenhum avanço foi de graça ou veio desacompanhado de dor e da perda de muitas mulheres. Ou seja, o caminho da luta pela libertação das mulheres é ladrilhado pela vida de muitas de nós. Então, muito-muito-muito respeito e cuidado ao se referir, lidar ou andar nesse caminho. E esse recado vale para  a presidenta Dilma Rousseff e para a secretaria de Políticas para as Mulheres Eleonora Menicucci. Não basta ser mulher e estar num cargo de poder, tem que usar esse cargo e todos os recursos possíveis e oferecê-los às mulheres para que possam usá-los na luta contra sua opressão. Ou de nada adianta essas mulheres ocuparem esses cargos.

E por que citei Dilma e Eleonora? Porque o governo Dilma usou menos de 30% das verbas previstas no orçamento para o combate à violência contra a mulher nos anos de 2011 e 2012. Dá vontade de chorar, sabe? Porque essa decisão, burocrática, administrativa, de não comprometer o orçamento previsto condena milhares de mulheres à morte e à tortura. Todas nós que já brigamos por políticas públicas e sempre esbarramos nas desculpas “não tem orçamento para isso” sabemos que ter esse orçamento destinado a combater violência consumiu anos de luta feminista e essa conquista está sendo jogada no lixo.

Não estamos falando de possibilidades. Mulheres morrem por falta de políticas públicas efetivas de combate à violência. Então, além da Marcha das Vadias fazerem sua tradicional reivindicação pela liberdade e o direito de ir e vir vestidas como bem quiserem sem sofrer violência, faço um apelo para que incluam essa pauta.

Para que liberdade? Para não morrer.

Liberdade para não morrer. Coisa de mulher, nesse mundo, no Brasil do séc. 21.

Essa Gente Sem Vergonha

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

O convite da Lu já quase caducou antes de eu fazer minha estreia no Biscate. Em minha defesa, digo que tive um início de ano atípico (ou, pelo menos, assim espero, pois se isso for ficar comum, acabarei numa camisa de forças). De início, eu tinha combinado que escreveria sobre a Mary Wollstonecraft (tipo: biscatage também é cultura), mas ainda não é o momento. Depois pensei em escrever sobre a magnífica Mae West, uma das minhas biscates favoritas (o que era aquele andar, gente?), porém ainda não rolou. Se alguém quiser escrever sobre ela, pode avançar o sinal que eu deixo, incentivo e facebookeio.

BEIJINHO , MARIA SEMVERGONHA

Maria Sem Vergonha: fazendo jus ao nome, encostada no pau.

Então, acabei achando que não tinha melhor jeito de fazer meu outing no Biscate do que escrevendo sobre “essa gente sem vergonha”. Bem claro que não estou me referindo a corruptos e ladrões. É o “sem vergonha” noutro sentido, sabe? É, aquele… Pois é. Acabei ficando meio obcecada com essa coisa de ter vergonha e ser sem vergonha e como isso mexe com os nossos sentidos, com a libido e com o que queremos que os outros pensem da gente. A coisa toda me surgiu com a Marcha das Vadias. “Pôxa, a causa é show, mas eu teria vergonha de andar por aí com uma placa escrita: sou vadia.” Ouvi essa de gente insuspeita, surpreendentemente desconfortada com ouvir para si o termo que usa para xingar as outras. “Por que esse nome? Bradaram moralistas e machistas enrustidos. “Querem ser levadas a sério? Usem outro.” Respondo sempre que, quem se choca com o termo vadia, certamente não entendeu a ironia.

Não é diferente quando indico o Biscate para leitura. “O quê? Aquele blog de gente sem vergonha?” É, é sim. Só que, se é para brincar e ser subversivo com a história das palavras, então, vou dizer que o pessoal desse blog tem vergonhas sim. Só que não as esconde. As coloca à mostra, as deixa a nu, não tem vergonha de exibir suas vergonhas.

O fato é que, do meu ponto de vista, ter vergonha (ou vergonhas) não é problema, colocar folhinha de parreira sobre ela, é sim. Expor o que se pensa, num mundo tão limitado pela hipocrisia, é sempre obsceno. Dizer o que se quer, numa sociedade moldada a que todos digam apenas o que se quer ouvir, terá sempre um componente subversivo. É como deixar as vergonhas bem altinhas e peludinhas todas de fora (lembrando o anuncio de Caminha sobre as gentes destas paragens). É o que se encontra no Biscate e é por isso que passei a ler o blog e depois indicá-lo. Porque, na minha lógica, sexo não é vergonha. Nem desejo, nem tesão. Vergonha é ter regras que se apliquem mais aos outros que a si mesmo. Vergonha é patrulhar o cu alheio.

Passado o primeiro choque, muitos se deixam convencer e há os que estacionam em gradações intermediárias. O interessante é que entre os renitentes, os que se vergonham com simples palavras, estão os que, em grande parte das vezes, acham que estupro só acontece com quem “tá pedindo”; que criança de 8 anos que aparece grávida “era bem sem vergonhinha”, pois não tem sinal de violência. São os mesmos que idealizam a única e “verdadeira” vítima de estupro: bela, virgem, jovem, “decente”, com corpo escultural e roupas doadas pelo Exército da Salvação, agarrada por um desconhecido, em plena luz do dia (oh!). São os mesmos que acham que piada envolvendo violência sexual e doméstica, mulheres grávidas e espancamento de gays são: “poxa, só uma piada”. Aí, essa mesma gente se envergonha do que? De sua falta de noção? Não, de palavras. Palavras bobas, com um significado cultural eivado de preconceito como vadia ou biscate. E chamam de sem vergonha quem as usa assim, sabe, sem vergonha nenhuma, quem brinca com a história, quem subverte e expõe a tolice dos rótulos que só servem para cercear a liberdade.

Se o rumo disso pode ficar pior, contabilizem comigo. E acompanhem o raciocínio deste povo que se acha moral e cheio de vergonha na cara.

É feio e coisa de “sem vergonha” falar de sexo na escola e se fornecer educação sexual para crianças e adolescentes. Contudo, crianças abusadas que não sabem identificar a agressão por mal entenderem o que lhes acontece, tá na boa não é? Ensiná-las a se defender, nem pensar.

O mesmo vale para a gravidez adolescente, quase epidêmica, abortando a vida de um sem número de meninas – ou pelo aborto mal feito mesmo ou por terem de criar outra criança sem ainda deixarem de sê-lo. Muitas destas meninas ficam sozinhas nesta tarefa imensa de cuidar de crianças, enquanto os pais, irresponsáveis como os garotos (quase meninos) que são, continuam a sair, ir à escola, à balada. Algumas têm sorte (?), são assumidas (?), casam e com 14 anos já são totalmente mulheres, isto é, não tem mais direito a estudar, têm filho pra criar, casa para cuidar e gerenciar e uma mini-troglodita a lhes regular os passeios, a saia e a vida. Alguém que lhes diz que “mulher minha não faz isso ou aquilo”. Mas, claro, a culpa é da menina, não é? Quem mandou ser sem vergonha? Quem mandou ser curiosa e jovem? Sexo, afinal, é uma coisa feia, a ser evitada, mas, aparentemente, filhos aos 14 anos (ou menos) não. A educação que tudo lhe escondeu não tem culpa nenhuma, pois nunca se falou, explicou, nem se estimulou o sexo. Sabe? Aquilo que não é falado, simplesmente, não existe. Como se precisasse falar? Lembram-se do filmezinho tolinho Lagoa Azul? Pois é, ignorância total e ainda se descobriu como é que se faz. Ninguém precisa ensinar a transar, se aprende. Ensinar a não ter filhos… ah, isso, bem, hã, é… desconversam. Afinal, o problema é que não se deve fazer sexo, certo? Isso é que tem que ser coibido. Mas, se fizer e o filho vier, foi deus quem mandou e é uma benção. Mesmo que a pobre criatura não tenha corpo ou estrutura. Mesmo que a vida dela e das crianças que tiver tenho como destino o abuso e a miséria. (O aparente exagero não se refere, certamente, aos casos felizes, as exceções que, de fato, só servem a confirmar a regra). Evitar é pecado. Um pecado maior do que fazer. Sério? No nosso mundo?

É uma lógica interessante esta que acha que falar ou usar as palavras: sexo, estupro, vadia, biscate, racismo, homossexualidade, etc. é estimulante. Vai fazer com que as pessoas pensem nisso e saiam por aí transando, biscatiando, vadiando, se tornando mais racistas do que já são ou pegando geral na parada gay. De tudo isso, preserve apenas: vai fazer com que as pessoas pensem nisso, PENSEM, e isso sempre é melhor do que não pensar.

Não é nas palavras que o perigo se esconde, mas nos seus conceitos. As palavras só dizem o que queremos dizer com elas e onde elas silenciam é que ficam suas zonas mais obscuras. No silêncio destas palavras estão as crianças abusadas e sem defesa; estão as pessoas que acreditam que o mundo é assim mesmo e não há o que se possa fazer; estão os que acreditam que você pode evitar a violência doméstica se obedecer; que pode escapar de ser estuprada se seguir rigidamente um código que envolve toque de recolher e roupas abotoadas.

Não é das palavras que devemos ter vergonha. Nem de expor aquilo que, gente adulta, vacinada e dona do nariz faz e gosta. Vergonha é de se ter quando a gente cala, quando não ensina, quando não exige, quando baixa a cabeça, quando obedece. É por isso que, mesmo que com algum atraso, estou aqui, me somando com essa gente sem vergonha do BSC. Que fala em alto e bom som as palavras, subverte-as, brinca com elas, atira pra cima e dá risada. Essa gente sem vergonha que também não se cala, não se intimida e ainda diz: não, não passarão!

Ô mãe! Ô pai! Tô no Biscate!

flivrostmaria2012062*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Coração selvagem

o meu coração selvagem tem essa pressa de viver

“Meu bem,

Guarde uma frase pra mim dentro da sua canção

Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão

Eu quero um gole de cerveja no seu copo no seu colo e nesse bar

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja

Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja

Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver ”

Essa semana passamos cá eu e o Belchior, e a Márcia Castro cantando seus versos na minha cabeça. Frases que se aninharam no meu peito e no meu coração selvagem, com toda pressa de viver que exala pelos poros de quem, como eu, não tem mãos fortes o suficiente para conter os desejos e as vontades de amor.

É sempre muito. E o muito é vermelho e tem pressa, pressa de vida e morte, pressa de respirar e exalar ar puro, de viver tudo que se tem para viver dos encontros que pulsam, e das pessoas que cruzam nosso caminho mexendo por dentro e nos contando que a existência pode ser partilhada em curiosidades e vivências diversas. Em sentimentos bons de trocar e agregar. Em sensações quentes e aberturas de novos mundos. Em mundos divididos pelo que vem do fluxo de ser.   

A gente tem pressa, Belchior me confirma que essa gente existe. Essa gente nossa que quer crescer a cada encontro, que quer somar, extravasar e ir além dos corpos, além do prazer, que quer desbravar os universos que se encontram por puro mistério do destino. A gente quer riso e gozo, quer se jogar na correnteza mais forte de estar viva, quer navegar junto quando os rios se cruzam e os segredos despontam em carne e ossos.

 “Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente

Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem

Tem essa pressa de viver”

E a gente tá aqui fitando o horizonte e abrindo os braços para o que vem. Acolhendo o que não sabemos, e o que sentimos arder por dentro. Vontades ainda sem nome. Coração selvagem, anseios sem endereço. Possibilidades que se multiplicam com o amor que aquece e invade as aberturas rasgadas com a coragem de quem vai.

Estrada imensa, curvas e descidas, subidas de montanhas e penhascos, praias nas margens, mar à vista, verde e concreto. A gente vai e leva o que consegue na bagagem de mão que nos acompanha. Poucas malas, o peito nu, fotografias nas retinas. Pouco peso, e muito chão. Para mais.  

Mas… nem sempre. Não, nem sempre os tempos batem, e os amores nos acompanham nessa jornada de quem tem pressa de vida. É preciso mais, além de um encontro forte e uma possibilidade de amor. Não, não é fácil embarcar assim, junto. Com disposição e sem medo. Com os mesmos tempos de viver. Com encontro de intensidades, com a vida aberta sem complicação para pular no vagão do trem e apenas ir, junto, porque junto tem brasa e vulcão que explode. Tem engrenagem que funciona, tem coração que bate e faz sentido. Não, não é sempre.

Tem muita coisa que precisa afinar para acontecer o tempo de ser junto. É tão simples quando é, mas tem tanto. Pode ter tanto desencontro dentro de um encontro bom. Pode ter tanto não. E quase nunca um coração selvagem está preparado para o não.

É, não é tarefa fácil acolher o não do encontro possível. Para quem tem pressa e está lá, descendo a ladeira sem freio, sem pouco, sem miséria, sem dublê, sem maquiagem, sem reserva… o breque é violento. Como, como acolher o não? Quem não pula, não pode, não dá? Quem não tem como, não tem esteio, não tem tempo, tem distância geográfica, tem história difícil, tem outra história, tem medo, tem falta?

“Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão,

O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver

E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza

E arriscar tudo de novo com paixão

Andar caminho errado pela simples alegria de ser

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo.

 Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem”.

 A gente canta com o Belchior, e chora e grita e se lastima e pula e faz barulho e morre um pouco por dentro. E morre de novo para renascer e ir em frente com essa mesma pressa de viver. Porque uma hora, em alguma curva do caminho, a gente acerta. E aí, sim, experimenta o que é viver e dividir todo esse algo mais que não se conta na canção, e em lugar algum.

A gente experimenta o indizível.

 

Vazio

O vazio em cada um de nós. Não que seja ruim, simplesmente vazio. Vazio que permite conhecer, saber tal que se merece ou não preenchimento. Vazio, puro vazio. Tabula rasa? Não! Vazio não como ausência, mas vazio como escolha. Vazio como presença e como espera. Vazio do outro, mas profusão de si.

lugar

Rosa em Meditação – Dalí

Incoerente? Por certo, que sim ou que não. É vazio o que sinto quanto mais entendo, quanto mais me entendo. Não que recuse o cheio, mas no vazio completo, enquanto aguardo aquilo que preencha.

Aproveitar o vazio dos planaltos íntimos. Aquiescer na distinta condição de saber o querer. Manter um vazio fugaz ou pleno, insípido ou deleitoso, inerte ou fulgurante. Não manter.

Ter vazio, só para preencher. Ter vazio, só para entender. Ter vazio, só para não conter. Ter vazio, para deixar-se transbordar.

Vazio, para de seu exagero ocupar, no mesmo exagero. Vazio para completar como e com o que quiser, mesmo pela metade.

Vazios para aqueles que buscam o seu lugar…

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