Amor & Sexo caretas

Amor & sexo é um programa de auditório engraçadinho, pretensamente libertário e até feminista, moderninho, mas na verdade é conservador, eu diria até tucano (rs).#vote45nãopera

Sempre começa com a bela Fernanda Lima exibindo sua curvas em roupas  diminutas e/ou justas com um belo elenco de machos no apoio num número musical “brodway wanabe”. Nesse, até tinha a nossa amiga #siririca (oba!), que eu achei mais parecida com um carrapato, e um clitóris com um textinho de duplo sentido de humor no palco.

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Pra dar um certo ar de seriedade acadêmica temos a famosa  psicanalista e escritora Regina Navarro para dar suas pílulas de sabedoria de sempre. Aí temos o Xico Sá pra ser o exemplo do canalha que ama as mulhrezzzzz (sobre ele o texto da Juliana Cunha é perfeito, mas também tem um texto sobre as bobices que moço comete aqui no Biscate). E tem O Otaviano Costa de palhaço-bobo-da-corte, tinha o lindo do Alexandre Nero (#voltaNerinho), o José Loreto que às vezes fala uma coisas bacanas e mais uns globais.

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Mas o que programa faz mesmo é backlash (aprenda sobre o que é backlash aqui, juro que vai ser muito útil pra ler revista, ver tv, etc.), bastante misoginia e muito machismo. O desta quinta em especial, pois, ao pretensamente diferenciar o que seria uma boa cantada de rua (será que existe isso?) de uma agressão verbal, validou as cantadas agressivas disfarçando-as em piadas. A participação de uma delegata (odeio o termo) não ajudou muito nem nisso.

Também sempre há um revalidação de estereótipos: nesse teve homens-pagam-o-motel porque-as-mulheres-gastam-com-depilação-e-unhas (de novo, não somos feministas que não se depilam ou não fazem as unhas: somos contra obrigações de depilar ou não, por exemplo), pessoas com corpos definidos como belos desfilando com pouca roupa, revalidação da monogamia como única forma possível de relação (apesar dos apartes da Regina Navarro, rs), entre outras coisas.

Seria um bom programa que poderia mesmo tratar de sexo e amor, mas é só um programa de auditório mesmo, e sem o Chacrinha e o bacalhau, ao menos aquele bacalhau.

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Preâmbulo

Por Vanessa Rodrigues*, Biscate Convidada

quando tiro a roupa
e penso no chocolate que comi
na celulite da bunda
no peito caído de amamentar
e na estria que coça
e que se sente no toque
mesmo com a luz apagada

eu quero me apagar

mas, quando você me morde o bico
eu me esqueço do chocolate e das estrias
e é um “ai” comprido e rouco
um não me acho
e uma perna no meio da minha
e um querer e um não…
queria
e o cabelo embaraçado
molhado e desarrumado
depilado
e a boca desliza do umbigo
pra baixo…
quando eu acendo a luz
e me viro de costas
e se fico de quatro
se chupo a ponta do travesseiro
nem penso na dieta do abacaxi
no prato de kiwi
e na bisnaga de chantilly

não me lembro da frase perfeita
e nem daquele palavrão
que li na Cosmopolitan
que é bom para dar tesão

você de ponta
eu de cabeça
se é sobre
sob ou entre
tanto faz

a preposição

se é para engolir
para lamber ou pra cuspir
se é metade ou se é inteiro
se é assim ou se é assado
se é norte ou se é sul
ou até em Guayaquil

seja em Londres, Rio ou Lima
não importa
quando a boca desliza do joelho
pra cima…

e se eu peço
se você quer
se a gente gosta
é aí
eu subo
você se move
não para, não

ai, que delicia!
eu sou um seis
você, um nove…

fotoperfilfor*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada no Facebook e e Twitter (@vanerodrigues).

Desavergonhas em girassol

De manhã, manhãzinha, a gente trocou beijos. Beijos mais longos que os habituais matinais, que a gente corre sempre e desespera sempre com a correria deste mundo todo. E foi que a gente se tocou ali, aqui, e aquela cousa toda e molha, acorda, geme e vai e foi. Acaba que atrasou um pouco o dia e animou a vida, como tem que ser.

Mas devia ter dito mais… Devia, naquele trajeto de casa para o ônibus, ter mandado mensagem, flor, dito cousas de ouvido, feito milongas. No trajeto. Devia ter mandado mensagem dizendo que ali naquela esquina tem um desses motéis de rua, sem estacionamento, desses que a gente vê as desenvergonhas todas caminhando  e fica sempre invejoso das coragens e molhações alheias. Que o período é de tantos reais e que ninguém ia sentir falta da gente se a gente ficasse lá durante uma horinha inha que fosse. Se melecando. E que viesse sem roupa debaixo, que é para modo de ver poesia mesmo, toda a poesia.

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição "Câmaras de Descompressão", http://vitreoformas.tumblr.com/post/83468983639/eduardo-marin-camara-de-descompressao-2013

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição “Câmaras de Descompressão”,

Não disse. A gente quase nunca diz. E a vida segue no extrato bancário, no almoço em pé, naquele contrato que a gente tem que fechar para poder pagar aluguel, prestação, saúde, escola, escola de língua, mestrado, doutorado, pós. Pra poder viajar sei lá para onde naquela semaninha que deu para tirar. Mais prestação, mais caminhão, mais cartão, o de crédito, não o das flores.

Aliás, faz um tempo também que não levo flores. Laranjas, pretas, rosas, azuis. Lantejoulas. Porque o problema da gente não é o falta de gostar, de abraçar, de enamorar. O nosso maior problema é esquecer da gente para ser outra cousa, que a rotina esta mágoa vai desencantando. E nem falo de amores fiéis, que esses podem ser os mais chatos ou os mais lindos também. Falo de gente, flor, girassol, amor. De texto biscate, essas manias que a gente tem de querer o molhado. De regar, sempre.

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Eu queria ser florista. Diria no bilhete. A cada girassol, e sabedor do sorriso que nasce quando a gente ganha um girassol, ia ser um cadinho voyer daquele remexo todo, daqueles enlaces, encaixes, madeixas, deixa que eu te mordo morde também.

É preciso um pouco de girassol na vida de toda a gente, desconfio.

Metamorfoses

Lembra daquele professor de física lá do ensino médio que dizia que alguém muito importante um dia disse que “nada se perde, tudo se transforma?”. Bom, o alguém importante era Lavoisier e o tal professor (ou professora, no meu caso tive uma professora linda, que tinha sido modelo e tal) só queria começar um conteúdo sobre a bendita Lei de Lavoisier.

Bom, claro que o moço francês estava falando sobre a conservação das massas e anyway, mas penso eu que podemos trazer isso para os nossos sentimentos e as relações atravessadas por eles. O Amor, assim com letra maiúscula, quase uma entidade em si mesma, é um tanto estático conforme os contos de fada querem nos fazer acreditar. O amor (esse com letra minúscula, construído todo dia, com seus laços renovados ou, por vezes, esgarçados) muda. O tempo todo. Não amamos as pessoas do mesmo jeito ao longo do tempo. O amor que sentimos pela mãe, os avós, irmãos e irmãs não é o mesmo desde que nascemos e nem poderia ser. O amor muda porque nós mudamos, os outros mudam e o mundo que nos rodeia, idem.

Imagem de Mariana Palova

Imagem de Mariana Palova

Assim também são as relações que construímos ao longo da vida. Gosto sempre de pensar naqueles amigos de infância, da época da escola ou do time de vôlei da rua, ou aqueles primos e primas que te fizeram tão feliz (quando você nem sabia disso), que não encontramos mais. É claro que recordamos com muto carinho deles quando lembramos da nossa infância querida que os anos não trazem mais. (Oi, Casimiro!). E, possivelmente, também temos espaço na memória afetiva dessas pessoas. Mas fico me perguntando se ainda nos amaríamos se convivêssemos hoje. Todos mudamos, e ao longo dos anos, isso é ainda mais perceptível.

Às vezes, penso que prefiro amar essas pessoas com o amor que já está reservado para elas. O amor da saudade, do tempo que faz tudo ficar tão bom, da distância que seleciona as boas lembranças e dá uma mascarada nas partes ruins. Por isso, sempre fujo dos encontros do tipo “turma do pré-alfabetização do Colégio Bosque Encantado”. Muito provavelmente, se nos víssemos com mais frequência, o amor ia mudar e eu prefiro manter as boas memórias.

E aí, me pego pensando nos amores (aqueles mais carnais mesmo) que se transformam em outras tantas coisas. Não acho que quando um relacionamento acaba é porque o amor acabou, necessariamente. Acho que Lavoisier diria assim: “o amor não se perde, se transforma”. Tem amor que vira amizade, tem amor que resta só (?) tesão, tem amor que vira memória. Penso que o amor (ainda o minúsculo) muda o jeito de gostar, mas não perde sua essência quando uma relação se esgota. (Claro que há os que se transformam em ressentimentos, mas isso é assunto pra outro texto)

O amor deixa de ser o amor da paixão, da carne, para ser o do companheirismo, do pega na minha mão e vamos resolver isso. O amor vira bem-querer, muda para aquele sentimento de felicidade pelo outro, de saber que o outro está feliz. O casamento, o namoro, o noivado acaba, mas ainda fica aquela ternura no peito de reconhecer que existe um certo tipo de amor ali pelo que foi, pelo que representou e que, paciência, não é mais.

Sexo, Idade e o Absurdo

Há um momento em “E o vento levou” em que o galã, Reth Butler, meio agoniado de não conseguir a atenção da não tão mocinha Scarlett, pergunta: “Você já pensou em casar só pela diversão?” e ela, entre surpresa e desiludida, responde: “Besteira, diversão é só pra homens”. Vejam bem, essa fala veio de uma personagem mulher em um filme que retrata a Guerra da Secessão Americana e o período logo a seguir, ou seja, por volta de 1865. Uma mulher, nessa época, seria educada pra reprimir seus desejos, pra subestimar seu prazer. Além disso ela foi casada primeiro com um moço demasiado jovem e inexperiente e posteriormente com um personagem mais velho e aparentemente não muito atento a satisfação da esposa. Nada mais razoável do que uma personagem assim considerar a diversão e o prazer do sexo como exclusivos dos homens. Pra sorte dela, o moço Reth a ajuda a perceber que essa idéia é um equívoco e que devia ter gozo pra todos os envolvidos no rala e rola.

Desde 1865, vamos combinar, muita água já passou por baixo da ponte, tivemos o Relatório Kinsey, a pílula anticoncepcional, tem gente cantando alegremente: “a porra da buceta é minha”, a Marcha das Vadias está na rua, o aborto é legalizado em vários países, há uma compreensão maior do papel do clitóris no orgasmo, tem muita gente envolvida na busca do Ponto G, já se fala em pornografia direcionada às mulheres e por aí vai. Temos até um blog que tem BISCATE no nome, né? Dá pra imaginar que a fala da Scarlett, “diversão é só pra homens”, está totalmente superada, não? Claro, a gente sabe que sempre tem um ou outro mais antiquado, mas as pessoas bem informadas já ultrapassaram isso… Bom, detesto partir o coração de vocês, mas não, não superamos não.

Se tivéssemos superado não teríamos uma decisão, vinda de um Supremo Tribunal de um país teoricamente de Primeiro Mundo, “europeu e esclarecido”, deliberando que uma indenização destinada a uma mulher (por conta de um erro médico que a impede, entre outras coisas, de trepar) deve ser reduzida porque, ATENÇÃO, sexo não é uma coisa relevante para uma mulher de 50 anos. Eu reli pra ter a certeza de que não tinha entendido errado. Mas é isso mesmo: juízes decidiram reduzir uma indenização a ser paga por um hospital por causa de erro médico porque, no entender deles, mulher de 50 e tais anos não tem que ficar de saliência, afinal, nem vai ter mais filhos mesmo. MAS, GENTE, QUE ANO É HOJE?

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Leiam e chorem, amiguinhos: “O Supremo Tribunal Administrativo reduziu o valor da indenização que a Maternidade Alfredo da Costa tem de pagar a uma mulher que ficou impedida de voltar a ter relações sexuais com normalidade depois de ali ter sido operada há já 19 anos. Um dos argumentos invocados pelos juízes, com idades entre os 56 e os 64 anos, é o de que a doente “já tinha 50 anos e dois filhos”, isto é, “uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”.

Tal decisão traz, inequivocamente, uma visão utilitarista da sexualidade feminina. Sexo, pra mulheres, deve ser para procriar. O corpo feminino serve, a princípio, a terceiros. Como incubadora, prioritariamente. Ecoa a fala da Scarlett: Diversão? É só para os homens. Como bônus, temos a acompanhar mais um elemento da visão machista sobre a sexualidade feminina: uma mulher não é pra se dar ao desfrute, imagine uma mulher velha! Afinal, sexo é uma coisa para corpos femininos jovens, que possam ser devidamente objetificados. Além de incubadora, um objetivo secundário: ser parque de diversão pros homens. Bobagem nossa achar que sexo tinha relação com o prazer que a pessoa, em seu corpo, com formato e idade que tivesse, podia obter no processo.

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Depois de ler essa notícia que me chocou, entristeceu e revoltou, fui fuçar no google. Sabe como é que é, coloquei, em diversas combinações, as palavras: sexo, mulher, velhice (só façam isso em casa se tiverem o estômago forte). Não, o choque, a tristeza e a revolta não foram embora. O que eu li foi uma sucessão de textos que naturalizavam, justificavam ou mesmo preconizavam a redução da vida sexual das mulheres com o passar dos anos sem nenhum questionamento do papel da cultura, da mídia, dos valores nesse processo (não estou falando dos artigos acadêmicos, mas de matérias de portais, posts em blogs e sites ditos femininos). Nenhuma interrogação. Alguma lamentação, muito conformismo, uma e outra dica. E, na minha cabeça, um monte de temas completamente ignorados nas publicações. As mulheres mais velhas fazem menos sexo  e, muitas vezes, quando o fazem, não aproveitam nem se satisfazem e isso não causa nenhuma coceirinha no juízo de vocês? Tipo autoimagem, autoestima, padrões de beleza, a mitificação da mulher como ser sem desejo, a supervalorização da relação entre sexo e amor para as mulheres, o desconhecimento do próprio corpo, a pouca prática da masturbação, a vinculação entre sexo e procriação… nada disso, sério mesmo, é sequer mencionado quando se fala em sexualidade feminina na terceira idade? Só diminuição da lubrificação, desconforto e bola pra frente, tem outras atividades que podem ocupar o tempo? Pronto, pra que falar mais sobre o assunto?

Então, eu não sei vocês, mas eu pretendo falar muito sobre o assunto. Perguntar. Me indignar. E continuar afirmando, em palavras e ações (de preferência mais ações que palavras #intençõesbiscates), que a relação entre idade e sexo não deve ser necessariamente de “quanto mais A, menos B”, seja em quantidade, qualidade ou, mesmo, vontade. Nossa sociedade imediatista, focada na juventude, machista, cristalizou a ideia de que as mulheres, ao envelhecerem não são mais desejáveis (e, claro, nunca desejantes, a não ser que sejam essas, essas, essas…biscates, que não se dão ao respeito) e é essa ideia que, acho eu, precisa ser desconstruída pra que absurdos como a decisão do Supremo Tribunal Administrativo português não continuem sendo regra no nosso cotidiano.

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PS. Para além do sexismo clamoroso eu suspeitava que a decisão compreendia, também, um forte componente de classe. Ali, escondidinho discretamente na matéria, temos a informação de que a vítima do erro médico era uma empregada doméstica. Sem mais elementos, não coloquei esta discussão no meu texto. Os elementos surgiram, (ieba) nesse texto que nos dá ainda mais pra pensar, “O sexo e a idade” de João Taborda da Gama: “em 1998, um “administrador de empresas” retirou a próstata na sequência de uma biopsia ter revelado cancro. Afinal não havia cancro nenhum e, além do susto, o “administrador” ficou incontinente e impotente. Ao senhor “administrador” “com quase 59 anos”, o tribunal atribuiu, em 2008, 224 500 euros de indemnização. Ainda há três meses o STJ fixou em 100 000 euros a indemnização a um homem “social e financeiramente bem-sucedido na vida” que, num caso idêntico, ficou incontinente e com as ereções reduzidas a 60%-70%. Tinha 55 anos. Quando uma vida vale em média 65 000 euros nos tribunais, a filosofia judicial é clara: antes morto que mortiço. Os tribunais sabem bem o valor do sexo depois dos cinquenta, mas sobretudo para homens que estão bem na vida. Na cabeça dos tribunais, um homem rico e uma mulher pobre são mesmo pessoas de sexo diferente.

O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?*

Texto do coletivo Biscate Social Club
com a leitura querida – que agradecemos -
de Patrícia Guedes e Liliane Gusmão

Circularam esses dias uns links sobre a aparência de Renée Zellweger, no estilo antes e depois e a pergunta, em diversos tons, dos mais maliciosos aos bem preocupados: o que aconteceu com ela? Engordou? Emagreceu? Anorexia? Botox? Bronzeamento artificial? Cirurgia? Doença terminal? Drogas? Os comentários nos links não foram menos diretos e não pouparam agressividade e virulência: ridículo, aterrorizante, doente, repulsivo foram termos usados para descrever seus rosto e devastada, mentalmente desequilibrada, enlouquecida, embarangada, plastificada, algumas das palavras usadas – das que tivemos estômago pra ler – que se referiam a ela integralmente.

Então agora, vamos dizer tudo que nós achamos que tem que se discutir sobre a aparência dela: (                                ). Pois é, um imenso, enorme, absoluto: NADA.

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Mas, como somos muito legais e para efeitos pedagógicos, vamos até responder a inquietação dos mais bem-intencionados: o que aconteceu com ela tem nome. Vida. Em muitos sentidos.

Vida, porque é uma mulher de 40 e tantos anos que tem uma doença de pele (rosácea), que usou bastante maquiagem dados seus compromissos profissionais, que se expõe a forte iluminação artificial por causa das filmagens, uma mulher que engordou e emagreceu várias vezes por motivos vários – inclusive de trabalho. Vida porque é razoável supor que ela riu, chorou, teve dor de cotovelo, passou alguma noite em claro, divertiu-se, pegou sol, pegou brisa. Então, vida, ou como costuma ser apelidada: tempo.

Mas vida, também e principalmente, porque o que lhe aconteceu é o que tem nos acontecido, a nós, mulheres, por todo o tempo que passamos nessa bagaça: somos observadas, julgadas, avaliadas e rotuladas. O corpo, o rosto, a “moral” sob uma enorme lupa. Uma série de “tem que” dos quais é difícil escapar (e nunca sem alguma marca), inscritos na estrutura e que, no máximo, nos é apresentado como uma luta individual. Autoestima, amor próprio, ser mais independente… uma dose especial de crueldade tomar como responsabilidade pessoal um problema social que se espalha na cultura.

Essa lupa enorme e constante não deixa escapar nada. A mulher está sempre errada. Caso se submeta ao padrão (olha aí, não sabe envelhecer, tá usando botox; tá magra demais,deve ser anorexia) e caso o ignore (devia ter vergonha de ir a praia mostrando as pelancas; olha já dá pra ver cabelo branco, é muito desleixo). Uma mulher TEM QUE manter-se jovem, mas, atenção, não pode aparentar estar querendo se manter jovem. Tem que ficar jovem sem esforço e aí, se envelhecer (risível usar o “se” pois viver é sempre “quando”) desaparecer. Sabe coméqueé, velhice é feio, não é pra expôr assim.

Lemos um bocado de comentários dizendo que ela não soube envelhecer com dignidade, como se houvesse um jeito correto de viver, como se a uma mulher – especialmente famosa – não houvesse pressão sobre a aparência, como se não vivêssemos em uma cultura que glamouriza a juventude, como se não houvesse menos papéis nos filmes para mulheres maduras, como se não fôssemos bombardeados diariamente com a relação entre aparência jovem e saúde. Como se “envelhecer com dignidade” fosse um caminho reto individual sem relação alguma com contexto sócio-histórico. Como se, especialmente, pudéssemos julgar como alguém deve viver sua própria vida. Alguém, claro, uma mulher. Esse animal público.

O fato é que nos sentimos no direito de avaliar e emitir impressões sobre a aparência das mulheres. Isso está tão naturalizado que nem nos questionamos sobre. Como se o corpo e o rosto da mulher existissem para o olhar dos terceiros e devessem a ele corresponder, agradar, submeter-se. Mesmo as pessoas que solene ou alegremente entoam: “meu corpo, minhas regras” às vezes escorregamos e estamos lá, dando nota mental pro corpo da coleguinha.

Então não, não devia interessar a aparência da Renée. Renée não existe pra enfeitar a vida de ninguém. Nenhuma de nós, aliás. Mesmo que você esteja falando com a melhor das intenções e super preocupadx com a saúde dela, é bom prestar atenção no pronome possessivo. O corpo, a saúde, a aparência, tudo DELA. No lugar de apontar dedos pras coleguinhas, talvez seja melhor a gente desconstruir esses padrões que oprimem, machucam e demandam de todas nós um dolorido impossível. E, no “por enquanto” dessa demorada mudança de paradigma, todas as vezes que pensarmos em comentar a aparência de alguém – especialmente uma mulher, mais ainda uma mulher envelhecendo – vamos contar até 10. De preferência, em biscatês (um rala e rola, dois rala e rola, três rala e rôlas, OPS…). Distrai e faz sorrir.

PS. Não que cada uma de nós não tenhamos autonomia ou discernimento, não que sejamos conduzidas, moldadas e forjadas apenas pelo ambiente. Não. Mas ignorar esses fatores é cruel e deturpa o olhar. Não custa lembrar do Graciliano Ramos: “liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”

PS2. Não por acaso a pergunta “o que aconteceu com Renée” leva-nos ao filme “O que aconteceu a Baby Jane” e à discussão sobre fama e aparência.

Preconceito contra rico?

Preconceito contra rico. Isso existe?

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Se tem algo que vem me intrigando nesses tempos de debates e animosidades políticas, é esse papo de que rico sofre preconceito. É o homem branco, hétero, cisgênero, classe média/alta, sentir-se discriminado e ofendido quando chamado de “elite”, “riquinho”, “filhinho de papai”. Se sentir excluído por ser identificado com seu privilégio social. Oras, senhores, por favor: poupem-me. Vamos tentar entender o que é preconceito?

Preconceito existe quando alguém é oprimido socialmente. Quando é discriminado por sua condição social, étnica, por sua orientação sexual, pela sua identificação de gênero. É quem deixa de ter acesso a bens e serviços por isso. Quem sofre agressão e exclusão social por não se enquadrar nos padrões vigentes: branco, heterossexual, cisgênero, machista, com grana no bolso. É quem, por ser identificado com qualquer dessas categorias de exclusão social, sofre violência moral e/ou física. Quem deixa de gozar, ter acesso, participar da vida social – capitalista em seus cargos, ocupações, diversões, porque é pobre. Porque é negrx. Porque é gay, lésbica, mulher, transexual. É ocupar um lugar onde você não é igual para viver na sociedade com seus valores e critérios de inclusão. Quem tem pior. Quem tem mais difícil. Quem tem com muito suor e muito machucado na escalada. Quem sofre discriminações das mais diversas quanto tenta chegar.

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Elite, minha gente, é quem oprime. Chamar de elite é reconhecer que x outrx tem privilégios sociais. Qual o problema de se reconhecer os próprios privilégios? Eu tenho. Por ser branca e classe média. Por ter tido acesso à educação, à saúde, por ter nascido numa família branca, com renda – apesar de pouca, de suada, era suficiente para nos garantir uma vida digna. O que muita gente não tem. Não tem dignidade, não tem o que comer, onde morar, como viver ou sobreviver. Não pode comprar, não pode ocupar, não pode acessar.

Nunca vou sofrer preconceito por ser chamada de “branquela”, de “elite”. Nunca deixei de gozar de nada por isso, nunca sofri por isso, ao contrário: só tive benefícios sociais. Como meus benefícios podem ser a mesma causa de preconceito? Não, não são. Sofro preconceito por ser mulher, e por ser lésbica, isso eu sei o que é. Isso já me causou olhares, violências, exclusões e eu chamo de preconceito. Mas, no resto, aceito meus privilégios e, ao olhá-los, quero entender como posso fazer para que todxs os tenham. Ou para que não exista mais privilégio algum, sejamos todxs de fato iguais e com as mesmas chances, oportunidades e benefícios no viver coletivo.

Não gosto de discursos de ódio. Nenhum deles. Se você é chamado de “elite” e não gosta, às vezes pelo tom de desprezo, de raiva etc, não confunda esse sentir com preconceito. É ruim se sentir agredido, e para mim violência não se paga com violência, apesar de entender o que motiva a revolta daquelxs excluídos socialmente e vítimas de tanta porrada, no sentido metafórico e não metafórico da palavra. Mas reflita. Procure ver o que te incomoda. Procure ver poque x outrx se incomoda. Talvez fique mais fácil compreender se puder olhar através dos olhos dx outrx. Nunca saberá o que é sentir na pele, mas talvez possa se solidarizar com a dor de quem é violentado cotidianamente por ser quem é.

Quando a gente trabalha com políticas sociais de inclusão, quando a gente busca a igualdade, ou viver numa sociedade mais igual, a gente tem que olhar a desigualdade. As tantas desigualdades sociais que nos rodeiam. Tem que ver como, politicamente, podemos redistribuir bens e serviços. Recursos, cargos, salários. Como podemos ter negrxs no poder. Mulheres. Gays, lésbicas, transexuais. Como o pobre fica menos pobre. Como ter padrões menos heteronormativos. Menos machistas. Como se faz para vivermos, todxs, com um pouco mais de dignidade nesse mundo capitalista de grandes selvagerias.

Quem defende políticas sociais e de redistribuição de renda não gosta de “pobre”, nem quer que todo mundo “more na favela”, como temos ouvido recentemente. Ao contrário. Quer que todxs tenham mais. Quer que não tenha favela indigna. Quer que não tenha pobre e excluído por sua etnia. Por sua orientação sexual. Quer que não tenha miséria. E, para isso, você “elite”, terá que perder seus tantos privilégios e exclusividades. Você está prontx para isso? Reconhece primeiro, que  dói menos. E, de forma mais coerente, ou trabalha por um mundo mais igual, ou reluta e busca de qualquer modo manter seus privilégios. Mais coerência é melhor. Mais clareza. Mais sinceridade.

A minha escolha será, sempre, rever privilégios e buscar inclusões. Nem todxs estarão do mesmo lado. Democracia não é consenso, e comporta debates e visões de mundo distintas. Mas o papel de “coitadinho” da elite é, no mínimo, cômico – se não fosse trágico, e totalmente descabido. Dito isso, vamos ao debate? Quanto mais amor, mais humanidade e mais direitos humanos garantidos, melhor.

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Cansei…

Cansei…

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… do acolhimento do discurso conservador por uma maioria sem memória da história política mais recente, identificada com os piores delírios da direita ultraconservadora.

… das viúvas e viúvos do regime militar, que salivam em imaginar a ditadura de um moralizador Estado mínimo (mas máximo na arrecadação de impostos).

… da ausência de empatia, alteridade e compaixão pelo outro (Um pouco de tudo isso não cai mal não, sabe?).

… do cinismo de nossa classe média, encampando os ideais das elites, que por sua vez, têm verdadeiro asco da vida de classe média. Ou do pobre que vota nelas, nas elites.

… do eterno mimimi dessa gente que não consegue enxergar um palmo além da sua bolha de privilégios – geralmente sem margem de erro pra mais ou pra menos: homem branco, heterossexual, cristão e de classe média.

… do discurso esquizofrênico da “nova política” (eu vejo um museu de grandes novidades – Cazuza já cantava essa pedra).

… dos meios de comunicação que são empresas a serviço de interesses hegemônicos e que dão uma cobertura política tão parcial e escusa que chega a beirar o criminoso.

… de ouvir que o PT implantará a ditadura comunista e patrocinará, além de Cuba, toda a China e a Coréia do Norte (bem que podia começar patrocinando o comunismo aqui no Maranhão, rs).

… do ódio de classe manifestado na ojeriza aos programas sociais de transferência de renda como o Bolsa Família (porque a culpa da pobreza é do pobre, como ensina o capitalismo e a meritocracia, by the way).

… do racismo esboçado por nossa classe médica contra os médicos (negros) cubanos do programa Mais Médicos (essa gente parece empregada doméstica!).

… das defesas apaixonadas por um Estado cada vez mais militarizado, autoritário e genocida da população negra e pobre, através da redução da maioridade penal (bolsonaristas vão ao delírio!).

… do perigoso discurso moralizador em defesa da família, proferido pelos “homens e mulheres de bem”. Vocês estão falando de qual família mesmo? Famílias higienizadas, sem veado, sem sapatão, sem trans, apenas com mulheres que não abortam e cheia de homens honrados?

… do racismo geográfico contra os nordestinos (essa gente sem estudos que não trabalha e que é um obstáculo para o desenvolvimento do sul maravilha, não é mesmo?).

… do argumento que a alternância de poder é uma marca da democracia, logo, o PSDB teria supostamente todas as credenciais para melhorar a saúde da coisa pública brasileira (Oi? A racionalidade mandou lembranças…).

… do preconceito de gênero em aceitar uma mulher na presidência. Pior ainda pelo passado de esquerda e militância que essa mulher carrega na sua história de vida (porque sim, isso é um demérito pra muitos).

… da arrogância de um playboy desrespeitoso e corrupto (agressor de mulheres?) que se põe como arauto da exemplaridade e dos bons costumes.

Enfim, cansei dos argumentos que não conseguem enxergar que o buraco é mais embaixo. Muito mais.

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Notinha de Rodapé: No BiscateSC todo mundo é livre pra votar ou não em quem quiser…espia aqui.

Uma cena de amor quase anódina

Era uma pessoa muito próxima. Querida. Muitos amigos ela tinha. Já de certa idade. Generosa, alegre, casa aberta, sempre pronta a ajudar os outros. Presente, cuidadosa, preocupada. Afetiva.

Não lhe sabia de amores. Nunca a tinha visto com ninguém. Não se falava disso, e pra mim estava bem assim: afinal, podia ser escolha. Ninguém é obrigado a ter alguém. Ninguém é obrigado a pavonear suas histórias, suas paixões, seus rolos na frente dos outros. Ainda mais na geração dela, em que isso não era assunto tão conversado.

Até que um dia, passeando na cidade, encontrei-a. E nem teria notado nada, caso ela não tivesse estremecido e soltado a mão da outra, antes de me cumprimentar. Mas estremeceu. E soltou.

Saí dali com isso na cabeça. Que passear de mãos dadas, uma atividade tão anódina, virava, por conta de restrições sociais, de “certos” e “errados”, algo com que se preocupar. Até comigo, imaginem. Até comigo. Imaginem não poder abraçar, beijar, dizer que ama. Dizer “minha namorada”, dizer “minha mulher”. Logo ela, tão querida, tão afetuosa, tão generosa.

Uma nuvem passou diante do sol.

Droga de mundo em que não se pode andar de mão dada com quem se quiser. Que pede contas de amores de uns e de outros, atestados, carimbos, definições. Droga de mundo que fica regulando amores e mãos alheias. Em que uns podem, mas outros não. Em que os outros se incomodam com os amores e as mãos dos uns. Com os corpos, com os afetos, com os jeitos e trejeitos. Com os gostos, com as escolhas.

Droga de mundo.

Rotina

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Chico Buarque – Cotidiano

Acostumei com o meu todo dia, acostumei a ser sempre comum. Todos os dias eu estou ali, pronta pra trabalhar, pra estudar ou ir malhar. Parei de me questionar, de me perguntar se essa rotina me faz bem. Parei de ser quem eu deveria ser, uma pessoa incomodada. Costume.

rotina1

Quando alguns acontecimentos me fizeram acordar. Comecei a não suportar o costume, não suportar o meu lugar comum de todos os dias, o trabalho enfadonho, o estudo estilo “comer livros”, sem pensamento crítico, sem vontade alguma. Comecei a me cansar das unhas feitas com decorações, grandes e chamativas, cansei do cabelo comprido. Não que eu tenha decidido mudar tudo de uma vez, mas comecei a mudar aos poucos. Depois que adoecemos, nos compreendemos frágeis, incertxs. Não me via mais ali, não me achava e eu precisava muito de mim.

Precisei me ver doente, sem um monte de coisas pra fazer pra compreender que faltava eu acordar e me perguntar: tá tudo do jeito que eu quero? Minha vida tá indo na direção que desejo? Será que tô protelando coisas necessárias em minha vida por medo de mudar? Porque não tentar algo no susto, no chute? Fiquei sem emprego, porque não trabalhar de freelance? E o mestrado? Porque não voltar aos planos de estudo de antigamente, de antes desse emprego louco que tive?

Chegou a hora de sair da rotina, antes que ela me engula e eu vire mais um número. A rotina é gostosa, mas, pra mim, tem que ser moderada. Tem que ser a rotina do dormir de conchinha, do tomar uma cerveja toda sexta, de tirar uma hora do dia pra fazer nada, de estudar por amor e pra absorver coisas novas. Rotina sem pensar, pra mim, não dá.

You are only coming through in waves
Your lips move but I can’t hear what you’re saying
When I was a child I had a fever
My hands felt just like two balloons

Now I’ve got that feeling once again
I can’t explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb

Pink Floyd – Comfortably Numb

Vivendo e crescendo

Vejo muitos posts de amigos e amigas explicando suas origens e como isso se relaciona com suas escolhas atuais e quem são hoje em dia e toda vez penso em falar um pouco de mim e de onde vim mas sempre me breco num ponto confuso que é quem sou eu hoje.

crescendo

Sou filha de pais ateus, de esquerda e de classe média plano piloto brasiliense. Estudei nas melhores escolas que eles puderam pagar (meu pai nunca teve carro zero, mas sempre tivemos boas escolas e muitos livros) e frequentei  um clube de elite (clube é a praia de Brasília). Escolhi meu curso – Direito – pra fazer o que todo brasiliense faz: concurso público e ter uma vida estável.

Eu malhava, me bronzeava, comprava ( muito) as roupas das marcas certas, já fui loira e queria ser procuradora. Mas aí veio uma gravidez e tudo mudou. Não fiz a pós e o mestrado que sonhava fazer, não fiz concurso para procurador, mas tenho dois filhos bacanas e lindos. Fui trabalhar em um lugar com muita gente legal e com origens diferente da minha – a maioria trabalhou para pagar a faculdade e não ganhou o primeiro carro de papai e mamãe, como eu ganhei. Gostavam de coisas que eu não conhecia e aprendi a curtir. Aprendi demais lá.

Sempre me defini como feminista, influência do Malu Mulher (juro) e de Simone de Beauvoir e Rose Marie Muraro, que li aos 20 anos. Mas conheci o ativismo feminista na internet e nossa… como mudei!  Menos fútil, menos materialista, menos preocupada com o que pensam de mim, menos insegura. E mais cheia de amigas e amigos que nunca.

Mas parte de mim ainda é a menina dondoca e patricinha que só queria ter sucesso profissional, ser loira e linda e comprar coisas bonitas. Aí me pego pensando em comprar e gastar e ser algo para alguém admirar e o meu outro eu diz: ACORDA! Você quer ser isso por você mesma ou pelo olhar dos outros? E sempre é a tal da aprovação. Aí eu acordo do sonho-pesadelo e dou a volta por cima de mim mesma me relembrando que hoje o ser importa mais que o ter, que me sinto mais completa assim, que quem me ama me ama como sou. Claro que isso tudo a base de muito diálogo interno e muita terapia (recomendo terapia, terapia salva) e quase aos 43 tenho que vir me reformulando e reconhecendo a mim mesma permanentemente. Nunca pensei que chegaria aos 40 e poucos ainda insegura, mas de outras formas, acho que esse negócio de crescer não para nunca né?

 

Uma aliança

Dia desses, eu casei.

E dia desses, pra frente, casarei, de novo. E terei lua de mel e tudo. Menos festa chic e vestido de noiva, e padre na igreja. Mas terei papel passado, brinde, riso e amor. E tenho aliança.

Aliança, já usamos há meses. Depois que eu fiquei brincando (brincando?) em portas de joalherias, ele de fato propôs. E chamou para escolher. E pagou, como deve ser (deve?).

Lembro de quando era católica praticante, pela segunda vez, e em uma visita do amigo padre Elias em casa, falávamos sobre casamento, sacramento.

Eu, iconoclasta mas romântica, apontava que o sacramento devia ser um prêmio aos que provassem ser capazes de sobreviver amando ao convívio diário.

Minha mãe, roxa, sei que pensava em me beliscar.

E o padre, vejam só, concordou comigo – ainda que o Vaticano (ainda) não concorde conosco.

Vivemos “em pecado”, morando juntos há mais de ano, dividindo cama e chuveiro, tem dias que ele faz o café cedo, tem dias (poucos), que sou eu. Eu cozinho minhas invencionices metidas a besta (palavras dele) e ele come (ou não).

E a gente se pega (eu) pensando: qual o significado desse anel?

Bem, o que descobri, é que ele pode significar muita coisa, para muita gente, e que esse muita coisa pode ser nada diante do que significa para mim.

A gente usa o anel, e o anel nos usa. Ainda que eu só veja nele uma aliança entre eu e ele, para quem está de fora é as vezes diferente, divergente.

Eu vejo uma escolha entre nós dois. Alguns veem uma vitória (minha, claro) ou um selo de aprovação (dele pra mim, óbvio).

E enquanto eu transparentemente estou feliz em estar ao lado de alguém que amo, algo dessas visões de me perturba, pois é como se eu precisasse do selo de aprovação de um homem para ser feliz, ou como se só eu houvesse encontrado alguém, como se ele me fizesse um favor (ok, parte nóia, parte  não).

Já fui cumprimentada na fila do supermercado por uma conhecida, com um olhar meio aprovação, meio surpresa, ao vê-lo ao meu lado, e uma expressão que não sei definir, e que é um pouco lisonjeira e muito aterrorizante.

O que quero dizer é que me sinto casada, na medida em que amo, temos um compromisso, estou feliz, acredito que o faço feliz, e queremos continuar nos apaixonando, todos os dias.

E não acredito que estar casado é melhor que qualquer coisa. É a melhor enquanto estamos felizes.

Essa é uma declaração de amor, biscate, livre, feliz.

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