E a responsabilidade, de quem é?

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Evitar filhos não é uma tarefa fácil. Apesar de parecer, a coisa é mais complicada do que imaginamos. E, embora o sexo seja uma ação praticada por dois indivíduos, o ônus de uma gravidez indesejada cai, invariavelmente, sobre a mulher.

É golpe da barriga de um lado, vagabunda do outro. Lembro de um amigo que tive na adolescência que sempre vinha com o “acho que minha namorada está gravida”, morrendo de medo. Eu perguntava, quase todo mês: “Mas você quer filhos agora?”. E ele sempre “não”. Mas PORRA! Se você não quer ter filho, porque VOCÊ não SE previne? Isso é assim tão difícil? Morro sem entender pessoas que bebem veneno esperando que o outro morra.

Há alguns dias saiu a notícia: Anticoncepcional masculino deve chegar ao mercado em 2017. Este novo método, sem contraindicações e que não modifica a produção de hormônios masculinos, consiste na aplicação de um gel nos vasos deferentes, que ficam nos testículos. O gel bloqueia a passagem dos espermatozoides, da mesma forma como aconteceria se o homem fizesse uma vasectomia. Com o benefício de ser reversível.

Fiz o seguinte comentário no FB quando compartilhei a noticia:

Estou ansiosíssima para ver como ficarão as novidades do senso comum:
– “Quem mandou meter isso no meio das pernas das outras”?
– “Não quer engravidar ninguém, então se previna!”
– “Comeu porque quis”

Onze  mulheres e sete homens comentaram o post. Apenas um deles festejava o feito. Dois disseram que nunca ouviram sobre “isso de culpar a mulher”. Uma das meninas comentou que para as mulheres a indústria  investe em métodos danosos – com hormônios – e que para os homens a publicidade de um método mecânico, não hormonal já explicitava a diferenciação no cuidado do mercado. Ao passo que um homem respondeu: Mas o DIU não é mecânico?

Pois é. O DIU é mecânico sim, mas há alguns probleminhas com ele, como hemorragia, sangramento entre períodos menstruais, irritação do pênis do parceiro, aumento do risco de doença inflamatória pélvica (podendo levar a infertilidade); expulsão acidental (pode resultar em gravidez inesperada); adesão do DIU à parede uterina; perfuração do útero pelo DIU, com possível dano para outros órgãos como também hemorragia interna.

Isso pode deixar às claras que, além de simplesmente desconhecer os métodos contraceptivos que deveriam ser responsabilidade de ambos, pode haver ainda a resistência de uma “nova” responsabilidade.

Desde os anos 60, a responsabilidade da contracepção na relação sempre recaiu sobre a mulher, principalmente quando o assunto é pílula. Além de ficar com a obrigação de seguir data e horários certos, elas ainda arcam com os problemas de origem hormonal, característicos do medicamento. Danos como trombose, embolia pulmonar e outras reações adversas graves relacionadas à pílula são comuns e raramente as mulheres são avisadas dos riscos que correm no ato da prescrição.

Aberta em setembro de 2014, a pagina no facebook “Vítimas de anticoncepcionais – unidas a favor da vida” reúne mais de 40 mil pessoas e se dedica a viralizar histórias de mulheres que tiveram problemas com a pílula para alertas outras. O movimento pede que se torne obrigatória a notificação dos casos de complicações por parte dos médicos à Anvisa. Em um cenário de falta de dados públicos sobre o risco do medicamento, a pressão e a divulgação de casos pelo movimento é muito necessária. O banco de dados reunido pelo grupo é uma das poucas fontes de informação a que as usuárias do medicamento podem recorrer.

De acordo com a Anvisa entre 2011 a 2014, houve 83 notificações com medicamentos compostos por drospirenona/etinilestradiol, que é o anticoncepcional de maior risco para eventos tromboembólicos. Não há nestes dados informação de outros fatores de saúde específicos que podem ter contribuído para a reação notificada. A agência não possui meios para obrigar os médicos a notificarem eventos adversos.

Destaco que apesar de todos os pesares, a chegada da pílula ao mercado foi um grande passo para os direitos reprodutivos das mulheres. O que se espera que é que mulheres possam regular sua atividade sexual sem correr riscos de saúde e sem a divisão de responsabilidade em caso de algo inesperado/indesejado ocorrer.

Obviamente não espero uma mudança repentina de paradigmas: nem do pensamento machista que coloca na conta da mulher o ônus por uma gravidez indesejada e nem que homens comecem a tomar pílulas ou se submetam ao procedimento anunciado semana passada, que depende de uma microcirurgia.

Mas vale pontuar que a chegada de métodos contraceptivos masculinos ao mercado é importante para que haja a real percepção – e pauta de debates – de que a responsabilidade pela gravidez é de ambos os participantes do ato sexual. Ainda é muito comum que homens digam que “não sabiam” que o ato sexual não estava seguro. Isso é absolutamente ridículo, dado que uma das consequências naturais do sexo é uma possível gravidez.  Mais ridículo é ver que este discurso pobre encontra ecos nos dias de hoje.

11185773_810688268984343_928558166_nCecília Oliveira é jornalista, especialista em Segurança Pública e Política de Drogas na América Latina, Administração Pública e 3° Setor. Coordenadora de Comunicação da Law Enforcement Against Prohibition – LEAP Brasil. Atleticana de corpo, alma e coração!

 

A arte da punheta canhota

Outro dia, numa deselegância colossal, quebrei a mão. Sim, o tal metacarpo quinto, da mão direita, a que escrevo. O motivo da deselegância? Futebol. Meu time perdeu uma peleja e eu, incomodado com a forma mais do a derrota, desferi um soco numa mesa. A mesa passa bem, incólume. Eu…

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Essas fraturas nos tiram bem mais do que locomoções, manejos, praticidades. Elas fraturam também os pequenos pedaços da alma que nos moldam. Fiquei deprê, confesso. Fui um idiota e quebrar a mão por causa de uma deselegância dessas não faz menor sentido. Ou faz… sei lá.

Certo, também, que não era só o futebol. Percebi, depois da alucinada reação, que naquela semana estive mais preocupado do que o habitual com contas, mais do que sempre com as frustrações de um trabalho que mais mecânico cada vez e vez mais. Uma semana onde queria chope, mas veio refrigerante sem gás. Uma semana em que – mais uma vez – um desapontamento com a política me tirou mais encantos, me tornou mais cético, mais cínico, menos sonhador. E quando o time perdeu, sem alma, sem brigar, sem fazer furdunço dos indignados – ainda que papelão de derrotado, projetei, me vi no espelho, bovino e pronto: prum trabum crac. Gesso.

Tirei esta semana o gesso. E tá doendo muito, tudo. A mão inchada pelo mês parado. Aquela sensação que sua mão parece um pão. O dedo não dobra. A articulação parece a interlocução do governo Dilma com a sociedade, dura, macilenta. O metacarpo? Tá lá, escondido, desviado um cadinho. Passou medo pela cabeça, de nada voltar a ser como antes. De não conseguir me desvencilhar desta porcaria de dor. E me odiei mais um cadinho, neste exercício de perseguição que a gente comete quando faz uma cagada monstruosa, como esta que relato.

Mas neste mês de gesso, olha lá, finalmente fiz uma planilha excel para uns cálculos de uns processos. Antes, fazia todo o trem de cabeça, anotava, pensava. A tal planilha revolucionou o mundinho do meu trabalho, meu mundinho chato de escritório e saíram mais cálculos, tirando um pouco de peso dos atrasos acumulados. E aprendi a usar a esquerda para muitas e muitas coisas. E percebi também o quanto este mundão é despreparado para quem tem restrições de algum tipo… Do ônibus ao banheiro.

A esquerda…. a mão esquerda…. Era ela uma companhia fina quando era adolescente. A piada era boa: Se masturbar com a esquerda dormente dava a impressão de que era outra pessoa a fazer o ato… Uma arte deliciosamente canhota.

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NU RECLINADO COM O CABELO SOLTO, 1917, ÓLEO SOBRE TELA DE AMEDEO MODIGLIANI/OSAKA CITY MUSEUM OF MODERN ART

Pensando bem, a esquerda… bati de novo a punheta sagrada. Devíamos nos masturbar mais e quem sabe a punhetação do resto das cousas não nos incomodasse tanto. Há punhetas e punhetas, cabendo a nós – desconfio – qual masturbação escolher.

Você poderia ser mãe dele

“Você poderia ser mãe dele” – disse. E, já enquanto dizia, soube que nada estava mais longe da verdade.

Bastava prestar atenção no rosto dela.

O rosto dela. Os olhos cintilantes dela.  Aquele brilho. Aquele ar de que apenas segurava o sorriso pronto. Por pura bondade, por generosidade: não escancarar a felicidade na frente dele. Não o deixar mais no chão do que já estava.

O olhar que ela lhe lançava era assim, piedoso.

E permanecia sem dizer nada.

Pra quê?

Estava tudo tão claro.

Ofuscante.

Ele fechou os olhos com força: tentativa de apagar a imagem que rodava na sua cabeça como carrossel. Os dois abraçados. Fundidos. Derretendo-se um no outro. Exatos.
Precisos como um soco no estômago.

Quando os abriu de novo, ela já não estava mais ali.

Ouviu, ao longe, a porta da sala bater.

 

Os Experientes: nunca é tarde para a biscatagem

Recentemente, a Rede Globo exibiu a minissérie Os Experientes, com foco em histórias que tenham como protagonistas pessoas idosas. Quatro episódios com produção caprichada que trouxeram um pouco de diversidade para a televisão por alguns dias. Afinal, tirando atores e atrizes muito celebrados, como Fernanda Montenegro e Antonio Fagundes, é raro ver pessoas idosas atuando e ganhando papéis principais.

Para as mulheres, envelhecer significa também tornar-se cada vez mais invisível, assexuada e resignada na visão de uma sociedade que prega a juventude como símbolo máximo da esperança e das mudanças. Porém, qualquer pessoa que está envelhecendo, ou que convive frequentemente com pessoas idosas, sabe que as mulheres muitas vezes se libertam de uma série de amarras nesse período da vida. Ao passar o tempo dos cuidados com filhos, auge da carreira e até mesmo o fim do casamento, muitas finalmente param e olham para dentro de si, encontrando uma mulher que deseja e quer novos horizontes. Esse pode ser o resumo da história de Francisca.

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Após a morte do marido, 45 anos de casada, ela descobre que não se lembra onde estava em vários desses anos. Apenas vivia. Um homem, que segundo ela não tirava nem a roupa dele e nem a dela no momento de fazer sexo. O luto de Francisca surge quando descobre por meio de cartas que por vários anos o marido teve uma amante, que frequentava o círculo de amigos da família. Nesse momento, surge a abertura para que a vizinha Maria Helena a convide para sair, para dançar.

Envelhecer significa vivenciar mudanças físicas na pele e no sentir do corpo. Em diferentes momentos, a dança acaba sendo um catalisador dessas sensações corporais para Francisca. Quando Cristiano, um homem bem mais novo, a pega para dançar no baile. Quando na intimidade, ela dança com Maria Helena. E, no fim, quando assume que está vivendo um sonho mágico, enquanto seu filho cheio de preconceitos pede que ela caia na real.

Francisca e Maria Helena não se questionam como deveriam nomear sua sexualidade. Se agora são lésbicas, se antes eram heterossexuais. Esses termos que são importantes politicamente, mas que no vasto mundo dos sentimentos tornam-se obsoletos. Há o que une Francisca e Maria Helena, o nome que se dá a isso é o mais básico de todos: amor. Vivendo suas vidas elas já estão subvertendo o que se espera de duas mulheres que deveriam estar “vivendo seus lutos e aguardando a morte”, como insiste em repetir Daniel, o filho de Francisca.

Há o receio da solidão. Há a necessidade de cuidados específicos. Porém, ninguém precisa viver quieta num canto porque a sociedade não quer ver ou mesmo reconhecer sua finitude. A velhice, assim como todas as outras fases da vida, merece ser celebrada. Nossa preocupação deve ser sempre prover as pessoas mais e mais possibilidades. Porque não há época melhor ou pior, há o momento em que escolhemos e podemos viver.

Assista o episódio completo “Folhas de Outono” no youtube.

Começar de Novo….

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Tive aos menos 4 momentos de viradas na minha vida. Momentos em que fui forçada a me reinventar pra sobreviver aos acontecimentos externos: gravidezes, separações, mortes.

Mas, também, finalmente superei a morte de um sonho: a carreira. Como milhares de brasilienses, sonhava em fazer carreira em um órgão público. Poderia se dizer que logrei êxito: passei num concurso e tomei posse, mas em 9 meses meu sonho se tornou pesadelo. Sofri assédio moral com gritos e berros, e eu, que sempre me achei inteligente, sempre fui reconhecida assim pelas pessoas, que no emprego anterior era reconhecidamente competente, fui chamada de burra, incompetente e, pior, preguiçosa. Autoestima virou pó.

Somado a outros fatores da minha vida naquele momento, esse contribuiu para uma depressão profunda da qual só vislumbro sair agora, mais de 2 anos depois. E na terapia tive de rever o tal sonho  de carreira. Terapia é vida.

Pois bem, é preciso muita força para admitir que não tenho mais esse sonho, que não ligo mais pra isso, que quero fazer outras coisas e achar outros caminhos na minha vida. É preciso também força interior para lidar quando te olham com desdém porque você não é nada, e não é mesmo, mas tá tudo ok, porque não é isso que importa. Vou lá, trabalho bem minhas horas diárias contratadas, e tchau. Não quero mais fazer do emprego que paga minhas contas o centro da minha existência. E isso está bom para mim. Quero descobrir outras coisa fora de lá.

Isso foi difícil decidir,  porque na vida moderna é o cartão de visitas do seu trabalho, o seu crachá, o seu currículo ou o seu lattes que definem grande parte do que o mundo externo vê e respeita em você. Aí é preciso desapego desse respeito, dessas convenções, desse desejo de reconhecimento externo para ser só você de novo em busca de você. De se sentir bem com você mesma e fazer algo que dê a você sentido e retorno. Seja lá o que for esse retorno. E porque o que importa menos é dinheiro e posição e mais paz de espírito e tempo pra se fazer o que gosta e estar com quem se ama.

É difícil fazer tudo isso quando você achava que aos 40 e poucos estaria tudo definido. Mas, olha que legal, aos 40 e poucos você sabe mais quem é você e as possibilidades estão todas abertas de novo.

É isso. Tudo pode ser recomeçado de novo.

Sede

sede

Texto escrito em suruba literária com Kiara Terra.

Aquilo que não sabemos nos protege. O instante delicioso e cheio de pergunta. Será? Reticência leve seguida de um sim-mergulho.Um sim-vôo. Um sim-abrir-se, estar no colo. A leveza tranqüila de brincar com segredos, medos e desejos preservados.

Um sim que sorri e nos conta que não há pouso seguro. Um sim-vento, que sopra sem bússolas ou rotas programadas. Um sim vivo que se delicia com as possibilidades. Abrigo sem teto, horizonte aberto de quem ganha as estrelas.

E se o mar fosse um colo? Eu quero o mar. Inteiro para nadar toda na falta de margem e beira. Solta em flutuação florescente de quase noite. Algas que resplandecem sob a lua cheia. Eu quero a lua imensa e amarela, a me contar segredos de luz sobre as águas escuras. Boiar no fluxo das correntezas sem bater os braços e as pernas, sentindo o gozo fértil de estar permeada de mar.

O desejo mordido com a língua salgada. Vivo por entre os dentes, saliva quente com gosto de mais. Permitir-se ser só desejo. Poder ser movimento sem palavras. Desejo vivo e vivido em ondas de mar. Diante do mar não tem palavra. Diante do mar só tem mergulho e pele arrepiada, em poros abertos para que o vem.

Eu quero o colo  inteiro. Ser minuscula em sua boca grande e dormir sentindo pulsar o peito. As mãos firmes em minhas costas, selar o espaço quase inexistente de não sermos nunca a mesma pessoa. Rir do descompasso de ser, das diferenças humanas de quem é. E tudo só um encontro em que não se precise de mais nada.

Só as águas fartas e o céu em constelação silenciosa. O tudo que se esconde onde nada se diz, a contemplação muda da força. O corpo saciado  a vontade renascida do fluxo branco das espumas. Não há mais palavra porque tudo meu está nos olhos. Num além daqui aqui mesmo. E qualquer outro lugar onde se esqueça a morte. Onde a gente se lembre muito pouco de tudo antes, e traga junto toda qualidade de segredos engendrados nos músculos, seios e ossos. E nada que seja minha dor se despeje, nada que seja meu desamparo se espalhe. Só a pele macia tocada em dança ágil, onde toda dor vira perfume .

Estou nua e o que não sabemos nos protege. O abismo tem poesia e só venta por que derramei toda previsibilidade. Então vem, brinca comigo de ser o mar que talvez chova. Que talvez vente e faça sol quente de arder as vísceras. Que talvez da terra fecundada nasçam flores vermelhas para enfeitar nossos cabelos. Que talvez apareçam pássaros nos nossos ombros que cantem belas cantigas. E que a gente esteja e seja até quando ventar e existir sede.

É Dia de Renata Lins

Hoje é aniversário da nossa bisca Renata Lins e eu vim escrever um post fora do calendário. Extraordinário. Gosto dele ser assim, porque assim combina com ela, que é uma pessoa fora do comum, fora da norma, fora da curva, fora da risca.

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Poderia dizer que a Renata é como o futebol: uma caixinha de surpresas. E a piada seria boa, mas não seria tudo. Como uma taurina da gema ela é segurança, conforto, estabilidade. A gente sabe que pode chegar que vai ter: colo, afeto, calor.

Sabe aqueles bordados que a gente vê e parecem simples? Elegante, bem desenhado, cores definidas, poucos elementos e tal? Aí você chega perto e descobre que arranjo daqueles tem um incrível trabalho por trás, tudo muito sofisticado, intrincado, complexo e diversificado? É ela.

Quando penso em Renata, penso primeiro em corpo: a Renata é em unhas coloridas, em lábios que riem, em mãos que tocam, em cabelos que esvoaçam, em colo que acolhe cores e colares. Em voz. Quando leio a Renata, é como se a escutasse. Sempre foi assim, antes mesmo de nos encontrarmos e eu saber sua voz. Suas letras são concretas, materiais, se fazem próximas. E é engraçado, porque corpo é um lance tão transitório, né, ele muda. Ele está sempre mudando, até que deixa de ser. Deixa de ser um corpo e tudo e tal. E a segunda coisa que penso, quando penso na Renata, é permanência. Ela tem um jeitinho de chegar que parece que sempre esteve. E um jeitinho de ficar que faz sentir que sempre estará. Mesmo no depois de tudo. De qualquer coisa.

É engraçado fuçar os arquivos do blog pra encontrar o dia exato em que ela caiu na rede. Veio com o Wando, foi ficando, a gente enlinhando, ficou. Está. É. O BiscateSC é quem é, do jeito que é, também pela sua constância. Pela sua presença. A gente pode contar. E pela sua imprevisibilidade e sacadas geniais.

Se eu fosse resumir, diria assim: Renata não deixa a peteca cair. E com que graciosidade a mantém em movimento!

Procuro as coisas mais gostosas pra lhe desejar nesse dia e penso em coisas gostosas e lembro dela mesma. Então, que seja: querida, que seu dia seja em renatas. Um aniversário feliz e biscate. Biscatemente feliz.

PS. Essa musiquinha sempre me faz bem. É que nem você na minha vida <3

Nua

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Imagem daqui

Eu gosto de estar nua. Gosto, especialmente, de andar nua. Não foi sempre assim, lembro que com doze, treze anos, pra trocar de blusa na frente de alguém, nem que fosse, sei lá, minha mãe e mesmo que eu estivesse de sutiã, virava as costas pra pessoa. Aí o tempo passou e eu fui aprendendo sobre meu corpo, vivendo sua gostosura, apreciando senti-lo e deixando as roupas cada vez mais tempo em seus cabides. Hoje em dia tenho que me lembrar de me vestir pra sair e muitas vezes assusto as visitas começando a tirar a roupa na sua frente até me tocar e ir pro quarto ou algo assim.

Sim, eu gosto de estar nua pelos óbvios motivos biscates. Gosto de tomar banho, água quente na nuca, espuma na pele, gosto de me esfregar com vagar e deixar o corpo gozar de ser tocado. Gosto de estar nua ao me masturbar. Gosto de me despir na frente do (s) moço (s) e ver seu olho me vendo. Gosto de ir deixando pele nua encostar em pele nua. Gosto de mãos espalmadas no meu corpo. Gosto de línguas umedecendo carne. Gosto do roçar, do calor que vem de dentro pra fora, gosto do suor escorrendo na nuca, dos mamilos endurecidos, dos pelinhos se eriçando.

Mas tem mais nisso de gostar de estar nua, mais do que deixar meu corpo nu em outro corpo nu (e isso não é pouco). Gosto do meu corpo nu por ele mesmo. Pelo que me conta. Pelo que diz de mim pra mim. Gosto de levantar os braços e ver os seios subindo, as aureólas mudando de lugar. Gosto de deitar e vê-los escorrendo pro lado. Gosto de pressionar os braços e ver aquele vale a la espartilho antigão se formando. De olhar minha mão e reparar que os dedos do cotoco são meio curvados pro lado enquanto os outros são tão retinhos. De cutucar os pelos nascendo na perna, macios, alguns encravando depois de uns dias da depilação com lâmina. Não gosto muito do cotovelo, daí todo dia, depois do banho, fico na frente do espelho olhando pra eles um bom pedaço, dizendo pra mim mesma que, ué, são esquisitinhos, coitados, mas são meus. Gosto de colocar reparo se meu tornozelo está caminhando em direção a se tornar membro da família do meu avô ou se é impressão causada pelas coxas grossas. Gosto do meu totó, corcundinha de estimação. Gosto dos inexplicáveis arranhões que consigo fazer nas costas, em uma flexibilidade noturna que nunca consigo repetir acordada. Do sinalzinho de carne que tenho na parte interna da coxa. De fazer ponta e sentir o esticadinho que dá do dedão até a coxa. Gosto.

E de andar nua, já disse né? Tudo isso, mas em movimento. Gosto de sentir o peso alternando de um pé para o outro, a palma toda encostada ao chão. Do movimento da bunda, o sobe e desce. Do peso da barriga, o ondular ao mover-me. Do roçar dos braços nos lados do peito. Das coxas no encontro, desencontro, encontro, desencontro. Do respirar e sentir o ar levinho, fugindo, entre os lábios. Sentir o corpo meio cortando o vento, o tempo, as coisas que o negam ou definem.

Andar nua na frente do outro: bônus.

Ficar nua, estar nua, ser nua na vida. Como metáfora, mas, principalmente, como materialidade. Não ter vergonha. Meu corpo não tem erros, tem história. Estar nua me lembra as alegrias, as dores, os desassossegos, os prazeres, os soluços, o parto, os abraços, a amamentação. Estar nua me conta infâncias de rua, asfalto, quedas e brincadeiras. Estar nua me diz de adolescência em flertes, livros e amassos. Estar nua me recorda amores, rugas, rusgas, encontros, viagens, praias e cobertores e risos e riscos, cicatrizes, caminhadas, repouso em camas e corpos outros. Envelheci. Engordei. Enruguei. Eu. Estar nua me lembra que o aqui é tudo que sou, que me fiz ser, que pude me fazer. Queria contar isso para vocês: é bem bom estar nua. É bem bom estar.

Eu gosto de estar nua.  E vocês?

 

História de vó

Quando eu era criança, tinha tanto medo de que ela morresse que, todas as noites, antes de dormir, pedia pra ir antes, porque do contrário eu não ia aguentar. Minha avó Maria sempre foi uma das pessoas que mais amei na vida. Doce, divertida, carinhosa, tímida. E, ao mesmo tempo, firme, debochada, capaz de bons ardis pra conseguir o que queria.

Das histórias que adoro, uma das preferidas é a de seu voto escondido no PT do final dos anos 80, ainda que meu avô, fundador do Arena (!!!)  em Pirapora, minha cidade natal, estivesse crente que podia escolher por ela. Não podia. Ela sorria e aquiescia, mas na urna, sozinha, foi soberana e autônoma em sua escolha.

Não era especialmente quituteira. Não era dessas. Mas, sempre fez o melhor pão de queijo de todos! E um pavê de abacaxi maravilhoso, para ocasiões especiais. E nas vezes que não tinha nada em casa pra oferecer pras visitas, aparecia com uma jarra de limonada e bolacha de água e sal.

Uma vez, tentou me ensinar a fazer crochê. Tadinha. Tarefa insana e inútil. Nunca aprendi. Que nem ela era boa na função. Minha avó não era exatamente uma mulher prendada. Mas, me ensinou outras coisas. Coisas da vida. Reflexões atávicas sobre o racismo que sofreu, de tantas maneiras perversas, e que muitas vezes ela nem sabia bem o que era, embora soubesse que machucava. Que humilhava. Disso, ela nunca teve dúvida.

Lembro de histórias soltas, frases cruéis, que não repito porque não consigo. Lembro de algumas coisas…

E me lembro também de quando ela se juntava com seu irmão, meu tio Gino, e contava casos e cantava canções de antepassados que viveram em senzalas. Histórias que ela ouvia da própria avó, que foi quem a criou e a seus irmãos. E eu, tão criança, nem sabia direito o quão solene era aquele momento. O quão fundamental seria para a escrita da minha própria história.

Dizia-me “intiligente” e me mandava ler em voz alta os livrinhos das edições Paulinas, que ela assinava desde sempre. Achava bonitinho me ver pequena “lendo tudo certinho”. Não me catequizou. Mas, certamente, ajudou muito em minha oratória.

E me levava para o asilo público da cidade toda semana pra conversar com as velhinhas. Dando-me, do jeito dela, uma aula de generosidade, gentileza, entrega e um pouco de porvir. Tinha uma que colecionava bonecas. E aquilo me assustava. E me fascinava. Ficava pensando naquela senhorinha brincando com elas, e parecia não combinar. Realmente, eu não sabia de nada.

Minha avó também me deixava comer uva verde da parreira do quintal. Com sal. E depois me dava uma colher de ruibarbo, pros vermes. Era tão ruim, que chegava a ser bom. No final, virou um ritual nosso, só amargo no sabor na colherada. Remédio pros vermes também era carinho.

Uma vez, comentei que gostava de doce de figo. Coisa que só descobri grande, porque figo não era fruta comum em Pirapora na minha infância. E ela passou a me esperar com uma compota quando eu ia de férias. Às vezes, uma compota pequenininha, que cabia numa xícara, porque ela nem encontrava tanto figo assim. Mas, estava lá. Me esperando.

Com ela aprendi a palavra “malinar”. Dizia “menina malina!”, sem saber que ralhando fazia poesia.

Se estivesse viva, teria feito 93 anos no dia 9 de maio. Morreu tem quase 1 ano. Já eu, fico aqui, lembrando dos últimos anos, quando ela foi deixando a memória de lado, mas permitindo aflorar aquela rebeldia incubada, de quem sublimou tanto, por tantos anos. Os palavrões. Ah.

Acabei de voltar de Minas. A primeira vez, depois que a enterramos. E também a primeira vez que estive lá e não fui em sua casa, vê-la. Porque. E nessa vontade constante de contar historias de mulheres, quis falar um pouco sobre a minha avó.

 A música é porque ela adorava!!!

Uma negra na capa da Playboy

Quando era criança, o mês de maio era celebrado como o “mês das pessoas negras”, por causa da assinatura da Lei Áurea. Com o fortalecimento e ampliação do movimento negro, o mês de novembro passou a concentrar as demandas de luta e cada vez se fala menos na “abolição da escravatura”. Esse foi um dos primeiros pensamentos que me ocorreu ao ver que na edição de maio da revista Playboy brasileira, havia uma mulher negra na capa.

Ivi Pizzott é bailarina do “Domingão do Faustão”. A nona negra, em toda a história de quase 40 anos da revista no Brasil, a sair na capa. Meu pai assinou por anos a revista e, em minha memória, só consigo lembrar de Isabel Fillardis, num cenário de dunas.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

As primeiras críticas que vi, falavam que não há nada de novo em ter uma mulher negra sexualizada na capa de uma revista. Não há empoderamento, não há representatividade. É fato que na mídia a mulher negra é ou hiperssexualizada ou invisibilizada, e nos contextos capitalistas o poder dificilmente muda de mão, mas me questionei: nos dias de hoje, essa capa da Playboy pode representar algo?

Se a Playboy existe, num mundo em que corpos femininos são comercializados para o prazer, especialmente masculino, o fato de termos apenas 9 negras num universo de mais de 400 edições da revista é a comprovação que os corpos dessas mulheres não servem nem mesmo para essas revistas, são cruelmente mais descartáveis.

Trago para a reflexão um texto, que considero clássico, de Charô Nunes: Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata! A maioria dos elogios feitos as mulheres negras foca em seus atributos físicos opulentos, retirando-lhes humanidade, colocando-as no açougue, exatamente o trabalho de uma revista como a Playboy, que vende corpos femininos. Especialmente tendo uma capa que remete a etnicidade com os acessórios e exibe o cabelo de Ivi como uma grande coroa, temos a referência animalesca com a chamada que diz “solta suas feras”. Uma questão parece ser o espaço social que o racismo nega e que ainda mantem negras e negros acorrentados a representações legitimadas pela branquitude. O mesmo cabelo que na capa da Playboy é destaque e elemento componente da construção do desejo e apelo sexual, em outros é ridicularizado e tratado como abjeto. Não parece ser a mulher negra que decide como seu corpo lhe agrada mas a narrativa, as fotografias, os discursos externos que são feitos sobre esse corpo.

Porém, negras e negros também são pessoas que desejam, também são corpos desejantes, que muitas vezes gostariam de ver mulheres e homens negros lindos, gostosos, sedutores, todo mês em revistas que pudessem ser folheadas com prazer. A expressão da sexualidade acaba por ser mais um espaço a ser conquistado, um espaço em que negras e negros não precisem existir apenas para servir, apenas para ser a bunda do carnaval ou o maior pênis da festa gay.

Então, há essa luta pela liberdade dos corpos. A luta por uma estética que não seja eurocêntrica, exotificada, ridicularizada ou hostilizada. É preciso reconhecer que a objetificação do corpo das mulheres negras ocorre de formas diferentes a da mulher branca, portanto é preciso levar em consideração também outras formas de representação e vivência de sua sexualidade.

E há inúmeras perguntas que acompanham: o protagonismo individual de Ivi Pizzott pode significar ganhos dentro da teia capitalista, que vislumbra um poder também individual? Porque posar nua, ver-se nua numa revista famosa, traz novas formas de se olhar. Talvez seja também o sentimento que carrega a passista nua da escola de samba, que tem no momento do desfile o seu auge individual. Coletivamente, para as mulheres negras não há mudanças, mas individualmente pode haver significados diversos? E caso sim, como acolhermos e legitimarmos os desejos e ações individuais sem perder de vista os compromissos coletivos de transformação da realidade?

É uma capa da Playboy, mas é bom que até isso seja o catalisador de novas perguntas sobre o protagonismo das mulheres negras.

+Sobre o assunto:

Detox

Não, não irei falar sobre esses sucos verdes, que estão bem na moda. Alguns deles são bem gostosos e eu até tomo por isso (porque não sei se desintoxicam mesmo ou pra que eles de fato servem). Vou falar sobre algumas atitudes que às vezes, se fazem muito necessárias. Sobretudo para quem milita ou precisa de um tempinho para organizar as ideias, especialmente nas redes sociais.

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É. Tô na fase do detox. Mas um “detox pessoal”, sabem? É uma coisa que no fundo eu não gostaria de precisar fazer na vida, mas que não dá pra ficar sem. A internet as vezes se transforma num ringue onde algumas pessoas competem para saber quem tem o ego mais inflado, usando uma deturpadíssima noção que possuem do que é liberdade de expressão para propagarem suas falácias, que quase sempre são carregadas de preconceitos diversos.

E o mais legal de tudo isso é que essa galera domina muitíssimo bem vários recursos de linguagem, que fazem com que qualquer bobagem se pareça com uma opinião consistente, bem articulada e sensata. O grande segredo da coisa toda é enumerar, passar para tópicos, usar palavrinhas pomposas e “acadêmicas”. Te deixam confusa. Você aparentemente precisa parar para pensar – ou para ler – minuciosamente antes de elaborar uma resposta. Enquanto isso, vem os likes. Os shares. Os números. O alimento que aquele ego sobre o qual falei acima tanto precisa para não morrer.

Acham que tô falando sobre os reacionários, conservadores, trolls, coxinhas e afins? Antes fosse, porque eles são reconhecidos muito mais facilmente. É só dar unfollow né? Pronto. Só que não. Eu falo de gente que até bem pouco tempo atrás, lutava lado a lado comigo, porém, que adota justamente o modus operandi daqueles que diz combater (odeio essa palavra, é que não encontrei outra melhor). Gente que dizia acreditar no mesmo que eu. Gente que ao longo do tempo, aprendi a respeitar, mesmo em meio à inúmeras divergências teóricas/ideológicas.

O que quis dizer hoje aqui é bem simples (e doloroso, porque sou dessas): tô me desentoxicando dessas pessoas. Ou melhor, desses discursos contaminados. Porque me faz mal, percebem? Não vim ao mundo para ser vaca de presépio, sem ser crítica e autocrítica. Sou aprendente e aprendiz nesse mundo gigante, que não gira ao redor do umbigo de ninguém. Não endosso discurso de ódio disfarçado de militância, venha de quem vier. Sororidade, esse conceito altamente questionável e seletivo não é pra mim. O patriarcado já caga regras demais na minha vida, acho que não preciso que feministas venham fazer o mesmo, certo?

Façam o que bem entenderem com minha carteirinha.

 

Melhor de quatro

A. chegou perto de mim, os olhos muito abertos: “Eles me convidaram pra dormir no quarto deles!”

“Eles” eram os franceses que minha avó hospedava no apê de Boa Viagem. Me lembro de Claire, loira, cabelo curto. Os outros dois eram um casal: só sei que ele tinha feito ENA. Uma “grande école”. Moço bem formado. Dela, a memória é de que reclamava muito – das pessoas, da cidade, do sol forte demais. Reclamava. Os nomes não sei mais.

Os franceses tinham achado muita graça ao descobrir que a gente não dormia no mesmo quarto ali, na casa da minha avó. Eu dormia no quarto de visitas, com ela. Ele, no quartinho. Os franceses, os três, estavam alojados no quarto da minha avó: uma cama de casal e um colchão de solteiro, no chão.

A. continuava olhando pra mim com aqueles olhos arregalados. Meio assustados. Meio alguma outra coisa que eu não defini na hora. Nem agora. Curiosidade? Vontade?
O sujeito era meio sem-graça. Mas as meninas eram interessantes. As duas.

– E agora, o que é que eu faço?

– Ué, criatura, é pra mim que você pergunta? Vai lá. De repente eles querem fazer briga de travesseiros, tá faltando um.

Seria um motivo justo: briga de travesseiros de três não dá certo.

BrigaTravesseiros