Discurso

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada 

Puta. Biscate. Vadia. Periguete. Vagabunda. As palavras variam um pouco, o sentido e direcionamento, nunca. Uma mulher não costuma ser julgada pelo seu posicionamento político, pela sua inteligência, pela sua habilidade empresarial. Ela é julgada pela sua vida sexual. Mesmo que nem a tenha. Mesmo que você nem saiba se ela tem alguma.

E quando queremos ofender um homem?

Viado. Bichinha. Ou filho da Puta. São os mais comuns.

Veja bem, o energúmeno fez um desfalque na empresa e o máximo que você consegue é tentar compará-lo a uma mulher ou a um homossexual, ou seja, um homem que, de alguma forma e em algum grau, se comporta como uma mulher.

A Renata Lins já postou sobre a importância de mudar os xingamentos. Eu falei recentemente em um seminário de oratória e a direção era a mesma do texto dela: discursos não são neutros, palavras não são neutras. Elas estruturam e são estruturadas pelo sistema de poder dominante. E não é preciso ser um gênio para entender que vivemos sob um sistema patriarcal, homofóbico, machista, racista, classista e capitalista, que hierarquiza pessoas por classe, gênero, orientação sexual, raça, idade e etnia.

“O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder de que se procura se apoderar” (Michel Foucault)

Foi na internet que encontrei os exemplos para minha palestra, afinal, quem não conhece “o monstro dos comentários”? Ou as “piadas” das subcelebridades da rede?

Uma dessas figuras, um dia, soltou que estuprador de mulher feia merecia um abraço. Um amigo dele disse em outra ocasião que o cara que espera uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela é um gênio. Um outro meliante escreveu um texto tão absurdo, que só colando um pedacinho pra acreditar:

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Nem vou entrar no mérito do que é ou não uma mulher bonita e gostosa, da comparação da mulher com um objeto como um carro ou um relógio. Me aterei aos fatos:

— Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são menores de 13 anos, de acordo com estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Elas representam 50,7% do total. Os adolescentes (14 a 17 anos), representam 19,4% das vítimas e os adultos (18 anos ou mais), 29,9%.

— Segundo a pesquisa, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, 51% de cor preta ou parda e 46% não possuíam o ensino fundamental completo (considerando as vítimas de escolaridade conhecida, o índice sobe para 67%).

— estimativas da Policia apontam que apenas duas entre cada 10 vítimas denuncia o abuso. Um dos motivos é a proximidade do agressor.

— A maioria esmagadora dos agressores é do sexo masculino, independentemente da faixa etária da vítima.

— No geral, 70 % dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

Então alguém explica para os subs da internet que estupro nada tem a ver com sexo e sim com PODER sobre o outro? Que a roupa que uma mulher/menina veste, seu comportamento sexual e/ou social não é motivo e não pode NUNCA ser utilizado como desculpa para uma agressão?

Essa culpabilização da vítima é um velho golpe político, daqueles mais manjados, mas que parece nunca cair em desuso. Pobres são acusados de serem pobres por que querem, porque não se esforçaram o bastante. Negrxs são acusados de preguiça, de má índole, desde a escravidão. Enquanto isso, o poder dominante se sente seguro para perpetuar o racismo, o machismo, a homofobia e os trágicos números que o Mapa da Violência traz sobre homicídios dessas minorias historicamente perseguidas.

Voltemos a palavra puta. A Luciana Nepomuceno já escreveu sobre o quanto é preocupante alguém achar que chamar uma mulher de puta seja algo ruim, pejorativo, ofensivo.

“Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?”

A querida Gabriela Leite declarou, em 2007, que a violência contra as prostitutas vem crescendo no país, partindo principalmente de jovens de classe média e reforçada pelos órgãos de segurança, que tendem a ver a prostituição como crime. “A sociedade sempre dividiu as mulheres em duas categorias: a santa mãe de seus filhos e as prostitutas.”

E se uma prostituta se torna mãe? E se uma mulher da classe média resolve se autointitular prostituta, no auge da sua gravidez? Como a sociedade reage a isso?

Mês passado, soube que a foto de uma amiga querida durante a Marcha das Vadias 2013 estava sendo compartilhada por uma página antifeminista no facebook com um texto bem manipulador a respeito. Ela, que estava grávida de nove meses, tinha escrito na barriga “filha da puta”, desafiando assim esse paradigma que teima em se manter vivo em pleno século XXI.

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Faz parte. Poderia ter sido a minha foto grávida de 2012 na Marcha, poderia ter sido a minha foto com o filhote no ano passado ou neste ano, já que fui uma das organizadoras do protesto nos últimos três anos. Mas foi a dela e claro, quando ela marchou, assim como nós, já sabia que enfrentaria a boçalidade de muitos.

Mas realmente é chocante o nível dos comentários nas diversas páginas e fakes que começaram a compartilhar a mesma. E eu me pego pensando se realmente conseguiremos revolucionar esse sistema como gostaríamos, já que A MAIORIA dos piores comentários são de mulheres.

Discurso – prática – prática – discurso. A violência contra as mulheres está aí, sendo discutida pelas principais Instituições de Direitos Humanos do mundo, pois não é algo exclusivo do Brasil. E muito menos dos homens. É do sistema. E quem sou eu para julgar quem o reproduz ou mesmo quem acredita que está defendendo a fofa da filhota dela ao soltar comentários como esses?

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Falta de informação, excesso de ingenuidade, medo da mudança… os motivos podem ser vários, mas o principal é que a maioria não consegue enxergar o quanto estão envolvidos por essa ideologia assassina que é premissa do nosso sistema social.

E, após os comentários non sense (teve até gente perguntando como ela engravidou se odeia homem, num sinal claro que a criatura não faz ideia do que é o feminismo) vieram os comentários preocupantes, violentos, agressivos:

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Você pode achar que são só comentários. Assim como a turminha que tacha o “politicamente correto” de chatice e defende “as piadas” incorretas. Mas não é assim que acontece e a realidade está aí, pra dar tapa na cara de quem insiste em olhar para o outro lado.

Por mais que me horrorize os julgamentos femininos, bem mais do que os masculinos, já que estes mais não fazem que lutar para manter seus privilégios, eu fico é penalizada, pois sei que o vento sempre vira, como disse a Renata Lins em um post meu recente no facebook. Ver mulheres tripudiando de outras, julgando, por essas lutarem contra a violência que TODAS NÓS estamos sujeitas é algo bem perverso. Porque amanhã a vítima poderá ser qualquer uma delas. E nem assim elas acordarão para a realidade…

Vadias somos todas. Eu fui chamada de vadia quando fui estuprada. Quando recebi uma promoção no trabalho. Quando ganhei a láurea acadêmica. Quando namorei um homem 10 anos mais velho, quando namorei um homem 10 anos mais novo. Puta. Vadia. Piriguete. Biscate.
Mas a verdade é que não somos todas putas. Porque não sofremos o que esse grupo sofre diariamente com o preconceito que parece crescer assustadoramente em nossa sociedade conservadora, julgadora e hipócrita. E dói muito pensar que este pensamento é o mesmo de 2000 anos atrás, quando um baderneiro de cabelos compridos afirmou que só poderiam atirar pedras quem não tivesse pecado, pedras essas destinadas a uma mulher pela sua conduta sexual.

Vou encerrando esse texto lembrando das palavras do fofo do Bernardo Toro ao falar da ética do cuidado. Toro é uma daquelas pessoas que a gente conhece, senta pra tomar um café e tem vontade de nunca mais sair de perto. Integrante do Bogotá Como Vamos e da Red Latino-americana por cidades justas, democráticas e sustentáveis do qual eu tenho muito orgulho de fazer parte, ele traz nesse texto a seguinte afirmação:

“A linguagem é a chave para saber quem somos como indivíduos. Nós somos nossas conversas: quando mudamos nossa forma de ser, mudamos nossas conversas e quando mudamos a forma de conversar, mudamos a forma de ser. A linguagem nos constrói.”

E é por isso, por essa reconstrução da linguagem, da nossa forma de ser, que mais uma vez me chamarei de vadia, de puta, de periguete. Não importa realmente se minha conduta sexual condiz ou não com essas palavras. Eu quero ter o poder e a alegria de ressignificá-las. Para que, um dia, nenhuma mulher mais seja julgada, humilhada, assassinada por ser quem é: uma mulher.

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH - 2012

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH – 2012

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Depois a gente vê

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Pediram-lhe palavras. Há algum tempo já, ela só tem usado as roubadas, de poemas e canções. Debruça-se sobre as palavras alheias, que a traduzem tão bem que ela se comove de se ver ali, desnuda e descrita. Sempre achou que empunhava as palavras tão magistralmente e hoje elas lhe faltam. Ou sobram. Nunca na medida. Como o que ela sente, também tão desmedido. Tão desafiador, desestruturador de tudo o que ela sempre pensou ser, que viveu até aqui, que acreditou.

 Ele faz doerem nela dores que ela nem sabia que existiam. E a faz gozar prazeres de que  tampouco desconfiava. Perfurantes. Ele confronta suas teorias sobre amor e liberdade, testa seus limites, grava no seu corpo e na sua memória as sensações mais extasiantes, enquanto crava nela o ferrão da dúvida, os dentes do ciúme, as unhas da inquietação. Fugidio, esquivo, tantalizante. Ela? Experimenta, permite-se, tenta, testa. Alonga. Paga pra ver.

 Já partiu, já voltou, chora muito, ri outro tanto, pensa demais. Tudo demais. Cores, dores, luzes, faltas, explosões, desejos. Esperas. Essa coisa de pensar sobre o tempo. Muito cedo, tarde demais, intervalos, ocasiões, agora, nunca, sempre, velocidade, duração, logo, quando, tempos paralelos, tempos comprimidos, tempo. E espaços. Frestas. Onde. Como.

 …..

Os olhos escuros que ficam quase cor de âmbar no amor.  Ela poderia ir morar naqueles olhos para sempre. Reduzida à carne sob as unhas, escondida nos sulcos da pele, no meio dos pelos, entranhada no suor dele, no sêmen, no gosto doce e úmido da boca.

 …..

Uma coisa é saber da falta e da angústia, mas viver todo o tempo diante da face crua dessa falta, na ausência de ar e no espanto desse buraco que nos constitui, também pode ser sintoma. Por isso, a gente cria uns véus, lança umas rendas diáfanas diante da realidade, usa uns filtros no enquadramento, para adoçar arestas, permitir caminhos.

 Entretanto. O caminho que ela percorre é escuro, instável. A cada passo, a incerteza. Cair no vazio ou criar, no próprio ato do passo, outro pedaço da estrada? Estrada que ela nem sabe se existe, ou onde vai dar. Claro que não existe. Nenhuma estrada existe a priori. Mas a gente às vezes inventa, projeta, imagina – lança os tais véus – e isso é muito reconfortante. Fazer planos, sonhar, construir futuros. Ainda que só de brincadeira, ainda que sabendo da ilusão. Adora um amor inventado.

Por um tempo viveu um amor assim, que prometia ser absoluto, completo. Foi tão bom acreditar. E tão sufocante manter. Hoje, experimenta a exacerbação da transitoriedade. De um lado, a ilusão de completude, da entrega que cobra, impiedosa, o preço da liberdade; de outro, o desconforto da impermanência, permanentemente desfraldada diante de si como um desamparo. No meio, ela. Um tanto atordoada. Que já não sabe o que deseja. Ou sabe só o que deseja, sem lógica ou juízo. O corpo dele no seu, as mãos, a boca, as pernas, os olhos. Os olhos dele nos seus, o fogo, o riso, a dor, a promessa muda e incompleta. Só hoje, só mais um dia, só até o próximo encontro. Depois a gente vê o que faz.

 

E se resistir for um chocolate amargo?

Existe um tempo da delicadeza, disse o poeta. Acho até que foi o Chico. Buarque. Mas existe esse tempo, de hoje, onde a delicadeza deu espaço e lugar para urgências desmedidas e por uma profunda incapacidade de tolerância. Se é verdade que esses novos – e não tão novos – espaços pelas redes criam vida, criam laços, novas ideias, intercâmbios, também é mais que verdade que tudo, mas tudo tudo, ganhou a dimensão do já. Ontem é infinitamente distante…

 Muro Resistir

O que me faz escrever nesse espaço biscate, das mais prazerosas cousas que há, é o diálogo, o debate, a empatia, a libertinagem e o libertário. E há o doce exercício do sonhar e o outro exercício, amargo, o de resistir. Aqui nesta casa, que é boteco, varanda, chinelo, colchão d´água, chicotinho, divã, sala de aula, mancebo, a gente pode exercitar nossas lentes de ver o mundo. E não dá para fazer isso com tanta pressa, uma pressa que nos é imposta por alguém que encontra no relógio a resposta pronta para tudo, uma exigência de mercado.

Ser solidário é requerimento de essência. Ter empatia. Se colocar no lugar do outro. Mas isso não quer dizer sem rusgas, sem desavenças, sem incompreensões, sem dúvidas. Tudo que é certeza incomoda, a princípio, nossos amores – e desamores. Precisamos recuperar o tempo, este tempo.

Estamos morrendo porque não conseguimos tratar com seriedade temas como o aborto, a violência, o racismo, questões de gênero, a pobreza e o machismo na esfera pública, na política, no mundo. A seriedade pressupõe procedimento, escutar, ouvir, entender, depreender e milhares de verbos que não se resolvem na base de tacape ou de um “pré, conceito”.

Mas o alerta é outro. O alerta é que a pressa do relógio é absurdamente preconceituosa, preconcebida, porque a decisão é tomada com base naquilo que arraigado, sem discussão, a saída aparentemente mais fácil. E que é urgente, aí sim, que saiamos desta casinha. A urgência, a que não é a desmedida, é que necessitamos de outras soluções, outras percepções, outros caminhos.

 Sonho Impossível - Flor

Talvez isso tudo sirva só de amuleto ou consolo. Porque estamos resistindo, resistindo, resistindo – e nossa impotência tem sido muito cruel conosco, com nossas reflexões, com nossos desejos, nossa disposição. Resistir é absolutamente necessário, sabemos. Mas resistir é calma, que do contrário esta pressa nos engolirá, como vem engolindo a tudo. O nada, do “História sem fim”.

O chocolate amargo sabe ser delicioso. Resistamos, pois.

Clarina e a família brasileira

E lá se foi a  novela mais chata dos últimos tempos. Ok, na verdade, a novela mais chata e ponto. Ganhou de lavada de todas. Até a última semana foi morna, até o último capítulo, zero surpresa, zero reviravolta, zero emoção digna de nota.

Tento avaliar o aspecto que poderia ser mais positivo: levar ao público a visão positiva de um casal lésbico, mas pela forma que a trama foi conduzida nem isso conseguiu. Talvez se Maneco tivesse optado por outras soluções dramáticas e tivesse um mínimo de coragem as coisas fossem diferentes.

Os questionamentos mais frequentes se referem ao Cadu, personagem de Reinaldo Gianechinni, um cara reconhecidamente gato. A pergunta de sempre: que mulher largaria um gato daqueles por outra mulher? Vamos lá pra FAQ lésbica da vida real.  A sexualidade humana não é um negócio assim fechadinho, sabe? As pessoas que se permitem experimentar muitas vezes se descobrem bissexuais, gostam de pessoas dos dois sexos e isso pode ocorrer em diferentes momentos da vida. Ademais, casamento acaba simplesmente porque acaba. Vários são os motivos, viram irmãos na mesma casa, vários conflitos de personalidade, tédio e são tantas coisinhas miúdas… Mas ahhhh, a família… Olha, as pessoas se separam e os filhos sobrevivem. E bem, sabe? Assim na vida real como na novela, caso do garotinho Ivan. Tudo depende de como os pais levam a separação. Sobre o sexo lésbico temos aqui no Biscate mesmo um ótimo post, sim, é possível e ótimo um sexo sem pinto.

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Mas quanto à novela, Cadu era uma cara que sonhava alto mas sempre metia os pés pelas mãos, era infantil, isso no começo da novela, era perfeitamente possível e aceitável que exatamente por isso o casamento tivesse acabado e estivessem juntos só pelo filho. Quantos casais vivem assim? Mas o público não aceitou que o fofo Giane fosse trocado, veio a doença do personagem e paf! Giane se tornou um cara maduro e bacana. Mágica de novela!  Daí ficou mais difícil ainda pro público careta, homofóbico, lesbofóbico, entender porque Clara deixou de amá-lo e amava uma mulher. Mas olha, juro que isso acontece na vida real, viu? Porque tem gente que ama pessoas, não gêneros. Simples assim. E amor começa, e acaba, e tem que ter tanto coragem pra começar quanto pra terminar e, sim, as crianças vivem muito bem se tudo isso for dito a elas ao invés de… e fomos felizes para sempre (o que na grande maioria dos casos é uma grande mentira). Aliás, essa cena foi muito bem resolvida na novela, Clara contando ao filho que iria casar.

Então, o grande público que detestava ver, de novo, um casal homossexual, aguentou porque não tinha nenhum toque explícito, só um selinho e agora leio comentários nos sites especializados em tevê sempre reclamando de uma suposta invasão homossexual nas novelas.

Por outro lado o casal foi queridíssimo por outra parcela do público que formou até fã-clube e shippou (juntou) as duas formando o casal #Clarina (Clara+Marina) torcendo pelo amor das duas, e subindo várias vezes a hashtag no twitter. Realmente, aleluia, o mundo mudou. Mas nem a emissora, nem o autor me pareceram dar muita bola pra fãs não, infelizmente, porque poderiam ter explorado muito mais o romance entre as duas. E digo por explorar terem mostrados cenas românticas mesmo e não sexuais (já que parece ser demais e não é para o horário).

Olha, e não é invasão gay, é o mundo real. Graças a muita luta, e muita dor nessa luta, as pessoas estão saindo dos armários e vivendo a vida que todos vivem, se abraçam, se beijam, se casam, vão ao mercado, criam filhos e a novela, como produto de sua época, só espelha isso. Então, seja bem vindo o novo casal gay, Zé Mayer e Klebber Toledo em Império e que tenham melhor sorte. Ao menos não se casarão com vestido igual e que se parece com o das discípulas de Inri Cristo…

As Inrizetes

as Inrizetes

Cuidar de meninos, ainda

DeBruyne

Cuidar de meninos. Já escrevi um sobre isso, aqui. E tenho vontade de falar muito mais sobre o assunto. Meninos: pressões sociais. Ser menino, algo que eu acho tão difícil. Acho tão difícil, daqui de onde olho. Sem ser. Mas vejo as pressões, o tempo todo, permanentes. As pressões para sentar de tal jeito, não mexer a mão de tal outro, falar com voz assim ou assado. As roupas. Ah, as roupas. Só pode isso e aquilo, aquela nem pensar, essa cor de jeito nenhum. De-jei-to-ne-nhum.
“Mas por quê?”
E a resposta definitiva: “Não é coisa de menino”.

Coisa de menino: não é tanta coisa que pode. Tanta coisa não pode. Uma, em particular: não pode brincar de boneca. Não pode ter boneca. Já ouvi histórias de gente que deu bonecos (nem eram bonecas, vejam bem: eram bonecos, bebês) para filhos de amigos. Pareceu fazer sentido, ia nascer um irmãozinho: um boneco é algo que se dá com frequência quando vai nascer um irmãozinho, ajuda a criança a lidar, a aprender a cuidar, a brincar de “ter o seu bebê” também, agora que a mãe vai estar ocupada com um.

Que se dá? Ah, sim, se dá para as meninas. Ponto. Menino não brinca de boneca. E vão os pequenos lidar com suas dores sem apoio. Sem aprender a botar no colo, a ninar. No máximo um bicho de pelúcia, não-humano. Boneca, nem pensar. É coisa de menina.
Panelas, comidinhas? Coisa de menina. Vassoura, ferro de passar? De menina. Brilhos, paetês, maquiagens? De menina, de novo.

Pros meninos? Sobram os carros. Carros: potência, velocidade. Atributos “de macho”. Sobram as armas. Na minha casa não rolava: no máximo, pistola de água. Porque era de água, não porque era pistola. Mas é presente comum, né? As pessoas dão. As bolas, que são talvez a parte mais legal. Já tinha comentado no outro texto:

Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Porque educar é isso, não é mesmo? Educar pra quê? Pra navegar do seu jeito nesse mundão velho sem porteira, acho eu. Pra saber que o outro é outro e é igual a você. E merece respeito, como você. E merece atenção, como você. E merece viver do jeito dele, como você.

E pra isso, é melhor começar cedo. Quando as crianças são pequenas. Bem pequenas. Com o exemplo, ainda mais importante que as palavras. E com as aberturas de espaços. Conviver com os outros diferentes. Aprender que os diferentes são, também, iguais. Brincar. Brincar, que é aprender a vida. Brincar que ajuda a se entender no mundo. Mais meninos brincando de bonecas. De pular corda. De elástico. Brincar de roda. Junto com as meninas. Junto. Fazendo junto. Se fantasiando junto. Criando novos mundos. Do seu jeito. Com o que der. Abrindo possibilidades e caminhos.

E, sim, isso é assunto para esse nosso bloguinho. Que tantas vezes fala da violência contra a mulher. E o que está proposto aqui é, também, forma de luta. Lá no começo, quando eles ainda são bem pequenos, cuidar para começar a desmontar essa armadilha.

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Mãe

Meu post hoje fala do grande amor da minha vida. A mulher que sempre esteve ao meu lado e que tenho toda certeza que continuará ao meu lado a vida toda dela (ou a minha). Falo da minha mãe. Minha mãe é o meu maior exemplo de mulher, sempre falo que quero ter a mesma fibra que ela teve toda a sua vida!

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Lembro como se fosse ontem, quando minha mãe se divorciou, que foi com a cara e a coragem morar sozinha, com duas filhas crianças. Mesmo sabendo que sua família não era muito de acordo, ela foi em busca de sua felicidade, que já não era mais ao lado de meu pai. Minha mãe trabalhava tanto! Por um certo tempo, ela foi mãe e pai, até conhecer meu padrasto, um homem que apoiou e esteve ao lado dela em todas as suas lutas diárias.

Foi nesse casamento que compreendi o valor do companheirismo, da amizade e da divisão de tarefas entre um casal! Meu padrasto sempre cuidou e muito bem da gente, enquanto minha mãe trabalhava e fazia faculdade, meu padrasto apenas trabalhava, então, presenciei várias cenas incomuns na década de 90: Meu padrasto cozinhava, colocava a gente pra dormir, levava a gente para passear todos os fins de semana que minha mãe precisava de paz para estudar. Foi nesse núcleo familiar que aprendi a ser feminista. E foi vendo minha mãe vivendo como profissional, escolhendo realizar seus sonhos, sempre olhando como a preocupação, o cuidado e o amor desse casal era provado a cada dia que minha mãe chegava tarde da faculdade e estávamos na cama dormindo, de barriga cheia e felizes.

Lia, eu e minha mãe no último natal

Lia, eu e minha mãe no último natal

Foi também com a minha mãe que aprendi a ser e me assumir negra. Sou filha de pai negro e mãe branca, na minha casa não tinha “alisar cabelo das meninas!”, teve quando foi de nosso desejo, na adolescência, e meio que a contragosto da minha mãe. Foi naquele núcleo familiar que ouvi, pela primeira vez, quando sofri bullying, que era linda, que minha cor e meu cabelo eram bonitos e que não deveria nunca pensar diferente! Foi com a minha mãe que aprendi a me impor, não deixar racismo nenhum me diminuir! De quantas lojas nós já saímos de cabeça erguida? Se mexesse com filha dela, mexia com ela! Quer ser racista? Não espere que a gente aceite!

Essa mesma mulher nunca se se sentiu envergonhada de nenhuma atitude minha, debate comigo e com minha irmã sobre racismo, homofobia, machismo, planos profissionais. Se ela ou eu temos alguns preconceitos enraizados, não é por conformismo, é por ainda estarmos todas nós (as 3) em desconstrução. Mas fico sempre feliz ao ver minha mãe, uma mulher branca, heterossexual, de família católica e nascida na década de 60 falar com mais naturalidade que muita gente de 20 e poucos anos sobre assuntos que, na época dela, eram tabus, era feio, era errado. Com ela eu aprendi a afirmar meus direitos, todos os dias.

Amanhã, essa mulher maravilhosa faz 54 anos, queria falar que me sinto feliz todos os dias por ser sua filha, por aprender com ela tantas coisas! Tenho muita sorte, noto isso todas as vezes que vejo que posso contar com ela, que ela me compreende, me apoia e, as vezes, me dá umas broncas também, coisas de mãe preocupada. Feliz aniversário, minha melhor amiga!

O Estado contra Beth

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Beth, numa das tantas caminhadas de protesto pelo desaparecimento de Amarildo em frente à UPP da Rocinha, onde o marido fora torturado e assassinado

Na última segunda-feira 14 de julho fez um ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza. Faz um ano que PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o detiveram e o levaram até as dependências da UPP, o torturaram, mataram e desapareceram com seu corpo. Não fosse a denúncia da família e o dedo deles apontado para o Estado como o responsável por seu sumiço, jamais saberíamos o que aconteceu com Amarildo e ele teria virado estatística.

Vinte e cinco PMs respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo. Desses, treze estão presos, entre eles o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos. E como diz o jornalista Mário Magalhães, que acompanha o caso de Amarildo:

“Nenhuma iniciativa do Estado favorável aos parentes de Amarildo, por decisão própria ou determinação da Justiça, anula a obrigação legal e moral de entrega do cadáver de quem foi morto por agentes públicos.
É direito de sua família enterrá-lo.
E é dever do Estado, cujos funcionários mataram e sumiram com Amarildo, assegurar esse direito.”

Amarildo é um desaparecido da democracia. E assim como os desaparecidos da ditadura, a família sabe o que ocorreu, que ele foi torturado e assassinado por PMs, mas sem o rito fúnebre, sem a despedida, é quase impossível encerrar o luto. E a dor se estende ao infinito e vai além.

Escreveu Marcelo Rubens Paiva, no dia em que o desaparecimento de seu pai completou 40 anos:

“É mais um na lista dos desaparecidos políticos.
Dia 20 de janeiro é o dia em que a família decretou a data de sua morte.
Não temos um jazigo, mas temos uma data artificial.
A morte requer rituais.
E a força da família se mobilizou para a Anistia, o fim da ditadura e muitas outras lutas.
Há 40 anos, este caso não se encerra.
Pois se o Estado não quer, assim será.
Sob as incongruências da Lei da Anistia, o Brasil nos pede para virar a página e esquecer.
Não, não dá para esquecer.”

Nessa lógica absurda na qual os crimes cometidos pelos agentes do Estado contra pobres e negrxs na democracia e contra oponentes na ditadura são menores, são “acidentes de percurso” e obviamente ficam impunes, quem luta contra essa ordem natural das coisas — deixar os crimes do Estado esquecidos, intocados e impunes — está em risco e se coloca na mira do Estado. É nesse lugar em que se encontra Beth. Sabermos o que aconteceu com Amarildo teria um preço. E não somos nós que o pagamos/pagaremos. Se muitos dos PMs que respondem judicialmente pelo crime estão presos é porque a justiça entendeu que eles oferecem risco à sociedade, à família de Amarildo e podem coagir e/ou intimidar testemunhas.

Nesse um ano a imprensa já noticiou duas prisões de um dos filhos de Amarildo, Emerson. Sua “sorte” é que em uma delas a discussão dele com PMs foi filmada e enviada para o WhatsApp do Jornal Extra. Nas duas ocorrências (se é que podemos chamar assim) o “novo crime” de desobediência e a tentativa de envolvê-lo com tráfico de drogas. Essa tem sido a “estratégia” da polícia desde o início do caso Amarildo, envolver a vítima e sua família com o tráfico, inclusive essa era a alegação da farsa montada pelo delegado “adjunto” do caso — e que foi desmentido e desautorizado pelo delegado titular — para tentar isentar os PMs e o Estado do crime.

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Elizabeth Gomes da Silva

Na semana passada foi denunciado o desaparecimento de Elizabeth Gomes da Silva, a viúva de Amarildo, incansável nas denúncias contra a PM e UPP até vir a tona o que aconteceu com seu marido. Beth, segundo familiares, andaria muito deprimida, lembrando muito de Amarildo e teria voltado a beber e a usar drogas.

Fiquei assombrada com a notícia. Fui tomada por um misto de agonia a pavor diante do horror da situação. Felizmente Beth estava bem e a salvo, em Cabo Frio. Tinha saído de casa há dez dias sem informar o destino e assim permaneceu. Mas… Algo não desceu nessa história. E foram os relatos da imprensa sobre o caso. Foi/é a forma como a imprensa se refere a ela (já tinha denunciado o mesmo no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a “mulher arrastada”). Elizabeth para as manchetes da imprensa não tem nome, é “a mulher de Amarildo” (nem quando a matéria é “favorável” a tratam pelo nome no título) e todos fizeram questão de destacar o “deprimida”, “voltou a beber”, “voltou a usar drogas”. Um jornal (apenas um), mas um dos primeiros a noticiar o paradeiro de Beth, chegou a dizer que ela estava com um namorado em Cabo Frio — informação não confirmada, e que NÃO INTERESSA A NINGUÉM. Parece que ter ficado viúva e ter filhos menores para criar a impedem de ter algum prazer na vida. Ela só pode sofrer, afinal foi esse o papel dado a ela pelo Estado através de agentes públicos criminosos. E se foi esse o papel designado a ela, ‘ela que se resigne’, não é?!

A fonte de todos os veículos (G1, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, etc.) foi a mesma, a sobrinha de Beth que procurou as entidades de defesa dos Direitos Humanos que apoiaram a família durante os últimos doze meses, Michele, e o advogado da família, João Tancredo. Não é preciso ser gênix para perceber que o foco é assassinar a reputação de Beth, é desacreditá-la como testemunha para o julgamento. E eu duvido, DU-VI-DO, que a defesa dos PMs não use essas notícias para neutralizar a voz de Beth em favor dos réus.

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como "a mulher de Amarildo"

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como “a mulher/viúva de Amarildo”

Está achando pouco? TEM MAIS. Anteontem (15/7), o delegado Gabriel Ferrando, titular da 11ª DP (Rocinha) anunciou que vai indiciar Beth pelo crime de abandono material dos filhos.

“– Ela era a única provedora do lar, e foi embora levando inclusive os cartões do Bolsa Família e da pensão que a família ganha do governo do estado. Quero saber como esses jovens se mantiveram. Ainda vamos ouvir algumas pessoas, mas tudo indica que ela será indiciada – afirmou Ferrando.”

Sordidez define.

Por mais que a imprensa consiga manipular a opinião pública e seja mestra na arte de assassinar reputação e com isso descredibilizar uma pessoa, não é difícil perceber a discrepância desse embate. De um lado a Beth, uma mulher negra, diarista, que sofre há um ano com o luto inacabado do marido (e que deverá se estender por toda a vida, tal e qual aconteceu com os familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura) lutando por justiça; do outro o Estado, o ente que deveria proteger e zelar pela vida de todos os cidadãos sendo usado por bandidos a serviço e em nome da lei para proteger outros bandidos.

Não sei como nomear um Estado que ataca seus cidadãos mais desfavorecidos dessa forma vil e covarde. Só sei que democracia não é.

A mulher de valor, o medo da buceta e o moralismo de plantão

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores e moralistas de plantão. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta não tem valor.

Na semana passada foi noticiada uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o órgão recursal da Justiça estadual, na qual um desembargador emitiu um voto no qual considera que “Não cuida da moral mulher que posa para fotos íntimas em webcam“. Tratava-se de um recurso sobre uma ação de indenização por dano moral, diante da divulgação de fotos de cunho intimo compartilhados pela autora da ação (vítima da quebra de confiança) com o réu (autor da divulgação indevida das fotos que lhe foram enviadas no curso de relação intima). Popularmente, o pornô de vingança.

marias da net

A autora ganhou a ação em primeira instancia, e o juiz concedeu o valor de R$100.000,00 (cem mil reais) de indenização, a ser pago pelo réu. Foi uma vitória, especialmente diante do Judiciário de um Estado onde se costumava usar uma tabela para o dano moral, e que continua parcimonioso na concessão de indenizações.

No entanto, obviamente o advogado do réu impetrou recurso, como é seu direito, e de todos (para isso existem os tribunais e o segundo grau de juridição, para que um grupo de magistrados possa dar a decisão final sobre o inconformismo de uma das partes com a decisão do juiz único da primeira instância).

O TJ/MG manteve a condenação. Nos termos do voto do relator, o desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, o valor do dano moral deveria ser reduzido para R$ 75 mil, mas rechaçou o argumento de concorrência de culpa da vítima. “Pretender-se isentar o réu de responsabilidade pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima.”

No entanto… muito bom para ser verdade? Pois é. O desembargador revisor, contudo, divergiu do relator. Para ele,

“a vítima dessa divulgação foi a autora embora tenha concorrido de forma bem acentuada e preponderante. Ligou sua webcam, direcionou-a para suas partes íntimas. Fez poses. Dialogou com o réu por algum tempo. Tinha consciência do que fazia e do risco que corria”.

Asseverando que a moral é postura absoluta e que “quem tem moral a tem por inteiro”, o julgador ainda chegou a entendimento de que as fotos sensuais diferem-se das fotos divulgadas pela autora da ação, imiscuindo-se não só no campo da moral, mas no da moralidade…

As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. São poses voláteis para consideradas imediata evaporação. São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.” Disse, ainda, o Des. Francisco Batista de Abreu: “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida.”

Nesse contexto, vem-me tantas coisas a cabeça que chego a engasgar.

Inicialmente, pela condenação do réu na primeira instância, meu coração se aquece, e surge uma ínfima esperança de que algo sim, está mudando. Vários dos comentaristas do portal jurídico onde primeiro li a noticia da decisão também criticaram a postura do desembargador.

E aí vem essa traulitada. Vem esse jovem senhor, com 64 anos, mais novo que meu pai, que vem dizer o que é erótico, o que é pornográfico, e vem medir, etiquetar, rotular, e cortar fora o que não cabe em seu limitado entendimento da alma humana. Pega um conceito de sensual e pornográfico direto da coleção primeiros passos,  e vem despejar moralismo no que pode ou não pode fazer entre quatro paredes, entre pessoas adultas e capazes.

Não, senhor. Como bem escreveu a Bete Davis, aqui mesmo no Biscate:

Então, como vou eu definir o que é erótico e o que é pornográfico quando estas palavras  ganham a conotação moralista de certo e errado? Artístico e lixo? Erótico é o que me excita, e o que me excita eu bem sei. O que excita você, car@ leitor@, você também sabe.

Segundo o entendimento do terceiro desembargador da turma, que seguiu o voto do revisor:

De qualquer forma, entretanto, por força de culpa recíproca, ou porque a autora tenha facilitado conscientemente sua divulgação e assumido esse risco a indenização é de ser bem reduzida. Avaliado tudo que está nos autos, as linhas e entrelinhas; avaliando a dúvida sobre a autoria; avaliando a participação da autora no evento, avaliando o conceito que a autora tem sobre o seu procedimento, creio proporcional o valor de R$5.000,00.

O que os nobre magistrados não percebem é que o valor aqui não é só o valor que a autora tem sobre si. Eu, como disse a minha xará, Renata Correa, “particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. ”

Mas a ação em si, o ato do ex-namorado, que fosse por tempo curto (hello, o doutor acha um ano um tempo curto? Baby, conheci e fui morar junto com meu marido em menos tempo que isso, e nesse tempo, namoramos à distância, doutor, veja só). Tem nome, o ato do réu, e é pornô de vingança. E é uma dessas “modas” que pegam, e que deviam ser inibidas e não estimuladas por decisões como esta.

“Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima.”, aponta o desembargador.

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores tem. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta, que não só se toca e goza, mas tira fotos, oh, horror dos horrores, de sua “grotesca” VAGINA, não tem amor-próprio, não tem auto-estima.

origem do mundo

A Eliane Brum trata, lindamento, deste medo, deste horror, por parte da sociedade, neste texto aqui:

Que há algo perturbador no órgão sexual feminino não há dúvida. Até nomeá-lo é um problema. Vagina, como tenho usado aqui, parece excessivamente médico-científico. É como pegar a língua com luvas cirúrgicas. Boceta ou xoxota ou afins soa vulgar e, conforme o interlocutor, pejorativo. É a língua lambuzada pelo desejo sexual – e, por consequência, também pela repressão. Não há distanciamento, muito menos neutralidade possível nessa nomeação. É uma zona cinzenta, entregue a turbulências, e a palavra torna-se ainda mais insuficiente para nomear o que Courbet chamou de “A origem do mundo”. Para Lacan, “o sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear” – uma das razões pelas quais teria comprado o quadro.

Eu tenho problemas com a forma da decisão, com as palavras, cuidadosamente escolhidas pelo julgador para des-valorizar não só aquela autora, aquela mulher que teve a coragem de se expor e exigir a retratação não pela exposição da imagem, mas pela quebra de confiança.

Eu tenho muitos problemas com quem não vê o machismo explicito nessa decisão, com quem a julga tecnicamente correta, pois a autora da ação, vítima da exposição indevida, se colocou em situação de risco.

Eu tenho muitos problemas, sim, com quem é incapaz de perceber que se expor para um homem, em um contexto privado não significa que a mulher não se valoriza. Pelo contrário, nesse mundo de bocetas plastificadas, depiladas, infantilizadas, é preciso muito amor próprio, muita segurança e auto-confiança para se exibir, por si, para o seu prazer. A regra é a exibição controlada e regulada da buceta para o prazer do homem, para o lucro, para a pornografia mainstream, dominante, dominadora. A mulher que se exibe porque quer, para quem quer (e só para quem quer, ouviram? Só para quem ELA quer, é bom repetir) tem um poder sobre o próprio corpo que a maioria dos moralistas de plantão não consegue admitir, aceitar, sequer tolerar, que dirá respeitar.

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Eu me descobri feminista em 2010, depois de trabalhar em um caso de estupro. Date rape, para ser precisa, ou “estupro de encontro”, uma figura importada dos EUA, onde a vítima do estupro já conhece o autor, e com ele mantém uma relação de confiança, ainda que volátil e passageira. No caso, a jovem havia conhecido o rapaz em uma festa, estavam ficando, outras pessoas foram para a casa dele depois da festa, em casais, incluindo ela, com as amigas e os amigos dele, amigos em comum, entre si. E la, depois, em algum momento, ela se sentiu desconfortável.

Ela disse NÃO. Ela se atreveu a dizer NÃO, NÃO QUERO. Não, não permito que você me use para o seu prazer. E ele prosseguiu, contra a vontade dela, mesmo sem usar de violência física. Isso É estupro. E eu o indiciei, e o Ministério Público o denunciou, o Judiciário recebeu a denúncia. Não acompanho o caso, soube que ele se mudou de Estado para fugir do processo, eu mudei de Delegacia, mudou a juíza, mudou a promotora do caso. Eu duvido que hoje ele seja condenado. Eu temo pelo que a jovem vítima terá que ouvir como “defesa” do acusado, como a vida sexual prévia e a atual serão colocadas na berlinda.

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E essas decisões, desses homens e mulheres, sobre o nosso valor, vão pautar no futuro a forma como tantos casos semelhantes serão tratados. Serão essas pessoas, que vivem nesse mundo, que decidem e decidirão nosso valor.

Eu fecho com a Renata Correa, de novo:

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história. (Renata Correa, Mocinha de Valor)

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Das tantas mortes

“…Depois de tanto verbo a pessoa morre. A pessoa morre”.
(Karina Buhr)

pedra-na-agua

Coragem, para as pequenas mortes. Pequenas mortes que antecedem a grande passagem do ego. Pequenos lutos de grandes mortes. Grandes lutos de pequenas mortes. A gente morre. Depois de tanta vida, depois de tanta aspiração, depois de tanto amor, depois de tanto verbo, depois de tanto gozo, depois de tanta dor, como diz Karina Buhr lá em cima, a pessoa morre.

E a gente morre. Viver é estar permeado de morte, com os olhos assombrados pelo escape do tempo, e de nós mesmos. Morrer assusta, mas é bonito. É fluxo de vida, é vida de rio cheio, é vida que vai e não volta, é vida pulsante de tantos tempos que ainda virão. É possibilidade de reinventar-se, de se deixar ir, de deixar ir o que não podemos segurar com as mãos, de ser nada diante do segredo maior de estar vivo. E de ser tudo que se pode ser neste respiro de tempo presente.

A sinceridade – nua e crua, é que a gente morre. E aceitar a morte é aceitar que somos finitos neste instante em que tudo é. Em que os olhos veem e a gente existe. Em que a gente já não é mais, e nunca mais poderá ser.

E tem tanta gente tentando (em vão) segurar a areia que escorre incontida para o outro lado da ampulheta. Tentando se segurar nas certezas expiradas, que já evaporam no ar. Tentando se proteger com bens e seguranças materiais, cercar-se da materialidade e do conforto possível diante da sensação nada segura de estar vivo.

E de nada adianta tanta concretude, não conseguimos conter o tempo. A gente morre. E é melhor morrer vivendo, seguir nadando na correnteza, do que morrer cercado de concretos armados e vazios de ar viciado. De vazios de tudo que podíamos ser, e não fomos. De tudo que não experimentamos, dos vastos mares que não nadamos dentro de nós mesmos. E dentro do mundo, do outro, dos outros, das matas e das florestas verdes ou cinzas. E de tudo não seremos ali, no morto-vivo que não morre e não vive. Que está pela metade se costurando com linha que não junta os pedaços desconexos. Tem tanta vida lá fora. Vida que só tocamos quando paramos de nos proteger do fluxo de ser. E de ser qualquer coisa, qualquer coisa que surge quando paramos de nos proteger das nossas inevitáveis mortes.

E enquanto escrevo digo isso a mim mesma, aos meus próprios medos e inseguranças de vida e morte, bradando aos ventos que me levem.

É verdade: viver dói. Nascer dói, e morrer pode ser alívio. Tem dor, e na dor tem matéria prima do que somos feitos. Tem gozo que antecede a felicidade de estar vivo. Felicidade que não precisa de nada a não ser o pulso. Que se sabe fluída e sempre presente nos intervalos das marés. Que sabe da dor da impermanência. E da beleza das ondas que levam e trazem substâncias vitais. E a gente se refaz ali na beira do mar, que lambe nossa pernas e apaga as marcas na areia. Que molda novos e impossíveis desenhos. Até o último respiro de olhos abertos.

E não adianta se esconder do mar, porque a gente morre. Porque viver é mutabilidade. Caem as unhas, os dentes, os cabelos mudam, a pele enruga, as nossas células gritam e a gente muda por dentro. As sensações mudam, os desejos mudam, a gente morre e renasce em diferentes instâncias de nós mesmos. Até que um dia a gente se desfaz em poeira cósmica e beija as estrelas. Desculpem-me mais uma vez: de nada adianta nosso ego. Ele vira poeira.

E nesse nosso falso mundo de seguranças jurídicas e investimentos no que dá lucro, de pequenezas materiais e mesquinharias aos montes, só me resta rasgar os rótulos e tentar dissipar o medo. E que a gente seja. E viva com sede, biscateando impossíveis desejos e vivências, até a última gota.

As mulheres gostam de sexo. Parem de dizer que nós usamos anticoncepcionais por “motivos de saúde”

Texto de Jéssica Valenti. Daqui.
Tradução de Paulo Candido

Quando 99% da população feminina usa anticoncepcionais, é muito triste ver que nós não podemos simplesmente dizer que nós os usamos por causa do sexo. E que nós gostamos de sexo – gostamos muito.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST
 Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde - é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde – é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST

Mulheres gostam de sexo. Algumas mulheres que gostam de sexo não querem ficar grávidas, então elas recorrem a métodos de controle de natalidade. Eu sei que essas não são frases muito originais ou reveladoras, mas por alguma razão incrivelmente irritante, a imprensa e seus colunistas ainda perdem um longo tempo discutindo fatos tão banais da vida: sexo existe e contracepção muitas vezes faz parte do sexo.

Os conservadores não vão admitir seu medo visceral do sexo por prazer, então a máquina midiática de Washington está fazendo o serviço sujo por eles. Mas se esse é nosso debate de verão, bem, será que nós podemos pelo menos tentar achar uma razão para toda essa estupidez?

Quando Sandra Fluke deu seu famoso depoimento sobre a cobertura de contracepção pelos planos de saúde na Câmara dos Deputados americana, toda a primeira parte de sua fala se concentrou em uma amiga que precisava tomar anticoncepcionais para tratar a síndrome do ovário policístico. Semana passada, após a decisão da Suprema Corte no caso Hobby Lobby, a revista Elle publicou um artigo intitulado “Dez razões médicas pelas quais uma mulher pode precisar de anticoncepcionais”. E então o National Journal publicou um artigo, que circulou por todas as redes sociais, declarando que o que “ninguém está vendo”, no debate sobre a decisão da Corte, é que todas as mulheres precisam tomar anticoncepcionais por razões médicas. “Mesmo se essas mulheres nunca fizerem sexo em toda a sua vida, elas precisam tomar anticoncepcionais”, escreveu a repórter Lucia Graves. Seu texto continua:

“Essas mulheres dependem da pílula para regular seus hormônios e por uma série de outras razões, da diminuição da dor até redução do risco de câncer. Estes motivos médicos nada tem a ver com sexo ou prevenção de gravidez.”

Eu concordo com Graves, a ligação entre os anticoncepcionais e a saúde da mulher não deve ser ignorada – e é importante que a discussão pública, depois da decisão Hobby Lobby, esteja olhando para além da vergonhosa decisão da Corte em favor do “defensores da liberdade” anti-sexo.

Mas é muito deprimente que, no verão de 2014, quando 99% das mulheres usa a pílula, nós não possamos apenas dizer que a maioria das mulheres usa a pílula por causa do sexo. E que nós gostamos – gostamos muito – de sexo.

Eu posso também prometer o seguinte para vocês: concentrar-se nas razão não relacionadas a orgasmos pelas quais as mulheres usam anticoncepcionais não vai fazer com que os conservadores magicamente mudem de idéia sobre esse assunto. Não importa quantos artigos sejam publicados, implorando aos leitores para que pensem sobre os inúmeros problemas de saúde da mulher, as organizações conservadoras tem suas cabeças enfiadas no esgoto por anos, e elas gostam dela lá.

Olhando para as entidades que apoiaram o Hobby Lobby com pareceres de “amicus curiae”, por exemplo, dá pra se ter uma idéia muito clara sobre as preocupações dos conservadores, e a saúde não é uma delas:

O Independent Women Forum enviou à Corte um parecer, argumentando as mulheres já tem acesso irrestrito a métodos anticoncepcionais através do programa Planned Parenthood (o qual, ironicamente, o IWF acha que deveria ter seu orçamento cortado) – e este é apenas o último de longa lista de argumentos deste grupo sobre como o sexo está de alguma forma destruindo as mulheres. A Catholic Medical Association escreveu um parecer argumentando (erroneamente) que os métodos anticoncepcionais causam abortos, mas um memorando de 2011 desta mesma organização esclarece melhor sua posição, ao afirmar que “o uso generalizado de anticoncepcionais contribui para a promiscuidade sexual” (como Bill Maher brincou uma vez, “É como dizer que se você vacinar uma criança contra o tétano, ela vai querer ficar enfiando pregos enferrujados no pé”). O Eagle Forum e o Beverly LaHaye Institute também enviaram pareceres apoiando o Hobby Lobby; eles também ridicularizaram a idéia de contracepção e de mulheres fazendo sexo. E quando mulheres jornalistas cobriram a decisão da Corte Suprema, não foi uma coincidência que a maioria de nós tenha sido chamada de vadias e putas nas redes sociais e em vários outros lugares. Para os conservadores, anticoncepcionais não são uma questão de saúde; são uma questão de sexo, do seu medo do sexo, e do pânico causado pela idéia de mulheres fazendo sexo que não seja para ter filhos. Quanto mais nós ignorarmos essa verdade – ou nos concentrarmos nas razões “válidas” pelas quais as mulheres precisam de anticoncepcionais – mais nós mulheres estaremos fornecendo munição, e abandonando o terreno moral, para a direita.

Os liberais concedem o mesmo terreno quando eles constroem seus argumento a favor do aborto usando os exemplos mais extremos: estupro, incesto e saúde. Sim, as mulheres precisam de abortos por essas razões – mas elas também precisam de abortos quando elas simplesmente não se sentem preparadas para serem mães. E isso é bom também.

Também é bom – maravilhoso, na verdade! – que as mulheres usem métodos de controle de natalidade para poderem transar sem engravidar. Ainda mais maravilhoso: funciona. O surgimento dos anticoncepcionais foi talvez a mais importante descoberta de todos os tempos para a liberação feminina. Nós podemos usá-los. E não só para regular nossa menstruação – mas para fazer um sexo quente, suado, fantástico, divertido e sem qualquer fim de procriação. Isso não nos torna “vadias”; nos torna humanas.

 

Henrietta, Gerda, Agatha: faces e imagens

Quem me conhece sabe que eu (re)leio Agatha Christie em tempos de crise. Proteção e aconchego. Livros com final. Reconfortantes. Familiares.

Tem uns que eu reli mais vezes, claro: já falei de um deles aqui. E quando digo “livros”, na verdade são personagens: que eu já conheço, a quem já fui apresentada e que reencontro, feliz, a cada passagem-leitura. Aqui, são duas as personagens que me interessam, que formam um eixo: as duas mulheres do médico e pesquisador John Christow em “A Mansão Hollow”. Gerda, a esposa; Henrietta, a amante. As duas são mesmo um par que se complementa: uma é o avesso da outra e uma não existiria sem seu avesso.

Gerda Christow é, talvez, a personagem mais fascinante: no livro, ela é apresentada quando está numa dúvida cruel. Está na hora do almoço, John ainda não chegou do consultório, o rosbife já está na mesa e Gerda, sentada, angustia-se: o que fazer? Mandar o rosbife de volta para a cozinha para que não esfrie? Mas John é tão impaciente, ele vai reclamar se o rosbife não estiver na mesa quando chegar. Deixá-lo ali? Se ele se atrasar mais, o molho vai esfriar, a comida vai ficar ruim… Gerda se tortura durante alguns minutos com as alternativas. Para o leitor, fica evidente: não tem saída. Qualquer escolha será a errada. Porque é Gerda. Lenta, indecisa, pesada. Muito aquém do que se esperaria de uma mulher para o brilhante e bonito John Christow. Isso, inclusive, na sua própria opinião. Ela é imensamente grata a John por ter casado com ela, embora não entenda o motivo disso ter acontecido. E, por gratidão, aceita o mau humor, a rispidez, a impaciência dele. Ela é a errada, por necessidade. Ela é Gerda. O rosbife deixa claro.

Não falei de amor, apesar do livro fazê-lo: esse é meu jeito de contar essa história. Ela pode pensar que é amor, sem dúvida pensa: mas será? Essa aceitação embevecida de que o “ser superior” dignou-se a olhar para ela, condescendeu em casar com ela? Não me parece. Dependência demais, sentimento de inferioridade demais. Um tipo de amor, talvez? 

E agora, na contraface, a outra. A outra que é a outra: Henrietta Savernake, linda, livre, independente, artista. Henrietta é aquela por quem todos se encantam. E que no entanto entende que o posto de esposa já está tomado: não será dela, como teria gostado que fosse – ela será a amante e terá a intimidade de John, os sonhos de John, como Gerda não tem. No entanto, nada de todo dia: isso pertence a Gerda. Ela é a pessoa que tem mais paciência com Gerda, que tenta incluí-la nas conversas e fazê-la sentir-se à vontade. Não por fingimento: por compaixão genuína. Ou assim parece. Mas é, também, a pessoa que comete a maior crueldade: uma estátua inspirada em Gerda, uma estátua sem rosto, em que o que conta é o peso do pescoço e dos ombros: uma estátua a que dá o nome de “O Adorador”.  Ela percebe que isso é cruel, mas não consegue fazer diferente: a arte é o que a puxa para a vida. É o que lhe dá impulso. Ela é a amante, e  mesmo assim John se ressente porque ela não o coloca em primeiro lugar.

E aqui? É amor? Aqui é menos claro para mim. Acho que sim, que é amor. Que com John é entrega, mesmo que ele a acuse de não amá-lo o suficiente, de preferir-lhe sua arte. Arte é necessidade, é o que faz dela o que ela é e o que a torna livre para, sim, amá-lo. De igual para igual. A ele, as pesquisas médicas; a ela, as esculturas. Paixões paralelas e similares.

Gerda, Henrietta: um eixo. Formas de amar. Ou de achar que é amor. A entrega da adoradora Gerda, que não pede nada, mas no fundo espera algum reconhecimento do seu sacrifício permanente. A honestidade de Henrietta, sua incapacidade de fingir ser o que não é, embora fosse tão mais fácil, tão mais cômodo: ou eu estou aqui inteira, ou não estarei. Mesmo que isso me faça sofrer imensamente. Mesmo que estar inteira implique que o lugar do homem não é o primeiro.

Gerda e Henrietta, sementes. Arquétipos. Fios do novelo emaranhado que é o pensar o amor, nem que seja pelas beiradas. O nome do livro em inglês: “The Hollow”. Que é o nome do vale em que se encontra a mansão. E que quer dizer oco. Vazio.

Dia desses eu casei…

Pois é, dia desses eu casei.

Pelo menos é o que quase agora, quando olhei meu perfil antes de começar a escrever esse texto, ainda me confirmava o facebook.

Não teve festa, e portanto também não teve aviso ou convite aos familiares e amigxs de ambos acerca de nossas intenções em contrair núpcias (desculpem, mas pelo bem da zoeira, eu tive que escrever isso).

Também nem sei se posso dizer que tenha havido algo que possa chamar de intenção. Antes de. Apenas mudei o meu “status social” durante uma “discussão” inbox acerca de relacionamentos e suas nomenclaturas e de como as pessoas, incluindo nós, reagem a esse ou aquele termo.

E daí o moço, com o qual eu vinha mantendo um tal de “relacionamento sério”, leitor assíduo desse site e que também já escreveu por essas bandas como convidado, mudou o “status” dele em resposta. Acho que porque seria bem indelicado não aceitar pedido tão singelo duma pessoa legal como eu (né, bubuio?).

Enfim, sei que acordei no dia seguinte e me passou pela cabeça que assim como nas “redes sociais” também é na tal da “vida real”. Relacionamentos começam e acabam com um simples gesto. Um toque. Um detalhe. Que não existe garantia nenhuma. Mas que talvez tivesse sido muito irresponsável da minha parte aumentar o âmbito das cobranças de determinados papéis para pessoas como eu. Ou como ele.

Ou algo assim. Hoje acho apenas que eu estava bêbada e quis uma coisa meio Las Vegas-contemporânea-virtual, sei lá… cada um que conte a sua história e faça suas considerações sobre o acontecido… nesse texto, por hora, eu posso e quero contar essa versão. Que podia ser completamente diferente. Também poderia sequer mencionar o assunto.

Por pensar desse jeito foi que fiquei realmente surpresa quando recebi os parabéns dalgumas colegas de trabalho. Mais surpresa ainda quando uma delas, mulher que intitula-se como “senhora casada, séria e respeitável” (rogai por mim, Kátia, a cega) me afirmou que se eu precisasse de “conselhos” sobre a “vida de casada” (isso morde?) podia contar com ela. Fiz uma pergunta acerca da posição sexual conhecida pelos biscates escreventes nesse club como haraquiri baiano e ela desconversou…

Bom, ela continuava chata. Eu também.

O que me tranquilizou bastante sobre questões acerca de manutenção de identidade e essas coisas que podem (e são) questionadas vez em quando por gente sem noção diante de alguns… digamos… acontecimentos. Como se deixássemos de ser quem somos individualmente, de um dia para o outro, porque, bom, porque fazemos qualquer coisa considerada como “normatizada” socialmente.

Porque né? Cadê manual de instruções pra viver? E ainda mais especificamente, cadê “normas” para pessoas que são mães, filhas, pais, namorantes, casadas, putas, amigantes, solteiras, amancebadas, tico-tico no fubá, viúvas, separadas, divorciadas, celibatárias (insira aqui qualquer termo que descreva um tipo de convívio que se mantêm em relação a outrem)? Alguém tem? E se for uma coisa e não outra? E se for tudo ao mesmo tempo agora? Cê num sabe de nada, John Snow…

Também tenho me tranquilizado quando acordo e lembro que apesar dessas pessoas, que escolho não conviver além do necessário (já disse que sou chata, oras), já faz algum tempo que comecei a viver (e a vezes contar) uma história bem legal com esse cara que agora se diz (e eu confirmo) meu marido. E ainda assim fico curiosa em como (e se) vou querer continuar fazendo isso. Também porque gosto da resposta que tenho me dado quando o vejo ao meu lado na mesma cama (de casal, de solteiro, no colchão dxs amigxs, no jardim). Quando rimos juntos. Conversamos, conversamos muito. Dividimos o silêncio. Brigamos e fazemos as pazes. Ou apenas quando ligo e escuto sua voz.

Foi para esse cara que há dois dias pedi opinião, para realmente levá-la em consideração, sobre com qual cor pintar a geladeira. Fiquei desconcertada com o amarelo da resposta. Como assim amarelo? Azul não é mais legal, não? Esse tom de amarelo mesmo? Mesmo mesmo? Tem certeza?

Pois é, agora tô eu aqui escrevendo e olhando a geladeira que antecipei à sua chegada e comecei a pintar sozinha, talvez para tentar ver como “lhedar” com a vinda de outras e fortes cores, durante um período de tempo (que me disseram ser maior apenas pelo uso de um termo) nesse meu solitário espaço, construído e decorado nos últimos anos em tons de azuis tranquilizantes e taurinos marrons.

É, casamos, mas ainda não estamos morando na mesma casa.

Ele está em outro Estado, outra cidade e outra casa. Mas espero e desejo que ele chegue logo, porque esses tem sido dias muito chatos desde que nos despedimos há longas e enfadonhas duas semanas. Que chegue de mochila pesada de livros, com o coração leve ou de qualquer outro jeito que possa nos trazer alegrias. Juntos ou separados. Seria perfeito se fosse no primeiro dia do mês que vem, tal qual combinamos. Mas ainda se ele ainda mantiver a coragem danada que tem de viver. Sem desrespeitar a minha.

Porque vai que é como disse uma grande amiga (e eu nunca esqueci)… amar é mesmo isso.

Coragem.

Quem diria, né? Teremos uma geladeira amarela, marido. Ou não.

geladeira 1

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