O amor

O amor que me alcança tem o cheiro dos meus cuidados em ti. Te amo, me preocupo, sou teu escudo, quero que nenhum mal chegue enquanto estiver perto. Te pego, te apanho, te desconstruo. Te costuro, emendo, cuspo e mordo. Te arrebato. Me arrebatas. Nas palavras, na cama, na nossa cama, no nosso encontro. Te sinto todo, inteiro, teso, durmo junto contigo e faço teu café. Te amo por nadinha, por coisa nenhuma. O meu amor é uma velha e boa conversa fiada de porta de esquina. Mas é verdadeiro, viu? Porque não valemos nada juntos, a não ser essa matéria feita à base de ilhas e mares que construímos tortamente. Te dou tudo que tenho, possuo só o coração, esse gerente do mal que me incita a viver beijando o chão que pisas. Pra ti, te trago flores, te acordo com beijos e carícias danadas, daquelas que você gosta e calado, se permite e se entrega as minhas mãos cheias de coragem, finitude e gozo. Pra ti, Exu meu, eu cozinho, rebolo, amasso pães, invento histórias e faço cafunés matadores na tua cabeça. Mesmo que de ti se façam dois, sou eu, pequenininha, que te ponho no teu melhor lugar (dentro de mim). Só queria dizer que habitas por entre a sombra e o destino. Não sei de onde vens. Te observo furtivamente (ou não), pois não sei quem és. Porque secretamente, me enganas e finges (e sim, eu sei da presença invisível dessas coisas doloridas). Mas olha, se te dou amor, é porque em mim tem forças que vem de dentro do rio e do mar. E gente do meu trato, feita de barro pelo amor, sempre sobrevive. Dá o que tem, ama no possível e segue em frente. Acende o cigarro, toma um gole, vira o copo e respira fundo. Porque sabe que o amor, esse território imenso, nasce e morre um sem-número de vezes dentro do peito. E gosta.

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

Gostos e jeitos

Ele não quer ser mulher. Não quer mudar de nome, mudar de gênero. Está bem assim. Gosta de usar saias, vestidos, corpetes. Maquiagem, brincos longos, colares. Meia-calça, salto alto, unhas pintadas. Sexy, sedutor. Saboroso.

***

Ela não gosta de sexo com penetração. Gosta de roçar, encostar, esfregar, tocar, bulir.
Adora a sensação do pau passando pelo corpo dela. Goza quando ele esfrega o pau no rego da sua bunda, deitada de costas, na cama. Por cima dela, nos peitos. Embaixo do braço. Na barriga.

***

Ele gosta de ser penetrado. Seu maior tesão: ela penetrando-o por trás, segurando na sua bunda, quente, forte, intenso.  Indo, vindo, apertando. Puxando-o. Ele se encanta com o corpo dela, o gosto dela, o cheiro dela. A forma como ela o penetra.

***

Ele gosta de olhar. Pira no olhar. Recosta-se nos travesseiros. E olha. E se toca. E saliva. Enfia os dedos na boca. Morde os lábios. chupa o dedo. E se masturba com a outra mão.  Lentamente. Saboreando o olhar.

***

Ela gosta de passar a buceta no rosto dele. Na língua dele. Se demorar no nariz. na testa. Puxar seus cabelos. Gemer rouco, gemer alto. Escorrer para dentro da boca dele, por cima do nariz dele. Deslizar. Soltar-se.

Biscateando às vezes

Às vezes… nem sempre, nem nunca…  em muitos casos,  em poucos. às vezes surpreendentemente, para o bem, para o mal ou para o incerto e às vezes, muito às vezes, a vez.

1950_Chagall_La_Mariée

às vezes
by Chagall

Não é bem uma matemática afetiva… não é uma multiplicação de pessoas e gestos e feições e afeições, sequer é soma… tampouco o clichê da divisão e, menos ainda, o subtrair do outro, mas, às vezes, esse é mais…

O querer é da ordem do “às vezes”… querer sentir, querer estar, querer ser… é em meio à infinitude, encontrar o que a gente quer e, também, o outro quer… para mais, para menos, por isso às vezes dá certo… nem nunca, nem sempre… às vezes…

O querer… querer é um bicho com quem ninguém pode… o querer é da destruição de qualquer matemática da vida… mas, às vezes, ele desperta um quê para além do querer… aquela ponta de desejo que vai para além do infinito e, por vezes, explode em uma profusão de querer também.

TAMBÉM, como querer também é bom! querer também subtrai pra dividir uma soma que multiplica tudo o que se é junto… mas também não é matemática… também é linguagem… de uma língua das mais aplicadas! Também é quando o às vezes do querer acontece…

São linguagens para além de palavras, são linguagens do sentir em forma de música, de movimento, de um conjunto de formas e maneiras confusas e inconfundivelmente abstratas para que só a ordem só sentir entenda… e para que só no tocar, no envolver, no beijar e no ser se entenda… linguagens para poder realizar o querer… esse querer também que parece difícil, mas que entre uma biscateada e outra, às vezes, desavisada e despretensiosamente captura…

Liberdade Sexual é Pauta

Por Iara Paiva, Biscate Convidada

Esta semana vi uma matéria, não me lembro mais onde, que contava a história de uma britânica que descobriu que o marido a dopava, estuprava e filmava tudo. O horror.

Eu sei que a gente não deve ler os comentários. Mas a gente aprende com eles. Ou confirma o que desconfiava. Muita gente dizendo que é ridículo falar em estupro, é marido dela. Ela quer aparecer e tal. E nesse ponto eu entendo certas teorias radicais ainda que não concorde com elas. Porque pra muita gente sexo e estupro são a mesma coisa. Ou só ligeiramente diferentes. É estupro se é criança, se é um desconhecido com uma faca numa rua escura. Se é alguém que a vítima conhece, é sexo, e já não há mais vítima. Pra essas pessoas sexo não é uma TROCA prazerosa e consensual entre pessoas. É algo que um homem toma de uma mulher.

Por outro lado, fico entendendo cada vez menos quem acha que falar de liberdade sexual é desviar o tópico, é uma pauta de mulheres privilegiadas. A falta de autonomia sobre os nossos corpos é a principal responsável pelas violências mais cotianas. Estupro, violência doméstica, violência obstétrica, criminalização do aborto, homo e transfobia, são fortemente motivados pela idéia de que não podemos dispôr de nossos corpos como desejamos. E que, se o fizermos, devemos ser penalizadas por isso. Seja ouvir “na hora de fazer não gritou” no parto, seja sofrer estupro corretivo por ser lésbica, seja ser estuprada pelos colegas de faculdade, seja apanhar do marido, todas essas violências passam pela ideia central de que somos menos gente e nossos corpos não são livres.

Deveria ser óbvio, mas não é: falar em liberdade sexual não é dizer que todo mundo tem que transar com todo mundo o máximo possível porque somos moderninhas. É dizer, inclusive, que a gente tem a escolha de não transar se não quiser, oras. Inclusive nunca, inclusive com ninguém, inclusive com o marido. Se a gente fala muito de sexo com uma agenda positiva é porque precisamos reafirmar que nós também temos direito ao prazer e isso não nos desqualifica. Porque o mundo tá aí dizendo que ou a gente presta serviço sexual não remunerado pra um homem que assuma o papel de nosso dono, ou é melhor ficar quietinha e com as pernas fechadas. É parte do meu feminismo dizer que todas as mulheres têm direito a experiências mais ricas. E que são elas quem determinam quais experiências querem ter.

616012_313606915413516_2027975164_o*Iara Paiva é blogueira, feminista, diva e sabida, em ordem aleatória. Sabe contar histórias de pãezinhos e gatinhos. Forte, divertida e doce. Adoradora do sol, mora na Inglaterra, mas não a lamentemos, sabe fazer caipirinha dos limões que a vida apresenta. Quando quer, escreve o Foi Feito Pra Isso. 

Aprendiz de amor livre

Se a Cláudia de hoje pudesse trocar uma ideia com a Cláudia adolescente, ou mesmo com a Cláudia apática e rancorosa do ano passado, certamente ela diria:

“Você não faz ideia de quanta coisa seu coraçãozinho jovem vai viver em tão pouco tempo. Para de ser babaca e aproveita”.

ame

A sensação mais recorrente evah na vida desta que vos fala é a de aproveitar pouco o que sente. Sim, eu tenho um medo imenso de amar. Sim, sou uma bisca medrosa e já sofri demais. Vocês não fazem ideia de como fico absolutamente idiota quando me apaixono e acho que é por isso que evito envolvimentos mais profundos com as pessoas atualmente. Viro a pior companhia possível neste estado, perguntem a quem convive comigo.

Sambaram na minha cara tantas vezes por causa disso…

Eu acho que essa coisa toda vem da visão que construí do amor ao longo da minha existência. E ela é bem parecida com o que vendem pra gente como única forma de amor possível ou verdadeira. É a velha receita de bolo: você conhece alguém, se encanta e é recíproco. Aí vocês ficam, começam a namorar, tudo é lindo no começo e tals. Vem a rotina, tudo esfria e vira bosta. Termina. E lá vai você obrigatoriamente viver o luto e ficar na sofrência até que surja UM novo amor.

Por que tem que ser assim pra ser de verdade?

Nem todo mundo fica de luto quando um amor acaba (eu fiquei, mas isso é regra?). Tem amores que se transformam. Existem casais que ficam melhores depois que tudo acaba. E há pessoas que não encontram apenas um amor, inclusive, há quem encontre váaaaaaarios amores ao mesmo tempo.

Ficou confuso?

Bom, o que quis dizer com tudo isso é que enquanto o que vendem e ensinam como verdade única e possível são as relações monogâmicas – e quase sempre heteronormativas, diga-se de passagem – muita gente luta para desconstruir esse paradigma visando ter relações norteadas pela autonomia e pela liberdade.

Mas que liberdade é essa? É poder sair por ai pegando todo mundo, sem “compromisso”?

Olha, não necessariamente. Você pode sair por aí pegando todo mundo sem compromisso, não é crime. Mas relacionamentos envolvem uma série de outras questões, problemas e desafios. Numa relação não monogâmica, arrisco dizer que essas nuances todas podem ser multiplicadas pelo número de parceiros que se tem. São pessoas diferentes, com vivências diferentes. Cada uma com seu jeito de sentir. Complexo, né?

Para os homens, a não monogamia nunca foi exatamente uma novidade. A eles sempre foi permitido – e enaltecido – o direito ter muitas parceiras. Ainda hoje, a mulher que decide buscar uma relação livre não é vista com bons olhos pela nossa sociedade. Então, para uma mulher, a não monogamia pode significar e ao mesmo tempo exigir um nível de empoderamento e de autonomia muito grande. E ainda nem mencionei a pressuposição machista (especialmente nas relações heterossexuais) de que a moça que deseja se relacionar com várias pessoas está, na verdade, disponível. Como se ela não tivesse o direito de escolher com quem quer estar. Digo isso por experiência própria, mesmo que ela seja pouquinha.

Não acho que as pessoas não possam ser felizes inseridas nos modelo tradicional de relacionamento. No entanto, acredito que desconstruir o conceito do amor romântico pode sim fazer com que tenhamos vivências mais plenas em nossas relações. Tô aprendendo ainda. Tá difícil. Mas estou neste caminho pela minha própria vontade, porque não quero mais me destruir por conta de ideais que na maioria das vezes são inatingíveis.

Que o amor venha para me (nos) libertar.

*** Dois textos bem interessantes para quem deseja se aprofundar sobre o tema: aqui e aqui! ;)

Até a próxima paixão

Por Dani Damaso, Biscate Convidada

Acorda e sente o cheiro nas mãos. O banho da madrugada não apaga. Retira o cabelo do rosto, retoma as lembranças: sexo gostoso tem cheiro. Marca a pele crua e urgente. O estouro da cereja no céu da boca, o lambuzar de línguas. Epiderme tatuada pelas sensações.

Não foi a primeira e nem a última. Mas havia algo a mais naquele cheiro. Lamber, morder, chupar o sexo dá. O encontro de ontem arrepiava, fazia gargalhar, dançar pelos corredores tomados de sol.

Ah, como é insaciável o sexo dos que sentem cheiros. O suor dos que amam contidos, dos que soltam a voz, dos que buscam novos sons. Vai e vem. Sangue pincelando a entrega. Como o sal reconhece a maresia. Simbiose de odores.

A noite surge e a memória daquela troca segue até o amanhecer. Queria mais! E então coloca de lado a biscate convicta dos encontros regados a apenas sexo e amizade e busca a noite passada, do beijo avassalador, da pele aquecida, do cheiro. Aquele cheiro… Liga. Pouco ouve, fala demais, mas compreende: quero, sim!

red-wine

O dia chega. Vão a um café. Pedem vinho. Riem contidamente. Mais vinho. Gargalham. As luzes se apagam. Buscam uma dose de música noutro lugar. Dançam. Falam sobre lugares e amizades. Olham o céu e logo chove.

Com a língua escapando pelos lábios, ela sorri. Não falam mais nada. Os cheiros sufocam. Lambem olhos, fuçam nucas, trocam pernas, empurram portas, fazem barulho. A presa e o predador invertendo papeis. Mãos envoltas em corpos, cintilantes, fluídos, marcados. Encaixe, desordem, gozo.

Se lambuzam até a próxima paixão. E se cheiram mais uma vez como se fosse a última.

dani damaso*Dani Damaso é mulher da Amazônia, mãe, pisciana, jornalista, tuiteira, torcedora do Paysandú e do Botafogo, nessa ordem de prioridades. Adora olhar as ruas. É do rock e do samba, do reggae e do jazz. Curte paixões descalças e os botequins mais vagabundos. Mas na hora da alvorada, vai sempre atrás de sombra e água fresca.

Ela, Ele

coragem

Era uma vez uma coragem. Tantos contrários. O dia e a hora. Ele, menino ainda. Ela, já tanto. Ele, reserva. Ela, escândalo. Ele, pensamento e ela, um grito. Ele, a caminho. Ela, a própria estrada. Não era tempo, sabia-se. Porque eram deste tipo: de saber. Pensavam, claro. Ela dizia: não, não, não, em noites de querer tanto. Ele? Ela não adivinhava, mas ele dizia os miúdos e se perdia nela, sempre. Ela, rubor. Ele, velho tênis e calça desbotada. Não era agora. Claro que não era. Apesar das flores e das letras tantas. Ele, olhares distantes. Ela, olhares pra dentro. Mas, se havia o querer. E havia. E havia. E tantas palavras fazendo carícias. E letras como línguas. Ela se pôs a caminho. Ele se pôs, apenas. Em esperas? O branco macio do abraço quase ofusca. Ela não diga que não se assustou. Pois sim, quase corria. Mas era uma vez uma coragem e ela ficou. Ele, arisco. Ela, esquiva. Não era lugar. Mas havia o querer. E havia mão que encontrava outra. Não pode. Não deve. E o querer? Havia. E mãos que viravam bocas e também se sabiam. Queriam. E havia ainda o refúgio das palavras e eles faziam de conta que. Que não era nada. Que não era demais. Que não era querer. Que não era. Era uma vez. Uma vez não conta. Era uma vez. Uma vez não conta. E seguiram. Como se nada. Como se não tivesse existido a coragem. Mas as estradas ficaram mais largas. E os caminhos mais curtos. Ela, mais menina. Ele, mais um tanto. E a distância virando pergunta. E a pergunta virando desejo. E o desejo, de novo, coragem. A coragem pede andança. Nem sempre ela vai, às vezes ela é o próprio atalho. E se despe, lenta, peça por peça, enquanto escreve, descreve. Ela, nua. Ele?

O Globo de Ouro feminista, Tina, Amy e os Clooney

O 72º Globo de Ouro foi apresentado domingo, dia 11 de janeiro de 2015, pela terceira e infelizmente última vez, por Tina Fey e Amy Poehler. Desde antes do show, no tapete vermelho, Amy lançou a #askhermore, incitando os jornalistas a perguntarem para as atrizes algo além do já batido “o que você está vestindo”, algo que realmente se pode descrever como feminista.

askhermore

Apesar da linda iniciativa, o E! (canal de variedades especializado celebridades, em fofocas e reality shows como os das Kardashians) e os demais canais que fazem a cobertura dos “Red Carpets” não foram nada além disso.

Já nos primeiros minutos, Amy e Tina, oriundas do SNL (Saturday Night Live) e grandes nomes da comédia contemporânea nos EUA, falaram de uma acusação que tem balançado Hollywood: a que que o comediante Bill Cosby teria estuprado mais de 20 mulheres, durante sua carreira. A cada dia um novo caso surge. Ele nega. A platéia ficou estática, e somente Lena Durhan, de Girls, da HBO, aplaudiu.

Pouco depois,  Joanne Froggatt, que venceu como melhor atriz coadjuvante pela sua atuação com Anna em “Downton Abbey,” uma personagem que foi estuprada na temporada anterior, iniciou a fala de agradecimento mencionando que várias espectadoras do show escreveram cartas contando que foram estupradas, e como era importante que uma vítima tivesse voz.

Mas quero falar aqui também sobre uma das falas que mais repercutiu: sobre o casal George e Amal.

George Clooney, que começou na TV com o seriado E.R (na Globo, Plantão Médico), foi para o cinema, para uma gloriosa carreira como ator, diretor e produtor, e estaria recebendo o prêmio Cecil B. De Mille, pela trajetória no show bussiness.

Ao iniciarem a apresentação do prêmio, Tina Fey disse:

“George Clooney se casou com Amal Amaluddin este ano. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, assessorou Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi indicada para uma comissão que investiga violações na Faixa de Gaza”, detalhou Fey. “Então nesta noite seu marido está aqui para receber um prêmio pelo conjunto de sua obra.”

Então, para algumas pessoas, o feminismo foi o fato de  o ‘marido-troféu’ ser George Clooney, e de dessa vez termos um “marido-troféu” em vez da “mulher-troféu”.

E eu não vejo isso como ser feminismo, não mesmo.

Vejo, sim, como feminismo, dentro de todo o contexto dessa apresentação dos Globo de Ouro, desde o #askhermore até o finalmente, com o discurso de Maggie Gylenhaal, que ganhou como melhor atriz por “The Honorable Woman”, onde interpreta uma empresária:

“Há muita gente falando sobre a riqueza de papeis para mulheres poderosas na  televisão ultimamente. E quando eu olho para este salão e para estas mulheres que estão aqui, penso nas performances que vi este ano e o que vejo são mulheres que às vezes são poderosas, outras não; às vezes são sexy, outras não; às vezes são honradas, outras não. E o que acho que o que é novo é a riqueza de papeis para mulheres de verdade na TV e no cinema. Isso que é revolucionário e uma evolução. E isso me anima. (…)”.

Vejo como feminismo apontar que o que elas fizeram, jogando a luz sobre a esposa Amal e abafando o indivíduo George, foi evidentemente uma piada inteligente, que demonstra o quanto é ridículo o conceito de “pessoa-troféu”.

Pessoas são pessoas, não objetos, não prêmios ou consolos.

Já se falou sobre as situações de George Clooney, que se casou com Amal, aos 53 anos (dele), e ainda foi visto como um prêmio, e de Jeniffer Aniston, que também teria anunciado um noivado, aos 45 anos, e para ela seria um consolo, não uma escolha.

Então, considerando as subjetividades de todos os envolvidos, o feminismo nessa apresentação não foi a de trocar seis por meia-dúzia simplesmente invertendo a posição de poder, mas jogar luz sobre as mulheres, e não relegá-las ao que estão vestindo (ou a “quem” estão vestindo) nos Red Carpet da vida.

Pergunte sobre ela, pergunte além do vestido e das joias, e não simplesmente passe a perguntar para eles o que estão vestindo, apontando que George Clooney usou o mesmo terno do casamento (oh, horror dos horrores!) ou que Tiago Lacerda usou oito vezes a mesma bermuda para andar na praia (sim, isso é manchete do Ego). Já o Globo deu destaque às “polêmicas” luvas brancas usadas por Amal, e teve piadinha machista, do Jeremy Renner, falando sobre aquele humor de quinta-serie, sobre os seios de J-Lo (incrivelmente sexy a J-Lo, aliás, como sempre – não resisti). Mas até os companheiros de mesa dele se mostraram constrangidos com a besteira “eu vi peitos, eu vi peitos” a la Beavis e Butthead.

Quando Tina Fey apresentou o curriculo de Amal ao apresentar o prêmio de George, ficou claro que era uma piada. Mas quando as mulheres, independentemente de suas vidas e conquistas pessoais, são apresentadas apenas como acessórios para os maridos poderosos, isso não é nada anormal, e não é visto como piada, mas como coisa rotineira.

Que tenhamos mais feminismo em 2015, mais luz nas mulheres, nas pessoas trans, nas pessoas homo e bissexuais, e que isso seja o normal, e não uma ano atípico.

Tem mulher boa, sim. E se reclamar tem o dobro!

Uns meses atrás, o site Catraca Livre fez uma matéria sobre o ensaio “Beleza Real” . As fotos, sem fotoshop, mostram mulheres das mais variadas formas, etnias, idades e seus corpos lindos, cheios de curvas e historias (até já falei disso aqui). Ao compartilhar o link em sua página no Facebook, o Catraca escolheu esta que, pra mim, é a foto mais potente do ensaio. Uma mulher de 52 anos, com 2 filhos adultos, nessa lingerie rosa. Poderosíssima!

Foto: Bárbara Heckler

Foto: Bárbara Heckler

A partir disso, comecei a acompanhar a movimentação na página. E foi triste. Foi pior do que eu esperava. O body-shaming, o moralismo, a patrulha, a crueldade, especialmente sobre o corpo dessa mulher (já que ela acabou em evidência) foram tamanhos e tão intensos, que o próprio site acabou apagando a postagem da página, pra evitar mais agressão.

Surgiram desde “conselhos” pra saúde até comentários sobre a idade, o peso, a pose… quando não tinham mais o que criticar, começaram a questionar a competência da fotógrafa. E, né. Claro que me pergunto se o fato de a fotógrafa ser mulher não intensificou o recalque destilado. Foram mais de mil comentários. A maioria carregada de preconceito.

A principio, minha amiga, a modelo desta foto tão potente e esplendorosa, se sentiu bastante atingida. Magoada. Constrangida. Ela, que disse ter vivido um processo tão empoderador somente de haver posado pra esse ensaio. Isso me doeu muito. Porque eu estava lá na sessão de fotos. Vi quando ela chegou de tubinho preto e colar de pérola e vi quando, duas horas depois, ela saiu na garagem, que é totalmente devassada, pra posar de calcinha e um lenço que apenas lhe cobria parte dos peitos, em cima do fusca vintage do marido que dirigia naquele dia.  Em plena 3 da tarde de um dia de semana!

Eu vi esse momento. E o tanto que ele foi excitante. E o tanto que ela se sentiu linda e sexy e gostosa naquele corpo que conta uma historia tão rica de 30 anos de dedicação ao magistério.

“Essas veias que tenho nas pernas são de anos de sala de aula, ensinando em pé em frente ao quadro negro”, ela diria numa conversa. “Reverencio esse corpo e essa história”, completaria.

O tanto de amor que senti? E o tanto de estupor que me causou a cegueira, a burrice e a maldade da pessoas? A gordofobia,  o body-shaming, a misoginia, o machismo, o moralismo, o preconceito geracional… O recalque de ver mulheres tão seguras sobre seus corpos e sua aparência. Porque isso também parece imperdoável. Afinal, como poderíamos nos sentir assim, tão felizes, se nem “dentro do padrão” estamos? E ainda exibir essa felicidade publicamente?

Com essa amiga conversamos muito, lhe relembrando que não havia nada de errado com seu corpo. Que o orgulho que ela tem sobre cada uma de suas micro varizes nas pernas devia ser recuperado e festejado. E que é claro que sabíamos que este tipo de ensaio provocaria reações muito controversas mesmo.

Pessoalmente, fiz questão de reiterar o quanto essa foto me emociona.

Dias depois, acabamos nos reunindo presencialmente pruma conversa sobre patrulha, bullying, body-shaming, deselegância. E na conversa alguém comentou que, pra ela, fazer as unhas era algo empoderador e libertador. Fiquei surpresa. Porque, claro, eu também faço as unhas, mas via muito mais como uma aquiescência à pressão pra estar em dia com a “feminilidade”, especialmente a “feminilidade higienizada”, e uma submissão à indústria da beleza. Não como algo livre.

E ela respondeu que foi educada por pais religiosos e muito conservadores, que não permitiam nenhum tipo de adorno ou de embelezamento. Quando finalmente ela conseguiu sair da casa dos pais, passou a frequentar a manicure frequentemente pra mostrar que pode.

O que vai colocando mais nuances e especificidades em alguns discursos e práticas, ne? Mas, isso é assunto pra outro post. Aliás, nem sei por que tergiversei assim. Acho que é porque, no fundo, pra mim, a raiz é a mesma: o corpo é meu. Claro que sempre há espaço pra problematizar, mas fundamentalmente eu decido sobre ele e se quero exibi-lo, com veias, celulites e estrias. Se quero pintá-lo, tatuá-lo, não depilá-lo, expô-lo, entregá-lo, dá-lo, vendê-lo… Meio que parafraseando Valesca, a porra do corpo é meu!

PS: Aviso aos do recalque: minha amiga acabou de posar para a segunda edição do ensaio.  E vocês não têm ideia da maravilha que ficou! Que bunda, amigues. Que.Bunda.

Do Que é Humano, Demasiado Humano

Por Daniela Andrade, Biscate Convidada

sexualidade

Toda vez que leio alguém defendendo a homossexualidade dizendo que ela também existe no reino animal (detalhe: seres humanos também são animais), eu me pergunto:

Todas essas espécies animais não humanas transam uns com o outros por conta de afeto e desejo ou só por instinto? Sei que há espécies de primatas e de golfinhos que segundo consta, transam também apenas por prazer, mas não tenho notícia que isso se dê com todas espécies animais.

Acho tão rasas essas comparações. Afinal de contas, parece que só serve para a homossexualidade e a heterossexualidade, como se sexualidade se reduzisse à práticas sexuais, que praticas sexuais definissem orientações sexuais, quando sabemos que isso não é verdade. Um homem que transou com outro homem não se transformou em um homem gay, uma mulher que transou com outra mulher não se transformou em uma mulher lésbica. Pressupõe que para alguém ser gay, para além de fazer sexo com outra pessoa, exista também o afeto; afinal, o cara pode nunca ter transado com alguém e ainda assim ser gay, pois seu afeto está orientado para determinado espectro de gênero: outros homens.

Um homem que é penetrado por uma mulher não é gay automaticamente. Ele pode continuar amando mulheres, ainda que goste de ser penetrado por elas, mas continuar rejeitando homens a qualquer pretexto.

Outra coisa, onde estão os animais não humanos bissexuais, pansexuais, assexuais, arromânticos, biromânticos, heteroromânticos, panromânticos, poliromânticos, gray-românticos, demirromânticos, pomossexuais, e todo o infinito de sexualidades diferentes e inimagináveis?

Fora que, quem define o que é homossexualidade e heterossexualidade são os seres humanos, para os animais não humanos isso não existe. E a definição da homossexualidade e da heterossexualidade foram modificadas ao longo dos tempos, da Grécia antiga até o que temos hoje, nem sempre o que se convenciona-se por homossexualidade e heterossexualidade é o que modernamente se define.

Acho que para dizer que a homossexualidade é mais uma das legítimas formas da sexualidade humana, não é necessário enquadrar todos animais que fazem sexo e/ou trocam afeto com animais de mesmo genital como homossexuais. Inclusive por que isso nem é homossexualidade para humanos, afinal de contas, um homem trans com uma vagina com um homem cis com um pênis, podem ser um casal homossexual; e uma mulher trans com um pênis e uma mulher cis com uma vagina podem ser um casal homossexual.

daniela andrade *Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Ano de Ogum

 

ogum1

To aqui sentando chorando por um monte de coisas misturadas. O bestial atentado ao Charles Hebdo, o inédito editorial conjunto de 6 jornais europeus que acabo de ler e uma amizade, que já era longínqua, mas pela qual eu nutria carinho, que acabou.

É…2015 começou quente, e triste,  na vida mundial e pessoal.

De acordo com uma consulta informal biscate aos orixás, OGUM vai  dominar o ano de 2015 e ele não liga para a opinião dos outros, gosta de atravessar fronteiras; isso vai fazer muitas pessoas gostarem de viajar e fazer coisas diferentes e o melhor, no sexo é sem preconceitos, gostas de coisas diferentes, de fetiches!!!! (Oba, fetiches! Trabalhamos!)

Mas também tem o lado ruim de Ogum, deus da guerra, e é que este ano junto Marte estará reinando junto com ele. Há previsões de mortes terríveis,  guerras  a serem declaradas e  as pessoas vão ser mais intolerantes com os outros (ainda mais intolerantes? )

Mas a cigana leu o meu destino e eu sonhei que nem tudo está escrito, então façamos amor, não façamos a guerra. SE for pra fazer a guerra a gente faz a guerra biscate de sempre, contra o preconceito, a caretice e os limites. E a favor da risada e do sexo. Sempre. Um ano de Marte, um ano de luta, mas um ano de luta por um mundo melhor e mais justo. Lutemos sempre a boa luta. Axé.

charlieb

(muito axé para todos os jornalistas, cartunistas, franceses e muçulmanos. Paz E Amor para todos)

Delicadezas matinais

cafe2

Sua pele me toca logo de manhã. Cheiro no cangote, suspiro, preguiça. Um beijo meio dormindo. Um sussurro. Eu te amo. Os olhos ainda cerrados, abraço seu corpo agarrando seus quadris. Pernas enlaçadas, vejo o relógio, ainda tem tempo. Só mais pouquinho.

Cochilo de novo sentindo pulsar o peito. Sua boca grande perto da minha, tudo quente no aconchego de depois. As cobertas enlaçam nossos corpos nus. Acordo com o tesão que me arrebata quando te sinto. Sexo, pele, ossos, desvarios ainda em sonho. Você aperta meus seios como eu gosto. Subo a língua pelo seu pescoço, agarro seus cabelos, arrepios. Já é hora de levantar.

O banho. Morno. Esfumaçado. Como o café sendo passado na cozinha. Pão quente. O seu perfume misturado com o cheiro de café que invade a casa. Te beijo doce, carinho, massagem na nuca para o dia que vem.

As roupas. Deito de novo, cama amarrotada. Você ri da minha preguiça, a gente fala uma besteira qualquer, o riso solto embala o dia porvir. Você vem se despedir e eu te laço para mais um pouco. Beijos. Pasta de dente. As tarefas concretas que nos esperam lá fora. Sua presença que eu adoro. Desejo. Daqui a pouco nos vemos. Gosto de mais. Bom dia.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...