Um afago no cansaço

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“O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço*”

Porque tem dias que a gente cansa. Assim, de repente, sem mais explicações ou porquês pontuados em frases certas e bem escritas. A gente cansa em reticências, em exclamações, em pontos usados de forma errada. A gente cansa em travessões sem fala e aspas sem sentenças. A gente cansa.

Há uma exigência quase brutal nos dias de hoje. Uma exigência do sorriso, da maquiagem sempre retocada, da palavra certa. As redes sociais são campeãs disso. Sorria. A foto do instagram mostra a dona feliz carregando flores. Os filtros são bonitos, o dia era cinza mas o toque pro x II fez tudo azul cristalino e inequívoco. A gente sorri e posta frases de efeito. A gente tem que vencer.

Diante de tanta beleza a gente não tem nem coragem de mostrar a nossa dor. Ela não pode desfilar na sociedade virtual de pompas e memes falsos da Clarice Lispector feliz. Clarice também era triste. Caio Fernando Abreu também era louco. Mas, por algum motivo, os trechos escolhidos desses autores para quadrinhos são sempre felizes e otimistas e, claro, não foram eles que escreveram. Porque a gente tem tanto medo de falar de dor e cansaço? De loucura e desacerto? De ir a fundo, por exemplo, na obra de Clarice e Caio com toda sua angústia e beleza e incerteza?

São muitos os padrões da vitória. Fale a coisa certa. Aja da forma correta. Não espante. Não falhe. O mundo contemporâneo é cheio de metas de sucesso. Até nos movimentos sociais, militâncias e grupos de apoio. Seja guerreira. Seja mulher forte. Fale a coisa certa, pondere, reescreva vinte vezes antes de mandar. Veja se está de acordo com o esperado, se o grupo para o qual você se dirige, seja de amigxs, seja de militância te receberá bem. Veja se terá probabilidades de “like”, e palavras de apoio. Sei que os tempos virtuais são de uma agressividade ímpar, veja lá o que aconteceu com Bela Gil, sua cúrcuma e lancheira saudável: pedrada. São tempos de intolerância.

E sei também que a gente não precisa partilhar tudo (ufa!). Então a gente escolhe o bom, as palavras de ânimo, a frase “certa” que não existe. Tem o lado bom, claro, a gente quer se nutrir de esperança. Mas. E o outro lado? Não tem identificação?

Até quando tem doença, você não pode esmorecer. Tem que ser guerreira, tem que vencer. As pessoas parecem querem ver sempre a vitória, o acerto. E a gente, claro, quer ser a vitória a ser vista. E vamos assim ficando com a falsa impressão, que vai se alastrando por dentro, que temos que dar conta de tudo. Né? Tá todo mundo tão feliz e tão colorido, eu também tenho que, eu não posso decepcionar ao outro e a mim mesma. E, ao mesmo tempo, é curioso que a depressão aumenta como uma das doenças mais presentes nesse século. Não é contraditório?

Não, nem sempre. Como uma vez disse uma amiga, aquele super-herói ou super-heroína também tem um ponto fraco. E saber do seu ponto fraco, é o que faz elx ficar mais forte. Eu, que não pretendo ser super-heroína de nada nem de ninguém, venho aprendendo que acolher meus medos, falhas, loucuras e indefinições, me fazem mais inteira em quem sou, ou busco ser, ou acho que estou sendo. Me fazem mais humana. Faz até as minhas crises de pânico – acalmadas depois de anos de análise nas profundezas bem enrugadas e assustadoras de mim – fazerem mais sentido. Me fazem mais, acreditem, feliz. Porque ser feliz, desconfio eu, é essa coisa toda complexa que somos. Mas essa sou eu. E assim me exponho louca e arrepiada, como também sou.

A gente tem dor e cansaço, medo e confusão, e olhar pra isso tudo é olhar pra quem somos. Ou acho eu, me permito a dúvida, também me permito ser questionada e errada, e transitória e sem sempre fazer sentido. Então eu acolho. Eu, e xs outrxs nas suas dores, nas suas confusões. Pedir colo, colocar no colo. Acolher o imperfeito, a loucura, a dualidade de tudo que vive. Porque ninguém é uma coisa só, e sempre me interessam as metades que se juntam ou se escapam, e não apenas o lado de flor. Flor é bom. Eu tenho, eu gosto. Mas também teve espinho e um monte de colheita vazia.

Tudo bem falhar. Tudo bem não estar disponível e linda às sete da manhã depois da insônia. Tudo bem não ter saco às vezes para nada. Tudo bem falar sobre isso. Para transformar o temporal em poesia a gente tem que olhar pra ele. Navegar, surfar, tomar caldo. Enquanto isso, vou ouvindo a Bethânia recitando cântico negro do José Régio, porque né? Tem dias que só a Bethânia salva. E, não, eu não vou por aí.

“Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…”

(José Régio)

*trechos do Poema Cansaço, de Fernando Pessoa.

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Canção Para Um Moço Triste

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

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Moço,

você diz que te falta coragem. Eu digo: você é tão bonito. Você diz que nunca poderia. Eu digo: eu preciso de uma noite, só mais uma noite.

Eu lembro, moço, da sua cara de espanto quando eu te tirei daquele bar com a força do pensamento. Ordenei: só saio daqui com esse moço do lado. E você é bem educado, de boa família. Fala baixo, não diz um palavrão sequer, usa os talheres que é uma beleza, acendeu o meu cigarro e segurou forte minha mão quando atravessamos a rua cheia de carros em direção ao motel mais fuleiro do bairro. E eu, enfim, eu tenho Madureira no peito, passei minha infância xingando o juiz do jogo, os jurados na Sapucaí, é claro que eu achava bem do caralho, um troço assim estupendamente foda o moço mais bonito do bar entrelaçar os dedos nos meus dedos e olhar lá no fundo do meu olho enquanto me espremia num murinho na esquina.

Estávamos numa cidade branca, e claro, percebi todas as correntes que você teve que quebrar para levantar daquela cadeira e sair daquele bar sob os olhares desaprovadores dos seus limpíssimos e amáveis amigos.

Caguei pra eles. Só estou de passagem.

Eu não disse o meu nome, mas não por nada, não disse o meu nome pois esqueci onde estava, o que fazia, onde era minha casa quando vi você dar um passo na minha direção.

Você não disse seu nome também, ali todo aristocrático, afinal, posto que se me faltam boas maneiras, sou versada nas vicissitudes da putaria. E como Julia Roberts, na cena do jantar em Pretty Woman, você foi indo assim, me acompanhando, observando o que era permitido.

Mas eu não proibi nada de nada afinal.

Ficou ali, religioso entre as minhas pernas, descansou o rosto na minha buceta e começou tudo de novo.

Ficou ali profanando nosso leito nupcial pago a módicos trinta reais falando de amor. Ficou ali sorrindo com seus dentes branquíssimos de menino bem nascido, me mordendo com todos esses dentes esculpidos com muita curaprox, sensodine e aparelho adolescente. Certeza que você foi um sucesso na escola particular.

Ficou ali prometendo me comer sempre que eu tivesse vontade, se oferecendo como um anúncio de pizza hut num banner de um site de notícias, mas que mal há em publicidade de pizza se você está com fome mesmo?, parece uma boa ideia.

Ficou ali dormindo a cabeça lourinha na minha barriga. E eu olhando o Moço Mais Triste que passou pela minha cama.

Essa sua cidade branquíssima cheia de névoa e neve te faz mal, moço. Faz ter ideias bobas do tipo estar preso, amarrado, algemado num tipo de vida bem morninha e aconchegante.

Moço, se um dia você vier me visitar no Rio de Janeiro, um dia se você sair da cidade transparente, asséptica, tão tão longe, um dia se você desembarcar aqui nas ruas de Copacabana eu te prometo, moço: não te levo para ver o Pão de Açúcar, nem o Cristo, nem o Bonde, nem a Pedra do Arpoador. Você, moço, vai sair daqui como se nunca tivesse pisado os pés nessa terra, vai sair daqui sem ver a luz do sol que nos queima, moço, eu te prometo.

renata corrêa* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Nossa história única

Começo esse texto ouvindo a Chimamanda falar dos perigos da história única. Ouvindo na minha cabeça, porque eu já assisti ao video uma, duas, várias vezes. E me encanta sempre. Essa história da “imagem da africana” em que a prendiam, e que não era ela, da qual ela tinha tanta dificuldade de se desvencilhar de tanto que estava grudada na cabeça das pessoas.

Curiosamente, já vivi uma coisa assim ao reverso. A “história única” na qual me prenderam era uma história de Suíça. Morei na Suíça quando criança, até os 12 anos de idade. Em Genebra: uma cidade conhecida, não um vilarejo perdido nos confins das montanhas. Pois bem, cheguei ao Brasil e fui instantaneamente oprimida com uma imagem de Suíça. Que não era a minha. Era uma imagem de colégios privados exclusivíssimos à beira do lago – dos quais só descobri a existência depois que voltei -, de vida de luxo e opulência. E ainda tinha a famigerada pergunta sobre “a moda”. A pergunta era “qual é a moda na Suíça agora?” E eu, sinceramente, não tinha ideia do que era pra ser respondido. Não sabia o que era “a moda”. A gente comprava roupa em lojas de departamentos ou nos brechós. E a “moda” era a gente que fazia, pré-adolas, usando a calça jeans (a mesma, velha, gasta) dobrada de tal jeito, a camisa por dentro ou por fora… “A moda”, a outra, era coisa de alta costura. O que isso teria a ver com a minha vidinha? Mistério. Escola? A pública na esquina de casa. Como, aliás, praticamente todo mundo que eu conhecia. Só não digo que era todo mundo porque tinha o Zuza que estudava na Escola Internacional. A dos filhos de diplomatas e dos organismos sediados em Genebra (OIT, Comitê da Cruz Vermelha, OMS etc.). O resto da galera era todo de escola pública, e encapava os livros emprestados no começo do ano para devolvê-los no final. Essa, definitivamente, não era a Suíça pela qual me perguntavam meus novos colegas de escola.

Essas divagações todas têm (é, têm) um ponto que me interessa trazer pra cá: uma narrativa sobre mulheres que tem me parecido mais e mais comum por aí. A das mulheres oprimidas pelos “machos” opressores. É mentira? Não, claro que não. Como, aliás, a Suíça de quem me perguntava não era de mentira: era apenas outro olhar e outra narrativa.  Mas não pode ser a única. Digo mais: não deveria ser única. Sob pena de despossuir essas pessoas todas que vivem e lutam e avançam e mudam o mundo todo dia. De tirar-lhes tudo o que têm de coragem, de dignidade. Tanta gente que é senhora da própria história. Tem um meme conhecido que circula por aí que diz algo como “não sou descendente de escravos: sou descendente de seres humanos que foram escravizados”. Mudança de enfoque. De maneira de contar a história.

Tem ainda outra coisa: a narrativa única dos “machos opressores”. Esses, como a gente, não vieram de Marte. Foram criados aqui, nessa sociedade, com esses valores, com essa cultura. Nela estão imersos desde que nasceram. Como não haveriam de reproduzir tal ou qual hábito, forma de fazer, um jeito que viram o pai  fazer e que lhes foi ensinada, tantas vezes, pela mãe…? A mudança do mundo tem que levar isso em conta, e dialogar com eles sempre. Sob pena de criar uma utopia-mundo de que os homens estariam, por definição, excluídos. E aí não, né. Esse não é o mundo em que quero viver. Ninguém nasce sabendo: vamos abrir espaço para escutas e para novas narrativas. Outras. Outras formas de olhar, de escutar, que possam levar a outros modos de fazer.

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Beijos de rainha*

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“Foi muito bom te encontrar, Senhora”, disse o jovem submisso e masoquista.

Ela ainda estava se acostumando com a megalomania. Com a ambição. Com o desejo de controle. Com o sadismo físico e emocional que carrega dentro de si. Com a vontade de ser cultuada, venerada. Com a vassalagem que agora lhe oferecem, após uma vida toda de prazeres negados e de doar-se sem a mínima reciprocidade…

Ela e o rapaz se conheceram, fizeram seus acordos, falaram sobre seus limites (e isso serve para qualquer relação, né?). E com o tempo, com uma confiança mútua surgindo, ele se tornou em cena exatamente TUDO que ela queria:

– tapete;
– mesa;
– capacho;
– brinquedo;

E ele a servia com toda alegria, devoção e tesão.

“A Senhora mistura força com ternura”
“Quem lhe deu permissão para falar?”

Tudo isso era muito gostoso, mas a deixava confusa. Se engana bastante quem pensa que o **top está sempre seguro, que acerta sempre, que ele é sempre superior e imune às traquinagens da dúvida. O top é humano e humanos erram/cometem gafes e a única coisa que nascem sabendo fazer é chorar. Fora a responsabilidade gigantesca que é cuidar de alguém que lhe entregou seu corpo…

Ele pede permissão para gozar. Às vezes ela deixa, noutras não porque nem sempre o capacho merece. Acabam as sessões e começam os beijos. Ora tímidos, ora ardentes. Desviantes. Não normativos. Nada convencionais, mas repletos de intensidade.

Beijos de Rainha.

“Foi muito bom te encontrar, Senhora”, disse ela para a rainha insaciável, mimada, egocêntrica, sádica, carrasca, visceral e transformadora que vive dentro dela.

* Texto em comemoração ao 24/7, dia internacional do BDSM.
** Top: pessoa que numa cena bdsm assume a posição de comando, podendo ser dominador ou não, dentro dos limites do bottom (quem se submete às ações na cena).

Lapada na rachada?

Falar abertamente sobre sexo é algo que desejo para todas as pessoas. Não precisa dar detalhes da vida sexual, nem ficar se gabando ou se lamentando, mas acredito que seria bom para todo mundo conseguir falar bastante sobre o assunto, sem receios, preconceitos ou limitações. Isso ajuda até mesmo a identificarmos melhor o que é violência sexual, o que é consentimento, o que é prazer. Por isso, compartilho com vocês minha nova ídola: Monica Moreira Lima, apresentadora do programa Sem Vergonha na TV Guará do Maranhão, que descobri recentemente por meio de uma entrevista na Revista TPM.

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Em seu programa, Monica discute tudo sobre sexo e entrevista pessoas nas ruas. O ponto alto é seu vocabulário direto e espontâneo:

Uma das abordagens recentes de fã foi bem específica. “Um cabra me parou no shopping: ‘Mônica, ligue aqui pra minha mulher, por favor, convence ela a dar o cu pra mim, vai?’. Como é que é, meu compadre? Cu é meritocracia e muita dedicação. Deixe a moça doidinha e tu vai ver ela dizer ‘é hoje que eu quero dar esse cu”.

“Primeiro tire um sarro, no cinema, na balada, para conferir se o cabra é sua pontuação de rola. Feita a checagem, dê uma boa lapada na rachada”.

“Um ‘Eu te amo’ pode ser falso, mas um pau duro é sempre sincero”.

“O melhor pau é o pau cavalheiro. Aquele que levanta para a dama sentar”.

Mônica é jornalista, tem 47 anos e três filhos. A fuleiragem é sua marca registrada. Vítima de violência doméstica no casamento, assume que tem trauma de relacionamentos com homens, mas trabalha para ver as mulheres sentindo-se mais livres para vivenciar sua sexualidade.

Acredito que não se trata apenas de pregar libertinagem e nem dizer que todas as mulheres devem transar bastante. Fazer mais ou menos sexo é indiferente, falar abertamente sobre sexo é o que quebra nossos tabus internos, é o que pode transformar nossas relações de prazer, é o que abre portas para que jovens perguntem e não sintam vergonha. Ao perguntar: você sabe o que é lapada na rachada? Mônica estimula nossos sentidos e nossa forma de vivenciar cotidianamente o sexo. Ou no mínimo nos faz dar boas risadas.

Insone, com a mão no bolso

Por Ana Paula Medeiros*, Biscate Convidada

São três horas da manhã, você me liga
Pra falar coisas que só a gente entende
Pode ser de São Paulo a Nova York
Ou tão lindo flutuando em nosso Rio
Ou tão longe mambeando o mar Caribe
A nossa onde de amor não há quem corte
Oh, meu amor!

Mentira, são quatro horas e eu nem sei por que essa musiquinha idiota veio à minha cabeça. Não acordei com você me ligando e sim com sonhos inquietantes. Não, nada sexy e molhado, quem dera. Só angústia mesmo. A boca seca. Um peso ruim esmagando o peito. Vou fazer xixi, beber água, voltar para a cama, que às seis e meia toca o despertador para o trabalho.

Tic…Tic…Tic…

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Estava tão friozinho e gostoso dormir aí com você. Minha bunda encostada no seu pau, minhas costas no seu peito quente, suas mãos nos meus seios, descuidadas, as pernas pelo meio umas das outras. A bagunça que eu faço nos lençóis, rsrsrs…

O oxi ganhou na Grécia. Li antes de deitar que os líderes europeus já estão se coçando todos. A Merkel e o Hollande já disseram que “o resultado tem que ser respeitado”, outra forma de dizer que não vão respeitar porra nenhuma. Esse arroubo grego podia bem se alastrar pela Baixa Europa e levar de roldão Portugal e Espanha assim, só pra começar. Muito sonho, eu sei. Se pelo menos isso forçar uma negociação melhor com o FMI, em termos menos horrorosos para a população, talvez já seja bom. Não adianta de nada fazer bravata com o cu alheio e não é o nosso que está na reta, né?

Hahahaha, como não, o nosso tá MUITO na reta. Em várias retas. Eu ando tão preocupada. Com tudo. As incertezas políticas, o esgoto fétido do Congresso, os retrocessos na conquista de direitos, as lutas fratricidas cada vez mais acirradas entre grupos que supostamente deveriam estar do mesmo lado. Aí me agarro em pequenas luzes e carinhos e festas. Achei tão lindo o mar de arco-íris, quase toda a minha timeline no feicebuque ficou colorida. Mas acabei não colocando agora o filtro pelo orgulho trans. Devia. Militar em todas as frentes cansa, de vez em quando. Mas essa seletividade me desperta umas culpas. Eu tive uma aluna trans muitos anos atrás. Não lembro o nome dela. Lembro que na pauta estava o nome do documento e eu achava isso estranho. Como tinha pedido para os alunos se apresentarem na primeira aula, saquei logo, pus o nome dela a lápis do lado do nome que estava na pauta e resolvi esse problema. Para mim, era uma aluna. Uma moça. Como todas as outras da sala. Acho tão violento agir de outra forma. Ame-o e deixe-o ser o que ele é.

Eu tenho que levantar praticamente daqui a pouco, devia conseguir dormir.

Tenho que lembrar de pagar o aluguel amanhã. E colocar a roupa na máquina. Depois que eu dispensei a faxineira, as coisas estão meio acumuladas. Ah, passar no mercado também. Não tem uma mísera banana nessa casa, eu fico comendo bobagem. Queria perder uns cinco quilos. Pelo menos.

Mas tem a tese. Eu estou avançando tão lentamente nisso. A um custo enorme. Isso também está me angustiando. É como se eu estivesse muito perto, falta vencer uma pequena parede. Mas ela é de rocha dura e cheia de pontas, eu só tenho as mãos nuas para escavar, raspando pó de pedra com as unhas, sangrando os dedos, ficando exausta com quase nenhum progresso.

Olhos fechados pra te encontrar
Não estou a seu lado, mas posso sonhar…

Tantas contradições pra resolver, entender. Internas. Meus discursos, minhas práticas, os sentimentos, os padrões de comportamento tão arraigados. Que voltam, que empurram, que emperram. Por que é que às vezes é tão difícil viver, respirar, amar?

Um bocejo. Cara, que sono. Eu já estou embaralhando tudo, começo a pensar uma frase que não termina. É boa essa sensação de afundamento, de desligar as conexões aos poucos. Deixei a janela da área aberta. Será que esse barulho é de chuva? Hmmm… tá tão quentinho aqui.

Pííííí pí pí pí… Pííííííí

Maldito despertador.

*AAnaPaulaPBiscatena Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

Meninas escoteiras contra a transfobia

Recentemente, um grupo de escoteiras norte-americanas recebeu uma doação de 100 mil dólares. Porém, o dinheiro veio com o pedido de que não fosse usado para ajudar meninas trans. As Girls Scouts of Western Washington devolveram o dinheiro, começaram uma campanha e arrecadaram o triplo do valor doado.

Por importantes gestos como esses, que são fundamentais para o combate a transfobia e a inclusão das pessoas trans, publico hoje a tradução que fiz do texto ‘Girl Scouts of Western Washington Aren’t Interested in Transphobic Money’ de Jess Kimbler, publicado no site Bitchmagazine.org em 30/06/2015.

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As Girl Scouts of Western Washington ganharam recentemente uma doação de 100 mil dólares. Mas o doador exigiu uma condição: se as escoteiras não pudessem garantir que o dinheiro não seria usado para ajudar meninas transexuais, elas deveriam devolver todo valor. Cem mil dólares é uma tonelada de dinheiro para as Girl Scouts of Western Washington — representa cerca de um terço do seu programa de assistência financeira para o ano inteiro.

Mas o que a organização decidiu fazer? Elas devolveram o dinheiro! Mantiveram seu compromisso na criação de um grupo diverso, possível para todos os tipos de meninas, elas responderam que não estavam interessadas em uma doação que significa excluir meninas trans. Como as escoteiras dizem publicamente em seu site, elas aceitam escoteiras transgêneros: “A questão da transexualidade na juventude é tratada caso a caso, visando o bem-estar e interesses da criança e dos membros da tropa/grupo tendo esse assunto como prioridade. Dito isso, se a criança é reconhecida pela família e escola/comunidade como uma menina e vive culturalmente como uma menina, então as Escoteiras é uma organização que pode servi-la”.

Porém, a decisão de recusar uma doação de 100 mil dólares ainda é algo muito grande, especialmente ao considerar que, no outono de 2011, houve uma controvérsia em torno da decisão do conselho de Colorado de permitir a entrada de uma menina transgênero na organização, após inicialmente terem recusado sua participação. Ver as Escoteiras em desenvolvimento, num crescente compromisso com a inclusão e com sua capacidade para mudar e aprender com seus erros são importantes, porque elas são uma causa altamente visível e influente na vida de muitas meninas.

Ao invés de perder as esperanças por causa daqueles 100 mil dólares, elas decidiram começar uma campanha de financiamento coletivo para compensar os fundos perdidos. Elas já fizeram isso e mais um pouco: como esperávamos, elas conseguiram 185 mil dólares, quase o dobro de seu objetivo, apenas no primeiro dia de arrecadação de fundos.

É ótimo ver uma organização pública tomar uma posição firme em uma questão como essa. Como se você precisasse de mais uma razão para estocar seus deliciosos biscoitos. Confira o vídeo da campanha abaixo:

Precisamos Falar de Aborto

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Eu preciso falar…
(de aborto, de machismo, de médicos, da Elis)

Com 42 anos de idade, eu achava que já tinha passado pelas minhas maiores batalhas na vida. Mas nada dessa minha vida louca vida me preparou para os primeiros meses desse maldito ano de 2015.

Pela primeira vez desde os meus quase esquecidos sete anos, quando sonhava em ser veterinária, eu confesso: não faço ideia do que quero ser agora que já cresci. E só não quero deixar de ser (ou estar, sei lá) por essa teimosia infinita de virginiana com ascendente em touro que acha que pode fazer alguma diferença nessa mundo insano.

Eu preciso falar de aborto.

Foram seis meses planejando minha segunda gestação. Inicialmente com medo, por conta da minha idade, medo que se dissipou com o novo ginecologista referenciado pelo movimento do parto humanizado, com a conversa com a enfermeira obstétrica sobre o possível parto domiciliar que me resgataria do nascimento do leãozinho, parto esse que me foi roubado nos últimos minutos do segundo tempo, que me sangrou a alma e me fez conhecer o estranho mundo da violência obstétrica.

Eu sabia que engravidaria. Eu já conhecia minha pequena Elis e seu desejo de vir. Ela me aparecia nos sonhos, com seus cabelos cacheados e dourados, suas bochechas rosadas e o riso fácil.

Investi no sonho, melhorando minha alimentação que é usualmente bem ogra, investindo no inhame duas vezes por semana, na vitamina B diária, nas castanhas, no abacaxi, até na beterraba com couve (que honestamente, eu detesto).

No dia que viria minha menstruação fiz o teste e a segunda linha rosa, ainda fraquinha, me encheu de amor e alegria. Tudo estava acontecendo como planejado.

Na mesma semana meu cão sênior piorou muito de saúde e a veterinária me pediu que eu o libertasse da dor. Já não andava direito, não se alimentava e mal conseguia beber água. Foi com o coração partido que dei meu adeus, abraçada ao seu frágil corpo após quase 17 anos de amizade. Entre a dor de perdê-lo e a alegria da confirmação da gravidez, oscilei meus dias entre lágrimas e sorrisos.

Primeiro ultrassom agendado, Cheguei na clínica já antecipando a emoção de ouvir o coração do meu feijãozinho. Uma hora e meia de exame, com direito a consulta a outra especialista da clínica e o veredicto que me tirou o chão: a gestação não tinha evoluído como esperado, o saco gestacional estava correspondente a sete semanas, via-se a vesícula mas não o feijão e muito menos se ouvia o coração. Pior: uma suspeita forte de uma segunda gestação na trompa, caracterizando um possível caso (raríssimo em uma gestação natural) de gestação heterotópica, uma dentro e outra fora do útero.

Passei dias me sentindo no inferno. Foram cinco exames de beta quantitativo dia sim, dia não, para acompanhar sua involução e, em cada ida ao laboratório eu parecia que ia morrer de tanta dor. Mais dois ultrassons para tentar confirmar ou não a suspeita da heterotópica, descartada no último quando o sangramento já dava sinais.

Final de semana marcado pelas pequenas cólicas e um sangramento leve. Eu só pensava nas palavras da terapeuta: “Quem ama de verdade deixa ir”.

Na segunda-feira, às 14h00, saiu um coágulo grande, assustador. E, de repente, a cada 10, 20 minutos saia um coágulo ainda maior. As cólicas não paravam, cada vez que saia um a dor voltava e eu já sabia que outro sairia. Em cada coágulo eu o investigava para averiguar se o saco gestacional tinha saído, mesmo sem entender bem do assunto. Por volta das 18h00 eu já não conseguia sequer me levantar sozinha e pedi arrego.

Com a ajuda do marido fui para o hospital, receosa de uma curetagem indevida e ciente que, caso não houvesse a expulsão total a indicação correta seria a AMIU (Aspiração Manual Intra Uterina).

Escolhi um hospital público, pois no privado dificilmente eu teria escolha ou seria ouvida. O que eu não sabia é que, mesmo em um hospital público, existem profissionais cansados, abitolados e que não seguem a ideologia da direção, essa, reconhecidamente adepta do atendimento humanizado. E, principalmente, que mesmo em uma condição clínica crítica, o aborto está no fim da fila de prioridades. Pode não ser o protocolo, mas é a realidade.

Eu não vou dar detalhes do horror que passei desde que a triagem me mandou com uma bela bolinha laranja no prontuário para a sala do plantonista. Foram 12 horas de espera e de luta, resistindo contra a curetagem, alternando o choro com a raiva da situação, deitada no mesmo quarto junto a duas mulheres em trabalho de parto e onde, a cada meia hora uma enfermeira entrava para auscultar o coraçãozinho dos que estavam para chegar ao mundo. Não dá pra descrever como aquela ausculta me rasgava inteira.

(Pausa pra respirar e chorar.)

Uma amiga virtual se materializou no hospital como um anjo guerreiro e passou a noite comigo, já que o marido precisava ficar com o filho em casa. E foi ela quem viu as enfermeiras chorando nos cantos, penalizadas com a situação absurda que assistiam.

Num relance, entendi o que estava acontecendo. Eu fui deixada lá de castigo. Porque eu quis “impor” a minha vontade. Me senti humilhada. Por mim, pelas profissionais que lá estavam e que não tinham autonomia alguma. Apenas no dia seguinte, quando um novo plantonista apareceu, fui atendida e liberada. Ele, ciente dos protocolos atuais, fez pessoalmente um ultrassom e me levou para a sala de cirurgia para realizar a AMIU.

Já faz mais de três meses que isso aconteceu. Coincidência ou não, a AMIU foi realizada no dia do aniversário de setenta anos de Elis Regina, a homenageada pela gravidez que não foi.

Meu corpo, minhas regras? Não no Brasil, onde o aborto é criminalizado, afetando todas que abortaram. Quase um quinto das gestações termina em um aborto espontâneo. Uma em cada cinco mulheres já interromperam voluntariamente a gravidez. Como não falar de aborto?

Eu preciso falar do machismo.

Dizem que o diabo mora nos detalhes. Eu percebo que o machismo mora nos detalhes. No hospital-referência, as mulheres eram as operárias e os homens os comandantes (grande novidade…). E, nesse ponto, vamos concordar: Nós que parimos. Nós que abortamos. Nós que sabemos a dor que sentimos. Não eles!

Eu não me arrependo de ter ido a um hospital público, pelo contrário, agradeço por ter ido lá, pois caso tivesse escolhido um privado sequer teria conseguido ser escutada. Mas o machismo daquele momento não será esquecido nem perdoado. Não pode ser. Nesse momento, só o que desejo é que mulheres estejam no comando. Porque enquanto o homem estiver não conseguiremos ter nossos desejos e necessidades respeitados.

Precisamos de mais mulheres no comando, seja no hospital, na política, na indústria, na mídia. De preferência mulheres feministas, empoderadas, de sangue nozóio e que saibam que sim, o aborto é assunto de Estado, muito mais do que a mandioca.

Mas eu também preciso falar de discurso e da empáfia da classe médica.

Precisamos de médicos que estejam abertos às novas evidências científicas. Que reaprendam os conceitos de humanidade e humildade. Que saibam que não são deuses e que o parto é da mulher, o  corpo é da mulher e o aborto também é da mulher. Sua função é basicamente se fazer presente para que tudo saia como o planejado ou, para que o que já saiu fora do planejado tenha os riscos minimizados e a paciente acolhida.

Eu preciso falar. Não me importa se vocês não estão me ouvindo. Eu realmente preciso falar. =/

 

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* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la no Twitter @Adriana_Torres.

Tia Sônia e o tio Alzha

É tia Sônia primeiro: irmã do meu pai e também minha madrinha. Tia Sônia de luta: presa e torturada pela ditadura. Tem um video da Comissão de Anistia em que ela dá depoimento, e assim fala sobre a cadeia e a tortura: “Eu dizia: eu não vou morrer. Eu nasci para ser feliz e é assim que eu vou viver.”

E assim foi. Tia Sônia de olhos verdes brilhantes, de risada pronta. De ideias incríveis e inusitadas. Ela me ensinou a comer comida japonesa, a usar os pauzinhos. E a olhar pro mundo de outro jeito. Um jeito mais aberto, mais solidário, mais generoso. Um jeito que eu tento guardar e manter. Um jeito que foi presente da minha tia-fada madrinha.

Elas (minha tia e Pilar, sua companheira da vida toda) tinham um laboratório de fotografia em um banheiro, certa época. Fotos: muito parte da vida. E a gente, criança, ia para lá e se encantava ao ver as imagens aparecendo, se formando, se fixando à medida em que o papel era mergulhado nos diferentes líquidos da revelação. Fotos, viagens. Outras formas de olhar.

Paris na casa delas, nos tempos da ditadura. Primos, risadas, bagunça. A gente podia. A gente falava, a gente fazia com elas. A gente era sujeito, e assim se sentia. Tia Sônia de tanta vida. De tanta vida feliz, como ela tinha dito que seria.

O tio Alzha. Insidioso, foi chegando. A gente reconheceu bastante rápido, porque minha avó já tinha sido visitada por ele. E, embora fosse diferente, era a mesma coisa. O tio Alzha – essa doença cruel que é o Alzheimer, que eu chamo assim na minha cabeça pra tirar as garras dele – chegou pra ficar, como de hábito. E hoje, dez anos depois, reina absoluto. Os olhos brilhantes permanecem, a risada. Mas não há mais sentido nem nexo nas conversas. As conversas são como rios: a gente entra no fluxo e vai indo.

 Vou lá duas vezes por semana, há mais de um ano. Nosso trajeto é sempre o mesmo: a gente sai da casa delas, passeia pelo calçadão e vai até a casa da minha mãe. Lá a gente fica, a gente conversa, vê TV, lancha. E volta caminhando. E conversando.

De vez em quando, me dá vontade de gravar uma das nossas conversas. Pra dar ideia. Porque a gente conversa mesmo, o tempo todo: não é porque as palavras não fazem mais nexo que não há nexo na conversa. Quem já conversou com bebê pequeno (e eu adoro fazer isso) sabe: há nexo na emoção, na intenção. Assim é com tia Sônia. Ela come algo de que gosta, dá um sorriso e diz: “lindo!”. E a gente entende que ela gostou.

Às vezes, começa a contar uma coisa e vai se irritando sozinha: “então eles vieram e fizeram e foi tudo uma merda e eu mandei para a puta que pariu”…. (os palavrões sempre estiveram no vocabulário: não são da doença. São dela mesma). Eu escuto, concordo com a cabeça e arremato: “mas aí você explicou para eles, não foi? E resolveu?”. Em geral ela aceita. Foi isso mesmo. Ela explicou, e no final deu tudo certo. Se acalma.

Aprendo com tia Sônia, ainda e de novo, a olhar o mundo de um jeito diferente. A entender que o tio Alzha está aí, mas minha tia, aquela da vida toda, também está. O desafio é a gente conseguir estar juntas sem o suporte tão confortável da lógica racional. Puta desafio. Mas a gente vai navegando.

E, de vez em quando, ela dá aquele sorrisão, segura na minha mão e diz, confiante: “você é minha.” Sou mesmo, tia. Tá certo. Bora lá. Convivendo com o tio Alzha, como dá. O amor insiste e resiste. Fresta. E quem disse que era racional?

SoniaPilar

Sônia e Pilar. Vida.

Gênero, Prisão e Potência

Por Pedro Moraes*, Biscate Convidado

A invenção do sujeito
Um homem é uma invenção de si mesmo. Uma narrativa, uma personagem construída pra se comunicar com o mundo e lidar filosoficamente com a própria existência, com a vida nua. Essa construção é tanto menos livre quanto mais nos são impostas amarras sociais, e parte importante da luta por direitos humanos consiste em deslegitimar algumas dessas amarras, em afirmar que é possível e razoável ser outras coisas, sem prejuízo de direitos. Vou falar, no entanto, do mundo dos privilegiados: o que é que somos quando podemos ser tudo? Se tais barreiras normativas são brandas ou ausentes, o que é que resta por querer, o que é que se escolhe? Pretendo demonstrar que esse dever-ser majoritário, hegemônico, não é o melhor que a vida tem a oferecer, e é, também, uma prisão. Não me interessa se auto-imposta ou não: elencar culpados e beneficiários parece, nesse caso, uma operação ociosa e essencialista, que desastradamente anula a historicidade, a culturalidade e a chance de criticar no plano ideológico esse estado de coisas (se se tratasse mesmo da essência de alguém, combater o fenômeno seria uma operação fascista; pelo contrário, é pura ideologia e desconstruí-la é um gesto libertário). Isto não é um ato cínico, indiferente à dor de quem tem sua igualdade negada – pelo contrário: o que proponho é que é vantajoso libertar-se dessa prisão e que por efeito esse gesto será também, necessariamente, pela liberdade alheia.

Interlúdio
Se tratamos de fronteiras complexas como poder e potência, diferença e igualdade, é bom esclarecer de onde se parte: como bom comunista comedor de criancinhas, acredito na igualdade como um positivo. Ela não é, porém, um fim em si, um absoluto: ela é a condição em que as potências humanas podem melhor se realizar. Tratamos da horizontalidade da estrutura social. Tratamos, noutras palavras, da igualdade política, que já se pode inferir, em verdade, nas ideias de república ou democracia (para mim, dizer-se comunista é levar às últimas consequências – comme il faut – essas ideias clássicas, que de outro modo seriam apenas cavalos de troia). É a diferença (ou a diversidade de modos de vida, de fenômenos e experiências) que eu assumo como um fim em si, um bem em si. Do surgimento da vida e multiplicação das espécies à criação acelerada de sentido pela arte, o que acontece de extraordinário no mundo é produção de diferença. O avesso é o deserto, a repetição, a estéril paisagem lunar, a morte. Então, tomemos a distinção entre poder e potência em Deleuze e a valorização da diferença e (não paradoxalmente) da igualdade política como parâmetros.

Liberdade
O princípio da liberdade está na negação, na recusa, na revolta, e sua melhor antítese não está na prisão, no cárcere, mas na obediência. Constituir-se sujeito é tomar para si as rédeas da vida, assumir o próprio desejo, os riscos e as escolhas, em oposição ao que se possa esperar de cada um, em oposição ao poder e à alienação. E é assim que opera a heteronormatividade: ela não diz que não podemos ser alguma coisa (ela é mesmo muito anterior às identidades sexodivergentes que hoje reclamam aceitação – de modo que sequer poderia ser definida por sua recusa), o que ela diz é o que devemos ser. Não é só quem se desvia que está sob os efeitos, portanto, desse regime: quem não está sendo punido pelo desvio está também em sujeição, em obediência. As figuras prescritas num regime normativo não são opressor e oprimido mas, mais propriamente, desviante – quem se deve punir ou eliminar – e obediente – quem está ocupado em seguir as normas, e portanto deve ser aceito. E nem mesmo os papéis do fiscal e do fiscalizado são fixos: o desvio ou o cumprimento das regras são usados nas constantes disputas por superioridade moral e poder, e todos se fiscalizam mutuamente e esperam benefícios quando obedecem e prejuízo para seus competidores pegos em falta. (Obviamente, contudo, a vantagem é de quem já está em posição de ascendência social – este estará menos sujeito ao escrutínio e a punições, e poderá mais facilmente se aproveitar do desvio de um subalterno para reforçar sua inferioridade, sua submissão).

Insuficiência
Somos todos, em última instância, desviantes. Mesmo os mais obedientes ou mais adaptados a essa prisão ainda viverão sob o signo da falta, da insuficiência, sob o fantasma do deslize. Os papéis de gênero consagrados pela heteronormatividade estabelecem alguma interface com o natural, mas numa leitura engessada, simplista e caricata, enquanto esse natural é fluido e instável; refletem ainda uma divisão social do trabalho já há muito anacrônica e a ordem patriarcal da tradição judaico-cristã, com profunda assimetria entre o homem, concentrador de todo o poder, sóbrio e infalivelmente forte, e uma mulher pura, submissa e cuidadora. Esses não são apenas papéis inaceitáveis moralmente – são papéis impossíveis de desempenhar, e a malograda tentativa que todos levamos até algum ponto é um processo violento e trágico. Sempre falharemos: nunca machos o suficiente, nunca santas e maternais o suficiente; e sabemos o que acontece a quem é posto nessa situação: uma vez em dívida, estamos coagidos a obedecer mais ainda, a ceder mais terreno, mais liberdade, e propensos a cometer violências covardes em nome da ordem que é nossa credora.

Recusa e escolha
A recusa desses papéis, portanto, deve ser uma operação libertadora mesmo para quem não foi condenado, de saída, à subalternidade (como o são as mulheres), nem teve sua expressão sexual ou de gênero reprimida e sufocada. Falamos da renúncia a um poder triste, limitador da experiência, e da busca de potências em liberdade. Entre as expressões que costumamos atribuir à masculinidade existem potências que estimo e de que não me sinto ou sentiria constrangido a abdicar (a própria busca da autonomia, injustamente, é uma delas), entre outras manifestações que são pura barbárie e boçalidade, das quais busco me libertar – num processo que teve início tardio, o que lamento, mas que tem sido invariavelmente recompensador. De forma análoga, há expressões de um feminino arquetípico que me seriam negadas e de que eu busco, com grande prazer, me apropriar, tanto quanto me convenha. Se o machismo não é outra coisa, em sua operação mais fundamental, senão a hierarquização do masculino sobre o feminino, não acredito num antimachismo que não passe pela valorização do feminino – e isso num processo de deixar-se afetar, deixar-se envolver. Se sou capaz de postular que o Outro me é igual em valor, seria difícil explicar que não quisesse para mim nada, absolutamente, daquilo que o constitui. Como disse meu ídolo Gil: “Todo artista tem de aprender uma certa viadagem…” Ele o diz, ouso elaborar, porque muitas das potências que deve buscar um artista – citaria a abertura para a alteridade, a sutileza, a comunicação empática – estão, em nossa cultura, atribuídas a um feminino.

Contradição e coragem
Não raro, penso em quantos dos meus amigos mais próximos, pessoas muito inteligentes, são aberta e veementemente favoráveis à igualdade de gênero, ao reconhecimento e defesa dos transgêneros e das orientações sexuais divergentes e, no entanto, ainda constituem sua própria subjetividade num clichê conformista e não conseguem abandonar expressões anacrônicas do machismo – entre chavões, renúncias e piadas tacanhas. Não se deve cair no protesto banal que sugere que essas contradições anulam a opção política acertada, é importante dizer. No mínimo, essa opção tem resultado presumível na conquista de direitos para as minorias e serve para colocar quem quer que seja em xeque quanto a suas posturas: um machista convicto sendo machista não poderia sequer ser dito incoerente. Ou será que os movimentos identitários, tão afeitos a coerências, preferem um machista coerente a alguém trilhando um caminho cheio de contradições mas na direção certa? A escolha, me parece, deveria ser óbvia e não é – mas, assim caminha a humanidade. De todo modo, o que me interessa é provocar esses amigos, que tanto estimo: a fragilidade que demonstramos nessas expressões, nessas sobrevivências do machismo chega a ser melancólica. O medo de ser “visto como veado”, o medo de não dar conta da masculinidade que devemos ao mundo salta à vista, e é risível. Por isso os provoco, os chamo a exercer uma potência tida, nessa tradição anacrônica, como masculina: a coragem. Tenhamos a coragem de recusar esse papel e esse medo.

Liberdade e potência do não
Por fim, e numa tentativa de sintetizar minha proposta e expandir seu alcance, eu trato aqui de que o gesto radicalmente livre está na recusa peremptória das identidades – que são, impreterivelmente, um dever ser, um regime normativo. O espírito comunitário, destruído pela colonização ocidental/cristã/capitalista do mundo para que esta se afirmasse como poder único, precisa ser reconstruído sob um novo tipo de identificação, um encontro na diferença, e não na homogeneidade fascista. Reconheço ainda, é claro, que os oprimidos se orientam e se reúnem em vínculos identitários como forma de reagir a opressões sistêmicas e conquistar direitos. Isto tudo é, sim, legítimo, provou-se eficaz até certo ponto, e deve ser apoiado, em suas demandas legítimas, por quem quer que se pretenda libertário. Esses vínculos não podem ser, no entanto, o modelo final da ação política, pois, primeiro, não oferecem um caminho para a libertação de seu próprio conteúdo normativo: a tentativa de dar conta deste efeito colateral tem sido – o que é um evidente fracasso – a fragmentação sucessiva em novos agrupamentos identitários, numa espiral sectária que já beira a esquizofrenia; e então, sobretudo, porque não oferecem um caminho para o encontro entre os diferentes devires minoritários com que precisamos – e esse é o grande desafio da política contemporânea – constituir uma maioria política diversa, igualitária, libertária e antifascista.

Para além do fenômeno dessas identidades reativas, é certo que existe um encantamento, uma tentação em servir, obedecer, conformar-se: ser livre tem um custo terrível, não é nunca um processo indolor, nunca um processo de que saímos impunes, ao menos sem conhecer a solidão – o maior dos terrores, talvez, da condição humana. O pertencimento traz algum tipo de recompensa psíquica primordial e o buscamos mesmo nas mais estúpidas fontes, como atestam torcidas organizadas e outras seitas fascistóides que escancaradamente só existem para e pela nivelação e identidade de seus membros, sem nenhum conteúdo positivo, sem nenhuma intenção perceptível senão o estabelecimento de uma fronteira Nós/Outros e a consequente tentativa de destruição do Outro.

A liberdade não é panaceia ou éden, mas o inferno da alteridade, da experiência, do risco e do desconhecido; não o fim das dificuldades, mas seu começo – é sempre mais fácil obedecer. A liberdade é a dor inenarrável da recusa, o terror do enfrentamento que é dizer: Não. E o único terreno em que a vida pode verdadeira e radicalmente florescer.

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*Pedro Moraes, o moço à esquerda, é programador e editor da Revista Baderna. Os gritos de ódio devem ser encaminhados à seção de reclamações do site naofo.de

Aborto e arrependimento

Esta semana, foi divulgada uma pesquisa norte-americana mostrando que 95% das mulheres que fizeram um aborto acreditam que essa foi a melhor decisão, sem arrependimentos.

Do total de pessoas avaliadas, 40% justificaram a decisão com base em aspectos financeiros; 36% das mulheres disseram que “não era o momento certo”; 26% recordam que a escolha foi tomada facilmente ou muito facilmente; e 53% dizem que a decisão foi difícil ou muito difícil.

Os pesquisadores destacam que a amostra foi diversificada no que diz respeito a métricas como cor de pele, educação e emprego. Eles também procuraram mulheres com diferentes contextos de gestação. Segundo os autores, a grande maioria das mulheres que participaram do estudo sentiram que o aborto foi a decisão certa “tanto no curto prazo, como ao longo de três anos”.

Para mais detalhes, divulgo aqui a tradução que fiz do texto ‘Study finds 95 percent of women who had an abortion say it was the right decision’ de Maya Dusenbery, publicado no site Feministing.com em 14/07/2015.

O mito de que o aborto provoca problemas de saúde mental nas mulheres é usado há muito tempo e agora pode ser colocado de lado. Porém, no caso de você precisar de mais evidências para responder aqueles cartazes contrários ao aborto que insistem em dizer “as mulheres sempre se arrependem de um aborto”, há inúmeras fontes, aqui estão algumas.

De acordo com este novo estudo que acompanhou centenas de mulheres que realizaram abortos, mais de 95% das participantes relataram que a interrupção da gravidez foi a decisão certa para elas. Sentimentos de alívio ultrapassam quaisquer emoções negativas, mesmo três anos após o procedimento.

Os pesquisadores investigaram tanto mulheres que realizaram abortos no primeiro trimestre da gestação, como mulheres que realizaram o procedimento após esse período (casos que muitas vezes são classificados como “abortos tardios”). Quando o assunto são as emoções das mulheres após o aborto, ou suas opiniões sobre se era ou não a escolha certa, eles não encontraram nenhuma diferença significativa entre os dois grupos.

A pesquisa, que é a mais recente fora o Turnaway Study, encontrou alguns fatores que levam as mulheres a terem sentimentos negativos. Como você pode imaginar, um aborto que pôs fim a um gravidez planejada ou uma pessoa em conflito com a decisão tomada relataram mais emoções negativas e menos confiança de que essa foi a escolha certa. Além disso, aquelas que precisam desafiar as regras de seus grupos sociais para realizar o procedimento tendem a ter menos apoio social e sentem mais o estigma do aborto.

Em outras palavras, a esmagadora maioria das pessoas não se arrepende de seus abortos, e para a minoria que se sente mal sobre sua escolha, isso acontece, pelo menos em parte, graças ao empenho e esforço do movimento anti-escolha para que elas se sintam mal. E mesmo assim, eles não parecem estar fazendo um trabalho muito bom nesse campo.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal.   Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal. Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

Simples

Tudo nele a deixava excitada, sua pele, macia e negra, seu olhar de desejo, a boca, o belíssimo sorriso. Era tudo tão natural, tão certo e tão fácil, era simples, um beijo já a despertava arrepios e tesão. Ele pegava com muita vontade em seus peitos, bunda, os olhos e os gemidos mostravam o quanto ele a desejava. Tudo tão simples, tão normal, como se sempre fosse fácil, pra ela, muitas vezes, era tão difícil. Era difícil se entregar, era difícil se apaixonar, era difícil querer alguém naqueles últimos meses. E ela queria muito seu corpo e seu beijo.

Ela sabia que tinha medos, inseguranças, mas o carinho e a compreensão dele apagava tudo aquilo com uma facilidade tão grande, nem parecia que ela tinha medo de se entregar, de se dar. Tantos traumas apagados com um simples beijo, tantas saudades, tantos olhares, um desejo que ela não acreditava mais poder sentir, uma cumplicidade dada pelo sexo e pelo tesão, coisas de gente apaixonada, coisas dela. Ela sempre misturou sentimento com tesão, ela até já transou por transar, mas quando tem carinho, amor, amizade, paixão, o sabor é melhor, você se sente livre. Mas, no mínimo, ela esperava confiança, e, com ele, ela sentia confiança, o corpo dizia mais que ela poderia imaginar. Os carinhos após o sexo, tão familiares e tão bons.corpos-colados

E só é assim com ele, sintonia, magia, sentimento incomum que ela não sabe descrever, só sentir e retribuir. Corpo exausto, sede, satisfação e sono. Ela dorme com uma leveza tão familiar, sentimento de paz e satisfação. Ela não compreende o motivo de ser diferente com ele, mas sentia que a pele dele era tudo que ela queria tocar naquele momento, só isso que ela sabia e tava bom pra ela.