O dia que fui crucificada: A migalha, o desserviço e a necessidade de maturidade política nos ativismos identitários

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

No ano passado, escrevi a matéria da capa da Revista Galileu de Novembro, sobre gênero. Aquela foi a primeira vez que uma pessoa trans havia escrito, para uma revista de circulação nacional, uma matéria de capa. E foi também uma das poucas matérias a abordar a questão da transexualidade fora do viés patológico, trazendo relatos e vivências e pensando nisso como uma questão identitária.

O texto saiu com inúmeros problemas: a revisão modificou meu texto, termos foram imensamente simplificados pra atender ao pública da revista ( que, imaginávamos, nunca havia tido contato com as teorias de gênero ou com o ativismo trans) – o resultado? Um texto útil, porém falho em muitos sentidos. Tudo bem. Recebi uma imensidão de críticas: enquanto eu era atacada por religiosos, por pastores, por todo tipo de gente que veio ao meu perfil me ofender, era, igualmente atacada por outras ativistas, algumas, que nem haviam lido o texto, atacaram a partir da narrativa de outras pessoas.

Aquela situação me deixou imensamente chateada. Eu realmente achei que havia feito um ” desserviço” pra ” causa trans”. Isso até que comecei a receber relatos de pessoas trans do país inteiro que tiveram contato com o a Revista. Professores que utilizaram o texto em sala de aula, e principalmente, o relato de um rapaz, do interior do Pará, que não conhecia pessoalmente nenhuma outra pessoa trans e que não sabia como explicar a sua transgeneridade para seus pais: ele dialogou com pais e amigos a partir do texto da revista.

Naquele momento, percebi que, ainda que meu texto não fosse ” ideal”, que não estivesse conceitualmente perfeito, ele teve efeitos positivos, pôde ser usado como instrumento de conscientização e de luta. Houve que lesse e pensasse: ” Meu filho não é doente”. O texto não foi um desserviço. Eu falei em ” sexo biológico”, mas aquilo não foi um desserviço. Então, porque eu fui tão criticada? Porque meu texto foi chamado de “transfóbico” e de “um desserviço a causa trans”?

As razões que consigo pensar são as que enumero agora:

1) Profissionalismo linguístico: É a exigência de que tudo, absolutamente tudo, seja sempre narrado de uma única forma; é o detalhismo, o cuidado que nos impede de ser “simples”. O desprezo da eficácia do processo de comunicação e seu aprisionamento em moldes linguísticos inacessíveis pra muita gente. Um termo ” fora do lugar” e todo o texto perde valor.

2) Migalhismo: Chamo de ” migalhismo” nomear “migalha” todo e qualquer avanço que não tenha ocorrido como no plano ideal. É uma migalha de representação escrever um texto, mas ter de se adequar a exigências da norma. É uma migalha que a Universal fale das pessoas trans, mas use um ator cisgênero. O migalhismo recusa tudo. Desculpe, aos que consideram migalha qualquer avanço que não seja ideal, mas é uma postura bastante privilegiada optar pelo “nada”. As lutas sociais, a política, ocorrem sempre no plano da negociação, e a gente precisa aprender a ceder, assujeitar-se é também uma forma de resistência.

3) Ausência de estratégia política: Como assim? Criticar os problemas do texto não é uma atitude política? Certamente, porém criticar um avanço mínimo sem no entanto pensar o que podemos fazer com este avanço é um problema. Precisamos pensar a realidade a partir dos recursos de luta que ela nos oferece. Não adianta dizer: ” Só aceito se for do jeito que eu quero”, não é assim. Existem uma demanda do real que está alem de nós mesmos.

4) Imaturidade: As temáticas trans estão entrando na agenda agora. Os meios de comunicação, respondendo à nossa pressão, vão buscar formas de acomodar a presença trans nestes espaços. Essa acomodação exige maturação de pauta, de abordagem. Hoje traz-se o tema, amanhã avançamos na abordagem e, assim, incrementalmente, vamos construindo e acessando outros espaços. Infelizmente, a luta não se dá no plano ideal, como gostaríamos. Existe um tempo e uma ação no tempo: compreender o que fazer em cada momento para agir com mais vigor em seguida é fundamental. Numa escritura budista, creio que chamada Kaimoku Sho, diziam que “compreender o tempo é o primeiro passo”. Concordo em absoluto.

Eu sou ativista e absolutamente compromissada com a causa trans, mas isso não me faz absolutamente compromissada com esta ou aquela estratégia em específico.

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Um chapéu rosa e uma escova de princesa

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A verdade é que não era nem rosa, o chapéu. Ele apenas tinha uma fita rosa. Mas o menino abriu no choro quando a mãe tentou colocá-lo em sua cabeça. Não queria, aquele chapéu não, de jeito nenhum. A mãe foi tentar entender o que estava acontecendo e depois de muita conversa conseguiu uma resposta: o menino, tão pequenino ainda, tinha sido alvo de piadinhas dos colegas porque usava um apontador cor-de-rosa.

A outra história envolve outro menino: esse estava recebendo um amiguinho em casa, e ganhou do pai uma escova de dentes nova. O pai tinha prestado atenção ao tamanho da escova, e não atentou para o desenho no cabo: pois bem, de novo. O choro, a recusa enfática. De jeito nenhum, essa não. Escova de princesa. Ainda mais com o amigo em casa: uma vergonha dupla.

Ser menino: aprender, desde muito pequeno, que existe “a linha de demarcação”. Que certas roupas não pode, que certas brincadeiras não pode, que sentar assim não pode, falar daquele jeito, nem pensar, mexer a mão, balançar o quadril, dançar muito solto…. Não pode usar apontador rosa, chapéu com fita rosa, escova de princesa. Não pode. Não é de menino.

Vejam bem: contrariando o senso comum, menina até que pode. Um dia não pôde: hoje pode. Pode usar calça, pode brincar de carrinho, pode jogar bola. Tudo por conquista das meninas, das mulheres que um dia foram meninas. Nada foi dado, é certo: precisou de muita briga e ainda há muito caminho a ser feito. Mas a força do oprimido é saber que é oprimido. E quanto aos meninos? Aí a gente entra em terreno delicado, porque, justamente, aos meninos cabe ocupar o lugar de opressores. Há, nas entrelinhas, a insinuação de que ser menino é, de alguma forma, “melhor”. Se é supostamente melhor, como reclamar de tantos “não pode”? Os “não pode”, dizem as vozes que não dizem, mas insinuam, são necessários para obter a titulação do seleto grupo, o dos vencedores, dos bacanas: o grupo dos homens hétero. Dos homens-que-são-homens. Ser mulher seria “meio menos”. E gostar de fazer “coisa de mulher” é querer ser meio menos: quase um pecado, pois. Não pode. O que significa que, no fim das contas, sob o pretexto de que é para “ser mais”, ser “melhor”, sacrifica-se, sem dó nem piedade, o que se é e o que se pode ser.

É desde muito pequenos que eles aprendem isso. Aprendem por que se lhes ensina. Tem sempre alguém dizendo, repetindo, mostrando: o pai, a mãe, os avós, os professores, os colegas. Sempre alguém afirmando que aquele menino não está sendo menino do jeito certo.

E tantas dores. E tantas repressões. E tanto choro contido, porque afinal, “menino não chora”. E tantas vontades deixadas de lado, porque isso não é coisa de menino. A linha de demarcação é violenta e é o tempo todo. Nas grandes como nas pequenas coisas.

Um parêntesis necessário: não é de orientação sexual que a gente está falando ainda, não é mesmo? Apenas da possibilidade de ser como se é ou como se quer. Porque afinal nada impede que alguém sinta tesão por meninas e vontade de usar um boá violeta. O que uma coisa teria a ver com a outra? Não consigo nem começar a perceber.

Ah, mas se gosta de “coisa de menina” deve gostar de fazer sexo com meninos, não é mesmo? E tome violência vinda do preconceito. Em cima de meninos que, no mais das vezes, nem pensaram nisso ainda. Sexo? Pegar na mão e dar beijinho, correr junto e abraçar, abrir um sorrisão quando vê o outro, sentir o coração bater… assim é o mundo sentimental dos meninos. E pode ser com meninos. Com meninas. Assim é também o mundo sentimental das meninas. Mas menina acaba podendo, né? Pegar na mão, deitar no colo, fazer carinho no cabelo, dormir na mesma cama… tomar banho juntas, andar de braço dado. Menina pode. Não deixa de ser menina. Afinal, ser menina é a base, o ponto mais baixo da escala: aquele lugar em que quem não está lá não deveria querer estar. Os outros, os que estão em cima, é que precisam se cuidar, sob o risco de… se aproximarem do jeito de ser das meninas. Que horror. Como alguém que recebe ao nascer a graça e a glória de nascer menino poderia desejar tamanha queda no abismo.

Então, desde muito pequeno, veste-se a criança com a armadura fechada, restrita ao espaço estreito concedido ao “ser menino”. Não vá ele passar dos limites, pintar fora do pontilhado, dançar fora de esquadro, virar a mão, rebolar, puxar as vogais, inclinar a cabeça…. Alguns pequeninos espaços já foram conquistados, deve-se dizer. Já que um dia, não podia brinco. Um dia, não podia cabelo comprido. Isso já pode, embora não em qualquer canto: mas na cidade grande, na classe média descolada, já pode usar brinco e cabelo comprido sem que haja perguntas, sem que isso seja reprimido. Aos homens héteros, no ano da graça de 2016, já é permitido usar cabelo comprido e brinco.

Mas é tão pouquinho. Uma migalha, diante de todo o universo de engessamento. Diante das possibilidades. Se vestir como quiser. Afrouxar, se soltar. O corpo. O jeito. Sem precisar se perguntar. Ser doce, ser delicado, brincar de boneca, pular corda. Abraçar, beijar. Ter medo e chorar e pedir arrego. Se permitir ser frágil. Sem ter sua sexualidade questionada. Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?

Vou encerrar esse começo de conversa, que não pretende ser mais do que um começo, com uma terceira historinha que deixo aqui, pra gente continuar a pensar.  Esta não está mencionada no título e  envolve uma calça de malha lilás. Me foi contada por um homem já adulto, que explicava – a sério – o motivo de ter  desistido de fazer ioga na juventude. Tinha entrado na academia para pedir informações e a moça detalhara: para a turma de iniciantes, a roupa era lilás. Pronto. Ali se encerrou a carreira de iogue do meu amigo. Aí não, dizia ele. Eu com vinte anos, vestindo roupa lilás? Como é que eu ia explicar pro pessoal lá do bairro?

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Elevador, de novo

Leia o post Elevador da Lis Lemos, aqui

Reparou no moço sentado esperando o elevador. Era o mesmo. Era o mesmo? Olhou primeiro no espelho do hall, as mesmas havaianas indignas, uma saia indiana mais sambada que a Sapucaí, camisetinha branca e os grampos de sempre. Seis. Tirou o olho do arrependimento no espelho e confirmou: era ele. Bonito, barba, bronzeado, cabelo grande. Talvez um pouco mais curto que no encontro passado. Talvez. De novo ao telefone, de novo um recado ambíguo: estou chegando. Em casa? Uma visita? Não, não era vizinho, quase um ano lá, muita falta de sorte se não cruzasse mais vezes com ele – cruzasse, rá, pensa bobagem, ri alto, ele levanta a cabeça, atento, ela queria desviar o olhar, acaba mergulhando no dele, que bonitos que são, escuros, sombrados por olheiras.

Oi. Pra ele sai tão fácil. Porque ela foi rir? E agora, o que responder. Repetir o oi? Comentar o tempo? Que droga de cidade na linha do Equador onde o tempo nem serve de conversa fiada. Ele insiste: já nos vimos no elevador, não? É preciso desengasgar a timidez ou serão 21 andares de mico. Levanta a cabeça, acena, sorri, sim, nos conhecemos aqui. Ele estende a mão. Aquela mão enorme que notou desde a primeira vez. O elevador chega. E agora? Elevador, mão, elevador, mão, isso, aperta, morna, gostosa, áspera, o elevador fecha a porta, sobe, ele ri: perdemos. Não solta a mão. Opa. Faz um carinho na palma, como era mesmo que sua avó dizia? Pedindo um beijo. Bonita, sua mão. A voz faz cócegas no ouvido. Gostosa. Sente a pele arrepiando e o mamilo enrijecendo. Camiseta branca sem sutiã. Que idéia, que idéia. Obrigada e levanta os olhos que não encontram os dele, dessa vez, atentos que estão aos mamilos enrijecidos. Ela esquenta mais, aperta a mão dele sem notar. Nota. Puxa a mão, baixa a vista e encontra a calça de moletom dele, marcada.

Respira fundo, impressão, impressão. Ele ainda está falando mas ela não escuta, ocupada com o sangue quente, a palma suada, a perna mole, o tesão. O elevador que chega, vazio. Ele faz um gesto, ela entra na frente, ele encosta a mão nas suas costas, gentil, ela lembra: a câmera está quebrada, porque ela está pensando nisso agora, para de repente no meio do elevador, ele esbarra, as portas se fecham, nenhum dos dois se afasta. Ela sente a respiração morna dele em seu pescoço, sente o roçar do pênis pressionando a calça de moletom e sua surrada saia indiana. Tenho que fazer alguma coisa, tenho que fazer alguma coisa. Um andar, outro.

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Estende a mão pra trás. Aperta o botão do seu andar. Meio de costas, volta a mão no pescoço dele. Deixa escorregar, peito, barriga, pau. Afaga. Puxa enquanto dá dois passos em direção ao fundo do elevador. Ele segue, as mãos já embaixo da camiseta branca sem sutiã. Ele beija o pescoço, o ombro, a barba macia acentuando a carícia. Puxa os bicos dos peitos, dá um peteleco. Ela espalma as mãos na parede do elevador e esfrega a bunda com força no quadril dele que já deixou uma das mãos encontrar o caminho e passar fácil pela saia e pelo elástico frouxo da calcinha. Sente o dedo, firme, roçando o clitóris. Quarto, quinto, se o elevador parar em algum andar? Respira, respira, ela tenta lembrar mas arfa enquanto ele continua, ritmado, a massagear e estimular. Ela sente a calcinha encharcando, a outra mão dele deixou os seios e aperta a sua bunda, os dedos firmes marcando seu rabo, explorando a fenda, insistindo, empurrando, ela se empina mais, ele mergulha o indicador na buceta encharcada e começa a enfiar, gentil e firme, no cu. Que andar, que andar, ela não sabe, ela sente os dedos na buceta, no cu, no clitóris, por todo lado, quantas mãos enormes ele tem? O pênis se esfregando no lado da coxa, a boca aberta sugando o ombro, ela arfa, ela goza, ela goza, ela goza. Ela geme, as pernas trêmulas. Ela sente o vazio. Os dedos se afastando lentamente. A porta do elevador abrindo. Ele se encosta em um dos lados, mantendo o elevador no seu andar enquanto ela arruma as roupas e tenta se segurar em pé sem o apoio das paredes do elevador. Olha pra ele que chupa, com ar satisfeito, os dedos.

Da próxima vez me dá um beijo? Ele diz. Ela sorri, marota, e pensa, zoando a si mesma: não ando dando essas liberdades pra qualquer um. Ele pisca, desconcertado com a gargalhada livre que ela dá. Ela fica na ponta do pé, morde a orelha onde balança o brinco e sussurra. Da próxima vez eu dou… o beijo. Sai sem esquecer de rebolar e sem olhar pra trás enquanto o elevador fecha, suave, a porta. Vermelha, satisfeita, vê confirmada sua hipótese: sua cidade não precisa de mais prédios, precisa é de mais sexo.

O debate de gênero nas escolas é necessário

Por Matheus Rodrigues*, Biscate Convidado

Quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, estudava num colégio católico tradicional aqui de Niterói, me chamaram de gay na sala de aula. A professora, que ouviu, foi mais rápida que eu para esboçar uma reação e disparou em alto e bom tom: e se ele for? o que que tem?

Num primeiro momento não só estranhei, como não gostei da resposta dela. Afinal, como a maioria dos adolescentes gays, eu próprio reprimia a minha sexualidade. Era algo ruim, algo de que eu deveria me envergonhar. Foi assim que aprendi. Hoje essa professora, Mônica Mançur, é uma das pessoas a quem mais sou grato, por ter me ajudado a perceber que eu não tenho que ter vergonha nenhuma de quem eu sou, que quem tem que ter vergonha são aqueles que destilam ódio.

No dia 8 de junho aconteceu a primeira audiência pública na Câmara de Niterói sobre o Plano Municipal de Educação (PME). Se eu disser que foi um show de horrores, vou estar usando um eufemismo muito fraco. Ódio atrás de ódio por parte dos defensores da exclusão, do PME, das metas referentes ao debate de gênero, identidade de gênero e orientação sexual nas escolas.

E por que uso a palavra “ódio”? Porque o PME não vai ensinar as crianças a serem gays. Não vai estimulá-las a mudar de sexo. Não vai ensinar uma criança a chupar o pau de outra, como certo vereador afirmou uma vez. Não vai destruir as famílias. Não vai induzir as crianças à promiscuidade nem acabar com sua inocência. Ao insistirem nessas mentiras, os defensores do combate à tal da “ideologia de gênero” (que sequer existe, o termo nunca foi usado em nenhum documento oficial) deixam bem claro que não é racional a sua objeção à discussão de gênero, diversidade sexual e identidade de gênero nas escolas. Deixam claro que é ódio. Puro e simples. Ódio ao diferente, ao que ousam fugir do padrão do que eles interpretam da leitura de livros de milhares de anos.

O que o PME propõe, e qualquer um que pegar o projeto pra ler vai constatar, é que as escolas comecem a ensinar que não é certo xingar ou bater em uma pessoa só porque ela é diferente. Que todos são iguais em dignidade e direitos. Que as mulheres não são menos capazes que os homens, e muito menos objetos deles. Que não se deve excluir ou ofender alguém só porque essa pessoa é uma mulher que gosta de mulheres ou um homem que gosta de um homem, ou uma mulher que gosta de homens e mulheres, ou um homem que gosta de homens e mulheres, ou ainda uma pessoa que simplesmente não se identifica com o seu sexo biológico. Que o mais importante é o respeito à diversidade, às diferenças. O PME quer que mais professores e professoras façam o que a Mônica fez comigo anos atrás. Nada mais que isso. Tá lá escrito, é só ler.

Mas se mesmo assim vocês continuam a ser contra a discussão de gênero, de diversidade sexual e de identidade de gênero nas escolas, se mesmo assim vocês acham que isso tudo não passa de “doutrinação”, eu gostaria de fazer um pedido: sendo parente, “amigo” ou o que for, me excluam. Não só do Facebook, mas de qualquer relação social ou pessoal que porventura tenhamos.

Vocês também atiraram as pedras que mataram Alexandre João Batista Santiago aos 32 anos em Santa Catarina. Também participaram do estupro coletivo da garota de 16 anos na Praça Seca. Vocês têm nas mãos o sangue do Alexandre Ivo, torturado até a morte aos 14 anos em São Gonçalo por ser gay. Vocês têm nas mãos o sangue do Alex André, espancado até a morte aos 8 anos pelo próprio pai no Rio para aprender a “andar como homem”. Da Amanda Araújo, travesti de 17 anos morta a facadas no Maranhão. Da Elivane Santos de Almeida, morta aos 32 anos pelo marido na frente da filha no Mato Grosso. Do Luís Antônio Martinez Corrêa, morto com nada menos que 107 facadas em 1987. E, se continuar assim, vão ter também o meu. Eu quero é distância de vocês, da sua intolerância, do seu ódio. O que me traz alento é a certeza de que vocês não passarão.

MatheusRodrMatheus Rodrigues é gay, ateu e comunista: só não foi para o inferno ainda porque não acredita no tinhoso. Avesso a todo tipo de grades e muros, acredita que com força e com vontade a felicidade há de se espalhar com toda intensidade.

“Como Homem”

Por Vevê Mambrini*, Biscate Convidada

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Hoje eu tinha que trocar as lâmpadas do farol do carro, e trocar o óleo – na verdade, já tinha passado do tempo. Cheguei no Mercado Car, fui direto pedir ajuda, e o atendente identificou em segundos as lâmpadas queimadas. Eu tinha reparado como ele é bonito e atraente. De costas, debruçado no carro de capô aberto, ele se vira e me fala: “Você não se assusta com o que vou falar? Mas você é a Hermione”. Não tinha como eu não me assustar. “Emma Watson, né? Você é igualzinha a ela.” Eu já tinha achado ele tão simpático, tão atraente. E de repente ele era também divertido – então só conseguia pensar em como deixar meu telefone, como chamar para uma cerveja, perguntar se ele queria bater um papo, se ele queria e podia sair comigo.

Subi no mercado para comprar as lâmpadas e o óleo de motor, pensando em atalhos para chegar no moço (por que não ser direta?) e me pareceu tanto com como quase sempre os moços se aproximam, como se precisasse de um grande pretexto, de uma história. Como se houvesse um “pensar como homem”. Fiquei pensando em como ele se virou de uma forma espontânea e despreocupada, e no fim, eu não sei se ele não olhou mais nos meus olhos longamente por desinteresse ou por vergonha. E eu fiquei com a cabeça nisso: outro dia, um outro moço “se comportou como homem” comigo: contou mentirinhas de amor para chegar num apaixonamento que ele nem queria, e sem querer, descobri que na mesma semana ele tinha feito o mesmo com outra pessoa. Problema nenhum com a piriguetagem, quanto mais melhor. Só me ressenti com a falta de fair play. Não precisava: a gente ia dar de qualquer jeito. Flertar de qualquer jeito. Tremer de qualquer jeito. Mas acho que o interesse, posto assim na mesa, fez perder a graça para ele, especulo. Me pergunto se para todo mundo é assim: se o jogo de enredamento precisa ou prescinde de mentirinhas.

 Mentiras de amor, como o Tom cantaria para a Lígia. Os desencontros de interesses fingidos para chegar a algum lugar. Os papeis esperados para as pessoas ficarem menos confusas diante do mistério do outro. Me peguei na fila, com quatro litros de óleo de motor nos braços, pensando no que lubrifica as relações, no que impede que nossa engrenagem não pare. No meu combustível, na manutenção que falta em algumas relações: uma educação emocional, que ensine a ler o outro, a improvisar um pouco mais fora dos scripts, a ceder com gosto e avançar ao ler com segurança o desejo alheio. Em que uma isca rende uma fisgada, em que onde um lança, o outro caça, e onde o silêncio também é uma resposta.

Esses dias andei pensando em reler O amante de Lady Chatterley. O livro é lindo e livre, mas preciso saber se as mil leituras da minha adolescência vão resistir às pensaduras dos últimos anos. O que ficou são imagens de escolhas muito livres e corajosas, muito além de quadrantes de gênero, ou classe. Escrito em 1928, chega a doer pensar que em 2016, ele seja tão progressista quanto eu me lembro. Arrisco dizer que foi grande parte da minha educação emocional: da escolha de ser transparente com quem desejo, de abrir o peito e mergulhar no vendaval. De gostar de jogar, mas no fair play. De querer curtir as regras iguais para meninos e meninas, nas infinitas combinações. De combinar os combinados, e experimentar o que se apresenta, maduro e doce.

Aí eu penso no moço das mentiras, e no moço para o qual eu não consegui falar a verdade. E penso se tem segunda chance para todos nós. Penso no tempo que estamos perdendo.

vevê* Verônica Mambrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

Trilha Sonora Para…

musica-sexoMúsica pro vuco-vuco, pro rala e rola, pra vem minha nega, pra pode vir quente que eu estou fervendo, quem tem? Essa foi a pergunta que fizemos pras leitoras e leitores do nosso clubinho e que rendeu uma lista incrível.

Tem aquelas músicas que só de ouvir dá aquele comichão por dentro, né? Trilha sonora pro roça-coxa, pro esfrega-sfrega, pro roça-roça, pra chamegar. Música que ajuda no arrepio da pele, no umedecer e esquentar das partes.

Algumas vezes é uma canção que lembra um alguém ou um encontro específico. Outras invocam a imaginação, provocam os desejos adormecidos e aí… ah, não tem jeito. Tem música que lembra sexo, simula sexo, dá vontade de fazer sexo.

A gente pensa em striptease, devagarzinho tirar a roupa e chutar os pudores? Pois tem Joe Cocker pra apimentar a brincadeira….

 

Ah, o lance é o comecinho, acender o fogo, preliminar divertida, sexy, sensual? Toca Rihanna:

 

Prefere algo menos pop, AC/DC cai como uma luva:

E nós não fugimos do clichê, nós abraçamos o clichê, colocamos o clchê na roda e o celebramos. Ainda mais essas que parecem perfeitas na composição de qualquer cenário… Mesmo quem não sabe francês, já imagina o que Serge Gainsbourg e Jane Birkin estavam fazendo aqui:

 

E pra mostrar como o clichê pode ser uma delícia, chega mais com Bruce Springsteen

 

E a música brasileira também dá (opa) sua contribuição para engrossar o caldo das musiquinhas que pedem pele na pele, língua na pele, língua na língua e volúpias mil. Como não pensar em Cavalgada, de Roberto Carlos, na voz maravilhosa da rainha Bethânia?

 

Ainda com Bethânia, é só tocar que acende tudo, que deixa tudo morno e pronto, hein:

E se alguém está pensando que só tem coisa antiga nessa vibe, olha aí, somos um clube antenado com as novidades musicais e coroamos essa playlist biscate com essa delícia chamada Johnny Hooker:

 

Não vai tirar a roupa hoje a noite, não tem namorado, flerte, encontro inesperado, tinder dando sopa? Faz mal não, pense numa sanfona, pense em Gonzaga, pense em forró, pense em Alceu. Só o clipe já vai provocando uma quentura bem biscate..

 

Quem tem medo de gênero e sexualidade? Convite

Assistimos atualmente ao desenvolvimento de um pensamento que defende que gênero é uma ideologia negadora da diferença sexual (diferença sempre pensada no singular). Os efeitos desse pensamento são sentidos em diversas instâncias da vida social, como por exemplo currículos escolares questionados pela adoção dos termos “gênero” e “orientação sexual”, críticas às iniciativas que viabilizam o uso do “nome social” em repartições públicas e identidades profissionais, proliferação de discursos sexistas e homofóbicos em espaços públicos e, por último, vinculação da agenda dos direitos reprodutivos à noção de que a família nuclear (casal+filhos) é a base elementar da vida social.

Consideramos que esse é um terreno fértil para pensarmos sobre os novos rumos das lutas por democracia, direitos humanos e cidadania no Brasil.

A proposta desse evento é reunir pesquisadores, docentes da Universidade e ativistas do campo feminista para analisar o recrudescimento de posições contrárias ao debate sobre gênero e sexualidades e apontar para os desdobramentos que esse recrudescimento implica.

As palestrantes são Maria das Dores Campos Machado, socióloga, professora associada da UFRJ, que pesquisa a atuação parlamentar de congressistas ligados a distintos setores religiosos; ela também é coordenadora do evento. Ana Paula Silva é antropóloga, professora adjunta da UFF. Sua atual pesquisa é sobre gênero e sexualidade na Escola; e Beatriz Galli, consultora do IPAS Brasil e membro da Comissão de Bioética da OAB-RJ, que trabalha com temas como mortalidade materna e acesso ao aborto.

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Informações:

Dia: 16/06/2016

Hora: 18:30

Auditório da Escola de Serviço Social – UFRJ

Campus Praia Vermelha

Av. Pasteur, 250 – URCA – RJ

Coordenadoras:

Patrícia Farias

Maria das Dores Campos Machado

Andrea Moraes Alves

Frio na barriga

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Lembro da primeira viagem que fiz sozinha depois do fim do casamento de dez anos. Nas férias, peguei um avião pra Fernando de Noronha. Levava na mala uma dor de cotovelo tão grande que eu não conseguia nem sentir – e a vontade de grandes aventuras. O tempo fechou (literalmente), o avião não pôde descer e teve que voltar pro Recife. Eu e mais cem pessoas fomos levadas pro hotel onde passaríamos a noite pra embarcar no dia seguinte. Pense numa reversão de expectativa.

No saguão, a moça da recepção, atordoada, chamava cada um pra ir alojando nos quartos. Na minha vez gritou meu nome e, antes que eu conseguisse ultrapassar a montanha de gente amontoada no balcão, berrou ainda mais alto: É single, né? Eu demorei a entender a pergunta. Ela repetiu, com uma voz estridente: Tu é single, né? Só um? Tá sozinha? Todos os olhares se viraram pra mim. E eu, com um sorriso amarelo, confirmei as três coisas: single, só um, sozinha.

Ali caiu a ficha e de lá pra cá foi uma longa jornada. Daria um seriado, com temporadas e trilhas sonoras bem diferentes uma da outra.

Mas tem um sentimento que é constante de lá até aqui. Ser ou estar solteira é sentir um friozinho na barriga. Não é que a vida seja emocionante e esteja sempre acontecendo alguma coisa. Muitas vezes é como barriga de novela, não acontece porra nenhuma. Mas aí a gente liga o som, sozinha no carro, naquela altura que chega a vibrar no coração e canta aos berros a música do Arnaldo: “Socorro, eu não estou sentindo nada…”. E chora. E já fica melhor, sabendo que em algum momento algo vai acontecer, e que o frio na barriga vai voltar imediatamente.

Além das coisas que realmente acontecem, ou que quase acontecem, tem a cabeça que taí pra gente inventar coisa. E quem disse que coisa inventada não dá frio na barriga? O nosso amor a gente inventa pra se distrair. E quando acaba… peço licença pra mudar o resto da música… a gente guarda no caderninho de histórias que poderiam ter sido, mas não foram. Há que se ter histórias nessa vida, inventadas ou vividas. Cada uma ensina uma coisinha pra gente, ou várias. Histórias eu tenho. E tenho carinho por cada beijo na boca. Ah…. os beijos. A esta altura podia fazer um tratado sobre beijos (nota mental para um próximo post).

Além das coisas que a gente inventa de querer, assim, de uma hora pra outra e que podem crescer numa velocidade exponencial, tem o que os outros querem. Os outros às vezes inventam de querer a gente. Há muito desencontro nesse caminho, como já dizia o mano Vinicius: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Mas nos desencontros também há poesia. Um ser humano olhar pra você e dizer que tá a fim não é pouca coisa não. Não dá pra desprezar um gostar. E ser gostada dá frio na barriga também, como não? Sabe-se lá se o gostar do outro vai acabar te conquistando? Como boa biscate, você vai lá e vê se rola da invenção da pessoa virar a sua invenção por algum tempo. Se não rolar, você sai fora. Tem gente que tem mais dificuldade de sair. Mas sair quando não interessa, acho que já aprendi. Meu método é meio abrupto. Não indico pra ninguém, mas funciona pra mim. O método é… sair sem explicar mesmo. Eu sumo. Com sorte, depois de algum tempo, passados os efeitos colaterais do desencontro, a gente pode virar (ou voltar a ser) amigo. Há quem diga que é falta de respeito tomar um doril. Talvez seja mesmo, mas é o que sei fazer. A minha desculpa é que não tenho uma explicação boa em palavras pra dizer que não tô a fim de alguém. Nada me parece bom, claro e respeitoso o bastante pra eu conseguir falar. Daí prefiro o não-dito. Meu não dizer já diz tudo – sem o constrangimento.

Mas além dos desencontros e das invenções, tem também aquele momento em que você percebe que determinado frio na barriga é recíproco. Que a sua vontade é a vontade do outro. E calhou de ser na mesma hora. Se, ainda por cima, vocês dois estiverem na pista e querendo sentir coisas… Bom, se isso tudo acontecer o frio na barriga é giga.

Aí, alminhas, é soltar o corpo, que não tem muito pra quê freio. Soltar o corpo sabendo que pode se estabacar ali na frente. Sabendo que pode não ser. Sabendo que o frio da barriga pode virar medo. E que o medo pode virar história.

A vida, feito novela, é uma obra em aberto.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Sonhos sonhos são

Desde o 11 de maio eu não durmo. Perco o sono. Viro, me reviro pensando no caos do meu país. E em você. Você é água mansa por onde meu pensamento desliza quando se esquece do que nos fizeram: a mim, a você e a toda as pessoas. As pessoas que lutam, trabalham, constroem esse país de que tanto me orgulhava de ir me tornando adulta nele. Com todos os problemas, sem reforma agrária, política ou fim do monopólio dos meios de comunicação. Ainda assim era possível ver um horizonte, havia brechas, lutávamos e acreditávamos mais na vitória do que na derrota.

Penso nas mulheres desempregadas com que conversei durante aquela semana. Uma me disse: “vi um trabalho que parecia muito esquisito. Não queriam pagar nem o salário mínimo. Eu tô precisando, mas não tô passando fome, né?”. Fiquei tão feliz de ouvi-la dizer isso, que não precisava se submeter a um trabalho degradante e mostrei a elas porque muitas não precisavam mais. Aí penso que esse pouco que conquistamos pode se acabar. Meu peito se enche de raiva. Balanço a cabeça pra sumir essa angústia e vir só você à mente.

Em meio a esse temor que se abateu sobre nós, pensar em você é o que me aquece o peito. O que me conforta nessas noites insones. Mas penso que o MinC acabou, golpearam também o presidente da EBC, acham que temos direitos demais. Lembro quem é Mendoncinha e o seu DEM-Elite que odeia pobre, negro, trabalhador sem-terra. E lembro que você, assim como eu e o restante estamos em perigo.

Penso nos adolescentes de São Paulo agredidos pelo Estado por quererem saber onde foi parar a comida a que eles têm direito. COMIDA. Aquele item básico da sobrevivência. O que nos bota de pé, firmes pra luta, que nos sustenta, que nos faz fortes. COMIDA. E esse pensamento puxa outro da tramitação do projeto de redução da maioridade penal e tudo se encaixa. Criminalizar nossos jovens cada vez mais cedo. Enjaulá-los, contê-los, lucrar com o fim de suas vidas. E me lembro da Bolsa-Estupro, da Cura Gay, da CPI da UNE. Claro. Foi pra isso – também – que eles nos golpearam.

O dia já está quase amanhecendo e continuo pensando nisso tudo. É hora de me acalmar e tentar dormir. Mudo a lógica das coisas e me lembro de que em breve você estará aqui. Que talvez eu siga em noites insones, mas porque faremos samba e amor até mais tarde. Ou finalmente poderei dormir aninhada no seu corpo que me traz uma paz do tamanho do mundo. O mundo precisa de mais encontros como os nossos, ele não sabe o quanto perde quando não estamos juntos.

sonho

Durmo e sonho agonias. Uma praça escura, muita lama e você que está para chegar, mas não chega nunca. A plenária vai começar, querem sentar no lugar que reservei pra ti. Você não chega. Um homem engravatado dá entrevista ao meu lado e quando tento xingá-lo perco a voz. Consigo falar, mas na hora de gritar a voz desaparece. Você não veio. Tento gritar pra outro engravatado, mas a voz falha de novo. Acordo ofegante, é dia, e falta pouco pra você passar o inverno comigo.

Vocês Precisam Parar

Por Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

foram 3 as vezes que eu busquei ajuda na polícia para me proteger. para me proteger de homens conhecidos e desconhecidos. homens que me bateram, me ameaçaram de humilhação, de exposição de fotos íntimas, de agressão e de morte. é, de morte. homens que fizeram isso por causa de machismo, ciúmes, possessividade, e simplesmente por eu dizer não.

escrevi pouco sobre isso. pretendo escrever mais. mas não esses dias. às vezes, nós, mulheres que sofremos abuso e violência de gênero, violência sexual, física e simbólica, mesmo militantes, mesmo analisandas, mesmo acolhidas, mesmo com qualquer sinal de fortaleza aparente, às vezes não conseguimos sequer respirar. reviver, relatar, expor e escrever, então, nem podemos ou sabemos. ou queremos.

agora só quero dizer isso: nas 3 vezes, os delegados e policiais e outras pessoas para quem eu pedi socorro legal e institucional, me negaram socorro de todas as maneiras possíveis. de forma sistemática e institucionalizada.

. em todas as vezes eu fui culpabilizada pela violência e ameaça sofrida

. em todas as vezes meu comportamento, minha aparência, meu jeito de falar e meu ‘jeito de ser’ foram questionados, julgados e associados ao que eu sofri.

. em todas as vezes os delegados e policiais que me atenderam questionaram e duvidaram da minha avaliação sobre a violência que eu sofri (‘tem certeza que foi assim? você não entendeu errado?’)

. em todas as vezes me perguntaram se eu achava justo 1) fazer isso com meu marido/meu namorado/esse moço que é tão novo 2) prejudicar a vida deles fazendo um registro policial deles.

em apenas 1 desses casos eu consegui registrar a ocorrência, e só consegui porque eu reagi dentro da delegacia dizendo que ia chamar ‘meus amigos jornalistas’ para registrarem aquela atitude do delegado.

ou seja, a minha palavra e minha presença ali e meu pedido de socorro não mereciam nem respeito nem crédito: eu precisei mencionar outra pessoa/lugar de poder, esse sim legítimo (a mídia), para ele me respeitar.

e isso porque eu sou uma mulher branca de classe média.
e isso porque eu estava em delegacias em bairros ditos ‘nobres’.
e isso porque eu sou uma mulher feminista e militante.
e isso porque eu ja tinha mais de 30 anos de idade quando isso aconteceu.

e isso porque eu só fui buscar ajuda essas 3 vezes: existem todas as outras vezes não contabilizadas, as que eu não fui pedir ajuda.

vocês precisam entender o horror que é viver isso.

vocês precisam entender o que é ter medo de sofrer violência e depois ter medo de ser acusada de ser responsável pela violência sofrida.

vocês precisam entender o que é a sociedade dizer o tempo todo que você vale menos, pode menos, merece menos, que você é menos só por ser mulher.

vocês precisam querer isso. queiram isso. ajam. que isso não seja mais aceitável, que isso mude, que isso acabe, que isso não exista jamais.

vocês precisam ouvir as mulheres. escutar com atenção. em silêncio. ouvir quando elas dizem que sofreram uma violência de gênero, humilhação, agressão, abuso, estupro.

vocês precisam acreditar nelas, a priori.
vocês precisam protegê-las.

vocês precisam parar de rir de piadas machistas.
vocês precisam parar de fazer piadas machistas.
vocês precisam parar de apoiar pessoas machistas
vocês precisam parar de proteger pessoas machistas.
vocês precisam parar de ser machistas.
vocês precisam parar.
para sempre.
para nunca mais.

FabianaMotroniBSC*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste a um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

Nota de Apoio a Monique Prada e às Trabalhadoras Sexuais

Publicado originalmente no
Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros

Nós, que abaixo assinamos, manifestamos nosso apoio a Monique Prada, militante feminista, trabalhadora sexual e presidenta da Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS). Monique tem sido atacada por grupos que se posicionam contra a garantia de direitos trabalhistas para profissionais do sexo.

Como Monique Prada, inúmeras outras trabalhadoras sexuais e militantes feministas que a elas se aliam nessa luta vêm sendo frequentemente expostas por grupos defensores de políticas de erradicação da prostituição que não só se mostraram ineficazes ao longo da história, como também refletem os projetos políticos dos setores mais conservadores da sociedade. Basta dizer que, no caso brasileiro, o argumento de que prostituição e exploração sexual são indissociáveis já foi publicamente defendido pelo deputado Wilton Acosta (PRB/MS), pastor da Igreja Sara Nossa Terra; e que o relator que propôs a rejeição do projeto de regulamentação das atividades de profissionais do sexo, submetido pelo deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ), foi o deputado pastor Eurico (PHS/PE), da Igreja Evangélica Assembleia de Deus.

Reiteramos que a regulamentação das atividades de profissionais do sexo representaria um avanço significativo no combate à cultura do estupro, uma vez que asseguraria melhores condições de trabalho e segurança para trabalhadoras e trabalhadores sexuais, fortalecendo também a luta contra a exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes.

Assinam esta Nota:

Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros / Uerj

Anis – Instituto de Bioética

Biscate Social Club

Blogueiras Feministas

Centro de Referência em Direitos Humanos, Relações de Gênero, Diversidade Sexual e Raça (CRDH/Nupsex)

Coletivo Davida

Coletivo Não Me Kahlo

Edis – Núcleo de Estudos em Diversidades / UFAL

Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas

Geni – Grupo de Estudos de Gênero, Sexualidade e/m Interseccionalidades / Uerj

Grupo Identidade, Campinas

LADIH – Laboratório de Direitos Humanos / UFRJ

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Mulheres Guerreiras

Nudes – Núcleo de Estudos em Discursos e Sociedade / Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada / UFRJ

Nupsex – Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero

Observatório da Prostituição / Laboratório de Etnografia Metropolitana-LeMetro – IFCS / UFRJ

Nusex – Núcleo de Estudos em Corpos, Gênero e Sexualidade do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ

Roda Feminista / Uerj

Transgride – Núcleo Transdisciplinar de Estudos em Gêneros, Sexualidades, Cultura e Relações Étnico-Raciais, FND / UFRJ

TransRevolução
Amara Moira, travesti, putafeminista

Aricelina Gomes,  APROSPI – Associação das Profissionais do Sexo do Piauí

Aurilene Soares, AMUPS – Associação de Mulheres Profissionais do Sexo, Queimados/PB

Carmem Costa, Grupo Liberdade/PR

Cida Vieira, APROSMIG – Associação de Profissionais do Sexo de Minas Gerais

David Soares, Doutores da Prevenção – Campina Grande/PB

Diana Soares, ASPRORN – Associação de Profissionais do Sexo do Rio Grande do Norte

Eliane de Castro Melo, coordenadora do CIPMAC – Centro Informativo de Prevenção, Mobilização aos Profissionais do Sexo

Elizabeth Pereira, APROCE –  Associação de Prostitutas do Ceará

Fátima Medeiros, APROSBA – Associação de Profissionais do Sexo da Bahia

Georgina Orellano, AMMAR – Asociación de Mujeres Meretrices de la Argentina

Indianara Alves Siqueira, TransRevolução

Ivanete Bezerra, DASSC – Dignidade, Ação, Saúde, Sexualidade e Cidadania- Corumbá/MS

Irene dos Santos, Articuladora das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe

Jacqueline Brasil, ATREVIDA – Associação de Travestis Reencontrando a Vida/RN

Juma Santos, Tulipas do Cerrado, DF

Leonisia Santo, APROSEP- Associação de Profissionais do Sexo de Picos/PI

Roberta Torres, Movimento TransLegau, Nova Floresta-PB

Sebastiana dos Santos, APAM – Associação das Prostitutas do Amazonas

 

Adriane Pereira, estudante de psicologia, RJ

Alline de Souza Pedrotti, tradutora, RJ

Amana Mattos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenadora do Degenera/Uerj

Amanda Rastelli, psicóloga e pesquisadora do Gepesp (Iav/Uerj)

Barbara Gomes Pires, doutoranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Carolina Bertol, doutoranda em psicologia social (PUC-SP)

Carolina Maia de Aguiar, mestranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Caroline Cavassa, jornalista, Roma, Itália

Caroline G., publicitária e ativista, RJ

Clarissa Godoy, educadora, RJ

Claudielle Pavão, professora de história do município do Rio de Janeiro

Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Erika Natasha Cardoso, doutoranda em História (PPGH/UFF), pesquisadora-bolsista na FBN (PNAP), com ênfase em estudo sobre o sexo e suas representações

Fátima Lima, Nudes/PP

Gabrielle Sales Ferreira, estudante, RJ

Geisa Ferreira do Nascimento, pedagoga, RJ

Giovana Xavier, professora de Ensino de História, UFRJ

Heloisa Melino, advogada ativista, feminista interseccional, doutoranda em Direitos Humanos, Sociedade e Arte (PPGD/UFRJ)

Henrique Marques Samyn, professor da Uerj e colaborador do MundoInvisivel.org

Iasmin Rocha da Luz Araruna de Oliveira, historiadora, RJ

Isabella de Mendonça Nunes, RJ

Izabel L. Ramos Moreno, publicitária, RJ

Jacqueline Ribeiro, historiadora, Degenera/Uerj

Joyce Costa Barbosa, analista socioambiental, RJ

Kathleen Feitosa, militante feminista e antiproibicionista, RJ

Laila Queiroz de Souza, pós-graduanda em Violência Doméstica (PUC-RJ)

Leticia Calhau Freitas, educadora social, RJ

Leticia Naves, associada da Anis – Instituto de Bioética

Liliane Gusmão, arquiteta, ativista, QC, Canadá

Lina Arao, pós-doutoranda, UFRJ

Luciana Holanda Nepomuceno, Professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, RN

Luisa Dantas Soler, advogada, especialista em gênero e sexualidade, graduanda em ciências sociais IFCS/UFRJ

Luisa Lorena Neto de Oliveira, assistente de DP, RJ

Maíra Rocha, arquiteta, RJ

Maria Clara Drummond, RJ

María Elvira Díaz Benítez – PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

Maria Luiza Rovaris Cidade, psicóloga, RJ

Mariana dos Reis Santos, professora do Instituto Benjamin Constant e doutoranda em Educação, RJ

Mayra Okamura, estudante de psicologia, Uerj

Raisa Ramos, comunicadora da Anis – Instituto de Bioética

Sinara Gumieri, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Valéria de A. M. Forti, psicóloga e professora aposentada, RJ

Vanessa Dios, diretora-executiva da Anis – Instituto de Bioética

Vanessa Oliveira Batista Berner, professora associada da Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ), coordenadora do LADIH/UFRJ

Vanessa Fonseca, doutoranda em psicologia pela UFF, Degenera

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Suruba não tem nada a ver com estupro

Por Carlos Pereira*, Biscate Convidado

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Gente que confunde orgia com estupro nunca participou de um ménage mequetrefe na vida. Quiçá nem trepou de luz acessa. Gente que responde com ressentimento aos perigosos mistérios do corpo. Gente reacionária.

Uma suruba séria é repleta de regras ditas e não ditas, subentendidas em cada gesto, alguns bem sutis. Outras criadas no momento, estabelecidas por palavras sussurradas, mas firmes, ditas ao pé do ouvido (“isso não”). Costumo brincar dizendo que numa suruba é que vemos de forma plena o imperativo moral kantiano da lei como instrumento libertador, pois é só a partir da submissão às leis dos ritos é que se pode entregar aos prazeres. Isso para não falar das orgias sadomasoquistas que possui regras ainda mais sofisticadas. Aliás, não por acaso, o estabelecimento de leis é fundamental para a literatura do Marquês de Sade (complemento lógico da lei kantiana, tão bem flagrado por Lacan).

Há uma diferença fundamental entre a economia do gozo da orgia e do estupro: enquanto na primeira tenta-se cultivar o mistério do desejo do Outro (embora em muitos casos se confunda cópula com desejo, mas isso é outro papo…), na segunda tenta-se apagar esse mistério, porque, na verdade, esse mistério não aparece como mistério, mas como estranhamento insuportável, um desconforto que precisa ser eliminado. A menina que “trepa com todo mundo”, que “trepa com bandido”, que “faz isso sempre”, quebra o narcisismo machista e, por isso, precisa ser punida.

Numa orgia, os participantes são iguais, são comuns. Por isso que se pode encenar com liberdade posições de submissão. Há uma interdependência forte entre os participantes e qualquer vacilação nessa interdependência o encontro cessa imediatamente. O estupro não tem nada a ver com isso. No estupro é a força bruta e violenta que se impõe a um outro corpo, submetendo-o aos seus desígnios.

Isso não significa que uma orgia é um mar de flores. Como qualquer comunicação é feita de mal entendidos, os problemas numa trepada coletiva acontecem. Mas impressiona como a preocupação com as regras é imensa (aliás, se percebe a presença de iniciantes facilmente, justamente pela dificuldade de reconhecimento das regras). Orgia séria e estupro estão em campos diametralmente opostos.

Quem tenta fazer comparação entre orgia e estupro o faz por um duplo preconceito (que tem mesma origem): preconceito com aqueles que tem coragem em se permitir a curiosidade com o seu próprio corpo e preconceito com mulheres que se permitem liberdades que mulheres “belas, recatadas e do lar” não deveriam se permitir. No fundo, preconceitos derivados de atitudes ressentidas diante do mal estar gerado pelo desejo do Outro, desejo de lidar com os mistérios do corpo – mistérios perigosos, que devem ser evitados a todo custo.

Em suma: o “inocente” fiu-fiu na rua é muito, mas muito mais próximo da cultura do estupro do que uma orgia séria.

Carlos_Pereira*Carlos Pereira é militante do Partido Socialismo e Liberdade e membro do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia.