Roteiros Biscates: “Play it again, Sam!”

Sempre divago, devaneio, sonho. E é naquele boteco da distante Tatooine, quando Luke e Obi-Wan buscam uma nave espacial para seguir viagem e dar origem à saga “Guerra nas Estrelas”. No meu sonho o boteco é do Rick Blaine e ele ajuda Obi-Wan, mesmo fingindo indiferença, a encontrar Hans Solo – que conversava com Ugarte. E que dias depois, longe das telas, alguma cantora de cabaré de três cabeças cantará algo parecido com a “Marseillaise” enquanto o bar é invadido por clones vestidos de branco e senhores representantes do Império. A cena toda já fiz e repeti, gravei, filmei, escrevi.

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Mas não só. Quando li – e, depois, assisti – Harry Potter nunca as cousas se esgotam ali no triângulo Harry, Rony, Hermione. Sempre imagino os corredores de Hogwarts e as conversas sobre “você sabe quem” longe do menino eleito, dos olhares de Dumbledore. Das conversas na sala comunal da Sonserina entre aqueles que não seguem Voldemort e por isso são perseguidos, calados, ofendidos. E de como estes ajudam – anônimos – na batalha final. E segue a cabeça girando a imaginar enredos, numa gostosa promiscuidade de ideias, de versões, de desvios dos textos originais. Ah…. aquele duelo final de Três homens e um conflito”….

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Quando me perguntam por que escrevo aqui ou do como me descobri biscate, gosto de imaginar ainda mais assim e assim. Porque aqui estamos buscando construir novas histórias, novos paradigmas, sair das caixinhas, mudar roteiros prontos e desvirtuando o que se considera dogma, regra, padrão. Sim, aqui cabe o Marrocos em Guerra nas Estrelas – até porque as imagens do filme foram filmadas na África Mediterrânea, Cabe, porque temos sonhos de outros mundos, outras possibilidades, outros roteiros. Na neblina, na tabacaria, na “Internacional” que toca na torre. Neste mundo cada vez mais árido é cada vez mais amplamente necessário um afago.

Sim, óbvio solar, nesses nossos roteiros teriam muito mais beijos, sexo, sacanagens. E como seria lindo o filme do dia em que o Batman sai do armário. Ele conta para a Mulher Maravilha e os dois saem para um mambo numa rua de Havana Velha.

E a gente sorri gargalhadas.

Eduardo Cunha, o déspota dono da bola, e a redução da maioridade penal

Nenhum país sai de um processo de 30 anos de ditadura sem sequelas, é certo. Mas acho que a nossa transição suave e a falta de punição aos responsáveis por desmandos, corrupção, torturas e mortes com a Lei da Anistia talvez também estejam deixando sequelas.

O clamor que levou o país a mergulhar no processo ditatorial temendo, injustamente, que pudéssemos sofrer uma revolução socialista, com boatos de um Jango socialista, que hoje se sabe não corresponderem aos fatos, se repete com clamores de Lula e Dilma bolivarianos, cubanos e bobagens por aí. A nossa falta de revisão histórica ao findar a ditadura reitera os mitos que o brasileiro médio tem acerca do que significa direita e esquerda, e vemos as confusões se repetirem. E talvez toda essa polarização baseada em falsas premissas e muito populismo tenham ajudado a configurar o congresso mais conservador que temos desde antes da ditadura.

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E o que isso tem a ver com a votação de ontem e anteontem na Câmara dos Deputados? Para mim, tudo. Os discursos populistas, a falta de embasamento técnico e de pesquisas acerca do assunto dos digníssimos deputados para votar, o discurso   vazio contra o governo – mesmo que a votação nada dissesse a respeito disso, pois a não-redução da maioridade penal não é um política estrutural do atual governo -, ou seja, uma Câmara conservadora e bastante fraca, facilmente manipulável e frágil no que diz respeito a um dos alicerces da democracia: o respeito à Constituição vigente. Um indivíduo, de perfil quase caudilhesco, o deputado Eduardo Cunha, manipula pela segunda vez uma votação, rasgando a Constituição Federal (art. 60) a seu bel prazer. Até o ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, criticou a manobra de Cunha. “Matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa”.

A manobra de Eduardo Cunha está sendo chamada de “pedalada regimental” e ocorre após a derrota-surpresa, por apenas 5 votos, na noite de terça para quarta-feira. Aliás, a cara de Cunha quando foi aberto o painel foi impagável, e naquele momento ele já encerrou a sessão dando início à manobra que culminou na sua vitória no tapetão, quando nesta 5a feira, no plenário, foi comparado ao Fluminense pelo deputado Paulo Pimenta. Quero lembrar que Cunha é alvo de inquérito no STF por crimes contra a ordem tributária e também responde a ações por crime de improbidade administrativa. 

É esse o homem que faz cara de probo quando vocifera sobre outros crimes que não os dele.  

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Uma das deputadas que alterou o voto de terça para quarta, após ter publicado texto em sua página contra a redução da maioridade, foi a deputada Mara Gabrilli, do PSDB –SP. Cabe a seus eleitores perguntarem o motivo da drástica mudança de opinião, já que se sabe que houve pressão pessoal do deputado Eduardo Cunha na reversão dos votos. Há de se perguntar também, quanto os demais parlamentares, que poder é esse que o Presidente da Câmara exerce e que medo, como foi falado no plenário por alguns deputados, é esse que impõe, com base no qual consegue ser obedecido. Tem, inclusive, exercido pressão nos funcionários concursados da Casa.

Há possibilidade de reversão da PEC no Senado e até no STF, embora não haja consenso sobre se fere ou não a cláusula pétrea. Mas o que quero deixar como reflexão neste post é a fragilidade da nossas democracia e o clima de pressão numa das casas do Congresso Nacional, onde o dono da bola só deixa jogar se ele vencer o jogo.

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Mais sobre a redução:

A redução da maioridade penal e as mulheres

Veja como cada deputado votou na redução da maioridade penal

 

Em Amarelo

A rua tem cheiro de flor. Aqui, café e cuscuz. Felicidade em amarelo. São as pequenas alegrias, sabe. Aquele jeito de franzir a testa. A mão que nem percebe brincar com o meu decote. A carinha piscando na mensagem. Os cds com sua letra, os livros sem dedicatória. A pergunta: e vamos beber o quê? Aquele dia na represa. A flor roubada. A lua, enorme, pela janela. Os fogos na varanda. Todas as noites em que acordo no seu abraço. Sorrisos sem motivo e as coisinhas miúdas estão ali, feito jarrinho de girassol na janela, lembrando pra que lado fica o morno.

Mesmo eu que sou um oco do mundo, negros abismos, dores que antecipo. Minha mala é pesada não de passado mas de antigos futuros. Como quem anda à beira do abismo, acostumada a vertigens. Mesmo eu, já fui, em dias, a menina com uma flor, nas vozes dos que já me amaram. E, aqui, outra vez.

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Aceito, no peito, o bem querer girassol. Grande demais pra ser o que é. Mas insiste. Colorido. Estabanado. Caloroso. Exuberante. Que só se sabe assim, voltando-se pro riso. Que se faz no repetir-se da cama bagunçada, do suor nos lençóis, da janela aberta, nesse quarto que é sempre noite mesmo em tempo de sol. Que se firma na forma como os corpos se sabem um momento antes do sono, no morno de estar junto muito tempo, nos sons que se fazem íntimos. Que se nutre nos afagos, no gostoso de caber na mão, do nariz no pescoço, do joelho entre joelhos, da ilusão. Que vinga exatamente no agora, espaço sendo tempo, tempo sendo gosto.

Gosto de girassóis. Eles têm a certeza dos dias, mas talvez não para eles. São demasiado. Demasiado exuberantes, demasiado coloridos, demasiado mortais. São estabanados demais para serem flores. Gosto desse sentir. Também, em meu peito, certezas de dias outros. Talvez não para nós, mas outros. Eu sou estabanada demais para o amor, mas insisto. Girassol que é, justamente porque finda. Murcha. Mas não hoje.

O amor que não precisa ter nome

A Iara tem feito vários textos sobre a novela Sete Vidas, que está na reta final sendo exibida na Rede Globo. Também sou fã da trama e hoje quero falar sobre dois personagens em especial: Eriberto e Renan.

Eriberto é um homem requintado, leiloeiro que gosta de bons jantares e preza muito a amizade das pessoas. Ele é casado com Marta, metódica e ambiciosa. No início da trama, havia uma suspeita levantada em diálogos se Eriberto era gay, mas nada foi comprovado. Essa suspeita só retornou quando Renan apareceu na trama. Dentista que também gosta de prazeres refinados, foi Marta quem os apresentou sabendo que se dariam muito bem.

Acontece que tanto Eriberto como Renan são casados com mulheres. Aí, nossa curiosidade mórbida sobre a vida alheia fica naquela expectativa: são gays? não são? o que é isso? A melhor parte é que Lícia Manzo, autora da novela, não parece estar preocupada em definir o que Eriberto e Renan são, mas sim em nos presentear com cenas maravilhosas em que os personagens mostram uma intimidade e um amor tão pungente que chegam a ser mais explícitas que um beijo na boca.

Há algo nas cenas cotidianas, como a visita a casa de Petrópolis ou a compra de um terno, que mostram uma amizade até rara de se ver entre dois homens. Porém, foram nas cenas ocorridas após o falecimento do pai de Eriberto que mais transpareceu esse amor sem nome ou carteirinha registrada. O olhar entre os dois quando Renan consola Eriberto é a representação física da empatia e do acolhimento entre duas pessoas. Além desse, há o momento da cerimônia das cinzas e a decisão de Renan presentear Eriberto com um relógio antigo.

Os atores Fábio Herford e Fernando Eiras declararam que essa é uma história de amor e paixão cheia de afinidades e fraternidade, mas sem beijos e carícias. Até mesmo o fato de serem dois homens mais velhos representa uma nova forma de apresentar um relacionamento em novelas. É claro que queremos ver nas novelas e em outras produções culturais muito beijo na boca e sexualidades que fujam da heteronormatividade, mas ao defender todas as formas de amor também é preciso lembrar dessas outras vivências do verbo amar.

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Exijo, Sim, Respeito

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

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Tu dizes que não me respeitas e eu fico aqui, me perguntando de onde tiraste a ideia de que podes negar o respeito a outra pessoa. E não que eu tenha te pedido respeito: tu levantas a voz e diz “não respeito”, e eu me pergunto o que é que tu julgas em ti tão superior ao que tenho pra dizer que não respeitas.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que não respeitas uma mulher por que ela faz sexo. E me pergunto de que ventre saíste, fecundado sem sexo. Ou quem sabe pra ti o sexo da santa mãe seja tão sagrado que ela te tenha gerado sem prazer – abnegada que é, como devem ser as mulheres respeitáveis.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que é com o suor do teu corpo que pões o pão na mesa sagrada de teus filhos, do mesmo modo que com o sagrado suor do meu corpo ponho o pão e a refeição à mesa dos meus. Dizes que não me respeitas por que não estudei, e o dizes sem ter perguntado se quem sabe não fomos colegas. Nos puritanos bancos de escola em que sentaste não teria antes se esbaldado a lasciva bunda de uma puta e assimilado tanto ou mais conhecimento que tu?

Dizes que não me respeitas e vais à missa, e lá prometes amar e respeitar teu próximo como a ti mesmo. E repetes semanalmente a promessa – mas estufas o peitinho e dizes que não me respeitas. Ou pelo comprimento da minha saia, ou pela acidez feroz da minha língua. Não te desperto respeito.

Isso como se a ti ou a qualquer de nós fosse dado o divino direito de sair por aí dizendo “não conheço mas não respeito”. Não me respeitas por que te parece que meu sustento vem fácil e o teu, suado – e parte desse teu sustento tão suado vem parar em minhas mãos ou nas mãos de uma das minhas, por que não resistes. “A carne é fraca”, tu dirás – e meus demônios internos rirão da tua cara, da tua falsa moral, e guardarão tua face na memória.

Te arrependerás do pecado de ter pago pelo gozo a uma pecadora, e pensarás te redimir dizendo “eu não respeito” – puro despeito. A mim não enganas. Eu acho graça e levanto a cabeça: exijo, sim, respeito.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Uma onda colorida

Foi bonita a festa, pá. O tapete multicolorido em que se transformou minha TL do feicebuque ontem. Um a um, meus amigos iam ficando cobertos pelo arco-íris. E eu me alegrava, “curtia” até ficar com o dedo doendo, sorria e, ocasionalmente, ficava com os olhos cheios de lágrimas.

Voltava aos meus afazeres e, quando ia lá de novo, mais uma ruma de amigos tinha se transformado e entrado debaixo do arco-íris.

Celebrando. Celebrando o quê? Celebrando o fato de que uma pá de gente no mundo passou a ter seus direitos garantidos, num país pro qual todo mundo olha, que exporta seus jeitos e suas modas pro mundo todo, ou pelo menos pra boa parte do mundo.

Celebrando a solidariedade, o fato de que gente é pra brilhar, celebrando a alegria do outro, a festa do outro, comemorando junto com o outro, junto com a outra.

Dia do Orgulho Alheio, disse a Lena, e eu pego emprestado: orgulho e alegria dos amigos que não precisam ser gays para saber que isso muda a vida, a deles, a nossa que passamos a viver num mundo melhor e mais justo.

Casamento? É besteira, você diz? Intromissão do Estado nas relações privadas? Tinha que acabar, é? Ué, mas quem está discutindo casamento? A gente tá celebrando é a conquista do direito. Pra que os gays, as sapatas também possam dizer que é besteira, que não querem casar. Não querem, mas podem. Ou querem, e também podem.

Well done, tio Zucka. O arco-íris foi bem sacado que só.

E quando a gente celebra e faz festa junto por mais um direito adquirido, que já existia aqui, mas não lá, quando os juízes da Suprema Corte lá garantem o direito porque reconhecem que é um direito constitucional, isso muda coisas. Não é mera burocracia. Não é a mera permissão para os estados de celebrar o casamento gay: é a obrigação, visto que é direito constitucional, e o embasamento é a 14ª emenda, que fala da igualdade de todos os cidadãos diante da lei. Entendeu-se, pois – em votação apertada, 5 a 4 – que isso abrange o direito dos cidadãos de casar. A discussão toda faz diferença, do ponto de vista dos direitos. E vai bem além dos Estados Unidos.

Abraços, risos, lágrimas: foi dia de festa, em meio a tantas dores de todo dia. E meu coração se alegra com os amigos e amigas de cujos sofrimentos sei tão pouco, de que só ouço ecos: o de sair do armário (ou não), o de contar para os pais, para os irmãos, para a família toda, o de ser apontado como “aquele ou aquela que….” . E é tão lindo e tão raro quando a reação é “eu quero que minha filha seja feliz” e ponto. Tantas vezes é dor, é incompreensão, é um “não criei filho meu para…”, é choro e ranger de dentes, apenas porque o desejo da gente é o que é e a gente não tem controle disso. Não sei dessa dor que deve ser você ser motivo de tristeza para seus pais, simplesmente por ser quem é. A dor de escolher não contar, por ser mais fácil, para não confrontar. O dia-a-dia de quem assume, o dia-a-dia de quem disfarça: dores que não conheço, eu, cis e hétero.

Então quando tem um dia assim, em que a linha do tempo do fêice se transforma em tapete multicolorido, meus olhos se enchem de lágrimas e, sem achar que a revolução foi feita, permito-me acreditar que um passo foi dado na direção certa. A da gente juntos. A da gente gente. Em direção ao dia em que isso não será mais questão nem motivo de sofrimento: Ana namora Luciana, Claudio namora Ricardo, Mariana namora Paulo, Fábia namora Stella. Mônica namora Max. Fabi namora Rita. Dodô namora todo mundo, claro. E a gente vai dançar ciranda, todo mundo junto, rodar até perder o fôlego e cair na areia da praia.

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Aquele Abraço

Para Raquel e Sílvia,
sabendo que todos nós podemos nos chamar
Raquel e Sílvia
qualquer hora dessas.

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Eu queria saber fazer, desse texto, um abraço. E deixar aqui, no blog, pra quando as coisas pesarem demais, estiverem difíceis demais, doídas demais.

Sim, nós somos do riso, nós somos do gozo, nós somos do bom. Somos do samba, da festa, das palmas. Somos das gargalhadas, das noites se fazendo dia, dos grupos. Sim, nós somos do sim.

Mas tem dia que o que a vida nos pede mais um tanto. Coragem e riso não bastam. Tem dia que dói. Tem dia de sofrer. De temer. De fraquejar. Tem dia que somos pranto, canto do quarto, medo, insegurança. Tem dia que o dia nos tolda os olhos.

Tem dia que a vida apaga a luz. Desmancha o riso. Anuvia o céu. Tem dia que todos os afetos não bastam. Que nenhuma coberta aquece. Que nenhuma comida sacia. Tem dia que não sabemos vivê-lo. Dias em que a paleta oferecida é solidão, angústia, receio.

Para esses dias, eu não trago nenhuma certeza. Eu não trago nenhum consolo. Eu desconheço como serão, como podem ser. Eu simplesmente fico aqui, disponível. Eu sou apenas o que for preciso ser. Um grande ombro ambulante. Um peito pra descansar a cabeça. Mãos em cafuné. Um sussurro feito cantiga de ninar.

Gosto muito quando Kundera fala de compaixão e nos conta da diferença quando a palavra é formada ora com o radical sofrimento ora com o substantivo sentimento. Compaixão pode ser “sentir com”. Compaixão é uma imaginação afetiva, é sentir com o outro o que ele sente, alegria, raiva, solidão, dor, medo, angústia.

É essa compaixão que deixo aqui, entre as letrinhas desse post. Uma disponibilidade para estar com. Pra sentir com. Pra doer com. Pra lutar com. Pra chorar com. Pra perder com. Pra sobreviver com.

Eu queria saber fazer deste post um abraço. Um abraço biscate, onde houvesse, potencial, o riso, o gozo, o bom. Um abraço biscate que nutrisse, acolhesse, aconchegasse, desse força, apoio, sustentação. Eu queria saber fazer desse post um descanso. E um mergulho. Vida, que seja do jeito que for, a gente junto, mar, amar, amor, dor, um peito repleto.

Vestida de onça pintada

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Carminha é vendedora de frutas lá em Pirapora, minha cidade natal, no sertão de Minas Gerais. Conhecida como “Mulher-Tigre”, na verdade, ela é mesmo uma onça! Há mais de 20 anos ela só se veste com roupas de estampa print animal, “inclusive nas peças íntimas”, me contou safadinha, da vez que conversamos.

“Me vestir assim é minha missão de vida”, disse, sem entrar em detalhes e me deixando mais atiçada ainda. A lenda que corre é que ela teve um marido abusador, que a maltratava física e emocionalmente. Belo dia, esse homem, metido a caçador, teria saído pela mata e sido engolido por uma onça. Desde então, Carminha assumiu essa espécie de luto perpétuo subvertido.

Até tentei confirmar isso que me parece uma história pra lá de instigante. Ela nada disse. Apenas riu.

Uns anos atrás foi publicado um texto apócrifo em Pirapora ridicularizando “personagens curiosos” da cidade. Carminha estava lá, num contexto de galhofa que misturava comentário sobre sua aparência e “piada” homofóbica sobre seus filhos.

Com que facilidade uma mulher se torna alvo de patrulha por não seguir um padrão, qualquer que seja ele, né? O do dress code cotidiano, por exemplo, sobretudo aquele apontado como o “mais adequado” a uma senhora. Ainda mais se tratando de uma senhora que, no folclore local, ao invés de render homenagem ao marido morto decidiu homenagear a onça que o teria devorado!

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E por mais que eu fique tentada a dessa história escrever um conto, o caso é que, no final das contas, qualquer elucubração pretensamente literária esbarra mesmo nas perguntas mais simples: por que Carminha não pode se vestir da maneira que quiser sem contar ora com a condescendência, ora com o desprezo disfarçado de ironia por parte de alguns? Por que Carminha foi parar num panfleto covarde, porque sem autor, por sua maneira de vestir?

Ainda que seja amada na cidade, porque é, nem sempre as pessoas se abstêm da ironia ao se referir ao seu estilo.

O que me consola, nesse caso, é que ela não parece se importar nadinha com a opinião alheia. Porque ela passou ao largo do disse-me-disse machista e do texto barato e continua se mantendo fiel às suas escolhas de moda.Quer conhecê-la, é só ir lá em Pirapora. Da rodoviária mesmo basta perguntar onde fica a banca de frutas da “Mulher-tigre” ou ‘mulher onça”. Qualquer um sabe.

Recebe muitos presentes, de bichos de pelúcia a livros, de todos os lugares do mundo. Em um desses livros, me disse, aprendeu que há vários tipos de onça: grande, pequena, albina, mas que a mais valente é a onça pintada.

“Mais valente que o leão!”

Siririqueira de mão cheia

Esses dias, a cantora Pitty reclamou em seu perfil no Twitter sobre uma declaração sua que saiu deturpada em matéria do jornal O Globo. O caso já foi resolvido. Pitty havia comentado sobre masturbação: “Meu corpo me basta! Cheguei a pensar, inclusive, em incluir um momento de masturbação, reforçando o quanto estou me amando sozinha”. Após a repercussão, ela logo recebeu inúmeras mensagens ofensivas na internet, muitas delas dizendo: “Siririqueira”, “Toca uma pra nós” e “Mal amada”.

Ora pois: eu, como boa siririqueira, preciso levantar a mão, chupar os dedos e me manifestar. Quem pratica e mantém o hábito de siriricar sabe que sozinha sim, mal amada nunca! Um ato tão prazeroso que pode começar nas roçadinhas básicas do braço do sofá, passando pelo tão idolatrado chuveirinho íntimo do banheiro, até chegar nas atléticas habilidades em cima da máquina de lavar. A siririca é essencialmente uma prática do cotidiano, da qual podem participar inúmeros objetos presentes ao nosso redor, que pode ser realizada em momento solitário ou em conjunto, em ritmo lento ou rápido dentro do molejo que o dia apetecer.

Entre nós do Biscate há um dito interno que diz: a siririca é a verdadeira sororidade. Porque é por meio da siririca que damos as primeiras mãos em direção a conhecer nosso corpo, nossa fluidez, nossos desejos, nossa intimidade. É a espuma do banho que um dia faz uma cócega diferente. É o líquido que apareceu depois de um beijo na novela. É o frisson de ter cruzado com alguém que soltou faísca. É também, no meu caso, a certeza de que eu e Keanu Reeves fomos feitos um para o outro desde a minha adolescência. Assim como hoje tenho certeza que eu e Chay Suede também deveríamos nos conhecer melhor.

Siririca eu, siriricas tu, siririca ela, siriricaremos nós todas. Siririca é a resistência da buceta, da vagina, do clitóris, dos grandes e pequenos lábios. Desse corpo cheio de terminações nervosas e desejos. Desse corpo que sabe exatamente como gosta de ser tocado por aquela pessoa que mais o ama. Se toque! Toque para os outros! Faça como Pitty e fale sobre masturbação. É bom para o gozo, a alma e o coração.

Cena do clipe 'Adore' da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

Cena do clipe ‘Adore’ da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

Beleza é subjetivo?

Semana passada, me senti muito mal com um comentário que me contaram sobre mim. Me contaram sobre um papo que rolou sobre mim, que eu tinha o rosto feio, que a única parte bonita do meu corpo é a minha bunda. Me senti um lixo, ouvi muito isso na adolescência, que era feia de rosto e tinha a bunda bonita. Adolescentes sofrem muito com a opinião dxs outrxs, eu me lembrei muito daquele momento quando ouvi o comentário.

Machucou demais, mas parei pra enxergar o que aquele comentário queria dizer. Padrões de beleza racistas e gordofóbicos, que dizem que negras são feias, gordas são feias, se for as duas coisas, mais feias ainda. Dizem que beleza é subjetivo, mas é, na verdade, uma construção social, você se interessa pelo que sempre lhe foi mostrado como belo. Através da história das artes visuais, notamos o quanto essa “subjetividade” se adapta aos padrões da sociedade e seus preconceitos.

E, sim, o tesão também é uma construção social, então, se excitar com mulheres loiras, brancas e magras vem sim de como você foi criadx em uma sociedade racista e gordofóbica, você aprendeu a desejar a loira magra e enxergar a negra e gorda como uma mulher “com qualidades, mas não tão bonita” ou “com um rosto tão lindo, mas não se cuida” ou ainda assim “tão bonita, mas o cabelo não combina com ela”.

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Eu me desconstruo todos os dias pra me enxergar bonita e desejável aos meus próprios olhos, pois também sou fruto da sociedade, é difícil, luto contra tudo que absorvi por 30 anos vivendo em contato com o mundo. É esquecer o preconceito, o bullying e tudo que já ouvi de preconceituoso e seguir adiante, me transformando e transformando quem passa por mim. Afetando as pessoas e fazendo–as compreender que a beleza precisa ser desconstruída, no dia a dia. Calma e pacientemente.

Qual república vai cair?

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Anunciaram e garantiram que a República iria se acabar nesta segunda-feira. Mas que república? Uma grande questão sobre a nossa sociedade e a atual situação de grupos vulneráveis e minorias é, certamente: Que República?

Desde que decidimos, por um golpe militar, implantar uma República no Brasil, fizemos a instituição de um estado estratificado, desigual, patriarcal e patrimonial. O que eu quero dizer com isso? É que fizemos um estado do “meu” e não um estado “de todos”.

A nossa concepção de política, de liberdade, de igualdade e de fraternidade simplesmente se resume a: o quão livre eu posso ser no meu grupo de privilégios; o quanto de igualdade eu posso conceder sem permitir que todos os meus privilégios decaiam; e, como conter os ideais de alteridade pelo simples fomento do ódio.

É isso o resumo do que somos. Somos uma sociedade heteronormativa, que busca manter-se como tal. Que, às vezes, faz concessões por vias de enfrentamento (decisões judiciais, protocolos administrativos, etc) e que, quando estamos muito descontentes, nos ensinam que emitir um mugido de revolta, mandando nosso opositor procurar uma rola (ou coisa melhor, às vezes), é a melhor solução.

Nosso grande “esquecimento” é que a condição de igualdade, formando a base republicana, só se dá quando reconhecemos no outro a nossa própria liberdade. Isso mesmo! A nossa verdadeira liberdade só se realiza na liberdade do outro. Na sua igualdade e no seu reconhecimento.

A noção de “público” na República não é simplesmente algo que seja de todos indistintamente. Mas é algo que todos possam reconhecer o próprio gozo. Sim, GOZO, simbólico e material. Gozo, realizado mediante o entendimento de que gozo proveniente do desejo do outro é tão legítimo quanto o nosso gozo, quanto o nosso desejo.

A república que não temos é justamente a nossa incapacidade de aceitar que a “coisa” mais pública que temos que preservar é a não-intervenção no desejo alheio, na medida em que ele não pratique nenhuma opressão e, como tal, manifeste a integridade de um sujeito.

Quando chegarmos a esse patamar, o de reconhecer a plenitude do outro como um ser que merece gozar, desejar e ser e viver a delícia que é, que teremos uma república… E ela não cairá!

Sobre o Lugar da Rola na Utopia

Esse post é para dizer duas coisas: 1. Não tá de boa alguém mandar outro alguém procurar uma rola e 2. Não é preciso jogar fora o bebê com a água da bacia, os dedos com os anéis, ou seja, repudiar tudo porque alguém errou (errou feio, errou rude).

Quanto à rola, deixo de partida: eu gosto. É bom, divertido, dá prazer, etc. Mas, até onde se sabe, não tem efeitos de reparação de caráter, não redime comportamentos inaceitáveis, não é cura para homofobia nem para nenhum outro tipo de preconceito. Não é legítimo, desejável ou aceitável mandar alguém procurar uma rola, aliás não é legítimo, desejável ou aceitável, em qualquer situação, insinuarmos que a pessoa de quem divergimos age de maneira A ou B por falta de sexo. Essa é uma argumentação machista que tem sido usada reiteradamente contra as feministas, inclusive (mal-amada, mal-comida, e daí ladeira abaixo).

Como disse o Pedro: “nenhum problema de que se tenha notícia (quanto mais homofobia e machismo!) é causado por “falta de rola”. O tal argumento, antes, é que é efeito dos referidos males. Rolas abundam na humanidade, e ouso apontar que quanto mais rola, mais problema. A ofensa via de regra é proferida pelo projeto de machinho – daria pra se traduzir em: você (o feminino, a falta, a fraqueza) é o problema e eu (o falo, o patriarca, o poder) sou a solução. Desnecessário dizer que a frase “vai procurar uma rola, homofóbico” traz consigo no mínimo um ato falho. Uma contradição que prejudica o argumento. Óbvio, não sou neutro: entre Boechat e Malafaia, fecharia com o primeiro. Grandes merdas: fecharia até com o Diabo, mil vezes, antes daquele picareta execrável. Mas eu não preciso fechar com ninguém. Sobretudo não preciso fingir que tudo que se diga ou faça contra quem mais se abomina seja aceitável.”

A gente vive em uma sociedade que naturaliza discursivamente preconceitos. É um tal de “chupa, filho da puta, baitola, mal-comida, vá tomar no cu, histérica, vai dar meio dia de cu, biscate, vadia”, e outras coisas assim. Não tem nada de mau em alguém fazer sexo oral. Nem em ser filho de uma prostituta. Nem em trabalhar como prostituta, aliás. Não tem nenhum problema em fazer sexo anal, pode ser uma delícia, seja homem ou mulher. Não tem nada de errado em apresentar uma neurose. Mas tem muita coisa errada em uma sociedade que usa esses termos como ofensa. Tem muita coisa errada em tentar minimizar alguém insinuando, por exemplo, que ele deveria manter práticas homossexuais, como se a pessoa que tivesse esse comportamento fosse menos digno de escuta e respeito. A banalização displicente desse tipo de fala traz, em seu subtexto, a convicção de que algumas pessoas são menos dignas de cuidado e proteção que outras. E a gente, que milita por um mundo menos excludente, tamos ali, dia a dia, dizendo que não pode, não é legal, não, não, não, não. Não pode no estádio de futebol, não pode na mesa de bar, não pode na entrevista de emprego e não, não pode na rede de televisão mesmo contra um político execrável. E isso não significa que estou defendendo sermos complacentes com os políticos execráveis. É possível ser incisivo, direto, firme sem ser homofóbico e sexista. Passar a mão na cabeça, relevar, dizer que é tempestade em copo d´água, isso tudo só mostra como ainda somos adeptos da lógica os fins justificam os meios e/ou aos amigos, os favores; aos inimigos, a força da lei. A Renata Lins alertou aqui: xingamentos moldam ideias, sentimentos, vamos desnaturalizar o pensamento e a reação. Vamos?

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Mas então, Luciana, vamos levantar a bandeira de homofóbico e jogar pedra no moço que mandou o outro moço procurar uma rola? Olha, eu vejo bem muito filme esquemático, tipo faroeste. É lá eu exercito o joguinho bem X mal. Na vida cá fora, um pouco mais de complexidade cai bem, acho eu. Para além do pensamento e das reações binárias tem um monte de outros caminhos. Como, por exemplo, o que prefiro: achar super legal o resto da conversa e dizer, “mas, opa, isso da rola não”. Sexo é bom consentido e por prazer, não forçado como resposta pra problemas de comportamento e ideologia. Nós e o moço da tv vivemos nessa sociedade. Fomos formados por ela. Isso implica em termos arraigados vários preconceitos. Isso significa que mesmo estando do lado das causas mais justas, mesmo militando contra a discriminação, mesmo querendo construir uma sociedade mais inclusiva e igualitária, a gente vai se valer, vez ou outra, de termos, comportamentos, análises que reproduzem justamente o que queremos desconstruir. Eu super entendo que a gente escorregue. Eu escorrego que só (tenho joelhos ralados pra provar). Mas a gente só sai do lugar reconhecendo os desacertos e fazendo melhor da próxima vez.

A sociedade que a gente quer construir vai sendo construída e determinada pelos meios e ferramentas que a gente usa para alcançá-la. No meu horizonte tem gozo e riso e aceitação. No meu horizonte tem rola sim. Tem gente procurando e achando rola, sim. Tem gente procurando e achando buceta, sim. Tem gente se esbaldando em rolas e bucetas, sim, sim, sim. Não como ofensa. Não como xingamento. Não para horror e espanto alheio. Como festa. E não, eu não acredito que é possível chegar aí sendo complacente com a reprodução de preconceitos, mesmo vindo de quem “tá do nosso lado”. Também não acredito que a gente chegue com a catalogação estática de pessoas (etiquetas com “homofóbico”, “racista”, “classista”, “libfem”) nem alijando aliados. A gente chega é afinando o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, claro, com as rolas procuradas, aproveitadas, gozadas, por livre escolha e alegre consentimento.

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