Pulso

Ele segura sua mão. Ela, deitada, enfraquecida, muita pele, muito osso. Dor. Muita dor. Ele chora. Ela, não. Ela não produz mais lágrimas. Produz ausência. Lembranças. Ele lembra: o riso, sempre. O primeiro beijo, tudo errado, dentes batendo, línguas demais. Tesão. Ele lembra o choque de desejá-la tanto que teve que se afastar pra não gozar só encostando nela, esfregando nela. Lembra os seios, jovens e duros, depois macios e pesados, ainda mais depois, saborosos e moles. Sempre dela. Sempre bons. Lembra a pele enrugando e a mão dele se perdendo nos cantos quentes: entre os dedos, a curva do pescoço, atrás do joelho, entre as coxas, o cu, a buceta molhada. Sempre pronta, ela dizia. Sempre foi verdade.

Lembra as certezas que teve: pra vida toda. Só não sabia é que, mesmo toda, a vida também acaba. Lembra de esquecer a felicidade mas, em fragmentos, ela o machuca. Lembra as conquistas que avaramente empilhava e ela sempre tratava de zombar, ele fazia o inventário de sua felicidade e ela espalhava em ventanias de desassossego. Lembra que sempre queria mais e ela sempre tinha mais pra dar.Lembra a trepada no banheiro do restaurante. Lembra as viagens de carro e o sexo oral que ela lhe fazia com olhos risonhos. Lembra a intimidade em casa, o natural andar nu e, de repente, o pau latejava, ela ria adivinhando a necessidade dele. Lembra as mudanças: papaiemamãe, de quatro, de lado, ela cavalgando, ele invadindo, em pé, sentados, lenços, óleos, bolinhas, de quatro, papaiemamãe. Lembra os dias em que não saíam de casa, o sexo fazendo às vezes de comida. Lembra o mês inteiro sem trepar, a mãe dela doente, ela sofrendo junto, ele sofrendo com ela. Lembra as perdas, todas as perdas que eram vazios maiores que o espaço do seu abraço.

E, claro, lembra o rabo. Que bunda, senhor, que bunda, ele a enrabava sempre que podia, ela fazendo doce, aiaiai e oferecendo e pedindo e mandando. Enfia. Sim, ele lembra, ele pensa, mais, mais e ela sempre tinha mais pra dar. Lembra as mãos dela tocando, agarrando, movendo-se, firmes, fortes, quentes. Lembra a língua dela deslizando no seu corpo. Lembra os dedos dele se enfiando entre as pernas dela a qualquer hora. Quente. Molhada. E, agora, ela quase não está mais lá.

Ele segura sua mão pra que ela não parta sem que ele saiba. Não, ele segura sua mão para que ela não parta. Ele a quer, tanto. Ele, em pontadas, reconhece sua fome. Será?

Vira a mão que segura com zelo e beija o pulso que acelera quase imperceptivelmente. Ele sempre a tirou do prumo. Ele a olha. Olhos entreabertos, respiração difícil, osso, pele, dor. Ela adivinha. Sempre soube do tesão dele no momento mesmo que. Quero. Querida, tem certeza? Quero. Ele sobe na cama de hospital, alta demais, estreita demais, não importa. Ela está nua, coberta apenas pelo lençol. Ele se coloca entre as pernas dela, as mãos não se demoram, o dedo procura os lábios, grandes e pequenos, afasta-os: quente, pronta. Ela: eu disse que queria. Ele ri, precisava ter certeza. Curva-se, com uma certa dor nas costas, a idade pesa nele um pouco menos, mas também já chegou. Desajeitado, repete o beijo. O primeiro. O errado. Línguas demais, dentes batendo, vontades que não se pode dizer. Que nem mesmo se devia sentir. Mas ela sabe, sempre o soube antes dele aceitar o querer. Afasta a coxas e a faz dobrar os joelhos, porque ela já não tem forças. A língua já conhece os caminhos. Primeiro os grandes lábios, sem pressa. Pra cima, pra baixo. Com força, leve, leve. Beijos. Sugar, sem força. Ela arfa. Ela ri. Ou não é riso isso que acende lágrimas no olho dele? Ele para. Não, não, continue. Ele entrelaça a mão com a dela, e dirige-se aos pequenos lábios. Mais delicadeza, mais prazer. São brancos os poucos pelos que restam. Ele sopra, quente, uma brincadeira de sempre. O clitóris chama. Pulsa, avermelha-se. A língua desliza, certeira, e pressiona. Ele beija. Chupa. Lambe. Roça o queixo, flácido, no sexo dela. O dedo entra e sai, entra e sai, entra e sai. Ela soluça. Leva a outra mão dele com esforço até a boca e, num movimento firme, chupa o polegar. Ele também arfa, meio sem ar. Ela sempre soube deixá-lo tonto. Ele, mais rápido, dedo e língua. Ela, mais firme, com mais fome, polegar. Ele chora. Ela não. Não produz mais lágrimas. Gozam. Ela geme, ele já não sabe se de prazer ou da dor que é sempre dela. Ela vai embora hoje, ele sabe, ela sabe. Ele desliza pra fora da cama, pega um copo d’água, senta e segura, mais um pouco, a mão dela. Beija o pulso, mas já não há.

3_idade

Quanto ao desafio da maquiagem

Por Daniela Andrade*

Apoio todas as mulheres que podem, que querem, que decidiram fazê-lo. Apoio a luta contra a manutenção de padrões de gênero que punem as mulheres, as diferentes mulheres, em diferentes aspectos.

Apoio a luta contra a camisa de força de gênero que decide, que dita de que forma se faz uma mulher. E uma mulher precisa estar sempre adequada aos padrões da indústria da beleza – decidiu a sociedade patriarcal.

Posto isso, digo que nada disso deve significar impor que quem não pode, não quer, não se sente à vontade sem maquiagem deve ter sua identidade invalidada, deve ser apontada e ridicularizada, deve ser instada como se aqui estivéssemos falando de alguém inferior.

A mulher que usa maquiagem, seja por qual motivo for, deve ser tão respeitada quanto a que não usa, seja por qual motivo for.

É triste ver uma guerra instalada em situações em que se as partes estivessem dispostas ao diálogo, sem ver a outra como inimiga, as coisas se ajustariam. É triste ver como há pessoas que precisam inferir que a violência que sofre é muito maior para invalidar a violência que a outra sofre, como se houvesse realmente esse termômetro que diz qual sofrimento deve ser considerado mais sofrimento que os outros.

Eu posso fazer a minha manifestação contra opressões sem agredir nenhum grupo historicamente discriminado e sequestrado em seus direitos primários.

PS. Sobre esse desafio já publicamos aqui no Biscate “A Loucura da Beleza” de Karen Polaz e tem post no Blogueiras Feministas: Desafio sem make: desafio para quem? e no Lugar de Mulher:  Por que eu não participei do Desafio Sem Make

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

It’s a match!!!

Tinder, esse safadjenho.

matchVocê sai de um relacionamento. “Curte” a fossa. Depois cai na noite e quer “passar o rodo”. Não que eu ache que com todo mundo seja necessariamente assim, mas comigo foi/tem sido (porque às vezes uma pseudo-fossa ainda vem tentar cortar o meu barato). E aí você faz um account no Tinder e com ele chega uma sensação meio maluca de ter “todo o poder em suas mãos”. Esse eu quero, esse eu não quero. Essa eu curto, essa eu não curto. 200, 300 combinações em alguns meses… Legal quando rola reciprocidade. Mais legal ainda quando o papo flui, porque eu sou dessas que se enche de tesão com inteligência/tagarelice interessante alheia.

Três anos mais novo. Grande merda né, somos praticamente da mesma geração. E diferença de idade é um “problema” que só existe na minha cabeça. Diz que não sabe porque faz engenharia, mas ajuda todo mundo da sala com sua sabedoria matemática. Posso chamá-lo de nerd descolado, porque ele não é tímido e tem umas tatuagens lindas. Adora indie rock e Tarantino <3. Olhos tão brilhantes e tão pretos. Óculos <3 . Papo maravilhoso. Bom humor. Pensamento bem para a esquerda. Poquíssimo/ nenhum pudor. Não me cobra carinho/compromisso/satisfação. Ele existe mesmo???

fodaceExiste. E se eu não tivesse respondido àquela mensagem à noite, nunca o teria conhecido. Se eu tivesse me deixado levar pelo preconceitos que criei com “relacionamentos” que começam pela internet, não saberia como seria legal viver algo assim com um cara tão diferente do que eu sempre acreditei que gostava. Aliás, nem bisca escrevente/ amiga das bisca tudo eu seria se não acreditasse que a tecnologia pode nos aproximar muito mais do que afastar, basta que saibamos exatamente o que queremos dela.

Daqui a pouco, presumo que geral vai cansar do Tinder e aí alguém vai criar outro app de “paquera”. Mas enquanto ele tá aí, por que não aproveitá-lo? A brincadeira pode ser beeeem boa, viu?

Como comprar seu vibrador ou divertindo-se num sábado à noite

Você já tem um vibrador? Já pensou em ter? Se não pensou, deveria. Garanto que é um brinquedo muito útil, melhor ainda que seu celular. Juro. E até mais barato.

Primeiramente precisamos deixar claro dois pontos: o vibrador não é competidor ou  substituto de um homem, é só uma outra forma de ter prazer, junto com a masturbação. Se você não se masturba, deveria, porque quem não se toca não conhece seu próprio prazer e não saberá também guiar o parceiro até lá. Os rapazes não nascem com mapas sobre nosso prazer, nem nós sobre os deles, aprendemos mutuamente a cada relação, pois as pessoas são diferentes, reagem de formas diferentes a toques, beijos, palavras.

Mas voltemos ao vibrador. Ele é uma forma deliciosa de você tanto se conhecer como se divertir sozinha ou  com o parceiro, sim, muitos caras gostam de observar ou usar o vibrador com você e até existem modelos de vibrador feitos pra serem usados em conjunto. Vem comigo nessa viagem. Cada tremida é um flash! As dicas são baseadas na minha experiência pessoal, ok?

1260810641_0

1 – Em primeiro lugar ao comprar não indico os feitos de vinil, fuja deles! são os mais baratos, mas duros de doer, literalmente doer. foi o meu primeiro, logo parti pro segundo. prefira os de gel ou de silicone (o melhor, mais higiênico e fácil de limpar), tem uns coloridos bem legais…

Vibrador-rotativo-Rabbit-groupon-39810833_1401475399153

2 – Muito grande? muito grosso? No artificial pode doer ou no mínimo incomodar. O velho e bom tamanho comercial acho mais indicado(15 cm) pois vibradores, por mais macios que sejam (soft skin), são mais duros que pênis e muito grandes ou grossos incomodam. É claro que tudo depende do uso, se será só estimulação do clitóris, penetração anal ou vaginal. Mas nesse tamanho permite usos mais versáteis. O grande é difícil para penetração, principalmente anal.

3 – Para as mais avançadinhas para penetração anal indico os mais largos na base. existem inclusive modelos específicos para a prática, os pra homens são curvadinhos pra alcançar a próstata e os de iniciantes são mais finos.

4 – Vai um gelzinho aí? Pessoalmente nada melhor que o KY da Jhonsons mesmo, sou afeita a alergias e nunca tive problemas com ele, mas já usei o Olla também. Vibradores repito, não são pele, então se for pra penetração, principalmente anal ( tem quem curte, e isso não é crítica só um comentário), use o gel. Para vaginal vai depender do seu grau de lubrificação, bem como para o estímulo do clitóris.

5 – Indico usar camisinha no vibrador para penetração. torna mais fácil, mais confortável, evita possíveis alergias (sim acontece viu? já que é borracha mais dura), melhor de limpar e principalmente com isso aumenta a vida útil do brinquedinho. Tive um que estragou de tanto lavar (ops), entrou água na bateria. Enfim, camisinha sempre. Até no vibrador.

6 – Os  vibradores com estímulo clitoriano são os melhores! Como o rabbit igual ao do Charlotte no Sex & The City (lembram que ela quase viciou??) mas não precisa começar com eles porque são bem caros. Se puder comprar lá fora , acho uma boa , porque é a metade do preço. Uma amiga me trouxe um rabbit na mala morrendo de vergonha de ser pega na alfândega.

7 – Há vibradores feitos pra usar mesmo a dois: o We-vibe (maravilhoso, mas também dá pra usar sozinha, mas ó… melhores orgasmos da vida!), o anel peniano vibratório ( achei chato de limpar, gruda nos pêlos e estragou rápido, mas não é muito caro)  e o pênis duplos para as meninas <3.

8 – Por último: você tem vergonha de ir a sex shop do bairro? Dá pra comprar pela internet em um monte de sites e eles entregam em pacote fechado, papel pardo e tal e não dá pro porteiro saber o que é #dica. Mas também pode ir à loja tranquila com as amigas, em geral ao pessoal é bem treinado para deixar a cliente bem a vontade, falam de vibrador como se fosse de pizza, novela, etc. E as lojas costumam ter promoções bacanas cursos de pompoar (indico muito), de strip tease e outros.

Essa coisas não são para você agradar o parceiro que isso aqui não é a dicas de nuóva. Essas dicas são pra você agradar a si mesma e gozar muito porque gozar é tudo de bom na vida. Sozinha ou acompanhada.

E pra quem não se animou a se tocar com esse post, a Rosana deixa um recado…

A Loucura Pela Beleza

Por Karen Polaz*, Biscate Convidada

Nos últimos dias, está rolando a campanha Stop The Beauty Madness (“Parem Com A Loucura Pela Beleza”) nas redes sociais. Criada pela escritora Robin Rice, a campanha surgiu com o intuito de questionar os padrões de beleza valorizados hoje em dia. Aderindo ou não ao objetivo original da proposta, muitas mulheres cisgêneras estão postando suas fotos sem maquiagem e sem filtro e desafiando outras mulheres a também fazerem o mesmo.

Não participei do desafio, até porque estou sem maquiagem na maioria de minhas fotos no Facebook, inclusive em algumas do perfil. Mas não penso que o desafio seja besteira, não. Afinal, crescer sendo menina é saber que seu papel no mundo, pelo menos um dos principais, é estar bonita para poder agradar e ser mais aceita. Mas aí você não nasce como as modelos das revistas (aliás, nem elas mesmas nascem assim!), então parece quase que uma necessidade esconder e camuflar qualquer “desvio” no rosto e no corpo. A maquiagem está aí para isso, mesmo que também possa assumir funções mais artísticas e lúdicas – e quem já se reuniu com as amigas para se maquiar antes de algum evento sabe bem do que estou falando.

Não somos, portanto, contra a maquiagem em si. Mas estamos questionando a noção – bastante difundida pela mídia e pelas gigantes redes de cosméticos, interessadas em consumidoras fiéis -, de que se sentir bem e bonita deva passar, necessariamente, pelo uso da maquiagem. Em outras palavras, somos contra a ideia extremamente extenuante de que não seja possível ser feliz sem camuflar irregularidades na pele, de que a maquiagem tenha se tornado a poção milagrosa que vai trazer imediatamente nossa autoestima de volta.

Apesar de estarmos nos opondo a tal modo de pensar, admito que seja uma ideia que deu muito certo, porque não é nada fácil se livrar da cultura da beleza. Tanto que, nas redes sociais, postar uma foto sem maquiagem se torna, realmente, um “desafio”, no sentido que envolve riscos para a nossa já frágil autoestima. Vemos várias mulheres, e até garotas, se adiantando a possíveis críticas à sua aparência, justificando as tão comuns olheiras, por exemplo, com a noite anterior mal dormida, como que se desculpando pela cara limpa. É triste, mas a gente se sente pressionada, de verdade, a pedir desculpas pelos poros abertos, pelos cravos, pelos cílios não curvados. É como se nosso rosto ofendesse.

E aí que vemos alguns homens dizendo que estão levando “sustos” com mulheres sem make, tirando um sarro daquelas que “pareciam tão lindas até participarem do desafio”, implorando que, “para o bem da imaginação masculina”, voltem a usar maquiagem e filtro e o que quer que seja para parecer diferentes do que são. Demonstram, sobretudo, uma leviandade típica dos que acordam e saem para o mundo sem sentir que precisam “esconder rugas e imperfeições”, dos que nem fazem ideia da violência que é tentar se ajustar, muitas vezes a altos custos, a padrões de beleza irreais e nocivos.

O cenário não parece animador, mas a campanha é válida e poderia contar com desdobramentos ainda mais corajosos, como ir a uma festa de casamento sem maquiagem – ou a quaisquer outros eventos considerados importantes e, por isso, não dignos da nossa cara lavada. Enfim, muita força e união, mulherada, porque mudanças na sociedade não são fáceis e não vêm de graça.

Mais sobre o tema: Por que eu não participei do Desafio Sem Make

Desafio sem make: desafio para quem?

Karen Polaz

* Karen Polaz, ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas prefere dizer que é artista para resumir a vida e não confundir os interlocutores.

Dos escuros

Dos escuros que me contam

1

Está escuro. O brilho da noite se desfaz em estrelas opacas, ofuscadas por grossas nuvens. Meus olhos tateiam impossíveis respostas, enquanto a noite cai em silêncio. Silencio. As batidas do meu coração se fazem ouvir em lampejos e lamentos que deixo escorrer pela janela. As poucas luzes vizinhas me contam que a existência permeia meus arredores, vagas sombras humanas.

Conto-me baixinho. Para mim mesma. Histórias de desejos que me fazem o hoje que respiro. Entre fumaças que trago, expiro ar viciado dos pulmões, fazendo-me dispersa em parca racionalidade.

Sinto. Pulso que me inebria e me desce pela garganta os nós que não sei desfazer. Esse eu que não sei como encaminha as perguntas que faço nessa ausência de claridade. Escureço.

Meu corpo vibra,  o tesão me sobe pelas orelhas e alcança a nuca que sente frio. Estou viva. A eternidade desse momento me consome. Quero correr mas os passos não chegam. Quero chorar mas as lágrimas não me alcançam. Quero gozar mas não acho os dedos que me acariciam.

Mais uma taça de vinho, vermelho entre os lábios, grito surdo que me sufoca. Travo a língua entre os dentes, arrepio na espinha, conjugo verbos impossíveis como dormir. O sono é um deserto com águas abundantes que não consigo beber. A madrugada me acalenta, escuto a música que vem de dentro em versos ritmados que não cantam meu querer.

Queria. Um tanto. A felicidade fugidia por entre os dedos. Uma casa de acasos que se molda solta sem perder o chão. Afundo a cabeça no travesseiro. Permeio-me de mim, perdida no espaço-tempo de agora. Voo sem tirar os pés do chão, tenho peso que me carrega, tenho voz que me ouve, batidas estancadas e secas que me acordam os sentidos.

Sinto o muito que me desperta e me cala. Rodopio. Não te acordo, deixo que durmas sua noite sem mim. Deixo que vá ao encontro de seus processos que não me cabem. Deixo-te densa e seguro sua mão que sua e procura respostas que não tenho. Deixo-te livre para que sofras a dor que não se partilha. Partilho com o escuro as minhas dores, rezo para um deus que não tenho, procuro-me para aguentar a noite que não me acalenta.

Somos sós, nesse emaranhado de descobertas conjuntas. Somos cada qual sua própria incógnita e universo, procurando desesperadamente aquilo que se chama amor. Ou o que chamamos, com algum descuido, de amor.

Jandira, a vítima já condenada

jandira

Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos, está desaparecida desde o dia 26 de agosto. A polícia e o Ministério Público do Rio de Janeiro investigam. O desaparecimento? Também, mas antes e sobretudo investigam o crime de Jandira, abortar. E a quadrilha que possivelmente está envolvida no desaparecimento de Jandira.

Na imprensa, desde que o caso veio a público, nunca — NUNCA — o “crime” de Jandira deixou de ser mencionado junto com as informações sobre o seu desaparecimento. O tempo de gravidez, as condições, as motivações de Jandira para recorrer a medida extrema de confiar em estranhos e ainda gastar uma pequena fortuna com isso vi em apenas uma das reportagens, mas naquilo que chamamos no jornalismo de detalhes do caso, “encheção de linguiça”, o que vai no último parágrafo das notícias escritas e que quase ninguém lê, e poderia ser dispensável, não é crucial para a informação. Apenas para registrar, não tenho dúvidas, que a mãe e o ex-marido de Jandira sabiam que ela cometeria um “crime”, e que podem ser enquadrados como cúmplices.

Captura de tela de 2014-09-08 13:42:34 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:09 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:25 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:40 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:58 Captura de tela de 2014-09-08 13:44:13 Captura de tela de 2014-09-08 13:44:28 Captura de tela de 2014-09-08 13:44:59Captura de tela de 2014-09-08 14:34:15

Mas que joça de jornalismo é esse onde a motivação do “crime” é dispensável? Oras, porque a hipocrisia reina e porque o dispensável no caso de Jandira é o que a transforma em vítima de um sistema que criminaliza a mulher por não ter direito ao seu corpo. E os direitos humanos, o direito inalienável à vida, de Jandira vai pelo ralo na tal cobertura jornalística, junto com a obrigação ética do jornalismo de defender os direitos humanos.

A mãe de Jandira informou que a filha pagou R$ 4,5 mil para fazer o procedimento. Segundo umas das muitas matérias, Maria Ângela Magdalena dos Santos afirmou que a filha trabalhava numa concessionária no Recreio dos Bandeirantes e havia juntado todas as economias para conseguir realizar o aborto porque tinha medo de perder o emprego se mantivesse a gravidez. ”Eu não achei caro porque dizem que essas pessoas cobram mil reais por mês (de gestação) e ela já estava na 14 semana (quarto mês). Eu não queria que ela fizesse, mas a gente não manda nos nossos filhos. Estou desesperada porque eu não tenho notícia boa nem ruim. Ela estava com medo de perder o emprego e o pai dessa criança foi uma coisa passageira, eles não estavam juntos“, disse a mãe.

Jandira, grávida de uma relação eventual, desesperada, já tinha ultrapassado o tempo limite para a realização de um aborto. Mas, como o assunto é tabu não há sites com informações seguras a respeito, não há matérias no “Fantástico”, no “Bem Estar” ou nos “Repórter” de cada emissora indicando as melhores condições, critérios e cuidados a serem tomados ao abortar.

O que ninguém diz é que ao engravidar por acidente a mulher está condenada, ou a ter o filho que não quer — com todos os riscos que envolvem a gravidez e o parto — ou a virar criminosa caso decida abortar clandestinamente — com todos os riscos que envolve um aborto –. A probabilidade de Jandira ser encontrada viva se torna mais remota a cada dia que passa (últimas informações aqui). O que não é remoto é o seu julgamento. Ela já é culpada. E seus dois filhos agora estão órfãos.

Se Jandira tivesse uma condição social melhor, teria feito seu procedimento normalmente, teria voltado para a sua casa, filhos e emprego sem se tornar notícia. Aborto é uma realidade no Brasil. As mulheres ricas pagam e estão seguras; as trabalhadoras juntam as economias da vida para abortar e correm riscos para tentar a segurança de que dispõe as mulheres ricas; e as pobres (e negras) recorrem a métodos insalubres e correm maior risco de morte. O que leva as mulheres a abortarem é a tentativa desesperada de serem donas de seus corpos e poderem decidir seu futuro.

10592898_683448598414790_42447282285971436_n

As mulheres abortam. A sociedade aborta. O que mata muitas das mulheres que abortam é a hipocrisia de colocar apenas em suas contas e costas os abortos feitos. Até quando vamos fingir que não é conosco?

************************************

Leia também Se minha mãe tivesse me abortado, de Laryssa Carvalho no Blogueiras Feministas.

************************************

Campanha 28 Dias Pela Vida das Mulheres

28 diasDia 28 de setembro é Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Diversas ações serão realizadas. Entre elas está o site: 28 Dias Pela Vida das Mulheres.

Participe desse movimento escrevendo textos, publicando imagens ou mensagens com as #hashtags: #28set #LegalizarOAborto.

No tempo da delicadeza

Talvez no tempo da delicadeza. Aquele tempo. Todo mundo anseia pelo tempo da delicadeza. Dos olhos nos olhos. Da atenção ao detalhe. Do cuidado, da leveza. Da busca da gargalhada, do vem cá que eu te dou um abraço, do já passou, do não há de ser nada. Do não sei como vai acabar mas estou aqui contigo. De mãos dadas, contigo. Em silêncio contigo. Do não concordo com você mas nem por isso deixarei de te amar. No tempo da delicadeza, não deixarei de te amar. Porque sei suas perguntas, embora não concorde com suas respostas.

E talvez eu esteja errada. Eu já estive tanto errada. Tanto. Porque não de novo? Porque haveria eu de gritar minhas respostas, em vez de tentar entender seus caminhos, suas escolhas, seus motivos?

As perguntas estão aí e ninguém respondeu de verdade, vai. E tudo parece difícil, sem saída ou alternativa. Tudo parece áspero, rígido, sem nuances. Sem meios-tons.

Faz a gente sonhar com ele. O tempo da delicadeza. Do cuidado. Das sutilezas. Do talvez, do por que não, do não sei, do acho que você tem razão. Do vamos andando e no caminho a gente há de descobrir. Há de encontrar abrigo. Uma sopa quente, um cobertor. Um cantinho pra chorar as mágoas e descansar as bolhas dos pés. Uma tina de água pra lavar a alma. Pra lavar as angústias. Aquele tanto de mágoas.

Deixa em paz meu coração. Ele é um pote até aqui. Então, só mesmo lá. No tempo da delicadeza. Se lembra, maninha? Tinha a fogueira, os balões. Os luares do sertão.

Se lembra do futuro que a gente combinou? Eu era tão criança e ainda sou. Continuo naquela. Querendo acreditar que o dia vai raiar só porque uma cantiga anunciou.

Apesar. Malgrado. Embora. Contudo. Entretanto.

A gente continua. A gente vai levando só de birra, só de sarro. A gente vai fumando, que também, sem o cigarro….

E não me deixe aqui, tão sozinha, a me torturar
que um dia ele vai embora, maninha, pra nunca mais voltar.

(Viu? Eu disse que continuava tão criança. Idade vai mudando todo dia, maturidade é outra parada.)

 

Sobreviver

emergir

Sobreviver. Não é para os fortes, não é coisa de herói, nada disso. Sobreviver porque é a única coisa que se pode fazer. Não tem escapatória. A gente sobrevive porque a vida está aí. Batendo na cara todo dia o dia todo. A gente sobrevive só por hoje. Só mais essa semana. Só mais esse mês. Quando vê, isso tudo foi a vida que deu pra viver.

Sobreviver. Apesar de. Da dor que dói furando. Do cansaço. Do choro. Da falta de choro. Da apatia. Do medo. Da incerteza. Da angústia. Da insônia. Do tombo. Da falta de caminho. Da falta de riso. Da falta de amor. Por você mesmo.

Sobreviver. Às pancadas do cotidiano. Às risadas maldosas. Aos comentários ferinos. Sobreviver sem dinheiro no banco. Sem sentido pra vida. Sem planos e nem projetos. Sobreviver sem amor. Por você e pelos outros. Sobreviver com um vazio no peito sem explicação. E tentar dar explicação pra aquilo que não tem nome. Que se desconhece. Que nunca antes na história dessa vida.

Sobreviver. Levantar da cama todo dia com a vontade de se afundar nela. Comer pra tentar tampar o vazio que consome. Beber pra tentar achar resposta pra um mundo de perguntas infindáveis. Trabalhar para pagar a vida. Faltar força até para dar cabo da vida.

Sobreviver. Andar olhando pros prédios altos desejando um piano enorme na cabeça. Olhar para a rua movimentada e pensar num ônibus esmagando o corpo. Querer um corpo sem vida. Outro corpo. Outra vida. Fugir. Na verdade, ser fugida. Um sequestro, uma morte acidental, qualquer coisa que o valha.

Sobreviver. Saber que é preciso continuar. O dinheiro mal paga a vida, não vai pagar a morte. Saber que nada é eterno. Que um dia isso passa, muda, se transforma. Um dia você vai rir disso. Ou não. Vai lembrar com dor desse momento doloroso, dessa eterna agulha debaixo da unha, e saber que ele acabou. Merecer você não o merecia, mas ele veio. Ficou. Se instalou de mala e cuia. Fez estrago, corroeu o amor, a esperança, a fé na vida. Mas você sobreviveu. E sobreviver dói, mas é a única alternativa.

Sobre Ontem a Noite

noite

Oi, amiga…pode falar? Sim, eu sei que você sempre me escuta, mas é tão cedo. Não, eu não dormi ainda. Deixa eu te contar. Ontem fui àquele bar, aquele que toca blues direto e tem decoração com cinema dos anos 30 e 40. Pois é, também adoro aquele lugar. Tava, tava cheio. Eu fiquei de papo com o pessoal da sinuca, todo mundo elogiando meu corte de cabelo, nunca pensei que ia ser essa revolução. Se soubesse tinha feito isso antes, né. Hein? Sim, ela estava lá e perguntou por você. Affe, não sei porque vocês não se arrumaram ainda, tá na cara que ela também está a fim. Tá, deixa pra lá. Enfim, eu ia te contar é que  nessa hora aí ele chegou. Sim, aquele. Você sabe que basta olhar pra ele pra minha calcinha ficar molhada. Lembra que te contei quando a gente se conheceu? Foi naquela festa da barraca de praia. Foi quase. Só lembro da gente dançado quase sem música, naquele fim de festa, nem era mais dança, né, a gente só se roçava, aquela mão enorme e quente passeando nas minhas costas, agarrando meu rabo, a outra segurando minha nuca pra eu não desviar os olhos dos olhos dele, eu sentia os mamilos tão duros que chegavam a doer…ai, tá vendo, já estou ficando com tesão. Aí, depois, aquele moço sem sal veio dizer: ah, cê acha que ele é homem? nem pau ele tem. Dá dó. Amigo, se você acha que sua masculinidade tá no funcionamento do seu pênis que pequeno que é você. Alguém devia contar pra ele que tem sexo sem penetração, né? Mas, enfim, eu tava falando era do meu gostoso. Ele ontem chegou naquele jeito festeiro e zuado. Mas um zuado tão delícia. Lembra aquele dia que a gente se cruzou na entrada do cinema? um monte de gente passando aí ele veio se chegando, se chegando, conversando abobrinha, tocando e, quando vi, eu estava encostada na parede, ele com a perna bem entre as minhas, esfregando pra cima e pra baixo, brincando com a ponta do meu cabelo e me contando sei lá o quê. Quando ele foi embora eu era incapaz de reproduzir uma única palavra do que ele disse, mas poderia descrever minuciosamente, em um tratado de 200 páginas, o que significa desejo. Ai, amiga, eu só queria esse homem em cima de mim. Por horas. Dias? Aquelas mãos, aqueles dedos, aquela língua…Affe, até desconcentrei. Assim eu não termino de contar nunca. Então, ele chegou e foi falando com o pessoal, eu não desviava os olhos. Até que ele me viu e acenou com a cabeça. Puto. E ainda deu aquele sorrisinho de canto de boca que eu acho uma glória. É claro que todo mundo adora o safado e, daqui a pouco, já estavam chamando pra nossa rodinha. Vontade de correr. Pra cima, claro. Ele veio, bezadeus, que saúde. Foi cumprimentando as pessoas, dando beijinho nas mulheres, aí sabe o que o sacana fez comigo? Não beijou, nada disso, pegou aquele queixo maldito dele e ficou esfregando no meu rosto…no rosto todo, mulher! O queixo dele na minha face, na minha boca, nos meus olhos…eu só faltei gemer alto. E a mão dele “sem querer” esbarrando nos meus peitos. Sei, sem querer. Eu, pelo menos, queria mesmo. Inclinado pra mim, tudo que ele queria me dizer tinha que ser ao pé do ouvido, desde perguntar se eu queria mais cerveja até dizer que tinha gostado do meu cabelo curto porque minha nuca à mostra era sensual como seu eu estivesse nua. Eu, puta. E excitada. Ele tirando meu prumo com a voz tão rouca. Daí ele disse que tinha muito copo na mesa e passou a beber do meu copo. Foi sexy, sabe? Que boca aquele homem tem. Ms, né, nem fode nem sai de cima: não trabalhamos. Pensei eu, com meus botões – que, pelo meu gosto, já estariam todos desabotoados – que daquela dança eu sou professora, né. E em uma vibe Vandré, resolvi que quem sabe faz a hora. Para de rir, mulher, eu por acaso fico rindo quando você tá contando das suas moças apaixonantes? Tá, fico, mas deixa eu contar do meu moço delicinha. Então, estava lá aquele clima, roça daqui, roça dali, a gente bebendo no mesmo copo, aí eu me viro e sussurro: tenho uma coisa pra você. E vou pro meio da pista de dança, né, meia luz, muita gente. Sinto o olho dele pregado em mim. Vou dançando e descendo a calcinha. Foi, no meio do salão. Rá, sou louca, cê jura? Ah, não dava pra notar muito não, eu estava com aquelas saias longas, bem soltas, só se alguém estivesse prestando atenção. E ele estava né. Cara, foi bom. Só de pensar no que eu estava fazendo senti meu corpo quente e pulsando, todo pedindo toque, pedindo língua, pedindo…Com a calcinha morna em uma mão cheguei perto dele (sim, minha perna tremia, mas nem sei se de nervoso ou de tesão) e com a mão livre peguei o copo de cerveja e bebi assim, deixando molhar o lábio. Né. Lambi, naquela vibe vulgar sem ser sexy e deixei a calcinha no colo dele – não sem antes dar aquela passada de mão nas coxas. Cheguei mais perto e disse: estou precisando de carona, você vai ficar mais tempo ou quer ir lá em casa me foder? E dei uma fungada no cangote, porque, né, nordestinamos a biscatagi. Menina, juro pra você que ele gemeu nessa hora. Hein? Ah, você acha que eu não dormi ainda por quê? Veio, veio. Agora estou aqui, ouvindo Chico e pensando que não vou te tempo de escrever o post do blog hoje, cê pode me cobrir? Brigadinha, viu? Beijo, beijo.

Metida Com Mel

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada.

Aí vem minha amiga e diz que estava conhecendo um mocinho pela intenetz. Aquelas coisas de mensagens de sacanagem durante o dia, fotos eróticas, vídeos pornôs por whats, enfim, o trivial. Belo dia, ele mandou pra ela um vídeo de uma mulher se masturbando com um aparato que minha amiga, mesmo por dentro dos paranuê de vibradores, nunca tinha visto antes. Era uma espécie de bomba de vácuo, com um consolo bate-estaca no meio que a moça, sabe-se lá como (porque isso minha amiga realmente não entendeu), tentava controlar.

O aparato parecia uma bazuca transparente. Ela me explicava e eu só visualizava “A geração de Proteu”. Entendendores entenderão.

Ela ficou meio assim com aquele vídeo – tinha uma vibe violenta que, mesmo numa masturbação, lhe bateu meio creepy – e nem respondeu na hora, só no dia seguinte quando mandou um “medo”, acompanhado de “rysos”, pra quebrar o clima. Porque, né, tampouco queria parecer moralista ou bedel do tesão alheio. Ela não se excitou, mas se a mocinha do filme estava feliz, amém! E ele respondeu com um “rsrs” junto com “imagina num anal”.

Minha amiga pensou um pouco e, aproveitando a deixa, disse que adorava anal, mas, especialmente no anal, não transava muito aquele fuc-fuc incessante. Preferia mais carinho e menos performance.

E aí, senhoras e senhores, o bofe começou a mostrar a que veio e mandou essa cintilante pérola sexista: “A maioria das  mulheres geralmente é assim mesmo. Gosta mais de carinho que da metida. Homens, não. Preferem mandar ver logo e sentir prazer. Se não tiver carinho, mas a metida completa, é o que vale.”

Ai, a conversa sobre mulheres gostam disso, homens daquilZZZzzzzz. Minha amiga, brochadérrima e prontinha pra correr pras montanhas, até tentou dar uma aulinha de feminismo 101: “nossa, acho muito sexista e ultrapassado isso que você está falando porque…:

Obviamente, foi interrompida pela mãozinha nervosa do sujeito que continuou, enviando uma classicona passivo-agressiva: “você não é boa de leitura? Não é toda inteligente? Leia de novo o que escrevi: eu disse a maioria, não disse todas”. Como vocês podem imaginar, sangue subiu muito na hora, já que o sexismo e a babaquice ganharam contornos mais nojentos com aquele mimimi reiterativo, recalcado e defensivo típico de quem medra na conversa.

Mas, você se engana se pensa que ele parou por aí: “gata, gata, você está perdendo tempo. Acabei de chegar de uma transa. E ontem também transei. E na 6a tive uma super transa. Tudo isso porque não tô preocupado com carinho. Não perca tempo com isso.  Curta a vida. Quem gosta de amor é motel. Pensa nisso.”

Que. Preguiça.

IMG_0697

Não precisamos de fiscal do fiofó (imagem da performance Macaquinhos)

Primeiro, pelo ~ provérbio ~ sem charme. Depois, claro, porque  além de se deparar com um homem adulto se vangloriando das supostas trepadas do fim de semana, ainda ser brindada com a culminância do sexismo, do machismo e da ignorância quando ele pressupõe que, por ser mulher e falar que, pra ela, é importante delicadeza num anal, minha amiga buscava mesmo era “um amorzinho gostoso”.  E nem vou dizer da arrogância e da estupidez de sequer sacar o #ficaadica.

Sabiamente, ela acabou nem respondendo à última mensagem. Aliás, minto, devolveu uma curta: “tempo eu tô perdendo agora, falando com uma britadeira. Fui.”

E foi mesmo.

Disclaimer: não deveria ter que repetir, mas vamos lá. Mulher gosta de sexo, (oral, anal etc e tal), e pode adorar pornografia, chats de putaria, filme pornô no whatsapp e até de foto de pau (sobretudo se consentidos e/ou solicitados), de vibradores, de meteção, de sexo baunilha, de BDSM, de linguada e beijo no cu e de dar o cu num bate-estaca ou devagarzinho… E homens podem perfeitamente gostar dessas coisas todas aê e também de dormir de conchinha.

Ah, e não umedecer com determinada proposta não é régua pra medir libido.

fotoperfilfor

*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada no Facebook e e Twitter (@vanerodrigues).

 

Como se o pecado alheio fosse nosso…

Um pecado tudo isso.

12-01-2011-22-30-17-140111-frase-do-cazuza-e-pecado-e-nao-comer-foto-divulgacao

É um pecado, mesmo, a gente usar nossos deuses e crenças para fazer picuinhas. Porque aquilo que é nosso, dentro da gente, nossa crença mesmo, é, essencialmente, a gente mesmo. Cada um tem seu deus – ou deusa, o meu é uma deusa – interno. Ele mora em mim, como na poesia de Caeiro, Pessoa.

É um pecado, mesmo, porque quase nunca a gente está feliz. Porque a culpa e eu não bebo mais, não fumo mais, não como mais, não faço mais, não dou a bunda mais, não gozo mais na cara mais, porque ou é feio, ou é pecado, ou é feio e pecado. Porque a fé caminhando como um exercício diário da culpa só nos leva ao paraíso. E o paraíso, sabemos todos, é aquele lugar que pode ser. Não é, ainda não é.

Não. Não quero dizer aqui e ali que não é para crer, temer, respeitar. Se isso tudo faz bem, como a rotina para a criança, como o amor quando é  substantivo, não posso e nem quero julgar, ter, negar. O problema é outro. É esta mania de querer levar todo mundo junto, como se o pecado alheio fosse nosso e a redenção dependesse essencialmente da alma a ser credulizada. Os bárbaros precisam ser vencidos para que todos tenhamos o reino prometido. Porque não deixamos, ora pelotas, que os bárbaros queimem na chama do juízo eterno, se o tal do livre arbítrio é isso mesmo? Não, eu não entendo este “fiscalismo” do rabo alheio, essa jardinagem no quintal do outro.

“Ah…. mas e se as ervas daninhas estiverem a destruir o meu jardim?” Então, vamos lá, neste caso extremado, vamos lá convidar o vizinho para um chá, tosar ou queimar umas pontas que insistem em invadir o acolá. Mas só, porque o respeito é essencialmente isso.

 tumblr_nb1kpdVURd1qcis7co1_500

É um pecado, isso sim. Que novamente e novamente sejamos todos moedas de troca nesta engrenagem estapafúrdia que funciona na base do medo e de pecado, da culpa. E em nome de sei lá qual deus, esse um que não é meu, nem seu e que acaba sendo de ninguém.

“Mas não ia ser legal se ao invés de um jardim para cada um a gente tivesse um parque, para todo mundo?” Seria, mas neste caso só há sentido e razão, da prática e da outra, quando todo mundo pelado, pelada. De outro jeito qualquer, o tal do parque ia ser só um resort: um empreendimento imobiliário pretensamente divino.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...