Alex, Angel e Complexo de Cinderela

Verdades Secretas tem feito muito sucesso desde a estreia e vem mantendo bons índices de audiência. A novela é bem produzida, a edição e a cenografia são de primeira. As cenas de nudez e sexo em vários momentos me remeteram aos filmes-clipes de Adrian Lyne nos anos 80/90 , como “9 e ½ semanas de amor” (saudades de Mickey Rourke gato). Mas novela é folhetim, é romance e daí que Angel é a nova Cinderela.

A nossa heroína, como toda boa heroína de novela, é linda, jovem, boa alma, bondosa (talvez daí o nome virtuoso Angel), carinhosa, estudiosa etcetera e tal, porém pobre e qual seu grande sonho (dela e de 99% das garotas da idade dela)? Isso mesmo, ser modelo. E aí, ao invés de ir limpar a casa e se recolher ao borralho, o que ela faz para salvar a família? “Book rosa”, e se prostitui por meio da agência de modelos (vamos frisar de novo que eu nada tenho contra prostituição, inclusive apoio a regulamentação da profissão e a mobilização da categoria, mas isso é assunto pra outro post).

E aí chega o príncipe que irá salvar a princesa do borralho, ops não é o príncipe é o Cristhian Gray… não pera… Enfim, chega o salvador-macho-dominador que irá tirar a Cinderela-modelete da prostituição. Aliás, não entendo a faceta hipócrita do público brasileiro. Duas senhoras casadas na novela das 9 é: ai-que-nojo-vamo-orar-e-desligar-a-tv-que-isso-não-é-de-deus. Um homem manipulador e castrador assediando uma jovem na novela das 10 tá de boas, porque ser prostituta de um homem só, rico e lindo a sociedade aprova, ele pode te comprar (ele falou isso), que tá tudo lindo, que você é como um bibelô. A sociedade não vê no cara bonito e rico, autoritário, estúpido, dominador etc. etc. uma má pessoa. ELE TÁ SÓ MUITO APAIXONADO. É O AMOR. Ah tá, que bom, ufa, pensei que era uma violência e relação doentia.

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E aí a Camila Queiroz (Angel),vai ao Faustão e diz que as mulheres a param na rua e dizem que torcem pelo amor de Alex e Angel. Migas, isso não é amor. É abuso. Favor assistir o vídeo da Jout-Jout umas 15 vezes seguidas e repitam comigo: ciúmes não é demonstração de amor é só machismo e sentimento de posse mesmo. É algo da estrutura do patriarcado (me deixa que sou de humanas) reforçar esse sentimento de posse, principalmente do homem com relação à mulher, essa valorização do ciúmes como um sentimento que denota grandeza quando na verdade é um sentimento de insegurança, mesquinhez e pequeneza. O ciúmes te mantém quieta e cordata, o que é o oposto de você dona de si mesma.

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Mas e aí, por que mulheres adultas, bem informadas, em pleno 2015, continuam achando que o príncipe encantado virá num cavalo branco ou numa ferrari vermelha,ou sei lá,  sendo ele um Alex ou um Christian Gray, homens dominadores e violentos, que só olham pros seus umbigos, e as salvará de tudo? Síndrome de Cinderela. Reparem bem nos dois personagens: ambos ricos, de sucesso e bonitos. Ambos se apaixonam pela Cinderela-mocinha, mas ela só terá o amor dele, príncipe, se o entender e ceder aos seus caprichos. Em troca, ele lhe dará milhões de presentes e serão muitos felizes até o novo lançamento de iphone (ou, seja, uns 6 meses). Ou então a Cinderela poderá persistir e resistir e mudar o amado, ma non tropo) e também viverão felizes até o novo Macbook ( 1 ano).

O Complexo de Cinderela foi primeiramente descrito por Colette Dowling, no livro de mesmo título, e é apresentado como o medo que algumas mulheres têm da independência, quando elas têm um desejo inconsciente de serem cuidadas por outros. O complexo é dito para se tornar mais evidentes à medida que uma pessoa envelhece. Recebeu o nome de Cinderela porque é baseado na ideia de feminilidade retratada no conto, onde uma mulher é bonita, graciosa, educada, apoiadora, trabalhadora, independente e difamada e invejada pelas outras mulheres (suas rivais), mas não é capaz de mudar sua situação com suas próprias ações: para isso, precisa ser ajudada por uma força externa, geralmente um homem, o príncipe.

E Colette Dowling continua: “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas. 

Me digam se o que está escrito acima não é a cara da Angel, da Carolina (mãe da Angel) e até da Fanny, que é a personagem melhor construída da novela (Marieta divando lindamente)? São todas mulheres esperando serem salvas pelo mito do amor romântico de um homem-provedor-castrador e para isso deixam de ver em si mesmas o que têm de melhor e serem simplesmente livres. Claro que as mulheres não desenvolvem esse Complexo do nada, porque são fracas, etc. É o que a sociedade nos incute, ensina, legitima e reforça (por meio, inclusive, de novelas assim). E, se a gente aplaude isso como amor, o que será que a gente faz com a gente mesmo? O que você entrega para manter o parceiro está dentro do seu limite? O que ele retribui? Você está feliz? O quanto você ainda é você dentro dessa relação? Essas são as perguntas a serem feitas, depois pergunte a si o que Jout-jout pergunta no vídeo e descubra se é amor ou abuso: afinal, Rodrigo Lombardi te salvando só existe na tv. O resto, se for daquele jeito, é um caminhão de cilada. Foge, Bino, você pode ser uma Cinderela de olho roxo, na melhor das hipóteses das estatísticas da violência doméstica.

O tesão platônico

O popularesco colunista reaça que escreve em blogs com bic duas cores criticou uma recente charge da deliciosa Laerte Coutinho. Mas aqui vale a máxima: Laerte é nossa diva e nada nos faltará. E assim foi feito. Laerte declarou publicamente seu tesão platônico em relação ao colunista reaça. E quem aí nunca teve tesão platônico, né minha gente? Quem aí não guarda nos átomos do corpo aquele desejo de desnudar quem deveríamos desprezar, não é mesmo?

Sobre o Reinaldo Azevedo.
Acho que eu não devia dizer o que vou dizer, mas minha advogada opinou que não vai gerar ação na justiça. E minha analista deu força, pra botar pra fora senão somatiza e piora a situação das varizes.
Então lá vai – esse cara me dá um tesão desgraçado.
Não sei o que é – tá, ele não é um ogro -; se é o olhar decidido, o nariz, os lábios, não sei!
Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico debaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais.
Vou acabar tendo que depilar a mão com cera espanhola.
Acho que eu tenho síndrome de Estocolmo platônica.

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Tesão é desejo. E muitas vezes inexplicável. Aquela sensação de simplesmente encontrar alguém capaz de acender algo diferente, gostoso, um requeijão cremoso a mais na vida. As vezes não dura muito, as vezes dura a vida toda, especialmente quando se é platônico, alimentado com carinho e pão de mel.

Porém, quando falamos de alguém que age e pensa de forma contrária ao que acreditamos, ao que temos como ideal e buscamos ser, surge sempre a dúvida: biscate com princípios ou não? Relevamos em favor do tesão? Esquecemos em favor da revolução? Aquecemos com mãos solitárias no calor do colchão? Infelizmente não há resposta fácil quando o assunto é desejo, tesão ou direito tributário. Todos temos nossas prioridades, sentimentos e taxas pra colocar na mesa. A melhor parte pode ser reconhecê-las. Assim como fez Laerte, também quero botar pra fora o que alimenta meus pensamentos mais proibidos…

Somos todas putas

Outro dia fui chamada de puta. Mas perae, Sara, você já foi chamada de puta antes, qual a diferença dessa vez? É que, dessa vez, fui chamada de puta porque discordei da opinião de outra mulher sobre a questão de se “dar o valor” e não ficar por aí tirando fotos indecentes, dando pra qualquer umx ou se desvalorizando não se guardando pra um homem especial. De acordo com ela, eu sou uma rapariga barata que não se dá o respeito e que dá pra todo mundo, que vai ficar sozinha e infeliz, mal amada e mal comida…. (?)gknem1

Você,  querida colega, tem toda a razão, eu SOU PUTA, somos todas putas! Eu, você,  minhas amigas, minhas familiares, suas amigas, suas familiares e muitas outras desconhecidas. Mulheres sempre, em algum momento da vida, são lembradas, pelos homens e pela sociedade machista, que são putas. A mãe solteira, a mulher que não deu mole pro cara que a cantou, a que deu mole pro cara que a cantou, a que transa com todo mundo, a que não transa antes do casamento. Todo e qualquer momento de nossa vida que fazemos o desfavor de discordar dos machos alfa ou agimos diferente do comportamento dito correto, viramos putas.

Aprendi a desconstruir as palavras puta, galinha, piranha, biscate…. Não me importo em ser chamada de nada assim, minha preocupação vem de como ainda vivemos numa sociedade onde nos colocam umas contra as outras, santas contra putas, esposas contra amantes, mulheres contra mulheres, quando deveríamos nos unir e nos compreender amigas, lutando todas juntas pela nossa liberdade. Me preocupo e me assusto quando uma mulher tenta me xingar e me chama de puta.

É, colega, eu sou puta, não porque discordei de você, eu sou puta porque, de acordo com o machismo, eu, você ou qualquer outra mulher é puta. E não me ofende que você me chame de puta, só me precoupo com sua atitude de usar o que nos ofende contra nós mesmas.

*Esse texto foi escrito pra uma pessoa, como um desabafo, depois de muito remoer a raiva e, após digerir os meus sentimentos, precisei colocar pra fora, como uma catarse.

A quem pertence a história

Aí o moço olhou pra mim meio de lado e disse: “eu estou me sentindo responsável por você ter terminado com ele”.

Eu tomei um susto. Como assim “responsável”?

Amigo, isso não tá na sua conta. Isso não tem nada a ver com você. Você, por acaso, passou por ali na hora em que isso estava acontecendo. “Isso”: aquela história, minha e do outro cara, estar acabando. A história era minha e do cara, não sua. Onde é que você podia ter alguma responsabilidade nela?

Ah, porque eu olhei pra você, porque me interessei por você? Mas isso é outra história, não vê? Essa é – ou seria – a minha com você. Que nem é história, vai: é um encanto. Como é que algo assim tão aleatório poderia me fazer terminar uma relação de anos? Claro que não. Sinto informar, seu ego talvez sofra um baque: você não é tão importante assim.

Ninguém é tão importante assim. As histórias acabam porque acabam, e às vezes a gente acha mais confortável responsabilizar um terceiro pelo fim delas. Mas nunca é verdade: no máximo, é coincidência.

As histórias pertencem única e exclusivamente aos envolvidos na história: e se há histórias com mais de duas pessoas, é que há relações que envolvem mais de duas pessoas. Caso contrário, ora, não. A história é das duas pessoas que nela estão. E, se acabar, é por motivos que dizem respeito exclusivamente a elas.

Ou você acha mesmo que foi a sua aparição loira-de-olhos-azuis que virou minha vida pelo avesso? Isso aí se chama catalisador, não vê? Apenas algo que acelera a velocidade de uma reação. A reação, ela, já iria acontecer de qualquer forma. Tava previsto. Tava contado. Tava escrito na própria história. E nem é que “não tenha dado certo” a história: deu, ué. Deu certo pelo tempo que deu. Esse era o tempinho dela. Encontro-coreografia-afastamento: no compasso. Ao som da cuíca.

Você? Ah, gostei de te encontrar também. Até porque me ajudou a ver algumas coisas mais claro. Até porque me mostrou que eu já devia ter pegado a mochila e seguido caminho. Mas “responsável”? Sinceramente, não mesmo. Pode ficar tranquilo. Relaxado. Aliviado. Não teve nada a ver com você. Era minha a história. Minha e do cara lá. Era e continua sendo, até seu final.

Mesmo que pra alguém seja mais confortável acreditar que tudo teve a ver com uma aparição loira e um encantamento.

 FimdeCaso

A culpa, o samba, os relacionamentos 2*

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Um casal (famoso ou não) se separa e as especulações começam. Se há suspeita (e sempre há, quando não por indícios “reais”, por pura inferência) de um triângulo amoroso, não resta dúvida: a “culpa” é da mulher. Ou das mulheres, com gradação. Primeiro a culpa da “traída”, porque não soube segurar seu homem, não deu atenção, deve ser fria, trabalha demais e tal e coisa e coisa e tal. E, com mais vigor, as recriminações à que é descrita como causa, motivo, razão da separação. A outra, a rameira, fácil, destruidora de lares e mais uma coleção de xingamentos que relacionam atividade sexual com pouco caráter e/ou ética questionável. Em uma vibe aparentemente menos virulenta, mas ainda com uma demanda de rotulação e culpabilização da mulher, chegam os argumentos de “cadê sororidade?”, “tem que respeitar o relacionamento da outra mulher pra ser respeitada”, “mulheres tem que se apoiar e não tomar o companheiro da outra”, etc.

Um questionamento válido que muitas pessoas acrescentam são reflexões e indagações sobre a participação dos homens envolvidos na relação. Afinal não são eles os comprometidos no casamento/noivado/namoro/whatever? Não são adultos, responsáveis pelos seus desejos e ações? Não são eles que “quebram” os votos, as promessas, os vínculos? A “culpa” não é deles?

Nessa vibe, uma manchete que responsabilizava a babá pelo fim do casamento entre Ben Affleck e e Jennifer Gardner foi transformada em: Ben Affleck é pivô da separação entre Ben Affleck e Jennifer Gardner. Parece bom? Parece. Mas. Pois, esta biscate tem mania de mas. A manchete modificada traz a ideia de que uma separação, o fim de um relacionamento, tem um responsável, um culpado. E, aqui entre nós, penso que não existe pivô de uma separação. Um casal se separa porque chegou ao ponto em que não dá mais. Porque sim. Porque assim é melhor. E se é pra um dos dois, é para os dois. Quem convive com suas razões, e apenas estes, podem explicá-las a quem lhes é de interesse, aos outros melhor seria ocuparem-se de seus próprios nós. A vida íntima alheia (de célebres ou não) não deveria motivar tanta preocupação e, principalmente, julgamentos baseados em julgamentos do comportamento sexual das mulheres.

E tem outro mas. Ai tem? Tem. Porque o buraco, penso eu, é bem mais embaixo. O bafafá e quiprocó sobre separa-não-separa, foi-por-causa-do-quê-de-outra-não-de-homi-que-não-presta só acontece inserido em uma lógica de a) exclusividade afetivo-sexual e b) imperdoabilidade (existe essa palavra?) de relacionamentos sexuais com outras pessoas.

A nossa sociedade construiu e tenta sustentar (ao mesmo tempo que se sustenta, também, nela) uma ideia de que relacionamentos certos são capazes de – e devem – suprir todas as demandas, faltas e necessidades dos envolvidos. Mas, sei eu e, aposto, sabe você, somos seres de incompletude. Nada, ninguém, relacionamento nenhum vai nos deixar inteiros. Ah, mas a gente não precisa atender a todos os nossos desejos, porque essas pessoas não se controlam? Eu mudo a pergunta: porque é preciso o controle sobre o corpo e o desejo? O que se garante, garantindo esse controle? A quem interessa regrar o sexo alheio?

Vamos combinar: o que há de realmente grave no fato da pessoa com quem trepamos trepar com outra pessoa? Ou ainda, o que há de mais grave nisso do que ela ir ao cinema com outra pessoa? Do que ela gostar de conversar sobre vinis antigos com outra pessoa? O que há de realmente mais grave no fato da pessoa com quem trepamos participar de uma suruba do que participar de um grupo que faz degustação de vinho ou escalada? Porque achamos que é uma imposição nos afastarmos de quem beijou outra boca que não a nossa mas não de quem passa horas jogando videogame com outro alguém que não a gente? Parece-me que nada – afinal tem prazer envolvido, tem tempo envolvido, tem desejo envolvido em todas essas outras atividades, assim como no sexo – a não ser o local em que colocamos o sexo na nossa pudica sociedade. E como o usamos para cercear, reprimir e hierarquizar situações, pessoas e desejos.

Não estou dizendo que não dói, que não mexe, que não balança a gente saber que a boca que encostou na minha boca anda sugando línguas outras. Afinal somos todos inscritos em um discurso de posse, exclusividade, que nos ensina que isso é pra doer, que isso é prova de desamor, que se perdoa quase tudo, mas isso, ah, isso não. Não estou, também, dizendo que, ok, agora entendi, então vamos todos nos tornar não-monogâmicos. Não estou dizendo que ah, coitadinhos, deixa os homens treparem à vontade. Estou dizendo nada disso. Estou, mal e mal, tentando circunscrever esses discursos de posse, separação, traição. Tentando discutir que essa dor de “ser traída” não é um dado natural inevitável, mas resultante de uma construção social que pode ser desconstruída, devagar e sempre (incluindo a noção de traição) rumo a uma sociedade que nos reprima menos e onde se goze mais. Tentando conversar sobre o quanto intimidamos e magoamos outras pessoas ao reforçarmos discursos onde a exclusividade sexual se torna tema central e inquestionável (quantas vezes não ouvi as pessoas dizendo “mas é CLARO que ela devia se separar, imagina, ele transava com outra pessoa há meses”) dificultando que as pessoas afirmem seu desejo de continuidade “apesar de” ou, mesmo, “por causa de”.

Disse antes e repito, não se trata do que sentimos, mas do que fazemos com o que sentimos. Trata-se de quem queremos ser e em que sociedade queremos ser quem queremos ser. Trata-se de ser responsável pelo meu desejo, pela minha falta e pelas minhas ações. Trata de amar no outro a sua incompletude. De amar, na vida, também os silêncios, os vazios, as distâncias. Trata-se de mais. Querer mais, ser mais, gozar mais. Trata de substituir a culpa pela responsabilidade. De afirmar o desejo. E de parar de se importar com quem os outros estão trepando, porque estão trepando, o que A ou B acham da trepada. Parar de criar regra pra trepada alheia, olha aí um bom mote.

*Texto desenvolvido a partir de uma postagem de Dai Dantas no FB que, aliás, está copiada (com autorização) praticamente sem mudanças no parágrafo em itálico no meio do texto.

Não faça e tenha sexo explosivo!

Beijo-Grego-Allison-Williams-Marnie-Michaels-

Amiga leitora Biscate,

da buceta peluda ao “que não fazer na frente do bofe”, a receita de sucesso de um relacionamento prazeroso parece não ter mudado muita coisa. Continuamos recebendo as boas e ~ infalíveis ~ receitas do bem viver, baseadas nos princípios do “não pode. Não deve. Não faça.”

Até dá pra fazer de conta que as dicas são democráticas, pra elas e pra eles. Mas, no fim do dia, as regras, amiga leitora, parecem existir só pra gente mesmo.  Pensemos aqui nas revistas, sites e colunas, na perspectiva da heteronormatividade.

Não deixe ele perceber suas dobrinhas.
Não deixe ele notar suas celulites.
Não deixe a depilação vencer.
Não seja tímida.
Mas, não desinibida demais. Deixe pro mistério.
Não seja muda. Fale palavrão, mas não muitos.
Seja lady. Seja puta. Mas, não muito.
Se solte. Mas, não seja mandona.
Assuma o comando, mas não deixe ele perceber.
Deixe ele perceber, mas finja.
Finja, mas goze.
Não seja tímida, mas não fale demais.
Fale palavrão, mas não deixe ele por baixo.
Seja bem resolvida com seu corpo, mas não deixe ele notar suas celulites.
Tenha orgulho das suas dobrinhas, mas não fique por cima.
Seja sexy. Não seja vulgar.

Agora, se você está pensando que só tem regra pra cama, amiga leitora Biscate, devo te informar que você é uma ingênua. Ouvimos rumores que tem pro chuveiro também. E se você quer a extensão da trepada lá no quadradinho do box, prestenção no índex. Mesmo que seja só pro banho mesmo.

Não pode fazer xixi.
Não pode soltar pum.
Não pode olhar pra ele.
Não pode deixar o sabonete entrar na buceta.
E o mais intrigante de todos: “água não é lubrificante. Portanto, nem tente.”

Aqui, suspeito que tem o mistério do inominável. Do sexo que não se pode dizer o nome. Mas, pelo que entendi, é sobre anal, né? É disso que se trata.

Não pode sabonete na buceta. Não pode água no cu.

Portanto, amiga, leitora Biscate, nem tente. Nem tente a buceta peluda. Nem tente dar pum. Nem tente não depilar. Nem tente fazer xixi! Nem tente olhar pro cara. Nem tente não olhar. Nem tente o chuveirinho. Nem tente querer transar. Nem tente dar o cu à secas. Ou à molhadas. Que agora fiquei confusa.

E viva a constipação e a colite! Que se dane. Apenas, finja que a ducha é uma cachoeira e sensualize enquanto lava o cabelo. É o que te cabe. É o que se espera. Deixe a mangueirinha pra ele. Fique no canto. Não seja espaçosa.

Esteja. Mas, não seja

E que tal nos anteciparmos, querida leitora Biscate, e irmos pra cozinha, então? Saiu do chuveiro, pensou em fazer uma boquinha e aproveitar pra dividir com seu boy esse pecado da madrugada. Obviamente, nada é tão simples quanto parece.

Listemos, pois, as regras pra cozinha.

Não pode objetos cortantes.
Não pode pepino gelado.
Não pode lavar a louça e trepar.
Não pode sujar a mesa.
Não se suje.
Não roube o sanduiche dele.
Não coma demais.
Não arrote.
Melhor nem coma.
Não beba água.
Não faça xixi (lembra?).

Geleia não é lubrificante.

Na próxima semana, querida leitora Biscate, falemos da lavanderia. Por via das dúvidas, já sabe. Ao contrário do que dizem, não pode na máquina de lavar. Ah, mas nem pense.

Todas Essas Coisas sem Nome – Prefácio e 1o Capítulo

Esse é o prefácio e primeiro capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club. As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

6

Para W.

Eu queria te fazer feliz. No meio da estrada, no meio do mundo.

Como contar apenas agora que estou só nossa história?

Poderíamos ter tentado antes. Quando você sabia, eu também.

Mas ficamos em silêncio. Calar a boca era o mínimo que devíamos ao cinismo e a todas essas coisas sem nome que nos obrigaram a permanecer assim. Mesmo.

Ainda somos a geração dos que morrem de medo. O tipo de gente que sempre pode tentar ser novamente feliz para sempre – como na música que ainda não acabou de tocar.

As palavras que poderiam ter nos servido de salvação, foram embora cedo demais.

Nós também, meu amor, antes mesmo de termos começado a acreditar um no outro.

Inverno

“Meu coração tropical está coberto de neve,
 mas ferve em seu cofre gelado,
 a voz vibra e a mão escreve mar
 bendita lâmina grave que fere a parede e traz
 as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais.”

 (Corsário- João Bosco cantado por Elis Regina)

I

Porque eu ainda acredito que você possa mudar de ideia, escrevo. Sinto-me com setenta anos, e hoje tentei não me olhar no espelho. Também não saí por aí tentado entender e perdoar em outros corpos o aprendizado que fostes. Sim, fostes. Algo… Ao menos.

Mas confesso que me sinto muito, muito aliviada sem a expectativa opressora de ter que reencontrá-lo. Acontece que sem ela tenho me cuidado muito mal. Não posso culpá-lo, nem a mim. Isso me envelheceu demais, sabe?

Tenho agido no automático. E uma das poucas coisas que tenho feito de forma consciente, é drenar o tom emocional de nossa última conversa. Tentar entender o que realmente foi dito, sem tantos sinais, exclamações, acusações ou enfado excessivo. Sem entonação, sem riso, sem grito, sem desejo.

Nada era tão bom, nem tão ruim. Penso e arrepio de medo. Fui nossa história por um tempo. Sozinha. Não posso esperar mais nada de você, nem mesmo uma leve culpa, isso me causa horror, como se espíritos maus estivessem me roubando alguma coisa muito importante ao passar roçando seus lençóis em mim. Procuro nas gavetas e dentro dos bolsos. Onde é o lugar certo de guardar as ilusões do para sempre?

Escrevo, escrevo, escrevo. Escrevo para não enlouquecer. Até a raiva é mentira. Talvez sinta apenas uma leve vergonha. Tenho uma comiseração nojenta ao assumir isso.  Sinto pena de mim, eu estou com muita pena de mim. Mesmo. Mas é uma pena intercalada com uma total frieza. E desprezo.

Penso que quando se sente dessas coisas, deveríamos apenas narrar fatos. Como numa necrópsia. Mas ninguém morreu. Ninguém sofreu. Ninguém está feliz também, já que a sua felicidade com ela é apenas mais uma ilusão. Torço os dedos e bato na madeira para que seja isso.

Estou definitivamente congelando aqui. Querendo agradecer de joelhos por isso. Dizer: “Moço, você me salvou de mais uma idealização. Obrigada, Obrigada, Obrigada.”

E depois, chamá-lo de canalha. Mas só depois de ser educada e contida. Aí eu vou me convencer. Nunca conversamos. Nunca trepamos. Continuarei fantasiando nas músicas, nas coincidências e no gozo solitário de depois do almoço.

Não quero mais escrever tristezas, no entanto, que diferença pode fazer agora?

Talvez eu ainda me importe.

Merda.

Dos dias que seguem

duas-mulheres-passeiam-pela-praia-de-la-zurriola-em-san-sebastian-na-espanha-1332779034586_956x500Então ela me abraça e eu deito a cabeça macio. Sinto cansaço e deixo o sono cair pelos meus olhos, nessa estranha sensação de pertencimento a outro corpo. Enrosco-me. Cada buraquinho fazendo curva nos meus pelos, o sabor da pele nos meus lábios. Seu sotaque baiano contando-me histórias de mar. Eu balanço.

Deitadas juntas observamos o vazio. A incógnita dos nossos dias. O amor talvez seja isso: uma grande contemplação das incógnitas, em colo macio. Um abraço onde esquecemos das impermanências e pertencemos, um pouquinho, a algum lugar. Deixo-me.

Envoltas nos desafios tantos dos dias que seguem, temos a sorte de nos lembramos a tempo de não nos perdemos. Faço retratos imaginários da boca dela enquanto fala. Uma coleção de retratos que guardo nas retinas. A beleza dos tempos das partilhas. O antes e o hoje. E o porvir que nossas mãos não seguram. Deixamo-nos.

A doença que tomou seu corpo já não nos derruba tanto. Vamos aprendendo a conviver com a pergunta. E assim descemos o rio das correntezas, esse rio da vida que não avisa desvios. Nessa pequenina embarcação não tem espaço para muito. Só as miudezas e generosidades que não carecem embalagens. Existimos nos detalhes. Nos respiros. Nas pequenas e extraordinárias coisas que nos contam.

Temos medo. Mas a nudez da vida também acalenta. Uma certa liberdade atinge-nos quando, de repente, não temos mais chão de afundar os pés. A vida é aqui e agora. Sentimos vertigem. Pulamos. Onda vai, onda vem. Estico a corda. O amor é que me enlaça. E a rede de proteção é o afeto.

Eu daria pra você

Cara leitora, vim aqui contar de  uma ideia antiga, à espera de execução, que tem a forma de um cartão de visitas. Um cartão de visitas bonito, em que estaria escrito apenas:

Eu daria para você.
Fulana – contato: xxx@xxxx/tel: xxxxxxxx

Só isso. Ou, melhor ainda, sem e-mail ou telefone. Apenas a afirmação de que, se algum dia acontecesse, se pintasse, se rolasse a oportunidade, a ocasião, os dois assim de bobeira, um tempo conveniente… bem, eu daria pra você. Não precisa perguntar, não precisa ficar na dúvida, não precisa hesitar.

O que, cara leitora, parece pouco romântico? Bem, não é para ser romântico mesmo. Tenho pra mim que a disseminada ideia de que qualquer relação digna desse nome deva ter algum toque disso aí que chamam de “romantismo” (atenção às aspas) é mais furada do que secador de macarrão. Mais esquisita do que botar o dito secador na cabeça e fundar uma seita. E a fonte de tantos desnecessários sofrimentos. Uma confusão sem fim. Um equívoco da cabeça aos pés.

Porque, veja bem, cara leitora, não estou falando de nada que vá além de uma relação sexual. Limita? Ué, por quê? Caso você goste, caso a outra pessoa goste, não seria possível repetir, de novo e de novo, até que isso aí se chame uma relação? Podendo inclusive prosseguir até que alguém abra a gaveta da cozinha e encontre ali um descaroçador de azeitonas – quando então se descobrirá casado?

Por outro lado, caso seja ótimo mas seja isso mesmo, tá tudo certo: cada um vai pro seu lado, saciado, satisfeito, sem demandas fora de hora, sem incertezas incômodas. Era isso, foi isso. Foi ótimo. Eu daria pra você, eu dei pra você. Que delícia. Que alívio.

(suspiro)

Ah, o cartão de visitas? Por que não no feice, por que não no tuíter, no zapzap e coisa e tal? Ora, cada um com seu jeito, né? Eu sou assim, antiquada. Gosto da imagem do cartão de visitas. Porque é físico, em primeiro lugar: papel, textura, cor, impressão, fonte. Uns envelopinhos, talvez? Escrito à mão e depois impresso, com sua própria letra? Pode ser, tem tantas possibilidades. Lindezas. Só de pensar, já fico com água na boca. Adoro artigos de papelaria desde que me entendo por gente.

Tem também outro motivo, porém: é que desobriga. Você nem precisa entregar pessoalmente: pede pro garçom. Deixa na caixa postal, e acrescenta a lápis: “Fulana, do 702”. Larga em cima da mesa da pessoa, no trabalho. E pronto. Tá dito. Acabou. Não precisa mais ter angústia quanto a isso: daria. Daria, mas talvez não dê, porque sua situação tá complicada, porque a minha é, porque agora a gente tá sem tempo, nunca apareceu uma chance, um momento bom pra introduzir, por assim dizer, o assunto…. mas caso role, se acontecer, quando a gente puder, quem sabe um dia: daria.

E não é nem um “a bola agora está no teu campo”: não tem bola em jogo, não nessa hora. A bola tá no ar, flutua, vagueia, desliza. Não é questão de bola. Porque não precisa ser agora, não tem urgência nem ansiedade, essa a beleza da coisa. É assim, se um dia… eu daria.

CartaoVisita

Tem dia que é pra assim…

Ok. Dispara o despertador. E tem dia que a gente quer pensar na vida, escrever, tecer. Refletir. Mudar de opinião. Olhar, perceber, escutar. E tristeza, alegria, dúvida, incerteza, amor, dor, calcanhar, joanete ou cefaleia e colesterol. Ou música, fossa, cinema, filme, bêbado, novela, livro, cabelo, rede, internetes e isso aí tudo que tudo é.

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Mas tem dia… ô se tem… que a gente só quer é sorrir.

Não queria ficar aqui com mais delongas. Mas o fato é que tua língua nos meus seios me leva longe, numa trilha fantástica que vai acabar explodindo o pinto, naquele jorrar porra – e a deselegância discreta ou não da ejaculação fora de hora. Sim, seios. Homem tem seios.

E não é só o pinto que fica duro. Tem o grelo também, aquela cousa que decifrada com a língua desmancha você toda, em uma pele arrepiada, um cheiro de sexo que tem um quê de suor, mas tem perfume outro que exala e aumenta volumes, eretos. Mulheres tem sexo ereto.

E tem a bunda ou o cu. Que sabemos, molha, umedece, enriquece e aquiesce. E agora, o que é que vamos fazer com todos esses conceitos caixinhas e tal e qual de seios, peitos, duro, molhado, papai mamãe? Não queria ficar aqui com mais delongas, mesmo. Vamos?

beijo 1

Estopim. Estupor. Entro. Saio. Entras, sai. Coloca, enfoca, maneja, mistura, chupa, engole, gole, matreira, eira, beira, sacode. Entende. Estoura. Espoca. Enforca, descabela. Ejacula, ejaculas, ejaculo. Sorri.

Sorri… “ser feliz é bem possível“.

O sorriso é gozo, desconfio.

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

Das réguas de que não preciso

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Em um clínico geral do SUS…

Residente – Só exame de rotina mesmo?
Eu: – É, eu faço uma vez por ano, tudo, pode pedir tudo de sangue, os de praxe ginecológicos, etc. Quero um oftalmogista também, faz uns sete anos que não vou em um.
Residente: – Hum, estou vendo aqui na sua ficha que você é vegetariana, você tomava B12, não é?
Eu – Sim, continuo tomando e eu ainda sou vegana Emoticon smile
Residente: – Sente ali, por favor

Após medir pressão, sentir o estetoscópio nas costas, língua para fora, luz nos olhos e etc.

Residente:- Sua pressão está doze por oito
Eu:- É…eu não sei o que isso significa
Residente: – Está normal, aparentemente está tudo normal.
Eu: – Ah, que bom.

Médico, entra na sala: – E está tudo bem?
Residente: – Está tudo bem.
Médico: – Já fez pesagem? Seria interessante
Residente: – Ah, não, tire o sapato por favor. Ali, incline a cabeça e…88 quilos, um metro e sessenta e oito.
Médico: – O IMC, faz o cálculo do IMC
Residente:…Então, você está no nível da obesidade, precisa perder uns dez quilos

Eu: – ¯\_(ツ)_/¯
Residente: – Você tem que continuar sua dieta e…
Eu: – Eu sou vegetariana há oito anos, eu já era gordinha antes, eu continuo gorda depois. Ouço isso, que eu tenho que perder dez quilos desde que eu tinha sete anos. Eu subo escada, eu estou vivendo bem, minha alimentação é ótima, meus exames estão sempre tudo bem, eu estou bem.

Depois que saí do consultório, os panfletários da Herbalife ofereceram seus “santinhos”. Diacho! Não é a toa que as mulheres ao meu redor estão todas tentando emagrecer. Nunca estive tão gorda e tão feliz com o espelho… mano, até mais bonita me sinto. Ao mesmo tempo é esquisito ter de endurecer com isso, ter que me impor com isso. Pelos meus cálculos, faz 22 anos que ouço esse discursinho, que eu estou gorda, que eu preciso perder peso, que eu devo diminuir as porções, fazer mais exercício. Só que 1) Gosto mesmo de comer, repetir até, se der vontade, faço por onde e que mal há nisso, cacete? Mulheres que comem por prazer são ~pecadoras~, mais uma vez, aos homens toda a pulsão e para as mulheres, todo o freio nesse raio de mundo 2) Não tenho projeto de ser atleta, mas assim que sobrar um dinheirinho, vou me inscrever em um curso de dança porque adoro dançar.

Eu poderia ter respondido os médicos: * Dançado Anaconda * Dançado Bootylicious *Mostrado um nude.

Mas preferi fazer a gorda orgulhosa e sair do consultório sendo educada sem pedir desculpas, sem me chamar de preguiçosa ou sem-vergonha (já acompanhei mulheres que dizem isso para médicos, eu mesma já disse, quando mais nova). Migas, tá foda, é foda, não tem um único dia que eu não ligo a TV, convivo com outras mulheres, vejo vitrines, ou bancas de jornal que o tal emagrecimento não seja gritado aos sete ventos. Até nas prateleiras de livros da minha casa as dietas estão lá de soslaio (os livros não são meus). Todas as mulheres da minha família são grandes e ou gordas, faz parte do que eu sou, eu ocupo espaço, chamo atenção, só que agora estou aproveitando isso, usando uns colarzão mesmo, uns dourados, pintando o cabelo de vermelho, só que né, eu fico chateada pelo discurso médico não avançar nesse sentido desde meu tempo de criança. De imaginar que ninguém consegue se safar dessa pressão chatíssima de patrulhamento dos corpos. Mesmo o corpo estando lindão, completamente dentro do que precisamos dele.

Mais uma régua em que não caibo, talvez uma das mais antigas da minha coleção.

* 11351327_1457045754607564_5642394097373800822_nDeborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.