Invicto Nas Batalhas

Por Alexey Dodsworth Magnavita*, Biscate Convidado

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No anúncio da morte da tão querida Elke, seus familiares citaram uma frase grega: “Eros aníkate mahan”, que pode ser traduzida como “o amor é invencível nas batalhas”. Essa era uma frase bastante repetida por Elke nas mais diversas situações. Como a mulher cultíssima que ela era, falante de oito línguas com assombrosa fluência, conhecedora do grego e do latim, Elke certamente leu “Antígona”, de Sófocles. Foi desta obra que ela tirou a frase que funcionava como sua invocação pessoal.

Falemos sobre o contexto da frase: Antígona, na mitologia, é filha da relação incestuosa entre Édipo e Jocasta e, por isso mesmo, filha de um destino inescapável. Antígona é o fruto de um encontro que, não importa o quanto se desejasse evitar, estava fadado a ocorrer.

A ironia é que Antígona, filha deste destino inescapável, é a imagem da desobediência diante do poder autoritário. No mito, ela deseja oferecer os devidos ritos de sepultamento a Polyneikes, seu irmão morto, contrariando as determinações do rei. É como se do enlace inescapável entre Édipo e Jocasta, nascesse seu exato oposto: aquela que desobedece, que enfrenta o poder vigente, nem que isso a prejudique. Com seus atos, Antígona está mandando a ordem externa às favas e fazendo o que ela sabe que deve ser feito. Consequentemente, ela termina dando a vida por seus princípios éticos.

E é por isso que o amor é invencível nas batalhas: os humanos eventualmente vencem, eventualmente caem, eventualmente triunfam, eventualmente perdem. O amor, não. O amor sempre vence, mesmo que isso nos destrua. Se Édipo tiver que amar Jocasta, nada há de impedir. E se Antígona tiver que enterrar seu irmão, ela o fará mesmo que isso a mate. Porque ninguém pode desafiar a vontade do amor.

A oração completa, evocação, clamor ou hino, como vocês preferirem, é a seguinte:

“Amor, tu que és invicto nas batalhas!
Amor, tu que destróis as riquezas!
tu que manténs tua vigília na face macia de uma donzela!
tu que caminhas sobre as águas
e entre as casas dos moradores dos desertos!
nenhum imortal pode escapar-te,
nem tampouco os homens que vivem por apenas um dia,
e aquele para quem tu viestes é louco!
Apenas eles mesmos têm suas mentes por ti urdidas para o mal,
para suas próprias ruínas.
Tu, que despertas a contenda entre parentes,
Vitoriosa é a luz ascendente do amor que brota dos olhos da noiva;
Tu que és o poder entronado no balanço ao lado das leis eternas
por onde a deusa Afrodite urde sua vontade indomável.
Amor, tu que és invicto nas batalhas!”

 

14081186_10154431327914913_2028334642_n*Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP e pela Università Ca’ Foscari de Veneza, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor de literatura fantástica e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida.

Oração para Leveza

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Ilustração de Beatriz Vivanco

Com a cabeça no chão, para ouvir as entranhas do terra:

Abrir espaço. Arejar . Tornar-se senhora da dança que vem de dentro. Um pé depois do outro. Trocar os sapatos. Esparramar-se. Ouvir a batida do coração. Permitir o ritmo dos quadris. Decantar. Colocar-se no colo. Nascer um pouco a cada dia. Reiventar o passo. Aprender a ter olhos limpos para o horizonte. Cada dia uma cor. Não reter : abrir as mãos para a impermanência. Corpo leve na correnteza. Admirar o fluxo. Acolher a dor. Espalhar o perfume no vento. Soltar o cavalo da sela. Dar-se flores. Traçar as rotas sem bússola e pretensão de acerto. Lembrar-se de sorrir para as miudezas. Tomar banho de chuva depois da seca. Passar os dedos nas rachaduras do sol. Sentir a pele queimada com gosto de sal. Tocar-se. Poder abrir o peito quando o choro vem. Permitir-se a dúvida. Enterrar as culpas no jardim. Afofar a terra. Olhar os buracos sem medo do fundo. Abracar-se no correr do dia. Comer a ansiedade aos pouquinhos. Desenrolar-se no chão de cimento. Espinha ereta. Batom vermelho. Gozar com os próprios dedos. Deixar a porta aberta para o acaso. Experimentar-se. Deixar vir o amanhã sem medo das perdas. Reconstruir-se. Rasgar as máscaras. Flertar com a solidão como lugar de pertencimento. Dar comida aos pássaros interiores. Navegar-se em mar aberto. Deitar no sol. Sentir a areia por entre os dedos. Procurar abrigo nas tempestades. Saber receber. Poder amar com os pedaços que faltam. Permitir-se ser lagoa calma nas estiagens. Despir-se. Mergulhar nas águas interiores. Sentir o escuro. Travessia. Uma onda depois da outra.

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“Um público feminino tão grande” – Mulheres nas Olimpíadas

Por Cynthia Semíramis*, Biscate Convidada

“A gente não esperava um público feminino tão grande”, disse o organizador da fila pras mulheres passarem pelo detector de metais. Ouvi isso ontem enquanto tentava entrar no Mineirão para o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália.

Eu estava com todas as mulheres e crianças num espaço pequeno e cercado. Ouvimos hino nacional, ouvimos o início do jogo e não saíamos do lugar. A multidão só aumentava. Começaram os empurrões, tanto pra ir em direção à entrada quanto para voltar: quem chegou na frente descobriu que não havia gente para revistar e liberar a entrada, e aí queria voltar e achar outro caminho (a alternativa era ser esmagada na grade). Do outro lado, os homens gritavam pra nos liberarem. Todo mundo desesperado. Foi tão tenso que pensei que seria pisoteada ou esmagada.

Finalmente perceberam os riscos e abriram várias grades para entrada das mulheres. Não conferiram ingressos, não passaram detector de metais. Não sei se eu, que comprei ingressos para este jogo em junho, fui computada como uma das 52 mil pessoas pagantes no estádio. Só cheguei ao meu lugar no estádio às 22:25, depois de perguntar várias vezes e não conseguir informação correta de localização.

Foi um jogo memorável, mesmo tendo perdido parte dele por conta da desorganização. As filas anteriores também foram ruins. Não havia placas, não sabiam informar nada, só apontavam pra multidão: vai andando, segue o fluxo que uma hora você encontra o início da fila.

O que sei é que, num ano em que tanto se fala do bom desempenho das mulheres nos esportes, fica nítido o descaso com as mulheres, sejam elas atletas ou público. Como assim não esperam público feminino no jogo de futebol feminino da seleção brasileira? Como assim não têm um plano B para dar conta do público “inesperado”? Por que submeter crianças a aglomerações perigosas até para adultos? Por que dificultar a entrada das mulheres que querem assistir a um jogo?

Mulheres frequentam estádios, e cada vez em maior número. Nós sempre vamos aos jogos masculinos. Queremos ir também aos jogos femininos. Não somos “inesperadas”. Seria bom se a organização dos jogos percebesse o óbvio e nos tratasse com respeito.

CynthiaSemiramisCynthia Semíramis pesquisa história dos direitos das mulheres e tem blog em hibernação. Quando não está escrevendo tese vai dançar forró e correr. Só gosta de assistir futebol em estádio.

 

Mortas vivas

Foto da linda série "Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

Foto da linda série “Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

E eu não me permito morrer em vida.

Achando que ser igual é normal.

Ser chata é a regra.

Ser medíocre é opção.

E ser diferente é loucura.

Estou velha, mas viva. Diva. Viva vovó !

O que querem é que a gente vire poste sem luz. Que sirva pro xixi dos cachorros que precisam continuar a demarcar território, mas deixe de satisfazer qualquer  outra função. Deixe de subir no palco da vida e brilhar. Pare de aprender. Chega de procurar !

Como se já não bastasse  o antigamente atrelar a menopausa ao final de vida.

A morte.

Secou.

E portanto está proibida de qualquer outra manifestação sexual e corporal que não seja a depressão, os calores e as mudanças de humor. Ficar velha e decrépita. No way. Acabou. Mudou mesmo.

Claro está  que o ser humano busca sempre a procriação e biologicamente a mulher após a menopausa perde essa capacidade através de seu momento hormonal. Graças!! Delicia!

Prazer não tem nada a ver com fisiologicamente a manutenção da espécie.

Velha não está morta num caixão. Como suas células te dizem, o seu prazer começa na cabeça, que está pouco se lixando pros seus números. Depende de como você a alimenta. Acrescentando dados, cores, vontades, curiosidades.

Não encontrei nenhuma relação com essa subserviência determinada culturalmente ao meu corpo e a minha idade.

Na hora do êxtase, foda-se o número  que você carrega. Você é só uma fêmea. Selvagem. Afinal o corpo é burro e te vê com 30 anos quando você já tem o dobro.

Não tenho tatuagem de data de validade no meu corpo.

Então, vale o  fuk fuk. E gritar no auge. E sentir o calor subindo quando uma boca te chupa com eficiência. E se saber totalmente preenchida pelas sensações que o seu corpo não deixou de sentir.

Crocheteio, tricoteio e cozinho com prazer mas adoro comer um belo espécime também . Fantasiar é o meu carteado. E, no chá das 5, falar do que eu descubro é muito mais prazeroso que falar da atriz de novela garotona e durinha que “consegue” pegar todos !

Até eu, Onofre!

Quero ver ter toda essa bagagem que a minha casca carrega e se jogar na pista.

Bem fazemos os que deixamos o corpo saciado, cansado, suado e a adrenalina a mil.

E ainda damos motivo pras conversas dos mortos vivos em todos os velórios.

Captura de Tela 2016-08-15 às 14.06.36Isabel Dias é uma administradora de 50 e tantos anos que vivia numa cidade do interior até descobrir que seu marido, com quem era casada há 32 anos, tinha outros relacionamentos. Divorciou-se, mudou-se para São Paulo e começou uma jornada de auto-descoberta, narrando num blog (trintaedois.com) sua redescoberta sexual. Os textos foram editados no livro “32 – Um Homem Para Cada Ano Que Passei Com Você”. Após a publicação, ela segue dando palestras e se comunicando com mulheres de todas as idades que passam por situações semelhantes.

Sugestões para um agosto mais Biscate

Texto com dicas também de
Renata Lins, Lis Lemos e Raquel Stanick

Um beijo no meio da rua. Papear com a cadeira na calçada. Conversar virando madrugada. Roça-roça no pé do muro. Sexo matinal. Banho de mar sem roupa. Dormir sem roupa. Praticamente qualquer coisa sem roupa. Mandar beijo pra lua cheia. Morder, voraz, uma manga suculenta. Sexo oral. Servir ou sorver uma bebida gelada. Aos golinhos. Lamber sorvete que derrete escorrendo na casquinha. Rir junto. Rir muito. Rir alto. Gargalhar. Postar gif de putaria. Beijar de língua na balada. Enviar nudes desejados. Rapidinha. Entabular conversa despudorada, dada, danada na fila do banco. Dizer sim. Escrever mensagens eróticas. Deixar em guardanapos. Com marquinha de batom. Ver um filme. De preferência, no escurinho do cinema.  Ou no colo de alguém. Masturbação. Masturbação a dois. Passar um café. Fazer um pão. Ou um bolo. Ou uma careta. Suspirar. Tomar banho de chuva. Girar, braços abertos, olhos fechados. Dançar sem música. Mandar mensagem pra os amigos. Aproveitar aquele óleo meio esquecido e fazer uma massagem no seu próprio pé. Ou em qualquer outra parte sua (ou alheia) que rolar. Acolher o inesperado. Divulgar os posts do tumblr do biscatesc. Cantar no chuveiro. Na rua. No pé do ouvido de alguém. Ler O Amante. Ou Hilda Hilst. Fazer um strip tease pra alguém. Que pode ser você mesma. Olhar de lado. Flertar no ônibus. Andar descalça na areia da praia. Ou na grama. Ou no cimento frio. Molhar os pés. Deixar as ondas lamberem a pele. Soltar o cabelo. As asas. A franga. Pintar as unhas, Ou o sete. Fazer uma listinha de música com cara de trepada. Enroscar pés – com meias, caso faça frio. Derrubar forninhos. Fazer uma coisa nova. Fazer o mesmo de sempre que apetece. Provar. Experimentar. Repetir. Dar.

como viver

E as suas sugestões? Coloca aí nos comentários, vai…

Mosaico

Imagens

Fico observando as formas ora geométricas ora orgânicas em peles e  sombras. Você não sabe dos pequenos retratos que guardo de seus pedaços. Na noite enfeitada pela luz amarela, uma moldura de ilusão macia pra tudo que nos enche os olhos. O sol não sabe de nós.

Retalhos

Enquanto a sua pele morna e escorregadia desliza sob a minha, temo que minhas costuras cedam e, por fim, arrebentem. Foi com muito cuidado e atenção que dei todos esses pontos, cerzi as partes mais frágeis, preguei pequenos retalhos achados pelo chão pra cobrir todos os rasgos. Quando escuto a linha ser forçada e atingir a tensão máxima, um leve desespero me retrai. Temo pelo tecido que me cobre, que me protege do frio e me dá abrigo. Temo ter que lidar novamente com agulhas e tesouras pra conter as vul.ne.ra.bi.li.da.des.

Linguagem

Toco seus cabelos lentamente, com todos os dedos, que se dobram de modo preguiçoso enquanto se conectam a você, numa tentativa de que eles, secretamente, lhe falem o que meus lábios não dizem. Respiro fundo, com o rosto muito colado ao seu, em uma brecha muito pequena onde posso concentrar o cheiro da sua pele em pouco ar, em busca de mensagens ocultas que se transmitam instantaneamente, sem o desperdício de palavras. Por que queremos dizer tanto quando se pede tão pouco? Por que anseio por símbolos quando o silêncio se mostra tão gentil? Por que quero tanto falar sobre o que eu nem mesmo sem o nome?

Sobre morder a língua

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Meninas e meninos, moças e moços, amigas e amigos: mordi a língua. Esse texto vai pras minhas vocês sabem quem. Aquelas que me ouviram madrugadas adentro desfilar o meu banquete de certezinhas entre um e outro gole de chope. Vai para aqueles e aquelas que sabem o quão crítica eu sou nesta vida. Vai pra vocês que já perderam horas a fio me ouvindo reclamar em altíssimo e bom som – apesar da voz cada vez mais rouca – do modus operandis dos casamentos e relações caretas que assolam o planeta. Vocês que já me ouviram questionar zil vezes o fato de tudo neste mundo evoluir, mudar , acabar e ser recriado menos o sistema educacional e as relações estáveis. Enfim, repito pra não pairar nenhuma dúvida, eu mordi a língua.

E pra começar a explicar o inexplicável, reproduzo aqui um parágrafo-desabafo escrito num rascunho qualquer em 07 de Junho de 2016, apenas um mês e pouco antes de encontrar aquele que me faria morder a língua várias vezes em algumas semanas. Segue o parágrafo sem filtro e sem edição.

“Daí eu olho pros casais e volta. E na maioria dos casos, com honrosas exceções, não gosto muito do que vejo. Difícil esse troço de generalizar, mas é tão comum ver por aí umas duplas que nem fazem mais sentido. Ou que fazem sentido de uma forma meio automática de ser.  Que não deixam o outro ser, sei lá, o que ele quiser. Tem o inominável ciúme. Tem a vontade de ver tv enquanto o outro quer ir pra rua. Tem as crias, o quem faz o quê. Tem as famílias de um e de outro. Tem uma sensação pairante de uma certa amarração que dá uma agonia profunda…”

Pois bem, foi em meio a essa agonia, a esse tom professoral, distante e crítico, em meio à quase certeza de que eu não queria mais ser um casal que eu esbarrei nele. Não foi amor à primeira vista, nem à segunda, nem à terceira. Na verdade eu nem lembro a primeira vez que a gente se viu na vida, a gente já se conhecia há um tempão. E agora é tão estranho lembrar de todos esses anos em que eu nem imaginava o tamanho dessa alguma coisa que a gente ia inventar junto. Eu casada com outra pessoa. Ele casado com outra pessoa. Depois, mais adiante, eu separada e ele ainda casado. Recentemente, os dois solteiros, mas até bem pouco tempo sem fazer nenhuma ideia disso tudo.

Pois bem, como diria Chicó, só sei que foi assim. Um dia eu olhei com curiosidade pela primeira vez. E logo ele olhou de volta. Aí mantive o olhar. E ele também manteve acoplado a um sorriso. Pensei, assim como o criador de Chicó já disse certa vez: “Essa alminha quer reza…”. Alguns segundos, nenhuma palavra, frio na barriga mode on. Daí pra isso tudo aqui foi um pulo. Jump cut.

E agora, José? O que a pessoa que nunca mais queria ser um casal na vida faz com as certezas elaboradas e repetidas por anos a fio na hora que vira um casal? Como encarar as amigas parças, confidentes e cúmplices? Como reaprender esse negócio de ser com o outro? Cursinho rápido online alguém?

Das coisas que achei que não eram mais possíveis de ser vividas estão:

  • Vontade de ver todo dia.
  • Falar no tel à la anos 80, por horas a fio (sem a parte do fio) e fazer vozinha (!!!!!!) como bem reparou a amiga fono.
  • Vontade incontrolável de contar pro mundo que isso tudo está acontecendo (o que, vejam bem, estou fazendo agora usando esse texto como desculpa).

Pronto. Só essas três coisinhas já abalam certezas estruturais tais como:

  • Um saco essa obrigação de se ver todo dia.
  • Odeio falar no telefone.
  • Prefiro mil vezes não contar do que contar.

Qualquer um que me conheça um pouco sabe dessas certezas. Só que agora aquelas 3 coisinhas bem clichês lá de cima já destroem a moral de uma alma com tantas convicções. Já viram a vida de cabeça pra baixo. Já remexem de um jeito o avesso da gente que a gente nem sabe mais ser aquela pessoa que moldou e cultivou por anos de sozinhez.

O jeito é reconhecer que não se tem mais certezas. O jeito é rir. E gozar. E tentar aprender. Tentar fazer diferente do que já se fez. Errar erros melhores, como diz o meme. Tentar ser um par sem deixar de ser dois single, únicos, inteiros (ô coisa difícil). Prestar atenção no outro e em si mesma. E, apesar da vontade de se atirar de olhos fechados, tentar ir se segurando, olhando o caminho, pisando devagarinho, ensaiando se misturar sem se perder no meio disso tudo. O jeito é descobrir como encaixar a pessoa, a relação e esse tanto de sentimento que brotou aqui dentro no resto da vida. Ou o resto da vida dentro disso tudo. E saber que a língua será mordida mil vezes mais.

O jeito é escrever uma história nova com trilha sonora original. Simbora.

Morde-se a língua sozinho. E mordisca-se junto.

P.S. Esse texto foi levemente inspirado no incrível Enquanto, da bisca-diva Luciana Nepomuceno. E a foto é uma copiagem descarada mesmo.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Já que o mar não tá pra peixe….

Hoje é dia de falar de centauros, de ninfas, de cavalos alados, de pessoas com os pés virados para trás que protegem a floresta, de meninos de uma perna só de gorro vermelho que fazem travessuras por aí…. é dia de falar de deuses ciumentos, de deuses amorosos, de deuses que cuidam das suas próprias vidas, de deuses que não querem nem saber da gente ou que nos assistem se divertindo como se fôssemos sua novela.

Dia de chapeleiros loucos, de frascos com líquidos que fazem crescer, que fazem diminuir, de gente que se afoga nas próprias lágrimas, de lagartas azuis com narguilés, de coelhos apressados, de rainhas de copas, de rosas brancas pintadas de vermelho.

De rainha das neves, de monstrinhos que quebram espelho de ver distorcido, de pássaros falantes, da menina ladra que ajuda outra menina em busca do seu melhor amigo raptado pela rainha das neves. É dia de trenós e de lapões.

De princesas da ervilha, de ratinhos falantes, de abóboras que viram carruagens, de cavalos que viram cocheiros, de sapatinhos de camurça que passam a ser de cristal por conta de um revisor distraído, de quixotes contra moinhos de vento, de sanchos e suas panças, de tabernas, de odres de vinho, de estalajadeiros, de Aldonza que era Dulcinéia.

De fantasminhas que tinham medo de gente, da menina Maribel com os olhos cor do céu e os cabelos cor de mel, do tio Gerúndio, de pastéis de vento, de rios derramados pelos olhos, de piratas da perna de pau.

De tia Nastácia e seus bolinhos, da Emília que ela fez, do Visconde que ela fez também, das histórias contadas por Dona Benta, de Narizinho, Pedrinho, de viagem ao céu, de viagem à Grécia antiga, de viagens.

É dia de fuga pra fantasia, é dia de morar na fantasia, é dia de criar uma nova realidade inventada, de se mudar de mala e cuia pra essa nova realidade, de fazer ninho, de dormir na nuvem como um cobertor, de escorregar nos anéis de saturno, de fazer guirlandas de estrelas e dançar como se não houvesse amanhã, como se não houvesse ontem, como se só houvesse a dança, as guirlandas, as estrelas.

Hoje é sexta-feira, dia de respiro, de Oxalá e de cabelo ao vento e a semana que vem a gente não sabe o que trará. Vamos fugir desse lugar, beibe. Uma banda de maçã, outra banda de reggae. Os desenhos da Mariana Massarani que nos acolhem.

Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, seu rei mandou dizer que contasse mais quatro.

ilustração daqui.

Ligações Invisíveis

Por Angela Scott Bueno*, Biscate Convidada

Existem ligações invisíveis entre pessoas que uma vez construídas não se desfazem, sempre lembraremos delas num momento importante, num turning point. Nem sempre tem a ver com laços de parentesco ou amizade, pode até ser que a pessoa que mudou seu rumo, você sequer conheça, oficialmente. Pode ser que sejam pessoas que se encontrem uma única vez, num acontecimento fortuito. Alguém que pediu um cigarro na rua e houve uma troca de olhares – você tem um cigarro? Eu não fumo. E entre estas duas frases, houve uma revelação. Alguém que sentou no mesmo banco de praia que você. Você e aquela pessoa desconhecida, ficaram um tempo olhando o mar, cada uma a seu modo e então ela abriu a bolsa e tirou um livro e era o mesmo livro que mudou sua vida, tempos atrás. Você vê o livro e lembra de ter decidido como queria viver. Ver o livro deu a dimensão do quão distante você foi parar desse desejo. E então, decide voltar. Alguém que olhou para a lua na mesma hora que você. Traçou o mesmo movimento no espaço e no tempo: olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava você. Que olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava o outro. Ali se construiu uma ponte entre lua e humanos e entre humanos e suas existências. Sua vida e a vida daquela pessoa foram transformadas por uma sutil sincronia. Um segundo e a vida te deu a dimensão exata do lugar que ocupa nela. Você afinal é essa pessoa e apenas o que é belo para você – e não importa mais se alguém entenderá, aceitará ou reconhecerá -, é que vai guiar a sua vida. Você não pode mais escapar da sua beleza, da sua lua no céu. Tenho essa fantasia de ter certeza – essa é a fantasia, a certeza, de que nós nunca saberemos quem é que realmente muda o nosso destino. Aparentemente pode ser um grande amor ou a maldade de uma mãe, uma viagem ou a doença de um filho mas aposto mais nesses momentos aonde um humano olha para outro humano, sem defesas, sem resistência, sem expectativas. Seremos apenas corpos de afetos, pegos desprevenidos, vivendo um momento grandioso, numa situação banal. A pessoa que me pediu um cigarro, ao nos olharmos, por imponderável, fez com que eu tivesse contato e afirmasse tudo o que é meu. Um livro MFK Fisher, a forma de ver o mundo de Wyslawa, a voz de Miles, os quadros de Ortner, o vento e as nuvens, não uma árvore mas as pedras, o licor e não o vinho, os pássaros, as baleias, os sonhos de madrepérola, a medida exata do meu desejo. Tudo isso me pertence e eu pertenço a eles e, ao virar à direita na esquina e não à esquerda e encontrar o homem que me pediu o cigarro, de quem eu jamais saberei dos afetos, tive os meus devolvidos quando, sem aviso, nós dois humanos nos reconhecemos claramente. A grande ilusão é achar que nós nos criamos sozinhos e somos independentes: a gente só se revela e só se conhece através do outro. E na mágica desse caldo de acasos que é a existência.

13618214_10206437356320753_420784083_n*Angela Scott Bueno é Floralista e de vez em quando gosta de descrever o que acontece com ela ou o que ela vê na vida, no mundo e nas coisas. Pisciana de raiz, o que a salva é o ascendente em Leão, senão já tinha virado geleia. Não curte discurso excludente, mas curte medicina, dança, música, comida e fotografia e sempre se sente mais em casa com quem é Biscate na vida.

Ósculos desencontrados

Recebera o convite, mas não estava certo se iria comparecer àquele baile. Vagava perdido por aí, sem saber bem o que fazer da vida e foi gostoso descobrir que havia outros como ele. Pensou que podia ser meio looser ir a um encontro desses. Afinal, já haviam sido perdidos, de que adiantava o encontro dos desencontrados? Por outro lado, podia ser divertido ver aqueles beijos todos que ficaram no ar e nunca foram beijados.

Depois de muito balançar, decidiu: ia ao I Encontro dos Beijos Perdidos. No convite não dizia nada de traje nem se podia levar alguém. Rá. Como que um beijo perdido ia chegar lá de parzinho? Se o beijo já tinha companhia, não era mais perdido.

Ficou imaginando o salão cheio dos beijos que nunca aconteceram. Só pedia pelamordedeus que não fosse uma convenção a la “Qualquer coisa Anônimos”. Afinal, era um encontro de beijos. De beijos que nunca aconteceram, mas que estavam por aí cheios de vontade de beijar. Esperava que fosse uma festa com álcool e cigarros, como o gosto que levava na boca desde que beijou o ar enquanto esperava beijar o que estava à sua frente. Suspirou ao lembrar.

Chegou ao I Encontro dos Beijos Perdidos e viu tudo o que imaginara: música boa, risadas, fumaça de cigarro, bebidas de todos os tipos, aquele cheiro de inferninho no ar. Foi até o balcão, pediu uma dose dupla de whisky. Cowboy. Olhava aquela balbúrdia, feliz e ao mesmo tempo consternado por descobrir que havia tantos beijos que nunca existiram. Não queria fazer uma sessão de “Beijos perdidos anônimos”, mas estava curioso pra saber o que levara cada um deles até ali.

Ao seu lado, um grupo de três beijos conversavam. Contavam suas histórias e ele ali ouvindo e querendo também interagir, dividir o que lhe acontecera. Um beijo de voz grave contava que esperara anos para beijar a vizinha, passava em frente ao portão dela todos os dias, na esperança de encontrá-la e puxar assunto. Mas sempre que ela falava com ele, sua voz engasgava, a língua grudava no palato e não saía voz nenhuma, só grunhidos. Ensaiou o beijo no espelho por anos, até que um dia chegando em casa, viu o caminhão de mudança na porta dela. Correu, mas a vizinha já tinha ido embora antes. Nunca mais soube notícias.

Uma boca vermelha, de lábios bem volumosos e – muito, muito sexy – contava que passara a noite toda rindo, conversando, até dividiu um cigarro, conversavam pertinho, mas na hora de despedir o sujeito lhe deu um abraço e foi embora. Nem menção de beijinho no rosto fez. Um sacana. Agora ela estava ali, vagando, sem ter pra onde ir.

Ele foi se aproximando aos poucos do grupo, rindo, ansioso, tentando se enturmar. Até que alguém perguntou sua história. Contou então, que era um beijo que se perdera há muitos anos. Conheceu uma moça em um festival, assistiram dois dias de filmes sentados um ao lado do outro, e ele o tempo todo querendo acontecer, sentia o cheiro de verbena dos cabelos dela e só pensava em beijá-los, e quando viu a voltinha do seu pescoço, quase escapou por um triz. Um dia tomaram umas cervejas, riram, trocaram uns olhares longos, espetaram a mesma batatinha, riram de novo. Quando ele ia pular na boca dela, louco de vontade, apareceu um beijo barbudo que atravessou seu caminho. Foi tudo muito rápido e em dois minutos o beijo da moça se entregou ao beijo barbudo. Desde então, ele estava fadado a ser o beijo que não aconteceu.

Ao redor, as conversas aumentavam, a música estava muito alta e quase não se ouviam. Até que um par de beijos se beijando dançando na pista chamou a atenção. Rodopiavam, desciam e subiam, riam, estavam mesmo felizes com aquele encontro tão esperado. Eureka! Era pra isso que tinham ido até ali, óbvio! Como não pensou nisso antes? Estava tão acostumado a ser perdido que tinha esquecido como era bom ser beijo de novo? Se aproximou dos lábios vermelhos, falou alguma coisa baixinho e tascou-lhe um beijo demorado, profundo, cheio de querer. Então, uma profusão de beijos tomou conta da festa, que agora podia ser chamada de Encontro Anual dos Beijos Ávidos por Beijar.

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Liberdade sexual e Consentimento

Por Raíssa Éris Grimm*, Biscate Convidada

Então, gente…
Liberdade sexual não é sinônimo de compulsoriedade sexual.

Liberdade sexual pode ser sobre você transar com 10 caras se você quiser (se com cada uma dessas pessoas você tiver condições de consentir). Pode ser sobre você não transar com ninguém, se você quiser. Ou com uma pessoa só (se em cada transa com essa pessoa você tiver condições de consentir)

Mas é também sobre entender que a mina que transa com 10 não é pior nem melhor que a mina que não transa com nenhum. E que a mina que transa com 1 só não é melhor, nem pior do que as outras duas.

É entender que o exercício da sexualidade ou o não exercício dela não muda a pessoa que somos. “Santas”, “rodadas”, “certinhas”, “biscates”, “putas”: somos todas mulheres, e simplesmente isso.

É sobre a gente entender que sexualidade (o exercício ou o não exercício dela) não é algo que “suja” ou que “mancha” as mulheres, que não define uma verdade a nosso respeito, ao mesmo tempo que não é uma tarefa “funcional” que devemos cumprir diante da sociedade. Que qualquer exercício ou não exercício da sexualidade deve se pautar no consentimento e NUNCA, nunquinha, deveria ser parâmetro pra qualquer tipo de violência ou punição sobre como queremos viver.

Tanto a mina “rodada”, quanto a mina “certinha” sofrem estigmas na nossa sociedade. O fato é que não importa com quantos você transa, ou se você não transa: nossa sociedade se incomoda com todas as mulheres cuja sexualidade não se submete ao consumo masculino

Situações em que a gente não tem condição pra dizer “não” não são situações de liberdade de modo que a liberdade pra dizer sim PRESSUPÕE a liberdade pra dizer não.

“Mas nessa sociedade as mulheres não são livres”, pois é, verdade, por isso mesmo existe ativismo por isso mesmo existe luta pra TRANSFORMAR essa sociedade.

Se essa liberdade já estivesse dada, a gente não precisaria lutar por ela. Mas a gente vive numa sociedade em que mulheres são violentadas por não quererem transar ao mesmo tempo que violenta mulheres por gostarem de transar fora dos parâmetros que o patriarcado recomenda.

O que nossa sociedade não quer é mulheres donas dos seus corpos.

Então parem com essa de hierarquizar as discussões. A liberdade da mulher que quer transar muito importa tanto quanto a liberdade da mulher que não quer transar. A liberdade da mulher que não quer transar importa tanto quanto a liberdade da mulher que quer transar muito.

Redundante, eu sei. Mas simples assim.

13406813_198429917223746_4983157974029228924_n*Raíssa Éris Grimm massagista, anarcotransfeminista, organizadora da Marcha das Vadias de Florianópolis de 2012 a 2014.

Ângulos

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

Uma amiga muito querida e que eu admiro muito postou uma foto nas redes sociais onde ela estava em um “ângulo ruim”. Mas ela postou mesmo assim, pois aquela foto tinha um valor maior para ela – foi a filha pequena que tinha fotografado pela primeira vez, o dia estava lindo, elas faziam um piquinique num gramado de frente para o mar. Estar bonita ou não era a menor das preocupações ali. Brincamos um pouco sobre a foto no inbox, onde ela aparecia descabelada, sem make e com uma roupa confortável sem nenhum frufru.

Fiquei pensando em como a necessidade de “parecer bem” nos aprisiona e nos impede de viver plenamente as nossas vidas.

Ninguém é obrigada a ser bonita. Ser bonita é construção social. Eu entendo que muitas mulheres usem o discurso da beleza como empoderamento. E cara, isso é muito legal.

Mas não serve para todas. Muitas de nós não vamos querer nos preocupar com isso. Em querer ser bonita. Estar gata. A ser a “melhor versão de si mesma”. Esse discurso pode ser muito violento.

Eu não nasci para ser agradável aos olhos de ninguém, para ser aprovada por ninguém, para despertar o desejo de ninguém. Isso faz com que muitas mulheres acordem todos os dias e vão dormir se achando um lixo.

Meu corpo não é peça de decoração. Ele serve para muitas outras coisas nas quais a tal beleza não participa. Então porque a gente ainda pensa em beleza como o valor mais importante quando o assunto é ser mulher?

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.