A gente aqui do Biscate

Biscates

Biscates. Foto de Toni Miotto

É isso, a gente aqui do Biscate. Eu de vez em quando faço essas paradas, pra comentar e pra me alegrar. O Biscate surgiu assim, quase como uma brincadeira, uma resposta da Niara e da Luciana a uma frase da Martha Medeiros que dizia “mais vale uma mulher incrível do que uma coleção de biscates”. Causou revolta essa afirmação, como pode se ver aqui. Como assim, uma coleção? Como assim, separar as mulheres desse jeito, com uma frase que até minha avó acharia antiquada? Como assim, biscates não podem ser mulheres incríveis? Pois é. O Biscate Social Club é uma resposta, um grito de revolta.

E o tempo passou, as biscates foram se chegando, se agregando, se aproximando. Se identificando. Dizendo “eu também sou”. “Eu também faço parte”. Que mané mulher incrível X biscate. Lavou tá novo, dou pra quem quiser, não dou quando não quiser, e isso não diz nada de mim como mulher. Não dou régua a homem nenhum para me medir.

Aliás, os homens. Porque tem as biscas e os biscos, né. Tem homem também nesse nosso clube, permanente ou convidado, sambando com a gente, dando seu ponto de vista, fazendo contrapontos. Biscateando junto. Sem se preocupar com réguas ou preconceitos antiquados.

O Biscate balança, o Biscate já sobreviveu a chuvas e temporais, a Niara entendeu que era hora de partir para novos caminhos, a gente já pensou até em fechar a bagaça, mas… tamos aqui. Biscateando todo dia. Encontrando leitores, trocando ideias, fazendo caminho. Aprendendo, se misturando, fazendo festa e virando pelo avesso. Viralateando.

Esse texto é isso, uma vontade de comemorar a existência desse espaço de acolhimento e de luta, de reafirmar pertencimento, de contar que a gente ainda tem tanta história pela frente. Que a gente já tem alguma história pra trás. Que esse bloguinho transformou a gente, com essa identidade-biscate que diz tanta coisa.

O que me leva a pensar que vale um agradecimento à Martha Medeiros: obrigada, Martha, pois sem sua frase nonsense talvez o Biscate Social Club nunca tivesse existido. E a gente é que ia perder com isso.
Valeu, Martha!

Música de molhar a calcinha

Ensaio "Beleza Real". Foto de Bárbara Heckler.

Ensaio “Beleza Real”. Foto de Bárbara Heckler.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E nessa polêmica toda de “50 Tons de Cinza” estava era me lembrando que os livros têm trilha sonora. Se não me engano, fãs compilaram tudo, numa seleção clichê que inclui até “I’m on fire”, do Bruce Springsteen. Claro!

Mas, ó, nem critico, não. Provavelmente, é a menor das questões da trilogia. Sem falar que, né, este texto aqui também está beeem provido de lugar-comum. Inclusive, minha dúvida no momento é: tem como música de molhar a calcinha fugir tanto assim do obvio? Mesmo que você me apresente aquela canção delicinha de uma banda indie norueguesa, pode mesmo ser melhor que “Lets get it on”?

Ouquei. Admito que estou falando de trilha sonora de motel, que já provoca formigamentos pelas obvias ilações que sugere. Bota aí as de Sade, Nina Simone, Marvin Gaye, Al Jarreau, Billy Paul, que molho a calcinha com todas as versões algo meio cafonas de “Your song“. E seguindo o fluxo, há quem molhe com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan e outros com Bryan Ferry, por quê, não?

E há quem alucine com “Besame Mucho“. Adoro demais “Samba para ti“, do Santana, mas, piro mesmo é com “Fogueira“, de Rô Rô. E o que dizer de “Tatuagem“, especificamente com Elis? Ou “Ne me quitte pas“, com Maysa, que é de fossa, mas pra mim de sexo?

Cartas de amor são ridículas. Será o tesão igual?

Eu tinha muito siricutico sublimado quando dançava música lenta nos bailinhos da turma do colégio. E aquele negócio de o menino passar a mão nas costas, a dança inteira, só no alise, e a gente ir se chegando, esbarrando os quadris e a parte de baixo de quando em quando?

E quando a dança deixava de ser dança e virava mesmo um abraço e uma carícia entre o cabelo e o pescoço, ainda mais com salão escuro, segundos antes do beijo, que nem sempre vinha, as vezes era só o sarrinho acanhando e um cheiro no cangote? E era bom. Bom mesmo.

Duvidar, sou capaz de sorrir safada até hoje se ouvir “We’ve got tonight“, que fez parte da trilha sonora da novela mais bafo do meu comecinho de adolescência. E a vozinha atrevida que soltava aos 11, 12 anos, quando cantarolava, me fazendo de distraída, sussurrando no ouvido do coleguinha “wo-ho, let me see…”, que só anos mais tarde descobri que era mesmo “from all that we see”?

Porque, né. A gente entende o que dá conta de entender. E fala o que convém na ocasião, fazendo o maior virundum malicioso dentro daquela ingenuidade toda. Eu nem sabia direito o que queria “see”, mas o “let me” saia assim, com sorrisinho nervoso de canto de boca, num pedido espertinho escondido no verso equivocado da música. Sim, amigues, sou das antigas. Já molhava a calcinha antes mesmo de vocês terem nascido.

Enfim, a maioria disso tem um cenário, uma lembrança, uma pessoa no meio ou várias. Mas, também tem aquela música que a gente se arrepia só de ouvir, do nada, não porque lembre alguém ou alguma situação, mas pela canção em si. Não tem?

Tem uma que me enlouquece, pela música mesmo, por essa interpretação maravilhosa. Tesão absoluto. Nem tenho memória específica de nada com ela, de primeiro namorado ou transa épica. É que acho a música fodástica (ui!) de verdade. Bom, se bem que tem esses dois juntos, lindos, tesudos, cúmplices, se querendo. É. Tem isso.

Como não gosto de complicar e posso ser bem evidente nas historias, e esse texto aqui é sobre obviedades, afinal de contas, minha melhor música de molhar a calcinha é esta! A de sempre. A de muitxs. Porque nessa vida, minha gente, tudo o que é gostoso começa mesmo é com Chico Buarque de Hollanda.

Segura essa, Christian Grey!

Vai Gordinha, delícia

Tenho certeza que muitas pessoas leem o blogs feministas e pensam: UAU que mulherada foda! Tudo empoderada! Se olham no espelho do provador da Mesbla e dizem EU ME AMO e são felizes para sempre. Também têm filhos e casamentos ou parceira ou parceiro perfeitos.

Beeeeemm, nem sempre é assim. É que na verdade a gente acorda descabelada de camisetão furado. Tem que levar filho na escola, o emprego é chato e pra complicar  o espelho da Mesbla te chamou de gorda porque a calça jeans não fechou.

Pois é, é duro ser empoderada sendo gorda: gorda, com um “o” bem grande no meio, nem é gordinha, viu? É uma dificuldade a mais. Ok, tem coisas mais difíceis, tipo sofrer com racismo estrutural e transfobia, mas tem dias que dói e machuca.

Mas a questão é estar num ambiente em que as amigas nos reforçam ao invés de ficar naquela ladainha: “olha emagrecer é força de vontade e questão de saúde e zzzzz”, é um diferencial.  Nesse ambiente de acolhimento em que se respeitam escolhas, desejos, momentos. Se respeita a individualidade. Isso é o que gera um empoderamento diário, isso é que tem sido importante e alimentador para mim. A gente compartilha carinho, aconchego, medos, dúvidas e incertezas, mas estamos juntas.

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 (Abro um enorme parênteses pra avisar que não debaterei neste post sobre “ahhhh mas ser gordo não é saudável etc. etc. etc., reportagens, o globo repórter o MIT,  a revista Nature o escambau demostram que ser gordo …..” Pois é, da minha ficha médica sabemos eu, meu médico e o Dr. House – porque adoro ele, cada doida com  sua mania. Mas enfim, saúde tá ainda bem, brigada. Gordinha, mas com saúde).

Foi nesses papos e aconchegos e reforço e tal que me dei conta que, magra ou gorda, desde sempre me achei feia. Pra você ver que a auto imagem não está somente ligada ao peso real, mas a como nos vemos, e daí fui rever fotos minhas.

E eu era feia nada, era linda. Acho que o que faltou desde a infância foi um reforço positivo de imagem por parte dos meus pais, já que aparência não era um valor na minha casa. Veja bem, não é que seu filho ou filha tenha que ser compatível com algum modelo de beleza para receber esse reforço positivo: isso na verdade tem a ver com carinho e aconchego e nisso meu pais erraram (infelizmente, pais não acertam em tudo). A gente tem é que dizer que  filho é bonito como é, amar e acolher, aconchegar, trazer ao seio. Isso é que reforça a auto estima e a auto imagem.

 E voltando às fotos:  se, objetivamente, eu era linda será que  ainda não sou?  Se eu me sinto hoje linda,  se sou amada e desejada gorda será que não serei amada e desejada mais e de novo? E aí fui pro debate com as amadas e comecei a me arrumar de novo, sabe? Foi me amando mais de novo porque isso estava faltando, eu meter a colher na minha imagem atual. Havia muito aconchego externo, faltava o interno, eu comigo. Faltava auto aceitação.

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Acho meio ridículo, mas, enfim, era que aos 40 eu estava pensando, e tô ainda me experimentando. Eu tentei, juro que tentei, ser um feminista desencanada e talz, mas gente… num dou pra isso. Eu nasci perua, sou a única perua da família. Daí que preciso de cabelão, de batonzão, de make. De vestido. Muitos vestidos. De bolsas e sapatos, E colares, e anéis. Ok, comedida, menos, muito menos compradora e consumista que já fui. Mas enfim, voltei a me arrumar do jeito que eu sempre me curti (brigada, Rafa).

E aí saí à caça de blogs de gordinhas que se vestem bem, lojas com roupas pra gordinhas a preços aceitáveis e por aí vai ( tem muitos viu?  Dicas no final do post) e aí resolvi abraçar o projeto #gordinhasexy2016 #agoravai

E deu resultado, depois de um longo e tenebroso inverno já recebi cantadas, olhares ( eles tinham sumido) e me olho no espelho e acho bacana. Mudei eu? Mudei. Mas mudei mais ainda a atitude comigo mesma e isso devo ao reforço (beijos pras amigas e amigos – beijo para Vanessa) ao empoderamento e ao acolhimento de ser amada como se é. Experimentem aí, do jeito de vocês. Love will find a way.  Se amem. E vivam a vida.

 Blogs que curto:

http://juromano.com/

http://www.femmefatalebyjeh.com/

http://gisellafrancisca.com/

http://gordacabelinha.tumblr.com/

http://girlwithcurves.com/

 

Êxtase

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Às vezes é muito rápido, vai, entra, faz e sai, urgente, correndo, fugindo do mundo, nem que seja só por um instante de calor e esquecimento. Um instante de explosão, um instante de paz. Um minuto para suportar todos os outros minutos do dia. Um minuto tão rápido, os gestos quase de máquina, a eficiência quase de funcionário, a atenção só no no essencial, no objetivo, no fim.

Outras vezes não, é devagar, sentindo cada momento, cada carícia, cada toque. Se deixar envolver, ver quase que de longe o calor crescer, perdida do mundo, perdida do tempo, rendida. Tudo bem lento, tudo quase parado, gestos longos, olhando para cada pedacinho do corpo, para cada canto escondido, para cada vontade insatisfeita. Sem hora para começar nem dia para terminar. Várias vezes. E de novo. Até não aguentar mais.

Às vezes é em pé, quase um exercício, quase uma dança. Giros de corpo, a cabeça virada para trás, as mãos se esforçando para alcançar todo o corpo, a pernas ora levantadas, ora estendidas, por vezes dobradas. Por vezes ajoelhada, por vezes curvada até tocar os pés.

Outras vezes deitada, imersa, coberta. O corpo todo tocado ao mesmo tempo, a pressão, o abraço, de algum controle, de chão. Acolhida, envolvida, entregue. Dada. O corpo inteiro envolto vagarosamente, o calor nascendo nos lugares mais inesperados.

Rápido ou devagar, mas sempre. Todo dia. Pelo menos uma vez por dia. Duas, nos dias em que o calor cresce. Três, quatro, muitas, nos dias de feriado e férias, nos dias vadios de verão na praia.

Em pé, deitada, mas sempre. Todo dia, como uma rotina cega, o dia todo como respirar. Nos dias de lida, rápido e em pé, nos dias de folga, devagar e deitada. Nos dias de férias o dia todo, nos dias de suor, todo dia.

Como? Não. Não é nada disso. Não tenho culpa se você só pensa nisso. Eu estava falando de banho.

renoir-banho-420

 

PauloCandido

Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Poesia que transborda no corpo

Por Martha Lopes*, Biscate Convidada

livromarthaQuando eu tinha uns 13, 14 anos escrevia poesia, assim, compulsivamente. Escrevia principalmente para expurgar as paixões que me aconteciam e tudo aquilo que eu não conseguia entender. O tempo passou, eu virei jornalista e o impulso para escrever ficção, prosa e poesia foi ficando de lado. Foi só em um momento difícil, de profundo sufocamento, que resgatei esse jeito de transbordar.

O resultado são os 28 poemas reunidos no meu primeiro livro, “Em Carne Viva”, pela Kayá Editora, especializada em publicar literatura produzida por mulheres e livros que abordem questões de gênero e feminismo. São poemas que falam sobre fatias diferentes da vida: o trabalho, o amor, o tesão, a maternidade, o cotidiano. Mas, quando olho para todos eles, percebo algo que os une: o corpo. É ainda para essa superfície, para esse espaço das sensações, que levo tudo do que não é possível falar.

*******

Que coisa louca

eu desejar você

assim

como Lilith montada sobre Adão

e agarrar-te pelos cabelos

buscar a tua boca

no meio desse mar de gente

buscar só a tua boca

louca, louca

te amar nesse recôncavo

e saborear todos os licores

guardados no seu reconvexo.

********

Noturna

ontem em sonho te vi

com os cabelos soltos

quase escondiam seu rosto

seu tão perfeito rosto

então ávida,

eclipse

com sede de você

– e sabendo da sua sede de mim –

afastei seus cabelos

encontrasse com a minha

e deixei que a sua boca

que a sua boca

se colasse com a minha

e que a gente vivesse um amor

profundo e desejoso

um amor perfeito

como são os amores feitos em sonho

que fazem a gente acordar molhada

no dia seguinte

mas principalmente morta de

vergonha

depois quando encontra a pessoa

em carne e tesão tão concretos.

eu_perfil copy (1)*Martha Lopes nasceu em São Paulo, capital, em 1984. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, na mesma cidade, em 2006. Escreve poesia e prosa desde a adolescência. É uma das diretoras da ONG feminista Casa de Lua e idealizadora do #kdmulheres, movimento que questiona a pouca visibilidade feminina no mundo da literatura e das artes em geral.

 

Câncer, amor e delicadezas

Para Nanda

amor3Câncer, é, câncer. Palavra que assusta, doença que nos assola e nos tira o ar. Mistérios, medos, falta de controle. A morte presente no correr dos dias, a vida que muda sem pedir licença. Um diagnóstico que transforma e empurra a gente pra tantos fundos e tantos afogamentos.

Mas não. Não precisa ser assim. Foi ela que me ensinou que não precisa ser assim. Ela que viveu a doença e dançou em seus braços, flertou com a morte, agarrou a espada e foi em frente. E venceu. Venceu com vida nos olhos e vontade de amor. Com o brilho renascido de quem já viu os avessos da vida. De quem conseguiu driblar os escuros das adversidades e emergir com cheiro de flor. Com sorriso nos lábios e ainda mais gentileza para o mundo que vem.

Não, não foi fácil. Por vezes ela ainda chora ao contar dos dias de quimioterapia, dos remédios, das fraquezas, das dores, dos furos na pele, dos hospitais, das incertezas. Às vezes ela ainda chora os seios que não são mais como antes, as cicatrizes e marcas de reconstrução das mamas. Os cabelos que caíram nas suas mãos, os cílios vazios de cores no espelho de outrora. O medo de passar por tudo de novo a cada exame e a cada dor de cabeça. Ela ainda chora a justa tristeza de quem passou pela tempestade e caiu no meio das ondas.

Mas não, não é só isso. Foi ela que me ensinou que não é só isso. Que no meio do processo ela aprendeu tanto e teve tanta coisa bonita. Que estar com câncer não te resume, nem te traduz. Que tem tanto carinho e tanta gente especial que aparece, e que a emoção de estar viva pode ser todo dia e toda hora. Que os laços se fortalecem e a gente se aprende só e tão cheio de gente.

Foi ela que me mostrou que tem sorriso e aprendizado e leveza. Sim, que pode ser leve. Que também pode ser leve. Que o caminho é a gente que escolhe, mesmo quando se tem uma doença grave. E que aceitar quem se é, e quem se esta sendo, é semear delicadezas. Foi ela que me ensinou, beijando meus olhos, que cada segundo é cheio de presentes de estar viva. E que aceitar os limites, tão finitos e tão humanos, é ser gentil consigo mesma.

E então ela segue, e eu sigo com ela. Ela segue sua travessia com ainda mais coragem para viver as suas belezas. E eu ando com ela pelas ruas, pelas águas, pelo amor sempre amanhecido das nossas intensidades. Com o sol reluzindo nos cabelos que nascem mais fortes do que caíram. Com a intensidade de mulher feita e refeita de vento, de mar, de dias claros e águas profundas. Nós duas em pedaços desconexos e tão juntas, tão inteiras em nossas metades.

E foi juntas que nos desnudamos, que olhamos as cicatrizes e fizemos do sexo um ato sublime de prazer e liberdade. Porque ser mulher é muito mais que ter os seios, esse falso e pesado padrão enfrentado pelas mulheres mastectomizadas. Doloroso olhar social que encolhe e esconde essas mulheres. Essas, que podem ser qualquer uma de nós, a qualquer momento.

E fui eu que a ajudei a enxergar que não precisava ser assim. Porque a beleza está nos olhos do amor e do encanto, e não tem padrão capaz de engessar a beleza reinventada de poder ser, e viver como se é. De nos impedir de abraçar nossos corpos nus e bonitos como são. Nós, juntas, rompemos as amarras, e ela pode ver, através dos meus suspiros, que ela é uma das mulheres mais lindas e mais cheias de feminilidade que já conheci. Uma mulher que me transborda os olhos, e me penetra os ossos.

Ela, que me ensinou a “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”.

Eu. E ela.

Eu. E ela.

Amor de carnaval

Por Beth Salgueiro*, Biscate Convidada

Conheci o amor da minha vida no carnaval.

Minha casa em Olinda sempre foi pouso de viajantes dos quatro continentes, especialmente no carnaval. A turma chegava dez dias antes, mas com um mês a gente já arrumava a produção das fantasias, a maquiagem, listava o roteiro dos blocos, contratava a cozinheira que ia fazer o alimento salvador da ressaca, e principalmente definia quem vai dormir onde ou com quem. Tinha uma regra, sutil e não verbalizada, no carnaval: todo mundo estava sem compromisso, disponível pro que pintasse. Sem críticas nem cobranças. Essas hospedagens aconteciam em todas as casas, não só na nossa. Afinal era Olinda e era carnaval…

Então, naquele ano, o aniversário da amiga com quem eu morava caia justo na semana pré. Por isso a gente resolveu fazer uma festança caribenha na nossa casa, convidando amigos e o povo de fora que tinha vindo pro carnaval. E foi aí que ele apareceu. Eu não o conhecia. Era um homem comum, muito moreno, com cabelos compridos e encaracolados, mais ou menos da minha idade, com umas roupas que nunca tinha visto em ninguém antes, super modernas e descoladas. Me amarrei de cara. E ainda por cima, ele foi o rei da pista. Dançava com o corpo inteiro aquelas salsas, todo naturalmente sexy. Não estava se exibindo, mas chamava a atenção da mulherada com aquele charme avassalador. E eu pensei comigo: eu quero esse homem. Ele vai ser meu, pelo menos nesse carnaval… Fiquei por perto, na espreita, porque minha sedução é sutil, mas nem precisei me esforçar muito, porque ele também ficou a fim. Então a gente dançou a música seguinte e a outra, bebendo tequila, e virou a noite se agarrando pelos cantos, aos beijos, e amanheceu andando pela rua e parando pra se pegar e adormeceu na minha cama, cheia confetes e purpurina. Acordamos tarde e tão na boa, que  foi a primeira vez em muitos anos que não me arrependi no dia seguinte de ter dado trela pra um cara que conheci de noite. Pensei: cara, é esse…

Então, nesse carnaval criamos uma redoma transparente que envolvia nós dois. A gente estava no meio dos amigos mas sozinhos um com o outro, vivendo aquela paixão, experimentando de tudo, adorando o toque, o cheiro e sabor do corpo um do outro, alheios a qualquer coisa que não fosse nosso tesão. Me entreguei completamente àquela paixão. E ele também. Todo mundo em Olinda sabia o que acontecia, porque era tudo muito explicito, mas a gente não estava nem ai.

Na quinta feira depois do carnaval, ele foi embora. E eu fiquei despedaçada. Já tinha tido outros namorados de carnaval, e sabia que era assim mesmo, coisa passageira, sem futuro. Mas daquela vez era diferente. Então na semana seguinte fui encontra-lo na casa dele, no Rio. Ficamos uma semana em lua de mel, com o coração estourando de amor, mas eu precisava voltar. Vocês já namoraram no telefone? Pois foi o que aconteceu. Todo dia, ligações de três, quatro horas, que estouravam a conta no fim do mês. Mas que nunca bastavam. Um tempinho depois ele veio de mala e cuia. Vendeu tudo, fechou a budega e se mudou. E nunca mais a gente se desgrudou.

Com ele eu tive os maiores prazeres, os melhores orgasmos, a mais completa cumplicidade possível com outro ser humano. Com ele eu briguei muito, às vezes briga feia de querer ir cada um pro seu lado, mas sempre conversando porque ele também era chegado numa DR. Juntos aprendemos muito sobre nossos corpos, sobre amizade, companheirismo, respeito e entrega. Foi uma relação construída a cada dia. Nunca casamos, mas ele foi meu amado por muitos anos, meu parceiro de trabalho, cama e mesa, com quem tive filhos e netos. Até que ele fez aquela longa viagem, aquela que a gente deve fazer sozinho, e me deixou.

Mas ele tá por perto, eu sei, principalmente nessa época. E confesso que ainda fico de calcinha molhada só de pensar nas nossas brincadeiras juntos. É meu amor, que conheci num carnaval.

Beth_SalgueiroBeth Salgueiro já fez tanta coisa nessa vida que nem dá pra dizer aqui. Seus pés estão fincados no chão, mas a cabeça continua nas nuvens e as antenas todas ligadas no futuro. Ela diz que é feliz por estar vivendo nesses tempos contraditórios.

De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

O pentelho branco

O primeiro veio ao redor dos 30. Estava eu com um filho pequeno, morando em outro país, sendo a “mulher de alguém”, a “mãe de alguém”. Longe daquela com cartão de visitas com o nome impresso sobre um cargo qualquer que eu achava que merecia. Apenas partes de mim, pensava. E o tanto que eu achava que o cartão de visita me definia naquela época? E as outras coisas, não? E a cobrança sobre “ser estudada e não estar fazendo nada’”? Nem vou falar que fiz. Coisas. Tantas. Porque, né. A questão nem é essa.

Mas, era como se me começasse a faltar o frescor da juventude sem as benesses da maturidade. Sempre uma falta. Uma ausência. Uma perda. De ganho, metros de “senhora” pra cá e pra lá. Em mais frases do que eu estava preparada pra ouvir, por exemplo. E ainda vinha aquele pentelho branco me lembrando que até as bucetas ficam grisalhas!

Bom, mas, aí, chegaram os 40. Não que tenha sido assim, um despertar de um belo dia. Foi um indo, um acontecendo, que acontece ainda. Vai ver eu sou mesmo meio outonal… Mas, foi um olhar pro espelho e perceber que, obviamente, eu não era mais aquela. Aquela lá.  Aquela de antes. Em mais aspectos que na pele. Era eu e mais um pouco de mim. Era eu e um outro eu. E passei a não mais renegar o batom vermelho, que já tinha sido de mim antes. Parece pouco. Mas, né, não. Vou nem explicar, é um simbólico meu. Ficamos assim, ok?

bocaperfil

E teve mais coisa. Junto com o batom, veio um me gostar do jeitinho mesmo que era eu. Com altos e baixos, não nego. Que ainda rondam. Às vezes, só na espreita. Às vezes, na cara dura! Ou até em velhos hábitos. Mas, foi pensar que o rosto aquele, com linhas de expressão, rugas, olheiras e o famigerado bigode chinês eram irremediavelmente meus. Eram o agora. O porvir. Ah, a inevitabilidade do envelhecer! Quem não envelhece morre, é o que dizem. E gostei de me saber aqui.

Fazer 40 foi uma hecatombe. Mas, coisa boa foi explodir por dentro e me refazer por fora. No batom colorido! No corpo que pariu 2 filhos, na boca com as linhas todas da vida grafadas nela. Nessa boca que beija, morde, chupa, de um jeito agora que não era assim antes. Na pele, no corpo que me cabe.

Justamente nesse momento em que por aí poderiam dizer que não sou. Pois foi justamente nesse então que mais me senti. E, finalmente, o inexorável me acalmou.

Escrevo esse texto dois dias antes de completar 43 e o publico nesse 13, dois dias depois do meu aniversario. Sei lá o que estarei pensando hoje, nesse hoje que nem me chegou ainda. Mas, se for parecido com o que senti na virada dos 40, olha. Nem te conto.

Bom, no final das contas, acho que agora posso fazer metáforas um tanto infames: porque aí vi que o pentelho branco, já no plural, dividindo irmanamente o espaço com os outros, é como o tempo. Não há muito que se possa fazer com ele a não ser abraçá-lo. Não se disfarça, não se tinge (ou sim? Consigo nem imaginar…). Pode até arrancar, mas ele insiste.

Ora, meu pentelho branco me representa. Resistente. Resiliente em seu renascimento, em como se multiplica, se mistura, se esparrama e vai se impondo. E, como tal, serei chupada, lambida, lambuzada, ora raspada, ora enroscada, aqui, acolá, em outro… Assim, diferente. Sem cor perto dos outros que ainda resistem. Na cor que a idade tem. O pentelho branco existe. Está. É.

Não Perde Por Esperar

Por Ana Paula Medeiros, Biscate Convidada*

Uma hipersensibilidade. Um resto de TPM. Um tesão descontrolado. Precisa justificativa pra acesso de tesão? Não.

A mente inquieta, o corpo ardendo, se remexendo suspeito na cadeira do escritório, o fim do expediente ainda longe. Como o amante: longe. Outra cidade, alheio ao cio que me consome.

Um email do chefe. Respondido. A boca entreaberta, a respiração um pouco mais arfante do que devia, os olhos fitam o vazio. Longe. Outra cidade. Será que dá pra notar? Dois telefonemas para resolver assuntos institucionais. Uma reunião em meia hora. Os bicos dos seios duros por baixo do vestido de verão, a boca seca, as coxas úmidas, o pensamento longe. O amante, longe.

A tensão é insuportável e há um prazer sádico em deixá-la crescer, indomável, queimando as entranhas, ocupando as frestas do dia. O riso malvado e dolorido, por dentro, fala da fúria que exige satisfação. Mas não há carícia possível para aplacá-la. Só tapa, marca, dente, unha. Grito, fogo, gozo, alívio.  O amante, longe.

Ótimo pretexto para ir à academia (sim, ir à academia demanda pretextos, é uma obrigação). Mas nesse dia vai ser bom despejar o ímpeto todo nos aparelhos, queimar o tesão junto com as calorias na aeróbica.

Exercícios de braço, halteres, a imagem no espelho. Os ombros, o colo, as veias se mexendo no pescoço ao levantar o peso. E se eu estivesse nua? É assim que ele me vê, em músculos e movimento? Pisca, sacode a cabeça, espanta o pensamento vadio, sorri. Próximo aparelho, cadeira adutora. Regula o peso nas placas. Senta. Pernas bem abertas. Respira, faz força contra as almofadas e hastes, para fechar, bem devagar. Concentra no fortalecimento dos músculos internos das coxas. Inspira. Abre de novo. Abre mais. Cada vez que eu abro, ele mete os dedos em mim, rindo com os olhos. Me provocando, o sacana. Eu mordo o canto da boca. Sinto a cabeça girar, solto o ar devagar, num gemido quase inaudível, e fecho os joelhos com força, prendendo o corpo dele entre as pernas. Abro outra vez e é um convite. Sou eu que rio agora. Vem, mete mais. Três séries de quinze repetições.

esteira_04

Chega. Melhor correr, cansar, prostrar o corpo em outra fadiga. A música alta no fone de ouvido marcando o ritmo acelerado das passadas na esteira, quase com raiva. Sem pensar, sem pensar, sem pensar, longe. Muito longe. Fora de alcance. Eu queria tanto. Hoje. Agora. Já. Não pensa, corre. Os dentes cerrados, no limite do esforço. Calor. O top encharcado, a camiseta colada por cima. O suor escorre entre os seios, pelas costas, um fio escorregando até o meio da bunda. O rosto vermelho, afogueado, o cabelo grudado na testa, na nuca. Aumenta a velocidade.

Exausta, as pernas bambas, os olhos esgazeados miram cenas de trepadas épicas, noites viradas, corpos melados, misturados, quentes, feitos do avesso. Bocas, línguas, pernas, mãos. Em séries. Muitas repetições. O coração bombeia o sangue com a força e o ritmo com que ele enfia em mim, eu aperto o apoio da esteira com força, fecho os olhos por um momento, epa, assim eu perco o equilíbrio. Respira, acorda, diminui a velocidade, os batimentos, aos poucos. Que merda. A ideia toda do exercício era gastar o fogo no rabo, sublimar o desejo. Não parece ter funcionado.

Início da noite. Está abafado e troveja. Podia cair uma chuva daquelas, grossa e quente, e eu caminharia feliz, a pele chicoteada pelos pingos, antecipando o prazer do chuveiro que me espera em casa, com algum alívio finalmente, solitário, sob a ducha. O amante, longe. Ele não perde por esperar.

AnaPaulaPBiscate

*Ana Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

Porto de chegada

mulher nua no mar

Então eu amanhecia, no colo do amor que me deitava o peito. Esse amor trazido pelo rio da vida, pelas águas que me banharam o tempo. Pelos gostos que senti, pelos caldos que levei, por todas as faltas de ar que me calaram a voz. Corredeiras. Tempos submersos, tempos de sol, tempos de medo, tempos de plantio. Meus tempos. O tempo do amor plantado no meus pés quando tudo era água, e tudo escorregava. O tempo da desova. Rio que encontra o mar. Águas salobras. Terra fértil fecundada pela maré dos meus anos.

 O rio me trazia o merecimento de um porto de chegada.E eu chegava, onda por onda, vento por vento, até sentir-me inteira em solo firme. Corpo de areia, pés fincados à beira mar. Com as mãos abertas e o coração leve, eu chamei por ti. Ali, onde me via terra, onde sentia a liberdade de poder voltar para mim, eu te procurei. Chamados de vento que te balançaram os cabelos.
Ecos, reverberações. Envolta nas marolas que embalavam os sonhos tão despertos de nós, você chegava. Seu rosto reconhecia o meu, seu corpo fazia morada no gozo das nossas bocas unidas. Nossos corpos fincados na terra do tempo presente. Nosso amor lavado pelas águas da vida, forte de batalhas vencidas e coragem de seguir em frente. Nós, juntas, nesse porto de abrigar o tempo porvir.
Esse nosso tempo.

Não dou conta

Confesso. Tá cada vez mais difícil tomar parte no que está acontecendo. E nesse instante exato, o que está acontecendo agora? Qual a treta mais cabeluda do momento? Qual o mais novo velho escândalo do cenário político? Qual a questão mais urgente e emergente está sendo encampada? Por quê? Para quem? Quando? Onde? Oi?

Sim, realmente não dou conta nem de conseguir sossegar nas minhas férias. Nessa aceleração carnívora e ansiosa da vida e nestes tempos não-humanos quem consegue viver alienado de todo e dizer-se feliz?

Confesso que às vezes tenho a precisa sensação de ver de camarote vip a banda passar e eu estática, sem poder me mexer, enxergo esse desfile de precisões e necessidades artificiais ficando desgostosa de prosseguir, de continuar girando essa roda que nem sei onde vai parar, mas se parar, meu nome vai pro SPC e pro Serasa. No mínimo.

E tudo é pra ontem.

Atualização de lattes. Juntar documentos. Protocolar. As contas do início, meio e fim do mês. As faturas (altas) do cartão de crédito. Papel, papel e mais papel. Os prazos dos (muitos) eventos. Os inúmeros editais. Os amigos que reclamam atenção e que vão ficando perdidos na estrada. A família que se sente abandonada. O trânsito ruim. O calor e a falta de chuva. A hora do barco. A carga horária. O conserto do celular. A pia cheia de louça suja. O antivírus do computador. As demandas dos outros. Os aniversários esquecidos. Os presentes não comprados. Os encontros desmarcados. Os livros não lidos. Os check-ups preguiçosos. A comida sem glúten. A revisão do carro. A casa bagunçada. Os sapatos espalhados. As ligações não atendidas. O IPVA pra vencer. O medo da multa. Os diários eletrônicos. As correções a serem feitas.

E os resultados agora, agorinha, pra já, nesse instante senão o mundo desaba e a culpa é sua, só sua.

Quem consegue sobreviver? Quero abraçar essas pessoas… Cadê a beleza, cadê o glamour, cadê o movimento sexy? Será que essa vida só tem interditos?

Será?
Final nada otimista.

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