Sylvia Plath e um batom vermelho demais

Sylvia Plath. Entre seus livros, sonhos cor-de-rosa, suas palavras brancas e o sofrido desejo de ser melhor e melhor, Sylvia se construiu e construiu belas e sofridas formas de dizer a dor, a solidão, o amor, a excelência, as perdas. Ela tentou se matar algumas vezes, mas quem não tenta? Com amores infelizes, trabalhos estressantes, falsas amizades, comida enlatada, prática de esportes, maus livros, todas estas escolhas são formas cotidianas de se aniquilar um pouquinho. Mais adiante, ela conseguiu. É muito mais do que se pode dizer de muitos de nós. Ela e Alfredo abriram o gás (aquele Alfredo que ninguém sabe de quê). Não sei se eles eram tão sós como se sentiam. Talvez todos sejamos e eles apenas reconhecessem mais rápido.

 Uma vez, quando parecia que eu sofria de amor, uma amiga me escreveu: não lembre de Sylvia Plath, não lembre de Sylvia Plath. Bom, eu não a esqueço. Não a esqueci em nenhum momento, nem mesmo quando a vida doeu, de verdade,  porque sempre soube que ela era grande e que morrer – de amor? – não a fez maior, apenas fez mais breve seu tempo de escrita.

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 Ela escrevia. Era isso que ela fazia. Talvez mais, era isso que ela era. Cedo chamou seus diários de Mar de Sargaços. Vai na Wikipédia, está lá a descrição, mais ou menos assim: um lugar quente, cercado por correntes oceânicas, um cemitério dos navios. Também lá está a comparação com a descrição de Rufo Avieno sobre as Colunas de Hércules*: “muitas algas crescem em meio às ondas, as quais retardam o navio como se fossem arbustos (…) Aqui, as bestas marinhas movem-se vagarosamente de um lado para o outro, e grandes monstros nadam languidamente entre os navios que se arrastam“. Para cortar caminho, apressado para realizar mais um dos seus tantos trabalhos, Hércules abriu espaço com seus fortes ombros, rasgando um estreito marítimo, hoje conhecido como estreito de Gilbratar. E não é isso o amor, ou o viver?, insistindo nas perdas, expandindo cisões, aumentando fraturas, ampliando vazios que, a seguir, se enchem de lágrimas mornas, fértil espaço para memórias-algas, saudades bestiais, contraditoriamente encalhando sonhos e alegrias?

Já adulta, escreveu: “talvez eu nunca seja feliz, mas hoje estou contente”. É de uma sabedoria ofuscante: o odor do café, um lençol macio, uma gargalhada infantil entreouvida pela janela, um beijo displicente, um bom livro pra ler. Miudezas. Uma pena não ser, sempre, suficiente.

 “Morrer é uma arte, como tudo mais”, escreveu ela. E o que mais seria? Viver é trazer a morte como possibilidade. É experenciar a finitude, todo dia, de forma solente, irreverente ou iludida. E disse também, complementando: que eu pratico surpreendentemente bem. E o que mais é escrever senão procrastinar em suicidas bilhetes? Quando não mais praticou bem a arte, foi quando abriu o gás.

Ler os tantos textos publicados sobre ela revelam como é difícil simplesmente aceitar a alteridade. Busca-se uma resposta fácil, um culpado, um motivo evidente para não encontrar o nosso desejo de um dia a mais na clara renúncia alheia de todos os dias outros. Num viés moralizante, a infidelidade se torna alvo fácil e tentamos dar nome ao que ela – e tantos – decidiram deixar no silêncio.

Sylvia era obsessiva em seu trabalho, as minúcias a atormentavam, a busca pela alinhavada precisa entre palavra e sentido – isso a consumia. Uma pálida beleza com um batom demasiado vermelho. Ela era forte, mas parecia saber disso apenas em dias alternados. Ela era bela. E ela era triste. Entre homens fortes e suas abelhas e seus ferrões ela só pôde morrer. Eu posso mais, porque posso lê-la.

Esse tempo presente

1

 

É tempo de plantar

Baixinho, pra dentro, sem alarde

É tempo de deixar escorrer o rio

De transbordar pelas margens

E sonhar com flor

 

É tempo manso, sorrateiro, arredio

Da chuva que se derrama escandalosa

Das poças de lama nos pés

Do teu amor batendo na janela

E crescendo por entre as frestas, portas fechadas

Por todos os cômodos escuros

Por todos os campos vastos

Por todas as perguntas sem resposta

 

É tempo de trovão, clarão, braveza do céu fevereiro

De acalentar as rachaduras por baixo da pele

De festejar os ventos desavisados

De sorrir para a desordem nos sentidos, latentes,

Procurando caminhos de costurar a terra

 

É tempo de amor, bonita

De mãos dadas na memória do corpo

De gozo na memória do corpo

De desejo na memória do corpo

De encontro nas distâncias que somem quanto te penso,

Quanto te sinto,

Quando te vejo no inverso de mim.

 

Revoluciono-me,

Em todas as hipóteses que já joguei fora

E em todas as certezas que já não tenho mais

Em todos os escuros que me percorrem

E me contam que o medo

pode ser um impulso,

para dentro de mim.

 

Teu nome brilha

E eu acredito.

Acredito.

Desenho teu nome

Um par de asas

Um coração com flores

e um caminho até o mar.

 

Assim te espero.

E eu sei

Que você chega

O eu que eu não fui

O eu que eu não fui é uma entidade que me acompanha. Uma sombra fugidia. Quase uma lembrança. Alguma melancolia. Um breve piscar de olhos. Que de repente, pronto, passou.

Mas está ali e segue estando, esse eu que eu não fui. Que teria estudado – claro – letras. Teria pegado o ônibus por quatro anos para o fundão, ou, quem sabe, aprendido a dirigir.

Letras, para fazer pós-graduação em linguística. Lembrar do amigo Saussure, aquele da “lettre de De Saussure à sa femme” em que eu tinha achado tanta graça, vista em um museu perto de casa, quando eu nem sabia quem era De Saussure. Antes de ler o tratado dele como se fosse romance e receber olhares esquisitos dos mais-velhos em volta.

O eu que eu não fui iria morar fora, é certo. Morar fora de novo, reencontrar-se com a forasteira que mora dentro de mim e do eu que eu sou. Fora – na Europa, em Paris, provavelmente. Em um quartinho daqueles lá no alto, com montes de escada até chegar lá em cima. Em Paris, os cafés. A beira do Sena. Os livros usados. As praças e os parques. A rua. O cheiro de castanhas quentes no inverno. As crêpes. O eu que eu não fui teria gostado de morar em Paris, embora a saudade do Brasil não fosse embora nunca.

paris-cafeE, depois da pós, teria se demorado por lá, teria, quem sabe, conseguido dar aulas em uma universidade. O eu que eu não fui seria muito dedicada à carreira.

O eu que eu não fui não teria casado, não teria tido filhos: não exatamente por decisão, mas porque namorar é trabalhoso e difícil, estudar ocupa tempo, ter filhos…. Não teria acontecido, apenas.

Uma ponta de tristeza, talvez, mas rapidamente afastada: afinal, haveria amigos, viagens tantas, um trabalho cansativo mas recompensador. Os alunos, os colegas. Uma vida cheia de cores e de gentes. Uma vida gostosa, essa do eu que eu não fui.

Às vezes, a sensação do eu que eu não fui é tão forte que me pergunto o que estaria acontecendo agora com ela, que imagino que ela deve estar vivendo de verdade essa vida que eu não vivi em alguma realidade paralela.
A garganta aperta um pouco, mas sorrio de leve.

A eu que eu sou é tão diferente desta que eu tinha certeza que ia ser.
E nem fui.

Tá foda…

Tão difícil escrever… Tem sido assim: começa, apaga, rascunha, apaga, soletra, borracha, não sei. E volta para a página em branco, para o tempo em branco, para a ideia vazia. Tem sido assim e me pergunto e pergunto e pergunto: Por que?

Estamos todos fodidos. Mas, dito assim, fodidos em jeito negativo, “desexplica”. Porque no fundo no fundo estamos é não fodendo. Não há mais a foda, como a arte da troca, dos corpos, das salivas, dos sussurros, dos gemidos, dos palavrões em boa hora, dos suores – aaaaaahhhhh, os suores…. – das mãos nos seios, na bunda, no caralho, na buceta, no rego. Dos cheiros, do gosto de porra, do gosto de gozo, do melecado, do encharcado, dos lábios, do lábio…. dos láaaabios. A foda, sabemos, é sempre a primeira a sofrer: por causa da importância crucial em se controlar os corpos, querem sempre e sempre fiscalizar a foda. E surgem fiscais de sexo, de buracos, de cus, de xoxotas, de paus: sempre com pedras.

A faceta mais nociva dos autoritarismos é esta: o controle das fodas. Não, não de trata de imaginar que um mundo onde haja gente trepando ao ar livre em esquinas do mundo. Se trata, sim e sim, de dizer que a foda é tão humanamente importante… Perfume, sabor, dor, sim. É mais fácil colocar a foda como pecado. Porque assim controlamos a única coisa que, de fato, é nossa: o corpo. E podemos, então, garantir a ordem das coisas, o domínio das coisas, as coisas outras.

Não é a toa… nada é. Não falo de sexo, falo de fodas.

Um governo de gente branca, masculina, de ternos escuros. Que fode às escondidas. Que usa meias pretas enquanto trepa. E que lavam as mãos ato contínuo ao esporro, higiene na hora das trocas…. A imagem é esta…

E tem sido difícil escrever. Cada vez mais… porque faltam desesperadamente boas fodas….

 

 

 

Quem beija a boca do meu filho, a minha adoça

Chorei muito vendo esse vídeo.

Um tempo atrás, eu estava na Arezzo do shopping Eldorado, experimentando sapatos, quando o Mateus, meu filho adolescente, chegou pra me encontrar. Quando saímos da loja, ele me contou que, ao entrar, ainda na porta, notou que todos os vendedores e o que acreditamos ser o gerente se puseram alertas. O jeito como o gerente olhou pra ele foi agressivo. No susto, ele apenas disse “minha mãe esta ali” e apontou pra mim. E aí sim se sentiu a vontade pra entrar, com os olhares sobre ele até confirmarem que a mãe daquele mocinho preto de black estava mesmo ali, com vistas a gastar dinheiro naquela loja que, sabemos, não é barata.

Eu nada notei, confesso. Estava conversando com a moça que me atendia e nem vi quando ele entrou. Não houve agressão verbal, não houve agressão física. Houve a percepção pessoal dele, que pode ser tão concreta e contundente quanto um ato ofensivo. Houve a percepção porque quem sofre racismo sabe quando acontece. Apenas sabe. Mesmo quando aquele que praticou não tenha aberto a boca.

Conversamos sobre isso depois (e continuamos conversando até hoje, inclusive porque ele tinha acabado de passar por outra situação semelhante, quando foi extremamente mal atendido num quiosque de açaí. Duas, minha gente, em menos de meia hora!).

O que posso dizer é que o depoimento de um dos pais deste vídeo que começa o post (esse educador maravilhoso), dizendo que só de nomear racismo para definir o que o filho viveu já doi, é a mais pura verdade.

Filho pré-adolescente e a hora “daquela” conversa

Semana passada a série Grey’s Anatomy tratou de vários temas relevantes como violência contra a mulher e racismo. Um dos momentos que mais chamou a atenção foi o diálogo de Miranda Bailey e seu marido (médicos, de classe média alta) com seu filho, sobre como se comportar durante uma abordagem policial.

Esta cena motivou a conversa abaixo, entre nossa bisca Vanessa e o biscate-sempre-convidado Maycon:

Vanessa: Uma das características mais marcantes do Mateus, meu filho de 16 anos, além da beleza (hohoho), é a altivez. Ele tem uma desenvoltura pro mundo, uma segurança do seu lugar no mundo, que me emociona de ver. Ele resolve coisas, fala com as pessoas, é seguro, é afetuoso. E anda sempre olhando pra frente. Daí eu vejo o vídeo de Grey’s  (temporada 14, episódio 10)  e fico pensando na contradição que vivemos diariamente, de estimular a auto estima de nossos filhos negros, criando pessoas que não se vergam, com o medo diuturno de que essa altivez os coloque em situações de risco. Porque quanto mais um negro é potente, mais forte é a necessidade de quebrá-lo ao meio, né? É um temor constante que essa mesma segurança que ele demonstra seja não só o que o fortalece, mas também um fator de risco.

Maycon: Oi, eu sou como seu filho. Eu sou essa pessoa segura e afetuosa aí e graças as orixás fui poucas vezes abordado pela polícia e quando fui foi tranquilo até porque eu mantive e calma, falei devagar, não questionei , etc, mas eu tenho sorte, muita sorte e sei disso. Até hoje sinto o incômodo alheio quando chego numa loja ou numa banca pra comprar alguma coisa. Daí eu respiro, fico calmo, falo normalmente. Sou um homem negro, de 1, 85 de altura e como minha mãe diz com ar meio “maloqueiro” , puxei meu pai segundo minha irmã, ando sem camisa na rua, de chinelo, camisa no ombro, etc… Eu sinto um olhar, aquele olhar que não tem como explicar,uma mistura de “será que ele vai me assaltar” com “o que esse cara quer?” e um pouco de “ele é perigoso”. E, de novo, eu respiro, fico calmo, e faço o que tenho que fazer. Em outros espaços, como na universidade, na escola, a minha inteligência me “protegeu” até certo ponto porque sempre fui estudioso, sempre tirei notas, era um dos melhores alunos, mas isso não impede aquela sensação de que você não pertence aquele lugar, algo que só entendi melhor agora – e claro não te protege do bullying que eu sofri durante um bom tempo e que escondi da minha família porque não queria que eles soubessem, porque tinha vergonha e na escola ninguém fez nada. E essas coisas meio que fui descobrindo sozinho, na intuição, dando murro em ponto de faca, porque quando entrei na universidade pela primeira vez foi 12 anos atrás, fui o primeiro da família, não se discutia racismo como se discute hoje e minha família não tinha repertório pra me ajudar a passar pelo o que passei – nunca um racismo implícito, sempre mais sutil – , mas o amor da minha família, o carinho deles é o que me manteve e me mantém firme e forte. É daí que tiro minha segurança. O que quero dizer é ame teu menino, fale mesmo “eu te amo, você é lindo, inteligente” e faça ele se sentir amado e querido porque isso vai ficar nele pelo resto da vida e é daí que ele vai tirar força pra ficar firme e forte porque ele vai encarar um mundo bem cruel e pergunte se está tudo bem na escola ou onde ele for. Deixe claro que ele pode sempre pedir ajuda e que não tem nada errado com ele. Espero que ele, assim como eu, consiga escapar de uma situação mais perigosa com a polícia, que ele não tenha que lidar com os olhares que deixam claro que não é bem-vindo ali e que seja feliz, muito feliz e livre pra ser quem ele queira ser.

O que eu quero quando quero você?

Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Arcano VI do Tarô - Os Amantes. “É preciso saber escolher”

Arcano VI do Tarô – Os Amantes.
“É preciso saber escolher”

Faz alguns anos que um processo se dá em mim quando me apaixono. Não importa mais tanto o que sinto, mas o que eu quero a partir do momento que tomo conhecimento de que sinto por alguém. Pode parecer óbvio para algumas pessoas, mas para mim é recente. Sempre fui da turma dos passionais. Se me apaixonava não estava nem aí, queria viver loucamente o que estava sentindo e dane-se o resto. Não que isso tenho se alterado, estruturalmente ainda sou assim, mas depois dos desencontros, dos tropeços, de reflexões e de aprendizados mudanças ocorreram. A paixão tem se mostrado cada vez mais como um espelho que reflete sempre uma questão: “O que você quer? ”. E essa questão é sempre o que deixa aquela pulga atrás da orelha, que tira o sono algumas noites. “O que eu quero” talvez seja umas das perguntas mais difíceis de ser respondida porque o desejo ele não é uma verdade já posta, ele também leva tempo.

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Hoje eu estou apaixonado e estava pensando no rapaz que gosto enquanto ia ao mercado. Estamos em cidades separadas por conta das férias e ás vezes falamos pelo whatsapp, mas  já estava pensando em quando voltar fazer um jantar para esse moço, para nós dois: macarrão, queijo, vinho (duas garrafas), uma barra de chocolate. E daí lembrei, lembrei dele, um ex , um ex com o qual eu aprendi muito das artes do amor. Ele é descendente de italiano, cozinha super bem, tem uma boca gostosa, um olhar safado e um sorriso descarado. Lembrei dele, justamente, porque queria perguntar “como é mesmo que você faz aquele macarrão? ” “Qual o queijo que você usava? ” “ Que hora que é para pôr a salsinha? ” Ou será que era cebolinha? Lembrei disso e ri. Ri e agradeci. Agradeci porque fui amado, desejado, cuidado, seduzido e, claro, machucado, porém pude viver tudo isso. Aprendi sobre as delicadezas do amor, os detalhes do amor, os cheiros, os alimentos, os prazeres e desprazeres. Aprendi que “Maycon, quando você fica bravo parece uma mulher brava”. Aprendi que quando estava tão deprimido, sem saber para onde ir e o que fazer tive alguém que deitou do meu lado e me abraçou, me acolheu, foi meu chão sem hesitar quando tinha perdido completamente as coordenadas de quem eu era ou o que queria. O amor é uma aprendizagem e se conseguimos elaborar os ressentimentos, as dores, as frustrações ficam em nós os gestos de amor que partilhamos. Como uma espécie de receita especial que alguém mais velho da família faz e ensina a alguém mais novo e partir daí vai passando de geração em geração mantendo-se viva. Eu sei amar hoje porque fui amado ontem e quem eu amo hoje amará amanhã. E seguimos amando, machucando, ensinando, aprendendo.

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Lembro de uma professora de psicologia que tive que dizia “quando vocês não souberem algo, perguntem a vocês mesmos, em voz alta: o que eu quero? ”. Achava ela ótima, meio louca, mas ótima. Anos depois me pego usando esse conselho porque muitas vezes eu não sei o que quero: Não sei o que eu quero quando quero você. Mas ainda que seja angustiante não saber o que se quer tem um ponto crucial aí nesse não saber e o nome é liberdade. Quando você não sabe, quando o seu desejo não é automaticamente capturado pelas normas, pelo que deve ser, pelos caminhos que deve seguir, pelo modelo que você deve corresponder o único caminho possível é a liberdade. É experimentar, é testar, é tatear. A mesma professora que citei dizia “vão vendo por onde vocês estão caminhando, não botem logo de cara os dois pés. Coloquem primeiro os dedos, sente se dá pé, se está firme, se não der volte, dê um tempo, depois vá de novo ou mude a direção”. Não há a melhor escolha, a mais correta, o que há é a escolha que você tem condições de fazer naquele momento. Tem uma frase bem conhecida entre o pessoal que estuda tarô que é “ A tendência da vida é dar certo”. Se jogue e diga para a pessoa amada: me chame pelo seu nome.

 

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Esperando o avião

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Enquanto espero o avião que me conduzirá à tempestuosa São Paulo, ouço Air Supply cantando breguices maravilhosas e testemunho, mesmerizado, a paquera entre duas moças.

Uma delas tem tranças de índia cherokee e olhar de fingida inocência. Ela não percebe, mas lambe os lábios quando olha na direção da outra moça.

A outra é tão branca que reluz. Como alguém consegue vir a Salvador e retornar tão profundamente branco? Uma prova de que os filtros solares são, de fato, eficientes. Nota mental: pesquisar os lançamentos do mercado. A branquelinha parece não crer que está sendo paquerada. Já olhou pra trás duas vezes, tentando verificar se porventura está entre Pocahontas e seu verdadeiro alvo.

Air Supply canta bem alto, mas só eu consigo ouvir, porque sou educado e uso fones de ouvido:

You know you can’t fool me
I’ve been loving you too long
It started so easy
You want to carry on
CARRY OOON…

O alto falante diz algo que eu não sei o que é, mesmerizado que estou com a cafonice maravilhosa que define meu gosto musical. Pocahontas corre na direção da porta 5, onde se lê

CONGONHAS

Então ela para, parece pensar um pouco, corre de volta para a cafeteria, morde o labio enquanto escreve algo em um papel, corre na direção de uma pasma Branca de Neve, entrega um papel para ela e desaparece na fila de anônimos que vão para

CONGONHAS

Branca de Neve tem a boca aberta, como a de quem acabou de testemunhar um fenômeno. Deve estar se subestimando. Só de olhar pra ela, eu acho perfeitamente compreensivel que alguém queira paquera-la. Ela tem uma cara de pasma constante, e isso é muitíssimo charmoso.

Ela retira o celular da bolsa e ri, enquanto digita algo. Quase certo que está contando o ocorrido para alguém.

Air Supply muda a cantoria, e agora grita

I’m all out of love, I’m so lost without you
I know you were right believing for so long
I’m all out of love, what am I without you
I can’t be too late to say that I was so wrong

Há quem ache feia essa minha mania de ficar prestando atenção em desconhecidos, mas sou desses. Não consigo controlar. Branca de Neve mora em Brasília, vejam só. Voo 3268, PROCEED TO GATE 6. Lá vai ela.

Eu gosto de pensar que elas vão se ver de novo, e por isso fiz um vodu cyberxamanico usando o Google Maps.

Eu de fato acho que há mais amor do que ódio no mundo.

Eu sempre vejo isso em aeroportos. Talvez porque o amor seja uma viagem? Gosto de pensar que sim.

I want you to come back and carry me home
Away from this long lonely nights
I’m reaching for you, are you feeling it too
Does the feeling seem oh so right
And what would you say if I called on you now
And said that I can’t hold on
There’s no easy way, it gets harder each day
Please love me or I’ll be gone, I’ll be gone

 

10429277_10153033445359913_2025333463143611136_nAlexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

Quebra-cabeça

Sempre tem aquelas coisas… que… tipo… quando eu preciso me concentrar e o cara tá precisando escutar Ramones. Ou quando eu preciso acender vela preta e chamar o capeta e o cara tem que escrever relatório. Ou quando ele sai para trabalhar e eu acabei de tentar dormir. E aí… cara… todas essas coisas também são o que dá uma vontade danada de…
E tem aquela música, que já foi nossa, e fala de carinho vindo em forma de tapa e eu não acho isso nem um pouco feminista.
E eu sou muito da feminista, viu?
Nem ouse.
Daí penso em você batendo em alguém e gargalho enquanto abro o vinho. Lembro de nosso sexo e dou um gole direto da boca da garrafa.
Sei também que eu sempre quebro taças, que ainda não temos, quando estou bêbada e não uso drogas ilícitas só porque é muito trabalhoso. Taurina, lembra? Se eu tenho preguiça até de ir no posto comprar cigarro e cerveja, magina…
Eu tento preservar nós dois enquanto tem a tal professora no BBB (que ano é hoje mesmo?) e sorrio esquisito com as mensagens que você recebe.
Isso não é nada revolucionário nem biscate, eu sei, enquanto cato os cacos do meu ciúmes junto com o copo que quebrei no chão.
De raiva.
Cadê revolução, Brasil? Cadê?
Eu tendo a ficar metafísica e você modernista.
Daí tem “toda a dureza incrível do meu coração feita em pedaços” que me faz escrever e pensar desse jeito sobre nós dois. Assim. Tão pós-moderno e fragmentado.
Em nos entendermos biscates juntos. Eu, você, nós dois, que coisa lógica da porra, né?
Só por hoje, pelo menos…

Para Aline

Eu gosto quando ela segura na minha mão. E ela segura sempre. Firme. Apertado. Todos os dedos sendo tocados pela presença daquela outra mão, junto. Ela, que não é de muitas palavras. O amor para ela se demonstra assim, nas miudezas do cotidiano . Nos gestos. Pequenos. Sutis. Imensos.  No que só pode ser compreendido com o tempo de quem não tem pressa de ir embora.

Demorei pra entender como ela gostava. Eu, tão acostumada aos gestos exagerados, aprendo com ela a delicadeza dos não ditos. Do olhar que ela tem só para mim, sempre que eu não presto atenção e ela me vê. Esse tanto que não se exacerba, porque não precisa. Porque apenas existe, sem alegorias ou metáforas.
Nunca me senti tão segura como quando a mão dela aperta a minha, assim, antes de dormir. Penso que ela está ali, toda, sem faltar nenhum pedaço. A noite adentra, e ela está comigo. Minha solidão se abranda, e eu consigo deixar-me levar pelo que não sei. A corda firme me mostra que é possível voltar, sempre nova, para a mesma casa. Ela me ensina que a permanência é poesia, e eu penso que poderia ficar pra sempre ali, com as mãos junto as dela. Em silêncio. Espalhada pelo nosso mundo que se faz de tudo que me escapa, e ela me devolve em sorrisos frescos no nascer do dia. Porque, como diria Manoel de Barros, no achamento do chão também foram descobertas as origens do voo.
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O último Rembrandt #3

O Biscate segue com o folhetim que está sendo publicado aos domingos. Aproveitem!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

3. Ser adulto e responsável é uma droga 

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Nova Iorque, 22 de abril de 2017 – no leilão

17h56

O homem sentado à sua frente no leilão tinha, sem favor algum, em torno de dois metros de altura. Carla jamais entendeu a fascinação que os homens altos exercem na maioria das mulheres. Deus do céu, quem é que consegue manejar um homem desse tamanho na cama? Ela sorriu pensando na tarde que passara ao lado do homem de… o quê? Um metro e sessenta e oito? Um pouco menos? Do alto de seu metro de setenta e nove, Carla achava deliciosos os homens mais baixos do que ela. E aquele cara era… Bom, delicioso nem começava a descrevê-lo.

Voltando ao presente, Carla fez uma careta para a nuca do homem que bloqueava sua visão. Ela não tinha se incomodado com a distância do palco onde o quadro seria exibido. De forma alguma. Estar no mesmo cômodo que aquela obra de arte era o suficiente. E, ainda que de longe, ela a veria. Muito antes e de maneira muito melhor do que poderia apreciá-la depois que fosse comprada. Caso fosse adquirida por algum museu, quem poderia dizer para que canto do globo seria levada? E quando, exatamente, seria exibida? Em dois anos? Cinco? Dez?

Fora que, Deus a ajudasse, se a tela fosse comprada por um colecionador particular, o público poderia passar décadas sem colocar os olhos nela. Bem, talvez nunca o fizesse.

Tudo o que Carla e a humanidade poderiam ter seriam reproduções de maior ou menor qualidade.

Não, não.

O melhor a fazer era vê-la ali. Usando a identidade de sua ex-colega de quarto da faculdade – Safira Khoury, a brilhante filha mais velha de uma próspera família libanesa estabelecida nos Estados Unidos há mais de cinquenta anos e, desde o começo do século XXI, diretora de um modesto museu ao norte do estado de Nova Iorque – Carla tinha conseguido entrar na casa de leilões sem dificuldades. Apesar de muito restrito, o evento não tinha um esquema de segurança que se poderia chamar de rigoroso: eram poucos, bem poucos, os que sabiam o que estava acontecendo no lugar naquela noite.

Depois de garantida a compra, os advogados do espólio que detinham a propriedade provisória do quadro fariam um anúncio em conjunto com a casa de leilões e o novo dono da obra anunciando a incrível descoberta, em meio a outros objetos empoeirados, mas valorosos, resgatados do sótão de uma viúva recém-falecida, a herdeira da dinastia Orange, um dos braços da realeza holandesa.

O plano de Carla era descer do avião, registrar-se no hotel, passar a tarde flanando no Metropolitan matando a saudade e depois correr para o leilão.

Em vez disso, tinha descido do avião, se registrado no hotel e caído nos lençóis do hóspede da suíte 1616 para ser acariciada, chupada e comida como uma garota de faculdade de férias. Sem preocupações, sem ver o tempo passar, sem olhar para o relógio até se dar conta de que tinha menos de uma hora para chegar ao seu compromisso. O 1616 sequer protestara quando ela finalmente deixou a cama, apanhou suas roupas espalhadas pelo quarto e correu para o chuveiro no frenesi de alguém que sai do coma e descobre que está em um ninho de vampiros.

Quando Carla saiu do banheiro vestida e precariamente maquiada, com o cabelo molhado preso em um coque, 1616 estava sentado na cama, fumando. Jesus, aquele era um quarto de fumantes? Se não fosse, o FBI invadiria o lugar a qualquer instante, os americanos eram uns fanáticos.

– Preciso mesmo ir embora. Estou atrasada.

– Coloquei meu cartão no bolso do seu casaco. Mas você sabe onde me encontrar.

Ele sorria. Deus, ele sorria.

Carla balbuciou uma despedida desajeitada e deu as costas para a cama, para enfiar a bolsinha de maquiagem de volta em sua bolsa e apanhar o casaco que jogara horas antes sobre uma das poltronas do quarto. Quando se virou, 1616 estava a poucos centímetros dela. Tomou-a nos braços e a bolsa e o casaco foram para o chão, enquanto ele beijava seu rosto, pescoço e colo, enquanto a língua dele acariciava seus lábios, enquanto ela era tomada pelo mesmo desejo de algumas horas atrás, de se deitar ao lado dele, de morder seu peito e se esquecer do mundo enquanto trepavam mais uma vez.

Estremecendo e se agarrando a um breve instante de lucidez, Carla se soltou dos braços dele, apanhou suas coisas e foi na direção da porta. Ao olhar para trás por um instante, viu 1616 parado no meio do quarto, nu e sorrindo.

(continua no próximo domingo)

Perdeu os primeiros capítulos? Vem com a gente:

O último Rembrandt #1

O último Rembrandt #2

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