Seja coronel, seja herói

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Seja coronel, seja herói.

As lutas das minorias todas continuam deixando capturar-se pelos seus senhores. Ainda estamos a repetir as velhas histórias do patriarca de Gilberto Freyre, ainda estamos a acreditar em coronéis. Os coronéis de toda uma literatura dos rincões do Brasil. Uma literatura Amadiana.

Tornamo-os heróis.

Temos dificuldade de produzir políticas outras que não passem por estes heroísmos. Precisamos deles, dos grandes revolucionários da elite-branca-cis-hetero-normativa a nos dizer que caminhos seguir. A nos dizer que rumos serão os melhores para a nossa consciência.

Para a nossa inclusão.

Não é só o lugar fascista do atropelamento vil dos direitos. São também esses que oprimem sorrateiramente, a delícia (com dor) que ativa o fascismo em cada uma e em cada um de nós.

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Sem tempo: Como Hélio Oiticica, gostaria que fossem mais margens e menos centros. Como Grada Kilomba (e seus projetos para os desejos) quero, mais que me zangar e me ressentir, re-sentir as heranças coloniais. É tarefa minha (nossa) dar conta desta herança maldita/gostosa (copiando Cleber Braga e seu cabaré decolonialista).

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

 

Sinal Fechado – Encontros E Despedidas

Por Rafael Fabro*, Biscate Convidado

“Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe…
Quanto tempo… pois é…
Quanto tempo…”

O tempo parou, o avião caiu, a garganta fechou. Saindo de casa às 7 pra levar filha na escola como no cotidiano do pão-com-manteiga de sempre, o porteiro chama de sopetão e esbaforido: “caiu… o avião da Chapecoense caiu!”. Vou ver um pouco da tv com ele, recebo as primeiras notícias gravíssimas e fico num misto de perplexidade e tristeza relembrando a fábula da pequena equipe que alça voo rapidamente em busca de títulos impossíveis.

Esposa desce de elevador, seguimos para o carro, rapidez pra chegar ao destino, rádios aos montes (não) dão conta do acidente aéreo. Vou catando os nomes jogados por locutores catatônicos: Caio Júnior, Bruno Rangel, Kempes, Josimar, Thiego, Cleber Santana, Mário Sérgio, Deva, Paulo Julio Clement, Victorino Chermont, vários da imprensa, convidados,… Eis que surge um nome aparentemente vivo no meio da consternação radiofônica: Danilo. Sorrio com a compensação pouca, falo de lado: “baita goleiro, ele que defendeu a bola que os levou pra final”. Penso no meu pai com câncer, operado há poucos dias, criado no Oeste de Santa Catarina. Lembro por alguns segundos num sinal fechado qualquer do trânsito do nosso papo no hospital sobre o timaço do Torino que teve seu drama aéreo na Colina de Superga, em 49. O nome do goleiro deles, Bacigalupo (quando moleque, adorava esse nome das histórias paternas; quando ia pro gol nas peladas, me imaginava o tal italiano do esquadrão). Faço uma ponte entre os dois arqueiros. A mistura clássica inconsciente faz das suas e sigo viagem liquidificando imagens infantis às atuais.

O dia passa com buscas vastas por notícias, papos melancólicos em grupos de Whatsapp, olhadelas no Facebook, indicador subindo e descendo tela do Twitter. O choro é geral e em várias tonalidades. Fala-se do conto de fadas espatifado ao meio, do Davi contra Golias, de como aquele time catarinense era tão simpático aos olhos de todos. Na hora do almoço, as esquinas vão jorrando bocados da tragédia sem lá muita ordenação e temperando as teorias de engenharia sobre como ocorreu a queda. Todos falavam sobre futebol, destroços, pane seca, companhia pequena, Bolívia, Venezuela, a morte ou não de Danilo, da grandeza do Nacional de Medellín em desejar dar o título à Chape. Não havia piada, uma mísera piada. Para um povo tão ligado à zoeira como esporte em quaisquer áreas, era assombrosa a capacidade de lidar com o assunto de um modo novo e cuidadoso. Entre grupos, se pedia para que não se colocassem fotos da tragédia como abutres fizeram tantas outras vezes (em redes diferentes de comunicação): Mamonas, Onze de Setembro, atos terroristas outros e qualquer banalidade diária carioca. Houve um respeito por horas, dias. Nenhum meme deu as caras na era da comunicação cada vez mais onomatopeica e primária em que escrever textos além de três frases é quase um acinte.

“Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe?
Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)”

Os minutos foram céleres na terça melancólica. Danilo foi dado como morto, os sobreviventes e suas lesões foram sendo nomeados com mais precisão, notícias de homenagens dos quatro cantos do mundo nasciam aos borbotões. Minutos de silêncio, “todos somos chape”, “força chape”, escudos brasileiros todos em luto e identificados como um só: Associação Chapecoense de Futebol, em preto e branco. As redes sociais fizeram a vez da praça pública, do encontro entre abraços chorosos de antigamente. Enquanto isso, na Arena Condá, em Chapecó, território marcado pelos feitos da equipe quase toda extinta no voo para Medellín, os torcedores, simpatizantes e familiares das vítimas iam se unindo para o velho rezar de velas na mão em meio a cânticos.

Bailavam na mente vários significantes como “morte”, “futebol”, “fim” e “lenda”. Em poucas horas, percebi que estava diante de algo gigantesco. Passaram terça, quarta, quinta,… Coberturas com especialistas em acidentes aéreos, comentaristas esportivos lamentando a morte de colegas de profissão, âncoras tentando extrair o máximo de entrevistas, boletins médicos de sobreviventes e mortos, postagens nas aceleradas redes sociais de inúmeras celebridades do mundo do futebol, um palavrório sem fim para dar conta do indizível do corte abrupto do sonho. A metáfora mais repetida era de que “iriam conquistar a América e acabaram por conquistar o Mundo”.

Talvez o momento mais generoso e simbólico dessa suspensão do tempo que vivemos foi a incrível celebração confeccionada com um capricho e um cuidado admiráveis pela cidade de Medellín no Estádio Atanasio Girardot que seria palco do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana entre o time da casa, Atletico Nacional de Medellín e a briosa Chapecoense, na quarta-feira. Todos que pagaram por um ingresso para aquilo que seria mais uma partida de futebol acabaram assistindo a uma cerimônia fúnebre de poesia única por unir povos, culturas e dores. Velas e flores entrelaçadas às mãos, camisas brancas, bandeiras verdes tanto do time local quanto do catarinense pintavam o quadro da noite de comunhão de uma humanidade perdida há tempos num baú qualquer empoeirado da civilização.

Foi uma semana inteira daquela angustiazinha dolorida a tomar o ofício diário e as tarefas mais comezinhas. Só pensava no voo da famigerada Lamia, no antes, no durante, no depois que não é mais depois. No tempo que parou. Conversei com toda sorte de gente para compartilhar figurinhas: “troca aqui minha ansiedade carimbada por uma náusea repetida?”. Todos, sem exceção, falavam da Chapecoense. Todos, sem exceção, de repente, sabiam quem era Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, sobreviventes da tragédia, o goleiro Danilo e sua defesa milagrosa na semifinal que virou poema e destino, a paternidade recente do Thiaguinho, dos que não voaram por problemas banais e choravam agora nas tvs. Todos eram torcedores do Verdão do Oeste Catarinense, já sabiam de cor sobre a mística da Arena Condá e o pequeno mascote Indiozinho.

No sábado pela manhã, chuva torrencial em Chapecó a receber dezenas de caixões vindos da Colômbia. O momento nevrálgico da devastação iniciava: o velório com os corpos de cinquenta pessoas no campo da Arena Condá lotada. Tvs, rádios, sites mostravam cada quilômetro percorrido pelas carretas e os esquifes. Narrações, comentários e ofício profissional do jornalismo à beira das lágrimas frente ao microfone de trabalho. Não foram poucos os exemplos de repórteres que embargaram a voz, gaguejaram, choraram, se humanizaram. Estávamos diante de algo inédito: um episódio que chocava até os mais veteranos no papel de contar uma história, qualquer que fosse. Antes do sábado, a cena mais emblemática da cobertura da mídia e do caso em si foi o abraço maternal de Dona Ilaíde, mãe do goleiro Danilo, no repórter da SporTv, Guido Nunes. Num amparo que destruía qualquer lógica, a mãe sem filho consolava um representante da imprensa por seus vinte mortos. Rodou o mundo o abraço generoso, símbolo de uma semana única, triste, plena de ruínas, mas demasiadamente humana.

Entravam no estádio, então, os mortos de Chapecó e do mundo. Não eram só os heróis da Chape. Eram mais, muito mais. Cinquenta idas e vindas de oficiais carregando féretros às famílias e o mundo assistindo boquiaberto uma sucessão de angústias, berros, aflições, choros desbragados, cânticos entoados pelas arquibancadas, discursos aos microfones, quadros com fotos de jogadores levantados como troféus a dar volta olímpica e um sentimento inenarrável de empatia, compaixão. Conquistaram a América e o mundo. Por uma semana, nos compadecemos, nos entregamos a tentar entender o outro, o mínimo que fosse.

“Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal …
Eu procuro você
Vai abrir…
Por favor, não esqueça,
Adeus…”

Passou o sábado, a noite escureceu sobre os caixões que restaram ali na Arena Condá. Alguns já tinham voado para serem velados e passar por rituais fúnebres em suas cidades. Passou domingo, segunda e uma semana inteira desde o choque. Todos sepultados, chorados, arranhados, tocados com mãos crispadas a desejar que não fossem para sempre. Enquanto isso, aqui e ali, jornais impressos, mesas-redondas já entoavam a mesma ladainha num misto de tristeza com faxina de serpentinas de fim de carnaval. O “Vida que segue” de João Saldanha virou vírgula pro bem e pro mal. Para se falar de vida, morte, na crença religiosa de cada um ou para desabotoar as falas guardadas por dias sobre Brasileirão, rebaixamento, quem vai para a Libertadores, novos técnicos, como fica 2017 e os ingredientes batidos de sempre. Os encontros com a humanidade, essa vizinha desaparecida, foram escoando pelo ralo pouco a pouco. Enquanto escrevo essas letras, começa um Grêmio x Atlético-MG valendo a Copa do Brasil de 2016. Dizem que o show deve continuar, mas as despedidas solenes, lindas, inesquecíveis da semana que passou não mereciam ser tão fugazes.

Escutando “Sinal Fechado” e seu desconforto desde os primeiros acordes, silêncios cirúrgicos, seu encontro à beira do desencontro, achei a trilha sonora pra angústia que sobrou dos destroços. Enquanto muitos parecem seguir a vida e deixar as vestes do luto ao chão, pois é preciso “seguir a vida”, penso na tensão da música, no desencontro inevitável, nessa relação contemporânea cada vez mais ensimesmada e que de vez em quando tem seus soluços, seus sinais fechados, para abraçar, velar, escrever obituários e chorar. Lágrimas com prazo de validade. Afinal, já se passaram oito dias e as buzinas já estão bufando ali atrás. Não há “timing” para se escrever sobre isso. Porém, a pena aqui se deita no papel de teimosa, o tempo dela nada tem de cronológico. Sou um atrasado crônico, meu tempo é outro.

Diante de tantos aprendizados na última semana, desse eterno vai-e-vem e a plataforma da Estação como metáfora da vida, como na genial música do Milton, só nos cabe ter tempo de calar, chorar, vivenciar as perdas, acalentar feridas abertas, abraçar quem (se) perdeu, sorrir pela generosidade de tantos. Sabermos de que há sim, por mais que o mundo contradiga diariamente, um tempo de espera, de suspiro, de bálsamo, da escuta curiosa e detalhada, do cuidar do outro. Há o outro.

Não tampemos como máquinas ditadas por um relógio tirânico a tampa dos caixões, não devolvamos aos lenços as lágrimas choradas por viúvas, não pensemos em campeonatos, escalações, em rebaixamentos, em tapetões e vilezas. Isso haverá, é da humanidade seguir ao tropeções. Uns seguem sem parar um segundo para olhar para trás, outros demoram um bocadinho mais à beira do jazigo confortando-se com uma prece ou uma conversa amena. Contudo, que tudo que se fizer por dias, meses, anos a fio sejam crivados por saudade e solidariedade no mundo do futebol e fora dele. Que o luto e a memória do que ocorreu nos últimos oito dias não sejam enterrados na cova rasa dos indigentes.

“Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai
Pra nunca mais… A hora do encontro
É também, despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida…”

26915_411153295819_692120819_5101492_2156148_n* Rafael Fabro é moço gentil, de gostos acurados: Chet Baker na vitrola, não perde um Fellinni  na tela e, caso seja hora de ler, Paul Auster vai bem. Com esse estilo, claro que frequenta e curte nosso clube. Sabe ser amigo de biscate, ah, sabe! Carioca, psicólogo, vascaíno (tem que ter um defeitinho, né) vai aprendendo a ser: pai, marido, amigo, escrevinhador de belezuras.

esse outro dia

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Um tambor toca ao longe. Não sei a mirada do que me espera. Desejo. Desenho traços que não conheço. A morada dos meus olhos repousa longe. O que será que virá? Traço rotas impossíveis de serem tocadas por minhas mãos. Agora.

Não agora. Adivinho. O futuro repousa suave nas asas que me assombram. Faz vento sobre meus olhos. Repouso as sombras que minhas mãos não alcançam. Sobrevoo. Não será agora que toco o que não sei. Espero. Suspenso. Entrelinhas que se abrem sobre os impossíveis de minhas mãos. Trêmulas. Acendo os cigarros que não fumo mais. Nessa fumaça que se ergue, nuvem suspensa, deixo-me guiar pelo destino improvável que me abraça.

Abraço, sem braços possíveis para tocar minha intensidade. Viva, por dentre os dedos. Te toco. Lembrança imaginária da pele que me habita. Habito. Um hálito que se foi, de ontem, da lembrança de ti sobre meu corpo que não alcanço.

Um dia, que será logo. Logo mais. Promessa. Prometo. Derramo-me em linhas longilíneas que percorrem meu corpo. Adormeço como alguém que escapa no que há de vir. É logo mais, meu amor. O pouso que se esparrama em hipóteses. Seguro. Aperto. Sou eu em mim, é você em ti. Pode ser. É. Quantos verbos. Quantas ações e equações desse ser que se conjuga. Conjugo. Nós, terceira pessoa do plural.

É tudo muito. Como os soluços do choro que não se derrama porque não tem água para banhar tudo. E a chuva que não para de cair desse céu de novembro, o sol em sagitário que solta todos os cavalos selvagens do meu peito. Cavalgo por entre planícies e quedas de cachoeiras imaginárias. Deixo correr. A garganta seca dessa sede que não passa e não se faz dezembro. Vou sonhar contigo, quando o sono vier. Outro dia. É o que desejo. Esse outro dia.

Contos de Fadas

Por Jeanne Callegari, Biscate Convidada

Uma vez conversei com um contador de histórias. Ele contou muitas histórias, inclusive as suas próprias. Como de quando ele ia toda semana em uma escola e um menino pedia pra ele contar, de novo, sempre o mesmo conto. E chorava, chorava. Toda semana o menino queria ouvir o conto. E toda semana ele chorava. Até que um dia ele não chorou mais. E nunca mais pediu.

Tem algo de aterrador nos contos de fada. O medo que os personagens enfrentam, as crianças enfrentam junto. E de modo físico. Isso quem me contou foi um neurocientista. Para o cérebro, tem pouca diferença entre realidade e ficção: as reações físicas são as mesmas. Se sentimos medo, ele se manifesta fisicamente. Descarga de adrenalina, suor frio, coração acelera. A criança não simplesmente ouve uma história. Ela a sente, no corpo, com todas as suas células. E no final, quando tudo dá certo, ela sente isso também: o alívio, a tranquilidade. E ela aprende a lidar com o medo assim, fisicamente. É uma simulação que a prepara para as suas próprias angústias.

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Os contos de fada são histórias que sobreviveram no tempo, passando por várias culturas e épocas. Algo de quase universal se passa ali, algo muito humano e íntimo e que não conseguimos compreender completamente, porque cheio de possibilidades e significados. Polissemia é a palavra. Se as histórias tivessem uma única leitura possível, não sobreviveriam às diferenças entre épocas e povos. Outra palavra: simbólico. Se o medo que sentimos no corpo é real, as ameaças são simbólicas. Não há uma Fera, um Lobo Mau, vindo nos pegar. As crianças sabem disso. Se não soubessem, seria intolerável dormir com um monstro debaixo da cama. Mas elas dormem.

Fera, Lobo Mau, Bruxa Má nada mais são que os medos e angústias de cada um personificados, transformados em arquétipos. Os pais dos protagonistas morrem no início das narrativas porque as histórias estão lá pra nos ajudar a crescer, a ficar independentes. A enfrentar os desafios de um mundo que, sem as referências parentais, se torna assustador. É preciso aceitar o chamado e ir viver a própria jornada.

É preciso largar o pai e ir ao encontro da Fera. É preciso ir ao encontro do desejo, um desejo novo, que assusta, que parece monstruoso à primeira vista. Ao nos familiarizarmos com esse elemento, ele se humaniza, se reduz, volta a uma proporção menos aterradora.

Mas também não é só isso. Polissemia, como disse. Ouvir histórias é também vestir a máscara de cada um dos personagens e ver como é estar no seu mundo. A criança de qualquer gênero pode se identificar com a Fera, com sua inadequação, sua percebida monstruosidade, sua necessidade de ser amada e seu medo de nunca conseguir ser, por ser como é. E ver que mesmo ali existe humanidade e amor. É aceitar-se.

E assim a história vai, e segue, com múltiplas leituras. Simplifico bastante alguns significados, psicanalistas podem dizer melhor. Mas é isso. O que os contos trazem, mesmo nas versões higienizadas da Disney, é uma possibilidade de lidar com coisas que nem sabemos quais são. Daí meu receio com a leitura das histórias de forma literal como tem rolado, reduzindo e tratorando tudo a papéis sociais criticáveis – o relacionamento abusivo, o cárcere privado. Estaríamos perdendo a capacidade de fazer leituras simbólicas das coisas? Talvez seja sinal dos tempos, afinal, os contos já foram muito mais assustadores do que hoje, e nada garante que não sejam ainda mais higienizados. Acho que seria uma pena, mas quem sou eu na fila do pão.

Jeanne CallegariJeanne Callegari é poeta e jornalista, autora de Miolos Frescos (Patuá, 2015). Adora um ismo – desde que esteja do lado certo da força, como ciclismo e feminismo. Você pode encontrá-la em jeannecallegari.com.br/blog.

Parênteses

Por Maíra A., Biscate Convidada

2015 foi o meu ano dos homens. E do respiro. E de desejar e ser desejada. Escrevi textos pra todos os meus homens de 2015, que fizeram de mim Fênix, mas não escrevi pra você. Talvez porque você sempre estivesse ali e sempre esteja aqui pra mim. Estar com você é sempre um estar-em-suspensão. Apesar de o-que-ou-quem-quer-que-seja. Homens chegam, ficam ou param por uns minutos, se vão. Mas você é o que sempre volta. E o lindo é isso: você não ser jamais o que fica, mas ser o que sempre retorna. Na forma de uma mensagem de whatsapp, de um café, de um abraço ou do melhor sexo, o mais sem censura, o com mais conexão. Fixação circulante. Solidez evanescente. Profundidade leve. E é mágico esse colocar-entre-parênteses das roupas arrancadas, do desejo realizado, da conversa que passeia da piada cotidiana ao teatro elisabetano. Da lembrança das aulas de grego ao orgasmo homérico do aqui-e-agora.  Com você flutuo na corrente do desejo e juntos boiamos à deriva, sem expectativa alguma de onde chegar, só aproveitando abraçadinhos enquanto a correnteza favorece. E é na suspensão das expectativas, no flutuar do corpo, que a nossa beleza explode, que a nossa alquimia acontece. Completamente despidos de roupas, expectativas ou demandas, juntos somos, apenas e assim mesmo: intransitivamente. Apenas somos. Apesar de. Aliás, exatamente porque. Não sei se cinza da morte ou se apenas poeira cotidiana dos dias. Mas contigo do pó renasço. E ao pó retorno. Poeira de estrelas. Amor-enigma com destinatário, mas sem endereço. Latência que pulsa. Tesão que move. Pulsão que se movimenta. Movência que late. Bocas que se mordem. Braços que se abraçam. Se demoram. Se despedem. E que me suspendem. Enfim, me sinto viva. Parênteses fora do tempo.

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Vale o Escrito, com Fal Azevedo

Fal Vitiello Azevedo é escritora, tradutora, preparadora de originais, blogueira, autora dos livros “Crônicas de Quase Amor”, “O Nome da Cousa” e “Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite”. Fal também é professora e está promovendo uma nova edição da oficina de escrita criativa “Vale o Escrito”, em que tratará de técnicas de escrita, literatura, blogs, sangue, suor e lágrimas na organização de textos.  A gente já fez e recomenda demais.

Fal escreve desde 2002 o Drops da Fal e, atualmente, tem uma coluna no Oba Gastronomia. De escrita cativante, sem reserva, dada, danada e, esperamos, das que se agrada de andar seminua, convidamos para um papo com o Biscate.

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Luciana e Renata, tirando uma casquinha da Fal

1. Como o “escrever” aconteceu na sua vida? E como se tornou sua atividade profissional? Atualmente você separa escrita amadora e profissional na sua produção?

Venho de uma família que lida muito bem com a palavra e muito mal com emoção. Somos assim, todos nós. E, de forma geral, sempre foi também uma forma de ordenar meus pensamentos. Além disso, e acima de tudo isso, aprendi a escrever para ser amada. Aprendi bem cedo que muito pouco ou quase nada do que eu fazia rendia elogios e abraços. Lá em casa, digo. E minhas redações geravam abraços e tapinhas na cabeça. Escrevo, basicamente, para você gostar de mim. Acho que nunca nos livramos da casa do pai.

Em 1998, reuni meia dúzia de crônicas num livro cuja publicação meu pai bancou. Como não poderia deixar de ser, foi um encalhe monumental. Algum tempo depois, descobri os blogs. Fiz um. E descobri que tem leitor para todo mundo, é só procurar, trabalhar bastante e não ser chato. A parte do “não ser chato” ainda estou tentando. Achei meus leitores, continuei a escrever. Parei. Voltei. Parei. Voltei.

Não tenho escrita profissional e amadora, não, só tenho a minha escrita e toda ela é uma coisa só.

O que aprendi é que texto é vaca. Escrita é boi. Tudo, mas tudo mesmo, se aproveita.

Aquela lista que você escreveu em 1983, vira uma coluna, vinte anos depois. E-mails viram contos. Aquela historieta que você começou a bolar sem saber para onde ia, vira livro. Outra coisiquita, post no blog. Tudo se recicla, tudo se aproveita.

Quando você tem paixonite antiga por algum escritor, como eu tenho pelo [Luis Fernando] Verissimo e pela [Erma] Bombeck, esse processo fica mais claro: é só xeretar na obra deles que você vê. O velho reescreve a mesma crônica um monte de vezes. Rouba de si mesmo o mote, o tema, as expressões, uma ou outra situação. A Bombeck a mesma coisa. Então, tudo se aproveita.

Não separo nada, escrevo muito, escrevo tudo, escrevo, escrevo, reescrevo, digito só para imprimir e rabiscar de novo, e sigo nesse processo, garimpando aqui e ali, refazendo, cortando, explicando, refazendo, refazendo.

2. Quais as fronteiras entre ficção e não-ficção na literatura, pra você?

Não existem. Caiu no papel é ficção. O Verissimo diz “não existe a verdade, existe a versão que colou”. Tudo é versão, todo o contar é subjetivo. Suas influencias, seus gostares, seus preconceitos, sua leitura do mundo, permeiam tudo o que você diz, conta, vê, come, escreve, entende, deseja. Você mesmo é todinho uma versão, uma invenção, uma montagem completa e irreversivelmente subjetiva.

Precisamos lidar com essa falta de limite da ficção com a realidade da melhor maneira possível, porque ela sempre vai existir.

3. O que você acha importante dizer pra alguém que está começando a escrever?

Que escrever é trabalho pesado. Diário. Duro. Não existe texto pronto, não existe “eu estava ali e pá, o texto saiu pronto” e mesmo inspiração, se é que existe, é coisa rara e difícil. Uma obra não se constrói na base da inspiração. Você precisa de horas de voo, muitas, muitas mesmo.

Depois: há que se estabelecer um método. Tem quem ria de mim e das minhas listas, mas vou dizer: se organização não for tudo, é quase.

Método, rotina, uma ordem a ser seguida, trabalho, trabalho. Fechar rede social, e-mail, parar com essa palhaçada de ficar no Facebook falando coisas imbecis do tipo “enquanto me preparo para começar o capítulo 1 da minha obra, observo e o luar e…”. Mano, vai se catar. Para com isso. Vai trabalhar. A Palestina, os índios, o Congresso, a eleição, todas causas meritórias e tal, parabéns, mas nada, nada, nada disso vai botar seu livro em pé, desculpe. Vai trabalhar. O Freixo não vai escrever seu livro por você.

O cara que escreve precisa, quer e deve ser lido. Sim, sim. Quem escreve “para expressar seu rico mundo exterior e não para ser lido pelo outros” é favor fazer isso no caderninho de capa florida que fica escondido debaixo do colchão.

O escritor dá a cara a tapa, precisa estar preparado para o tapa. Que virá. Ele vai ser avaliado, vai ser julgado. Nesse país que ninguém lê porra nenhuma, todo mundo é crítico literário, é impressionante.

O olhar dos outros é importante, é para recebê-lo que você escreve. Então, há que se buscar o equilíbrio entre valorizar o olhar alheio e não deixar que ele domine a sua vida. O dia que você diz “não posso escrever isso porque a minha cunhada vai achar que é pra ela”, “porque a minha mãe vai ficar sentida”, amigo, larga tudo.

Escrever é aprender a se dividir entre se importar com a aprovação alheia e andar todo mundo pro diabo. Você tem de querer o olhar do outro e, ao mesmo tempo, não permitir que ele determine seus passos.

4. Você acha que ser tradutora ajuda ou atrapalha seu ofício de escritora?

Ajuda, sempre. Traduzir constantemente cria uma intimidade com as palavras que só aumenta, e isso é maravilhoso. Libertador. Eu adoro ser tradutora.

5. O que é que você acha mais difícil na hora de escrever?

Estabelecer o tema, encontrar o narrador. Encontrar o narrador ocupa meus dias. Narrador, esse cara fugidio, difícil, malvado, inconstante.

6. Como surgiu a ideia da oficina? Quem é o público-alvo? Qual a contribuição que você supõe para quem não tem a escrita como profissão?

Faço isso há muitos anos. Botar o cara escrevendo, digo. Comecei na década de 1990, ajudando os alunos de um curso de pós em Sexualidade Humana a montarem seus textos, a organizarem os pensares.

O público alvo da oficina é quem quer escrever. Quem deseja pensar melhor e de forma mais organizada. Expressar-se melhor.

Todo mundo precisa escrever melhor. Trabalhando com advogados e engenheiros, afirmo: todo mundo. Organizar o discurso, passar o recado, fazer um registro decente não são habilidades necessárias só para quem tem a escrita como profissão.

É humano registrar e anotar e analisar e entender. O que chamamos de História só começou quando inventamos a escrita. Todo mundo precisa escrever bem.

Ao contrário do que reza o senso comum, acho um baita elitismo relegar a boa escrita aos “profissionais”. A técnica tem de alcançar todo mundo. As pessoas têm o direito de saber que existe uma técnica, de se apropriarem dela. É isso que tento trabalhar nas oficinas.

7. “Madame Bovary sou eu”, disse Flaubert. O que você comentaria sobre estilo? Você acha que tem um? De onde vem o estilo, em sua opinião?

Estilo é prática. Estilo não se inventa: aparece quando você, todo santo dia, senta na frente do computador, do caderno, do bloquinho e escreve. E reescreve. E tenta outro narrador. E faz exercícios escrevendo o mesmo trecho com sem adjetivos, com e sem verbos no infinitivo, com diversos narradores. Estilo é o que se sobressai, depois de muita, muita prática.

Faço isso há muito tempo. Ler e escrever. Tenho um estilo. Que vai mudando, sendo alterado, perdendo e ganhando características, mas que está lá. E isso acontece com todo mundo que se dedica.

E importante, o estilo vem, também, da leitura. Acho que nunca vou falar isso o suficiente, você precisa ler. Todo dia. Sempre. Ler, ler.

Leitura e prática diária, atenta, dedicada: o estilo virá daí. Não cai do céu.

8. O imaginário do senso comum geralmente relaciona escrever com inspiração. As pessoas da área geralmente ressaltam a transpiração envolvida. Como acontece na sua produção? Escrever é um trabalho com que especificidades, na sua vivência?

Geralmente frustro quem me procura para obter dicas sobre escrita, porque acho o seguinte: não existe inspiração. Se existe, é uma centelha. É um tico-tico de um segundo, é um brilho no olho. O resto é só trabalho, frustração, leitura em voz alta, chiliques variados, livro de consulta pra todo lado, dicionários. Escrever é eito. Não é bonito. Não é um processo suave, você ali, de cabelo assentado, bebendo coquetéis e fazendo charme.

Esse negócio de “eu tive uma ideia” é lindo, mas uma história não se constrói assim.

Quem fala de transpiração está coberto de razão – e de suor. É isso, e quase que só isso. Zero glamour. Zero gracinha. Zero vibe “poeta maldito”. Zero pose na rede social. Só trabalho. E café.

As particularidades são muitas.

Você precisa de organização, de descobrir como você produz melhor. Precisa descobrir quantas horas por dia ou por semana terá para dedicar ao projeto. Pensar sobre o que você vai escrever, se tem prazo, se tem normas, se você precisa de ajuda com a pesquisa, se seu equipamento é suficiente, se você precisa de ajuda com transcrição ou com tradução.

Desenvolver o trabalho sempre atento ao método, à constância, à qualidade da produção.

E depois do trabalho pronto, especialmente se for um livro: você precisa de uma leitura crítica. Você precisa de preparação de original. E você precisa de revisão. E nenhuma dessas coisas pode ser feita por você. E todas, todas elas precisam de tempo. E de profissionais fazendo, PARA de encher o saco dos seus amigos, cara. Para. Sabe aquele “Dá uma lidinha e me diz…”? Não faz isso com seus amigos. Seus amigos não amam o que você escreve, eles amam você. Seu irmão não dá a mínima pro seu livro e ainda perdeu a cópia com dedicatória amorosa que você deu pra ele. Ninguém da sua família dá a mínima pro que você escreve e seus amigos, juro, têm mais o que fazer. Para de ser chato. Contrata profissionais pra lerem você. Ou faz escambo com seus amigos revisores e preparadores. Nós adoramos escambo.

Revisão, especialmente, é um negócio que precisa de dois, três meses, porque, num mundo ideal, o revisor precisa ler, anotar, refazer, deixar o livro descansar um mês e daí voltar a ele. Na organização que sustenta o mercado editorial brasileiro é impossível, espera-se revisão feita em uma semana. Mas enfim, no seu livro lindo, do seu coração, que não obedece a nenhum prazo arbitrário e sem noção, por favor, reserve meses para que alguma alma dedicada e fofa possa revisar seu trabalho como ele merece. Compensa demais, demais, demais.

Além disso tudo, que é muito importante, tem o seguinte: apesar do trabalho insano e da falta de sono e da frustração e da busca inglória pela palavra exata, escrever precisa ser um movimento no sentido do prazer. Da alegria. Eu me recuso a aceitar esse negócio do “o processo é horrendo, eu gosto é do resultado”. O processo tem que ser delicioso. Cada passo, cada capítulo, cada noite em claro têm de fazer você feliz.

Desejo que você se sinta feliz escrevendo seu livro, sua tese, seu doutorado, sua poesia. Por isso, também, não compro esse papo furado de poeta maldito. Sabe esses caras que dizem que não buscam felicidade, que felicidade não existe, e blablablá? Fuja desses picaretas e vá ser feliz com sua escrita, seu processo, sua narração, suas personagens, com o café frio, as noites em claro, o computador que ferve. Ainda que lá no meio doa e tal, o processo não pode ser baseado em dores d’alma, estilo século XIX. Se não for para ser feliz no meio dessa confusão, melhor jogar paciência. Ou fazer pose na rede social. Dá um ibope danado fazer pose na rede social, aliás. Mas se for pra escrever, mete a cara.

Informações

Vale o Escrito no Rio de Janeiro: Casa Clássica – 26 de novembro de 2016, 13h-18h (inscrições no link)

Vale o Escrito em Sorocaba: Granja Olga – 03 de dezembro de 2016, 14h-18h (inscrições no link)

Para não deixar de referir um assunto tão atual

Por José Navarro de Andrade, Biscate Convidado

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O amor é um sucedâneo do medo.

Incómodo e bruto, do medo há o hábito de afirmar que enfraquece, tomando-o como um estado de espírito; mas na verdade é mais do que isso, é uma disposição orgânica – cheira mal, procura a sujidade, provoca ruídos torpes. Mas não havendo na natureza nada perfeitamente maligno, também o medo goza de qualidades, como a de ser um tónico para o instinto de sobrevivência.

Eles alongaram o domingo na cama, nús, devorando figos, lendo páginas de livros começados, conversando sem fim ou apenas vagueando a imaginação. Durante um pouco da manhã ouviram música, mas depois preferiram o rumor da cidade a passar lá fora. Entretiveram-se também a fazer amor quando apeteceu. Ao início da noite vieram à sala, depois de correrem as persianas, para ver o jogo na TV enquanto comiam queijo fresco com pimentos vermelhos assados de conserva.

Setembro é um mês ingrato para uma grande população de estudantes, namorados e vinicultores — nele são raros dias assim. Ora isto acicata o medo. O medo de nunca mais regressar a um dia em que nada foi necessário, a um estado de tão ocasional e mínima felicidade. Não é aqui o caso de um medo de perder, mas sim o medo de não voltar a ter. Se aquele é vulgar e contumaz como um desarranjo intestinal, este é lento, um cancro minucioso que vai progredindo célula por célula.

Como de costume, o remédio está na própria doença. Assim é o amor, aparecido na vontade de tornar a ser feliz. Só atinge o amor quem atravessa o medo.

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José Navarro de Andrade é português, sportinguista e a melhor e mais querida pessoa para ter a nos esperar quando se atravessa um oceano.

Revolução

Que ninguém nunca mais tenha que cortar a si mesma para caber dentro de um nome, uma caixa, um relacionamento, uma diretriz, uma norma. Que nossos erros sejam nossos, sejam pulverizadores, sejam construção. Que saibamos que todas somos faltantes, todos, que os certos e errados são nossos e de mais ninguém. que saibamos perdoar as mágoas, que possamos renascer em dias felizes, que possamos aprender que amar é verbo expansivo, que possamos florescer nas tempestades e rios cheios, que possamos ir além do evangelho. 

Que possamos transgredir a mentira do outro para ele mesmo, que possamos diluir a ideia que fazem de nós. Que possamos ser a mentira que quisermos, que possamos calar, individualizar e virar manto coletivo, que consigamos adentrar os julgamentos com a cara limpa de quem é, de quem ultrapassa as sentenças condenatórias para apenas voar para além do gesso dos dedos que nos apontam. 
 
Que se quebrem os gessos, todos, um por um, que se calem as maledicências de quem não olha pra si mesmo, que se rompam os silêncios e caras feias de fome de vida. Que os sofrimentos sejam cada dia mais desnecessários, porque viver, viver nos ultrapassa em ventos abertos de horizontes farto. Que a leveza possa ser uma escolha, que a vida renasça a cada ciclo acolhida pelo jardim, que as mãos estejam sempre sujas de realidade. E que saibamos sempre viver a vida possível. Está tudo bem do jeito que está. Embora haja tanto mar e tantos novos e melhores mundos para serem construídos. 
 
Que ninguém mais precise rimar amor com dor, que se soltem as selas e os cavalos selvagens possa correr e ter para onde voltar, que a água seja límpida, aquela que vem de dentro da nossa sede, que amar possa finalmente ser um verbo expansivo, que as travessias penosas nos ensinem a sermos flor de vento que sorri nos redemoinhos. 
 
axé. eparrei. correnteza, chão de terra, trovão, clarão. 
 

revolução.

O sexo para uma gorda Não-Binária

Por Helen Taner, Biscate Convidada

photogrid_1472221102186Claro que esse texto pode causar muito estranhamento porque, na nossa sociedade, uma mulher não pode apenas gostar de sexo. “Mulheres fazem amor, homens trepam”. Deixa eu te contar dois detalhes: [1] mulheres gostam trepar tanto quanto homens e não, não precisam de um sentimento para fazê-lo, assim como homens não trepam só por tesão, ou seja, vai da pessoa galera, NÃO do gênero. E [2] eu não sou mulher. Mais ainda, esse texto é um relato de como é a vida de uma pessoa que parece ter três “problemas”, no sentido estritamente social do termo, de aceitação/exclusão social. Para mim, nenhuma das três coisas são problemas em si mesmos.

Pois bem, pra começar a conversa, eu sou uma vadia.. O segundo lance é que eu sou gorda (“ai não, você não é”, sou sim, galerê, 105 kg está bom para vocês ou esse termo só é aceito se eu tiver obesidade mórbida?). A última questão  talvez cause um estranhamento de primeira, mas eu sou uma pessoa TRANS NÃO BINÁRIA, mas especificamente AGÊNERA. Que isso? (cara assustada de quem nunca ouviu esse termo) Olha, é simples: não me identifico nem como mulher nem como homem, tenho a configuração corpórea do que é considerado mulher e me visto mesclando a expressão dos gêneros, ou seja, minha expressão é fluida. Eu ainda prefiro ser tratada no feminino, mas se fizerem o oposto eu não ligo não. Complicadinho né? Imagina para mim! Assim, esse relato é sobre como é para uma gorda não binária ser uma vadia e todos as confusões/consequências que isso traz.

Vou partir de princípio que aqui ninguém vai se ofender caso eu use um linguajar chulo (ou vulgar, se preferirem) e que ninguém vai me julgar pela minha identidade de gênero (espero mesmo que isso não aconteça). Entendido isso, acho que agora é bom começar falando o porquê de eu me entender uma vadia.

O sexo (eu não gosto muito de usar essa palavra não) está presente na minha vida antes mesmo de praticá-lo. Até porque eu sou uma dessas pessoas atrasadas que só foi trepar aos 20 e eu nem completei 21 ainda (na verdade, é semana que vem). Lembro de procurar pornografia desde os 12 anos, mas só fui “agir”, digamos, anos depois e entender a “ação” muitos outros a frente. Só sabia que o que eu fazia era considerado errado, parte por ser de família católica e ser ensinada que Deus estava vendo tudo e, de outro lado, por uma das minhas irmãs olhar o histórico do computador e tentar a todo custo descobrir quem estava vendo/fazendo essas “coisas nojentas” (ela nunca teria descoberto que era eu se eu não tivesse contato isso durante uma briga). Isso me bloqueou e eu não conseguia mais nem me tocar por achar errado, imagina deixar outro me tocar.

Aí quando eu estava perto de completar os vinte, eu olhei para mim mesma e disse “você tem que superar isso, libera logo”, mas não, eu não achava ninguém para isso. “É só falta de oportunidade”, dizia, “quando alguém quiser me comer, eu vou dar, sem importar a pessoa”. Rolaram umas duas oportunidades depois disso, a primeira era com um cara que trabalhava num bar  que eu costumava frequentar, mas ele queria me comer no banheiro de lá e claro que eu ia deixar, mas o universo conspirou e eu fui impedida (alguns meses depois eu descobri que isso foi ótimo, pense num cara nojento e grotesco na “cama”); a segunda foi com um menino mais novo que queria muito perder a virgindade também, então ele me chamou para ir na casa dele quando os pais dele viajaram, ou seja, “é tetra, é tetra” e lá se foi meu hímen. Como qualquer uma fiquei deslumbrada (e um pouco confusa, pois já tinha uma parcela de não identificação e jurava que o sexo ia ser a saída, “você só não se entende como mulher, porque ainda não é uma!”, não foi e só piorou), mas ele não quis nada comigo depois e não demorou em me chutar. A partir daí transei, mas transei com todos os caras que queriam antes e também fiz um esquema de ter um cara diferente por mês (e às vezes eram dois caras diferentes), infantil eu sei, mas quando se é atrasada todo modo de recuperar o tempo perdido é valido. ‘Perdi’ quatro meses desse esquema, pois comecei a namorar (trepei muito também e com alguém que me amava, algo que eu nunca tinha sentido até o momento). Não vingou, eu não conseguia me acostumar com único pênis, queria conhecer “de todos tipos, cores e tamanhos” como diria uma tia minha.

Além disso tudo, eu adoro ver sair, em meio a um sorriso malicioso, um “em você só quero dar uns tapas” da boca do cara ou ver os olhos (azuis, nesse caso específico) sendo cobertos pela pálpebra enquanto eu beijo o ‘belo pau delicia’ (como eu chamo o membro, dos caras que eu trepo) do cara e ouvir um “ninguém o tratou tão bem até hoje”. Isso me dá um prazer gigantesco-

Então esse é um resumão, mas é por isso que sei que eu seria considerada vadia e assumo o termo, não me importo em falar o que quero, como gosto, de fazer o que tenho vontade e dar independentemente da situação, local (dentro da lei) e da pessoa.

Parece, assim, que eu dei para c***lho e que sempre foi maravilhoso, mas eu tive muitas situações ruins e agravadas pelo peso e pela identidade. Falando no sentido do “peso”, primeiramente queria contar que eu amo meu corpo e que não, não tenho nenhum problema de saúde decorrente dele, então ele não é realmente um problema para mim. Mas quando se trata de homens e de sexo, aí sim existe, não para mim, para eles. Se de um lado existem caras que não saem comigo pelo meu peso, existem outros que saem por causa dele. Mas aí temos três tipos de homens: os primeiros que gostam do meu peso pelo volume a mais que ele dá na minha bunda e esses geralmente não ligam, realmente, para como ele é, eles gostam; a segunda parcela gosta se não ver de jeito nenhum ele inteiramente descoberto (sim, existem caras babacas que brocham se veem barrigas e estrias), eles gostam de trepar comigo, mas sem ver meu corpo (eu não saio mais com esses caras); e os últimos são os fetichistas, são homens que vem a obesidade como algo excitante, mas sempre precisam reafirmar a sua gordura e usam você somente como um objeto sexual, independentemente de ser você ou outra, sendo gorda está valendo. Eu prefiro os primeiros, que não se importam mesmo com meu corpo e se excitam comigo, sem ser causada ou desfeita por causa do excesso de peso. Mas não se tem muito como saber qual deles o cara que você está é, somente na hora mesmo e aí é tarde demais (“cilada, Bino”).

A não binaridade é uma descoberta recente (lembra da confusão da virgindade, então, ela culminou nisso), mas o que ela me custou após isso foram, até agora, duas coisas: perda de interesse sexual dos meninos para quem contei e o meu brochar diante de homens que me chamam de mulher durante o ato (o que faz com que ele todo seja, em conclusão, ruim). Isso fez com que eu diminuísse um pouco as trepadas e também que não contasse a homens que eu não sou mulher, caso eu soubesse que era “lance de uma noite”.

O não contar é muito problemático e eu entendo isso, mas o contar, cara, é complicado. Primeiro vem o mal entendido comum entre Identidade de gênero e Orientação sexual, ou seja, acham que eu sou lésbica. Depois vem o difícil, conseguir explicar que eu não sou um homem trans, pois a transgeneridade é “aceita” mais facilmente (explicando que as aspas estão ali para lembrar que primeiro ninguém precisa da aceitação de outrem e segundo que eles ainda são excluídos, renegados, marginalizados e que a condição ainda é tratada como patologia) quando está dentro da lógica da binaridade (um homem e uma mulher, independente do corpo de origem).

Mas claro, espero algum dia estar totalmente segura para contar ao mundo e não me importar com que os caras pensam, mas hoje ainda não é esse dia, eu gosto muito de dar e infelizmente só consigo se fizer cisplay (um cosplay de cisgenera). Viver não é bolinho, não tem resposta certa nem saída fácil, eu ainda mascaro problemas e não saí totalmente da lógica normativa. Quem sabe outro dia volto ao clube pra contar mais das experiências sexuais e como venho lidando com esse emaranhado que é ser quem se é ao viver a sexualidade. Pra terminar, foda-se quem cobra sobre seu corpo, foda-se quem cobra sua identidade, não há necessidade de se afirmar para ninguém e se alguém te cobra isso dê um pé, mas bem dado, na bunda dx infeliz. A única pessoa que tem que te aceitar é você e é muito mais prazeroso quando a gente o faz (eu estou em processo ainda, mas disso eu sei).

IMG_20170129_134820Helen Taner de Lima é uma vadia Trans Não Binárie – Agênero, que responde pelos dois pronomes, e Pansexual, graduanda em Filosofia na PUCPR, que estuda gênero e Teoria Queer, escorpiana que não acredita em astrologia e professora quando o governo deixa. Blog pessoal: http://harmonuim.blogspot.com.br/?m=1

Eu não sabia o que era uma gravidez ectópica

Por Simone Frigo*, Biscate Convidada

Quando aconteceu comigo eu nunca tinha ouvido falar. Sem falsa modéstia, não me considero uma pessoa pouco informada sobre sexualidade e tal… Mas não sabia e aconteceu comigo. Hoje, depois de quase cinco anos, resolvi contar a minha história, de como descobri sobre a gravidez ectópica e os procedimentos médicos realizados na situação.

Eu queria engravidar, ou melhor, eu e meu ex-companheiro queríamos. Colocamos o plano em ação. Nesse momento, ele foi fazer uma viagem de trabalho para a Espanha e ficou um mês fora. Esse mês foi o período onde exatamente tudo aconteceu.

Ele viajou, passaram-se uma semana. Minha menstruação deveria descer na quinta, não aconteceu. Na sexta de manhã comprei um teste de farmácia. Positivo. Tirei foto para mandar para ele. Fiquei mega feliz. No mesmo dia, período da tarde, fui fazer xixi e desceu sangue. Fiquei preocupada, confusa. Liguei para minha ginecologista. Ela me orientou a fazer o teste de sangue e tentou me prevenir, acalmar, dizendo que poderia não ser gravidez, que era muito cedo e coisa e tal. Segunda fiz o teste de sangue, super positivo. Nossa! Não deveria me preocupar, às vezes ocorrem sangramentos quando o embrião está se fixando na parede do útero, disse a ginecologista. Beleza. Segue a vida feliz.

Aí começou realmente minha agonia. Uma semana inteira tendo sangramentos na urina, dia sim, dia não. Por orientação da ginecologista, marquei uma ecografia transvaginal. Indicada para períodos iniciais de gestação, quando é necessário detectar algum problema. Minha ginecologista tentou me preparar mais uma vez. Conforme me disse, poderia ter acontecido um aborto espontâneo. Na pressa e ansiedade do momento, marquei a ecografia no único local disponível no dia. Fui mal atendida e conforme se confirmou depois, o procedimento não foi realizado da forma adequada. Simplesmente olharam meu útero e não todo o complexo reprodutivo e, me disseram, “não tem embrião nenhum aqui. Você não está grávida, pode nunca ter estado ou já teve um aborto espontâneo”. Saí de lá muito triste. Liguei para a ginecologista e ela indicou, por não confiar no laboratório que fiz a ecografia, que eu refizesse o teste de sangue em três dias.

Nesse período eu continuava tendo sangramentos esporádicos e uma dor, bem parecida com cólica, começavam a surgir. O estranho é que a dor não era no colo do útero, essa dor de cólica menstrual. Era mais ao lado direito, mas estava tudo muito confuso e só fui entender isso depois.

Refiz o teste, estava mais grávida do que nunca. Super hormônios no sangue. O que está acontecendo??? Não entendia mais nada.

Ginecologista mais uma vez. Refaça a ecografia transvaginal. Me indicou dois laboratórios. Consegui marcar para duas semanas à frente. Em uma semana e meia esperando o exame, as dores e sangramentos começaram a ser mais intensos.

Quinta feira liguei para a médica. Falei da situação. Pela primeira vez ela me falou do termo “gravidez ectópica”, me explicou através dos sintomas. Falou que poderia ser uma gravidez fora do útero, é isso que significa. Ela me indicou o pronto socorro da maternidade que atendia e me orientou sobre as dores. Se as dores aumentassem, eu deveria ir urgentemente para lá e chama-la. Ela é uma boa médica, particular já digo.

Fui para o Google. Simplifico aqui a pesquisa. O que é uma gravidez ectópica? Após o encontro do espermatozoide com o óvulo, este migra para a parede uterina dando início ao desenvolvimento embrionário. No caso da gravidez ectópica, o óvulo fertilizado se implanta em algum lugar fora do útero. Uma gravidez ectópica tipicamente ocorre em uma das trompas de falópio, um tubo que conduz os óvulos dos ovários para o útero. Esse tipo de gravidez ectópica é conhecida como gravidez tubária. Em alguns casos, no entanto, uma gravidez ectópica ocorre na cavidade abdominal, no ovário ou no colo do útero. Uma gravidez ectópica não pode prosseguir normalmente. O embrião não sobrevive e pode destruir várias estruturas internas da pessoa gestante. Por isso, o procedimento médico realizado é a retirada do embrião. Procedimento completamente legal e realizado em hospitais que possuem infra estrutura para tal. Se não for tratada, há o risco de hemorragias, que podem ser fatais. Ocorre entre 1% a 2% das gestações, mas por conta da dificuldade de acesso á saúde, está entre as importantes causas de óbito no Brasil. Ver mais em http://www.lersaude.com.br/gravidez-ectopica-uma-das-principais-causas-de-morte-materna/

Voltando…

Sexta feira, ilusão.

Sem dores, sem sangramento. Tudo vai dar certo. Não deve ser gravidez ectópica. Felicidade.

Sábado, negação.

Lembro como se fosse hoje. Passei o dia todo corrigindo provas, as dores aumentando. Eu pensando, vai passar. Só estou com dor porque fiquei muito tempo sentada. Me iludindo. Passei umas das piores noites da minha vida, com muita dor, muita cólica do lado direito do útero. Quero que saibam que eu não estava sozinha, tenho muitos amigos e familiares que poderia ter recorrido, mas eu não conseguia. O que eu conseguia fazer era ficar ali sozinha, sentindo dor. De madrugada coloquei o telefone ao lado da cama, achei que não iria aguentar a dor, pensei em morrer, dormi.

Domingo, aceitar a dor.

Acordei, tomei banho e liguei para o meu pai. Eu preciso ir para o hospital. Fomos. Hoje dou risada e penso, como os homens ainda precisam se preparar para acolher e vivenciar a dor dos outros. Meu pai parecia uma barata tonta, não sabia o que fazer…rs

No hospital, na verdade no pronto atendimento da maternidade, tudo foi muito dolorido. Você fica lá esperando para ser atendida vendo vídeos de bebes fofos numa tela. Ao meu lado, duas mulheres que estavam abortando (uma inclusive com muito sangue na roupa) choravam. Eu acionei meu módulo “I am a rock” e fiquei lá firme. Liguei para minha ginecologista, ela não atendeu. Deixei recado. A médica que me atendeu não foi simpática, nem nada, mas foi profissional e cuidou com as palavras. Ok. Fui encaminhada para uma nova ecografia transvaginal.

Um homem fez esse exame. Veja, não tenho problemas com homens atendendo em procedimentos ginecológicos, inclusive por mais de dez anos fui atendida por um ginecologista. Mas assim, foi terrível. Ele não teve nenhum cuidado com o meu corpo na realização do procedimento. Quem já fez este exame sabe do que estou falando.

Depois de ele ter literalmente enviado o aparelho da minha vagina, eu falei sussurrando: “a minha médica acha que pode ser gravidez ectópica”. Silêncio. Ele responde: “é isso mesmo. Olha aqui!” E aponta para a tela. “Tá aqui na trompa direita”. Eu já chorando, ainda pergunto: “Mas não tem jeito? Não tem o que fazer?” Ele só me responde assim: “Não. Não tem o que fazer. Tem que tirar, você já está com hemorragia interna. Vou te encaminhar para você ser internada agora. Coloca a sua roupa”. Sai chorando e encontrei meu pai na porta me esperando. Choramos os dois.

Fui internada e pouco depois minha médica chegou. Ela estava correndo uma maratona. Sim, ela é mara. Ela me explicou como seria o procedimento realizado. Me falou do médico que realizaria a laparoscopia, que era alguém de muita confiança dela. No meu caso, o procedimento foi indicado para minimizar os danos pós-cirúrgicos. No entanto, por conta do desenvolvimento embrionário já estar avançado, não foi possível manter a trompa. Ela foi retirada.

Na época, eu tinha um plano de saúde. Fui muito privilegiada, apesar das dores e violência. O sistema público de saúde ainda realiza uma espécie de cessaria para a retirada do embrião. Algo totalmente desnecessário e doloroso para a mulher.

Eu fui bem atendida desde então. Fiquei em um quarto com outra mulher que tinha dito um aborto, procedimento que acho fundamental. Imagina ficar com uma gestante? A cirurgia foi feita no domingo à noite. Saí do hospital na segunda de manhã. Meu ex companheiro voltou para casa nesse mesmo dia.

Foi algo bem triste, mas aconteceu. Muita, muita coisa na minha vida mudou desde aquela mês. Inclusive meu desejo de ter um filho. Não acredito nessa ideia de superar a dor. Acho que eu acomodo as minhas. E essa está acomodada, analisada (literalmente) e, agora, relatada.

Na verdade este texto surgiu quando vi as imagens de um clitóris sendo impresso em 3D. Pensei: nossa! Não sabia que era assim. Deste jeito, deste tamanho. E fiquei pensando em quanta coisa nós mulheres são sabemos pela repressão ou falta de pesquisa científica. O combo machista de sempre. Quanta coisa a gente não sabe? Eu não sabia sobre gravidez ectópica até acontecer comigo. Com certeza esse desconhecimento não é casual. Sobre as mulheres, só se desenvolvem pesquisas e se disseminam informações que interessam ao capital e a moralidade vigente. Nossos corpos como máquinas reprodutivas e de prazer para outros, nunca pra nós mesmas.

Pelo direito ao prazer. Pela gestação para quem escolher. Pelo respeito aos nossos corpos.

13923885_1062252323853510_7859926439137536941_o*Simone Frigo: doutoranda em Antropologia Social pela UFSC, Feminista e Pisciana.  Escreve quando a fala não comporta mais os sentidos.

Por que Universidades ocupadas incomodam tanto?

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Tantas Universidades públicas ocupadas, já perdi até a conta! E a onda tende a aumentar nos próximos dias. A pauta principal, que une tantas e tantos estudantes, é a PEC 241, que congela (sim, é congelamento) os investimentos em Saúde e Educação por vinte anos, coibindo, inclusive, concursos públicos e gastos “extras”, exigindo cortes.

Talvez estas ocupações, sozinhas, como a pauta da educação pública em geral, não tenha, até o momento, incomodado tanto a oligarquia do poder estabelecido, por conta de diversas estratégias que este grupo utiliza, disseminando apenas informações positivas e a “necessidade” de “refrear os gastos públicos” na mídia, ainda o próprio fato de a Universidade ser um espaço de passagem, pouco relacionada com o seu próprio entorno e também porque as pessoas já se acostumaram a greves nas Universidades Públicas, por motivos de redução de direitos de docentes e servidores.

De toda forma, o que me chama a atenção, desta vez, é que as ocupações, com a paralisação das atividades na Universidade, incomoda uma quantidade enorme de docentes. Nós, que perdemos direitos trabalhistas nas últimas décadas, que sempre tivemos dificuldade de adesão a greves e paralisações, e que, quase sempre, saímos perdendo na luta pela manutenção de nossas pautas. As últimas greves têm sido terríveis! Um cansaço tremendo e resultados ínfimos, nos obrigando a repor aulas, cancelar períodos, muitas vezes recebendo questionamentos (justos!) de estudantes pelos desdobramentos destes processos.

Tenho, infelizmente, que admitir que estas ocupações incomodam tanto a uma quantidade razoável de docentes porque a Universidade sempre foi ocupada por pessoas mais favorecidas da sociedade e a maioria de nós, professoras e professores delas, tivemos nossas boas formações em Universidades públicas, devidamente elitizadas. Somos pessoas brancas. Pudemos fazer a proficiência em Inglês para o Mestrado e para o Doutorado, usufruímos talvez não da melhor estrutura, mas de uma estrutura pública.

As pessoas mais pobres, as pessoas pretas, as pessoas indígenas, as pessoas travestis, as pessoas trans*, as pessoas com deficiência que não puderam sequer chegar às aulas do Cursinho de Inglês, estas há muito pouco tempo estão na Universidade pública. Isto aconteceu por conta das ações afirmativas, por esforços coletivos, por esforços pessoais e  pelo aumento de vagas nas universidades, especialmente no interior do país. É óbvio que este processo foi complicado, pois há problemas sérios de estrutura, mas, este mesmo processo, também empregou muitas e muitos de nós, estudantes de uma Pós Graduação que também se expandiu. Mas, sabemos, a maioria de nós, docentes, não veio de lares vulneráveis economicamente.

Muitas pessoas estão, agora, sendo as primeiras de suas famílias a chegarem ao Ensino Superior. E público. E só podem permanecer nele porque há políticas de assistência que, na minha época de graduação, nem existiam direito. Ouvi de uma colega, há uns dois anos, num curso, que “depois das cotas, o curso de Medicina perdeu muito a qualidade”. Há diversos estudos que dão conta exatamente do contrário, mas, infelizmente, acho a fala da colega emblemática para entender o que se passa agora.

Tenho assistido, presencialmente e nas redes, ou por meio de relatos de pessoas que presenciaram, a situações de desqualificação, por parte de colegas professores e professoras, do movimento de ocupação das Universidades. Estas desqualificações são as piores possíveis: chamam estudantes de “pobres vagabundos que vivem de bolsas”, “analfabetos funcionais”, “delinquentes vândalos” e “massa de manobra”. Não se dão conta que, elas e eles, docentes, realizaram seu Estágio de Pós Doutorado no Exterior com financiamento público, por exemplo. Mas, óbvio, é melhor pensar que foi a sua genialidade que o levou a esta “conquista”.

Sim, a “conquista” é individual e não coletiva. Nós, imbuídos de nossos Currículos bem recheados, disputamos Bolsas de Produtividade, formamos “equipes vencedoras”, reproduzimos em nossos Congressos de Associações Científicas as Menções Honrosas pelos melhores trabalhos, personalizamos o processo, reiteramos a meritocracia. E publicamos papers em grupo, obviamente! Por isso as ocupações incomodam tanto. Sim, estas pessoas que menosprezamos no cotidiano da Universidade se organizam coletivamente, trocam saberes, constroem estratégias de luta e, mais, de aprendizagem mútua e colaborativa.

São movidas pelo desejo de instituírem um fazer coletivo. Nessas sociabilidades colocam em xeque as nossas formas de ver o mundo. Sabe o que somos? Somos pessoas mesquinhas, vivemos em gabinetes, em torres de marfim, não entendemos nada mesmo de luta, de resistência, de sociedade. Sim, a Universidade vem sendo ocupada por pessoas que se integram mais num processo coletivo, e mais, que não precisam de nós, pessoas donas do conhecimento, para pautar sua luta, isso mexe com o nosso brio, porque não faremos o cronograma e nem diremos qual a leitura obrigatória. No máximo, faríamos uma mesa de discussão ou escreveríamos um manifesto!

Sim, a Universidade precisa destas ocupações porque também é preciso mostrar a nós, professoras e professores, que muitas vezes não passamos de reprodutores da colonização do saber, porque somos atravessadas por ela. Isso não quer dizer que não haja espaços maravilhosos na Universidade, e é por isso mesmo que estas pessoas estudantes a querem ocupar! Isso não quer dizer que não há professoras e professores que tiveram e têm dias difíceis. E que não há também gente que está na Universidade descolonizando (e muito!). O problema todo é que uma boa parte de nós, docentes, não vai mesmo se solidarizar.

Que esta primavera tenha o tempo que for e, para além de espantar todo o mal que essas medidas de austeridade trazem, nos ensine a pensar outras Universidades possíveis. Que nos junte a elas e eles contra projetos encaixotados de Educação, que nos ajude a lutar contra a “Universidade Operacional”, como denomina Marilena Chauí a Universidade da gestão racionalizada que muitas de nossas Universidades públicas estão paulatinamente se tornando, exatamente a serviço deste sistema elitista que se construiu no status universitário.

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

Eu, a mãe de um autista

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Aviso: Super textão, dividido em duas partes pra facilitar o entendimento.

Parte I

Eu sou mãe. Uma mãe que não sonhava em ser mãe, que até alguns anos atrás estava muito feliz e satisfeita criando bichos, colecionando tretas e trabalhando MUITO. Chegava a trabalhar 16 horas por dia, se somadas as horas dedicadas ao trabalho voluntário que realizo há muitos anos em causas sociais.

A gravidez aconteceu na minha vida após um curto relacionamento com meu atual companheiro e, mesmo inesperada, foi motivo de muita alegria.

Eu sou mãe. De um menino de quatro anos e dois meses lindo, criativo, alegre,  curioso, tagarela e carinhoso. Entre suas características está uma que causa um tantinho de medo nas pessoas quando falo a respeito: O autismo.

Ele foi pré-diagnosticado há exatamente um ano, após mais de dois anos de pesquisa para entender seu atraso de fala e algumas de suas dificuldades que começaram a surgir após ele fazer dois anos.

(Falo pré-diagnosticado porque diagnóstico de autismo só pode ser devidamente confirmado a partir da idade das operações concretas, como dizia Piaget, ou seja, dos sete anos de idade).

Nessa caminhada fui obrigada a estudar muito, graças a falta de conhecimento até de profissionais que me atenderam e me deixaram ainda mais perdida.

O que é autismo? Existem muitas teorias, mas poucas respostas efetivas.  Entre elas, a teoria que mais respondeu minhas dúvidas é a da neurodiversidade. Autistas são pessoas com um “sistema operacional” cerebral diferente das não autistas. E mesmo entre os autistas esse sistema é bem diversificado, alinhando-se em algumas características comuns com variações de intensidade: dificuldade na comunicação e interação social e interesses e comportamentos restritos e repetitivos.

Podemos pensar que autistas possuem um sistema operacional Linux e não autistas, Windows. O Linux deles conversam de uma forma bem diferente entre os aplicativos – as chamadas sinapses neuronais – e essa conversa acaba meio truncada porque alguns papos que deveriam ter sido esquecidos permaneceram no lugar (a fagocitação de células mortas é ineficiente), fazendo com que o sistema tenha informação em excesso, muito mais informação do que nos sistemas Windows.

Mas o sistema é inteligente e sabe como se autorregular, então crianças autistas costumam pensar “por imagens” ao invés de palavras como os Windows; buscam ou evitam incessantemente atividades sensoriais que equilibrem os sentidos que estão atrapalhados (pulando, andando nas pontas dos pés,  evitando ou provocando barulhos, etc). Não é a toa que o querido psicanalista Manuel Vazquez Gil diz que autistas são os que fazem a si mesmos: eles sabem quais são suas dificuldades e também sabem exatamente o que fazer para enfrentá-las.

Mas os dotados do sistema operacional Windows são arrogantes demais para entenderem isso. E, portanto, insistem em tentar moldar os Linux aos seus métodos e forma de agir. Isso acaba gerando problemas nos autistas que, incapazes de se autorregularem, acabam tendo explosões de raiva que são vistas, pelas pessoas leigas, como “birras”.

Agora que expliquei que autismo não é doença, autismo não é um problema, autismo é parte da neurodiversade humana e suas maiores dificuldades residem em terem que se comunicar com cérebros Windows que se acham melhores do que eles, vamos para a parte II deste texto.

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Oh Happy Day Fotografia

Parte II

Coloquei a palavra “birra” em aspas de propósito. O adulto criou essa palavra para toda demonstração excessiva de sentimentos de uma criança que ele não consegue entender. “É mimo demais, dizem”. Em um país onde 18.000 crianças sofrem violência POR DIA, fico impressionada como, na visão de muitos, existem crianças “excessivamente mimadas”. Mas, voltando às birras: lembram que falei das sinapses lá atrás? Crianças pequenas têm muito mais sinapses que adultos, pois suas redes neurais estão em formação. Principalmente por volta dos dois anos, aquele ser humano em miniatura tem uma falação incessante no seu cérebro e ainda não tem a maturidade cerebral necessária para entender certas situações ou mesmo conter suas emoções, que estão, literalmente, à flor da pele (tá, tem adultos assim, mas isso já é outra história).

Existem crianças mal educadas? Claro que sim, assim como adultos e idosos. Existem pais permissivos? Sim, como existem milhares de pais autoritários demais e ambos os casos podem levar a futuros adultos com baixa autoestima, dificuldade de lidar com frustrações, etc. Mas vamos parar de chamar de birra que parece uma palavra inventada para todo comportamento que não sabemos lidar? Quem sabe assim conseguiremos olhar de forma mais profunda a causa desses comportamentos, que pode sim ser a falta de limites mas também uma forma de comunicar algo que a criança não está conseguindo expressar da maneira como gostaríamos que ela se expressasse?

Meu filho, como eu disse no início, é um doce. E pula. E fala alto. E canta bem alto. Ele ri descontroladamente e se joga de forma perigosa sobre coisas e pessoas. Quando está com seu sistema sensorial sobrecarregado, é um Deus nos acuda. Se eu piscar os olhos, ele está em cima da mesa tentando voar. Ele também tem muita dificuldade de dormir, então, quando está cansado demais, fica se movimentando quase que desesperadamente, pois não entende o que está acontecendo com seu corpo, por mais que eu tente explicar. E pula. E ri. E se coloca em situações de risco.

Alguns pais, temerosos dessas horas, acabam por utilizar medicações. Não os julgo, até porque o autismo do meu filho é considerado “leve”.  Mas euzinha, que até hoje mal tomo uma dipirona para as minhas enxaquecas monstruosas, evito medicamentos tradicionais de todo o tipo, para mim e para ele.

Então que quando saímos de casa ele é quem é, ou seja, ele pula, ele corre, ele ri e gargalha, as vezes toca nas pessoas e pega nas mãos de desconhecidos. Eu fico grudada nele quase que o tempo todo, tentando garantir a sua segurança e a dos demais. Coloco limites, sem no entanto atrapalhar sua autorregulação, o que seria um desastre para mim e para ele.

É nessas horas que eu sinto os olhares julgadores de quem não me conhece nem ao meu filho. Esses olhares transmitem as frases que li dezenas de vezes na internet nos últimos dias, por conta de adultos que resolveram demonstrar todo o seu preconceito com o universo infantil. “Não aguento crianças birrentas”, “as crianças de hoje acham que podem tudo”, “os pais de hoje não sabem controlar seus filhos”…

Talvez eles não saibam que até pouco tempo atrás, um filho como o meu era escondidos em casa ou internado em instituições. Era o melhor lugar para ele, diziam. Não sabia conviver em sociedade e seria marginalizados pelos demais, afirmavam.

Talvez eles não saibam que existem muitas escolas (principalmente as particulares) que não querem o meu filho lá. Ele precisa de um atendimento especializado, dizem. Nós não sabemos como tratar seu filho, afirmam, como se ele fosse um ser de outro planeta. As outras crianças irão debochar dele, ameaçam. Foi preciso uma lei para que as portas se abrissem – ou não fechassem e, mesmo assim, ainda dão um jeitinho para nos tirar de lá.

Daqui 10 anos ele não será mais alvo desses comentários absurdos que li e me fizeram chorar por horas. Poderá frequentar certos restaurantes e hotéis que não aceitam crianças. Mas veja bem, ele continuará autista. Por ser um autista leve, talvez não desperte tanto a atenção, mas será visto como “aquele menino esquisito” quando ele de repente levantar e der uns pulos fora de hora, ou soltar uma gargalhada imprópria, ou simplesmente começar a andar rapidamente de um lado para o outro. Sua maneira estranha será parcialmente perdoada, afinal, ele não é mais aquele abominável ser chamado criança e suas habilidades extraordinárias possivelmente já serão reconhecidas.

Muitas crianças iguais a ele não terão a mesma sorte. Porque não encontrarão uma escola que os acolha, porque seus pais, cansados de tantos julgamentos alheios, talvez evitem levá-los aos restaurantes e “locais de adulto” onde eles poderiam exercitar a capacidade de estarem nesses ambientes e de se relacionarem com os windows que lá estiverem.

Mas, quem sabe, o mundo evolua um pouquinho mais nos próximos anos. Quem sabe se essas pessoas que tanto vomitaram ódio contra um dos grupos mais oprimidos pela sociedade patriarcal possam pensar 1, 10, 20 vezes antes de julgarem e externarem seus preconceitos? Talvez, antes de olharem impiedosamente para aquela criança que pula, prontos para julgarem seu comportamento, lembrem deste texto e pensem melhor.

Eu, a mãe de um autista, agradeço.

euavatarmarco2015* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la no Twitter @Adriana_Torres.

 

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