Diferenças Irreconciliáveis

Por Tâmara Freire*, Biscate Convidada

Eu fui casada por três anos.

E me separei pelas tais diferenças irreconciliáveis, ou qualquer nome que a gente dá para quando não houve nada além da vida, encaminhando um dos dois, ou ambos pra uma direção diferente.

E hoje voltando do trabalho eu estava cantarolando essa música e lembrando de quando eu fui morar com o Bruno.

A gente alugou uma casa toda engraçada, que não tinha sala (!), não tinha nada. Era um puxadinho, por um preço módico, numa localização nem tão razoável e que vivia uma zona, porque nenhum de nós era muito afeito a trabalhos domésticos.

Os móveis eram simplérrimos, comprados numa loja generalista, passavam longe de qualquer acepção de design. Tínhamos quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres… E um único objeto de decoração: três baianinhas que a gente trouxe de uma viagem à Salvador.

Nessa casa ficamos seis meses. Nessa casa, eu enfrentei as crises de terror noturno de uma criança de um ano e meio. Nessa casa, eu flagrei um flerte na internet e dela saí prometendo nunca voltar. Nessa casa, Miguel firmou seu andar. Nessa casa, eu mudei de emprego, acordava cinco e meia, viajava duas horas pra ir, duas pra voltar, e só voltava nove da noite. Nessa casa, eu me deitava todas as noites dividindo as agruras com um outro alguém. Nessa casa, a gente também brigava, é claro.

E dessa casa, eu saía todos os dias pro trabalho, com essa música tocando a todo volume no carro, “pra energizar”, porque os dias eram sempre foda.

Faz dois anos que eu não sou mais casada e eu não me arrependo nem um minuto por ter tido essa casa, e as outras duas que tivemos, e todas as outras coisas, incluindo a separação.

A vida é feita de ciclos. Só mesmo quem nunca foi casado pra acreditar nessa visão catastrófica de que o fim de um casamento é a decretação de seu fracasso.

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Tâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

Pelo direito ao aborto sem drama

O colunista americano Dan Savage é famoso por falar sobre sexo e relacionamentos sem papas na língua. Ele também fala de taras, de política, de humor, de direitos LGBT, de tevê. Gosto demais dele.

Outro dia ele recebeu a carta de uma leitora contando que tinha ficado noiva do cara com quem se relacionava há três anos. Ficou noiva em maio, marcou o casamento pra setembro, decidiram ter um bebê e ela ficou grávida rápido. Só que, papo vai, papo vem, o noivo em julho decide que não quer mais ficar com ela, prefere esperar pra encontrar alguém melhor (oi?) e que ela tem que fazer um aborto. Ela escreve ao Dan e pergunta: isso é normal?

Ele responde que puta-que-o-pariu, não é normal, normal é ter medinho de casar e conversar sobre isso ANTES de engravidar. E segue dizendo que, apesar de ela não ter perguntado a ele sobre o aborto, e apesar de ele não ter um útero e nem um namorado filho da puta, acha que ela deve interromper a gravidez. Porque, mesmo que isso signifique dar ao cara o que ele pediu, ela pelo menos não vai ter que se relacionar com o cara pelos próximos 18 anos.

Aí uns dias depois alguém escreve pra dizer um troço que me chamou a atenção:

Pode dizer a ela que, se ela está na dúvida, a narrativa negativa ganha um peso desmedido. Eu estava com um parceiro que amava e com quem pensei que queria filhos, mas ficar grávida acidentalmente colocou as coisas em perspectiva sobre aquele relacionamento e eu soube que precisava sair, fazer um corte definitivo. Minha preocupação era se, mesmo sabendo que era a coisa certa pra mim, eu seria atacada com “e-se” para o resto da vida. Faz cinco anos e meu aborto foi sem dúvida nenhuma a melhor escolha que eu fiz para a minha vida e eu nunca me arrependi—só sinto alegria e orgulho de ter cuidado de mim quando eu não sabia como aquilo ia funcionar. Eu gostaria que o aborto não fosse tão politizado neste país a ponto de fazer com que seja quase impossível compartilhar uma perspectiva positiva da experiência.

Cara, é tão, tão isso. Claro que tem o sofrer. Tem o estupro, tem as histórias de terror, tem as impossibilidades afetivas e financeiras, tem as ausências masculinas, tem fatalidades biológicas (zika, alguém?). Mas também tem o sim-mas-não-agora, o já-tenho-dois, o quero-viajar, o putz-meu-mestrado, o me-deu-na-telha. Porque as mulheres são pessoas que deveriam poder decidir se e quando devem ter filhos, sem penitência, sem ter que obrigatoriamente contar uma história muito triste para aplacar a culpa judaico-cristã.

A carta dessa segunda leitora tocou tão fundo em mim que me vi compelida a escrever para o Dan Savage contando a minha história. Eu estava em uma terra muito muito distante, em um relacionamento longo e estável mas que obedecia a várias dessas listinhas que se distribuem agora sobre abuso psicológico e verbal, e engravidei sem querer – demos bobeira, com a pílula (eu) e com o coito interrompido (ele). Nesse reino distante o aborto é legal. Fui lá, paguei um preço não-exorbitante numa clínica limpa, com apoio psicológico e todos os exames e medicamentos. Me separei uma semana depois. Faz uma década. No dia mesmo eu pensava: isso é a decisão mais acertada que já tomei na vida. Ele? Chorou, se descabelou, tirou todo o dinheiro da nossa conta, me chantageou dizendo que ia contar tudo aos meus pais, me stalkeou pela cidade onde morávamos e nunca assinou os papeis de que eu precisava. Quando leio no jornal sobre disputas internacionais de guarda, até me arrepio pensando que poderia estar hoje enviando um ser humano de cá pra lá, como uma encomenda, para uma pessoa assim.
 
Vamos prestar atenção ao discurso para não glorificar o sofrimento. Tenhamos a malícia e a esperteza de não validar o discurso de quem quer fazer um bicho de sete cabeças  disso: há um potencial bebê, não um bebê; é um potencial filho, não filho; homens não “abortam”, homens abandonam mulheres. Separar de uma vez por todas o que é luta por direitos, o que é estatística, o que é pressão social e todos os valores religiosos que povoam a conversa. Vamos não ter vergonha de falar que um aborto pode resultar, sim, em felicidade e alívio, e ser vivido como uma experiência relativamente tranquila – dadas as condições ideais para tal. 
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Sempre ao Domingos

Ele surgiu nas nossas vidas antes, lá em Mothern e Força Tarefa, eu tava distraída e não reparei muito, mas foi impossível não ficar hipnotizada por ele em Cordel Encantado e assim, pra todo sempre pra gente, um grupo de amigas e amigos noveleiros ele ficou sendo Capitão Herculano ou, simplesmente, Capitão.

Nós somos (sim, não deixaremos de ser) as cangaceiras de seu bando, fãs da sua beleza e da sua interpretação. Porque mais que lindo, era o olhar sincero, doce, forte que encantava. Ele estava inteiro nos seus personagens.

E em poucos papéis: o Capitão,  Paulo Ventura, Zyah, Mundo, Miguel e Santo ele interpretou brilhantemente homens que tinham um pouco dele: idealismo, ética, amor, sinceridade, dúvidas, alegria. Um homem comum e simples e nos encantou pra sempre.

A vida quase nunca é como queremos e o levou muito mais cedo do que seria desejável, a gente vai sentir saudades pra sempre, mas nada que se compare a dor que os seus sentirão. Um pequeno consolo, talvez, é realmente pensar que virou protetor do rio. Outro: lembrar que o ator nunca morre, pois sua obra se eterniza nas imagens que deixa e ele deixou um legado até breve na tv, embora inesquecível, e um grande legado no teatro e arte de ser palhaço.

E esse texto é só pra dizer obrigado por tudo,  obrigado principalmente pelo Capitão, pelo Mundo e pelo Miguel, que amei tanto e você fez tão lindamente. Domingos Montagner, sua estrela vai brilhar pra sempre, um beijo das cangaceiras e das noveleiras e noveleiros.

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Vento

Por Liliane Gusmão*, Biscate Convidada

No fim de um dia cinza, quente e abafado de inesperados mormaços recifenses, ele surgiu sutil e silencioso como surge o desejo. Derramando-se em carícias atrás das orelhas, em lambidas na nuca que arrepiam a pele, atiçam os bicos dos peitos arrebitados sedentos de outros carinhos.

Desejo que invade, e se aloja naquele canto obscuro no baixo ventre. Começa lá como uma pontada, um peso, uma angustia discreta que se expande, se espalha em ondas descendo por entre as pernas umedecendo languidamente a espera dolorida da incompletude.

Desejo que se fortalece, transborda e se despeja em arrepios pelo corpo em busca de consolo, de satisfação, de gozo. E seja em mãos hábeis, bocas quentes com línguas atrevidas, em brinquedos deliciosos ou na delícia quente de outros corpos. O desejo nos transforma de maré mansa em mar bravio, em maré cheia, em ressacas estrondosas, em ondas explodindo com penachos de água e espuma rasgando o ar ao chocar-se com as pedras do litoral.

E ontem ele chegou assim, de doce brisa quente embalando as folhas nos galhos das árvores transformou-se em trovão e tempestade e caiu sobre nós para aplacar os calores febris de excitação do verão. Caiu em chuva gelada e barulhenta na calha do telhado. Amanheceu em rajadas violentas assobiando sobre as copas das árvores que se dobram, mas teimosas resistem suas ferozes investidas. Afrontam-no como os peitos empinados e mamilos rijos que crescem mais e mais a cada toque.

O vento hoje trouxe com ele a antecipação, como o desejo doce. Trouxe a lembrança e o vislumbre do que vem por aí, e que já está ali dobrando a esquina. Lembrou-me de promessas de delícias envoltas em sombras, texturas cores e cheiros.

Lembrou-me que frente a ele, como ao desejo, podemos nos encolher com medo e esperar que passe, ou podemos impetuosamente desafiá-lo e nos entregar de braços abertos na busca do nosso gozo, nos deixar envolver pelo seu turbulento e poderoso abraço.

Hoje vi se desenhando um presságio deliciosamente dolorido, como o pulsante desejo no ventre. Hoje, escutando as rajadas do vento refrescante e implacável, vi em suas asas a silhueta das sombras e do frescor colorido do outono.

Hoje, sentindo o vento no rosto enquanto olhava as nuvens de chumbo passando apressadas senti a pontada daquela dor feliz e escutei nos sussurros das folhas o canto que não sei se ousarei dizer… Não sei se digo, mas, sinto meus olhos brilhando com a felicidade do reconhecimento, não sei se ousarei dizer essas palavras que jamais imaginei ser capaz de proferir e de reconhecer que, sim, outono querido você vem e está quase aqui, e, sim, senti tanto a sua falta e que, sim, estou com tantas saudades de você!

Liliane*Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 44 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna.

O sonho que não te contarei

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

Cara.

Sonhei com você. Fazia muito tempo que não acontecia. Eu podia mandar um inbox, mas não vou. Não quero meter um “oi sumido” nessa história e a gente acabar contando como nossos filhinhos são fofos e como sim, estamos trabalhando bastante e sim, que-difícil-a-situação-do-País-que-vontade-de-mudar-pro-uruguai-viu? Vi.

Ao invés disso eu vou ser cafona e contar como foi foda, fodimais ter que fazer duzentos e cinquenta e sete reuniões de trabalho com você antes de tomarmos o primeiro café sozinhos, antes de nos tornarmos unhicarne, antes de você vai então também vou, antes do pessoal começar a comentar, antes de parecer bem errado ficarmos tão bem juntos e nós estávamos mesmo tão bem juntos que era impossível não reparar.

Lembra daquela vez em uma festa na Lapa que você só de sacanagem colocou aquele vinil do Al Green, que você sabia que eu amava Al Green mas não contava para ninguém? E a gente já tinha tomado todas as drogas da festa, e eu tive que fingir que estava passando mal pro meu namorado me levar embora, senão, sabe-se lá o que ia acontecer? Pois é. Foi naquele dia que eu decidi que não ia mesmo nada acontecer e que essa era a maneira mais fácil que eu conhecia de para sempre e se fosse para sempre para mim tava bom demais.

Na última vez que nos vimos, duas garotinhas nos viram conversando no banco da praça e vieram perguntar se. Respondemos que não. “Vocês são amigos?” Sim. “E como vocês se conheceram?” (Nossa, como eu não suporto esses projetos escolares alternativos-hipsters que acabam por interferir na vida dos adultos melancólicos). Não sei se é por que as crianças berram, os balanços rangem, os vendedores de pipoca passam, os joelhos sangram, as bundas deslizam nos escorregas, as gangorras revelam as relações de poder mas enquanto você contava dos cafés, do job, de nós dois eu só ouvia que você não deveria ter soltado a minha mão por baixo daquela mesa que eu deveria não ter te deixado em casa depois daquele karaoquê, que você não deveria ser tão bro do meu ex, que a gente deveria ter obedecido Al Green pois o Al Green minha gente, sempre tem razão.

E, né, você deve querer saber do sonho. E sinto te informar que nem no sonho a gente conseguiu trepar, no sonho a gente só parava de fazer política & piada, sendo política & piada o nosso modus operandi e sendo tão fácil nesses tempos falar política & piada para se safar de qualquer situação verdadeira e potencialmente perigosa para umas pessoas como eu e você.

Era assim: a gente via “Made in USA” num cinema na Praça Saens Peña. Por mais Urca que eu use pra me curar, permaneço tijucana, pois tem coisas para as quais não existe remédio mesmo. E toda vez que Paula Nelson era interrompida ao dizer o nome do marido desaparecido era o seu nome que eu esquecia. O mais angustiante e delicioso era saber do seu desprezo solene por Gordard e sua firmeza de propósito de estar ali.

Mas como diria Marianne Faithful “as tears go by” e hoje é o dia em que eu não te contarei tudo isso, hoje será esse dia de fechar essa tampa, riscar o calendário, fazer feira, um almoço gostoso, rir com umas amigas e quem sabe chamar aquele alemãozinho-repórter-das-olimpíadas para tomar umas afinal não sou de ferro e tirando você eu gosto mesmo é de gente fácil.

Eu gosto é de gente fácil e tudo tão difícil durante tanto tempo é um troço que realmente não combina. A gente achou que deixar assim tava bom, que tudo que não acontece tem esse jeitinho de tudo ainda pode acontecer.

Pela minha experiência prévia você vai reaparecer mágico, glorioso, lindo, com tantos dentes enfileirados ofuscando a porra do sol, e eu direi sim para qualquer programa ingênuo e diurno. E falaríamos todos os subtextos do Brasil para confessarmos, sem usar as palavras, o quanto nos amamos e não entendemos que porra deu errado.

Mas dessa vez direi não, mesmo sabendo que pelas condições climáticas de tesão, temperatura, mau hábito, pressão, saudade infernal e direção do vento, seria um dia perfeito para dar de comer aos patos do Parque Guinle.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Por Tâmara, Biscate Convidada

“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Amadas. Eu sei que vocês querem se sentir empoderadas quando dizem uma coisa dessas. Querem sentir que têm todo o controle sobre a própria vida e o próprio corpo. Querem pensar que a violência é uma realidade distante. Querem se comprazer com a ilusão de que são diferentes e por isso estão protegidas.

Mas vocês já pararam pra pensar em qual o oposto dessa frase?

Quando eu, com 19 anos, ouvi um namorado dizer que ia dar um tiro na minha cabeça foi porque eu não deixei claro que eu não era uma mulher ameaçavel? E todas as mulheres da minha família, mães dedicadas e esposas abnegadas, que apanharam? Elas deixaram?

Eu sei que é aterrador mas nenhuma de nós está segura em definitivo, não importa quem somos ou o que a gente faça. Isso só vai acontecer quando a cultura da violência misógina for solapada.

Porque você pode apanhar de um homem que era um príncipe até ontem. Ser ameaçada por um ex que foi um ótimo marido. Ser violentada psicologicamente pelo maravilhoso pai dos seus filhos. Ser morta por um estranho que você rejeitou justamente porque pressentiu o perigo.

O pouco de conforto reside no apoio mútuo e na superação. É pra se sentir igual, não pra se diferenciar.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

Invicto Nas Batalhas

Por Alexey Dodsworth Magnavita*, Biscate Convidado

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No anúncio da morte da tão querida Elke, seus familiares citaram uma frase grega: “Eros aníkate mahan”, que pode ser traduzida como “o amor é invencível nas batalhas”. Essa era uma frase bastante repetida por Elke nas mais diversas situações. Como a mulher cultíssima que ela era, falante de oito línguas com assombrosa fluência, conhecedora do grego e do latim, Elke certamente leu “Antígona”, de Sófocles. Foi desta obra que ela tirou a frase que funcionava como sua invocação pessoal.

Falemos sobre o contexto da frase: Antígona, na mitologia, é filha da relação incestuosa entre Édipo e Jocasta e, por isso mesmo, filha de um destino inescapável. Antígona é o fruto de um encontro que, não importa o quanto se desejasse evitar, estava fadado a ocorrer.

A ironia é que Antígona, filha deste destino inescapável, é a imagem da desobediência diante do poder autoritário. No mito, ela deseja oferecer os devidos ritos de sepultamento a Polyneikes, seu irmão morto, contrariando as determinações do rei. É como se do enlace inescapável entre Édipo e Jocasta, nascesse seu exato oposto: aquela que desobedece, que enfrenta o poder vigente, nem que isso a prejudique. Com seus atos, Antígona está mandando a ordem externa às favas e fazendo o que ela sabe que deve ser feito. Consequentemente, ela termina dando a vida por seus princípios éticos.

E é por isso que o amor é invencível nas batalhas: os humanos eventualmente vencem, eventualmente caem, eventualmente triunfam, eventualmente perdem. O amor, não. O amor sempre vence, mesmo que isso nos destrua. Se Édipo tiver que amar Jocasta, nada há de impedir. E se Antígona tiver que enterrar seu irmão, ela o fará mesmo que isso a mate. Porque ninguém pode desafiar a vontade do amor.

A oração completa, evocação, clamor ou hino, como vocês preferirem, é a seguinte:

“Amor, tu que és invicto nas batalhas!
Amor, tu que destróis as riquezas!
tu que manténs tua vigília na face macia de uma donzela!
tu que caminhas sobre as águas
e entre as casas dos moradores dos desertos!
nenhum imortal pode escapar-te,
nem tampouco os homens que vivem por apenas um dia,
e aquele para quem tu viestes é louco!
Apenas eles mesmos têm suas mentes por ti urdidas para o mal,
para suas próprias ruínas.
Tu, que despertas a contenda entre parentes,
Vitoriosa é a luz ascendente do amor que brota dos olhos da noiva;
Tu que és o poder entronado no balanço ao lado das leis eternas
por onde a deusa Afrodite urde sua vontade indomável.
Amor, tu que és invicto nas batalhas!”

 

14081186_10154431327914913_2028334642_n*Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP e pela Università Ca’ Foscari de Veneza, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor de literatura fantástica e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida.

Oração para Leveza

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Ilustração de Beatriz Vivanco

Com a cabeça no chão, para ouvir as entranhas do terra:

Abrir espaço. Arejar . Tornar-se senhora da dança que vem de dentro. Um pé depois do outro. Trocar os sapatos. Esparramar-se. Ouvir a batida do coração. Permitir o ritmo dos quadris. Decantar. Colocar-se no colo. Nascer um pouco a cada dia. Reiventar o passo. Aprender a ter olhos limpos para o horizonte. Cada dia uma cor. Não reter : abrir as mãos para a impermanência. Corpo leve na correnteza. Admirar o fluxo. Acolher a dor. Espalhar o perfume no vento. Soltar o cavalo da sela. Dar-se flores. Traçar as rotas sem bússola e pretensão de acerto. Lembrar-se de sorrir para as miudezas. Tomar banho de chuva depois da seca. Passar os dedos nas rachaduras do sol. Sentir a pele queimada com gosto de sal. Tocar-se. Poder abrir o peito quando o choro vem. Permitir-se a dúvida. Enterrar as culpas no jardim. Afofar a terra. Olhar os buracos sem medo do fundo. Abracar-se no correr do dia. Comer a ansiedade aos pouquinhos. Desenrolar-se no chão de cimento. Espinha ereta. Batom vermelho. Gozar com os próprios dedos. Deixar a porta aberta para o acaso. Experimentar-se. Deixar vir o amanhã sem medo das perdas. Reconstruir-se. Rasgar as máscaras. Flertar com a solidão como lugar de pertencimento. Dar comida aos pássaros interiores. Navegar-se em mar aberto. Deitar no sol. Sentir a areia por entre os dedos. Procurar abrigo nas tempestades. Saber receber. Poder amar com os pedaços que faltam. Permitir-se ser lagoa calma nas estiagens. Despir-se. Mergulhar nas águas interiores. Sentir o escuro. Travessia. Uma onda depois da outra.

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“Um público feminino tão grande” – Mulheres nas Olimpíadas

Por Cynthia Semíramis*, Biscate Convidada

“A gente não esperava um público feminino tão grande”, disse o organizador da fila pras mulheres passarem pelo detector de metais. Ouvi isso ontem enquanto tentava entrar no Mineirão para o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália.

Eu estava com todas as mulheres e crianças num espaço pequeno e cercado. Ouvimos hino nacional, ouvimos o início do jogo e não saíamos do lugar. A multidão só aumentava. Começaram os empurrões, tanto pra ir em direção à entrada quanto para voltar: quem chegou na frente descobriu que não havia gente para revistar e liberar a entrada, e aí queria voltar e achar outro caminho (a alternativa era ser esmagada na grade). Do outro lado, os homens gritavam pra nos liberarem. Todo mundo desesperado. Foi tão tenso que pensei que seria pisoteada ou esmagada.

Finalmente perceberam os riscos e abriram várias grades para entrada das mulheres. Não conferiram ingressos, não passaram detector de metais. Não sei se eu, que comprei ingressos para este jogo em junho, fui computada como uma das 52 mil pessoas pagantes no estádio. Só cheguei ao meu lugar no estádio às 22:25, depois de perguntar várias vezes e não conseguir informação correta de localização.

Foi um jogo memorável, mesmo tendo perdido parte dele por conta da desorganização. As filas anteriores também foram ruins. Não havia placas, não sabiam informar nada, só apontavam pra multidão: vai andando, segue o fluxo que uma hora você encontra o início da fila.

O que sei é que, num ano em que tanto se fala do bom desempenho das mulheres nos esportes, fica nítido o descaso com as mulheres, sejam elas atletas ou público. Como assim não esperam público feminino no jogo de futebol feminino da seleção brasileira? Como assim não têm um plano B para dar conta do público “inesperado”? Por que submeter crianças a aglomerações perigosas até para adultos? Por que dificultar a entrada das mulheres que querem assistir a um jogo?

Mulheres frequentam estádios, e cada vez em maior número. Nós sempre vamos aos jogos masculinos. Queremos ir também aos jogos femininos. Não somos “inesperadas”. Seria bom se a organização dos jogos percebesse o óbvio e nos tratasse com respeito.

CynthiaSemiramisCynthia Semíramis pesquisa história dos direitos das mulheres e tem blog em hibernação. Quando não está escrevendo tese vai dançar forró e correr. Só gosta de assistir futebol em estádio.

 

Mortas vivas

Foto da linda série "Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

Foto da linda série “Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

E eu não me permito morrer em vida.

Achando que ser igual é normal.

Ser chata é a regra.

Ser medíocre é opção.

E ser diferente é loucura.

Estou velha, mas viva. Diva. Viva vovó !

O que querem é que a gente vire poste sem luz. Que sirva pro xixi dos cachorros que precisam continuar a demarcar território, mas deixe de satisfazer qualquer  outra função. Deixe de subir no palco da vida e brilhar. Pare de aprender. Chega de procurar !

Como se já não bastasse  o antigamente atrelar a menopausa ao final de vida.

A morte.

Secou.

E portanto está proibida de qualquer outra manifestação sexual e corporal que não seja a depressão, os calores e as mudanças de humor. Ficar velha e decrépita. No way. Acabou. Mudou mesmo.

Claro está  que o ser humano busca sempre a procriação e biologicamente a mulher após a menopausa perde essa capacidade através de seu momento hormonal. Graças!! Delicia!

Prazer não tem nada a ver com fisiologicamente a manutenção da espécie.

Velha não está morta num caixão. Como suas células te dizem, o seu prazer começa na cabeça, que está pouco se lixando pros seus números. Depende de como você a alimenta. Acrescentando dados, cores, vontades, curiosidades.

Não encontrei nenhuma relação com essa subserviência determinada culturalmente ao meu corpo e a minha idade.

Na hora do êxtase, foda-se o número  que você carrega. Você é só uma fêmea. Selvagem. Afinal o corpo é burro e te vê com 30 anos quando você já tem o dobro.

Não tenho tatuagem de data de validade no meu corpo.

Então, vale o  fuk fuk. E gritar no auge. E sentir o calor subindo quando uma boca te chupa com eficiência. E se saber totalmente preenchida pelas sensações que o seu corpo não deixou de sentir.

Crocheteio, tricoteio e cozinho com prazer mas adoro comer um belo espécime também . Fantasiar é o meu carteado. E, no chá das 5, falar do que eu descubro é muito mais prazeroso que falar da atriz de novela garotona e durinha que “consegue” pegar todos !

Até eu, Onofre!

Quero ver ter toda essa bagagem que a minha casca carrega e se jogar na pista.

Bem fazemos os que deixamos o corpo saciado, cansado, suado e a adrenalina a mil.

E ainda damos motivo pras conversas dos mortos vivos em todos os velórios.

Captura de Tela 2016-08-15 às 14.06.36Isabel Dias é uma administradora de 50 e tantos anos que vivia numa cidade do interior até descobrir que seu marido, com quem era casada há 32 anos, tinha outros relacionamentos. Divorciou-se, mudou-se para São Paulo e começou uma jornada de auto-descoberta, narrando num blog (trintaedois.com) sua redescoberta sexual. Os textos foram editados no livro “32 – Um Homem Para Cada Ano Que Passei Com Você”. Após a publicação, ela segue dando palestras e se comunicando com mulheres de todas as idades que passam por situações semelhantes.

Sugestões para um agosto mais Biscate

Texto com dicas também de
Renata Lins, Lis Lemos e Raquel Stanick

Um beijo no meio da rua. Papear com a cadeira na calçada. Conversar virando madrugada. Roça-roça no pé do muro. Sexo matinal. Banho de mar sem roupa. Dormir sem roupa. Praticamente qualquer coisa sem roupa. Mandar beijo pra lua cheia. Morder, voraz, uma manga suculenta. Sexo oral. Servir ou sorver uma bebida gelada. Aos golinhos. Lamber sorvete que derrete escorrendo na casquinha. Rir junto. Rir muito. Rir alto. Gargalhar. Postar gif de putaria. Beijar de língua na balada. Enviar nudes desejados. Rapidinha. Entabular conversa despudorada, dada, danada na fila do banco. Dizer sim. Escrever mensagens eróticas. Deixar em guardanapos. Com marquinha de batom. Ver um filme. De preferência, no escurinho do cinema.  Ou no colo de alguém. Masturbação. Masturbação a dois. Passar um café. Fazer um pão. Ou um bolo. Ou uma careta. Suspirar. Tomar banho de chuva. Girar, braços abertos, olhos fechados. Dançar sem música. Mandar mensagem pra os amigos. Aproveitar aquele óleo meio esquecido e fazer uma massagem no seu próprio pé. Ou em qualquer outra parte sua (ou alheia) que rolar. Acolher o inesperado. Divulgar os posts do tumblr do biscatesc. Cantar no chuveiro. Na rua. No pé do ouvido de alguém. Ler O Amante. Ou Hilda Hilst. Fazer um strip tease pra alguém. Que pode ser você mesma. Olhar de lado. Flertar no ônibus. Andar descalça na areia da praia. Ou na grama. Ou no cimento frio. Molhar os pés. Deixar as ondas lamberem a pele. Soltar o cabelo. As asas. A franga. Pintar as unhas, Ou o sete. Fazer uma listinha de música com cara de trepada. Enroscar pés – com meias, caso faça frio. Derrubar forninhos. Fazer uma coisa nova. Fazer o mesmo de sempre que apetece. Provar. Experimentar. Repetir. Dar.

como viver

E as suas sugestões? Coloca aí nos comentários, vai…

Mosaico

Imagens

Fico observando as formas ora geométricas ora orgânicas em peles e  sombras. Você não sabe dos pequenos retratos que guardo de seus pedaços. Na noite enfeitada pela luz amarela, uma moldura de ilusão macia pra tudo que nos enche os olhos. O sol não sabe de nós.

Retalhos

Enquanto a sua pele morna e escorregadia desliza sob a minha, temo que minhas costuras cedam e, por fim, arrebentem. Foi com muito cuidado e atenção que dei todos esses pontos, cerzi as partes mais frágeis, preguei pequenos retalhos achados pelo chão pra cobrir todos os rasgos. Quando escuto a linha ser forçada e atingir a tensão máxima, um leve desespero me retrai. Temo pelo tecido que me cobre, que me protege do frio e me dá abrigo. Temo ter que lidar novamente com agulhas e tesouras pra conter as vul.ne.ra.bi.li.da.des.

Linguagem

Toco seus cabelos lentamente, com todos os dedos, que se dobram de modo preguiçoso enquanto se conectam a você, numa tentativa de que eles, secretamente, lhe falem o que meus lábios não dizem. Respiro fundo, com o rosto muito colado ao seu, em uma brecha muito pequena onde posso concentrar o cheiro da sua pele em pouco ar, em busca de mensagens ocultas que se transmitam instantaneamente, sem o desperdício de palavras. Por que queremos dizer tanto quando se pede tão pouco? Por que anseio por símbolos quando o silêncio se mostra tão gentil? Por que quero tanto falar sobre o que eu nem mesmo sem o nome?