Pelo Telefone

Sozinha, cama revirada, noite por dormir. Camisola fina, nenhuma peça a mais. Corpo quente, o suor escorre entre os seios, o ventilador – monótono – apenas afaga a pele, insuficiente. Deita-se de costas, as pernas abertas, o vento fraco brincando com os pêlos mal depilados. Nas pequenas caixas de som a mesma música se repete, incansável.

Tédio. Tateia em busca do livro. Contos Eróticos. Vira de bruços, a bunda descoberta desejando olhos que não estão. Os olhos percorrem as linhas acentuando desejos. A língua brinca nos dentes, os seios intumescem roçando o lençol áspero da cama. Enquanto lê, respiração mais pesada, as coxas se apertam. Esfrega pele com pele, a fome crescendo. Ao seu redor, igual: ventilador fraco, mesma música, nada acontecendo. Vira de lado e puxa o travesseiro pro meio das pernas. Uma mão segura o livro, as palavras quase sem importância já, a outra – displicente – brinca com a ponta do mamilo e o corpo força o travesseiro. Sede. Levanta-se brusca, livro no chão, desliga ventilador, procura o copo que sempre deixa ao lado da cama. Vazio. Ao lado, o celular. Ri, safada, muda as configurações. Chamada não Identificada. Assim, Assim. Liga. Ninguém atende. Insiste. A voz, rouca, sonolenta. Ao alô ela reponde com um gemido. E outro. E outro. Ela sabe que ele não vai desligar. Ele nunca desliga. Coloca no viva voz, ela vai precisar das mãos. Baixa o volume, mas a canção continua, instigante.

Ele sabe, ele faz: narra o seu querer. Ela geme. Ele diz: agarre, toque, aperte, molhe, roce, esfregue. Verbos no imperativo, como o desejo. Ela segue. Ele: a voz mais alerta. Ela: o corpo mais obediente. Peito, queixo, bunda, ombro, orelha, barriga, coxa. Quebra-cabeça do tesão. Ela ri. De olhos bem fechados, ele diz ou ela mesma quem quer? Aproxima a boca do celular, geme mais forte, o suor agora lhe molha toda. Quedê a voz? Uma mão perdida em si mesma, a outra procura o telefone, mais perto, ela quer ouvir, ela quer saber, ela quer obedecer, ela quer… Porque ele não fala? Porque ele não diz? Porque ele não manda: enfie o dedo gostoso? Os olhos nublados mal enxergam o visor. Chamada finalizada. Ela não acredita. Tira a mão do meio das pernas. Cheira. Geme. Pega o telefone. Quer mais. Liga. Você não tem créditos para realizar essa chamada. E Bethania continua a cantar…

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Nós Resistimos! Negra Soy!

Por Lia Siqueira*, Biscate Convidada

“Sim, dá trabalho. O preconceito bate na gente, mas nós resistimos.” Foi o que respondi quando uma senhora no ônibus perguntou: “dá trabalho deixar o cabelo assim?” Compreendi o que ela queria saber. Mas o que me sufocava naquele momento precisava ser dito. Não queria trocar segredos para dar viço e volume ao cabelo. Não queria mais falar de babosa, bepantol ou do potencial de um bom cronograma de hidratação. Até então, vinha dando as respostas estéticas àquele tipo de indagação. Essas respostas eram as esperadas por quem tinha a curiosidade despertada pelos meus cabelos “petulantes”. Contudo, chega um momento que todas nós precisamos transcender a questão estética da resistência – comunicar a subversão da nossa negritude e assumir, responsavelmente, nosso lugar – mostrar o que de mais valioso nasce das raízes, sobre nossas cabeças. A intimidade de olhar nossas raízes sem relaxantes que infestam e festejam nossas cabeças, nossas ideias.

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Cultivar a relação de amor com nossos cabelos negros e retirar de nós mesmas os mais poderosos nós. Não me refiro a alguns emaradinhos naturais, provocados pela textura dos cachos. Falo dos nós difíceis, dos amarrados dos olhares, do escárnio, dos julgamentos,do racismo. Isso precisava ser comunicado! Quantas vezes eu transcendi em frente ao espelho… Minhas mãos e olhares perseguiam as espirais sobre a minha cabeça – o encantamento, o prazer, o amor e a autoconsciência que daquele ato nascia fazia valer qualquer dor e desaprovação. A descoberta agridoce das minhas raízes era simplesmente o melhor sabor que passara pelos meus sentidos. Isso precisava ser comunicado! No breve momento, entre a pergunta e minha resposta, levei minha mente dos meus momentos da negação/frustração até à luta quotidiana pelo empoderamento em negritude.

Sou filha de uma branca e um negro. Nasci da mistura tão hipocritamente festejada para os gringos nessa nossa pseudo-democracia racial. Vim ao mundo assim: embaralhada nesse ser-não-ser negra. De pele “morena”, nesse Brasil em que todas as gatas são “pardas”, “moreninhas”, “torradinhas”, “mulatas”, “marrons”, mas não “negras”. No meu lar, não aprendi a rechaçar a negritude ou me embranquecer. Era amada nos meus cabelos crespos, pela minha mãe branca – ali, era eu e estava segura. Mas a socialização chega, ela é inevitável. Com ela, somos atropeladas pelos filtros dos preconceitos. A incompreensão dxs coleguinhas na escola rapidamente transformou-se em racismo. Como no início do poema de Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra, “Me gritaron negra”, eu recuei perante as risadas por causa do meu cabelo crespo. Antes dos treze anos já usava alisantes e relaxantes.

““¿Soy acaso negra?” – me dije ¡SÍ! “¿Qué cosa es ser negra?” ¡Negra! Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. Negra! Y me sentí negra, ¡Negra! Como ellos decían ¡Negra! Y retrocedí ¡Negra! Como ellos querían ¡Negra! Y odié mis cabellos y mis labios gruesos y miré apenada mi carne tostada Y retrocedí ¡Negra! Y retrocedí…”

Com o tempo, sufoquei todos os verdadeiros motivos que me levavam a alisar os cabelos. Dizia alisar por uma suposta questão de praticidade. Reproduzia de maneira vazia “cabelo crespo não combina com o meu estilo e assim liso é mais fácil de cuidar”. As doses periódicas de guanidina me faziam postergar o conflito – ficava ali escamoteada. Habitei meu cárcere por 10 anos. O abandonei aos poucos, tive o amor da mãe e da irmã, o apoio das amigas e companheiras e a admiração do namorado por quebrar as correntes, preconceitos que introjetei. Minha raiz crescia e as perguntas também. E eu, que nascera embaralhada na aparência (pele cá, quadril e nariz acolá). Iniciava o caminho da autoconsciência, primeiramente desconstruindo, questionando. “A me perguntar: Eu sou neguinha? Era uma mensagem lia uma mensagem Parece bobagem mas não era não Eu não decifrava, eu não conseguia Mas aquilo ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia” “A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”, disse Lélia González – a consciência de ser negra é uma conquista em um meio que pregoa o branqueamento. Avançando contra uma “normatividade racial”, onde antes eu tinha um pé, firmei os dois e construí minha identidade. “Nasci” mulher negra aos 23 anos, me descobri bela na luta, meu lugar! E hoje penso que, na verdade, é temor isso de evitar chamarem-nos (e nos chamarmos) de NEGRAS. Afinal, uma vez sabendo o lugar de onde falamos, saberemos como e ao que resistir. Compartilho esse lugar – vejo companheiras libertarem-se e empoderarem-se pelos seus fios, pela sua pele, pelo seu nariz, pelos seus quadris, pelo seu sorriso. Sei que a luta de tantas delas é ainda mais árdua por encontrarem resistência, inclusive, entre xs que amam. Mas sorrimos umas para as outras, admirando reciprocamente nossos “black’s” -nossos propósitos iniciam-se sendo cultivados em nosso corpo, nosso cabelo, NOSSOS territórios, mas transbordam-nos e transbordam a estética – resistem em forma de consciência negra. Isso, eu precisava comunicar àquela senhora. Isso, nós precisamos comunicar todos os dias! Como fazemos para nosso cabelo ficar assim? Nós resistimos! Negras somos!

“¡Negra! Sí ¡Negra! Soy ¡Negra! Negra ¡Negra! Negra soy De hoy en adelante no quiero laciar mi cabello No quiero[...] ¡Negra soy!”

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*Lia Manso é advogada, mestranda em direito s humanos e inovação. Faz parte do MNU e é Suplente da Coordenação Nacional de Mulheres no movimento. Milita e estuda pelo direito de minorias. Ama 30 Seconds to Mars e Johnny Depp, o filme Matrix e as séries How I Met Your Mother e Friends

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Luz acesa….

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Olhar. Conversa. Riso. Provocações, lábio seco. Molhar os lábios, com a bebida. Olhar. Ah… o olhar…

Sei que não tem manual, que nunca é igual. Mas é assim, as vezes, apesar de ter sempre aquela cousinha diferente, que dá aquele chameguim uma cor e sabor original, diferente, único.

“Vamos embora daqui, agora?”.

“Vamos.”

Sim, vamos. E abraço, toque, retoque, beijo, lábio, chupadas no pescoço, no queixo, pornografias no ouvido e aquele calorão todo. E sobe e desce mão, procura aqui e ali e meu pau bate no teto.

Na sala, enfim. Parece guerra. E tira peça de roupa e beija aqui e ali e mão e não e sim e vai… vai…. esparrama, declama, pensa, molha, sobe, desce, aquece, aquiesce.

“Ah…  apaga a luz, vai?”

“Mas… por que?”

“Eu tô feia. Tô gorda.”

“Ah… eu tenho pau pequeno…”.

Ela ri. Ele ri. O pau sobe ainda mais.

“Apaga, vai… tenho vergonha…”.

“Mas ó… ele tá assim por causa do tudo….”. E, de fato, ele tá bonitão, todo orgulhoso em riste.

Novo riso. Cafuné, afago, dengo, molha, beijo, última peça no chão. E língua e mão e tudo. E encaaaaixa….. Assim, aceso e acesa.

Ar que acaba, morte em festa, gozo todo.

“Adoro tua bunda.”

E ele sai sorrindo, para pegar água. Era outra sede.

Pelados, peladas:  Completamente.

Luz apagada, quase dormindo. E começou tudo de novo…

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Biscatear é como respirar

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Ontem no twitter uma amiga queridíssima dizia em tom de lamento que está sem tempo para biscatear. Encafifei. Como assim, sem tempo para biscatear? Biscatear é algo que se faz naturalmente, sem pensar sobre, igual respirar, andar e… comer! :P

Argumentei com ela que biscatear não é namorar, não é manter um relacionamento com alguém — que aí demanda que o alguém não seja qualquer um. Biscatear pode ser só fantasia, inclusive. Aí, lembrei que até nos períodos de maior depressão em que vivi, nem neles deixei de biscatear.

Biscateio com o gari lindão muso da greve do Rio. Biscateio com Darín. Biscateio com um delegado que é baixinho e tals, mas um gigante pra admirar e objetificar. Biscateio com um professor barbudão candidato que mora do outro lado da ponte. Biscateio com o meu barbudão, em casa. Biscateio com o Drexler e o Gael. Biscateio até com amigos que sequer sonham (ou teriam pesadelo) que tenho alguma fantasia com eles[spoiler]. Biscateio com o Clint. Ah, o Clint… ♥

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pedreiragem

Biscatear é desejo, não tem a ver só com o concreto, com o realizável. Biscatear é a pedreiragem do dia a dia, a pedreiragem arte, a pedreiragem moleque… Biscatear é só biscatear. Não demanda tempo, esforço ou articulação. Biscatear é, de fato, como respirar.

E em tendo tempo e disposição, dá até para usar estratégia para biscatear;-)

Deixa eu te contar um segredo…

Olá!

Eu tava morrendo de saudades daqui e algum dia conto porque estive tão longe por tanto tempo. É muito bom voltar!
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Mas, vamos lá: dentre as diversas vivências que tive enquanto não postava nada no BSC, uma delas foi me render e baixar o Secret (o tão polêmico app que chegou ao Brasil em maio deste ano e já deu bastante o que falar). E digo, sem medo de exagerar, que ele pode ser considerado uma verdadeira experiência antropológica por diversas razões que tentarei elucidar neste texto.

Não sei vocês, mas eu adoro um mistério. Isso vem desde a adolescência, quando eu gostava de escrever poemas e crônicas sem dizer quem eu era ou usando pseudônimos. Fiz muitos amigos assim. Meus autores favoritos também escrevem ou escreveram assim em algum momento de suas obras. E a minha sensação com o Secret foi mais ou menos essa, ainda mais quando eu via que o autor do segredo era algum amigo…

Basicamente, o app é conectado à sua conta do Facebook e assim como o Tinder, não posta nada no seu perfil. A diferença é que sua identidade não é revelada e apesar de muita gente duvidar desse “anonimato total” (eu inclusa), ainda não vi qualquer indício de como um usuário comum pode descobrir a identidade de quem posta algum segredo. E é aí que mora um perigo muito real para esses usuários, que podem ter sua intimidade exposta involuntariamente a qualquer momento.

E infelizmente, vi muita misoginia e machismo no aplicativo. Não foram poucas as fotos com meninas (muitas menores de idade) que tiveram a infelicidade de confiar em pessoas que não pensaram duas vezes antes de tornar este ato de intimidade um assunto público. Considerando que a maior parte de quem o utiliza é jovem, podemos notar o quanto nossa sociedade ainda corrobora para formar pessoas conservadoras, preconceituosas e violentas.

Toda vez que surge algo assim na minha “TL do Secret”, trato de denunciar e tive sucesso em várias das denúncias, o que demonstra que os desenvolvedores aparentemente têm se preocupado com tais questões, tratando de tirar do ar e banir quem exibe conteúdo de ódio ou inapropriado.

Ademais, o App tem sido muito divertido. Soube que tenho amigos que peidam e disfarçam em transportes públicos, que amam e não são correspondidos, que usam drogas, que querem ser ricos, que odeiam a faculdade, que queriam que a vida fosse um filme… Tudo sem imaginar de quem se trata.

É aí que está a graça.

Cuidado, zelo, divisão de tarefas: desconstruindo Amélia

Como, realmente, conseguir dividir os trabalhos domésticos com o companheiro? Cuidado e zelo não tem que ser obrigação, mas partilha.

Há algum tempo eu li um compartilhamento de status de Facebook de uma amiga, a Débora Vieira , que compartilhou o post de uma amiga dela, Joyce Guerra). Era este o status:

“Estou num domingo de manhã fazendo sanduíches de pão de forma na frigideira. Essa atividade é extremamente cotidiana mas me deixa completamente feliz. Eu sei que por muito tempo acreditou-se que, na vida adulta, eu teria uma pessoa paga especialmente para prover minhas necessidades. Sei que supôs-se que eu viveria sempre na casa de outras pessoas. Então, numa manhã de domingo, cá estou eu, morando na minha própria casa, responsável por fazer os sanduíches de quatro pessoas, cada qual com sua especificidade. Pode parecer tolice, talvez, mas me sinto extremamente gratificada por fazer o café da manhã de todos eles. Por poder realizar seus desejos,ainda que em algo tão simples que é um café da manhã; por partilhar dessa atmosfera familiar entremeada por pessoas comendo e assuntos esparsados sobre o futuro e o passado. Existe uma gratificação indescritível em servir, seja aos filhos, seja aos amigos, seja mesmo a quase desconhecidos. Em receber coisas da vida e passá-las adiante, tanto em gestos complexos, quanto nos mais simples de estar disponível para alguém, e simplesmente ouvir, ou servir um pão de forma esquentado na frigideira. De repente percebo que a vida é boa. Não porque seja perfeita, mas porque ela gira, gira, gira e gira…”

E eu comentei, abaixo, com um link sobre as impressões que os gringos estavam expressando sobre nós, brasileiros: “Os brasileiros adoram dar comida para as visitas. É a forma de eles cuidarem de você.”

AMÉLIA

No entanto, nem tudo são flores. “Richard Diaz, do Chile – Fiquei surpreso de ver como é rápido fazer amigos aqui, tanto na favela quanto nos condomínios mais exclusivos. – Percebi que os homens são muito machistas. Eles tratam as parceiras como empregadas deles, especialmente em relação às tarefas domésticas.

E praticamente em seguida, outro link compartilhado me trouxe essa notícia, sobre a porquinha Peppa Pig acusada (?) de feminista. Nesse link, da Revista TPM, foi esclarecido o motivo da “acusação”: na casa da família Pig, todos dividem as tarefas de cuidado, ou seja, não tem essa de “ajudar” e achar que está sendo um favor.

Conversei sobre o assunto via Facebook com uma amiga que mora e Dublin, na Irlanda, e é mãe de quatro crianças (ou seja, uma especialista em Peppa Pig). Ela discordou veementemente da “acusação” feita à família de porquinhos. “O Papai Pig ajuda nas tarefas de casa, mas essa é a realidade da maioria dos lares europeus que não tem a ajuda de uma empregada”, afirmou Karine Keogh, brasileira e blogueira do “Ká entre Nós”. Segundo ela, a família Pig não seria comunista, socialista ou trabalhista, apenas uma família normal que divide as tarefas de casa entre pai e mãe. Eu sempre tive essa mesma impressão e por isso sempre gostei do desenho que é adorado pelo Samuca. No episódio abaixo, um exemplo da “acusação”: Mamãe Pig trabalha no computador enquanto Papai Pig faz o jantar sem-re-cla-mar. Isso acontece na minha casa e na casa de muitas famílias. Ainda bem! Uma pena que cenas como essa não sejam vistas como normal nos dias de hoje.”

Eu não “fui criada” para ser dona de casa (isso significa que fui ensinada a viver em um mundo onde alguém lavaria minhas calcinhas) – me ensinaram a fazer para saber mandar, claro que ainda bem que esse mundo ruiu e não achamos mais mão de obra barata a ser explorada para fazer as nossas tarefas domésticas.

O problema é que não são as “nossas tarefas”. Muitas e muitas vezes a tarefa é só de uma das partes. E quando não é, é de uma terceira, que é bem ou mal paga para cozinhar, lavar, passar, limpar, passear com o cachorro, cuidar das crianças, etc e tal.

E o dilema, meu e de algumas outras mulheres, sem falar em geração ou qualquer outro adjetivo que tente englobar as mesmas características em um grupo, quando são vários grupos, com várias características, é de como, realmente, conseguir dividir os trabalhos domésticos com o companheiro.

E ainda, falando, obviamente, por mim, é como reagir de forma equilibrada, buscando encontrar um método que permita que a divisão ocorra e que eu não coloque defeito em tudo o que meu parceiro faz, porque algo colocado lá dentro de mim há três décadas grita que “HOMEM NÃO SABE FAZER ISSO” e não adianta tentar ensinar. Sou eu, mesmo, essa mulher que pensa assim?

É, sim, um trabalho de desconstrução de tudo que aprendi, de tudo que cresci tendo como natural. Eu não seria como minha mãe, que só pode fazer o curso de Magistério. Eu voaria alto, eu e minhas irmãs. Foi todo um processo inclusive para aprender a entender as escolhas de minha mãe, colocá-las em um contexto, poder criticar de forma fundamentada (mamãe teve duas ajudantes, pessoas maravilhosas, que eram uma delas “como se fosse da família” e outra que realmente foi de certa forma como uma irmã, que trata meu pai como pai, mas que não teve as mesmas oportunidades, quis parar de estudar e parou, isso seria inimaginável para eu ou minhas duas irmãs “de sangue”. “Como se fosse da família”, essa frase tão corriqueira e tão… tão… não consigo expressar, é dolorido, com a vivência que tenho hoje, e fico querendo reparar os erros do passado, os meus, os da minha família, os de todo uma época).

E hoje, eu vejo minhas mãos enrolando pão de queijo, me vejo ligando para minha mãe e conversando sobre receitas, e reconheço o dom e o gosto pela cozinha, pelo prazer de cozinhar, pelo gosto de cuidar, de zelar, e ao mesmo tempo que me orgulho, vejo também aquele temor que Belchior escreveu e Elis cantou, de sermos os mesmos e vivermos como nossos pais.

Não quero reclamar que meu marido não fez tudo do meu jeito. Quero aceitar que ele tem o jeito dele, que não é o MEU, mas que nem por isso é errado. Quero que dividir as tarefas possa ser algo mais leve, mais feliz, sem cobranças. Quero aprender a ceder e a ensinar quando preciso, e a ser gentil ao explicar meu incômodo.

Quero cuidar, sem que seja só a minha obrigação, só isso.

Quero fazer o café da manhã e quero que façam para mim o café da manhã.

Quero desconstruir essa Amélia, para poder aceitar que tenho sim muito do cuidado e do zelo, mas que sou mais do que só cuidado e zelo. Que posso ser várias amélias, inclusive, e alçar altos vôos, sim.

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Amelia Earhart, aviadora

Depressão, gênios e demônios

Foi com espanto que o mundo recebeu a notícia da morte do ator Robin Williams na segunda-feira, dia 11, e com mais espanto ainda o fato da causa da morte: suicídio.

Segundo os vorazes sites de fofocas, Robin lutava contra as drogas, álcool e depressão há mais de 20 anos e teve uma forte recaída. Nas redes sociais tivemos de lamentos a condenações. O de sempre quando se trata de depressão e sua pior consequência, o suicídio, mas tivemos bem pouca compreensão.

A depressão não é, como se diz, uma doença moderna, ou mal moderno. Andrew Solomon, jornalista e escritor do já célebre – O demônio do meio dia – que eu li, amei e recomendo, trata de desmistificar a falácia:

“Esse é um mito que tenho interesse em destruir. Comecei pesquisando conceitos históricos de depressão. Hipócrates, há 2,5 mil anos, descrevia a depressão nos mesmos termos com que a descrevemos hoje. Além disso, dizia que era uma disfunção orgânica do cérebro, melhor disparada por fatores externos. Já Platão afirmava que era um problema filosófico, melhor resolvido por meio de conversas. Então, a distinção entre os modelos médicos e psicodinâmicos da depressão já existe há cerca de 25 séculos. Com intuito de observar melhor se era um fenômeno ocidental, me aventurei a estar em uma grande variedade de sociedades. Observei a depressão entre os sobreviventes do Khmer Vermelho do Camboja, entre esquimós inuítes, e fui até o Senegal, onde participei de sessões do tratamento ritual da doença, bastante populares lá. Constatei que a linguagem usada para descrever a depressão varia um pouco, mas a ideia de que algumas pessoas às vezes se sentiam inexplicavelmente divorciadas de todas as oportunidades e de tudo o que dava sentido para suas vidas existia em qualquer sociedade que pude encontrar.”
(Andrew Solomon: “O oposto da depressão não é felicidade, mas vitalidade”)

Enfim, esse trecho foi só pra dizer que tudo que o senso comum sabe sobre a depressão, sobre dizer que a falta de força de vontade, falta de Deus, e o escambau está errado. E sobre isso acho que vocês  já leram vários textos. Mas esse texto aqui é pra dizer que eu tive e tenho depressão e sobrevivi e chorei muito vendo Sociedade dos Poetas Mortos pela milionésima vez, um dos meus filmes favoritos, e uma grande performance do Robin Williams, com outros olhos.

Aquela cena em que ele vê o personagem do Robert Sean Leonard, o Neil Perry, saindo da peça arrastado pelo pai e sendo forçado a entrar no carro…Naquela cena, ainda sob o impacto da notícia de sua morte, vi nos olhos dele uma compreensão que ia além dos olhos do personagem, vi um brilho de tristeza, ele pressentia que ali podia ser o fim.

A depressão é uma força que draga todas as suas demais forças, de se levantar da cama, de comer, de sorrir, de viver. Não adianta ninguém te mostrar que há sol nas árvores, você simplesmente não vê. Ou vê, se procurar ajuda, o tratamento certo que inclui terapia e remédios sim, mas acima de tudo, nada disso funciona se fora não houver amor, se não houver carinho, amigos, família, amores. E a essas pessoas, meu muito obrigado.

Se você tem perto de você alguém em depressão profunda saiba que a morte é sim uma possibilidade real e que mais que tratamento é necessário ter paciência, um pouco de abnegação, sim, mas principalmente carinho compreensão e amor porque com amor tudo passa. Leiam, se informem e ajudem ao próximo.  Nunca pense que é só uma chantagem emocional, é um pedido de socorro. E fique em paz, Robin, obrigado por tudo. É tarde para você agora, espero que o apoio chegue antes pra tantas outras pessoas, assim como mais amor e menos julgamento.

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Amar

Não existe saudade mais cortante
Que a de um grande amor ausente
Dura feito um diamante
Corta a ilusão da gente…
(Zé Ramalho)

A vida é curiosa, passo tanto tempo tentando entender como funcionam os sentimentos, quando na verdade, só preciso sentir. Eles não são para se racionalizar, pelo menos, não pra mim.

Estou em casa!

Estou em casa!

Essa sexta e esse sábado que passaram, me dei conta do que é ser puro sentimento, sem racionalidade, um simples passeio ao centro do Rio de Janeiro, encontrar pessoas que me marcaram num passado distante e voltar a um local que, até hoje, enxergo como minha casa. Esses momentos me fizeram ver que o tempo não apaga sentimentos, eles ficam latentes, esquecidos no cantinho do meu coração, até a pessoa ou um local reaparecer, aí tudo volta com força!

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

Amar é tão simples, é tão fácil e é tão surpreendente. Eu me surpreendo com os meus sentimentos todos os dias. Me surpreendo com como posso amar tanto, num tamanho sem fim, às vezes, um amor que dói, às vezes, um amor que cura. Dói quando vemos o sofrimento de quem amamos, sem poder fazer nada para ajudar. Cura minhas tristezas quando vejo minhxs amadxs felizes.

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Tem amor que me surpreende, recebo uma notícia, a pessoa cheia de dedos, achando que pode me magoar, me conta algo que só faz amar mais e se sentir orgulhosa por amar essa pessoa. Pessoas que nem esperava compreensão, me auxiliando quando mais preciso! Amigxs antigxs voltando para a minha vida com toda força e importância.

Sou feita desses sentimentos, amar é o que faz de mim tudo o que sou, da cabeça aos pés, sou puro amor.

How I wish
How I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here
(Pink Floyd)

Meu peito minhas regras

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 Seios. Peitos. Começo esse texto dizendo que admiro a beleza dos seios femininos. Seios que devem ser deixados livres para respirar, e para serem como forem. Seios fartos, seios discretos, seios de qualquer forma. São bonitos e são, cada qual, pertencentes às respectivas mulheres que os carregam. A elas, só elas, e mais ninguém.

Custamos muito nessa sociedade machista a aceitar o fato de que o corpo da mulher pertence somente à mulher. E não importa se ele está exposto ou coberto até o pescoço, nosso corpo é nosso e de mais ninguém. E temos o direito de dispor desse corpo como quisermos. Onde e como quisermos.

E não, não quer dizer que isso é um convite ao macho e aos olhares cheios de fetiche se os peitos estão descobertos, desnudos, ou aparecendo debaixo da blusa. Com decotes. Cobertos ou tapados. Não, não se trata de outra pessoa, não se trata de sedução, não é sobre você que está olhando, que está passando, que está convivendo. Trata-se do direito da mulher dispor sobre seu corpo, andar com seu corpo pelas ruas, fazer dele o que bem entender sem que outra pessoa se aproprie, interfira, ou invada esse corpo. Mesmo que com olhares avessados.

E dentre essa liberdade dos peitos e do corpo da mulher, tem um tema que sempre aparece: a amamentação. Essa fase em que algumas mulheres cis experimentam alimentarem seus bebês com algo incrível que eles podem receber: o leite materno. Colo, leite, peito, boca. Tudo ali, numa relação que é cotidiana e faz parte das paisagens do dia-a-dia.

Mas não é assim tão fácil. As mulheres cis que amamentam passam por diversas situações de constrangimento e restrição aos seus peitos de fora. Locais apropriados para amamentar. Expulsão de lugares públicos. Convites a amamentarem seus filhos em banheiros ou salinhas “apropriadas”. As restrições moralistas ao “local” da mulher amamentar, e como ela deve amamentar, são absurdos mascarados de “boas regras de convivência”. Machismo camuflado em cada olhar julgador do peito de fora amamentando uma criança.

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Não, a mulher não tem que usar paninho para esconder o peito. Não, não tem que amamentar no banheiro ou em salinhas escondidas. Ela não tem que nada. O lugar da amamentação é onde e quando a mãe e a criança quiserem.  E você que está em volta não tem nada a ver com isso. Acostume-se que a mulher tem um corpo, e que esse corpo pode ser usado como e quando ela quiser, da forma como quiser, e você não tem o direito de tolher ou esconder ou abusar desse corpo. Bem como você não tem o direito de interferir nessa relação: deixa a mulher dar o peito para o bebê, ou não dar o peito para o bebê, pelo tempo que quiser ou não quiser. Para a criança grande demais para mamar ou para a criança pequena demais para ser desmamada. Você não tem nada a ver com isso.

Venho discordando de posturas que praticamente obrigam ou julgam a mulher que hoje escolhe não amamentar. Ou escolhe, no cansaço do seu dia ou da sua noite, dar um complemento para o bebê. Dar um danoninho, uma chupeta. Um leite artificial. Sim, não tenho dúvidas acerca da importância da amamentação. Meu filho mamou até os 3 anos (essa foi a minha escolha e a minha história, que não se aplica a outra pessoa). Bem como não tenho dúvidas de que existe pouco apoio à amamentação, que as mulheres não são orientadas corretamente a amamentar, tirar leite para xs filhxs tomarem enquanto não estão perto etc, e que a indústria do leite artificial é poderosa em seus artifícios capitalistas e suas estratégias para vender leite e desqualificar a força e importância do leite materno, atingindo inclusive diversos profissionais de saúde que atendem essas mulheres.

Sim. Mundo capitalista, indústrias lucrativas em cima das mães e seus bebês, várias estratégias para minar a amamentação e aumentar o lucro das empresas de alimentos. E amamentar é de graça. E está tudo ali. Eu adorava a praticidade da amamentação. Não precisa lavar mamadeira, não precisa esterilizar, não precisa comprar lata de leite, nada. É só colocar o peito pra fora e pronto, você sabe que a criança está bem alimentada. Mas, e a mulher que não quer? Que não gosta? Que não consegue buscar apoio? Que trabalha e não aguenta a criança acordando de madrugada? Que tá cansada? Que tem sono? Ou que simplesmente não quer? Já ouvi absurdos julgadores que não tenho coragem de reproduzir. Não, essa mulher não é obrigada pelo bem do seu bebê. Não, essa mulher não precisa nada. O corpo é dela, o seio é dela, e na minha opinião isso sempre estará acima do que “é melhor para o bebê”. Recentemente vimos o caso absurdo e criminoso de uma mulher ser levada para uma cesárea contra sua vontade pelo argumento falacioso de que “era melhor para o bebê” (veja mais  aqui). Quem sabe o que é melhor para o bebê?

Quando aprenderemos a respeitar a escolha das mulheres, seja ela qual for? Mesmo que consideremos – no caso da amamentação – que essa escolha não totalmente é livre, pelo fato da mulher estar influenciada pela indústria do consumo, vamos respeitar e não intervir na amamentação ou não amamentação alheia? Vamos deixar de lado julgamentos às mulheres e nos concentrarmos na militância contra o sistema? Ademais, já é tempo de garantirmos às mulheres o direito amplo e irrestrito ao próprio corpo.

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* texto inspirado em uma discussão no facebook, principalmente nos meus diálogos com Deborah Leão, a quem agradeço a contribuição e as partilhas!

 

 

 

Propriedade, julgamentos e violência contra a mulher

A super lua de ontem me fez saudosa de muitas coisas. De mim, inclusive, da Niara que enxergava o mundo e até escrevia com um pouco mais de encantamento e poesia. Lembrei de um post onde contava um pouco das minhas memórias, da lua e de uma música, feita pra lua e sobre ela.

Ando seca. Talvez seja Xangô me atormentando e dizendo que não se pode descansar ou vacilar com tanta injustiça em volta. Só que é aquilo… Tanta injustiça embrutece a gente. E é só das injustiças e indignadades desse mundo que estou sabendo escrever. De modos que… Segue mais uma.

Acordei num mau humor do cão ontem. Porra, domingo, um dos raros em que não teve festa em nenhuma das ruas aqui perto de casa em OuCí e nem ensaio da banda horrorosa que ensaia na casa do lado… Mas tinha foguetório — sempre tem — e Lalá latindo, ogro gripado e roncando e se atirando na cama, #dinofilhote acordando toda hora. Não consegui dormir duas horas ininterruptas. Quando finalmente “acordei” e fui fazer meu café para sentar em frente ao pc e trabalhar — vida de jornalista freelancer é isso mesmo –, Gilson comenta sobre essa notícia que acabara de ler nas internetes… Fui despertada por ela.

Em julho do ano passado vi uma matéria com esse casal, Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine. Eles tinham feito uma “tattoo de compromisso”. Ele tatuou seu sobrenome na parte frontal do pescoço e ela tatuou um carimbo estilo “made in” dentro de um retângulo tracejado nas costas, próximo ao ombro direito, dizendo “PROPERTY OF WAR MACHINE” (Propriedade de War Machine — seu codinome de lutador).

montagem com as "tattoos de compromisso" feitas por Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine

montagem com as “tattoos de compromisso” feitas por Christy Mack e War Machine

Pausa. Respira. Respira de novo… Respira mais fundo. Bóra descascar esse abacaxi…

Suas profissões não vêm ao caso. Conhecemos inúmeros casos de homens agressores extremamente violentos exercendo profissões consideradas até dóceis. E a vítima, bem… É só a vítima! Me nego a fazer qualquer observação a esse respeito porque considero que a mulher é livre para fazer o que bem entender, inclusive uma tatuagem dizendo que é propriedade de outrem ou casar e assumir o sobrenome do marido. E sabemos também que a violência contra a mulher é democrática, horizontal, perpassa todas as classes, raças, países, origem, idade, credo e conduta.

O que tem de errado nessa história — além da violência, que infelizmente já foi “normalizada” — é a forma como a notícia foi apresentada. Em primeiro lugar editores do portal Terra, violência contra a mulher não é “confusão”. Confusão é jogar dinheiro pra cima no meio do Saara ou do Mercadão de Madureira ou na 25 de Março ou ainda no Bric da Redenção. Quando um homem espanca uma mulher, independente da natureza de sua relação (pode não haver nenhuma, inclusive) é apenas e tão somente violência contra a mulher. Não há meias palavras, não há relativização a ser feita, não há pílula a ser dourada.

Em segundo lugar editores do portal Terra, não fica claro no título o motivo pelo qual Christy Mack não está podendo falar. Não poder falar é eu fazendo o #dinojantar com as mãos ocupadas entre a cebola, a pimenta e a colher de pau sem poder pegar o telefone para falar com alguém. E o pior de tudo, editores do portal Terra: Por que a profissão de Christy abre a frase do título da notícia? Por que o julgamento moral e o machismo dx editxr (deve ser um homem quem exerce o cargo, como indicam as pesquisas a respeito de cargos de chefia no jornalismo brasileiro, mas como o machismo é estrutural e estruturante, e passível de ser reproduzido por todos, inclusive mulheres, melhor deixar o gênero do cargo indefinido) responsável por essa seção do portal são mais importantes que a notícia? Atriz pornô merece apanhar? Atriz pornô que namora lutador de MMA violento a faz menos vítima? Atriz pornô que tatua ser propriedade de namorado violento a torna merecedora de violência? Se a atriz vítima de violência fosse de comédia a sua profissão estaria no início do título?

A questão é que tanto faz. Não importa sua profissão ou qual a sua especialização como atriz, sua conduta e nem mesmo sua permissividade com relação à violência. Não cabe à chefia da editoria do portal Terra julgar isso. Jornalismo relata fatos, conta como eles aconteceram, o “julgamento” fica a critério de cada leitor/a. E sabemos que nem precisava desse escárnio com Christy para que ela fosse julgada como merecedora do espancamento do qual foi vítima. Se ao ler a notícia, mesmo que nos detalhes finais, estive escrito que ela é atriz pornô todos a julgariam. Então, pra quê? Sabemos pra quê, mas estou questionando diretamente a editoria do portal Terra. Porque nesse caso não é o repórter peão que não pode ser responsabilizado pela manipulação da informação do veículo onde trabalha, nesse caso é a chefia, é quem detém a confiança do proprietário do veículo que deveria ser de informação, e não de julgamento.

Como ficaria um título isento para essa matéria? “Atriz é espancada e mal consegue falar. Namorado está desaparecido”

Se Christy não tivesse se tatuado como propriedade do namorado, ela estaria a salvo da violência? Não. Nenhuma mulher está. War Machine se sentiria menos proprietário de Christy sem a tatuagem? Não. Homens tendem a se sentirem proprietários da mulher, independente de terem ou não uma relação com ela. Há uma enxurrada de casos de assassinatos de mulheres onde o feminicida é o ex. Nesses casos todos é comum a imprensa vimitizar de novo a mulher ao julgá-la, como fez (e ainda faz) no caso da Eliza Samudio, só para citar um exemplo.

Não importa o que façamos, o que somos ou o que pensamos. Quem está na berlinda é sempre a mulher. E me admira muito que numa matéria com esse título não tenham dado uma rápida guglada e citado a tattoo como mais um atenuante para o agressor…

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas com moralismo barato usado para justificar machismo, misoginia e, por consequência, violência contra a mulher.

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atualização 11/08 às 13h30: Até consigo entender que num portal todas as notícias relacionadas a “famosos” estejam num mesmo local, mas é inadmissível que um caso de violência contra a mulher esteja na seção “Diversão”.

atualização 12/08 às 14h15: Christy Mack divulgou em suas redes sociais na segunda à noite um comunicado agradecendo o apoio e carinho que vem recebendo e relatando o que houve. Esse comunicado foi traduzido e divulgado pela seção “Combate” do Sport TV da Globo.com, num tom bem mais aproximado da realidade dos fatos. Mesmo assim, num trecho diz [o que talvez para alguns justifique as agressões de War Machine]: “Ela relatou que foi espancada pelo atleta, com quem teria rompido relações há três meses, após >>>ser flagrada<<< junto a um amigo em sua casa em Las Vegas.

FLAGRADA??? O termo flagrante aqui dá a ideia de que ela estaria fazendo alguma coisa errada. A própria Christy justifica em seu comunicado que ela e o amigo estavam vestidos quando da chegada de War Machine em sua casa.

Diz a Renata Corrêa, e eu subscrevo: “As mulheres são flagradas de biquini no site de fofocas, flagradas conversando com amigos pelo namorado ciumento mas o único flagra mesmo é do machismo na sociedade. A menina ainda tem que dizer que estavam vestidos. E se estivessem pelados? Podiam apanhar?

Por fim, um trecho do relato de Christy com parte do “saldo” de seu espancamento e as fotos dela no hospital ontem (11/8): “Minhas lesões incluem 18 ossos quebrados ao redor dos meus olhos, meu nariz foi quebrado em dois lugares, perdi dentes e vários outros (dentes) estão quebrados. Estou incapaz de mastigar e de ver pelo meu olho esquerdo. Minha fala está confusa por causa do inchaço e da falta de dentes. Tenho uma costela fraturada e o fígado severamente rompido por causa de um chute na minha lateral. Minha perna está tão lesionada que não consigo andar sozinha.

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Um conto de fadas que não acaba

Era uma vez uma menina que sonhava. Com grandes feitos, com lutas contra o mal.

Ela tinha ouvido histórias contadas pelos antigos. Histórias dessas lutas, e sabia que muita gente tinha sofrido, tinha sido presa e torturada por conta delas.

A menina com a cabeça cheia de sonhos alimentava esses sonhos com livros. Muitos muitos muitos livros. Os livros eram um mundo que a acolhia: quando o mundo daqui se tornava por demais doloroso e estranho, ela mergulhava sem escafandro nem garrafas de oxigênio no mundo dos livros.
Mas lá ela tinha guelras.
O mundo dos livros era familiar e mágico, aconchegante e estranho. Mas uma coisa – ela bem sabia – era certa: ele sempre estaria lá. Quando tudo mais não estivesse, sempre haveria o mundo dos livros. E para lá ela poderia fugir, lá ela podia se refugiar.

(esperem aí que eu vou buscar um café e conto mais.)

Pois então. Teve aquele dia. Em que um personagem do mundo dos livros apareceu no mundo de cá. E foi como Monteiro Lobato, que sabia das coisas, conta, quando os personagens do País das Fábulas resolveram visitar o Sítio do Picapau.
meio bagunçado.
De repente a fronteira se esgarçou, as brumas se afastaram e os dois mundos se encostaram.

Mas isso não pode.
(ou tão pouco).

A gente de verdade pode ir no mundo de lá – contanto que crie guelras.
Mas os personagens de lá…. é melhor, quem sabe, que fiquem lá.
Eles não fazem de propósito.
Eles acham que são gente como a gente.
Não são.

A gente torce para que tudo “dê certo”. Pra que caminhos que constroem novos sonhos e recuperam antigas esperanças se firmem e se concretizem no mundo de verdade.
A gente tá perto, olhando, querendo que dê.

Mas com cuidado.
Devagar.
Sem esquecer
que a gente é daqui.
Que eles são de lá.
E que os encontros podem até acontecer.
Mas tão pouco.

(e é por isso que o conto de fadas não acaba).

Louca

- Ah, aquela é uma louca!

Uma pessoa acaba de ser apontada como supostamente vítima de uma doença mental. Na maioria das vezes o “diagnóstico” é seguido por julgamentos morais, que invalidam discursos e desqualificam a pessoa. Cruel, não? Mas quantxs de nós não já fizemos isso? Quantxs de nós não acham que só podem ser loucas as pessoas que matam, estupram, maltratam outras pessoas, abusam de algum tipo de droga legal ou ilegal? Porque, afinal de contas, loucxs são apenas xs outrxs, não é?

Não mesmo.

Eu mesmo sou louca.

loucura 2

Apenas mais uma, parte dos 12% da população, mais de 23 milhões de pessoas, que necessita de algum tipo de atendimento em saúde mental. Mas assim como 93% das pessoas com algum tipo de doença mental não apresento histórico de violência. Mesmo assim, como a grande maioria, sofri e sofro um preconceito que deixa cicatrizes diversas. Esse preconceito tem até nome: psicofobia. O termo é adotado para designar quaisquer atitudes preconceituosas ou discriminatórias contra as deficiências e os transtornos mentais.

Sim, eu preciso de remédios “controlados”, que se chamam dessa forma porque só podem ser receitados por um profissional especializado, o tão “temido” psiquiatra, além de terapia, que faz um bem danado pra qualquer pessoa independente de ser portador ou não de qualquer doença.

Não, eu não preciso de orações ou da medalha abençoada da Virgem ou de um banho de descarrego, nem de fortalecer meu caráter, deixar de drama ou da sua pena disfarçada de condescendência. Tampouco o remédio que preciso é uma “cambada de pau”, como “aconselha” de “tratamento” para loucxs um ditado popular aqui no Nordeste.

Eu sou louca, mesmo.

loucura 1

Isso não me torna genial, nem artista, apesar de saber que pessoas com doenças mentais têm maior propensão a trabalhar em atividades ligadas a criatividade. A inspiração para o meu trabalho não vem da minha doença, apesar de alguns de seus efeitos ajudarem na elaboração de certos… bom, digamos… “pensamentos”. Só que esses “pensamentos” também podem me levar ao suicídio. Não acho nada vantajoso. Vez em quando ainda me divirto bastante em viver, sabe? Além de não gostar que outras pessoas sofram em consequência das atitudes que tomo.

Sim, eu posso rir da minha doença, mas não farei isso às custas do sofrimento de um outro alguém. Como também farei o possível para não permitir que riam de mim e não comigo.

Posso rir sozinha ou acompanhada porque, apesar desse sofrimento e depois de muita terapia, descobri que assim como alguém que tem diabetes, preciso mesmo de alguns “cuidados” extras, mas posso e tento ter uma vida relativamente dentro dos padrões da maioria da população ativa do País.

Descobri também que assumir a loucura para mim mesma e para outras pessoas, inclusive neste texto, faz parte de uma série de ações que resolvi tomar para enfrentar a tal da psicofobia, que como quase todo preconceito nasce da ignorância e do medo, para continuar me cuidando e aceitando cuidados. Porque já deixei, assim como muita gente que conheço, de tomar um remédio que precisava porque eu era mais forte que “isso”. Já tive e tenho, ao continuar o tratamento, que contornar “piadinhas inofensivas” nas muitas tentativas de traçar paralelos dxs amigxs que usam algum tipo de droga recreativa com o medicamento que eu esteja utilizando. Já aconteceu também de ser qualificada como “preguiçosa” por empregadores por conta de uma maior lentidão na execução de tarefas quando no uso de alguns desses medicamentos. De “irresponsável” por temer levar atestado médico, que é meu direito legal, quando precisei me afastar mais de um dia do trabalho. Também já senti medo de contar para pessoas com as quais eu me relacionava sobre minha doença. Talvez, porque foram muitos os abusos e posteriores desmerecimentos desses abusos por algumas dessas pessoas.

Afinal de contas, eu sou apenas uma louca.

Porém, houve o diagnóstico e tratamentos adequados até que pudesse entender que carregar a doença como estigma ou uma questão “espiritual”, assim como muita gente que sofre de depressão, crise de pânico, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outras doenças mentais, é contribuir para esse preconceito. Inclusive, na sua forma mais cruel, aquele que desmerece o doente, culpabiliza e segrega.

loucura 3

E, sim, quem usa a frase que inicia este texto como forma de julgamento moral é preconceituosa. Mesmo. Quer testar? É só fazer a substituição do “louca” na frase por quaisquer outros termos que histórica e socialmente foram ou são considerados ofensivos…

- Ah, aquela é uma (especifique cor de pele, orientação sexual, condições econômicas, profissão, características físicas ou doença)!

Deu para entender?

Eu sou louca.

E continuo sendo quem sou. Eu sou muitas “coisas”. Boas e ruins. Ruins e boas. Sinto preguiça, algumas vezes sou irresponsável, posso ser má e cruel consciente ou inconscientemente, sem para isso precisar de uma doença que me “justifique”. Assim como posso trabalhar gripada ou com dor nas costas e agir como o que comumente entende-se por boa pessoa. Mas, dentre essas “coisas” que sou, eu não escolhi ter uma doença mental. Que genericamente chamam de loucura. Eu não escolhi ser louca. Mas posso escolher não ser preconceituosx em relação a doença que tenho. Que não é absolutamente o que me resume.

E se você não pode, bom… você precisa de tratamento médico com urgência. Sua doença é bem mais perigosa que a minha. E já machucou gente demais.

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