De perdas virtuais etc.

Sou do tipo que não se desfaz de amigo. Amigo, se é amigo, é amigo. Discordo, discuto, contesto: só que é amigo, ora. E assim será.

Mas esse texto – de que gostei muito – me fez pensar em outra circunstância: aquelas pessoas com quem convivo em redes sociais, algumas que até  já encontrei pessoalmente, e que se desfazem de mim. Assim, sem nenhuma briga, nada: elas me “desamigam”, provavelmente por não concordar com algo que eu disse, que eu postei, ou por terem problema com as pessoas com quem interajo. Por não aderirem à minha opinião, por achar que tenho más frequentações, por se sentir atingidas por uma indireta que não mandei.

Algumas dessas eu gostava de ler, com outras de interagir. Com algumas dessas eu já conversei inbox, já troquei e-mail: um passo à frente nas relações virtuais. Outras ainda eu já encontrei “no mundo real”, já sentei em bar, já tirei dúvidas, compartilhei preocupações e alegrias.
E, claro, é sempre possível brigar. Se desentender de verdade, achar que pra tudo há um limite e que não dá pra continuar daquele jeito. Não é disso que estou falando: é do desamigar fofo, sem aviso prévio: de repente, você vai falar com a pessoa e ela não está mais ali, na praça virtual em que se encontravam todo dia.

A minha reação, nesses caso, é assim, em geral: lamento um pouco pela relação que eu achava que era e não era.

Sinceramente, é só um pouco: porque, de verdade, o que fica mais forte é o “que não era”. E eu sou boa de me adaptar a choques de realidade. Se não era, então… não era. Porque alguém que corta relações comigo por esses motivos, sem nem dar um tchau, afinal, não era amigo, não é mesmo?

Vida que segue.
É aprender a entender a falta, lamentar sinceramente, e seguir adiante. Desapegar, soltar, deixar ir o que não é mais.
(E, sim, eu estou escrevendo um texto inteiro sobre corte de relações virtuais: pequenas coisas que têm a ver com coisas maiores, virtual-real que a cada dia mais são dimensões de uma realidade só.)

Se poupar? Economizar relações? Ficar protegida e resguardada? Não é a minha praia. Não é “do lado de fora”, não será “do lado de dentro”. Prefiro estar sujeita a isso: a descobrir, de repente, que uns que achava que era não eram. Até porque afinal, tem os outros: aqueles que, de verdade, são. E aí é de grão em grão. De clique em clique. De post em post. A gente vai construindo. Desbravando, caminhando, conhecendo. Se escrevendo, comentando, discutindo. Gostando, sim. Gostando, ué. Faz parte.
Bora lá. Me adiciona aí que eu tô com um bom pressentimento.

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Super Sincera?

Patati, patatá, rala e rola, rola e rala e pá: gosto de tudo contigo. Huumm, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, sim, sim, sim. Gostas de tudo comigo? chupchup, sleptslept, nhaminhami, uma reflexão breve: até agora, ventos a favor. Pode até acontecer um: aí não, ainda não, agora não, assim não. Pode. Mas não aconteceu ainda e tá tão bom… sim, sim, sim, gosto de tudo contigo. E mais vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora, aaaiiii, seriãoquenegózibom, sou todo teu. Ops. Todo? Meu? Possessivos sendo empregados assim tão a sangue-frio? Ui. Mas, né, seriãoquenegózibom, quegostoso, quedelícia, seriãoquenegózibom, é dele ele dá pra quem quiser: ok. Meu, meu, meu, mais, mais, mais, hhhuuuummm, isso é até legal. Estou gostando. És toda minha? uóoonnn, uóoooonnn, alerta vermelho, alerta vermelho, todos os sistemas são suspensos automaticamente. És toda minha, querida? [pausa] [silêncio] [e agora: dizer que sim só pra não bagunçar a brincadeira que está tão boa? abraçar a causa da liberdade e reafirmar posição dizendo não, sou toda minha, quem você pensa que é? propor um meio termo razoável: escolha aí duas ou três partes pro seu usufruto exclusivo e o resto eu uso como me aprouver?] suspira, geme, geme, enche a boca pra disfarçar, fim da pausa, reinício do patati, patatá, rala e rola, rola e rala, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora… é tudo meu, mas você pode gozar do que conseguir agarrar agora.

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Por uma resistência biscate

Há uma proposta tramitando no Congresso Nacional que quer exigir que todo candidato a cargo público tenha diploma de nível superior.

É exatamente isso que é a revolta do pato, em síntese. Porque quem defende o pato e a ideologia do pato pensa exatamente assim: que sem diploma universitário não há como conferir status de cidadão a alguém.

Não adianta, mesmo, a gente querer dourar a pílula, argumentar que a proposta está desconectada da “voz das ruas” que ecoaram na revolta do pato. Não está.

Assim como não é contraditória nesta lógica a proposta que pretende conferir às igrejas a possibilidade de questionarem diretamente ao poder judiciário a constitucionalidade de alguma lei ou outro dispositivo. Outra questão central na ideologia do pato é a figura de deus como norteador do homem de bem. Sim, um deus que confere caridade ao homem comum, à família, aos ideais. A ideologia do pato não é laica: ela pode não ser católica, evangélica ou judia, mas ela tem deus como elemento central da bondade humana.

Há outras propostas que estão na cesta da ideologia do pato amarelo. Uma, das que destaco com mais louvor, é a de que beneficiários de programas sociais não pudessem votar. Meio que de brincadeira tratamos estas pérolas: não devíamos mais. O voto censitário é uma bandeira, sim, da revolta do pato.

É óbvio ululante, também, que todas estas ideias centrais do pato-logismo não vêm à tona todas de uma só vez. Há, sim, um desconforto dos donatários que às vezes os deixa envergonhados, com pequenos pudores. Mas, Cunha está aí para nos esfregar na bunda, as relativizações no pato-logismo são moeda corrente.

Outra bandeira do pato amarelo é a que quer o exorcismo nas escolas, afastando cada vez mais as aulas de história, geografia, sociologia, antropologia dos currículos escolares. Primeiro, através de medidas que visem delimitar o que pode ou não pode um professor ou professora dizer numa sala de aula. Depois, questionando as verbas de pesquisa para temas que não tem “finalidade prática”. Por fim, a gente muda mesmo o currículo e que se dane.

A revolta do pato é – ao cabo de tudo – a tentação dos donatários de querer se manter em seu imenso condomínio, seguro e protegido. De preferência, de carro para ir na padaria da esquina.

É hora de nos melecarmos, como resistência, desconfio. De gozos, suores, palavrões, abraços, gente pelada, beijo, macumbas, bicicletas, famílias de papai e mamãe, de papai e papai, de mamãe e mamãe, de papai mamãe e de mamãe papai. Hora de nos lambuzarmos de mel, de cervejas geladas, de piada, poesia e cataclismas. Mas, sobretudo, é hora de deixarmos a redoma que nos protege do desconforto de ficar esfregando na cara dos amigos, colegas e conhecidos o que eles estão a cumprir ao apoiar a ideologia do pato.

E que os deuses, e sobretudo as deusas, salvem a psicanálise, a desobediência civil, os ateus e o amor.

O pato, senhouras e senhoures, não é só um plágio e uma fraude. Ele também é um vexame. Um imenso vexame.

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Uma Dose de Transgressão

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

Não é por que você é puta que precisa se vestir como puta, agir como puta, falar como puta.”

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De pleno acordo. No entanto, não é por que você é puta que não pode agir como uma, vestir-se como uma, falar como uma, em busca de performar uma respeitabilidade burguesa que em verdade não é conveniente a mulher alguma, menos ainda às putas. O esforço por performar essa respeitabilidade é, no fim das contas, um esforço para manutenção do sistema, um modo de reforçar o estigma.

Eu não preciso usar terninho e sapatos baixos pra provar que sou inteligente, articulada e competente. Não preciso esconder minhas fotos ousadas pra te dizer: no meu corpo só toca quem eu quiser, quando eu quiser. Não preciso esconder que sou uma trabalhadora sexual em lugares ditos respeitáveis por que também eu sou uma pessoa respeitável e conheço os comportamentos adequados para cada espaço.

Dizer que o comprimento das minhas saias é inadequado para a minha idade nada mais é que reforçar o viés machista e etarista de nossa sociedade patriarcal, para a qual mulheres só servem se estão em idade reprodutiva, e só podem exercer sua sensualidade até ali. Etarismo é uma face do machismo seguidamente usado para atacar Cristina Kirchner ( http://www.midiamax.com.br/…/844926-presidente-do-uruguai-d… ) e outras mulheres que ocupam o poder, e nada mais é que um meio de dizer-nos qual é o “nosso lugar”. Mas nós, mulheres, já dizemos há tempos: lugar de mulher é onde ela quiser. E nós, putas, que há tempos já ocupamos mais do que esquinas, reforçamos: o lugar da puta é, sim, onde ela quiser.

Por uma dose de transgressão na vida.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Para Dançar o Tango

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São precisos dois para o tango. E mais. Entrega. Antecipação. Esse enlace de corpos que se adivinham, um instante antes de ser. Um jogo de quase. Deixar o corpo um pouquinho mais, pra roçar. Tirar o corpo um pouquinho antes, para não esbarrar. Quase encostar. Perto. Mais perto. Sai. Volta. Esfrega. Desejo. Distância. Olhar além. E reconhecer que mesmo ali, o agora da sedução abriga a melancolia de uma solidão, no depois. Talvez, por isso, se tenha dito que “dançar tango é algo grave e profundo, quando se dança não se ri”.  São necessários dois, suspeito, para marcar o vazio, a distância, a geografia da ausência. Dois para dividir o peso da impossibilidade do encontro. E para vislumbrar o encanto, claro, dos momentos em que a gente acredita que sim. Quase.

Como aquele dia. Aquele moço. Errado, claro. Também ela. Sozinhos. Não sempre. Naquela noite. Encontros. Não. Colisões. Dois desejos. Duas fomes. Dois pra lá, dois pra cá. Expedições ao corpo do outro. Mãos que se roçam. Dedos que se entrelaçam. Um pé desnudo que esbarra na perna alheia. Salivas que se misturam no mesmo copo. Desbravadores inexperientes nesse território, precipitam-sem em beijos. Um pra lá, vem mais para cá. Errados. Confusos. Descompasso. Sem salão de baile, um tango interrompido.

O que ela sabe, é preciso deixar as portas abertas. E as janelas. E as pernas, opa, o peito. Os poros. Os olhos. As mãos. Oferece. Recebe. Permite. Acolhe. Dá. Vive. Não negar. Não esperar. Sem receita. Sem modelo. Sem tipo, apesar do Ney. Ela sabe, ela se despe. De receios. De reservas. Ensaia uns passos. Não será tango, que venha a alegria do samba, o suor, a cerveja e que dure enquanto for festa no corpo. Carnaval.

Sobre ” Bela, Recatada e do Lar” e a participação masculina

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

É apoio. Eu acredito em movimentos e campanhas capazes de mobilizar o maior número de agentes de luta. Não é o mesmo de ridicularizar e nem é o mesmo de se apropriar. Creio que possa haver um sentido político na participação de homens nesta campanha, que seja o do reconhecimento do seu papel na construção deste estereótipo, de um papel subalterno para a mulher, de um papel decorativo e passivo.

Bela, Recatada e do Lar é ironia de luta. Não estou minimamente preocupada em dizer quem deve ou não postar fotos, de verdade. Gostaria mesmo que percebessemos que alguns discursos constroem uma vilanização de Marcela ou de Dilma ( por comparação), como se houvesse nela qualquer responsabilidade pelos discursos que tentam enquadrá-la. Essa violência é muito mais importante de ser discutida.

Mulheres não estão deixando de postar fotos porque homens estão postando. A luta não está sendo enfraquecida porque homens estão postando. A visibilidade não deixa de ser feminina porque homens estão postando.

Eu acharia terrível a participação masculina, se ela minasse ou ofuscasse a participação feminina. Isso não está ocorrendo.

” Ah, mas o homem não lida com este estereótipo”, sim, todos sabem disso e ele postar uma foto com esta legenda não fará com que achemos que ele sofra.

” Não quero homens falando por mim”, gente… Postar foto não é falar por mim, mesmo. Querer falar por mim é dizer como eu devo agir, pensar e me posicionar.

Espero que os homens possam conhecer os mecanismos de produção destes estereótipos e que hajam no sentido de combatê-los, pra além disso, não me parece bom motivo pra briga, né não?

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Os homens hétero e a linha de demarcação

Sentar em mesa de bar com uma penca de homens cis hétero acima dos 50 é ter que ouvir uma infinitude de piadinhas sobre a última ida ao urologista, o peso nas costas e similares.
Aí você pode sorrir e esperar passar (mas demora…..).
Ou você pode questionar, e vira barraqueira.

McSorleys

Escrevi isso como status de feicebuque, e, à medida que recebia notificações, fui olhando pro texto e lembrando. E situando. E organizando, pra vir escrever aqui. Não era esse o objetivo – era apenas desabafar algo sobre a minha noite. E não se enganem: a noite foi ótima, foi agradável, foi divertida….  Falou-se de política, da nossa conjuntura líquida e tremelicante…. Era com amigos, pessoas queridas…. Mas teve isso.

Teve isso, tem isso. Isso faz parte. E, no caso, a mesa realmente só tinha homens acima de 50 anos. Mas arrisco dizer que, se fossem mais jovens, talvez não fosse tão diferente. As piadas poderiam ser outras: mas o conteúdo simbólico não iria mudar tanto assim. Homens hétero juntos: esse tipo de piada é tão corriqueiro.

Como comentei depois, o episódio – como tantos outros envolvendo grupos de homens –  me lembrou um filme do Claude Chabrol chamado “La ligne de démarcation”. Não achei o título em português, mas a tradução é ao pé da letra: “A linha de demarcação”. O filme é sobre uma cidadezinha francesa que, durante a ocupação alemã na segunda guerra, acaba sendo dividida em duas, uma parte ficando na zona alemã, outra na francesa. Pois então. Assim me parece o cotidiano dos homens cis hétero brasileiros (digo brasileiros porque me parece que aqui isso é particularmente marcado): uma eterna demarcação de zona. A hétero, em que se encontram, e o “lado de lá”. O “dos outros”. Arriscado e perigoso “lado de lá”. 

As pessoas da mesa certamente diriam (como disseram) que não têm preconceito, que estão do lado dos direitos dos homossexuais, que até têm amigos que…. E no entanto, fazem essas “brincadeiras”. Essas piadinhas. Todo dia, o tempo todo.

Em algum lugar já comentei que ser homem hétero é eterna vigilância. Como sentar, como andar, o jeito das mãos, a entonação da voz…. As roupas, o lenço (nunca jamais em tempo algum), as cores, o corte de cabelo… canso só de listar. Nunca saberia ser homem hétero, sério. Esse homem hétero padrão. É claro que existem outros, que faz em diferente: mas esses sabem que estão sujeitos a ouvir permanentes piadinhas sobre a roupa “de viagem”, sobre o jeito, sobre as cores. Sobre o que são, sobre aquilo de que gostam.

E, mesmo numa mesa dessas, em que, além de três mulheres, só havia homens hétero, uma boa meia hora se passou à base das piadinhas. Que giravam todas em torno do cu apertado. Apertadíssimo. Tão apertado que os dentes até trincam, imaginem. Deve ser difícil também, deve haver algum tipo de exercício específico pra manter o cu tão apertado. dessa demarcação. De como eram homens-machos. De verdade. De como estavam do lado de cá, e não do lado de lá. E por isso as piadinhas.

Fico pensando na educação que gerou isso. No “isso é coisa de maricas”, no “homem não chora” e tantas outras mais. Fico pensando na coragem de quem ousou assumir sua homossexualidade diante desse panorama. Nos motivos de quem não ousou. Porque não queria contar para os amigos de infância. Porque não queria perder esses amigos. Porque não queria decepcionar o pai. A mãe. Os irmãos. Tantos motivos pra não dizer.

Cheguei até aqui no texto e me deu vontade de chorar. Lembrei do Jean Wyllys que vive naquele ambiente inóspito da Câmara dos Deputados. Do que ele deve ouvir todo dia, toda hora. Da coragem, da firmeza.

Do momento em que ele se descontrolou diante de um crápula que exaltava um notório torturador da ditadura militar.

E acabo o texto aqui, porque acabou por conta própria, com uma homenagem a ele: Jean, seu cuspe foi nosso também.

E um recado amigo:
Homens cis hétero brasileiros, melhorem. Melhorem muito.

imagem daqui.

Morrer é Foda

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro. Repetia para si as palavras da amiga. Era isso. Havia matado a relação e se matado também. Sentia falta dele, mas percebia que sentia, sobretudo, falta de quem era naquela relação com ele. Sua amiga condensou sua dor em duas frases banais trocadas por whatsapp: “morrer é foda. Morrer é difícil pra burro”.

Morria lentamente de saudade do homem com quem trepava divinamente. Morria de saudade das conversas, da voz, do cheiro. Do olhar. Aquele olhar derramado sobre ela, morno, mas que incendiava tudo por dentro. Um olhar terno, acolhedor e revelador. Ria de como ele não conseguia ler a embalagem do requeijão e achava seus óculos horrorosos. “Vou comprar óculos redondos, ter cavanhaque e camisa xadrez só porque você gosta”, ele prometia irônico.

Ele morreu para ela. Nunca mais a facilidade de gozar naquelas mãos, nem a cerveja comprada no mercado da esquina. Quando foi que ele deixou de ser mais um e se transformou naquele em que pensava com constância, de quem sentia falta? Lembrou-se do dia – o mesmo do requeijão, será? – ele na sua cozinha, abrindo seu armário, pegando a faca e cortando o pão. Naquele dia de intimidade besta, ele fez morada. Ela soube, então, que a partir daí não tinha mais como continuar. Era preciso morrer.

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Doía não só a ausência dele. Quinze dias sem notícias se arrastaram como uma quarentena no deserto. Justo ela tão comedida nas palavras e no sentir. Faltava o ar. O peito esmagado e a certeza de que o único lugar em que cabia era o abraço dele. Doía a ausência dele dentro dela. Doía a falta do corpo dele entre as suas pernas, da boca dele nos seus seios e daqueles dedos longos que a preenchiam por completo.

Morrer é foda. Quando leu a mensagem da sua amiga, riu. Pensou: “bem, não morri. Quem morreu foi ele”. Morrer é difícil pra burro. Aquilo lhe marcou. Pensava sempre nessas duas frases. Sua amiga sabia do que falava. Ela ainda não tinha visto as coisas daquele jeito. Passou dias remoendo o quanto era foda a morte e o quanto era difícil morrer. Até que percebeu que ela também morrera. Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro

Morrera aquela que passava as tardes transando com ele. Aquela mulher corajosa de quem ele tanto falava. Morrera a mulher cheia de doçura. Morrera aquela que era vista por aquele olhar carinhoso. Morrera a que ia passar o dia na praia com ele, mas nunca sentiram o mar juntos. Morreu aquela mulher que contava histórias da sua vida e se sentia livre para contar seus devaneios mais íntimos. Morreu aquela que não teve pudor de declarar sua paixão.

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro.

Declaro para os devidos fins

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Declaro para os devidos fins que…

Eu sou a fim de você.

Pronto. Falei. Ufa. Saiu. Nem foi tão difícil.

Peraí… Tá falado mesmo? Você ouviu? Ou escrever foi só um jeito que eu arrumei de não falar de outro jeito. Eu sempre com essa mania… Mas agora, fui lá, voltei na primeira linha e parece que eu falei mesmo, com todas as letras.

AFimDeVocê

Não sei se você queria ouvir isso. Nem sei bem o que eu quero dizer. Mal te conheço… A fim. A fim como? No dicionário diz que é: com intenção ou vontade de. É isso. Tô com vontade. Sou hoje uma vontade em forma de gente. E vontade é como fome, a gente sabe quando sente.

Quando eu tava pensando como é que eu ia falar isso, fiz até uma rima desajeitadamente adolescente que diz assim:

Vou falar de um troço bonito
De um jeito diferente
Vou pegar essa vontade
E embrulhar pra presente

A coisa em si eu não sei definir
Tá lá dentro e é bom de sentir
Faltava falar
Pra poder existir

E aí, você me pergunta: mas por que agora? O mundo caindo e você aí sentindo coisas? Ainda mais em público. Qual é o link? Explico. Outro dia, escrevi um texto aqui mesmo que era um pouco sobre isso. Era alguém muito seguro falando um monte de coisas sobre esse negócio de gostar, de ter vontade e não saber o que se passa na outra cabeça. O texto teve mais de 300 compartilhamentos. Uma penca de gente achou legal. Mas uma amiga observou que eu simplifiquei tanto tudo que aquilo não queria dizer mais nada. E que até parece que esse negócio de gostar é simples. Devo dizer que a amiga tende a ler entrelinhas, sobrelinhas, sublinhas, onde às vezes só tem as linhas mesmo. Mas nesse caso, ela tinha razão. Gostar não é simples.  A começar por mim que não consigo nem falar que eu tô a fim.

Me senti meio canastra, sabe? A real é que pra mim, falar é a última opção possível. Evito com todas as forças, sobretudo na vida pessoal. Falar pra mim é trabalho. Às vezes eu gosto que seja assim. Às vezes desgosto profundamente. Hoje particularmente eu tô achando uma covardia não te contar dessa vontade. Cara, não sinto uma vontade gostosa assim há tanto tempo que seria uma puta sacanagem guardar só pra mim.

Então pronto. Declaro para os devidos fins que… Ah, você já sabe.

Pode não ser a hora nem o lugar pra uma declaração de gostar desatinada. Essa cartinha pode ser datada, pouco moderna, nada cool, mas taí. E pensando bem, eu sou meio assim mesmo: datada, pouco moderna, nada cool, só que de tênis.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Profundidade

Eu sempre cutuco meus irmãos dizendo que meus pais gostam mais de mim. E explico: ora, se os pais gostam igualmente dos filhos como dizem, então eu nasci, eles amavam a mim, dois anos depois minha irmã nasceu, eles passaram a amar igualmente as duas, logo eu tenho dois anos de folga de amor de vantagem, irrecuperáveis, inalcançáveis, já que eles vão amar sempre igualzinho (e ainda mais ampla vantagem sobre o que nasceram 5 e 9 anos depois).

Eu sempre lembro disso quando converso com alguém que me diz: eu queria tanto biscatear, mas só consigo ter relações profundas, namorar muito tempo e tal. Como se calendário fosse critério para entrega, afeto, cumplicidade, tesão, cuidado. E não é uma pessoa ou duas que vai por esse caminho. É como somos ensinados a pensar (especialmente as mulheres): só vale a pena se for com um “felizes para sempre” carimbado. Que não importa o quão gostoso foi o rala e rola, quão intenso foi o fim de semana, quão delícia foram aqueles encontros de feriado-uma-vez-por-ano (assistam, assistam), só valeu de verdade, só foi profundo, só é amor se tiver a medida (e a garantia) do tempo como fiadora. Os relacionamentos tem que dar certo e dar certo means durar muito tempo, de preferência a vida toda, e incluir papel passado e patê de camarão na festinha do enlace.

Mas, luciana, quando se passa mais tempo junto a gente pode se conhecer mais. A gente pode passar por mais coisa, morte de familiar, novos amigos, nascimento da sobrinha. Quando se passa mais tempo junto a gente pode descobrir que lamber aquele vão entre o dedão do pé e o dedinho seguinte deixa a outra pessoa subindo pelas paredes. A gente pode ficar sabendo dos medos, das vontades, dos limites, das perdas. Pode, e é bom. São aqueles dois anos ali do começo do texto, que eu tenho de folga sobre minha irmã. Mas isso não é garantido nem determina a profundidade de um lance. Não tem balança pro sentimento. Nem para vivências. Não tem régua. Afeto não é açude, pra gente medir a profundidade da coisa em centímetro cúbico vivido. Penso eu (mas eu penso muita coisa boba, vai saber).

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Quando os pais (ou qualquer pessoa, estou falando dos pais por ser o exemplo mais clássico) dizem que amam igualmente a gente meneia a cabeça. A gente ri por dentro sabendo que se tem mais intimidade com um, confia mais no outro, ri mais com esse, liga no aperreio mais para aquele. E eles meneiam e riem de volta, porque sabem além, sabem que não é disso que esse “amar igual” trata. É da especificidade de cada relação. Do fato de cada vínculo ser em si mesmo, satisfatório, dolorido, bonito, gostoso, especial. E como justamente a diferença absoluta impede qualquer tipo de comparação ou hierarquia, é nesse igual, alicerçado no impossível de classificar, que se constroem os afetos.

A profundidade do lance – seja o vuco-vuco descontraído e apressado no banco de trás do carro na saída da boite, seja o casamento de 37 anos – se concretiza, acho eu, na forma como lidamos com ele. Não, não sou das abstrações, não prescindo das materialidades. Na minha história, eu sei, eu lembro: tem aquele com quem a cumplicidade foi imediata, o outro a quem confiaria a vida, aquele com quem ri fácil (opa), um pra quem até hoje posso telefonar no aperreio. E por aí vai. Mas sei também que cada envolvimento desse me fez quem sou. E me recebeu inteira (ou melhor, me recebeu faltante, desejante, porque não-ser-toda é característica fundante da humanidade). Sei que cada vínculo é, pra mim, especial, gostoso, bonito, dolorido, satisfatório. Único. Que a profundidade vem do quanto me deixo penetrar. No quão aberta estou. Em como recebo. E, em pêndulo, entrego ao receber.

Não há garantia pro viver. Acho eu que a gente perde um bocado quando não vive alguma coisa porque não vai durar. Há um gozo em não saber. Sabe o gostosinho que era brincar de rodar com os olhos fechados, de braços bem esticados, de mãos dadas com alguém? Tira o fôlego. Como um mergulho. A profundidade não vem de quantas vezes a gente se banhou naquelas águas, mas de quanto tempo a gente consegue ficar sem respirar*.

mergulho_livre_OVD* “Tomás compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora” (Milan Kundera).

Música de Bar

Por Karla Avanço*, Biscate Convidada

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Pode ser só aquele som ao fundo da conversa com os amigos. Às vezes embala, às vezes é barulho. Mas outras vezes leva longe, para outras bandas. Noutro dia fui a um bar, eu quero uma cerveja, por favor, e tinha um grupo de forró. “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só. Eu só quero…” Você.  Eu pensei em você. Foi a música. (Como se eu precisasse de desculpa pra pensar em você…) Ah, você. Você que eu não consigo esquecer. Acho que é porque com você eu vivi a história que não aconteceu. Ficou no ar, como um balão, subindo, subindo. Ainda acho que uma hora o balão vai descer e eu vou poder pegá-lo. Ficou só o gosto na boca. De vinho, de suor, de saudade.

Aqui tá bom só falta você, aqui tá bom só falta você.” Só falta você. Será que você pensa nisso também? Quero dizer, em mim? Em me ver de novo? Acho que não. Traz outra cerveja, por favor. Você não é do tipo que corre atrás de balões que já saíram voando. Já eu sou do tipo que atravessa oceanos, que percorre cordilheiras. Eu me lembro de você batendo a mão no meu ombro. Sabe que eu nunca entendi aquilo. O que era? Um toque de carinho? Você dizendo que eu era seu buddy? Nunca soube. Mas deveria significar alguma coisa? Ah, quem eu quero enganar? Pra mim tudo significa alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja nada. No nosso caso foi.

Hoje fui um a bar e tinha uma banda tocando pop rock. Uma cerveja, por favor. Escuto uma música e penso em você. “Será que todo dia vai ser sempre assim?” Você está solteiro ainda, não está? Acho que sim. “Se não eu, quem vai fazer você feliz?” Ai que pretensão, eu sei que quem vai fazer você feliz é você mesmo, mas me deixa pensar que sou eu, vai? E volta na boca o gosto de vinho, suor e saudade.

“Será que é amor, será que é paixão?” Pra falar a verdade acho que é obsessão. Só pode ser! Você. Olha você aí na minha mente de novo. Você está lá do outro lado e talvez nem imagine que esteja aqui pensado em você. Ainda. Sempre que você curte uma foto minha no facebook eu fico com o coração na boca, sabia?. “Explicação não tem explicação explicação, não não tem explicação explicação, não tem não tem, não tem explicação explicação não tem explicação não tem, não tem…” Não, não fui eu que pedi o pastel. “E doeu sim. Foi a saudade que bateu. E tenha dó de mim e vem ficar mais eu.” Será que você me tiraria pra dançar? Como você está aqui na minha mente, e não lá do outro lado das montanhas, eu prefiro acreditar que sim. Tem um casal dançando agora. Ela está descalça.

Acho que já está tarde. “Eu vou embora mas eu sempre volto atrás porque as noites são todas iguais”. Traz a maquininha de cartão, por favor. Jogo um pedaço de pizza pro cachorro de olhar pidão embaixo da mesa. Melhor ir dormir. E olha, você, “não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo…”

 

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.

Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

EleNãoEstáAFim

Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?