Um conto para o não-dito (ou ainda: a linguagem do desejo)

dito

Ela: – Um tal cara ligou às quatro e meia da manhã desses dias. Não atendi porque não vi. Nada demais. E mesmo que visse. Provavelmente não. Ele insiste, depois de termos entre bebedeiras e vontades, que não é isso o que foi. “Isso o quê?” – dá vontade. De perguntar. Vontade de mim? Como a que te faz ligar sempre que bebe? Como a que se infiltra nas ligações não atendidas do meu celular vez ou outra?

Ele: – Ah, eu sei. É só porque ela ri comigo. Se sente. A vontade. Mas só de ligar. E de falar sério. Só falar besteira. De apenas escutar em silêncio minhas baboseiras todas. E rir de novo. E sentir vontade de novo. De comentar o filme. O trânsito ruim. Do seu dia. Da noite de ontem. De escutar uma música e achar minha cara. Lembrar de se lembrar, se por acaso a gente se encontrar, de me contar. De tal artista. A tal piada. Os fatos. Não, eu não sou o tal. Não precisam me lembrar. É, eu sei. Que ela quer ser “apenas” minha amiga.

Ela:- Eu escolheria um nome menos comum, principalmente porque ele fala prazer em te conhecer bem baixinho. Também sobre deuses e mitologia. Observa fixamente tela e olhos. Anda como um felino, languidamente e, no entanto, é surpreendentemente estável e forte. Seu parentesco com os gatos de rua, é que nada parece que vai assustá-lo ou tirar seu equilíbrio.

Ele:- Você nunca foi naquele bar. Era meu território e eu me achava em segurança. Então, é claro que eu estava desarmado. E entenda também, quase dois meses que eu não te avistava, estava me sentindo quase curado, quase não doía mais. E aí quase. Quase acreditei que manteria firme a decisão de nunca mais. Mas você saiu de onde eu não te podia, naquela mesa lá longe para beijar um outro. Doeu tanto que eu roubei um microfone e fui berrar minhas dores. Você me olhava e eu me senti tão ridículo ali, tão bêbado, tão de joelhos, tão “sem sentir meus pés no chão” que fui aplaudido de pé quando terminei minha apresentação de desespero. E você foi embora para que eu conseguisse conter as lágrimas e o ódio e a vontade. Aí teve o Sábado. Novamente. Teu olhar firme me acompanhando sem motivo algum. Eu fugindo para procurar pela janela, minha vergonha. Porque eu te queria e te quis tanto. Domingo. Te quero. Ainda. O outro mostra tua mensagem no celular. Depois a tua rouquidão nos nega no viva-voz, se nega para mim, me nega para si mesma.

Ela:- “… E, mesmo assim, estarei sempre pronta para esquecer aqueles que me levaram a um abismo. E mais uma vez amarei. E mais uma vez direi que nunca amei tanto em toda a minha vida.”

Ele: – O grande problema, meu amor, é que as pessoas preferem nossa versão editada. E eu não vou mais desperdiçar uma boa cena apenas para agradar o grande público.

Ela:- Três vezes. Choro escutando o galo cantar. Acordo com sua crueldade e frieza me fazendo doer as têmporas em laranjas e amarelos. Coloco os óculos escuros e tenho que enfrentar a verdade ao voltar para casa. Você nunca.

Ele: – Para sempre, seu.

Pelo gozo

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Da série “Osmosis”, de Alvin Booth

Entrei no vagão cheio e me encostei na primeira barra que vi pela frente. Do meu lado, um casal de trelelê. Ao menos, assim entendi. Ele, mais alto, com os braços levantados se segurando na barra de cima. Ela, baixinha assim que nem eu, meio que encostada na outra barra vertical. Ou não. Pensando melhor, acho que ela se equilibrava nas duas pernas mesmo, pra não ficar muito longe dele.

E nesse meu voyeurismo diário, fiquei por ali, fingindo devaneio, mas ligada na conversa. Não era nada. Era de futebol, algo assim. Mas, não importava. Era o tom. Era a voz. Era o jogo de corpo. Era o olhar, o sorriso, o jeito como ele ia pra frente e pra trás, seguindo o meneio do trem enquanto falava com ela. E o jeito como ela levantava os ombros e olhava pra ele, daquele, aquecido.

E era tanto clima, tanta vontade de se tocar, tantas desculpas pra isso, pro roçar no braço, pras mãos no abdômen do outro pra não cair, e tantos olhares e línguas molhando os lábios, secos decerto, e eu ligada, sentindo eu mesma coisas minhas, doidinha com aquilo lá.

Que situação mais saborosa! Se pra mim, imagina pra eles.  Até que ficou assim:

“Você nunca me viu jogar…”, ele disse.
“Você nunca me convidou!”, disse ela.
“Você iria?”
E ela, sorrindo:
“Você nunca me convidou quando a gente namorava. Naquela época, valia mais!”

E ele riu de volta e reforçou o convite e eu quase vi um roçar de dedos na pele. Ou quis ver. Ou fiz uma prece. Pode ser. E me afastei, entendendo que aquilo era um prenúncio de um revival. Não um revival sentimental. Mas, o do outro amor. O da pica. O da buceta. Aquele que não passa, o que fica, aquele que dizem.

E sorri eu internamente, fantasiando que eles iriam sair dali e se pegar, que aquele clima não podia ficar só no vai-e-vem do trem, e que ia ser delicioso, porque já estava sendo.

Fiquei pensando se eles se encontraram por acaso na estação ou se marcaram pelo whatszap. Se trabalhavam juntos ou perto ou se tinham desviado o caminho apenas pra viver a coincidência. Pensando se seria a primeira vez depois do rompimento.

Que eles estavam conversando também com doçura e amizade, o que, pra mim, indicava uma cumplicidade sem mágoas, sem necessidade de DRs, só aquilo lá mesmo. Um beijo, um sarro, uma trepada. Uma vontade. Ou não. Ou aquilo mesmo era que bastava: o desejo não realizado no vagão do metrô, que também pode ser bom, que também dá prazer, de um jeito assim, que quase doi. Mas, que doi bom. Na quentura do meio das pernas.

E que iriam continuar no dia seguinte.

E fiquei pensando naquela sábia que acumula amores, e que acumular amores e desejos nos oferece esses momentos assim, de pele pura no metrô, provocando quem assiste.

Que lembranças, que historias, que paixões podem ser relembradas, revividas, por apenas. Por elas. Pelo gozo.

Feminista foda quase todo dia

Seriam as feministas mulheres mais fortes, mais resolvidas, mais felizes? Se não por que ser feminista? Pra onde mando minhas reclamações sobre  o feminismo?

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Pois é, toda semana que tem uma treta com o feminismo (e tem uma praticamente toda semana, né?) a gente desavisadamente abre a TL do twitter, do FB ou da vida real mesmo e  inevitavelmente alguém reclama: cadê as feministas que não falaram nada sobre isso? Olha, não sei, pessoa, mas talvez elas estivessem como eu, distraídas vivendo a  vida, né? Mas qualquer coisa manda aí sua reclamação em 3 vias par feministas.desunidas.org.br que a gente responde, tá?

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Mas e aí, a gente é mais forte e mais foda por isso? Por ser feminista? Depende do dia né? Aliás o que é ser mais forte e mais foda? Levantar alteres? Não levar desaforo pra casa? Ser feminista não nos isenta, graças a deus, porque não somos perfeitas, de errarmos, de fazermos bobagem. Ser feminista só nos dá lembrança de questionarmos as coisa pelo viés da misoginia, do machismo institucionalizado e quiçá, e deveria ser regra, de também questionarmos outras coisa como etarismo, racismo, transfobia, homofobia e capacitismo. Sim, feminismo é parente direto dos demais direitos de minorais, lutamos juntos de forma não excludente.

Mas voltando… Estamos mais fortes? Então.. como eu disse, depende. Depende do abraço, do apoio, dos ombros amigos. Coincidentemente em geral ombros feministas, mas nem sempre, aceitamos ajuda de onde vier. Mas somos mais fortes, qualquer um de nós se aprendemos olhar pra dentro, entender e perdoar, aceitar (acho que vou escrever livro de autoajuda, dizem que dá grana), mas tudo depende do dia.

Ahh mas você não consegue ser feminista sempre e todo dia, né? Provavelmente não. Nem consigo ser gata todo dia, mas to aqui tentando, um batom e um creme e uma empinado nos peitos e na autoestima, dia a após dia. A tônica da coisa é essa, se comprometer e tentar.

E aí? Você é mais feliz por ser feminista? Ah, mas com certeza! (ia responder “com cerveja”, mas é com cerveja também).  Por que? Porque conheci as pessoas mais fodas e queridas do mundo no ativismo, só por isso. E o  por isso veio com boteco, biscatagem e, claro, cerveja. Ah, então feminismo é coisa de putaria biscate, né? Mas por óbvio que é, senão a gente não estaria aqui.

Tá tendo beijo

oafetoteafetaRecentemente assistimos um grande levante da chamada “família tradicional brasileira”, que rechaçou e propôs boicote à nova novela das 9 da rede Globo, Babilônia, porque,  pasmem, duas senhoras, interpretadas por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, casadas na trama novelística, se beijaram em horário nobre. Sim, um beijo, apenas um beijo, de afeto, amor e beleza, docemente embalado pelo som de Maria Bethânia.

Digna cena de arrancar suspiros românticos, de inspirar amantes, de exaltar o amor. Mas não. A cena provocou a ira e o ódio desgovernado daqueles que acreditam que pessoas homoafetivas não são pessoas dignas de viver livremente em sociedade, devendo ser escondidas debaixo do tapete. Tirem as crianças da sala, tapem os olhos, finjam que não estão vendo, saiam correndo, que horror: o amor entre pessoas do mesmo sexo está passando sem cortinas.  O nome disso é homofobia. E, não, você não está pensando nas crianças. Garanto-lhe, por experiência própria, que as crianças convivem bem com todas as formas de amor, como já contei aqui. O preconceito e a estupidez são coisas suas mesmo, as crianças não tem nada a ver com isso.

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o beijo

No levante desenfreado, o lesbianismo foi equiparado a coisas como assassinatos, intrigas e criminalidade. A “família de bem”, em nome da moral e dos bons costumes, que de bom não tem nada, decidiu que já era demais. Até nota de repúdio de Deputados evangélicos teve. Correntes de whatsApp, mensagens mil, condenações cruéis às duas senhoras “do mal” e a emissora responsável por tal disparate. E, olha, nem tinha sido a primeira vez que essas criaturas assistiram beijo gay na telinha.

A rede Globo, em espantosa mudança de seus roteiros, passou a incluir casais gays nas novelas. Já tinha sido a Giovanna Antoneli e a Tainá Muller como par lésbico, o Zé Mayer com o Kleber Toledo como par gay, já tinha acontecido beijo homo no plim plim. Mas duas senhoras na casa dos 80 anos foi demais para o moralismo condenatório. Porque né? Além do “pecado” da homossexualidade, duas senhoras não podem ser sexualmente ativas, não podem desejar e serem desejadas. Delas se espera apenas o papel de avó no fogão, e a sexualidade morta de algum dia. Mais moralismos que atormentam a sociedade, que castram alegrias e impõem barreiras a algo tão valioso e tão inofensivo quanto a felicidade e satisfação sexual de cada umx.

Essa sociedade acostumada a violências das mais diversas não pode conviver com o amor entre mulheres? Porque, pergunto-me, porque é tão difícil que esse amor seja aceito e recebido com alegria? Porque traçar regras para a vida afetiva e sexual alheia, porque machucar alguém que não faz mal a você a não ser….amar? Não, também não me fale em Deus. Nem na Bíblia. Já é hora dos homofóbicos pararem de mascarar seus preconceitos em nome de Deus. Como já assistimos de forma muito bem fundamentada no filme “Orações para Bobby”, as passagens da Bíblia devem ser revistas ao contexto atual, e não interpretadas literalmente. Ou os religiosos bíblicos pregam que devemos matar as pessoas adúlteras e as crianças que desobedecem os pais?

Ademais, seu Deus é apenas um Deus dentre tantos outros possíveis. Ou até Deus nenhum. Deveria uma sociedade laica ter uma frente Parlamentar evangélica e tentar impor suas crenças religiosas a todas as demais pessoas que tem crenças diferentes?  Se sim, pergunto-me de novo, é possível um Deus que prega exatamente o amor, ser contra uma família homoafetiva, ou qualquer forma de amor entre duas pessoas? Se seu Deus é contra, ele não me representa, e nem a milhões de pessoas que vivem na mesma sociedade que a sua.

Aí temos a tendência de falar em tolerância. Tolere o diferente. O ideal para mim não seria nem tolerância, seria respeito e aceitação de que as pessoas são diferentes e livres em suas individualidades, sexualidades e vontades. Que a liberdade do outro não lhe diz respeito. Que seu direito de opinar socialmente não inclui o que as pessoas fazem com seus corpos e com suas sexualidades. Mas tolerância já seria um bom começo.

Pois sim, está tendo beijo. Está tendo beijo todos os dias, e terão beijos e mais beijos de pessoas que se amam. Mulheres que amam mulheres, homens que amam homens. Homens que amam mulheres. Mulheres que amam homens, sejam elas e eles cis ou trans. Nosso beijo lésbico não será mais escondido, não será desprezado, não será menos relevante e nem motivo de vergonha. Nosso beijo lésbico é um beijo como outro qualquer, um beijo que estará cada dia mais presente, mais latente e mais corajoso. Um beijo que em breve ocupará sem medo as ruas, os bares, as casas, as famílias e terá forças para vencer o preconceito. Vem beijar também, que a vida é bem mais bonita com beijo na boca!

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A transfobia e a morte

Por Marcelo Caetano, Biscate Convidado

Das coisas que mais me assustam na transfobia, para além do medo da humilhação, da vergonha e da violência nos espaços cotidianos, está a morte. Não o medo de ser morto em razão de transfobia (um medo que também existe), mas o medo de morrer e não ter minha identidade de gênero respeitada.

Hoje, é possível às pessoas trans a retificação de seus registros civis, não sem antes dar entrada em um processo judicial, que exige laudos e documentos e fotos e comprovações de toda a sorte de que há razão para que o Estado reconheça nossa identidade (nossa vontade e autonomia sobre a própria vida, para nos determinarmos da forma que bem entendemos, são só uma coisa a mais; a “justiça” exige provas!). Como se pode ver, é um processo bastante burocrático e não tão simples, o que faz com que diversas pessoas trans demorem anos para conseguir oficializar a mudança, ou mesmo com que não consigam (o acesso à justiça é ainda bastante seletivo).

Sinto pânico toda vez que penso na possibilidade de ter meu corpo enterrado sob uma lápide que afirma que ali morreu alguém que não sou eu. Sei que viramos matéria, que os bichos comem, que somos todos reduzidos a carcaça, mas, daqui de onde vejo, nem na hora da morte somos todos iguais.

O que dirão de mim no meu velório? Qual será a memória que guardarão de mim? Para quem jogarão flores e derramarão lágrimas?

Tem sido sempre uma batalha afirmar minha identidade, mas tenho feito isso todos os dias, porque é o único jeito de não sucumbir à violência de viver uma vida que não é aquela que desejo viver. Depois de morto, já não poderei mais. Não poderei corrigir os pronomes errados; brigar com os médicos que insistem em não respeitar o nome que me identifica. Não poderei mais responder aos gritos e acusações daqueles que tentam me deslegitimar. Sobrará apenas aquilo que quiserem que sobre.

Para mim, essa questão é uma das mais profundas a respeito da transfobia, pois mexe com algo bastante delicado em nossa sociedade. É aqui, também, que se pode afirmar que a transfobia tem contornos bastante específicos, que a tornam uma violência distinta da homofobia. Mesmo na hora da morte, quando não há mais nada, o nome (e o gênero que costuma vir marcado com ele) ainda continua a existir.

Sei bem que a morte é ritualizada muito mais para os que ficam do que para os que vão, mas acho que todas as pessoas têm o direito a um ritual que não as humilhe ou violente. Por que seria diferente para as pessoas trans?

Não sei quem há de chorar no meu velório, mas sei que não quero ver o luto por alguém que já não sou. A lembrança de um nome que não me diz não é a minha lembrança. Pode parecer duro, mas a verdade está posta: a luta contra a transfobia não é só a batalha por uma vida digna, pelo reconhecimento como ser humano; é também a justa luta por uma morte que não nos mate mais uma vez.

984270_10153061652847351_580528854801347227_nMarcelo Caetano, protótipo de poeta, come as palavras mais do que as escreve. sonha em largar tudo pra viver de arte. nas horas vagas, vira alquimista da cozinha. apaixonado por música, não perde um bom samba e se garante no rebolado.

Das opressões ao corpo: as próprias

O Corpo e os Dedos não faltam para apontar o irregular. Dedos do outro, dedos da mídia, dedos da moda, dedos do padrão de beleza estabelecido, dedos do parceiro, dedos dos familiares, dedos e mais dedos e os nossos dedos… Não se trata de criar uma categoria de qual dedo apontando dói mais, aliás, essa não é nem a questão.

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O Embaraço – Paula Rego

A questão, acho,  é o quanto dói o nosso dedo apontando para o próprio corpo e impondo padrões de beleza como forma de opressão, sem revelar o nosso desejo. Culpa, ressentimento, pavor, terror, auto-negligência… E não se trata da idéia de negligência com a saúde e a “aparência” próprio (o popular desleixo), trata-se da negligência consigo, com o não querer se ver…

Ver o próprio corpo… Não é bem um “Três passos, se aceite, você é lind@”… Mas precisamos ver o nosso corpo! Mais que ver, precisamos tocar a nós mesmos. Sem pudor, sem horror, com carícia, com afago… fazer um auto-cafuné… E não é a idéia do “Já que ninguém faz…”. Se a gente não é capaz de fazer, como alguém vai fazer por nós???

Sim, há aqueles que vão fazer por nós sem que saibamos o quê… Mas não é só assim, não precisa ser só assim e é melhor, pra nós mesmo, que não seja só assim… Porque, uma coisa é certa, se é bom quando acertam o nosso corpo, é muito melhor quando sabemos por que a pessoa acertou…

Se é que existe uma jornada de autoconhecimento, talvez ela seja a da delicadeza dos próprios dedos percorrendo cada dobra, cada músculo, cada buraco do próprio corpo até entender que é nosso! que é do jeito que somos! que pode ser bom e prazeiroso sem causar repulsa.

Sim, porque o dedo que aponta o próprio corpo, o aponta com repulsa… E não, não estou dizendo “foda-se, você não pode ter auto-crítica”… Ter auto-crítica é bom, mas a crítica pela crítica ao próprio corpo, apenas para manter as convenções de beleza é no mínimo, espúria.

Cuidar do próprio corpo, caso se chegue a uma conclusão depois de um processo de auto-conhecimento, poderia ser um simples indicativo de prazer… uma simples prova de amor próprio e, principalmente, um cuidado que não pareça uma agressão, um cuidado que demonstre um desejo…

É pura e simplesmente uma idéia de só mudar o próprio corpo para ser mais quem a gente quer… Pra que o nosso dedo que nos percorra, seja pra entender quem a gente quer é ou quer ser e não pra trazer o que o mundo quer que o nosso corpo pareça…

Nem Mais Nem Menos

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Nós passamos essa quinzena aproveitando o mote do Dia Internacional da Mulher escrevendo com recortes, olhares e abordagens variadas. E, acho, variadas é um termo importante. Penso que ver o Outro, respeitar sua alteridade e conviver com ele é um bom caminho pra uma sociedade com menos dor.

Na escrita (e na leitura, né, por que não?), com algum esforço, vamos sendo (e não me refiro especificamente, agora, a esse blog, mas as pessoas que militam à esquerda e nas frentes de luta de minorias) um tantinho mais inclusivos. Abandonamos ou tentamos abandonar, as generalizações que tornam invisíveis as pessoas que não correspondem ao padrão que ocupa nosso imaginário. Já não escrevemos: “as mulheres” porque sabemos que esse termo não contempla a variedade de pessoas que assim se identificam. “As mulheres” costuma acolher, de maneira geral, brancas, jovens, cisgêneras, magras, sem deficiência. Não somos todas assim, sabemos e escrevemos: mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência, mulheres pobres.

mulheres

Eita, Luciana, mas pra que tanta picuinha? O tempo que tu leva só pra escrever esse tanto de mulher isso e mulher aquilo já dava pra estar tratando dos temas realmente importantes. Então, pra mim e pra várias mulheres que não se vêem nem são vistas no espectro “as mulheres”, visibilidade, escuta, representação, reconhecimento são realmente importantes. De maneira geral, aliás, as pessoas, as mulheres, que menos se questionam sobre a necessidade de sim, nomear as diferenças, são aquelas que menos diferenças apresentam em relação ao padrão. Penso eu que, talvez, seja porque reconhecer (e a seguir, tentar abrir mão de) nossos  privilégios é difícil, mesmo (ou especialmente?) para quem tem poucos. Por isso muitas vezes, quando se aborda questões específicas, ora de mulheres negras, ora de mulheres com deficiência, muitas vezes ouvimos que é muito drama, exigência demais, demanda de perfeccionismo, etc. Porque não nos sentimos implicados na desumanização que promovemos, como sociedade, quando naturalizamos discursos e comportamentos excludentes, muitas vezes por causa de uma causa principal, necessidades prioritárias, um bem maior (e, como eu já disse, estou fora de Bem Maior).

E digo que não conseguiremos sair dessa espiral de exclusão sem escuta. Porque mesmo as pessoas que tentamos e escrevemos e talz, pisamos na bola. Porque, repito sempre, não é que sejamos (de forma estanque, cristalizada) transfóbicas, capacitistas, racistas, machistas, gordofóbicas, etc. É que nos construímos sujeitos em relação e a sociedade é estruturada de forma racista, capacitista, machista, gordofóbica, transfóbica, etc. E nós internalizamos e reproduzimos. E isso naturaliza e/ou invisibiliza uma série de dores.

Esses dias uma mulher contou como fez para escapar de uma situação de desconforto originada no comportamento machista: o assédio na rua. Narrou  que para deixar de ser assediada simulou uma expressão facial que ela chamou inicialmente de careta e, a seguir, disse que parecia que ela tinha uma doença ou uma deformidade. E aí, segundo a narrativa, os homens passaram a desviar o olhar e ela não se sentiu mais intimidada. Se você não encontrou o erro, se não sentiu o travo na boca, é disso que estou falando: de como somos forjados pra ignorar as dores dos que nos são diferentes. A mulher se sentiu menos ameaçada, menos assediada. Que bom pra ela. Mas não é bom que ela conte isso como uma vitória e, principalmente, acho eu, não é nada bom que pessoas militantes, grupos feministas aplaudam e disseminem o texto e a “estratégia” como válidos. Esse discurso é ofensivo para mulheres com deficiência de várias formas que nem sei dizer (e, aqui, não é um recurso de linguagem, não sei mesmo, reflito e imagino algumas nuances, mas quero mais é ouvir, ler, saber sobre o que elas pensam, por isso perguntei, por isso estou procurando mais). Uma delas é invisibilizar que assédio e suas gradações de violência, incluindo o estupro, não são situações apenas relacionadas à atratividade mas também – e muitas vezes preferencialmente – à vulnerabilidade. Este tipo de discurso esquece que pessoas com deficiência são vítimas também. Faz um eco doloroso, inclusive, com a piada do estupro de mulher feia é praticamente um favor. Não é. Outra coisa que me ocorre é que o pareamento “simulei uma deficiência = não sou mais assediada porque me tornei repulsiva ao olhar” é violento porque nega às pessoas com deficiência o potencial de causador de desejo. Criticar esses discursos não é desqualificar as pessoas que eventualmente os reproduzem, mas questionar porque aceitamos essas distinções, porque não nos inquietamos, porque não amarga na boca. Não estou querendo minimizar o desconforto da mulher que narra sua vivência de assédio, mas questionar de que lado a corda está rebentando.

A nossa sociedade e seus valores estruturantes nos ensinam que existem pessoas que são mais pessoas que outras. Existem pessoas e corpos que são mais. Mais adequados. Mais ajustados. Mais aceitáveis. Mais desejáveis. Mais amáveis. Essas pessoas podem mais. Merecem mais. O quê? Olhar. Proteção. Segurança. Apoio. Desejo. Narrativas complexas. Essa sociedade que faz uma cadeira estreita nos aviões e as pessoas, as mulheres gordas que emagreçam. Essa sociedade que diz “se vista como alguém da sua idade” e as mulheres velhas que se virem pra entender que seus corpos não merecem mais ser vistos. Essa sociedade que patologiza as pessoas transgênero e as mulheres trans que se escondam, se mascarem, se disfarcem para não serem mortas. Essa sociedade que questiona a legitimidade da autonomia e escolha da mulher pobre (olha aí, ganha o bolsa família pra comprar calça jeans de marca). Essa sociedade que dissemina “cabelo duro”, “cabelo ruim”, “cabelo de Bombril” e as mulheres negras que se virem para resgatar sua auto-estima e para protegerem suas filhas desse ataque constante e insidioso.  É essa sociedade, em que estamos e reproduzimos, que se estrutura para marginalizar e, preferencialmente, apagar, as mulheres com deficiência. Elas são menos, aprendemos. Menos potentes (e aí cada história de “superação” nos leva lágrimas aos olhos – porque estava subentendido que não era pra elas conseguirem, claro, sem essa suposição a comoção não se daria). Menos adequadas (aos empregos, ao lazer, ao olhar). Menos ajustadas (como se a sociedade fosse um dado da natureza, como se a escolha de fazer escadas e não rampas, por exemplo, não fosse uma construção social, política e cultural). Menos aptos ao desejo (além da suposição de que as pessoas com deficiência são “repulsivas” como na narrativa mencionada, também temos os discursos que infantilizam ou des-sexualizam suas demandas). Menos amáveis (e pululam suposições que “fulano só pode estar com ela por pena” ouveja essa mulher tão jovem sacrificando-se e casando com o namorado que teve aquele acidente horrível).

Se eu tenho uma utopia é essa: que as pessoas não sejam mais nem menos. Que as mulheres não sejam mais nem menos. Que sejam vistas, ouvidas, desejadas, amadas, acolhidas em sua diferença e especificidade. Que nos libertemos do “tem que” e passemos a usar mais o verbo poder como opção e potência. Que o tempo e o espaço que passamos escrevendo, descrevendo, incluindo mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência seja um reflexo da nossa escuta e um aspecto consistente da nossa militância.

***********

Eu estava escrevendo esse texto e vi a tradução de um discurso da Shonda Rhimes que me comoveu e que trata de assuntos relevantes de uma forma com o qual me identifico. Diz ela, entre tantas lindezas:

“Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo. Sua tribo pode ser qualquer tipo de pessoa, qualquer um com quem você se identifique, qualquer um que sinta como você, que sinta como familiar, que sinta como verdade. Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo, ver sua gente, alguém como você lá fora, existindo. Para que você saiba no seu dia mais escuro que quando você corre (CORRE metafórica ou fisicamente) há um lugar, há alguém para quem correr. Sua tribo está esperando por você.

Você não está só.

O objetivo é que todo mundo possa ligar a TV e ver alguém que se pareça consigo e que ama da mesma forma. E, igualmente importante, todo mundo deveria poder ligar a TV e ver alguém que não se parece consigo e que não ama da mesma forma. Porque assim, talvez, essas pessoas aprenderão com essas personagens.

Assim, talvez, não irão isolá-las.

Marginalizá-las.

Apagá-las.

Talvez elas irão até mesmo se reconhecer nessas pessoas.

Talvez elas até aprendam a amá-las.”

Tenho cá pra mim que esse é um dos caminhos: ver mais, ouvir mais, saber mais. Amar mais.

BDSM de 50 tons é uma (perturbadora) invenção baunilha

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Divina, Biscate Convidada

Se uma protagonista feminista estereotipada surgisse no cinema, muita gente ia comprar a ideia. De antemão, é palatável aceitar o que dizem as más línguas sobre o Outro. Esse texto é destinado a  quem ficou atormentado com o filme e gostaria de saber na opinião de quem vivencia: É mesmo verdade que o pessoal do BDSM se comporta daquele jeito? As pessoas fazem aquelas coisas? Atenção, se não quiser saber detalhes do enredo, não prossiga a leitura.

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Anastasia Steele é uma estudante de literatura com visual ladylike, curiosa e declaradamente romântica (além de virgem), dirige um fusca e tem o hábito de morder os lábios. Christian Gray é um homem muito rico, com “gostos peculiares”, experiente sexualmente, órfão de uma mãe viciada em crack, abusado sexualmente quando mais jovem. Ao se conhecerem, Anastasia se sente intimidada pela figura de Christian, a jovem expressa muitos indícios de desconforto dada a coação nas coisas mais simples: “Coma isso, não beba aquilo”. Em determinada ocasião, bêbada numa danceteria, telefona e solta meia dúzia de verdades. Ao invés do Dominador sexualmente experiente aceitar que a moça semi-desconhecida não gosta da abordagem, o que ele faz? Vai procurar o que fazer já que é um ocupado homem de negócios? Não. Ele aparece no clube e a leva para a casa dele (sem perguntar se queria). Ao acordar na casa de Christian com uma camisa masculina, descobre que ele a trocou porque estava suja de vômito e de acordo com o sujeito, não aconteceu nada sexual entre eles. Esse é o princípio das incongruências do personagem, supostamente tão versado no BDSM mas completamente desestabilizado por uma mulher baunilha (baunilha = alguém que gosta de sexo dito convencional, sem conteúdo BDSM) e iniciante.

Se um homem te proíbe de ver amigos e família sem estar na presença dele, ou liga para saber com quem está e o que está fazendo, ele não é um Dominador no BDSM, na verdade, ele não passa de um homem inseguro, controlador e de postura abusiva. Se um homem se desfaz das suas coisas sem te perguntar, isso é violência patrimonial. Se um homem não deixa você transitar em nenhum espaço sem aparecer sorrateiramente (até na sua casa!), controlando o que você bebe e come, ele não está cuidando da sua saúde porque te ama,  está controlando o seu corpo porque assume que você é posse dele.  Se um homem não te deixa sair de casa  “nesse castelo que construiu para te guardar de todo mal”, ele não está te preservando, ele quer que viva somente em função dele sem projetos pessoais ou interação social. Se um parceiro proíbe e restringe seu contato com o mundo exterior ele está te fazendo prisioneira, no máximo concedendo uma liberdade assistida aqui e ali. Romantizar o cárcere emocional, financeiro e psicológico de mulheres é preocupante. Não interessa a justificativa dada por ele, você não precisa ser refém da insegurança alheia, nem tem a obrigação “salvar” um homem controlador. Essa é uma tendência romântica alarmante: Mulheres são ensinadas a aceitar o ciúmes e a possessão de seus parceiros, porque se sentem mães deles (sequer mães, tem a obrigação perpétua de responder pelos atos dos filhos). Mulheres não precisam ser as responsáveis por marmanjos capazes de limpar a própria bunda.

Entre os muitos abusos de Christian Gray, está coagir uma moça completamente alheia ao BDSM em embarcar nas preferências sexuais que não a contemplam. A negociação dos termos BDSM varia de pessoa para pessoa, há mesmo quem elabore contratos, outros preferem estabelecer os parâmetros verbalmente. Isso pode parecer um tanto estranho, mas se as pessoas conseguem pensar pragmaticamente ao casar com quem fica com a residência, o carro, a guarda das crianças e o cachorro, porque não fazer isso em uma união sexual? Não é uma obrigação, apenas um dos modos de operar em um acordo BDSM. Estranho um Dominador experiente como Christian, aparecer de contrato pronto com termos técnicos e pressionar tão insistentemente para que Anastasia o assine. A jovem é completamente baunilha, inexperiente sexualmente, seria no mínimo indelicado abordar qualquer pessoa virgem e sugerir um punho enfiado no cu, quem dirá impor a assinatura de um termo para alguém cuja expectativa de estreitamento afetivo, envolve chocolate e cinema sendo que a outra parte aspira açoitá-la. Como um Dom experiente não é seguro o bastante para ouvir um “Não”?  Como não tem auto-controle o bastante para se abalar com as perguntas (legítimas) de uma moça baunilha? Como proíbe o toque se a moça ainda nem assinou o contrato? Anastasia Steele não é a submissa de Christian Gray, em nenhum momento do primeiro filme ela assina o contrato. Como o tal Dominador experiente nega quando bem entende o uso do acordo, mas exige que a parte da submissa seja completamente cumprida se ela sequer assinou? Como não respeita o tempo e os limites de quem se envolve? Como antes da concordância da parte envolvida já parte para um flogger? Como um Dominador experiente não sabe lidar com uma simples virada de olho sem reagir punitivamente?

Esse filme poderia perfeitamente ser realizado nos anos noventa, nessa época filmes sobre relacionamentos abusivos ganharam destaque, por exemplo, “Dormindo com o Inimigo” e o reprisado muitas vezes na tv, “Medo”. A diferença é que em 50 tons de cinza a violência contra a mulher foi romantizada numa roupagem distorcida de BDSM. O BDSM é estruturado na tríade São, Seguro e Consensual. Assim, as pessoas envolvidas tem de ser adultas com discernimento suficiente para distinguir a encenação BDSM e a violência não consentida. E isso, em sobriedade. Perdi as contas das cenas do personagem bebendo, até mesmo oferecendo uma taça antes dela assinar o contrato. Se na sua cabeça não faz sentido se excitar com BDSM, não force, não é para você. Não há problema nenhum ser baunilha, você não é uma pessoa desinteressante ou menos liberta por gostar de sexo convencional.  Ao que parece, as cenas de 50 tons, envolvem camisinhas e aparatos novos (pela possibilidade de pequenos cortes e sangramentos, o instrumento deve ser de uso exclusivo e devidamente higienizado). Espantosamente, as práticas não foram consensuais, uma vez que o contrato não foi assinado e a moça não teve a segurança do que aconteceria entre eles. Um preceito básico do BDSM menosprezado no filme, é o aftercare, o cuidado após a sessão. Que tipo de dominador experiente não sabe fazer um aftercare, ainda mais com uma iniciante? Enquanto Domme, sei quais palavras excitam meu submisso e quais não devo usar por serem gatilho de experiências traumáticas. Além dessa consideração, tenho de estar atenta aos sinais do corpo para que não fira a integridade física e psicológica, no entanto, pode ser que um dia ele não esteja bem ou mesmo sem esperar, demande parar uma sessão. BDSM é um jogo de mútua atribuição, não apenas a figura dominante tem de ter auto-controle e saber se é hora de interromper, a parte submissa tem de conhecer os próprios sinais e indicar ao dominante que a sessão precisa de uma pausa (dominante não tem bola de cristal).

Anastasia sentiu prazer em um bondage brando, o uso de uma gravata para tornar uma coisa interessante aqui e ali. Ela não se sentiu bem com as cintadas no final. Por mais que uma pessoa baunilha tenha curiosidade em experimentar o BDSM, um dominador não pode ceder aos apelos de quem jura de pé junto que aquenta, ao mesmo passo que oferece todos os sinais de despreparo. Um dominador experiente sabe que até conhecer os limites de alguém, é preciso pegar muito, muito leve. Por mais que se implore, por mais que alguém diga ser corajoso, não se dá um mix de pimenta com quem reclama da ardência de agrião.

Christian Gray não faz Anastasia se sentir segura como um Dominador faria. Ele a deixa perdida e proíbe a moça até de declarar seu amor. Ele termina uma sessão e ao invés de cuidar, a abandona em um quarto sozinha. A proíbe de contar para qualquer pessoa sobre o que estão prestes a concretizar. Sabe-se que praticantes de BDSM criam pseudônimos para lidar com o preconceito, uma vez que a credibilidade profissional e até mesmo moral é posta em questão ao serem descobertos. Como um casal (ou uma casa, quando há um pequeno grupo), lidará com a relação do público e privado das identidades, é acordo mútuo. Assim como muitas pessoas vivem no armário por não serem hétero,  praticantes de BDSM tem de chegar em consenso com seus parceiros sobre quem será capaz de não os jogar no ostracismo, se assumirem a prática não baunilha. Em 50 tons de cinza, o clichê do relacionamento abusivo como sinônimo do amor possessivo e monogâmico, uniu-se ao que os baunilhas pensam ser práticas BDSM. É como um homem hétero com pouca experiência sexual descrevendo sexo lésbico. Passar gelo no corpo é tão baunilha quanto cobri-se de chantilly e morangos. Até as reações são cinematográficas demais, ao variar o lugar da estimulação por exemplo, o corpo dela (inexperiente) não se antecede em nenhum momento, não hesita, não tem contrações involuntárias. A única marca visível durante o filme é um erro de edição, antecede o primeiro contato da bunda com um chicote de hipismo (riding crop). Christian afirma que uma das vantagens em ser submisso é abrir mão do controle, não ter obrigações e responsabilidades, como afirmei algumas linhas acima, o submisso também tem responsabilidade e auto-controle durante a sessão. Se você ficou curiosa para saber mais sobre o BDSM e deseja experimentar, leia bastante sobre o assunto, procure referências da pessoa no meio fetichista, faça todas as perguntas, todas mesmo. Você não precisa forçar nenhum comportamento para se moldar ao gosto alheio. Você não precisa chamar fulano que nem conhece de “Senhor” porque ele te diz que é Mestre há não sei quantos anos. Se você tem vontade apenas de ser amarrada mas não de ser amordaçada, se você tem vontade de ser chamada de determinados nomes mas não de outros, se você quer experimentar uma dinâmica de dominação mas sem dor, cada um desses limites deve ser respeitado. É você que definirá se e como o BDSM será condizente com seu desejo, é o seu tempo, é o seu espaço, é o seu gozo. Para ser Domme não é preciso ser carrancuda, para ser submissa não precisa ser introvertida. BDSM é indissociável do livre-arbítrio nos dois lados do chicote.

 

AVATAR* Divina é uma biscate oblíqua e dissimulada, conversa sobre feminismo com as fetichistas e de fetiche com as feministas. É Domme,  sadista e aprecia homens amordaçados.

Sou Dessas Que Faz Aborto

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Carla do Brasil, Biscate Convidada

Me chama a atenção o discurso “eu não faria um aborto, mas sou a favor da legalização.” Como se a gente precisasse de se eximir, de colocar que “eu não sou dessas que faz aborto”.

“Dessas que faz aborto”

E ai a gente vai olhar os dados da PNA. E descobre que a mulher que aborta é casada, se declara católica ou evangélica e já tem filhos.

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Então, sim, eu sou dessas que faz aborto. Eu sou mulher, casada, tenho uma filha, sou católica. Estatisticamente, pertenço à população que é privada de um direito reprodutivo importante. Completo quarenta anos daqui a quatro e aí, a chance de ter passado por um aborto é de 20%.

Uma em cinco.

Sua vizinha já fez. Sua amiga. Sua colega de trabalho. Sua parente. Mas provavelmente você não sabe. Porque nessa hora, todas são clandestinas. Criminosas. E correndo o risco de ter sérios problemas de saúde se não tiver uma boa poupança e contatos.

Então, guardem para si o discurso moralista. Mulheres morrem por causa dele. Principalmente mulheres pobres.

dessas

10245315_10152816988347970_8893533765384745159_nCarla do Brasil é dessas: mãe, feminista, sem papas na língua e sem medo de pensar fora da caixinha.

Aborto e creches públicas: duas pontas

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

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As duas pontas essenciais, quando se trata dos direitos das mulheres. Uma ponta, que a gente já discutiu tanto aqui, é o direito à interrupção voluntária da gravidez. O direito da mulher de escolher não continuar grávida. Fundamental, quando se fala de direitos iguais. De direitos humanos. De direito ao próprio corpo. De direito ao sexo. E não adianta vir com essa conversa de que “foi irresponsável, agora paga”: como todo mundo sabe (ou deveria saber), camisinhas furam, pílulas falham, DIU às vezes são ineficientes. A pessoa pode ser absolutamente responsável, e, mesmo assim, engravidar. No corpo dela. Na vida dela. Se é para ser consequente com o direito das mulheres de fazer sexo, é necessário e inevitável que o aborto seja descriminalizado e legalizado. Aceito que existam outras opiniões, mas então digam logo: mulher não tem direito de fazer sexo  como os homens. Já que pode engravidar.

A outra ponta, inevitavelmente, é o direito à creche pública e à educação infantil integral e de qualidade. A creche, a pré-escola, permitem às mulheres trabalhar fora, sabendo que seus filhos estão bem e cuidados. A Constituição de 88 já reconhecia isso, e garantia o direito à educação infantil para crianças até 5 anos. No entanto, o quadro ainda está muito longe de ser satisfatório.
O cuidado com as crianças ainda recai principalmente sobre a mãe, e isso é outra discussão necessária, já que se essa responsabilidade for entendida como sendo dos pais em conjunto, existe algum avanço possível. Mas o fato básico é que a inexistência de alternativas para o cuidado com as crianças pequenas penaliza, sobretudo, as mulheres da classe trabalhadora. As soluções são  em geral familiares: uma avó, um parente, um vizinho, o filho mais velho – às vezes nem tão mais velho assim. Gambiarras para suprir aquilo que o Estado não dá conta de garantir. Responsabilização e culpabilização, mais uma vez, das mulheres. Que deveriam ficar em casa, que deveriam ter um trabalho em tempo parcial…. que deveriam. E, enquanto isso, nada de independência, de autonomia, de igualdade.

Para as mulheres de classes mais abastadas, existe, além da creche privada,  no Brasil – e isso é um sintoma de atraso tão grande, do ponto de vista da cidadania  - a opção de ter uma babá. Ou várias. Mulheres que tantas vezes deixam seus filhos para cuidar dos filhos dos outros e assim garantir a subsistência. Desigualdades. Injustiças. (não, eu não estou dizendo que você trata mal a babá dos seus filhos. Apenas sonho com um mundo em que não existam mais babás).

 Duas pontas. Que parecem tão distantes, e no entanto se conectam no mesmo eixo, que é o direito das mulheres de serem iguais. De terem oportunidades e desafios iguais. Chances iguais. Trajetórias iguais. Dificuldades iguais. No direito que parece tão básico –  e está tão longe de sê-lo – de ter o mesmo direito que os homens.

 

Direito ao próprio corpo

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

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O corpo. Nossa vestimenta. Matéria da qual somos feitas. Um corpo com bunda, seios, sem seios, vaginas, coxas, quadris, barriga, pernas, pés. Corpo.
Nós mulheres temos corpo. Algumas tem útero, outras não. Algumas tem ovários, outras não. Algumas tem pênis. Outras não. Mulheres de todos os tipos em todos os corpos de transitar no mundo. Mulheres héteros, mulheres lésbicas, mulheres trans, mulheres gordas, mulheres magras, mulheres. Corpos que devem ser respeitados como são, na liberdade de poder ser, viver e existir no mundo como se deseja.
Mas não, não é assim tão fácil. O corpo da mulher não é um corpo livre, é um corpo cerceado por grossas paredes morais, por violências de diversas formas e tamanhos. As mulheres não podem dispor dos seus corpos como bem entendem. Não podem mostrar seus corpos como querem. Não podem trepar como querem. Não podem acessar a sua saúde como querem. Não podem viver seus corpos como desejam.
Recai sobre o corpo da mulher um carga pesada, machista, castradora e interventora. Regras morais. Intervenções morais. Intervenções físicas. Punições. Estupros. Violências domésticas. Violências psicológicas. Feminicídio. Violência obstétrica. Criminalização do aborto.
Agressões morais a mulher biscate. Vadias. Piriguetes. Elas merecem a punição. A sociedade que intervém na sexualidade da mulher e diz a todo tempo: não pode. Suba o decote, você vai sair com essa roupa?. Ela pediu. Controlam o tamanho das nossas saias como controlam como dispomos do nosso corpo. O corpo da mulher é um corpo coletivo, que pode ser invadido a qualquer tempo, seja no metrô lotado, seja no Hospital quando ela está parindo.
O corpo da mulher ainda pertence a sociedade patriarcal. Ainda é sujeito a controles estatais e morais dos mais diversos. Ainda é objeto de consumo, estampado nos mais diversos comerciais como mercadoria a ser levada pra casa. Um convite feito para que olhem, invadam, venham. Mas não, a mulher não pode querer. Não pode gostar. Não pode desejar.  Contradições.
A mulher ainda deve conter-se, flagelar-se, esconder-se para não provocar os homens. A mulher deve deixar que façam o que bem quiserem de seu corpo quando ela entrar num Hospital parindo, ou for a uma consulta ginecológica, ou estiver em situação de abortamento, provocado ou não, ou engravidar e ser obrigada a levar a gestação adiante. Ou ainda quando for abordada por um homem cujos desejos sexuais devem ser satisfeitos em seu corpo, queira ela ou não.
Violências escancaradas, violências sutis, violências a um corpo feminino cheio de desejos e cheio de vida a ser vivida. Mas que deve conter-se. Ser usado quando for procurado. E ser escondido para não ser violado.
Já basta! Já é hora de termos direito aos nossos corpos, direito amplo e irrestrito aos nossos corpos. Por isso estamos aqui, gritando para o mundo que é preciso revolucionar o corpo feminino, para que possamos, quem sabe um dia, comemorar o dia da mulher como um dia de libertação e luta. Como deveria ser.
Avante, biscates!

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Mulher, de histórias e existências

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De repente me perdi e me achei no site do Museu da Pessoa, que criou um especial somente com historias de mulheres. Segundo o próprio site, “Mulheres guerreiras que com amor, fé, esperança, determinação e muita luta triunfaram sobre os mais diversos obstáculos impostos pela vida.” Puro encantamento, saberes tradicionais, conhecimento ancestral, orgulho, altivez, picardia, liderança, charme e sabedoria.

Acabei passando horas ouvindo os relatos dessas mulheres e lendo as informações mais detalhadas publicadas na própria página, num link logo abaixo. Como a historia de dona Raiumunda Nascimento, rezadeira, curandeira, descendente dos povos Tremembé, mas também reconhecida como uma liderança do povo Tapeba. “Não tenho vergonha da minha historia.” Também me perdi e me achei com a de Valdenice Santos, lavadeira, que embalava sua lida entoando cantigas que aprendeu dos mais velhos e, hoje, integra o grupo “As lavadeiras de Almenara”.

Pra mim, esse coral é uma escola e cantar no palco, no meio dos colegas, é como uma formatura. Hoje em dia eu dou valor a tudo o que eu fiz. Porque o que eu fiz não é nada perdido: trabalhar na roça, ser cozinheira, bom, graças a deus. Voltar a passar a ser lavadeira (…). Eu vou te falar que eu tenho uma felicidade muito chique.

Ou mesmo a de Maria José Carvalho, liderança que se destacou na ocupação de terrenos vazios no bairro onde mora, de Vila Maria, em São Paulo. Ela narra o processo de organização das ocupações e de negociação do movimento. “Não há cidadania sem luta”.

E dona Maria da Paz da Silva, que saiu de um relacionamento abusivo e se apaixonou outra vez? “Pretendo viver o resto da minha vida com ele.”

Coisa linda pra mim é mulher contando sua própria historia. Mulher se reconhecendo também como protgonista de suas conquistas e perdas e dores e afetos. Pra mim, toda historia é formidável e toda vida é uma biblioteca inteira de sentimentos, de amor, de terror, de frases transcendentes, de finais felizes ou inquietantes, de vários epílogos que se misturam, viram prólogos e ressignificam narrativas.

Foi bem nessa toada que me lembrei do MAMU – Mapa de coletivos de mulheres. Criado por Maria Carolina Machado, é um projeto de mapeamento de coletivos, organizações, movimentos, grupos e projetos brasileiros que têm como foco as mulheres, o feminino, o feminismo, nossos ciclos, ritmos, reivindicações e lugares na sociedade.

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Em seis meses de existência, o MAMU tem cerca de 190 pontos mapeados. “É fundamental perceber que ele nunca estará completo, não é a sua função”, me conta Carol. “A ideia é que o mapa seja dinâmico, aberto e vivo, pronto para incluir cada coletivo e projeto formado e encontrado.”

O foco é a mulher e suas demandas, seja a de um coletivo, um movimento social, um projeto, um espaço ou uma iniciativa individual. Carol recebe vários pedidos de inclusão, no entanto, como ainda executa e desenvolve o MAMU sozinha, reconhece que pode ser um processo lento. “O desejo é que, num futuro próximo, esse mapeamento seja participativo e, com apoio e incentivo, possamos contar também com uma equipe para que esse processo de pesquisa, mapeamento e inclusão seja mais rápido e acessível.”

A expectativa é que o MAMU não seja apenas uma plataforma de visualização de pontos. “Queremos que esses grupos, ao se reconhecerem espacialmente, percebam suas afinidades, diversidade e façam conexões entre si.” Por isso, ela prevê a criação de campanhas de sensibilização, articulação, encontros e cursos que fomentem discussões, redes de troca de serviços, escambos e desenvolvimento de projetos.

“Desejo também que seja inspirador e motivador para o encontro de mais e mais mulheres, e a formação de mais e mais grupos.”

Se você conhece e quer indicar algum coletivo, movimento etc, é só ir no Cadastro do site e preencher os dados. Eles servirão de base para o mapeamento.

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