A fórmula única – garrafas aos mares

Tem dias que tudo é dúvida. Todo dia, na verdade, é dúvida. E eu penso se estou me perdendo em batalhas perdidas, afundando em derrotas e amarguras.

Tem dias que é Adelir, grávida e em trabalho de parto, sendo arrastada no meio da noite, com um mandado que violou não só a lei federal, a Magna Carta, mas a mais fundamental parcela de dignidade de um ser humano: autonomia.

Tem dias que é brigadeiro de colher e carne moída com batatinha, sabor de colo e aconchego.

Tem dias que a inspiração não vem, sobre nada. Tudo de profundo e relevante já foi dito, por alguém que diz melhor que eu o que eu quero dizer. E só cabe compartilhar, curtir, curtir mil vezes, postar dez vezes o texto fantástico que, olha que fantástico, as vezes foi escrito por gente que eu conheço e gosto pessoalmente.

Essa internet é muito boa, no final das contas. Se permite que grupos de ódio se propaguem, garante também que nós possamos denunciar.

Se permite que personagens caricatos à esquerda e à direita se revelem, de forma anônima e invisível e covarde, garante que a gente possa se juntar, dez doze vinte cem, e formar nossos coletivos de amor. Nosso clubinho.

Sabem, mesmo quando a gente acha que não tem ninguém lendo, nem se importando, a gente pode estar sendo aquela garrafa lançada ao mar e encontrada pelo náufrago, à deriva ou nem tanto. As vezes somos todos náufragos. As vezes o mar é terra firme e concreto, e estamos à deriva.

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Ontem eu li um artigo de um blog sobre criação de filhos com apego. E foi logo depois de ter lido um amigo postar aquele quadrinho da Super Nanny.

E como é que a gente fazia antes, quando não tinha tanta “corrente” dizendo como é que devemos ser/estar/parecer? Como a gente criava filho?

A Deborah Leão respondeu lindamente à minha angústia: “Antes era assim: você fazia como a sua mãe. E cada mãe fazia de um jeito, mas a gente não sabia bem disso. Algumas coisas davam mais certo, outras davam mais errado, mas a humanidade está aí criando filho não é de hoje. (…) Mas isso é meu. Vai ser o meu filho. A minha criação. Vai ter hora em que eu vou deixar chorar, vai ter hora em que vou pegar no colo. Vai ter hora em que vou estimular o apego, vai ter hora em que vou ter certeza que o melhor pra ele é algum distanciamento. E vai ter hora em que eu não vou ter certeza de nada. Já não tenho. Faz parte. Não sofre com isso, não, Rê. Já tem angústia de mais na experiência toda, a gente não precisa acrescentar, não.”

E ai eu pensei também numa mensagem que recebi outro dia, eu também náufraga, na qual uma pessoa que eu conheço pouco e admirava quando conheci, à distância dizia que se sentia feliz em saber que havia mais gente que pensava como ela (no caso, eu) e agradecendo por postagens minhas numa rede social (onde eu sou daquelas que postam “demais”) pois a faziam sair da zona de conforto (acho que saímos juntas dessa zona).

E voltando ao começo, eu acredito que esse clube, esse coletivo, assim como uma rede de amor e amizade, as vezes virtual mas sempre real, mora no meu coração porque não propõe uma fórmula única, não propõe sequer uma única fórmula. Se há algo que tentamos ter aqui é a proposta inicial:

“Este é um blog de princípios, os textos são concretude dos pensamentos individuais e revelam especificidades, mas não se afastam de uma reflexão abrangente e coletiva.

Acreditamos, convictamente, que todos e cada um deve ser livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Sim, estamos falando desexo, mas não só.

Escrevemos por prazer. Aliás, é assim que tentamos viver. Beleza, Gentileza, Leveza, eis as musas.

Não sabemos de tudo. Muitas vezes suspeitamos que não sabemos de nada. Não escrevemos pra convencer ninguém, mas para expressar o que sentimos, pensamos, queremos. Tentamos construir diálogos.”

Jogamos mensagens em garrafas, esperando que um dia elas voltem, com a resposta ou só com um oi e um abraço.

Nos dias em que a gente tiver certezas, não vai ser tão divertido.

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Quando a ortografia impede estórias de amor

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Escrever estórias de amor. Com e, de elefante. Sim, eu sei, os cultos foderam com elas. Para essa gente cínica só valem histórias, com h, de hospício. E porque estórias de amor? Porque sempre inventadas. Porque impossíveis. Porque lampejos, labaredas e traições diversas. Eu traio, você trai e nós, nos traímos. Mas este verbo inquieto conjuga mil teias, tece. Quem inventou esse desejo imenso – o verbo ter – mudou definitivamente os rumos de toda a história. Ah… meu amor… nunca amei outra pessoa como amo você. Verdade que digo isso pausado os olhos todos sobre teus cheiros, teus suores maduros, tuas vozes arranhadas e esse teu sexo assim entre vulgar e único. Mas quem se importa com verdades, com mentiras, com rótulos, com fatos, com fábricas de amor em potes em comerciais de margarina ou em finais românticos de comédias americanas de senso médio? Estórias, meu amor. Se quisesse verdades, confessaria, confessório, hóstia, chega: braile. Teu corpo. Teu tato. Mas entendo, entenda, saiba, reconheça: a história toda é guerra, distância, disputa, fuga, esconderijo. Mataram tudo em nome desse maldito agá, meu amor, dessa maldita regra ortográfica, dessa letra fria do v, de verdade. A verdade é sempre uma disputa por mercados, meu amor. Outro dia me disseste para conceituar o amor e que o amor é um sentimento nobre … Tive vontade de fugir, correr, te matar, esganar, porque este teu conceito me sufoca, me asfixia, me desama.  E soube naquele dia que nossa estória acabaria. Porque amor, amor, é aqui. O resto é lá fora, é história. Hoje teu cheiro forte de suor me excitou mais que perfume, mais que literatura biscate, mais que beijo molhado em pausa ereta. Era um cheiro de tudo, um hálito da gente, gozei. Podia acabar o mundo naquele exato momento que você ofegou aquele suspirar último. Sem vírgulas, só excessos. Mas não tentemos mais nada depois disso. Nem ordenar parágrafos. Preciso ir embora. Eu vou. Vamos?

Notei o copo ainda vazio. Eu, falando sozinho. Contando reticências.

 

Movimento e corpo em descompasso

Não, este post não é pra falar de safadagi, embora quando se trate de corpo, só o movimento sexy é o que importa, ou o vulgar sem ser sexy , ou o sexy sem ser vulgar… sei lá. Este post, na verdade, sem qualquer pretensão, é pra discutir os rumos de militância. Sim, rumos. E não é de nenhum movimento em específico, mas especificamente daqueles em que o corpo de seus membros é a reivindicação em si da liberdade! Daí que este post, quer entender e talvez queira mais perguntar que entender: em que medida a intervenção do movimento, da militância, no corpo do sujeito – ativo ou passivo na causa –  é legítima?

by Goya

by Goya

Isso é algo que me preocupa… Não é incomum ver movimentos ditando regras sobre as formas como o corpo de seus militantes devam ser. FEMMEN; outros grupos que se dizem feministas e que vinculam o feminismo a certos padrões de sexo feminino e não de gênero; grupos LGBT que direcionam campanhas apoiadas em exposição corporal estereotipada, ou que vinculam a homossexualidade a determinados padrões – ursos xiitas, por exemplo, ou barbies; grupos negros que rechaçam seguidores que não adotem traços físicos – principalmente cabelo – e culturais – religiões e cultos – que não sejam afro; grupos a favor e contra modificações corporais e sua luta incansável em dizer o que seus seguidores tem ou não podem fazer, como certos grupos punk que só identificam como membros pessoas com tatuagem, piercings e alterações corporais, ou grupos naturistas radicais que não permitem qualquer tipo de intervenção estética em seus membros…

by Paula Rego

by Paula Rego

A lista é imensa e, talvez, inesgotável, mas nem é o propósito expor toda ela. Me intriga o seguinte. Apenas fazendo uma pequena digressão histórica, dá pra chegar à época das reformas religiosas. Romper com a idade média e caminhar rumo à modernidade –  que deus ou o diabo ou Cher a tenha – teve muito, senão tudo, a ver com o corpo.

Sim, a modernidade foi o momento de rompimento. Foi no seu nascimento que, ora vejam só, por uma cisão religiosa – Beijo, Lutero – abandonou-se o modelo de domínio completo de corpo e alma pelo poder absoluto da igreja e se iniciou, de um ponto de vista ideal, a separação entre poder civil e poder divino. Assim, a Fé teria domínio exclusivo sob a alma-intelecto e o Estado passaria, então, a ter o domínio mediante a lei, do corpo.

Bom, ruim ou mais ou menos, ou mais pra mais, menos pra menos, nasce dessa divisão o ponto em que o ideário iluminista – que que não seja iluminista quem o queira, mas não negue que nossa sociedade o seja – nos permite a mobilização e a militância e, mesmo, a luta contra o Estado para garantir a nossa autonomia sob esse poder civil pelo próprio corpo! Ou seja, tão certo quanto dizer que o Estado passou a ter a gestão do nosso corpo de aí por diante, mais certo ainda é dizer que se fortaleceu a nossa luta pelo nosso próprio corpo até ela tomar a forma de movimentos organizados.

E é aí que mora o perigo. Não sei em que falha de entendimento da história, das questões sociais e da própria sociabilidade, se perde a noção de que a porra do corpo pertence apenas ao seu dono! Não sei se alguns movimentos não foram capazes se avançar ou se regrediram no debate e começaram a olhar com certa nostalgia pra era medieval e começaram a dogmatizar sua militância, começaram a transformá-la em fé e, agora, querem se firmar como seita, ocupando o papel perdido muito a contra gosto pela religião: o de domínio de corpo e alma-intelecto.

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by Dali

E é isso, enquanto faltar entendimento de que A PORRA DO CORPO É MEU, vai sobrar espaço pra gente gritar pelo fim desse descompasso! Militância nenhuma é, de fato, libertária se ela não é capaz de reconhecer a autonomia indistinta de qualquer pessoa sobre o próprio corpo. E  isso não é uma mera questão retórica. Isso é, talvez, a maior conquista do que se possa chamar “humanidade”. E enquanto houver pudor, vergonha ou, mesmo, castração, ainda que auto-castração, da nossa autonomia corporal, estaremos aqui para lutar e lembrar que é essa a única liberdade que nos convém. É por essa liberdade que estamos aqui! Pois essa é a única liberdade que temos o direito e a capacidade indistintos de realizar, sem qualquer intervenção. A nossa existência depende só e somente da autonomia na gestão do próprio corpo. É livre o nosso corpo!

Quem tem medo de Valesca Popozuda?

Por Daiany Dantas*, Biscate Convidada

É possível que hoje ninguém na música popular brasileira seja mais impactante que Valesca Popozuda. Deixando de lado juízos de gosto e valor, quais artistas encontramos por aí com tanta capacidade de provocar reações tão intensas, de revirar olhos e estômagos, desencadear balanços – físicos e mentais – sobre a nossa história cultural? Por trás de suas letras pulsam questões de classe e gênero que escancaram muitas das nossas desigualdades, de nossa pouca aceitação ao gosto das classes populares e ao protagonismo sexual das mulheres destas classes.

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Valesca, com seu corpo biônico, sua mestiçagem loira e lentes de contato azuis é um corpo que propõe muitos trânsitos – da dança de fundo ao microfone e frente do palco, da periferia ao palco midiático, de uma realidade colonizada à colonização dos espaços públicos – é um retrato vivo de nossas ambiguidades e contradições, da nossa NÃO democracia racial, da NÃO igualdade de gênero. É tiro, porrada e bomba na calmaria da burguesia “de bem”, pois para falar ela não usa artifícios. Sua palavra é firme e seu desafinar é autêntico.

Décadas depois de Marta Suplicy ter sido perseguida pelas “Senhoras de Santana”, ela também reclama o direito das mulheres a serem donas do próprio clitóris e terem os orgasmos que quiserem, mas abre mão dos nomes científicos. Prefere os apelidos cotidianos de alcova, pois assim resignifica não só o corpo que ela reclama para si, mas a liberdade desses espaços tão cobiçados a partir do desejo – por isso buceta, cu, grelo, em suas letras, são todos piscantes e desejantes – e isto é, claro, inesperado. Um acinte, uma vergonha!

Sua maior vergonha exposta, no entanto, não é a bunda siliconada (uma entre tantas nessa pátria de paniquetes estáticas, tratadas como samambaias mudas ou marionetes em jogos de humilhação), é um corpo punido por pretender o direito ao prazer, é esse exercício performativo e político que faz de Valesca uma artista tão odiada por uns – e amada por outrxs. Ela é um corpo com voz, não é só mais uma bunda assujeitada? O que ela é, então?  - toda uma mentalidade Casa Grande e Senzala entrando em combustão.

Valesca evidencia os não-me-toques de uma classe média que ama ser retratada como branca e hidratada em seus apartamentos bem decorados e com vista pro mar do Leblon, mas não quer sentar à mesa e banquetear com quem desce do morro para beber vinho da mesma taça. Ela mostra a persistência e atualidade de nossa cultura política que rechaça tudo aquilo que propõe um deboche desde as classes subalternas – estas podem, sim, ser escrachadas, desde que sob o controle vigilante de mídias conservadores, onde funkeira é favelada, nordestina é empregada doméstica e negro é bandido. Valesca não é uma personagem de Zorra Total, sua zorra é outra, seu discurso é transparente, de quem escolhe os próprios termos e não precisa de consentimentos. É um discurso de sobrevivência cujo escudo é justamente não ter escudo algum. Ela quer o poder da buceta porque a buceta é dela. Quer gozar, quer dar, quer te dar. Não porque alguém pede, mas porque ELA quer.

E aí vem o maior pecado de Valeska. Colocar o desejo feminino na baila, claro, é pedir para ser linchada. Geni não sai de moda. Ainda mais uma Geni gritando de autoestima, que pede para xs inimigxs “latirem mais alto” que dali, do camarote, ela não xs escuta. Como ousa? Quer subir no palco? Quer gozar e ainda quer divar? Quem ela pensa que é?

Márcia Tiburi, na Edição 188 da Revista Cult diz que Valesca é uma “Robin Hood estética”. Mas ela vai além. É carnavalesca, antropofágica, deglute os castelos inacessíveis do luxo e os transforma em cenário kitsch – haja peles, mármore, coroas, tigres e dentes de sabre, e, assim, seu batidão funk desautoriza a herança aristocrática. Traz a riqueza à sua comunidade e a subverte naquilo que ela tem de mais caricata e reconhecível. Valesca irrita porque é ela quem está parodiando, escolhendo como ser “rycka”, pois os ricos são os engraçados. É ela quem está rindo. E daí a riqueza deixa de ser dos outros e se torna de qualquer, farta e comum. E isto, claro, desagrada. Quem disse que funkeira e “favelada” pode ostentar?

E Valesca é filosofia pura. É o hedonismo bacante e dionisíaco de Nietzsche, deixando os apolíneos ofuscados com sua capacidade de se envaidecer das próprias regras. É o corpo sem órgãos deleuziano, escorrendo das mãos de um projeto coletivo que o segrega, e problematizando o lugar que ocupa ao negar as jurisdições que o controlam, é a reinscrição performativa butleriana, em seus palavrões que clamam para si o desejo (tão negado) das mulheres… é grelo pulsante, é riqueza, é empoderamento, e, claro, sendo tudo isso, só podia ser muito PAVOR, né?

Mas ninguém precisa temer Valesca. Mesmo. Basta ficar calmx, “deixar de recalque” e se dispor a abrir mão de convicções sequer fundamentadas. Em vez de rechaçá-la sem sequer ouvir o que ela tem a dizer, apostando nessas tintas fortes que a emolduram toda vez que ela surge num flash da mídia de massas, podemos aprender com ela sobre quem somos – e quem podemos ser. Em vez de xingá-la, confirmando todos os padrões que ela faz tremer, podemos nos gratificar por viver num mundo onde Valesca existe para confundir público e privado e ser visível e notória em ambos.

E sobre os juízos de gosto… ocorre que minimizamos artistas em função de barreiras que dizem muito mais respeito aos nossos preconceitos políticos e culturais que a valor artístico (as pessoas se vangloriam de que não ouvem e não gostam, mas é Valesca quem é chamada de ignorante… Será?). Costuma-se nivelar os gostos como selo de qualidade e mérito humanístico a partir do lugar social de onde esses gostos emergem… Achamos que não gostamos, mas somos, na verdade, dominados pelas fronteiras que segregam centros e periferias. Se nos deixarmos ilhar, perderemos uma parte importante de nossa história e nossa realidade… E viveremos interditados em nosso conteúdo “autorizado” – geralmente porque produzido por gente branca, vestida, “limpinha” e, claro, a maioria homem. Então, vamos encarar ou ralar?

IMG_20140409_232626Daiany Dantas foi uma jornalista que amava o nariz de cera e é uma professora de Comunicação Social que adora o barulho das teclas. Feminista sem carteirinha. Iconoclasta apaixonada pelas imagens. Filósofa de sala de cinema. Poeta de guardanapo e humana do Pingo, Kiki, Hoshi e Tapioca.

 

Aos quase 50, continue a nadar

arte: André Vallias

André Vallias

Pois é. Quase 50.
Impacta, né?
A mim impactou, nesse começo de ano. Vou fazer 48 em maio. E 48 é “quase 50″. Né.

Eu nunca liguei pra idade. Achava graça no ditado da Freira – que eu não conhecia ainda, só conheci agora na formatura da minha mãe : “Depois que eu trintei, nunca mais contei”. Achava graça e me irritava um pouco: como assim? Ainda mais que era ela, minha mãe, que retomava o ditado, quando lhe perguntavam a idade. Eu ficava magoada: se tirassem a idade da minha mãe, lhe tirariam a história, e com a história… eu. Era como se minha mãe estivesse querendo me “apagar” da vida dela.

Já disse em outro lugar:
não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte – que eu choro à beça, pra caralho ou mais – e… como diria o Neruda, de saudosa memória, “confesso que vivi”. E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho.  

Quando eu disse, foi há três anos: eu tinha 45 então, e era “bem no meio”. Esse ano, desde o começo do ano, tenho, na minha cabeça, quase 50. E, por um momento, me assustei. Aí fui ali cuidar de coisa e outra, tomar um café, encontrar a galera no Cardosão, dar uma olhada no mar, ler um pouco de Simone que anda me pautando por esses tempos (vá saber). Senti o vento no rosto. E me alegrei. Essa idade, 48, na astrologia, é fechamento de um ciclo – o quarto ciclo de Júpiter. Júpiter, planeta do crescimento, dos “vôos de águia” que ajudam a dar contexto e a sair do olhar míope da proximidade; o planeta dos estudos superiores, das longas viagens. Júpiter, o “grande benéfico” dos antigos, o planeta da boa fortuna, regente de Sagitário, “ao infinito e além”.

Júpiter tem um ciclo de doze anos: doze, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e oito. O quarto ciclo de Júpiter. Fechando, e começando um novo. Cada um desses fechamentos corresponde a um momento extremamente importante da minha vida. E a um novo começo. Vou contar só do primeiro, meu leitmotiv, recorrente de tanto que me explica. Aos doze, eu estava voltando de uma longa viagem. Eu-forasteira. Em carne viva, chegando ao Rio de Janeiro sem entender nada. As gírias. As roupas. Os modos. Os jeitos. Uma dor e um alumbramento. O primeiro ciclo de Júpiter a gente nunca esquece.

Esse ano, tô me sentindo próxima dessa menina aí, a dos doze anos, de olhos assustados, de jeito de bicho do mato. Essa aí que dizia que tinha frio de gente, e que tinham pisado com botas pesadas no seu jardim. A “desgarrada das gentes”. Próxima, porque por baixo de todas as camadas, essa aí ainda sou eu. Próxima, pelo afeto com que olho pra ela, ela-eu, e me alegro de tanto caminho percorrido. Te tanto pau, de tanta pedra, de tanto fim do caminho. Do fundo do poço. Do pouco sozinho.

Depois disso tudo, olho pra ela-eu hoje, e penso que andei. Que hoje não tenho mais medo de dançar em festa, embora a menina de doze anos apareça de vez em quando na hora de dançar de rosto colado. Que não gaguejo mais e que falo pra platéias grandes e pequenas, falo em plenárias, falo até em rádio, olha só. Me alegro que escrevo no Biscate, que vagueio no Chopinho, que faço mapas e falo de economia e traduzo de um pro outro, que é a minha verdadeira vocação.

Olho pra menina-eu de hoje, ao final do quarto ciclo de Júpiter, e vejo-a tão boba, tão palhaça, tão de riso solto como sempre. Ou talvez mais. Mais livre, mais tranquila, mais segura, certamente. Tão inquieta, tão curiosa, tão gulosa de vida e de comida mesmo como sempre. Com algumas cicatrizes a mais, como não. E outras histórias pra contar.

Vai ter festa esse ano. Festa de dança, pra celebrar o quarto ciclo de Júpiter. Como se deve. Provavelmente uma festa conjunta, com outros aniversariantes de maio. Gente querida. Tanta gente querida. E meu coração já fica quentinho só de pensar.

Caminho andado, caminho por andar: tá sendo gostoso esse caminho, viu. Não “fácil”. Nem sempre tranquilo. Mas bom de andar. Com seus perrengues, com seus percalços. Mesmo que de vez em quando fique tudo escuro e não pareça. Bom de andar, sim.

Esse texto de hoje é pra todo mundo que tá chegando lá comigo: tamos começando outro, galera. Ainda tem muito chão pela frente. A chuva ainda não chegou. Borandar. Dançar. Chorar. Gostar.

Continue a nadar, diz a Dory.

Olho pra frente, pra quem já andou mais do que eu, e vejo caminhos a percorrer. Olho pra trás, e cuido das lembranças que me fazem quem sou hoje. Agradeço, todo dia, sempre. Continuo a nadar.

Renata by João

Renata by João

De olhos bem abertos

Fui ensinada a não falar de boca cheia

e não por os cotovelos na mesa.

Sentei-me ereta por muito tempo,

ganhei da minha mãe, pés de bailarina.

Usei organdi e fui com vovó á igreja.

 

Então se hoje,

por acaso, eu grito,

seja educado,

não tape os ouvidos.

Objeto de Desejo- Foto-poema de minha autoria

Objeto de desejo- Trabalho de Raquel Stanick

Dia desses estava conversando com amigxs e acabei contando como foi difícil e demorado acabar minha graduação.  Pois é, foi só ano passado, quase sendo jubilada e aos trinta e oito anos, que me formei num curso universitário que muita gente nem sabe que existe. Ou não acredita em sua necessidade de existir. Mas foi a licenciatura em Artes Visuais que me trouxe, entre outras coisas, um pensar sobre o mundo em que vivo que mexeu e ainda mexe com muitas das minhas certezas.

Trabalho de Micaela Maia, artista Portuguesa, em seu  extinto blog-manifesto-performance  "Ela só queria ser Arrebatada".

Trabalho/ Performance de Micaela Maia.

Foi ao descobrir-me artista e posteriormente fazer da Arte profissão e modo de ganhar a vida que comecei a entender a máxima que diz que “uma imagem vale por milhões de palavras”, não só pelo seu valor descritivo, mas principalmente por seu valor simbólico.

Performance de Marina Abramovic

Performance de Marina Abramovic

Passei também a enxergar o corpo enquanto objeto, e, por favor, não me entendam mal. Ao dizer do “corpo enquanto objeto”, quero simplesmente apontar o conhecimento, sentimentos e lembranças que emergem dele a partir das experiências vividas por quem tenta “interpretá-lo”. Não há necessariamente “passividade” nisso, acredite.

Todxs nós, e ainda mais especificamente (alguns) artistas visuais contemporâneos, atrizes e atores, bem como prostitutxs com domínio de seu ofício, podem fazer do próprio corpo ferramenta. Com o uso de técnicas e estilos dos mais variados. Esperando este ou aquele resultado. No caso de alguns, sabem e bem o que estão fazendo. Quer um exemplo? Na imagem abaixo observe a reação das pessoas que assistem/ participam da performance. Apesar de existir um certo consenso na linguagem corporal do público, cada pessoa reage e se posiciona à sua maneira.

É, as pessoas são estranhas, como eu sempre repito. E únicas.

Um momento da performance do artista brasileiro Marco Paulo Rolla na 27° edição da Feira de Arte Contemporânea (ARCO- 2008). .

Um momento da performance do artista brasileiro Marco Paulo Rolla.

Sim, você leu direito, escrevi “artistas visuais, atrizes, atores e PROSTITUTXS”!

Continuando…

Então… com os resultados da pesquisa do IPEA (apesar de sua falha metodológica e posterior correção), mas principalmente por causa dos comentários machistas e violentos que o movimento “Não mereço ser estuprada” trouxeram à tona (leia o texto da bisca-amada-irmã Sílvia Badim sobre o assunto clicando aqui), novamente encafifei-me: o que esta ou aquela pessoa “viu” quando estava “vendo” uma mulher com “pouca roupa”? 

Putas? Vadias? Biscates? E qual seria o problema se ganhassem dinheiro com seus corpos, afinal de contas? Que profissional não faz isso? O cérebro não faz também parte do corpo? Qual é realmente o grande problema que deixa machistas de cabelo em pé e prontos para ameaçar tudo e todxs de estupro com seu mítico cetro patriarcal?

Mais uma performance de Marina Abramovic

Mais uma performance de Marina Abramovic

Henrique Carneiro num artigo que trata criticamente da violência como marca do poder masculino (triste, né?), afirma que a violência viril (é assim mesmo que ele a denomina) é um dos emblemas da masculinidade que nasceu com as primeiras civilizações e permanece como essência do próprio conceito desta.

Sim, de acordo com tal teoria, essas pessoas realmente acreditam estar defendendo a civilização como um todo. Seria engraçado se não fosse assustador. Principalmente por entender criticamente de que “civilidade” estão falando.

Performance de Ana Mendieta, assasinada em 1985 pelo seu então marido, também artista.

Performance de Ana Mendieta, assasinada em 1985 pelo seu então marido, também artista.

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Performance/ Pintura de Ana Mendiet

Já Barthes dizia que “a palavra, enquanto instrumento, é símbolo de poder”. A forma de materializar conceitos, apontar desejos e ideias. Vista dessa forma, é pois (e também) um símbolo fálico por excelência. A quem o poder da palavra tem histórica, social e economicamente pertencido durante tanto tempo? Porque gritar, xingar, principalmente no conforto do anonimato, dos falsos perfis ou no meio de um coletivo de “iguais” alguém que escreve em seu próprio corpo a vontade de mudar o mundo a partir de si mesma, do seu referencial “feminino”?

Não enxergam essas pessoas que defendem agressivamente uma “civilização” que já dá mostras de ter fracassado, que estamos vivendo agora e aqui uma necessidade urgente de mudanças no nosso entender de mundo?

Mulheres já são maioria nas universidades Brasileiras e no mercado de trabalho o percentual feminino passou de 38,8%, em 1992, para 40,3%, em 1999. Mesmo com as condições desfavoráveis que toda mulher inserida nesse mercado sente na pele, muitas já são, inclusive, inteiramente responsáveis pelo sustento de suas família.

Ainda assim continuam sendo tratadas como incapazes por uma “civilização” tão cruel que se utiliza de suas próprias vítimas para calar-lhes a voz. Exemplo? Uma médicA e uma juízA revestidas de autoridade por essa mesma ideia opressora chamada Estado de Direito achando que podem decidir (e decidindo!) por outra mulher.

Performance de Bela Reale

Performance de Bela Reale

Então aterroriza-me ver que as mesmas pessoas que louvam ou endossam os argumentos que justificam o estupro na citada pesquisa, bem como questionam a soberania na decisão de uma mulher grávida sobre seu corpo e a escolha de como parir seu filho, são as que usam o vídeo com mulheres ameaçando cortar picas para teorizar acerca duma suposta violência “feminina” inata da qual tem que se defender.

Mais uma performance de Berna Reale

Mais uma performance de Berna Reale

Sim, talvez eu queira mesmo cortar várias picas simbólicas. A da tal juíza, da tal médica, da maioria dos imbecis que comentaram e comentam barbaridades pela internet e no meio da rua e de mais um monte de gente que acha que poder é automaticamente sobre alguém e não sobre si mesmo. Mas acho que assim endossaria uma prática que mostrou não dar lá muito certo, e que acaba por transformar os atuais oprimidxs em futurxs opressorxs. Prefiro pois, questionar a própria estrutura de poder, essa mesma estrutura que faz com que a violência seja entendida como tal. E “masculina”.

Eu, que amo tantos homens que também se sabem capazes de escapar desse tal horror civilizatório, modificando a(s) realidade(s) ao seu redor.

Portanto não cortarei pica alguma. Primeiramente porque não acho que a violência de alguém se resume ao fato desta pessoa ter ou não um pênis (apesar de concordar que histórica e socialmente isso pode contribuir bastante). Mas principalmente porque realmente quero acreditar que somos todxs capazes de conviver, mesmo com nossas diferenças, sejam elas políticas, sociais, intelectuais, de comportamento ou gênero. Utopia? Obviamente…

Então utópica e biscate que sou, escolho falar do falo com carinho e intimidade.

Junto também decido que não mais me calarei por medo. Ou vestirei as roupas que alguém escolheu para mim porque acha que tenho que me envergonhar de quem sou. Aprendi na vida que “ganho” quando consigo argumentar, sorrir e emendar um poesia ou trabalho artístico depois de uma discussão, mesmo que minha vontade seja a de usar uma peixeira. Ganho de mim mesma também. E me humanizo.

Ou você acha que é fácil ser artista visual e tentar enxergar o mundo de olhos bem abertos, onde estou e sendo quem eu sou? E além de tudo, míope?

P.S: E se falei acerca d’Arte, esqueça, não é nada disso ou daquilo, ou então não seria Arte, seria linguagem. E a Arte está além do alcance desta.

Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

Mais Uma Segunda

Por Patrícia Sampaio*, Biscate Convidada

sisifo

Acordar mais uma segunda-feira e “cuidar da vida”, como dizia a mãe que repetia a avó. A rotina está lá, impávida, à sua espera na cozinha: o lanche da escola, o café da manhã, o almoço dos que ficam em casa, a marmita de quem não dá conta de comer a comida da rua. A roupa na máquina, as plantas na varanda, a comida dos pássaros. Depois, os e-mails intermináveis, os trabalhos sempre atrasados, como se fossem programados pelo próprio Sísifo! Nem acaba, nem fica pouco!! Outra fala da mãe que também era da avó.  Nesses tempos, já nem sabe mais o que ainda é seu ou é herança de tantas mulheres que vieram antes.

Esta herança que nunca quis compartilhar com uma filha. Rezava a cada gravidez por um menino. Tinha verdadeiro pavor de ter uma menina e, por absoluta incompetência, transformá-la em uma igual, pronta para carregar o planeta nas costas, assumir todas as culpas, andar enlouquecida atrás da perfeição em cada passo e em todo ato mínimo da existência: a casa sempre organizada, a família mais-que-perfeita, os filhos impecáveis, a melhor profissional. Chegou a fazer o almoço antes de ir para o hospital parir o filho. Em pleno trabalho de parto, à beira do fogão, não disse nada para ninguém até que tudo estivesse arrumado na casa… Inacreditável, dizem! Sente orgulho quando vê os olhos admirados de tamanha eficiência. Mas, não se engana. Sabe que o orgulho é pelo personagem bem sucedido porque, na verdade, não há vaidade alguma nisso. É uma armadilha. Não queria mesmo isso para sua filha que, afinal, nunca veio. É um alívio.

De repente, a casa fica em silêncio. Todos se vão e as tarefas dão uma trégua. Silêncio na casa e a voz vai ganhando nitidez. De onde vem? Faz tanto tempo que não a escuta que nem lembrava mais que era sua. Tanto a fazer, tanto barulho do lado de fora que a pessoa esquece o que tem para dizer a si mesma.  E ainda tem algo a dizer? Parece que perdeu a prática de pensar sobre si. Desconcertada soa a voz. Titubeante. O que ainda sabe sobre sonho e desejo? Diz que devia ir, para poder lembrar do que era e do como era antes de se tornar essa outra. Que só pensa e age para fora, por impulso. Cuida, provê, organiza, acalenta e, principalmente, antecipa desejos. Os alheios, claro. Aprendeu, como outras, que a maior expressão do amor é a antecipação da necessidade. Qualquer que seja ela. O melhor amor do mundo. Sem lugar para falhas. Nenhuma.

A voz reclama. Já está sendo calada para falar de outrem. Ri e concorda. É a falta de prática de ouvi-la. Carece de tempo para o exercício. Os restos infinitesimais de pão na mesa são capazes de fazê-la calar a voz. Treinada para prestar atenção no que acontece do lado de fora.

Tem medo. Quando o silêncio da casa se tornar permanente. Sim, há de acontecer um dia porque não há outro jeito para a vida. Então, a voz se tornará única. Do que tem medo? Irá aparecer tão alta, rebelde, insana que será capaz de ensurdecê-la ou, ao contrário, terá cansado, desistido e silenciado para sempre? Ainda não pode ir. Não sabe como reaprender a ouvir-se. Tem que terminar o almoço.

patricia-sampaio* Patrícia Sampaio é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

Do depois

Do Depois, em silêncio de quase amanhã. 

cafe

Então eu te abracei forte, e o quente se fez suspiro. Lá de dentro um sopro cresceu desavisado, e eu só conseguia dizer: fique. Dizer assim meio sem voz, sussurrando aos teus ouvidos colados aos meus, beijando teu corpo nu que dormia no cansaço bom de depois. Fique para amanhã, para ver o sol nascer de mansinho, para ver a chuva cair na janela. Para ver a madrugada romper em silêncio gelado de quase inverno.

Fique para algum dia rirmos do que nunca fomos, para vermos o filme que já saiu do cinema, para desconcertamos os acertos de agora, para criarmos novas e impossíveis metas. Fique para o feijão e arroz do almoço, para o cigarro na beira da janela, para a poesia imprevista do menino correndo pela casa. Por aquela viagem que a gente nunca fez, pelo livro fechado na estante, pelas promessas não formuladas que nunca poderemos cumprir.

Fique para pintarmos as paredes de vermelho, para jogarmos dominó no chão, para comermos pipoca e falarmos do Truffault que nunca vimos, para sorrirmos das besteiras que não cansamos de falar. Para enchermos a cara como se não houvesse amanhã, para nos amarmos de novos e impossíveis jeitos, para tocarmos o intangível que mora ao lado da realidade. E, claro, para cozinharmos a nova receita de panquecas.

Fique para dividirmos essas dores que nos assolam e a gente não consegue dizer por que, para somarmos incompreensões, para nos divertimos na segunda-feira de canal aberto na Tevê. Fique assim meio sem jeito, como quando seguro com medo as tuas mãos, tuas mãos de unhas roídas e cheias de não saber, nossas mãos longas de coragem, nosso desejo vivo por entre os dedos.

E assim vou soltando ao ao seu encontro esse amor com um quê de trágico, com pitadas de exagero sentidas nos ossos, com um quê de riso por trás do choro, com um quê de verde e de fundo de mar. Com os pés fincados na terra fértil, na colheita de algum dia, no porvir das nuvens e das poeiras de agora. E que seja. Até quando ventar e existir sede.

Ladybug em SP

Imagem

Lady Bug, no “rolezinho” in sampa, …
“É sempre lindo andar na cidade de São Paulo, de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo
A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
Gatinhas punks, um jeito yankee de São Paulo, de São Paulo
[...] Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo, de São Paulo
[...] E pra você criança muita diversão em São Paulo
São Paulo lição”

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foto: Antonio Miotto

foto: Antonio Miotto

“PARÔ O ARREGANHO!”

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Depois de caminhar [pouco], na bairro da higiene, utilizar transporte público e “tomar a garoa”, porque não a lembrança do modernista Mário de Andrade:

Quando eu morrer quero ficar
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

e você afirmaria: "não existe amor em SP?"

e você afirmaria: “não existe amor em SP?”

obs.: sim, Lady Bug é como apelidei a Niara, que montada em um rabo de foguete, deu o ar com graça, na cinza cidade. Volte logo, doce amiga. [ou ano que vem em Satolep!!!]

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sempre fui assim, meio soltinha, sempre gostei de ser amiga de homens, sempre gostei de andar de roupas confortáveis e sempre gostei de sexo. Mas, uma coisa que posso dizer, nunca fui capaz de fazer mal a ninguém, fazer qualquer tipo de violência com ninguém, sempre me chamaram de trouxa pois não sabia tratar ninguém mal, mesmo que me tratassem mal.

Mas o que você quer dizer com isso? Bem, o que desejo dizer é que usar roupas curtas, ser livre não é desvio de caráter, não me faz uma pessoa ruim, então porque eu ou qualquer mulher que usa uma roupa curta mereceria ser estuprada? Na verdade, minha pergunta é mais séria ainda: O que faz com que qualquer ( boa ou ruim, independente do caráter! ) mulher mereça sofrer uma violência dessas? Queria entender O porquê de uma mulher que decide ficar confortável, não morrer de calor ou, até mesmo, se sentir sexy e bonita (ela tem o direito sim de usar qualquer roupa por qualquer motivo!) faz com que ela mereça passar por qualquer violência,?  Além disso, que tipo de castigo é esse? Desde quando violência é uma forma de punir alguém? Para mim é machismo sim essa visão.

Não sei ver diferença entre uma mulher e outra por sua vestimenta ou atitudes, não vejo diferença entre nenhuma pessoa por nenhum motivo assim. Sei que rotular pessoas é um costume muito comum no nosso dia a dia, mesmo sem querer, precisamos nos policiar todos os dias para não o fazer e não acho justo apontarmos pessoas ou colocarmos em caixinhas, mulheres que merecem violência e mulheres que não merecem. É muito parecido com a tão irritante história da “mulher de malandro”, não existe quem goste de sofrer violência doméstica, existem pessoas que dependem financeira ou psicologicamente de alguém ou que estão num relacionamento por medo de como serão vistas se pedirem divórcio. É muito difícil rotular uma pessoa por suas atitudes.

Me sinto todos os dias, acuada ao sair na rua, a noite ou não, de roupas curtas, quando bebo ou quando respondo um homem que me canta. Mas, se eu não tomar uma postura, quem sou eu? Preciso lutar contra o preconceito. Viver em cárcere, sendo que sou eu a vítima, é afirmar que a sociedade deve continuar como está! É colocando a boca no mundo que faço minha parte: é saindo para beber, é rindo alto e escancarado e é também brigando de forma justa pelos meus direitos e de outras mulheres.

Não Mereço Ser Estuprada

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sou as minhas lutas, eu sou quem mostro no dia a dia, eu sou mulher e indivíduo com vontades e voz. Não posso me calar, já existem muitas outras mulheres caladas por aí, sofrendo escondidas. Tomamos a iniciativa para puxar outras a fazer o mesmo. A reação é em cadeia, sempre!

Você, o Médico ou o Estado?

Por Renata Côrrea, Biscate Convidada

Texto 1: Em trabalho de parto, levada por policiais armados e obrigada a fazer uma cesariana que não queria: não é mentira. Aconteceu em Torres, RS

Texto 2: Justiça retira mãe em trabalho de parto de casa para obrigá-la a fazer uma cesariana

Texto 3Um corpo que não é seu – Repúdio contra a violência sofrida por Adelir Carmen Lemos de Góes

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Para quem está achando justificável ou ok dez policiais arrastarem uma gestante pra fora de casa em trabalho de parto: eu não vou entrar em indicações necessárias e desnecessárias de cesárea. Mas eu vou falar de ética profissional. E de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Se a médica ou a juíza tivessem seguido os princípios da bioética, jamais teriam mandado dez policiais armados na casa de uma gestante em trabalho de parto. É ético o mandato só ter sido expedido com tanta rapidez pois a médica era amiga da juíza?

Politicamente o que aconteceu foi um caso de punitivismo. Uma mulher decidiu a respeito do seu proprio corpo e foi punida por isso. É impossível não perceber o paralelo entre as violências sexuais sofridas por mulheres todos os dias. Acabou de sair uma pesquisa do ipea onde dizem que mulher com roupa curta merece ser abusada. O que é isso além de punitivismo?

Juridicamente é um precedente perigosíssimo você tirar uma cidadã da sua casa, uma cidadã que assinou um termo de responsabilidade, uma cidadã que estava acompanhada, que tinha feito pre natal e mais do que isso uma cidadã que DECIDIU não seguir uma orientação que não coadunava com suas crenças e conhecimento. Então agora se uma testemunha de jeová não quiser receber transfusão de sangue um médico pode obrigar? Então se vocês decidirem se tratar com homeopatia (é placebo, não vai curar!), comer doce (dá diabetes!), fumar (câncer!) numa balada, beber (dá cirrose e vai que você resolve pegar o carro?), usar decote (as pessoas acham que roupa provocante te coloca em risco se violência) o Estado vai ter o direito de colocar a polícia na porta de vocês? Afinal são atitudes que podem colocar a vida de vocês em risco. Ué? Mas quem decide o que acontece com o seu corpo? Vocês, o médico ou o Estado?

Aliás o bebê não estava sentado. Isso foi só a justificativa da médica. O bebê estava cefálico. Mas isso não importa. Esse bebê podia estar de lado, podia ser o bebê de rosemary, podia ter feito mecônio 12 cruzes. Não importa. Importa que o que uma mulher decidiu a respeito do seu corpo foi desrespeitado pelo Estado. Sabe que sistema político violava os corpos das pessoas com justificativas institucionais? Dou uma chance.

A ditadura acabou. Mas não para as mulheres. Acabou 50 anos atrás. E ainda vivemos em estado de exceção. Temos direitos humanos. Exceto quando usamos roupas curtas, estamos grávidas, somos biscates, etc etc. Quase humanas.

renata corrêaRenata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

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