Uma Biscate Qualquer

uma biscate qualquerEla trepa. Ou não. Só se quiser, mas não sempre que quer, infelizmente. Uma biscate canta alto, lavando a louça, e baixinho, lavando a alma. Porque uma biscate faz essas coisas de quem vive: limpa a casa, cozinha e, vez ou outra, sente o oco no peito e lembra de chorar. Uma biscate trabalha até tarde, bebe com os amigos, resmunga no cinema. Biscate toma banhos demorados e faz caretas pro espelho. Uma biscate esquece futuros e vive as alegrias que se apresentam. Mas, vez ou outra, sonha dormir de conchinha.  Acorda meio melancólica, mas ri de si mesma e se sabe ótima companhia. Uma biscate paquera no metrô, só pra não esquecer como é. E dança a noite toda na balada de olhos fechados, sentindo a música brincar nas esquinas do corpo. Biscate tem filho e se preocupa com as notas do fim de ano. E viaja sozinha e não liga pra casa nem pra dar bom dia. Biscate passa a noite acordada, consolando a amiga no telefone. Aí, de manhã, faz maquiagem realçando as olheiras e se diverte com as teorias orgiásticas que explicam o rosto amassado. Biscate diz sim. E não. Diz quando, encolhida na cama. Biscate tem cerveja na geladeira e biscoitinhos recheados na gaveta perto da cama. Biscate gosta de massagem no pé, banho de mar e poesia ao pé do ouvido. Biscate curte palavras de ordem, movimento na rua e de uma série de revoluções por minuto. Uma biscate namora. E não. Sai sozinha, pede chopp e torce em uma partida de rúgbi. Biscate paga suas contas, paga mico, pede passagem. Biscate samba sozinha, na rua e na lua. Biscate é em fragmentos e se faz na beleza de se saber senhora desses pedacinhos todos que, juntos, soletra assim: eu.

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59 ideias sobre “Uma Biscate Qualquer

  1. Antropofagia da melhor qualidade.
    Nos resta a nós homens, que cunhamos o termo machista, aprendermos a lidar com a realidade de sujeitos autônomos onde havia objetos de desfrute.
    Bem vindas, biscates.
    À partir de não sei quando, no tempo que chegarmos à mesma “altura”, sermos parceiros de verdade com foco nas mesmas lutas, um ao lado do outro. Sem disputas inúteis.
    Enfrentando juntos prazeres e frustrações.

      • Nós todos, machistas por atavismo, temos um estranho prazer com o convite para nos juntarmos.
        Precisamos é parar de impor ao outro os termos de “ajuntamento” pelos critérios sexistas.
        Eu topo só ser e juntar.
        O resto a natureza resolve.

        • esta mulher assusta e se assusta
          percebe que o mundo está em si
          e vive a liberdade de simplesmente ser
          ausente quaisquer dependências emocionais ou materiais
          descobre que a melhor coisa da vida
          é essa leveza de poder e querer
          por sua única e própria escolha
          assume as consequências e interpéres
          com um belo salto alto e garras feitas
          possivelmente também com algumas orgulhosas olheiras
          por ser uma biscate qualquer

  2. “Prazer”, sou mais biscate ou outro nome qualquer que queiram me dar. Texto lúcido e intenso, Lú. Não poderia esperar outra coisa, vindo de vc! Já estou aqui “prá sempre”…

  3. Pelo jeito, o Clube das Biscates aceita mulheres prá lá da meia idade, não é mesmo? Então, vai o toque. Comprei um livro sugestivo, da Mari Campos: chama-se “Sozinha Mundo Afora”. Não li ainda, mas deve ser legal, porque foi indicado por um site muito bom para qualquer tipo de pessoa: http://www.viagenaviagem.com.br, de um jornalista especializado em viagens, Ricardo Freire. Perfeito! Grande abraço! Gisele

  4. Amei o texto…me identifiquei completamente,mas alguém chamou minha atenção Beto Mafra. Gostaria de conhecer vc pessoalmente! Quero saber se não é mais um carinha querendo impressionar as mulheres com “falácias” achado erroneamente que nos engana!

  5. Nossa……
    Eu quase fiquei sem palvras diante de um texto que traduz uma mulher bem resolvida e real.
    Relata o ser de uma mulher traduzindo a ansiedade de todas.
    Parabéns!!!!!!

  6. Gostei do texto, mas achei o termo derrogativo. Biscate significa trabalho sem valor, mulher de vida fácil, o que não é exatamente o caso de uma mulher que tem casa, trabalho, paga as contas e se preocupa com as notas dos filhos.

  7. Débora, não sei se você leu todos os posts, então vou responder como se não tivesse visto, tá? A moral prevalente tenta nos fazer crer que devemos enquadrar as mulheres em duas categorias: biscate X mulher séria (o post inicial tem um combo foto+frase bem elucidativo). O mote desse blog é justamente discutir as entrelinhas dessa distinção. É apontar que somos, cada uma, únicas, não classificáveis, podemos nos divertir, ter prazer, sermos responsáveis pela nossa própria história. Especialmente queremos indicar que o nosso valor não pode nem deve ser proveniente de uma análise externa que analisa nosso comportamento sob uma lógica cruel e repressiva. Poder brincar com o termo biscate, autorizar nosso desejo, abrir mão da busca constante de aprovação externa não nos impede de viver os dias e ter as preocupações usuais, apenas faz com que lidemos com elas de uma forma mais livre e gostosa.

    • Luciana: ainda acho que, pela forma cordial e sensata com a qual você respondeu ao meu comentário, você está mais para uma dama do que uma biscate! Não sei, para mim o termo ainda soa derrogatório, mas acho válida a forma como você o associa a algo positivo. :-)

      • Não só a Lu, Débora, todas nós associamos o termo biscate a algo positivo. Estamos virando esse jogo. Estamos cansadas de termos nosso comportamento e vida regrado e classificado pelo machismo da sociedade. Estamos assumindo que somos biscates e isso é bom. E este é o nosso clube. Fique conosco, em breve perceberás que tanto faz sermos damas ou biscates, o mundo nos julgará do mesmo jeito e pelos mesmos motivos. ;-)

  8. Que texto lindo, parabéns! Me arrepiei!
    É tão gostoso quando a gente lê algo e se identifica, né? Uma delícia!
    Estou adorando o Blog e os textos. Vocês estão de parabéns!

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