"A vida era boa, bastava viver"

Este post não é meu.

É de Jorge.

Jorge Amado, que me soprou pelo ouvido: "Gabriela, biscate, cravo, canela..."

Eu só busquei os trechos. Ele me soprou pelo cangote, que essa quinta era dela.

“Era um gato vadio do morro, quase selvagem. O pêlo sujo de barro com tufos arrancados, a orelha despedaçada, corredor de gatas da vizinhança, lutador sem rival, visagem de aventureiro. Roubava em todas as cozinhas da ladeira, odiado pelas donas de casa e empregadas, ágil e desconfiado, jamais tinham conseguido pôr-lhe a mão. Como fizera Gabriela para conquistá-lo, obter que ele a acompanhasse miando, viesse deitar-se no regaço de sua saia”

Não me lembro da novela. Nem da cena do telhado. Menos ainda do filme.

Mas Gabriela me encanta desde que a conheci. Em papel cheirando a mofo.

Quem era aquela, aquela que se conhecia e se bastava?

“Estava contente com o que possuía, os vestidos de chita, as chinelas, os brincos, o broche, uma pulseira, dos sapatos não gostava, apertavam-lhe os pés. Contente com o quintal, a cozinha e seu fogão, o quartinho onde dormia, a alegria quotidiana do bar com aqueles moços bonitos – o professor Josué, seu Tonico, seu Ari – e aqueles homens delicados – seu Felipe, o Doutor, o Capitão – contente com o negrinho Tuísca seu amigo, com seu gato conquistado ao morro.
Contente com seu Nacib. Era bom dormir com ele, a cabeça descansando em seu peito cabeludo, sentindo nas ancas o peso da perna do homem gordo e grande, um moço bonito. Com os bigodes fazia-lhe cócegas no cangote. Gabriela sentiu um arrepio, era tão bom dormir com homem, mas não homem velho por casa e comida, vestido e sapato. Com homem moço, dormir por dormir, homem forte e bonito como seu Nacib.”

Gabriela ficou imortalizada com os traços de Sônia Braga, uma Sônia Braga jovem e cabocla, cabelos anelados ao vento, cangote moreno, pernas roliças. Uma Sônia-Gabriela.

Imortalizada na letra de Dorival Caymmi, na voz de Gal Costa.

Descrita por um homem, por um homem que amava as mulheres, por um homem que amava as biscates e que descreveu as maiores personagens femininas da literatura moderna brasileira (sim, eu amo, e sou parcial. Não gostou? )

Gabriela.

Gabriela, cravo e canela.

Flor no cabelo, Gabriela.

Quando Nacib partiu, ela sentou-se ante a gaiola. Seu Nacib era bom, pensava ela, tinha ciúmes. Riu, enfiando o dedo por entre as grades, o pássaro assustado a fugir. Tinha ciúmes, que engraçado… Ela não tinha, se ele sentisse vontade podia ir com outra. No princípio fora assim, ela sabia. Deitava com ela e com as demais. Não se importava. Podia ir com outra. Não pra ficar, só pra dormir. Seu Nacib tinha ciúmes, era engraçado. Que pedaço tirava se Josué lhe tocava na mão? Se seu Tonico, beleza de moço!, tão sério na vista de seu Nacib, nas suas costas tentava beijar-lhe o cangote? Se seu Epaminondas pedia um encontro, se seu Ari lhe dava bombons, pegava em seu queixo? Com todos eles dormia cada noite, com eles e com os de antes também, menos seu tio, nos braços de seu Nacib. Ora com um, ora com outro, as mais das vezes com o menino Bebinho e com seu Tonico. Era tão bom, bastava pensar.
Tão bom ir ao bar, passar entre os homens. A vida era boa, bastava viver. Quentar-se ao sol, tomar banho frio. Mastigar as goiabas, comer manga espada, pimenta morder. Nas ruas andar, cantigas cantar, com um moço dormir. Com outro moço sonhar.
Bié, gostava do nome. Seu Nacib, tão grande, quem ia dizer? Mesmo na hora, falava língua de gringo, tinha ciúmes… Que engraçado! Não queria ofendê-lo, era homem tão bom! Tomaria cuidado, não queria magoá-lo. Só que não podia ficar sem sair de casa, sem ir à janela, sem andar na rua. De boca fechada, de riso apagado. Sem ouvir voz de homem, a respiração ofegante, o clarão dos seus olhos. Peça não, seu Nacib, não posso fazer.
O pássaro se batia contra as grades, há quantos dias estaria preso? Muitos não eram com certeza, não dera tempo de acostumar-se. Quem se acostuma com viver preso? Gostava dos bichos tomava-lhes amizade. Gatos, cachorros, mesmo galinhas. Tivera um papagaio na roça, sabia falar. Morrera de fome, antes do tio. Passarinho preso em gaiola não quisera jamais. Dava-lhe pena. Só não dissera pra não ofender seu Nacib. Pensara lhe dar um presente, companhia pra casa, sofrê cantador. Canto tão triste, seu Nacib tão triste! Não queria ofendê-lo, tomaria cuidado. Não queria magoá-lo, diria que o pássaro tinha fugido.
Foi pro quintal, abriu a gaiola em frente à goiabeira. O gato dormia. Voou o sofrê, num galho pousou, para ela cantou. Que trinado mais claro e mais alegre! Gabriela sorriu. O gato acordou.

Gato ao sol. A vida é boa.

A vida é boa, basta viver.

[os trechos são de Gabriela, Cravo e Canela, obra de Jorge Amado, publicada em 1958. Não leu ainda? Está perdendo...]

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