Caixas

Era uma vez uma caixa. Uma não, um depósito. Um armazém gigantesco com o pé direito muito alto (e sabe que o tamanho do pé… né?), repleto de caixas. Todas iguaizinhas, sem cor, sem cheiro, inertes. As caixas. Umas letras vermelhas estampavam os lados todos. Ela caminhava por entre as caixas. Divertia-se imaginando o que eram alguns dos nomes esquisitos ali. No canto, uma caixinha bem pequenina com a palavra “coliforme”. Uma outra um pouco maior indicava: “caramujo”.

Havia tantas, tantas caixas.

Uma caixa grandalhona dizia “animais” e ao lado dela uma outra maior ainda com o rótulo “sensações”. Delícia, pensou. Sensações. Era ali que entraria? Estava nas regras, ela releu em voz alta feito Alice – exceto que não havia ali maravilha alguma – uma a uma:

“Número um: entrar no armazém. Parágrafo único: o início do processo implica imediata aceitação das regras. Bom, já entrei, não posso mais voltar agora. Número dois: escolher muito bem uma caixa e entrar nela. Parágrafo primeiro: Antes de tomar uma decisão observe bem os requisitos afixados em cada caixa. O não-cumprimento dos requisitos obrigatórios impedirá sua entrada e você será retirada da missão. Parágrafo segundo: Caso a missão seja cancelada por motivo de não-entramento na caixa você será realocada de volta onde estava, sem a possibilidade de condicional.”

Duas regras. Não podia ser difícil. Sonhara com aquela chance, com aquele momento. Era preciso escolher bem a caixa. Continuou a incursão.

Uma enorme caixa quase encostava no teto do armazém. Que seria? pensou ela. Correu pra lá.

“MULHER”, dizia a caixa. “Mulher…”, pensou ela. “Por que não?”

Encontrou os requisitos obrigatórios da caixa “mulher”. Apenas um. Devia ser moleza, pensou.

“Ter nascido com uma vagina.”

Vagina. Olhava incansavelmente para o papel. Não tinha nascido com uma vagina. Quase desistiu. Chorou. Soluçou. A mesma dor de sempre. Reclamou, contou suas histórias às partículas que pairavam no ar.

E então, o silêncio.

A caixa estava errada. Ela sabia que era mulher.

Caminhava mais. Já nem lia os rótulos, tampouco reparava nos tamanhos das caixas. Repassava sua vida. As escolhas. O sexo bom e o ruim. Violência e amor. Pensava, pensava, pensava. Quase nem notou a pequena caixa de vidro junto à parede. Um rótulo vermelho em cima: EMERGÊNCIA. Ela não sabia mais o que fazer. Dentro da caixa um machado. Ela não sabia o que fazer. Ela não podia escolher caixa alguma.

Afastou-se como um boi (o que era uma emergência se não aquilo) e lançou-se ao vidro que espatifou-se cortando a superfície lisa e negra de sua delicada tez. O machado caiu. Ela agachou-se e pegou-o em suas mãos. O cabo rijo, o desejo. Tesão acumulou-se, o sexo pegava fogo. Um fogo descabido, desproporcional.

Ela segurou o roliço cabo do machado com firmeza. O tesão a fez crescer. Cresceu, cresceu, cresceu. Olhou de cima a “caixa-mulher”, tão pequena. Ínfima.

Já não cabia em caixa alguma.

Do ponto de vista do alto ela percebia a bobagem que eram as tais caixas. Que engano, a vida toda querendo uma chance de escolher. Que bobagem. Largou o machado e ficou com o tesão. O tesão da vida, da beira, da ausência de limites. Liberdade.

Caminhou pra fora do galpão quebrando as paredes e tudo mais que lá havia.

Nunca mais a biscate quis entrar numa caixa dessas.

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5 ideias sobre “Caixas

  1. No começo eu fiquei muito curiosa querendo saber onde você queria chegar com essas caixas, no final a gente entende e se entende. Ja vi várias vezes (e também já fui uma) biscates em crise de identidade, quando você quase se deixa levar e quer negar a condição de biscate, tentando entrar numa dessas caixas, mas biscate que é biscate não cabe em caixa nenhuma.

    • Como não entender, Marília? Quando li “caixas”, já entendi tudo. Essa imagem da mulher crescendo e não cabendo mais em caixa nenhuma, muito menos na “caixa-mulher” foi de uma profundidade…resumindo, ADOREI! Parabéns pelo texto!

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