Canja Mal Intencionada

Por Niara de Oliveira

Lentilha ou Canja Mal Intencionada?

A receita prevista para a coluna de Receita Biscate de hoje quase sucumbiu diante da popularidade da lentilha. Vários comentários sugeriram que a lentilha era a mais “facinha” da ceia de Ano Novo porque estava em todas as mesas e bocas. Chegaram até a sugerir que a lentilha era uma vadia já que todos a estavam comendo. Aí é que está. Todos escolheram comer lentilha no Ano Novo, uns porque acreditam de fato ser este o grão da prosperidade e outros apenas porque seguem uma tradição da qual desconhecem história e sentido. Mas quem a lentilha escolheu comer ou por quem a lentilha escolheu ser comida?

Afirmo sem medo de errar que se a lentilha pudesse escolher teria sido canja nesse reveillon de 2012. Não uma canja qualquer. Uma canja de vinho tinto, digamos, matadora, repleta de todas as intenções, boas e más, segundas, terceiras, quartas…

Diferente da lentilha, não há um dia específico para a canja de vinho tinto ser feita. Quem escolhe o dia é a oportunidade. Oportunidade de cozinhar para alguém que desperta desejos, vontades e intenções e ter essa bruxaria como aliada da biscatagi. Sim, essa canja é apenas o prato de entrada. O prato principal é o que vem depois dela e é para comer mas não precisa ser necessariamente deglutido.

Justamente por ser uma bruxaria, atente para o ingrediente principal: desejo, desejo pela pessoa que irá tomar canja contigo. Não é um ingrediente afrodisíaco que misturado a uma receita qualquer e provado por qualquer pessoa vá surtir o efeito desejado. Então, pegue os demais ingredientes, o modo de fazer e quando estiver cozinhando vá pensando em todos os desejos que a pessoa te causa e ideias que te suscita e vá misturando tudo isso na panela.

Se costumas beber vinho e estás acostumada(o) com seu efeito, pode comprar duas garrafas e ir bebendo enquanto faz os preparativos para cozinhar, como ralar a cebola, temperar o frango, separar os temperos e aquecer a água. Se não estás acostumada(o) a beber, separe a quantidade de vinho da receita e deixe o restante para servir junto com a canja. Ah, não esqueça de conferir se a vítima, digo convidado(a) come frango. Perdoem-me os(as) vegetarianos(as)/veganos(as), mas infelizmente não há substitutos.

Aqueça um fio de azeite no fundo de uma panela média ou grande e se concentre no calor, tem que aquecer bem mas não pode passar do ponto. Doure uma cebola média ralada enquanto olha e conversa com seu convidado(a). Curta esse momento, faça devagar, respeitando apenas o tempo da panela. Acomode quatro sobrecoxas de frango sem pele (já temperadas com sal, alho e uma pitada de gengibre ralado — pode optar pela desossada) na panela e sele dos dois lados, jogue um pouquinho de manjericão desidratado e um copo generoso do vinho tinto seco escolhido — sugiro Merlot. Deixe o frango ferver um pouquinho no vinho e pegar cor. Se embriague no aroma, jogue um maço de salsa e cebolinha (aquela bem fininha) amarrado e cubra com água fervente. Deixe cozinhar com a panela semitampada por uns dez minutos. Acrescente uma xícara pequena de arroz, mexa devagar. Quando o arroz estiver al dente retire o molho de salsa e cebolinha e jogue 50 gr de queijo parmesão ralado e mexa bem. O queijo precisa dissolver sem empelotar.

Sirva em seguida, bem quente, acompanhada de vinho tinto, salsa e cebolinha picadas e queijo ralado para polvilhar e de todas as suas más e boas intenções. Se preferir sirva também torradinhas de pão passadas no azeite e mais uma dose generosa de malícia.

PS-1: É de bom tom observar a temperatura da noite para não terminarem de tomar a canja passando mal e pingando suor. Terminar a noite suando é o objetivo, mas suando junto, grudado com o(a) convidado(a) e não em cima do prato.

PS-2: A receita original é de autoria da minha amiga da vida toda Fernanda, mas foi nas minhas mãos que ela se tornou receita prá biscatear. Rá!!!

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5 ideias sobre “Canja Mal Intencionada

  1. Biscatagem da MELHOR qualidade essa de entornar o caldo antes de ficar caudalosa… ou “oso”.
    Infelizmente, frango não pertence à minha cadeia alimentar mas vou experimentar variações em breve.
    Com a exaustão vinda com o exercício de aflições pós-caldo, sugiro o velho caldo de mocotó e a certeza de novas energias em velocidade subliminar.

  2. Pingback: Sexta-Feira 13, dia oficial da Biscate |

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