E a biscate mexicana enfeitiçou Trotsky…

Receita e post da nossa biscate convidada Mayara Melo*

“Olhar amoroso” — Frida Kahlo aos 39 anos, em Nova York, captada pelo fotógrafo Nicholas Muray, seu amante como foram Trotski e Tina Modotti.

“Cada bocado deste prato me faz pensar que a comida no México se rebelou contra os cânones europeus” — Léon Trotsky

Frida era uma grande biscate. Como diria um amigo meu, ela era toda trabalhada nas artes da feitiçaria (rs).  Frida não enfeitiçava apenas por sua inteligência, olhar altivo ou por sua arte, ela combinava vários mistérios, entre eles, a boa mesa. No livro “O Segredo de Frida Kahlo” estão descritas algumas cenas do romance que Frida teve com o León Trotsky.  Um romance que envolveu muito sabores e é um deles que vamos compartilhar neste post. A receita que Frida anotou no “livro da erva santa”* com o nome de “A refeição de Trostsky e Breton”.

Assim Frida escreveu antes da receita que postamos hoje…

“O Piochitas** gostava de ser surpreendido. Não havia muito para dizer, pois Diego me roubava a palavra, a mim e a qualquer um que estivesse perto de Trotsky, por isso eu só cozinhava, pois conseguia dizer mais com meus sabores sobre minha visão de um mundo do que poderia ter dito com palavras. Os dois desejávamos apenas isso: um mundo melhor. Quem é que não quer isso na vida…?”

Natália, Frida e Trotsky

Frida viveu intensamente seus desejos, embora tenha convivido com dores extremas por toda a vida (dores físicas e emocionais. Ela mesma costumava dizer que morreu duas vezes: a primeira no acidente de bonde e a segunda ao casar com Diego Rivera), Frida viveu fervorosamente os prazeres do sexo, da comida e da bebida. A dor, a morte, a traição, a pulsação, o desejo e o prazer foram parte do seu cotidiano. Seu tumultuado relacionamento com o artista Diego Rivera teve momentos de extrema felicidade, mas de brutal sofrimento também. Frida não costumava se importar com as rotineiras traições do marido com as gringas, como ela chamava. Ela mesma teve vários amantes – homens e mulheres ao longo da vida – no entanto, Frida nunca engoliu a traição de Rivera com sua irmã Cristina.  A vingança viria anos depois, justamente com Trostsky.

 “Ao vê-lo pela primeira vez, Frida achou-o arcaico, velho, passado de moda, entediante, chato, solene; um daqueles móveis que a gente herda da avó e encosta num canto do quarto. Apesar disso era um herói revolucionário. Todos os comunistas do mundo o admiravam; nenhum deles lhe oferecia asilo (…) Frida aceitou sem melindres.”

Assim, Trotsky e sua esposa Natália viveram por dois anos na Casa Azul. Diego pedira a ela que abrigasse os dois e Frida aceitou sem reservas a incumbência.  Rivera possuía uma admiração profunda por Trostsky, ele mesmo fez o intermédio com o presidente do México para conseguir asilo político. Em sua presença, segundo descrevia Frida, parecia um bobo concordando com tudo que Trotsky falava e tentando agradá-lo de todos os modos. “Talvez para competir com Diego, talvez pelo desejo de destacar-se, ou ela simples razão de que era capaz disso, decidira ganhar o apreço do homem a quem seu esposo mais admirava. Frida desejava que Trotsky se rendesse a ela e lhe permitisse executar sua vingança”. Assim foi feito. Frida começou a seduzir Trotsky justamente pelos sabores.  Segue abaixo trechos do livro que narram um desses momentos de deliciosa biscatagem.

“Cada bocado deste prato me faz pensar que a comida no México se rebelou contra os cânones europeus. Luta por sua autenticidade. Mas a insurreição é uma arte, e, como todas as artes, tem suas leis”, disse Trotsky numa manhã, ao encontrar Frida na cozinha. Para ajudá-lo a despertar, deleitaram-no com uma xícara de café de Olla. Ao vê-lo refeito, encostado ao batente da porta com um grande sorriso, Frida lançou-lhe um olhar avaliador, atraente e cheio de sensualidade. E depois voltou ao trabalho na cozinha, deixando o aguilão do desejo cravado em Trotsky. “Quais são as leis da cozinha, Frida?”, perguntou ele.
(…)
“São mais simples do que o senhor pensa. A primeira é que ninguém se mete na cozinha de uma mulher sem a autorização dela, é uma falta tão grave quanto deitar com o marido dela. Talvez até mais grave, começou Frida sentando ao lado dele. Na cozinha você pode ser ignorante, mesquinho ou descuidado, mas nunca as três coisas juntas, e por isso sempre tem alguém mexendo o arroz quando ferve, deixando de por algum ingrediente porque esqueceu de comprar, cozinhando ao mesmo tempo a massa e o molho, fritando a carne com mais óleo que o lago de Chapala, servindo feijão queimado.”

Em Trotsky foi se desenhando um sorriso que se ampliou numa gargalhada, e, sem querer, suas risadas se tornaram tão altas que fizeram com que o senhor Cui-cui-ri que andava ciscando restos de comida, saísse correndo dali.

(…)
“Tem algo de bruxa na senhora que encanta e deslumbra. Talvez esteja me envenenando com sua comida, pois desde que cheguei ao México estou vendo tudo de outro modo.” Frida jogou o corpo para trás, ao mesmo tempo que soltava fumaça de seu cigarro. No fundo da cozinha, Agustín Lara cantava no rádio “Solo tú”.
“Por acaso agora o verde do pasto faz você lembrar da melancolia, o sangue lhe lembra as cerejas e a felicidade contagiante de uma tarde lhe lembra um doce de mel?”, perguntou Frida.
“Isso mesmo, isso mesmo”, respondeu Trotsky com movimentos afirmativos, muito próprios dele. De professor, de encantador de palavras.
“Então, devo estar lhe passando alguma coisa minha com o sal, pois para viver essa vida é preciso temperá-la. O senhor já vê que estou doente, por isso acabo ficando tolerante, embora às vezes a vida seja danada além da conta, pois ou faz você sofrer ou faz você aprender. Para isso é que se coloca tomilho, pimenta, cravo e canela, para tirar o gosto ruim. Frida pegou-lhe a mão e ficou passando a almofada de seus dedos pelas rugas dos nós dos dedos dele. Se não veja, o senhor sem pátria e eu sem pata.”

Essa cena é uma descrição do começo da biscatagem entre eles, mas a história evolui até Trotsky mandar cartas e mais cartas apaixonadas para Frida. Segundo ela descreveu, parecia um adolescente totalmente entregue. O problema é que quanto mais ele se jogava, mas Frida tinha certeza que precisava acabar com aquilo. Não lhe apetecia tanta melosidade ,além disso, os seguranças de Trostsky e a própria esposa já começavam a observar o comportamento estranho do revolucionário. Sabendo que seria um escândalo que complicaria a situação de Trotsky, e já desinteressada,  Frida o incentivou a mudar-se de casa. A passagem mais interessante dessa parte do livro é justamente a que narra o momento em que Diego percebe que Frida concretizou sua vingança. Quando Trotsky disse que iria embora, Diego se revoltou e fez muito barulho.

“Cale a boca, Diego”, murmurou Frida ao ouvido dele antes que continuasse com seu escândalo melodramático.
Diego ficou pasmo.
“Mas você não entende, Frida?” perguntou, irritado, quando se esconderam no quarto para discutir o assunto.
Frida não queria aumentar o problema. Acendeu um cigarro e atirou-lhe a verdade na cara como um pastelão:
“Quem não está entendendo é você. Deixe ele ir, vai ficar melhor comigo ausente da vida dele. Já fiz mais do que ele esperava.”
Diego compreendeu de repente tudo que acontecera debaixo do seu nariz.

Assim viveu essa grande biscate: revolucionária, viva, impetuosa e cheia de mistérios. Segundo narra o livro, Frida conversou com a sua madrinha morte e previu a morte de Trostsky, pediu clemência e tentou um novo pacto. No entanto, nunca soube se obteve da madrinha apenas mais alguns meses de vida para o revolucionário ou se nunca foi ouvida.

Ah …siiiim….eu fiquei falando da biscatagem de Frida com Trostsky e quase esqueci de passar a receita que ela fazia para o comunista. Ok, vamos lá…

Antes de postar, fiz a receita para ter certeza que funcionava mesmo. Aqui em casa todo mundo comeu. Não sobrou nada. Sucesso total 😉

A REFEIÇÃO DE TROTSKY E BRETON (Huachinango com coentro)

– 1 huachinango de mais de 2kg limpo e sem escamas (esse é o nome do peixe no México. É um tipo de peixe vermelho. Use um similar. Comprei 2,5kg lá no mercado de peixes do Mucuripe, em Fortaleza. Procure na sua cidade um lugar que venda peixe fresco e compre algum peixe vermelho, pode ser pargo, ariacó, cioba, etc.);
– 8 xícaras de coentro bem picado;
– 5 pimentas ao escabeche em fatias grossas (existe essa parada pronta nos supermercados, mas outro dia posso passar a receita caseira);
– 2 cebolas grandes em rodelas;
– 4 xícaras de azeite de oliva;
– sal e pimenta.

MODO DE FAZER:

Faça 3 cortes no lombo do peixe para que o tempero penetre bem. Forre uma panela grande com metade do coentro picado, metade das pimentas e metade da cebola, cubra com metade do azeite e tempere com sal e pimenta. Sobre essa cama, coloque o peixe inteiro, cubra com uma camada igual à primeira, decorando com as pimentas, o coentro e a cebola, e despeje o resto do azeite. Leve ao forno preaquecido a 200º C por 40 minutos, banhando-o com o molho de vez em quando para que não resseque. Sirva na própria panela.

Adaptação: Essa é a receita descrita no livro. Fiz pequenas modificações. Passei um pouco de limão no peixe antes de colocar os temperos e cobri com papel alumínio nos primeiros 30 minutos e deixei no forno por mais de 1h. Não sei que forno Frida usava que só demorou 40 minutos…rs. Minha indicação é que, nos nossos humildes fornos convencionais, é melhor deixar por 1:30h, os primeiros 30m deixa com o papel alumínio e depois retira para dar aquela dourada. É uma receita simples e prática. Ah, no tempo que fica lá no forno…rs…dá pra biscatear muuuuuuuuuuuuito 😉 hahahaha!!!!

Escolha um bom peixe vermelho: cioba, pargo, ariacó, etc.

Corte todos os temperos e faça três lascar no lombo do peixe.

Regue com bastante azeite, após jogar todos os ingredientes. Pode deixar no forno por pelo menos 1h30 e vá biscatear ;)

* A história desse livrinho é interessante, pois Frida começou a escrevê-lo ainda cedo, após o terrível acidente de bonde que sofreu. A madrinha de Frida era a morte e elas fizeram um pacto após o acidente. Todos os anos, Frida prepararia uma oferenda para relembrar o pacto que fizera com sua madrinha que lhe permitiu continuar a viver. Todo dia 2 de novembro, dia dos mortos no México, Frida preparava um grande banquete para a madrinha e fazia anotações num pequeno livro preto ao qual chamava de “livro da erva santa”. A receita descrita no post de hoje foi retirada desse valioso livro que desapareceu logo após a abertura de uma exposição em homenagem a Frida no Palácio de Belas Artes.

**Piochitas, diminutivo de piochas, plaquinhas. Possível alusão aos óculos pequenos usado por Trotsky.

Haghenbeck, Francisco Gerardo — O segredo de Frida Kahlo / tradução Luis Reyes Gil. — São Paulo: Editora Planeta Brasil, 2011 — Título original: Hierba Santa

PS: Na edição do livro o nome de Trotsky está grafado como “Trotski”.

.

* Mayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol. Publicitária, feminista, de esquerda, trabalha junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas e mestranda no Programa de Meio Ambiente na UFC. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

25 ideias sobre “E a biscate mexicana enfeitiçou Trotsky…

  1. Frida Kahlo é minha referência de biscate. Pense numa biscate arretada!? Peguei esse livro da May emprestado pra testar as receitas com as outras zamigas biscates, Natália do Amaral e Monica Bonadimam, foi uma experiência fascinante. Vale a pena! Lindo texto, May, vou testar essa daí também! =)

  2. May,
    Que ótima iniciativa a sua: de fazer a receita e de escrever o a artigo, compartilhando trechos do livros e analisando os fatos. Quando peguei na prateleira O Segredo de Frida Kahlo para lhe presentear, nem passou pela minha cabeça que vivenciaria isso. O Artigo ficou ótimo!
    Só lamento nã o ter experimentado a receita.
    Beijo

    • Sena, que feliz que gostou do texto. Só não te dediquei o texto pq achei muita falta de absolutamente dedicar sem você ter provado o resultado…rs. Mas não se preocupe não que receita boa não falta nesse livrinho mágico que você me deu. Beijão!!!

  3. Uma bela história narrada por minha amiga May.
    Menina você é demais, sempre nos surprende com uma novidade. Adoro esse seu jeito, de fazer o que dá na telha sem se preocupar com o que os outros vão pensar de você. Mulher de muita personalidade, ativista das causas sociais, linda e sedutora. (acho que tudo isso é ser biscate né?) Flor parabéns, surpreendente seu texto.

  4. Pingback: Pudim Gelado |

  5. Mayara, amei este post!!! Não sou nada trotskista, mas o romance desses dois me faz reconsiderar rsrs
    Também sou cearense de Fortaleza, apareça por aqui qualquer dia! Aqui o marxismo cultural reinaa! rsrs
    Abraços!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *