Estupro não é sexo

Infelizmente ser biscate não é só assumir o controle dos seus desejos e corpo, porque o mundo, machista como é, insiste em não apenas ignorar nossa atitude como insiste também em tentar controlar nossos corpos, desejo e prazer. E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência. E como o assunto do momento é o estupro de uma “biscate”, é sobre isso que precisamos falar.

Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Precisa de exemplo? Apontar a arma pra uma pessoa na rua a deixa vulnerável. Bater numa pessoa a deixa vulnerável. Ameaçar o emprego, a família, os amigos a deixa vulnerável. Estar bêbada, dormindo, drogada, é estar vulnerável. Aproveitar-se de relações de trabalho ou familiares pra forçar sexo é aproveitar-se de vulnerabilidade. Não importa se é um marido, namorado, colega, amigo, vizinho, desconhecido, não importa o grau de intimidade e confiança… Tocar, se esfregar, penetrar, inserir objetos no corpo da outra pessoa sem que ela deseje isso e consinta explicitamente sem coação de nenhuma ordem, É VIOLÊNCIA.

Entenda: estupro não tem atenuante. Mulher pode gostar de sexo, de beber, usar roupas provocantes e se divertir e isso não dá a ninguém o direito de estuprá-la. Vamos desenhar, atenção: Não é porque ela estava bêbada que pode estuprar. Não é porque ela estava na rua sozinha depois das 22hs que pode estuprar. Não é porque ela estava com um grande decote, saia curta ou maquiada que pode estuprar. Não é porque ela é prostituta que pode estuprar. Não é porque ela dá pra todo mundo que tem que dar prá você também. Não é porque ela é gostosa que pode estuprar. Não é porque ela dança de forma provocante que pode estuprar. Não é porque ela é “feia” e nunca ia arrumar namorado que pode estuprar. Não é porque ela concordou em conhecer sua coleção de figurinhas de jogadores das seleções asiáticas de futebol que pode estuprar. Não é porque ela se deitou com você e ficou trocando carícias embaixo do edredom que pode estuprar. Não pode usar força, não pode insistir com ameaças, não pode se aproveitar que a pessoa dormiu, não pode chantagear. NÃO PODE ESTUPRAR!

Quando alguém diz não, significa exatamente isso: NÃO. Não importa o que ela “quer dizer”, importa o que ela efetivamente disse. E se a pessoa está desacordada, bêbada, drogada ou sonolenta e não tem condições de dizer sim ou não, saiba: é sempre não. Se a pessoa não pode decidir, guarde a viola no saco (guarde o pinto dentro da cueca) e espere outro momento.

Para os que se perguntam se a responsabilidade não é dos dois, um esclarecimento: a culpa de ser estuprada não é da vítima. Não, ela não provocou. Ela tem o direito de vestir o que quiser, de beber o quanto quiser, de dançar, sorrir, beijar e decidir não fazer sexo. O corpo dela não é brinquedo. Ela é uma pessoa, com liberdade e direitos. Essa é a parte que o moralismo parece esquecer. As mulheres são sujeitos e têm direitos. As mulheres não estão no mundo para provocar ou satisfazer os homens. Estão por aqui pra ser felizes, tal como eles. Antes de apontar o dedo e afirmar que ela mereceu a violência sofrida, é bom pensar que os agressores não são previsíveis. Estupra-se criança, idosas, estupra-se mulheres cobertas da cabeça aos pés, estupra-se homens, meninos, estupra-se freiras e prostitutas. Estupra-se mulheres que bebem e estupra-se as abstêmias. Porque sempre a culpa é da mulher? Porque é tão mais fácil dizer que ela deu sopa, que “pediu por isso”, que “fez por onde”? Não é o “dar sopa”, ser biscate, estar bêbada ou “a mão” que a torna alvo do estupro. Homens estupram porque acham que podem, que têm esse direito, que o mundo lhes serve. É relação de poder, pura e simples.

Então, você mulher “direita” que está aí se dando o direito de julgar e apontar o dedo para a “biscate” e dizer que “ela pediu”, “mereceu” ou no mínimo que “aguente as consequências dos SEUS atos” (como se ela tivesse escolhido ser estuprada), saiba que você não está a salvo de um estupro e toda a sua “direitice” e moralismo não irão te salvar na hora em que algum homem te olhar e achar que pode se satisfazer no teu corpo mesmo contra a tua vontade. Porque a violência contra a mulher é ampla e democrática, não julga comportamento, idade, cor, profissão, classe social, origem.

Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.

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78 ideias sobre “Estupro não é sexo

  1. Ótimo texto para um assunto que poderia nem existir. Mas é assim… Nós temos que encarar de frente os problemas, só assim as coisas mudam! Estou cansada de compartilhar textos no facebook e ouvir que eu sou “revoltada”. Mas enquanto eu estiver indignada com essas coisas, vou continuar a ser uma biscate revoltada, com muito orgulho. Por que eu sei que alguém vai ler e se identificar. Pode ser que não hoje. Mas um dia, alguém vai se identificar com aquilo. Vai se descobrir uma biscate revoltada também. E vai ver que ela não está sozinha. Assim como eu ao ler o Escreva Lola Escreva, O Biscate Social Club ou o Cem Homens, entre outro.

    E tudo isso que eu li foi um empurrão que me fez escrever um post que estava entalado, querendo sair. Agora eu consegui escrever. Ficarei lisonjeada se vocês lerem: http://mandaamerda.blogspot.com/2012/01/de-quem-e-culpa.html

    E continuemos assim. Sem vergonha (ui) de sermos revoltadas, biscates, livres ou seja lá o que quisermos ser!

  2. Descarado e imundo é a manifestação de moralismo e preconceito de gênero quando ocorre um caso como esses. Parece que o fato de ser mulher por si só já é um pecado e que nós temos sempre que temer, nos resguardar e nos comportarmos adequadamente para que um homem não nos violente. É indignante perceber, que para o mundo machista, a mulher não merece respeito, ela tem que se dar o respeito e fazer por merecer!

    • O que revolta mesmo é tentarem nos fazer acreditar que se não usássemos tal saia ou decote, ou não bebêssemos, ou não saíssemos tarde na rua e não beijássemos, etc e etc, isso evitaria de sermos estupradas. Mentira. O problema não está em nós, mas nos homens que ainda não aprenderam que não podem estuprar. Difícil, viu? Mas vamos desenhando e esperando que aprendam.

  3. Pingback: Violência sexual no BBB e muito machismo fora deleBlogueiras Feministas | Blogueiras Feministas

  4. Um dos melhores textos sobre o assunto que eu já li; nem eu conseguiria expressar minhas próprias convicções de forma tão clara, parabéns!
    O maior problema nisso tudo é que justamente essas ‘mulheres tão direitas e puritanas’ é que criam os monstruos que praticam esses abusos; se um garoto vê a própria mãe culpar as mulheres pela violência sofrida porque ‘provocou’ é isso que ele aprende e leva pra idade adulta. Fico enojada com certos comentários que vi esses dias sobre esse assunto. Odeio BBB e é notório que as mulheres que participam do programa não são santas, mas fiquei indignada com o ocorrido e com a reação de algumas pessas que chegam ao cúmulo de fazer piadas e rir do assunto.

      • #Sobre ser homem, impulsos e estupro

        Por favor, deixem-me bater na mesma tecla. Estou bem puto com essa história de estupro no BBB. Não, minto! Estou mais puto com as merdas sendo ditas por aí.

        Essa birosca levantou uma nuvem de comentários como “uma mulher só é vítima se agir como uma”, “ela deu brecha”, ” se ela não sabe o que aconteceu é porque não aconteceu” e, um tão nojento e tão burro que se desmancha por si só, “quem deixa o carro aberto com a chave dentro quer ser roubado”. Ô, doente, quem rouba um carro aberto com a chave dentro é menos ladrão? Você pediria uma carona para o ladrão se fosse o seu carro? Por que então o uso do corpo de alguém sem permissão tem atenuantes? “Ah, mas ninguém viu se foi estupro mesmo. O cara só curtiu um pouco!” Estampe você um camiseta com “comigo dormindo, só não vale meter” e deite-se na entrada do dark room de alguma balada.

        Meus pais não me criaram dizendo que as mulheres existem para satisfazer os homens, mas eu pensava assim e nem sabia. No final do primeiro filme da Chloe Sevigny, KIDS, sua personagem, portadora do HIV, caindo pelas tabelas de chapada, era objeto de satisfação de um outro personagem, cujo nome era Casper ou algo do tipo. Vi o filme na casa de um amigo e fiquei puto: o otário tinha pego AIDS por ser burro. Um tempo depois, ouvi um amigo comentar que uma gostosa como que passava na rua não podia sair com uma saia tão curta e não querer ser estuprada. Fiquei pasmo e pensativo. Lembrei-me imediatamente da minha reação ao final do filme. Notei o quão condicionados éramos todos a considerar, mesmo sem necessariamente termos sido ensinados, com direitos sobre o corpo de outro ser humano. Pensei ser coisa apenas de homens até começar a ouvir coisas como “Meu marido disse que ele nem precisou insistir, que ela foi se oferecendo para ele”.

        É estamos todos bem condicionados. Meus pais podem não ter me ensinado isso, mas a sociedade, sim. Então vamos acabar com a palhaçada.

        Posso contar um segredo para vocês, mulheres? Mentiram! Essa história de que homem pensa com a cabeça de baixo é uma piada, apenas. Nosso pênis não toma nosso controle e nos obriga a dormir com a sua amiga “oferecida” ou a te agarrar caída bêbada no sofá com a blusa desabotoada. Se um homem te traiu, é porque ele quis! Se um homem se aproveitou de você é porque ele não se importa contigo! Roupas curtas, bebedeiras ou flertes não ligam um modo automático e irrefreável de necessidade sexual. Não há como uma vítima sequer ter sombra de culpa num abuso, porque ele não teria acontecido se o perpetrador não quisesse.

        E se você é homem e ainda discorda de mim, apelo ao seu machismo. É inocente o cara que mete a mão no sutiã da sua filha ou irmã desacordada e se esfrega até gozar?

        Leiam esse testemunho no site da Cem homens em um ano: http://cemhomens.com/2012/01/2056/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=2056 . Há outros por lá.

        Continuam discordando? Vão para o inferno!

        • Robson, texto exemplar! Minha revolta é tanta que não consigo falar, queria gritar de ódio!!!! Ódio, literalmente ódio. Gostaria de saber se posso reproduzir um trecho do seu texto em meu face, claro, citando as fontes? UM abraço.

          • Eu escrevi isso originalmente no facebook. O link está lá em cima. Pode compartilhar com sua lista de amigos, acho que tem um botão para isso; pode citar, se quiser; tanto faz, para mim. Foi um desabafo emputecido. Comi até algumas palavras.

  5. Realmente o texto é excelente!! É pra calar a boca de qualquer machista. l!! Opa por que não levar esse texto para as aulas de educação sexual hein? Como estudante tenho notado que nas aulas de educação sexual, este assunto é sempre deixado de lado, talvez por ser muito polemico e o educador pouco experiente para debater tal tema. Na verdade em toda a minha vida academica não me recordo de ter assistido uma aula educação sexual que que tenha abordado este tema de modo abrangente.
    A frase “…são os homens que devem aprender que não podem estupra” é perfeita. E como conseguiremos atingir esse objetivo? Com educação, que deve começar em casa e ser reforçada na escola. Os homens são machistas porque foram educados por machistas. Cabe a nos mulheres, responsáveis pela educação de nossos filhos virar esse jogo.

    • Estás certa. É com educação antimachista que reverteremos esse jogo, Marina. Mas essa responsabilidade não é só das mulheres, é de todos que desejam um mundo sem violência. Obrigada pela visita e comentário. Volte sempre! 🙂

      • Acredito que a responsabilidade é mais dos homens em baladas, rodas de amigos, no trabalho e em casa. A mudança das mulheres na criação de seus filhos dará resultado em vinte anos. Os homens tem que começar a mudar isso já! Sabe aquela delicadeza masculina? “Ô, cuzão! Se não consegue que uma mulher te queira, pague uma que aceite.” Temos que falar coisas assim para nossos amigos. E ainda defender as “biscates” para as amigas.

        Combater o preconceito, porque isso também é uma forma dele, é mais uma responsabilidade branca, masculina e heterossexual do que outra coisa.

  6. Tava aqui pensando em fazer um post sobre o assunto, mas a biscatági foi mais rápida que eu! E ficou muito melhor do que o que eu tava pensando em escrever.
    Acho que agora é só a gente usar de ironia e de escárnio com os machinhos. Instituir um troféu “que deselegância” cada vez que um idiota disser que “se tava vestida dessa forma tava pedindo pra ser estuprada” ou coisa do tipo. E avisar que homem que se preza sabe, sim, controlar e segurar os instintos. Quem não sabe segurar instinto é animal irracional – por isso que os animais são enjaulados, quando não são também castrados. é só perguntar a um veterinário.
    É isso. ao invés do discurso panfletário, usemos do escárnio e da ridizularização… isso é mais eficiente que desenhar! 😀

    • Existem as duas situações, Christine. Mas como ainda não tínhamos escrito sobre estupro e a situação que desencadeou todo essa muvuca foi um estupro ou abuso sexual com uma “biscate”, fomos forçadas a falar sério e a desenhar. Talvez daqui para frente sigamos o teu conselho. 😉

  7. é evidente em que um mundo machista que prega o poder ao macho, tais sinais de incoerência se tornem tão claros, como essa acusação da mulher/vítima ser a responsável pela sua própria agressão. é triste presenciarmos tais argumentos das próprias mulheres que não se abalam com o pesar de suas iguais.mas isso vem ao fato da cultura macho predominante na esfera social, é necessário, como sabemos, uma educação “antimachista” como já foi citado a cima! ótimo texto, eu como Homem, me envergonho de ter que compartilhar o mesmo sexo com tantos Rafinha’s, Daniei’s e Maluf’s por aí, fora os sem nomes que estupram, batem e matam. ESTAMOS NA LUTA JUNTOS!

  8. Pingback: Bule Voador » Violência sexual no BBB e muito machismo fora dele

  9. Eu fico indignada com mulheres apontando dedo pra biscate que foi estuprada. Certamente, nunca se viu numa situação dessa. Não parou pra pensar que ela pode ser a próxima.

    Estupro, a meu ver, vai muito além do ato físico. Dói na alma. Da menina bolinada pelos primos. Da criança violada nas esquinas da vida, como uma menina de 3 anos, cuja urina estava repleta de espermatozóides (tive um acesso de enjôo, de nojo, de ódio, de tudo junto, quando vi aquilo no microscópio).

    A sociedade determina, desde sempre, quando você deve perder a virgindade, quanto de silicone você tem que colocar pra ficar atraente, que você tem que ser magra, que você tem que ser linda, que você tem. Você deve. Você precisa.

    Daí que você vira um mero depósito de porra, uma coisa abjeta, que finge orgasmo pra satisfazer o marido, que finge dor de cabeça pra não ter que trepar. Isso é uma violência também, só que velada. Pior: não se dá conta. Porque acha que é obrigação. E NÃO É!

    Não somos obrigadas a nada. Não somos objeto, somos sujeito. E enquanto as mulheres não se perceberem sujeito – que não tem que ficar linda pra homem, que não tem que fazer nada pra agradar o outro – os homens continuarão achando que detém um poder que não existe.

    • Esse poder existe, sim, Luciana. E é o mais difícil de combater. A prova está no quanto o machismo é arraigado na nossa cultura, mentes e corações. Como é difícil se libertar dos preconceitos e lugares prestabelecidos e do auto poder que nos damos de julgar e condenar o outro… Longo caminho a percorrer, mas chegaremos lá.

  10. Em primeiro lugar não conhecia as biscates, adorei o site! Em segundo lugar e me dá palpitações, só de comentar, é esse absurdo de aprovação a essa #$%@ de estupro. Me entristece sobremaneira que ainda sejamos vistas como seres coisificados. Não nos colocam no lugar de sujeitos da própria vida e concomitante do corpo. Eu posso andar nua, isso não quer dizer que estou com vontade de dar. Minha vontade de dar se manifesta em minhas atitudes de aprovação ou desaprovação ao toque do outro. Sou eu quem decido para quem, onde e como! Nenhuma outra pessoa além de mim conhece minhas vontades, meus anseios, meus desejos. Façam o favor de parar de falar besteira. A menina do Big Brother podia estar tresloucada mas quando disse não, foi não. Ela usa saia curta, problema dela, bebe pra caramba, problema dela. O Corpo é dela e só ela, mais ninguém pode dizer o que é certo com o que ela faz com o corpo. A atitude abusiva do canalha, sim, porque o cara foi canalha, não tem nada ver com ela, tem a ver com ele. Um nojento, machista e cretino que não sabe ouvir um não de uma mulher e que não sabe utilizar as armas de sedução que deveria ter. Enfim, fico tão revoltada que nem sei direito o que escrever, só sei que estou enojada com o comportamento do dito cujo e mais ainda com as pessoas que aprovam. Em que mundo estamos!!!!

    • O que mais preocupa nesse caso, Viviane, é justamente os julgamentos e condenação da vítima. É um segundo estupro, abuso, violência para a vítima e ao mesmo tempo todas nós somos julgadas e violentadas junto. É contra isso que lutamos, embora passemos boa parte do tempo no “boteco” por aqui. Bem-vinda e volte sempre. 🙂

  11. Me preocupa gente ainda achando que um homem esperar por aprovação da mulher é um gesto de cavalheirismo, ao invés da mais pura obrigação.

  12. A violência sexual, física e moral que se abate sobre as mulheres tem a mesma origem que a violência sexual, física e moral que se abate sobre crianças e homossexuais: aquela do macho heterossexual adulto que, julgando-se superior justamente por ser mais forte ou mais correto (segundo as leis de Deus ou algo que o valha), sente-se no direito de usar o corpo alheio para satisfazer-se ou para educar a vítima (como ocorre com o estupro de lésbicas, de crianças “rebeldes”, dos gays “afeminados”, de biscates…). Essas agressões atropelam qualquer juízo de vontade ou discernimento da vítima, porque ela aí é relegada a sub-humano, pessoa com menos arbítrio, menos direitos. De sujeito, passa a objeto.

    As lutas contra o machismo, a homofobia e a pedofilia são específicas, mas complementares. Estamos todos contra uma sociedade heteronormativa e machocêntrica que dilacera as diferenças em favor de um suposto ideal moral/religioso que não faz nem nunca fez sentido.

    Beeshas e biscates, juntos na luta!

  13. Muito bom o texto. Recebi há pouco de uma amiga e repassarei, certamente. Estou morando fora e nem estou sabendo do ocorrido, mas acho que entendi o necessário. É impressionante, sim, que hoje em dia ainda haja machismo tão desmedido tanto no momento do crime quanto na forma de vê-lo e analisá-lo. Concordo que não há atenuantes, que o crime é gravíssimo e deveria ser tratado como tal.
    Belo blog, por sinal.

  14. Concordo com o texto, obviamente, mas acho pra começo de conversa, não se deve rotular uma mulher que preza por sua liberdade de ir e vir, de transar ou não, etc etc com a palavra “biscate”. Esse termo já remete a algo negativo, e isso é difícil de mudar. Se é o propósito mudar a cabeça de uma sociedade machista acho que é fundamental mostrar que se uma mulher opta por ser livre, ela não é biscate, ela é somente…livre! Outra coisa, no começo do texto vcs falam “E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência”. Biscates não podem ser incríveis??

    E por fim, vocês apontam apenas as mulheres “direitas” como aquelas que recriminam as “biscates”. Acho que o recado final vai para todos que fazem esse julgamento do “ela mereceu”, não?

    • Para falar apenas do nome, me parece que a escolha da palavra “biscate” visa justamente questionar o juízo de valor nela implícito. E nem é um artifício novo. “Sou puta, sim, mas pago as minhas contas e mereço respeito” não é uma frase de todo incomum. A Marcha das vadias é o melhor exemplo. Numa faculdade no Canadá, um policial diz que as meninas podem evitar estupro se não se vestirem como vadias. Irritadas por serem taxadas de culpadas pelo crime dos outros, pintaram cartazes com coisas do tipo “se sou vadia a decisão é minha / se fui estuprada a culpa é sua” e marcharam até a delegacia. E a idéia tomou o mundo em meses.

      Para mim, subverter o uso das palavras é um boa maneira de gerar discussão e mudar pensamentos. É esse o objetivo, não? Mudar pensamentos?

      Nem todos podem gostar da artifício, mas funciona. Estamos aqui falando dele.

    • Leia nosso texto de hoje, Maria Paula. Explicamos tim-tim por tim-tim o que é ser biscate e o nosso entendimento da questão. Assumimos um termo pejorativo com orgulho e estamos gerando o debate. Não é válido?
      Não falamos apenas para as mulheres “direitas”, a citamos no final porque a nós incomoda muito ver esse discurso de culpabilização da vítima na boca de outras mulheres. Se leres o texto direitinho vais ver que falamos com todo mundo, e principalmente com os homens, tentando desenhar (se ainda não sabem) que eles não podem estuprar.
      Não quer se assumir biscate? És livre para isso e seja sempre bem-vinda. 🙂

  15. Alguem consegue provar que a mulher estava inconsciente e que ele realmente penetrou ela? As pessoas estão supondo coisas. Não nos esqueçamos das falsas acusações que sofreram donos de escola em São Paulo, em ter abusado de crianças.

  16. Acha que pode ter sido encenado, como alguns disseram? Se foi ou não, não importa. O conceito de se ter o corpo de alguém a disposição sem consentimento explícito é o verdadeiro problema.

    Ah, e se não foi encenado nem consentido e a equipe assistiu sem fazer nada, é ainda mais criminoso.

  17. O mais “engraçado” sobre essa discussão que o BBB incitou foram as opiniões internet afora de algumas pessoas tidas como “progressistas”, aquelas que supostamente são mais instruídas, caindo na ladainha clichê moralista de culpabilização da vítima de abuso sexual. Nessas horas que sinto falta de um sal de frutas, pois o quê eu li por aí sobre o assunto foi de embrulhar o meu pobre estômago.
    Para mim, isso só demonstra que o machismo/misoginia está tão entrenhado em nossa socidade, que muitos acabam nem percebendo que estão colaborando e fortalecendo o preconceito contra mulheres.
    Temos ainda um longo caminho a trilhar para desmistificar tanta ignorância e conformismo, mas dessa caminhada não podemos desistir nunca, seja no mundo real quanto no virtual. Então keep walking, galera!
    Parabéns pelo blog! Estou o acompanhando direto.
    Saudações da biscate wannabe que vos fala.
    🙂

  18. Pingback: Violência sexual no BBB e muito machismo fora dele | Ofensiva contra o machismo

  19. Só pra complementar.. uma mulher pode estar nua, na sua cama.. pronta pra farra,,, se ela disser não…. e o homem não entender… também é estupro! Nada justifica.. mas vivemos numa sociedade que sempre haverá uma desculpa para o abuso e humilhação de centenas de mulheres diariamente.

  20. Ouvi mulher reaça falando que se fosse assim o príncipe encantado deveria ter sido preso também ao beijar Branca de Neve. É daí pra pior a argumentação do não-estupro. Uma lástima o ocorrido.

    Pior mesmo é alguns não perceberem o quanto isso prova que estamos mal de comunicação e a Rede Globo deveria perder seus direitos de manter-se no ar. Mas aí é muita pauta pra pouca gente interessada. Melhor ver a TV ou tentar esquecer que o machismo ataca todo dia.

    • O problema, como bem disse a Marília Moscou, não está no programa em si e nem na Globo — a postura da emissora foi deplorável, conivente com o crime e merece punição — mas na sociedade, no Brasil e no mundo. E isso ficou evidenciado nos comentários machistas e nas reações. Felizmente temos as redes sociais onde podemos nos manifestar e conseguimos pautar a discussão. Tomara que a Globo seja punida. É ver para crer. No caso dos estupros ainda temos muito chão para percorrer na reeducação de homens e mulheres e sociedade.
      Beijo, querido Dandi. Obrigada pela visitinha e comentário. 🙂

  21. meu… que alivio… fiquei pasma com a reação de muitas mulherzinhas dizendo que a tal “biscate” provocou e tinha sua parcela de culpa….
    mas enfim… parabéns pelo blog, to seguindo now!! Biscate e com orgulho! rsrs
    Depois de ler esse texto, posso dizer que respiro mais aliviada e quem sabe, até mais esperançosa… thank’s!!! =)

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  28. Oi!
    Seu blog, junto com outras manifestações excelentes nas redes sociais, fez-me ser uma ex-machista e assim, menos preconceituosa.
    Obrigada, mesmo e de verdade.

    Larissa

  29. Desculpa, mas isso aqui é um absurdo. Você, autora, esta dizendo que todos os homens sao estupradores. Pois bem, eu sou homem e jamais cometi esse crime. Acho um absurdo e, por mim, estupradores deveriam ser castrados. Mas, ao dizer que a mulher deve usar roupas mais curtas para evitar ser estuprada, a policia não esta colocando a culpa do estupro nela mais do que esta colocando a culpa do assalto na vitima ao dizer que, para evitar ser assaltado o melhor e não andar ostentando objetos caros. É uma simples questão de lógica: como você mesmo disse, o estuprador não escolhe só as “biscates”. Qualquer mulher esta sujeita ao risco, assim como qualquer pessoa. Da mesma forma, todos estamos sujeitos à morrermos atropelados, atingido por balas perdidas ou sermos assaltados. São os riscos comuns do cotidiano em se viver em uma sociedade onde algumas pessoas não tem as mesmas noções de certo e errado.
    Mas, ao escolher usar uma calça jeans no lugar de uma minissaia, a mulher esta escolhendo dificultar uma possível violência. Do mesmo modo que um assaltante prefere mulheres sozinhas do que em grupo, um estuprador vai preferir uma mulher usando roupas mais fáceis de tirar rápido. E saiais nem mesmo precisam ser retiradas,
    Não é colocar a culpa do estupro na mulher. Ninguém ta dizendo que ela pediu pra ser estuprada ao usar roupas curtas e isso não é, de forma alguma, atenuante legal pra diminuição da pena, no caso do desgraçado ser pego e preso. Só que pra tirar uma calça jeans a força é muito mais complicado, e com certeza leva muito mais tempo, do que se enfiar por baixo da saia e puxar a calcinha pro lado e vai, possivelmente, desestimular uma tentativa de estupro.

    • 1. Nós não estamos dizendo que todos os homens são estupradores. Sequer estamos dizendo que só quem estupra é homem. Releia o texto, sério.

      2. Os estupradores não estupram porque é mais fácil levantar a saia do que tirar a calça. Seu comentário ou é uma piada infeliz ou reflete sua completa incompreensão das relações de poder e ódio presentes em um estupro. Estupro não é sexo, é violência e humilhação e não é culpa da vítima. É responsabilidade do estuprador e de uma sociedade como a nossa que valida raciocínios preconceituosos e tortuosos que querem atenuar a violência.

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