Mocinha de Valor

Por Renata Corrêa*, nossa Biscate Convidada

Na mais tenra idade, a menina-pequenininha-de-perninha-grossa-vestidinho-curto-papai-não-gosta ouve a ladainha: moça de respeito se dá o valor. Repetida a cantilena em looping eterno, a perninha grossa cresce e aparece, a menina põe um peitinho e lá vem a tia Otília na maior das boa intenções falar pra sua mãe: vamos comprar um sutiãzinho? Moça de respeito se dá o valor.

Sufocando as pitombas no primeiro aperto elástico feminino percebemos o corpo se avolumar, o quadril de régua virar quadril de compasso e no compasso hormonal o poder sexual, feminino, inegável. Namoradinho, bitoca. Moça que se dá o valor deixa passar a mão? Sei não, melhor não arriscar – afinal respeito não se ganha no tête à tête, na malemolência, no estar bem dentro de si mesma. Respeito se ganha na guerra, na fortaleza, no não, já diria vovô – Moça que se dá o valor não deixa certas intimidades.

E assim o mundo gira. Com os outros nos atribuindo valores pelos tamanhos das nossas saias e amassos furtivos na saída do colégio. E assim infinitamente, a lua sobe, o sol desce, e a cada noite uma garota põe a cabeça no travesseiro pensando o que foi que ela pode ter feito de errado para alguém lhe roubar a etiqueta que lhe atribuía esse valor. Afinal, qualquer passo em falso pode fazer uma mulher entrar em remarcação: de filé mignon na prateleira alta para acém moído da sopinha da caridade. Tlim Tlim, fez o caixa.

Moça que se valoriza não vai pra cama na primeira noite. Valoriza o passe, como diria um empresário futebolístico ao segurar um jovem talento num clube nacional. Qual seria a negociação mais vantajosa? Sexo no segundo encontro você ganha uns zeros a direita, no terceiro encontro um namorado. Um apito toca. Sexo no quarto encontro a voz do Silvio Santos desce dos céus em plena divindade: você acaba de ganhar de um milhão de reais em barras de ouro!

E a vida segue. A moça etiquetada que se dá o valor continua ganhando e perdendo pontos através do que os outros acham que ela deve ser, e do comportamento que deve adotar.

Por essa e por outras que para uma vida livre todas as mocinhas, garotas, meninas, mulheres, cidadãs do mundo não deveriam valer nada. Eu particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby.

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história.

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* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

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A segunda imagem é um desenho de Gustavo Ganso, inspirado no texto “Eu Etiqueta” de Carlos Drummond de Andrade.
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49 ideias sobre “Mocinha de Valor

  1. Pois se Renata estivesse à venda e eu tivesse dinheiro, eu compraria essa linda.

    E deixa eu sair logo desse antro, porque biscate eu não sou.

    (eu também não valho um centavo. acho ótimo.)

  2. Tenho 17 anos e me identifiquei muito com o texto! Vivo nesse dilema entre quanto eu valho e quanto vou valer se fizer determinadas coisas! Realmente se eu achasse que não valho nada ia ser muito mais eu, mais feliz! Com certeza vou levar esse texto lindo pra minha vida!

  3. Amei o texto, tocou profundamente o meu coraçãozinho que fica acordado de madrugada…
    Você não vale nada. E nada vale você. E é meio que por isso que vale a pena a gente parar pra conversar um pouco.

  4. Pingback: Ai, os joguinhos |

  5. Pingback: Quiz Biscate |

  6. Putz, que texto incrível! Eu não tinha lido (à época…)…. lindamente escrito, lindamente descrito. Amei, apesar de ter tido a sorte de ter uma mãe biscate toda vida, que usava mini-biquínis, jogava charme para quem bem lhe aprouvesse e nunca, nunca, nunca na vida me disse para eu me dar ao valor.
    A preocupação dela, suspeito, era que eu não pegasse ninguém…
    (mãe, pode ficar tranquila, viu?) 😉

  7. Ta certo que eu sou bem puritano nesse sentido, e obviamente vou tender a discordar. Mas se a questão fosse apenas “valor e pontos” era simples. Infelizmente, nada é tão simples. Não é questão de etiquetar … Vou fazer uma analogia a astronomia, atividade que eu adoro. Garanto que se eu apenas achar no ceu, um planeta normal, listado e que qualquer um acha, isso não vai me levar a um estado de espirito nenhum. Mas eu te garanto, nada iria se comparar ao sentimento que eu iria sentir, a lembrança e a responsabilidade de se descobrir um planeta completamente novo, depois de subir com o telescopio em algum pico a 3000m de altura com alguma dificuldade. Não destrua o valor da palavra “valor”. Não é monetario, nem sempre.
    Essa é a minha opinião, não faço a imposição dela. Quando encontro uma garota que tem o tipo de pensamento que tenho, acho otimo. Quando não encontro, não me imponho. As pessoas são diferentes e ponto.

    • O lance, Rodrigo, é que nessa sua operação de descoberta, o planeta não tem vida, né? É você, a sua sensação, o seu entusiasmo, a dificuldade que você superou…O que o texto aponta é que o “valor” que é dado a uma mulher (à mocinha em questão) não se refere a nada mais que a atividade sexual que a mulher (não) exerce, ao prazer que ela (não) desfruta e à liberdade com o próprio corpo que ela (não) deve ter. Nós, aqui, optamos por não ter valor, já que isso equivale a não ser livre pra viver o que quisermos, se quisermos, né?

      • tsc. Isso me lembrou “Somos quase livres, e isso é pior que a prisão.” Voce superestimou a analogia, mas entendo o ponto. Como disse, existem pessoas e pessoas. Arte e arte. Existem os autores que divulgam e vendem sua arte ( livros ) para todos, e gostam disso, e os que preferem que sua arte seja exclusiva. Como existem as pessoas que compram a arte mais na moda, e os que preferem as mais raras. Sim, tudo analogia é amórfico. Mas pedir pra entender o comportamento difuso e complexo da individualidade já é demais pra qualquer um. Serio, não sou “quadrado”, simplesmente sou assim, essa é a minha natureza. Não julgo mesmo, so coloquei minha opinião. Ja li artigos cientificos apontam : a verdade é que somos politeistas. Mas esse não sou eu, nem de um par de amigos. Viva a diferença, e viva a evolução 😉

        • Recentemente, no programa do indefectível Pedro Bial, a Raínha dos Baixinhos (kkkkkkk) e visívelmente infeliz, declarou que se não fosse famosa, faria coisas bem diferentes do que faz. A saber: beijaria muito e iria dar muito…….

        • Aprecio o desejo de liberdade citado nesse texto pela Renata, realmente conheço pessoas assim, que se preocupam com essas ‘taxações’. Se me enquadrasse nessa situação acho que teria optado por viver tudo aquilo que eu quisesse, pois não me incomodo com a opinião dos outros. Mas o caso é que não me enquadro. Não sinto essa necessidade de viver tal “liberdade” porque simplesmente não é de minha natureza. Não gosto, não curto. Se hoje os dilemas são a respeito de “transar ou não no primeiro encontra me deixa mais ‘barata’ aos olhos dos outros” imagine o dilema de quem é virgem, são ETs? É assim que eu me sinto as vezes. E realmente entendo o que o Rodrigo está falando, porque eu estou no grupo dos monogâmicos e dos que não tem a natureza de toda essa ‘liberdade’ porque simplesmente eu sou assim, é minha natureza.

          • Anne, uma das coisas mais legais que a Psicologia ajuda a gente compreender é que não tem isso de “minha natureza” essencial e pura. Nós somos nossas relações e aprendizados, conscientes e inconscientes. Então, antes de dizer que não pensa ou sente A ou B porque é da sua natureza é bom refletir como a gente se tornou quem é e qto machsimo há na história. A questão do texto não é individual, cada uma trepa, não trepa, quando, se e onde quiser, não somos fiscal da vida alheia. A questão é as pessas/sociedade acharem-se no direito de dar um “valor” a esses comportamentos. Bjs

          • Voce ja está se equivocando, psicologia não é uma ciencia precisa, nem de longe, talvez so apontam. Neurologia, evolução, sequenciamento de DNA é infinitamente mais precisa. Especies completamente novas surgiram de tempos de evolução, comportamentos diferentes, “a mando” irrefutavel do genoma. O tal comportamento mais seletivo e monogamo, pode ter sido selecionado em algumas populações humanas, no passar dos territorios dominados pelo homem. Não fosse esse comportamento uma vantagem, não existiria animais monogamos. E quanto a vantagem do comportamento sem “valor” para a reprodução, não preciso nem dizer ;). Não to dizendo que um é melhor que o outro, não to julgando, nem criticando, so digo que essa não é a realidade de todos, jogando por terra isso de não poder dizer “essa não é minha natureza”.

          • Rodrigo, se você acha, realmente, que precisão é um elemento importante pr discutir o comportamento de bilhões de pessoas diversas e que seus desejos e interesses são determinados pelo aeu DNA, boa sorte. Mas um tanto de cuidado e respeito antes de jogar por terra teoria e prática que tem contribuído para uma visão menos determinista e limitada sobre o ser humano.

            Mas(de novo!) a questão do texto não é essa, a questão não é se a pessoa deseja/escolhe trepar com uma, duas ou duzentos e cinco pessoas ao mesmo tempo ou ao longo da vida, mas que ela não deveria ter ou não valor, não deveria ser julgada por esse desejo/escolha.

          • Deixa eu ser um pouco menos educado, essa psicologia, que você citou não condiz com a evolução, que é um fato. Existe um “natureza” pessoal sim. Plasticidade neural tambem, a psicologia ja ouviu falar dessa tambem ? Quem está tentando determinar o comportamento de bilhões de pessoas não sou eu 😉 Eu reconheci a variedade, a nivel genetico, e cultural que a evolução gera. Não reconheço é essa psicologia determinista, que afirmou que a garota ali, não podia ter sua propria natureza.

          • Rodrigo, como a política editorial do blog ainda não está publicada, vou responder – pela última vez – seu comentário que não se relaciona de maneira alguma com o tema do post ( mais uma vez, que o comportamento sexual de uma mulher não deve ser critério de avaliação ou juízo de valor).

            O seu argumento biologizante está insinuando que um comportamento pode ser determinado. Eu estou apontamdo que a psicologia indica que mais de um fator está implicado na definição da subjetividade, incluindo vivências, constructos sociais, classe, determinações históricas, etc. A psicologia não diz que a “a garota ali” – como você desrespeitosamente tratou – não tem suas particularidades mas que o que ela está creditando a uma essência é mais complexo do que isso.

            Dito isso, se quiser comentar o tema do post, fique à vontade.

  8. ‎[SONETO DE TODAS AS PUTAS]

    Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
    Puta tem sido muita gente boa;
    Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
    Milhões de vezes putas têm reinado:

    Dido foi puta, e puta d’um soldado;
    Cleópatra por puta alcança a c’roa;
    Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
    O teu cono não passa por honrado:

    Essa da Rússia imperatriz famosa,
    Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
    Entre mil porras expirou vaidosa:

    Todas no mundo dão a sua greta:
    Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
    Que isso de virgo e honra é tudo peta.

    (Manuel Maria Barbosa du Bocage)

  9. Renata, com relação ao tema abordado no texto que seria de que “as pessoas/sociedade acharem-se no direito de dar um ‘valor'” a alguns comportamentos citados no teu texto respondi simplesmente que – “Se me enquadrasse nessa situação acho que teria optado por viver tudo aquilo que eu quisesse, pois não me incomodo com a opinião dos outros.”
    O fato é que não incorporo os ‘valores’ que as pessoas impõe. Estou de acordo que a gente só tem valor quando se permite, então ouso dizer que sou ‘sem valor’. Acho que há pessoas que gostam de ‘sair dando muito’ e outras que não se sentem realizadas fazendo isso, mesmo assim não ousaria achar que minha natureza é pura – estou longe disso. Mas não acredito que sou assim por de ter sido criada num estilo de vida ‘machista’ de hoje – até porque sempre tive a liberdade total de fazer o que quiser – e sim por entender que somos seres pensantes, capazes de decidir por qual caminho guiamos a nossa vida. Vai soar ridículo, mas me amo demais pra me privar das coisas por causa da desaprovação alheia.
    Bjo

    • Anne,

      se a questão fosse puramente individual, concordaria integralmente com você: a opinião do outro não importa. Acontece que é uma questão estrutural, existem juízes que atenuam a culpa dos estupradores se eles estuprarem uma prostituta, na lógica de que ela já faz muito sexo mesmo. E essa não é uma situação isolada, há vários exemplos que eu poderia dar de preconceito quanto a mulheres que vivem sua sexualidade. No mais, queria acrescentar que eu não disse que sua natureza era pura, mas que no seu discurso há uma ideia de natureza individual independente das contingências sociais. Ah, quanto à sua ideia de que vive uma liberdade total, eu sugiro ler com atenção o BlogueirasFeministas.com…

      Por fim, quem está dialogando aqui não é a Renata, este é um blog coletivo e a resposta em posts mais antigos geralmente é feita pel@s gerentes do perfil BiscateSC.

  10. Pingback: Culto do Slut-Shaming divino « Escritos Feministas

  11. Os papéis ainda continuam ai, as moças que tem que mostrar o seu valor, em Amsterdam em ruas apropriadas, elas mostram nas vitrines o seu valor, e os rapazes que precisam se posicionar na vida para terem cacife para bancar o valor, Eles andam nas ruas de Amesterdam para comprar moças de valor. Depois ninguém entende quando, enjoados, seja o produto ou o comprador, briga-se pela mais valia. O valor do azul e do roda ainda predominam.

  12. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

  13. Pingback: Case-se com ela. Oi? - Biscate Social ClubBiscate Social Club

  14. Ótimo texto, excelente ponto de vista -e vice-versa. -Mulher corasoja, essa Renata ao expor suas idéias de peito tão aberto – aberto, não – escancarado! Ternamente cínica. Eleva astrônomicamente (fazendo referência ao ilustríssimo crítico do post) o seu VALOR humano; quando grita pela vagina: -Tira essa porra de etiquetadora daqui -já tenho dona – e minha dona já tem conceitos. (e suas próprias sobretaxas de hormônios)
    -Como tô sem paciência pra babaquice velha (setembro de 2012) já vou logo observando: PENA, que tem sempre um IMBECIL que se esforça(se impondo, sim) pra ser mais bem compreendido doque aquilo que foi publicado e melhor explanado, nos dando um panorama libertador e genuinamente válido. -As pessoas deviam ter medo de serem idiótas ao invez do medo de se desiludirem, por descobrirem que não são os pioneiros à fincarem bandeiras na lua alheia -Faz nós românticos parecermos babacas -por completo. -Vá dar um pouco de cú -já dizia o terapeuta.
    -Parem de tratar as meninas como putas… As putas também são pessoas honradas, e não podem levar a culpa por tudo mais. [sarcasmo epfânico] Meninas, mulheres; pessoa livre.
    Um beijo carinhoso na Biscataiada toda. <3
    …só mais uma obs:
    Antigamente os homens levavam os meninos às biscates -quem diria, nos dias de hoje… Foi minha sobrinha quem me trouxe até as Biscates. -Se me perguntarem, direi com orgulho -São minhas primas! …irmãs e sobrinhas …são "minhas" mulheres 🙂

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