Poeminha Sem Regra

Presente de mesversário que recebemos do Fernando Amaral*

Dizem que não posso isso, não posso aquilo nem aquilo outro
Porque fica feio neste mundo de doutor uma mocinha ser assim
É que ser dona do rabo e do próprio nariz é coisa de quenga, de moça solta, de rua.
Dizem que tenho que cor de rosa, lacinho, sapatinho e revista de TV.
Porque neste mundão de deus é assim que funciona e que tenho que casar.
É que ser dona do próprio rabo e do nariz é desculpa de mal humorada ou mal comida.
Dizem que tenho que parir, ser companheira na alegria e na tristeza
Porque assim a família, a sociedade, a tradição, o bem, a bíblia e o sonho de toda princesa
Porque assim, neste mundo que é mesmo assim, adianta mais é se conformar.
É que ventre, coxa, bunda e seio é tudo que tenho que saber, exceto o próprio nariz.
E sabe o que eu digo?
Que gosto de rua e de chamego.
Que posso ser quenga, freira, motorista, feirante, presidenta, guitarrista, poetisa, planadora, balconista, bolsista, pá e da pá, virada.
Que casaria de rosa, laço e sapato ou pelada, de chinelas e porcelana.
Que nem casaria.
Que acredito em deuses, paridos por deusas.
Que quero ser mãe e não quero.
Na alegria e na tristeza, posso também ser companheira.
Porque no meu mundo é assim: ventre, coxa, bunda, seio. Mas boca, ouvido, olhos, gengiva, vulva, pés e até soco no estômago. E o nariz… o nariz é meu. E o rabo.
Dengo. Tango. Choro. Grito. Vomito. Esperneio. Chuto. Xingo. Trepo. Não trepo. E sambo.
Porque assim, neste mundo, é assim mesmo: Vocês que se conformem.

.

*Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

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24 ideias sobre “Poeminha Sem Regra

  1. Quem sabe de chamego, dengo, rabo, pá virada, quenga e samba, há de saber de vida. E de biscate. Nem sei dizer do que mais gostei no seu texto, mas que ele fez aquele morno no peito, ah, fez.

    • Opa! Obrigado, Letícia.

      O bom de deste texto é que ele me fez conhecer outros blogues, outras cousas, outras leituras. O blogue da Letícia, “uma motoqueira solitária” e do pouco que li: “Veículo não é falo”. Tem melhor definição para explicar as “machezas” do trânsito?

      Valeu!

  2. Adorei o poema!

    Descobri o blog hoje, numa coluna do Delas (IG) e adorei! Mesmo morando na cidade tida como a + livre do país (Rio de Janeiro), a “polícia moral” é um porre. Implicam com os meus corset, minhas meias-arrastão, minhas minissaias-jeans (não tenho culpa do meu quadril largo, é genética), do meu saltão cor de rosa, etc. Continuo usando o que bem quero, fazendo o que bem quero, e defendendo o direito de casa um ser uno e autêntico. A única passeata em que eu fui na vida foi a Marcha das Vadias e lamentei quão poucas pessoas foram.

    Virei fã daqui, tah?!

    Beijos

  3. O que vou dizer…? Nunca me vi tão bem traduzida… Nem o Chico conseguiu isso. Será que ele sabe o que é uma biscate? Não sei… Mas tu eu sei que sabe. Da minha parte, muitíssimo obrigada. Lisonjeada com o presente. :)

    • Niara…. muito do poema pode ser explicado pelas leituras que faço dos teus textos, dos blogues e de nossas conversas. Tenho o imenso prazer de poder conviver, aprender, trocar, misturar, intercambiar, pimentar com limão, pipocas comentadas e biscatear por aí.

      Enfim, quem te agradece sou eu.

      Beijo.

  4. Pingback: Quiz Biscate |

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