Quando soltar a franga quer dizer que existimos!

GUEST POST por Tiago Costa*

Em diferentes contextos, tempos e lugares sempre houve homossexuais. A perspectiva dominante (masculina) vê esses sujeitos, assim como as mulheres, de forma generalizada, como se todos/as fôssemos iguais, o que na verdade, está longe de ser assim.

Falo dessa homogeneidade porque acredito que quando nós nos denominamos BISCATES (sejamos homens ou mulheres) queremos desvelar ao mundo, de uma forma afirmativa, uma identidade feminina/afeminada que é julgada pela ótica masculina do mundo como inferior, vulgar, ridículo, vergonhoso, indigno, e muitos outros adjetivos nas suas múltiplas formas de ser.

Mas vamos estabelecer uma generalização para dá conta do que quero comunicar: O nosso corpo, lugar da diferença sexual, tem uma frente e uma costa. A frente é potencialmente masculina, por ser a parte visível, pública e de apresentação, enquanto que as costas, que é sexualmente indiferenciada, é potencialmente feminina, ou seja, algo passivo e submisso. São sobre essa atividade (masculino) e passividade (feminino) que se instauram as relações sociais de poder e dominação entre os homossexuais, aliadas ás outras características que reforcem a feminilidade.

Um homossexual com traços de feminilidade passa por muitas humilhações, deboches e desrespeito, o que se agrava ainda mais quando esse assume fenotipicamente uma identidade feminina – caso das travestis, transexuais, transgêneros. Isso porque para alguns homens (os machistas), sejam hétero ou homossexuais, a pior humilhação é transformar-se em mulher, seja física ou psiquicamente.

Tenho observado que entre os homossexuais, passivos ou ativos, adotar um modo de ser mais masculino (no jeito de falar, de se vestir, de se comportar) é mais desejável do que ter uma postura mais feminina. Não é a toa que a pergunta chavão nas redes sociais e salas de bate-papo virtual é: você é discreto? Ou seja, é o mesmo que perguntar: você dá pinta de que é gay, mulherzinha, afeminado, afetado e demais palavras de baixo calão? Se caso afirmativo, as chances de ser ignorado, ou até mesmo insultado são enormes. Aí mora o desmonte desejável para os conservadores da homossexualidade enquanto revolução.

Uma possível explicação disso: a “posse” de um homossexual passivo pode ser vista como um ato de dominação, pois, na lógica do pensamento masculino, o sujeito ativo pode se sentir superior por está “feminizando” o outro, o passivo. E se o passivo tem características de machão, a dominação simbólica está completamente satisfeita. Em tempos remotos admitia-se que nobres mantivessem relações sexuais ativas com seus escravos, mas o contrário era sinal de desonra, o que reforça esse esquema de dominação dito anteriormente.

Isso é um alerta que nós temos que ter em vista: É preciso romper com esse ciclo de dominação ao gosto da ótica masculina de ver o mundo e assumir com toda a radicalidade o nosso ser biscate, sendo livre para fazer o que bem entendermos, com quem, onde e do jeito que quisermos, sem nos preocuparmos com os padrões de comportamento, com os papéis esperados e com aquilo que se julga ser “o correto”. Acredito que revelar a passividade, a feminilidade, ser bem resolvido e, portanto, biscate, é uma forma de afirmação da existência pública e visível de gays, travestis, transexuais e transgêneros, que a sociedade machista e cristã tem tentado com toda a força negar e invisibilizar.

Portanto, acredito que sair do armário e soltar a franga é uma (mas não única) forma de dizer para todo mundo que existimos, que temos autonomia e que somos sujeitos em atividade social! Em resumo: gays, lésbicas, travestis e tudo mais, vamos dizer ao mundo que: somos tod@s biscates!

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* Tiago Costa é um cearense divertido, alto astral, parceiros de todas as lutas. Engenheiro de Pesca, de esquerda, trabalhou junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e de pescadores/as e “quase” mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFC. Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

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9 ideias sobre “Quando soltar a franga quer dizer que existimos!

    • Marília, eu tbm concordo que é uma bobagem. Eu tinha a intenção de construir, com isso que eu disse, uma crítica sobre essa forma pelo qual o mundo constrói o corpo como realidade sexualizada. Eu penso que essa visão (de dizer que o passivo e o submisso estão atribuídos ao feminino, assim como a interioridade, a sensibilidade, a intuição) foi (e continua sendo) imposta e que funciona como esquema que estimulam práticas que horas são convenientes e horas são proibidas por serem consideradas impróprias na relação entre os sexos. Talvez não tenha comunicado isso de uma forma clara nesse texto. De qualquer maneira, eu agradeço a crítica!

  1. Tires, gostei muito do texto. Toca numa questão delicada, mas fundamental. A observação que a Marília fez é justo aquela que eu tinha achado que estava complicada. Entendo o que você quis dizer e concordo que sempre houve a tentativa de associar a passividade ao feminino. Penso só que teve um ruído que dificultou um pouco passar a mensagem. Parabéns pelo texto e pela coragem de “soltar a franga”, amigo ;)

    • Agradecido May. Acredito que a gente tem que colocar as questões para serem debatidas mesmo, e quanto a isso estou aberto. Os elogios nos encorajam e as críticas devem nos fazer repensar as coisas. Considero importante o debate para que possamos diminuir as distorções. E com esse texto, sendo divulgado nesse veículo, sendo compartilhado no FB e no TT, com as considerações de amigos e amigas, companheiros e companheiras, me sinto igual o rapaz da foto que abre o post! É uma sensação que dá medo pelas represálias, mas ao mesmo tempo me sinto mais livre e mais a vontade! =*

      • Claro, Tires ;) como falei, acho que o texto provoca uma discussão importantíssima e que muitas vezes fica um pouco apagada no debate. Já falamos várias vezes isso, né? O fato de que mesmo dentro das relações homossexuais a desigualdade em relação as representações do que é passivo/ativo não se resolve. Texto pertinente e corajoso, como já falei. Parabéns, amigo!!!

  2. Eu curti o texto. Acho que entendi o que Tiago quis dizer desde que ele mandou o texto e talvez por isso nem tenha me ocorrido editá-lo (sou péssima editora, reconheço). O texto todo caminha para contestar os papéis preestabelecidos e como essa eterna dicotomia — que não fomos nós que decidimos ou construímos — entre o feminino e masculino se estabelece também nas relações homossexuais. E o bacana é, não fomos nós que construímos ou decidimos como seriam esses papéis, mas podemos e devemos mudá-los. Bóra!!!

  3. é preciso muita ousadia pra contestar os papéis impostos já que isso significa caminhar por um terreno movediço. tô muito orgulhosa do meu amigo. gostei muito e parabéns pelo texto, amore!

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