Ai, os joguinhos

Duas amigas estão conversando no ônibus. Elas falavam um pouco alto e não pude deixar de ouvir o que diziam: uma contava para a outra, bastante angustiada, que não sabia mais o que fazer para que o homem em que ela estava interessada a notasse. Ao que parece, eles já eram amigos e ele de vez em quando, dava sinais de que o sentimento era recíproco. Aí, a amiga disse ( numa tentativa de ajudar a outra):

“Aconteça o que acontecer, não o procure. Olhe para ele, sorria, demonstre que há algo mais. Mas não ligue e não esteja disponível (sic). Homem odeia mulher fácil(?) e tomar uma atitude muito drástica ( oi?) poderia assustá-lo. Ou pior: fazer com que ele pense que você está desesperada.”

Certamente tod@s nós já ouvimos algo parecido ( ou até passamos por situações assim) algum dia. A gente é educad@ para acreditar que mulher que toma a iniciativa é “fácil”. Ou está desesperada. Ou não tem “valor”. Parece até que a mulher não tem o direito de demonstrar o que quer ou o que sente: ela deve apenas agir de acordo com o que esperam dela, para agradar a tod@s, menos a ela própria.

Somos ensinadas a fazer “joguinhos”. A agirmos como a “caça”, fugindo do “predador”. É mais bonito ser passiva, sorrir e corar. Mulher que age de acordo com o que ela pensa por si mesma nunca é bem vista. É, aos olhos dos outros, uma infeliz.

Sério, quem tem paciência com essas coisas? Quem consegue mesmo ser feliz contendo os próprios sentimentos, deixando de lutar por quem ama?  Por que só o homem, na visão de tanta gente, deve ser o único que pode “conquistar”?

Biscateando, aprendi a não fazer esses joguinhos e não me intimidar tanto ao demonstrar o que sinto. Descobri, mais leve, que biscate, se quiser, liga no dia seguinte. Que posso amar sem pudores e sem sorrisos ensaiados, para impressionar. Que não é necessário simular um acanhamento que não existe. Biscateando, fui vendo que é melhor ser amada por inteiro, pelo que sou e não pelo que querem que eu seja.

Ai, se eu pudesse, teria falado com aquelas garotas. Explicaria quanto tempo perdem agindo como se o que sentissem não importasse. Como é ruim esperar que o outro faça aquilo que querem, quando poderíam seguir adiante, tomando as rédeas das próprias vidas.  Mas não as culpo, sabe? Elas estão apenas fazendo o que foram ensinadas a vida toda: nada além de esperar.

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17 ideias sobre “Ai, os joguinhos

  1. Nossa, quantas vezes já ouvi isso! Outro dia mesmo estava discutindo o assunto com amigos que, acreditem, estavam justamente reclamando que muitas mulheres não tomam atitudes.
    Acho que esse lance de “conquista” (não gosto do termo, mas não achei algum melhor) tem que ser recíproco, nem o cara vai até a menina, nem a menina vai até o cara, cada um dá um passo pra se encontrar no meio do caminho, entende? Sem essa de “presa” e “predador”, apenas duas pessoas tentando se relacionar de alguma forma.

    • Concordo e muito com você, Paula. Os relacionamentos deveriam sim ser vistos como troca, como algo que surge naturalmente. Mas há uma pressão tão grande para ambos os lados: o homem tem sempre que tomar a iniciativa, caso contrário é um covarde, frouxo. A mulher, por sua vez, tem de ser passiva, “difícil”, comedida. Isso acaba não deixando ninguém feliz e relacionar-se acaba se tornando um problema. Um sofrimento.
      Muitos livros de auto-ajuda são campeões de venda por causa disso, mas boa parte deles nada mais faz do que repetir aquilo que ouvimos sempre.

      Grande abraço!

  2. Só digo uma coisa: não é nada fácil pra mulher se libertar desse tipo de situação tão corriqueira na nossa cultura… Principalmente pras mais jovens…

    • Com certeza, Amanda. São valores enraizados há muito tempo em nossa cultura e sociedade. As garotas do ônibus, por exemplo, eram bem jovens. E já possuem esse ranço. Espero de coração que elas tenham, assim como eu, você e muit@s d@s que chegam a este e outros tantos blogs que tentam desmistificar tantos paradigmas, a oportunidade de um dia pensar diferente. Ou ao menos questionar se a forma como agem é natural ou fruto de uma imposição tão opressiva que age silenciosamente sobre nós.

      Grande abraço!

  3. Ok, entendo seu ponto de vista. Mas não sei até que ponto vai o “ser original, fazer o que tem vontade e ser feliz” e o “descarregar a carência no coitado, sem saber o que ELE sente” (pelo que eu li aqui me parece bem irrelevante isso). Relacionamento não é baseado somente no “eu”. EU quero ligar, EU quero correr atrás, EU quero demonstrar o que EU sinto. A verdade é que muita biscate não tem nenhum feeling! Nem consegue perceber se o cara a adorou ou odiou. Eu tenho nojinho e raivinha de homem que não me despertou nada, eu demostrei isso, mas ele não entendeu e fica me ligando! Por mais que ele lute pelo meu amor, nunca vai acontecer. Então se o cara não dá a mínima, o mais sensato é desencanar e passar pro próximo. Amor é sentimento, e não vestibular! Não se luta com garra pra ser aprovada! Ou acontece ou não acontece!! Ligar no dia seguinte… hum… sinceramente? Não ligo! Se ele estiver a fim de verdade, e se gostou de verdade, ele VAI ligar. Não é um telefonema meu, ou uma declaração de amor minha que vai fazer com que ele se apaixone por mim. Ele pode achar isso atencioso e bonitinho. Mas certamente não vai ser o click do amor.

    • Andréa,
      Acho que ninguém tem condições de saber 100% o que o outro pensa ou sente. Mas isso não se configura como impedimento para uma ação, uma tentativa de fazer dar certo. Não me refiro a insistência sem retorno, perseguição ou prostração diante de um sentimento, mas sim à idéia de que culturalmente, uma mulher que toma a iniciativa é considerada fácil, desesperada e chata pelo simples fato de ter atitude. Ela, diante da sociedade (muito moralista e machista, ainda), não tem o direito de dar o primeiro passo para o flerte. O exemplo de “ligar ou não no dia seguinte” ilustra muito bem essa questão: quantas de nós já não quisemos fazer isso e talvez deixamos de fazer por pura imposição?
      E só para acrescentar: o “click” do amor não tem hora certa ou momento certo para acontecer… Isso pode ocorrer de diversas formas, seja com o passar do tempo, seja imediatamente. Para cada pessoa é de um jeito. Jeito que não exige uma fórmula ideal ou um timing. Como saber?
      O que não é válido é esperar passivamente. Ver no que dá. Ainda mais se essa não foi uma escolha sua, mas sim, o que sempre te disseram ser o “certo” a fazer.

      Abraço.

  4. Óia! Você é jovenzinha e já orgulha o mundo biscate!
    Parabéns.
    Ouvi esses tempos de uma amiga: “não deixe ele perceber que você se apaixonou, porque daí ele vai fugir”. Pois ainda não fugiu exatamente…e ainda disse que eu sou Yang…que sou a dominadora, a que vai atrás, a que come e não dá. Mas tá aqui.
    Então, será que joguei por terra a teoria da amiga? Ou será que sempre existe alguém que vá curtir a gente como a gente é?
    Acredito que o melhor é sempre, já de comecinho, mostrar como somos. Joguinhos cansam, máscaras caem e depois você fica condenada a escutar outra frase: “você não era assim quando te conheci”.
    Melhor ser o que é e se tiver com vontade ligar, falar, correr a trás ou mesmo “se oferecer”, porque não?

    Beijos!

    • Poxa Márcia, obrigada pelo elogio! com certeza, sempre tem alguém para nos “curtir” do jeitinho que somos, sem que a gente precise se “conter” de todas as maneiras.

      Grande abraço e é um prazer ( ui! ) para mim estar entre tantas biscates queridas e fantásticas. Aprendo demais todos os dias por aqui.

  5. Muito bom texto. E penso que funciona para os dois lados. Tenho muitos amigos que praticam esses joguinhos, de não mostrar interesse, para não parecerem vulneráveis ou desesperados. Talvez os motivos dos dois lados não sejam exatamente os mesmos, mas o final costuma ser. Frustração de alguém que não mostrou o que realmente queria ou sentia (e que no caso era até mesmo reciproco).

    • Obrigada pelo elogio, Guilherme. Você disse tudo: frustração de alguém que não mostrou o que realmente queria ou sentia. E certamente, existe isso também entre os homens, como você disse, com motivos diferenciados.

      Espero te ver sempre por aqui! Grande abraço.

  6. Ótima reflexão…
    Pensando cá com meus botões que, se mocinhas “de valor” se comportam como presas, são os cães de caça da matilha que sempre demarcam território no “objeto” mulher… Mocinhas de atitude e garotos com mui carinho acabam por cair de paraquédas nos estereótipos mais marcados do livro da azaração.

    É um joguinho tão… “inho”; garota não demonstra certeza, e garoto não manifesta dúvida.
    ‘ela’ não pode ser forte, e ‘ele’ não pode ser vulnerável; cada qual em seu canto, ficam pensando o que o outro quer ou deixa de querer… inseguranças, medos e vontades no escanteio… por conta de receios bestas como o de ser enquadrada “naquele” tipo de guria, ser tratado como aquele “viadinho” de rapaz.

    Me dói o tanto de significado que se “pode” atribuir a um telefone que toca – ou deixa de tocar.

    (conversa a dois deveria ser com mãos e bocas… os toques não deveriam ser ruído chato dum celular.)

    • R. F. M. Santos,
      Realmente, esse medo, essa insegurança camuflada em “orgulho” pode atrapalhar muita gente. Contudo, não podemos culpar a ninguém por isso, sabe? É tudo – ou pelo menos grande parte – fruto da nossa cultura que além de machista, enaltece o “eu”. Brada com força de que há um lado forte e outro fraco e acaba ficando difícil para que todos compreendam este mecanismo e tentem optar por um modo diferente de ver a vida. Para mim, inclusive, foi bastante. Mas nada como o tempo, muita leitura, muita reflexão e o fato de conhecer pessoas diferentes, com posicionamentos libertadores, para ajudar.

      Grande abraço!

  7. Isso sempre aconteceu comigo!
    Nunca tive paciência para joguinhos, sempre ligo no dia seguinte, se estou interesssada, vou atrás mesmo. E o que eu ouço dazamiga? Que eu tenho que ser mais “sutil”. E eu sou tão sutil quanto um hipopótamo. Eu deixo na cara que eu tou afim. E caso o cara não queira, respeito, afinal, ele não é obrigado. Choro, fico triste, xingo pra caramba, mas a vida segue. Ai que bom saber que sim, eu posso ficar interessada no cara e tomar a iniciativa.

    • Sueli, eu te entendo. E acho que você está certíssima em fazer o que seu coração diz, por um motivo bem simples: agir em respeito aos seus sentimentos não é “feio”, nem errado. É um direito seu, subjetivo ainda por cima. O outro tem, obviamente, o direito de não querer também e isso deve ser respeitado. Mas se não tentar, como saber, né?

      Grande abraço!

  8. Muito interessante, e oportuna, a reflexão. Minha mulher costuma dizer que é papo furado este lance de príncipe encantado. Ela não quer saber disso. Para ela, o lobo é muito melhor, “pois ele come a vovozinha”. Brincadeiras à parte, para quê fingir o que não somos ou estamos sentindo? É melhor ser original e dizer o que pensa e sente, de verdade. Sem subterfúgios. Está com tesão e bateu os olhos em cima de alguém, vá lá e diga, na lata, o que sente. E não se preocupe com o que o outro, os outros, vão dizer. Seja você mesma(o). Sempre. Aos 46 anos estou cansando de tentar viver fazendo as coisas que o mundo e as outras pessoas esperam que eu faça. Chega. Cansei disso. Quero ser eu mesmo. Dá-lhe, Claudinha. “É nóis…Tamo (sic) juntos”.

  9. A leitura desse post veio na hora certa. Estou passando por momentos de questionamento quanto a esse assunto, e me perguntava o que eu precisava fazer. Fui à festas e ficava tristonha no canto, meu grande amigo me fazia dançar como se fosse a melhor garota ali, e eu conseguia quem queria. Acabava achando que se tratava de ser difícil, de fingir não querer e odiava esse jogo.
    Ontem tive uma conversa com minha mãe, devo ter passado uns 15min só ouvindo, acabado esse tempo, fiz mais umas perguntas e ouvi ainda mais. Foi muita sabedoria feminina na minha cara. Minha mãe é uma grande mulher, e acima de tudo muito sincera. E digo a vocês qual o segredo que ela compartilhou.
    A impressão que dá realmente é que você precisa ser difícil. Mas não se trata exatamente disso, e sim da sua segurança. Quando você é segura de si, você mostra pro mundo que não é uma vagina, é uma essência. E qualquer homem (ou mulher) vai se sentir extremamente tentado a desbravar esse universo que há dentro de você.
    Isso muitas vezes se confunde com ser difícil, mas porque ser assim dá uma impressão de segurança. Não é necessário fingir que não quer, é necessário estar convencida que você é mais importante, e que ele não te querer, é ele não merecer.

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