Atendendo às Biscates

GUEST POST por Rafael Fabro*

Essas Mulheres de Picasso tem uma cara bem biscate, né? ;-)

Convite feito para escrever por essas bandas, me vi desatinado correndo atrás de um texto que teimava em fugir, rindo do caro escriba aqui. Tentarei achá-lo com afinco, juro, mas, por enquanto, ainda não deu as caras na tela do computador. Aviso se aparecer. Antes que parem de ler essa barafunda e partam pra navegar em outros mares mais serenos, é necessário fazer um agradecimento (se vocês quiserem, podem reclamar com a destinatária): a existência destas letras é responsabilidade única e exclusiva da ideia de uma doce e desvairada biscate-borboleta, que por aqui passa em exposição, enquanto a gente sortuda cata a poesia que entorna no chão. Ih, nem um parágrafo e já dei de citar Chico. Vou apresentando minhas afinidades eletivas sem me dar conta e nada do fugitivo lá de cima surgir.

O cantinho que me acolhe se chama “Biscate Social Club”. Pois bem, pensei em escarafunchar definições para a assinatura (e charme) da casa, dar uns rabos-de-arraia nos preconceitos sobre o tal termo, jogar com as possibilidades em libertar verbetes dos grilhões de dicionários, bocas e mentes indigentes ou até esbarrar em chatices acadêmicas (ah, esqueci, sou psicólogo, prazer), mas preferi a liberdade de ir digitando sem amarras, sem eira nem beira, tropeçando aqui e ali, caminhando altivo vez em quando, me esborrachando porque ninguém é de ferro. À busca de um texto livre, inquieto, quem sabe até biscate, por que não? Afinal, escorre das mãos, foge à compreensão e parte para outro lugar.

Não, não está aqui, nem ali, nem acolá e não estará quando eu chegar. Esse texto que tanto procuro é, por essência, fugidio, maroto, levado, brincalhão. É feminino, sujeito a uma gramática de ziguezagues, avesso a linearidades modorrentas. É arte, só vista num átimo para quem tem sorte, captada naquele instante em que, de pés juntos, juramos estar diante de uma epifania. É biscate.

Na arqueologia vã de cavar um post digno de publicação, me vi diante da natureza biscateira: por mais que se tente encontrá-la, vem a voz ao telefone, “não, ela não está, saiu, quer deixar recado?”. Uns e outros tentam atar, prender, se apoderar de uma palavra, uma etérea palavra. Iludidos que são, acreditam piamente que podem ser donos de metáforas, corpos, ações e pensamentos. Sentam no fetiche de que o feminino é da ordem do controlável, que pode ser regido sob uma cartilha seca plena de ditames antigos, repetidos ad nauseam feito discos arranhados. Já eu decido por deixar um recado carinhoso e sigo em frente.

No caminho, cruzei afortunadamente com esse clubinho que esculhamba com as convenções, pisa no calo dos bons costumes e vai nas carótidas de quem cismar que biscate é isso ou aquilo. Não, biscate é isso, aquilo e mais alguma coisa. Ou não é nada disso também (acho que citei Caetano sem querer…), o que importa? Vale a brincadeira e a delícia de fazer da língua massinha de modelar, não mero concreto armado. Pôr a dona liberdade como norte da bússola. Criar, recriar, contorcer, puxar, esticar, alongar, curtir, compartilhar e ter esses encontros diários com gente tão boa por aqui: eis a fagulha da mais pura biscatagi. Um brinde!

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* Rafael Fabro é moço gentil, de gostos acurados: Chet Baker na vitrola, não perde um Fellinni  na tela e, caso seja hora de ler, Paul Auster vai bem. Com esse estilo, claro que frequenta e curte nosso clube. Sabe ser amigo de biscate, ah, sabe! Carioca, psicólogo, vascaíno (tem que ter um defeitinho, né) vai aprendendo a ser: pai, marido, amigo, escrevinhador de belezuras.

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6 ideias sobre “Atendendo às Biscates

  1. Texto especial…escrito por alguem muito especial. O privilegio eh nosso Rafa de podermos conviver com alguem tao doce, sensivel, inteligente e amigo!
    Beijos de quem muito lhe admira!!

    • Obrigado, Vivi! Sei que fica uma troca eterna de agrados (sempre bom, né? rs…), mas tenho convicção que é meu privilégio acima de tudo poder escrever num cantinho tão especial que me recebeu tão bem. A admiração por toda a trupe que lê e escreve por essas bandas é imensa, sabe disso. Um beijo!

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