Das Musas Improváveis ou Gracyanne Rules!

Por Charô*, nossa Biscate Convidada na Quinta Cultural

Num mundo onde as mulheres são todas loiras e devassas, no máximo variações do mesmo tema, mulheres e homens transitam entre o lá e o cá desse caldo cultural que alguns chamam de gênero, enterram clichês normativos e se libertam do sexo que por acaso carregam entre as pernas. Esse post fala sobre essas pessoas que destroem as barreiras entre os sexos e difundem a ideia radical de que nós mulheres somos gente.

Enjoy.

Oi, quem tem medo de Gracyanne Barbosa?

Ao olhar para o corpo milimetricamente desenhado de Gracyanne Barbosa alguns sentem que algo está fora de lugar. Um dos blogues mais influentes do país chegou a afirmar categórica e irresponsavelmente que em seu corpo há menos Gracyanne e mais Barbosa. Infelizmente, o twitter também serve de termômetro nesse caso. Porém, ao contrário do que muitos gostariam de admitir, Gracyanne é mulher e aquele corpo também é o de uma mulher.

E aí que enrolam e assam o pepino.

Se ela é mulher e eu sou homem hetero, existe a possibilidade de eu vir a gostar de uma mulher fisiculturista. Mas não existem (ou não deveriam existir) mulheres praticanto fisiculturismo, esse esporte de homem. Logo Gracyanne é traveco ou não é uma pessoa, mas sim uma coisa, “um troço”. E se eu achá-la bonita mesmo assim, eu tenho de “trocar de time” e me assumir como gay.

Se ela é mulher e eu sou mulher, então eu tenho de questionar as possibilidades de meu próprio corpo. Melhor afirmar que ela é homem do que encarar a ideia de que meu corpo, se malhado, possa vir a ser como o dela. Mas existe um cenário ainda mais assustador: se ela é mulher então pode ser considerada mais bonita que eu. Como rainha de bateria, ela o é. Logo deve ser rotulada a qualquer custo como um homem.

As combinações são infinitas.

Mas existe uma constante: homens e mulheres competem continuamente para saber quem é mais viril (como se a virilidade tivesse sexo) e quem é a mais bonita. Gracyanne ameaça a todos, nas duas modalidades. Assim a primeira coisa que as pessoas fazem é negar sua humanidade e sua capacidade de ser amada. Por causa disso é nossa primeira (e maior?) musa improvável desse carnaval. Gracyanne Rules!

Laerte, a loira morena do banheiro

A Cultura gravou um Roda-Viva de carnaval com ninguém menos que Laerte Coutinho, a morena do banheiro. Tinha tudo para dar certo mas… Brochamos todos que vimos o programa: o entrevistado era muita areia para o caminhãozinho dos entrevistadores. Bloco após bloco a entrevista se arrastava. Parecia que faltava oxigênio no recinto.

A perplexidade diante de um homem trajando o vestido era tamanha que chegaram a perguntar porque ele/ela (ao gosto do freguês, segundo o próprio Laerte) não se veste de acordo com sua classe social. Afinal, se é pra ser mulher, que seja ricka. E quando perderam os pudores, queriam saber se mijava em pé ou sentado, se ainda poderia jogar futebol (esse esporte de macho, né Marta?). Veja bem, pode até se vestir de mulher, desde que continue homem.

E com todo esse furdunço Laerte continuou absolutamente serena. Se veste como bem entender e reivindica o direito de ir ao banheiro sem que ninguém (e todo mundo) tenha a ver com isso.

Mas nem tudo foi tempo perdido. Angeli estava preocupado em saber se é possível fazer humor respeitando direitos humanos. Très legal. E no meio da barbárie, Laerte insinuou o poliamor. Diz, quase sem dizer é verdade, que a monogamia não lhe serve. E conceitua a não monogamia como prática anticapitalista.

Claro, foi tudo en passant.

Ainda assim, foi mais que suficiente para tornar a morena do banheiro ainda mais atraente. É musa improvável e inconteste.

Vânia Flor: gorda, porém casada

Ter samba no pé. Esse deveria ser o único quesito para ser musa de carnaval. Mas na prática a teoria é outra. As rainhas e madrinhas de bateria são todas brancas, magérrimas. No carnaval, as gordas desaparecem e as negras são descaracterizadas (lentes de contato azuis, apliques, descoloração dos fios). Ainda assim, Vânia Flor foi o nome do carnaval 2012. Ainda que negra e gorda. E justamente por isso.

E como era de se esperar, falou-se em dieta, quantidade de quilos (104, para ser mais exata). E uma enxurrada de elogios. Daqueles elogios que na verdade dizem que Vânia deveria se odiar, fazer dieta e ficar escondida em casa. Porque, com esse tamanho, tem de se amar muito e se assumir antes de sair de casa, e coisas do tipo.

Até que (nada é tão ruim que não possa piorar) uma comentarista da Rede Bobo (não lembro o nome) disse algo mais ou menos assim: “Ela é gorda, porém casada. E o marido é magro”.

Nesse momento desceu a Teodora em mim.

Say no more.

E pra concluir…

Obrigada pela paciência de ler um post assim enorme, um postão.

Com direito a dedicatória e o escambau: beijo para todas as mulheres que mijam em pé, que não gastam horas a fio com manicure. Que sujas, não depilam as axilas e virilhas. Para as que adoram puxar um ferro. Para aquelas que dão a mínima para a ideia de se vestir bem. Beijo para negras e gordas. Especialmente negras gordas. Sobretudo aquelas que ousaram se casar e ainda acharam escolheram um magro (só pode ser louco) para chamar de seu.

.

Charô é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

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23 ideias sobre “Das Musas Improváveis ou Gracyanne Rules!

  1. Por que a negra que pinta os cabelos é ‘descaracterizada’? Pinta quem quer, uai, quem tem vontade de experimentar algo diferente, sei lá. Gracyanne é um tronco de mogno e isso é direito-dela-calabocatodomundo, mas se a mulher negra pinta o cabelo ela se ‘descaracteriza’? Que estranho.

    • Penso que ser “um tronco de mogno” é fugir do padrão e estereótipos. Pintar o cabelo de louro é enquadrar-se. Não acho que é uma questão de julgar individualmente mas entender como estrutura. Imagino que seja essa distinção fundamental quando pensamos em liberdade, prazer e autonomia.

      • Quem acompanhou a campanha da cervejaria viu, as modelos eram todas iguais. Creio que esse é o ponto de partida. Trata-se de se afastar ou se aproximar desse referencial.

        E mais, existem nuances entre o mundo em que vivemos e o mundo povoado de devassas loiras. A biscate da Lil Kim pintar o cabelo é bem diferente de Sandra de Sá (dreads loiros) e de Beyoncé (será que ela um dia foi negra?).

        São discursos diferentes e possíveis.

        Mas eu vejo a questão como estrutural, como disse a Luciana.

  2. Não monogamia como prática anticapitalista?! Laerte devia estar fazendo humor, né? Não existem mais práticas anticapitalistas, o capitalismo a tudo absorve como nichos de mercado, ainda mais em se tratando de costumes, rs.

    • Sim, como faz com quase tudo. Mas existem alternativas pq o capitalismo não é algo natural que não pode ser questionado e combatido. E sim, existem práticas anticapitalistas, são inúmeras e difundidas por inúmeros grupos ao redor do planeta.

      Sobre a não-monogamia, cheguei a essa consideração no ano passado, após 3 anos de blogue sobre o assunto. O debate é extenso mas podemos sistematizar um ponto de partida…

      A monogamia é um dos meios de garantir a manutenção da propriedade privada. Nesse sentido a não-monogamia pode ser resistència. Imagina uma família de 8 pessoas que cria seus filhos em conjunto e partilha sua renda de forma igualitária entre eles? Agora ima gina se essa foses a regra…

      Um abraço.

  3. Tenho só um questionamento a fazer sobre o texto que é excelente.
    E vai de encontro ao que foi levantado pela Flá no comentário acima.
    Porque como já havia comentado no twitter entendo a questão da resistência do movimento negro. Entendo a questão da valorização da beleza e da mulher negra do jeito que ela é. Até porque sou uma e sempre fui contra essa questão de alisamento de cabelo. E já passei perrengue por usar cabelo natural, já ouvi gente dizer que “precisava dar um jeito no meu cabelo”. Mas, ao mesmo tempo, fico pensando em uma coisa que diz respeito a liberdade, que é tão propagada pelo blog.
    Eu, como mulher negra, entendo (vejo e convivo) com um monte de outras mulheres que não tem consciência dessa questão da negritude e como a reistência é importante para que todo mundo se aceite do jeito que é. Que não há nada de “feio” em ser negro o e ter bocão e bundão e cabelo armado e que ser branco é “mais bonito” embora o que a mídia e o mundo diga o tempo todo o contrário.
    Mas fico questionando (e isso desde sempre pq sempre preferi meu cabelo crespo e hj ele é crespo e com luzes) qual é o limite disso.
    Por que nós negros temos que reafirmar nossa origem e por que isso parece ser “engessar”?
    Me incomoda porque parece reduzir a minha liberdade de escolha sem ser taxada.
    O fato de que fazer o que eu quiser com o meu cabelo NÃO pode significar que eu não me aceite, que eu não tenha consciência de qualquer coisa.
    Por que os outros podem e eu não?
    E por que minhas atitudes e pensamentos vão ser julgados pelo modo como eu uso meu cabelo? Isso determina mais ou menos resistência/consciência?
    Eu espero ter contribuído com a discussão.

    • Cássia,

      acho que a questão não é julgar individualmente. cada um faz o que quer com seu corpo, acho que isso deve nos pautar sempre. Entretanto é importante sempre pensar os limites dessa escolha individual. O quanto ela é determinada pelos estruturantes culturais, econômicos, sociais.

    • Cássia, obrigada por suas colocações. Eu tenho de colocar meu testemunho pessoal, mesmo que isso não valha nada. Alisei o cabelo por 27 anos. Tenho 4 anos de black. E ela já foi loiro. Agora às respostas.

      P- Por que nós negros temos que reafirmar nossa origem e por que isso parece ser “engessar”?
      R- Vivemos num mundo racista. Isso é bem chato, temos de reafirmar, reafirmar, reafirmar. Por que nem esse direito temos. E isso dá a sensação de que estamos engessados, infelizmente.

      P- Me incomoda porque parece reduzir a minha liberdade de escolha sem ser taxada.
      O fato de que fazer o que eu quiser com o meu cabelo NÃO pode significar que eu não me aceite, que eu não tenha consciência de qualquer coisa. Por que os outros podem e eu não?
      R- Você pode absolutamente tudo. E isso é uma excessão. Vc certamente lembra do caso em que uma jovem te ve de aklisa o cabelo para continuar no emprego. Essa é a regra. E é pensando nesse contexto que coloco minha fala.

      P – E por que minhas atitudes e pensamentos vão ser julgados pelo modo como eu uso meu cabelo? Isso determina mais ou menos resistência/consciência?
      R- Nossa ancestralidade é transmitida por nossas comidas, estórias, roupas, pelo cabelo. Foi o que nos restou. E por conta disso nossas cabeças são sim campo de debate teórico, político. Ainda mais nos dias de hoje, quando somos mais imagéticos que nunca. Feliz ou infelizmente, sua escolha será vista como discurso. E mais, em alguns casos, determinará sua resistência e consciência. É como deixar de depilar as axilas. Depilar não quer dizer absolutamente nada. Mas deixar de depilar diz mais ainda.

      Espero ter aclarado (opa) suas dúvidas.

  4. Flá, concordo com o seu comentário, mas acho que o que ela quis dizer foi que muitas dessas negras estão descaracterizadas não por vontade de experimentar algo novo simplesmente (se for por isso também acho mais do que válido), mas por se sentirem “obrigadas” a seguirem determinados padrões estéticos que são ditados pela sociedade como belos e harmônicos. Foi o que eu entendi.

  5. Mas isso é tudo engessado demais… A branca que fica sarada e tostada de sol é uma libertária, a negra que clareia o cabelo se descaracteriza… Gente, tudo isso é a mesma coisa, fazer ou não fazer o que se espera de você. Espera-se que Gracyanne seja uma deusa torneada carnavalesca e que ela suma o resto do ano, espera-se que a mulher negra vá com as origens e não ‘se renda’, espera-se que a ruiva vista branco e fale alemão e que a advogada seja posuda e que a evangélica seja contida… Olha, ou a gente prega a escolha de cada qual ou a gente se estrepa, viu. Porque é muita regra pra seguir. Mais acertivo se amar muito e optar, no visual ou no comportamente, por aquilo que nos deixa felizes. Sem dedos apontados. E esse é o dilema, né? Quando a gente fica defendendo demais um ponto de vista, pode até se trair com ele.

    • Flá, baby,

      não sei se você nos lê com frequência. Se sim, vai ver que a prática de apontar dedos não aparece neste clube. A compreensão do mundo como fenômeno político, sim. Não se trata da atitude individual. Aqui sempre apoiamos QUALQUER escolha individual que não seja violenta ao outro. Mas isso não significa compreender os processos como voluntaristas porque os nossos gostos e vontades não são “soltos”, espontâneos ou essencialistas. O mundo e as relações são construídas mediadas por situações de poder, seja econômico ou simbólico.

      • Flá, minha intenção com esse texto não foi dizer como cada um deve viver sua vida. Longe disso. Quis mostrar o exemplo de 3 pessoas fantásticas que estão vivendo sem se preocupar com nada disso. E o contexto é o carnaval. Como disse antes, existem nuances entre o céu e a terra…

        • Eu não leio com frequencia, Charô, mas vou passar a ler sim, viu? Entendi os pontos todos, discordei um cadinho ali e aqui, mas acho que é isso aí mesmo que fica bom, né, cada um com suas opiniões e a gente se complementando e aprendendo e evoluindo (com) esse mundo. :-) De qualquer modo, o site é excelente, parabéns pra vocês todas!

  6. Vou opinar lembrando a todas/os que falo a partir da minha condição de mulher, feminista, branca, já quarentona e que, mesmo que tenha sempre me dado conta da opressão racial e me manifestado contra (faço isso desde que tinha 5 anos de idade), entendo que a luta pela libertação dos negros se dará por eles mesmos. Eu só apóio e tento contribuir sem interferir. Mas sei que o buraco sempre foi mais embaixo para as mulheres negras.
    Uma coisa que aprendi ao longo dos meus 20 anos de feminismo é que nunca podemos descontextualizar uma opinião ou artigo, sob pena de cometermos uma imensa injustiça.
    A Charô escreveu sobre o carnaval e suas musas improváveis e não acho que ela impôs condições às mulheres negras. Depois de ler todas as opiniões me ficou a pergunta: As negras que optam por alisar e clarear o cabelo — no carnaval ou fora dele — fazem isso por quê? Porque querem experimentar algo novo, mudar o visual ou “serem aceitas”? Acho que esse é o X da questão.
    Defendo a liberdade, tenho ela como princípio e por isso mesmo acho essa discussão necessária. Quero um mundo onde as mulheres negras não se sintam pressionadas a mudar cabelo, corpo e pele para serem aceitas (e vamocombiná que isso não muda em nada sua aceitação, elas continuam sendo apontadas e discriminadas). Quero que todas as mulheres sejam livres para escolher qual o melhor caminho sem precisar de um homem ou de uma sociedade para aprová-las. E é aqui que minha luta unifica com a da Charô e da Cássia.
    Charô curte seu cabelo black? Beleza. Cássia quer fazer luzes e se sente linda assim? Beleza. Mas que isso seja uma decisão delas, uma decisão tomada com liberdade e autonomia e apenas para o seu prazer. E acho que não é bem esse o caso da ampla maioria das negras que se preparam para desfilar no carnaval, onde elas se sentem finalmente aceitas, nem que seja por 3 dias. No resto do ano elas continuam sendo negras e discriminadas e espera-se que se recolham aos seus cantos (estou sendo irônica, óbvio).
    No mais, estou adorando o debate.
    Beijos, Charô. Texto lindo.

  7. Bom…
    Sobre essa coisa do carnaval, me incomoda muito mais a coisificação da mulher negra que só é enxergada nessa época do ano e como um ENORME objeto de desejo e apenas e tão somente isso… e passa o resto do ano sendo invisível.
    Quantas delas aparecem fora o carnaval?
    Como é que a gente pode dizer que as mulheres estão sendo descaracterizadas para se enquadrar? Quem somos nós para estabelecer isso. Elas, simplesmente, podem ter acordado “querendo fazer algo de diferente”.
    (Eu não vejo várias negras-loiras, mas não vi nenhuma com lente azul).
    Uma discussão super produtiva… e válida! =D
    Espero estar contribuindo.

  8. Pingback: Quiz Biscate |

  9. Eu vim conhecer o blog – ando uma celibatária virtual para dar conta de uns recados. E gostei demais dele como um todo. Mas precisava comentar, rapidinho, esse texto aqui. Charô, eu não podia gostar mais e me indentificar mais. Essas musas carnavalescas (e que contexto, o carnaval, época de inversões, de travestismos provisórios, de aparências que conquistam a permissão temporária de confundir) são grande batidas na mesa das convenções e imposições de gênero, reinvindicando pra si o direito de existir, em sua diferença.

  10. Pingback: Mulheres: corpos sempre disponíveis

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