Precisa ser muito mulher para ser Pagu

Pagu era feita da cepa mais essencial e inerente a uma biscate: ser muito mulher!

Se hoje é preciso ser muito mulher para enfrentar preconceitos e romper com os padrões sociais, imagine há quase cem anos atrás! Precisava ser muito mulher para ser biscate nos anos 20, para ser comunista no Brasil de Getúlio Vargas, feminista no PCB dos anos 30, jornalista na São Paulo conservadora da primeira metade do século XX. E Pagu foi muito mulher para tudo isso e ainda foi mãe, esposa, ativista, escritora, poetisa, teatróloga e diretora, biscateou muito e sambou na cara da sociedade mundo afora.

Se envolveu em protestos e polêmicas por onde passou, sempre contestando e sendo jornalista. Tinha um olhar triste, mas vivia com vontade e alegremente. Aliás, haja alegria para suportar tudo que passou. Teve seus momentos de sexy apple mais à flor da pele e quis ser estrela de cinema em Hollywood. Ousada, inquieta e profundamente incomodada com as injustiças do mundo, foi milhões de mulheres em uma só.

Musa dos modernistas (e não da Semana de Arte Moderna – em 1922 ela tinha apenas 12 anos), escreveu suas primeiras colaborações como jornalista em 1925 (com apenas 15 anos), no Brás Jornal onde assinou seu primeiro pseudônimo, Patsy. Frequentou o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde foi aluna de Mário de Andrade e de Fernando Mendes de Almeida. Do seu envolvimento com os modernistas ganhou o apelido de Pagu, dado por Raul Bopp. Passou a colaborar com a Revista da Antropofagia e casou-se com o pintor Waldemar Belisário (casamento de fachada, após a cerimônia civil Oswald e Pagu se encontram para a lua-de-mel “real”, enquanto o pintor voltava a São Paulo). O casamento com Belisário foi anulado em fevereiro de 1930, quando Pagu iniciou o Caderno de Croquis, com paisagens e cenários de cidades brasileiras. Sim, Pagu também desenhava.

Antes da anulação do casamento com Belisário, em janeiro, se casou com Oswald no cemitério, diante do jazigo da família dele em São Paulo. Em setembro nasceu seu primeiro filho, Rudá de Andrade, e ela embarcou para Buenos Aires três meses depois para tentar encontrar Luís Carlos Prestes. Não conseguiu. Mas encontrou Jorge Luis Borges, Eduardo Mallea, Victoria Ocampo e Norah Borges. Pagu só conseguiu encontrar Prestes depois, em Montevidéu. No ano seguinte se filiou ao Partido Comunista Brasileiro e passou a publicar a seção A Mulher do Povo no jornal O Homem do Povo (se hoje é difícil ser feminista nos partidos de esquerda, imagina no PCB de 1930…). Esse jornal foi proibido pela polícia após os oito primeiros números (todos polêmicos) e foi empastelado pelos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Pagu foi presa pela primeira vez aos 21 anos (seria presa outras 22 vezes durante a vida) em Santos no comício em homenagem a Sacco e Vanzetti, quando um estivador negro foi assassinado pela polícia de Vargas e morreu em seus braços, em agosto de 1931. O cárcere na Praça dos Andradas para onde foi levada hoje é um centro cultural que leva o seu nome.

Quando saiu da prisão foi morar no Rio de Janeiro, numa vila operária onde trabalhou como lanterninha de cinema e tecelã. Debilitada e doente pelo período da prisão e por se alimentar mal, foi socorrida por Oswald. Nesse período escreveu o romance “Parque Industrial” (o primeiro romance proletário brasileiro) e peça de teatro baseada nele. A edição do livro foi financiada por Oswald e foi assinado por Mara Lobo, pseudônimo exigido pelo PCB.

Ainda em 1933 começou uma viagem pelo mundo, trabalhava como correspondente internacional enviando reportagens para os jornais Diário de Notícias e Correio da Manhã (cariocas) e o Diário da Noite (paulistano). Esteve na Califórnia, onde conheceu Hollyood e entrevistou diversos artistas (sonho da adolescência) e chegou a receber um convite para ficar, mas ela tinha sonhos maiores. Passou por Japão, China, Rússia, Polônia, Alemanha, França. Encontrou Sigmund Freud num navio, ficou amiga do último imperador da China, Pu-Yi (aquele mesmo do filme de Bernardo Bertolucci), com quem andou de bicicleta pelos corredores do Palácio da Cidade Proibida. Pagu ganhou dele, na Manchúria, as sementes de soja que iniciaram a cultura do cereal no Brasil. Taí um arrependimento que Pagu certamente teria se soubesse o estrago que a monocultura da soja causaria (e ainda causará) ao meio ambiente.

Na passada pela Rússia se decepcionou com o governo soviético (quem nunca?). Em Paris trabalhou no jornal L’Avant-Garde e como tradutora de filmes. Conviveu e biscateou muito com a vanguarda intelectual francesa – Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard, René Crevel, Benjamin Péret e sua esposa brasileira Elsie Huston (cantora e amiga de Pagu). Usou o pseudônimo de Léonie para entrar no PC francês, foi ferida em manifestações de rua e presa três vezes na França. Deportada para a Alemanha nazista em 1935, foi salva pelo embaixador brasileiro Souza Dantas, que conseguiu recambiá-la para o Brasil.

De volta, incansável, foi trabalhar no jornal A Platéia, em São Paulo e separou-se de Oswald de Andrade. Presa de novo, torturada, absolvida, condenada a mais dois anos de prisão no Rio, figurou nos jornais nacionais como inimiga pública do governo Getúlio Vargas. Escreveu na prisão o romance “Microcosmo – Pagu e o homem subterrâneo” e o enterrou num terreno baldio no intervalo entre uma prisão e outra. Outro julgamento, nova condenação e quando saiu da prisão tinham construído um prédio no terreno onde havia enterrado o romance. Passou por muitos outros jornais e conheceu Geraldo Ferraz (1940) para quem escreveu uma carta autobiográfica. Mais uma prisão, e quando saiu casou com Geraldo. Teve outro filho, Geraldo Galvão Ferraz, e se tornou autora de romances policiais para a revista Detective.

A partir de 1945 passou a trabalhar para a agência de notícias France-Presse, onde ficou por onze anos. Traduziu os maiores nomes da poesia, tentou o suicídio, foi candidata a deputada em São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro. Escreveu em jornal as primeiras colunas de tevê a partir de 1956, encontrou Jean-Paul Sartre e passou a dirigir teatro. Em 1962, com o diagnóstico de câncer, foi a Paris fazer uma cirurgia. Após o insucesso da intervenção tentou de novo o suicídio, voltou pra Santos e morreu três meses depois, aos 52 anos.

Não é fácil contar a vida de Pagu. Deixei de fora muitos detalhes riquíssimos e que contam muito de sua personalidade. Um desses detalhes aparecerá em breve na biografia de Carlos Marighella, que teria sido muito injusto com ela no PCB. (Morro de curiosidade de saber desse entreveiro, mas teremos que esperar.)

Poderíamos lamentar a partida de Pagu tão cedo desse mundo, mas depois de 23 prisões e muitos sonhos e utopias, e também decepções, acho que ela não merecia enfrentar a ditadura militar. Não que exista diferença entre ditaduras ou que a ditadura Vargas tenha sido mais amena, mas Pagu seria um alvo fácil demais e certamente teria sido trucidada.

Já virou livro, livro de fotografias, centro cultural, música e filme. Pouco para tudo que foi e fez. Pessoas tão intensas quanto Pagu não cabem em nenhum formato, não se condensam, resumem, mas é preciso conhecê-la, ser íntima dela e de sua rebeldia visceral e contagiante e, como ela, é preciso arriscar-se, tentar.

Acho que não preciso justificar o caráter biscate de Pagu, né? Sua vida justifica. Assim como essa frase:  “Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre” – Patrícia Galvão, nem santa nem puta, só Pagu.

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Link para comprar o livro Viva Pagu, de Lúcia Maria Teixeira Furlani com 400 fotografias.
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40 ideias sobre “Precisa ser muito mulher para ser Pagu

  1. Valeu pelo post, Niara. Adoro Pagu!!! Tenho no meu desktop a imagem dela com a frase que vc cita – p/ não esquecer nunca de continuar cometendo o crime sagrado. Amei o texto! Lembrei de voltar a embelezar a vista com o Caderno de Croquis que ganhei do fofo do Tiago Costa ;)

  2. Nossa, que texto lindo, lindo, lindo!
    Sou apaixonada pela Pagu e pelos olhos tristes dela, pelas atitudes dela… E o texto retratou muito bem o quão revolucionária (e biscate!) ela foi. Meus sinceros parabéns! Biscatagi de primeira.

  3. Obrigada pelo post.
    Cara, essa de enterrar o livro num terreno baldio e depois ver um prédio construído em cima eu não sabia não…
    Aliás, muito pouco se soube de Pagu, né?
    Por que será?
    Sorte e saúde pra todos!

      • Concordo! afinal ele é o cara mais indicado para isso! Esteve aqui em Pelotas lançando Os Últimos Soldados da Guerra Fria e mostrou toda a sua emoção que vai além do ato de escrever, mas sobretudo, a paixão em conhecer e compartilhar a vida dos que lutam por justiça. Bela idéia!

      • Lembrar e discutir Pagu-Patrícia é sempre interessante, para clarear fatos de sua história tão complexa. Em seus últimos anos de vida Patrícia Galvão detestava ser chamada de Pagu – queria ser reconhecida como pensadora, intelectual da cultura (não mais como musa do Modernismo ou como militante política, decepcionada que estava com o PCB). De 1954 a 1962, até morrer, atuou como jornalista em Santos, divulgando teatro e literatura de vanguarda, fazendo pontes entre a cultura produzida na cidade, na capital paulista e em cidades como Paris. Quem quer saber mais sobre essa Patrícia Galvão recomendo a leitura do meu livro “De Pagu a Patrícia – o último ato”, lançado em 12 de dezembro de 2012 pela Dobra Editorial (à venda no site da editora e da Livraria Cultura) por ocasião dos 50 anos de morte de Patrícia. Detalhes no blog depaguapatricia.blogspot.com.

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