Rainha da Bateria

Por Marília Moschkovich

Este texto é sobre uma personagem ficcional, inspirada livremente em Haonê e Vânia Flor (musa do Salgueiro/2012)

Um dia ela quis.

A família foi contra. Nem ligava, ela iria mesmo assim. Sair nua no carnaval. Nua inteirinha. A arte da pintura corporal a adornar. Nada mais. Nem tapa-sexo. Não tinha sequer certeza de que seria permitido.

Candidatou-se. Os 118 quilos não eram impedimento legal, confirmou com a advogada. Sambava melhor que qualquer magra. Animava a bateria. Tinha uma voz incrível e um fôlego incomparável. Cantava e sambava, ao mesmo tempo, a distância do sambódromo inteirinha. Era uma verdadeira sereia do samba.

Amava mulheres. Era, além de tudo, lésbica. Preta, pobre, gorda, lésbica e, claro, mulher. Ela que sonhava em sair nua no carnaval.

O feito rodou as notícias, a mídia. Vieram repórteres de todo o Brasil, do mundo. Se ela conseguisse o posto de rainha seria a primeira gorda e a primeira lésbica a comandar no pé uma bateria do grupo especial. No começo estava até tímida com tantas perguntas. Não gostava de revelar o peso, nem a idade. Os repórteres insistiam. Ela lá, firme. Importava o peso? “Já não dá pra ver que sou gorda?”, retrucava.

Perguntavam sobre a família, afinal, duas mulheres de mais de 100 quilos que têm um filho e uma filha não é exatamente o padrão do comercial de margarina. Biscates, desafiavam o mundo inteiro com sua mera existência. Que não é mera coisíssima nenhuma, vale dizer.

Imoral. Pronto. Como são geralmente as biscates, ela era uma verdadeira imoral. O mau exemplo em pessoa. Ninguém escolhe nascer negro, claro, mas ela podia fazer um regime. Exercícios. Cirurgia pra reduzir o estômago. Podia não se casar ou tentar um tratamento para resolver os problemas psicológicos que levavam “ao homossexualismo”. Podia fingir casando-se com um homem. Podia não desejar sair pelada pela avenida.

Ofensa. Foi esse o tom das respostas pela internet. Ofensa pelo amor que ela nutria à sua companheira. Ofensa por seu corpo. Ofensa por seu desejo carnavalesco. Enfim não foi eleita rainha da bateria.

Indagada pelo repórter, o último que veria em sua vida de curto flash midiático, como lidaria com essa derrota, com a frustração de não realizar o sonho, respondeu:

“Derrota seria não tentar” e acrescentou, ainda, esmigalhando o tom de autoajuda que a imprensa tanto gostaria de levar ao ar: “Meus fãs ainda poderão me ver. Fui convidada pela escola de samba Unidos do Tupiniquim, em São Vicente, para comandar a bateria. Me aguarde!”

Certas biscates não desistem. Que bom.

PS. Inspiradoras mulheres…quando ser biscate é ter coragem: A Musa (Haonê) e Vânia Flor (musa do Salgueir/2012)

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18 ideias sobre “Rainha da Bateria

  1. To contigo lindona…se assumir esse é o vedadeiro barato…gorda, lésbica, preta, pobre…e daí…mulher linda sexy…se ela se sente assim…maravilhosa!!!

  2. Não sei porque o título de biscate pra uma mulher livre,sempre fui livre e não acho que sou biscate,claro na boca dos invejosos eu fui tudo,mas se eu disser que sou biscate porque sou livre vou estar endossando o estereótipo que eles maldosamente quiseram me dar,e eu não aceito estereótipos.Ser livre não significa ser biscate,ser vagabunda,ser vadia,significa fazer o que tem vontade e não ser escrava de estereótipos vulgares,foda-se os estereótipos !!!!!Não caiam nessa mulherada.

    • Verusca, acho que você não entendeu muito bem. Tem outros textos aqui no blog que explicam por que escolhemos a palavra “biscate”. Ser livre não significa ser biscate no senso-comum (que acha que biscate é um xingamento, como você mesma está dizendo). A nossa ideia é trazer um novo significado a esta palavra tão estigmatizada. Ser Biscate é ser livre. Ser livre é, nesse novo significado, ser biscate. Recomendo a leitura dos outros textos do blog!

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