Uma Receita Para o Amor

Aos domingos, aqui brincamos de contradição. Porque não há nada menos biscate que modelos, fôrmas, padrões. Mas, como somos ariscas, inventivas e corajosas (e não modestas, dispensamos essa) escrevemos receitas. De comida a comportamento sexual, arriscamos. E como quem, em vertigem, aproxima-se do abismo, hoje temos receita de relacionamento. Quem vai?

“É preciso matar bem. Matar mal é uma desgraça para o toureiro e para o touro. Para o toureiro, porque não faz honra a seu nome: matador. E para o touro porque é uma traição à sua bravura. Antes de atraí-lo, sabe-se com que chifre atacará. Uma boa estocada é sempre o resultado de uma boa faena. Em toda boa faena, há um momento em que o touro se deixa investir, pedindo para morrer. A estocada ideal,  deve ser no alto do cangote, na cruz, onde se juntam as omoplatas. Há três coisas fundamentais para entrar e matar. A primeira é matar recebendo…*

Faz muito tempo que revi O Matador, de Almodovar, mas lembro bem que não é um filme fácil. Nem mesmo é um filme bonito. Mas é o mote da receita de hoje. Hoje, eu falo sobre o amor. O Matador é um filme sobre o amor. Uma pergunta sobre a possibilidade. Um filme também sobre matar. E morrer. Que são outras formas de dizer: amar. Logo nos momentos iniciais, tourada e sedução se equivalem, mulher/toureiro/touro/seduzido num balé, num jogo, num encadeamento que só pode conduzir à rendição e à morte.

Amar é uma morte. Um assassinato consentido. Morro eu que não te conhecia, nada sabia de te querer, de ansiar por não existir. Morro de falta de ar, de falta de espaço, de falta de tempo. Morro. Não à toa o orgasmo é também chamado de pequena morte. Morre-se de gozo. E mata-se, claro. Tenho ganas de matar este outro que é tu sem mim. Quero-te sem ar, sem chão, sem norte e sem sorte a não ser a minha mão.

É preciso matar/amar bem. Com honra. Com orgulho de ser um amador. Respeitando a coragem de quem se entrega. Admirando quem se lança ao abismo de olhos abertos. Matar mal é uma desgraça para quem ama e para quem é amado. É preciso, sim, é extremamente preciso, uma boa canseira no amor. Brincar de gato e rato. Brincar é preciso: o riso, o canto, o encanto. Em todo embate amoroso há, gloriosa, a rendição. Eis aqui meu cangote, perfura-o com teu desejo.

É preciso, repito, matar/amar bem. Quem ama precisa estar pronto para dar a estocada final. E para recebê-la, claro, com um sorriso e meio grito nos lábios. Ou com um leve arfar, se for seu estilo. Ah, é preciso matar recebendo. Recebendo o outro inteiro, inclusive no seu mortal desejo. Recebendo sem nojos, reservas, dissemedisse. Receber a morte do outro e sua morte no outro.

O amor não é uma luta, uma batalha, uma guerra. Não há inimigos nessa morte, há cúmplices. É muito mais uma dança, um pareamento de matadores e touro, um sortilégio de sermos sempre os dois, pois no anúncio de Lacan: todo amor verdadeiro é recíproco. Somos algozes e vítimas de nós mesmos. Num abraço mortal, mato e morro, amo. E se não é a felicidade, é o gozo, e não se anda, em verdade, querendo mais que isso.

Esse amar assim, biscate, livre e entregue, demanda coragem. De dizer: quero. E de ouvir o que vier. Coragem de ouvir o não, claro. Nós, biscates, dizemos que não aceitamos a passividade, que não nos submetemos à demanda da sociedade de ficarmos à espera do interesse do outro. Dizemos, aqui no blog: enuncie seu desejo. Permita-se conhecer o seu querer, ser senhora da sua vontade. Mas, é claro, não há garantias. Ser capaz de anunciar o querer não torna o que se quer um dado consequente. Apenas nos tira da posição de objeto. Pode-se dizer: desejo! e ouvir: eu não! Pronto. Ponto. Vai-se ali, chora um pouquinho, descansa um pouquinho, lambe a ferida, reclama com os amigos, lateja a falta. E segue. Tão importante quanto respeitar o nosso querer é respeitar o não-querer do outro.

Mais coragem, ainda, eu digo, precisamos pra ouvir o sim, quando oferecemos um amar biscate, livre, transparente. Se dizemos: quero! e nos respondem: sim! ficamos nús, vulneráveis, expostos. Querer dói, porque nos lembra a incompletude. A nossa. A do outro. Aponta-nos o limite e o horizonte. Dói de um jeito que é gozo e riso, que não se espera que acabe. Esse amar biscate nos lembra que o nosso querer não dita o do outro e que, ambos, são inscritos no tempo. O amor sempre acaba. Ou porque acaba a vida que o mantinha ou porque acaba em vida e, às vezes, acaba com ela. Cruzar olhos sabendo ser a última vez quando se queria tanto mais é de uma beleza atroz. É preciso coragem.

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10 ideias sobre “Uma Receita Para o Amor

  1. “Tão importante quanto respeitar o nosso querer é respeitar o não-querer do outro.”

    Uma coisa é fato: Nós não sabemos lidar com o não.
    Quando temos que dar, ficamos receosos de magoar o outro lado, mesmo sendo ele a nossa vontade. Quando temos que receber, ficamos com nosso “orgulho ferido”.
    E também ainda não sabemos enunciar nossas vontades e consequentemente, lidar com as suas consequências… Como eu postei aí outro dia… Biscate em formação…

    PS: Que texto LINDO!

    • Sueli, talvez quando você diz que “nós” não sabemos lidar com o não, você esteja querendo dizer: eu. Uma coisa que fui aprendendo na biscatagem é não generalizar nem deduzir comportamentos, sentimentos e pensamentos pros outros. Eu conheço um monte de biscate que lida com o não bem assim como como eu disse: sofre e segue. E que quando é hora de respeitar seu limite e dizer não também o faz com serena certeza. Brigadíssima pelo LINDO! ;-) e somos todas em formação, né…

  2. O texto é lindo. Assisti o Matador há muito tempo e tb achei um filme bonito. Lembro a cena quando ela estava na arena assistindo a tourada e reconheceu no toureiro o seu par. E a cena da morte simultânea com a câmera de cima e os dois deitados num chão coberto de pétalas de rosas vermelhas e sangue, é de uma “beleza atroz”. Mas bem, entendo o que Sueli falou: “nós” não sabemos lidar com o não” que damos ou que recebemos. Acredito que aprender a lidar com isso faça parte das biscates em formação.

    • Betânia, você tem toda razão, essa cena é belíssima…quanto ao que a Sueli comentou, também entendi, eu só quis pontuar – porque acho que também faz parte da nossa aprendizagem biscate – que é sempre mais pertinente, em colocações sobre sentimentos e pensamentos, falar a partir de si mesma, como sujeito. As generalizações costumam buscar caixinhas que não nos cabem, né? ;-) Beijos, comente sempre, o clube é nosso o/

  3. Não foi a minha intenção generalizar, mas falei de mim e de pelo menos algumas pessoas que cruzaram meu caminho e que um dia eu tive que dizer não. Eu demorei muito a aprender a dizer (receber já foram tantos que hj em dia já lido bem melhor com isso), e quando finalmente aprendi o poder que o não tem e que SIM, eu posso dizê-lo, fiquei surpresa com a reação das pessoas que o receberam. E não foram reações do gênero “sofre e segue”, como eu também aderi, mas foram reações do gênero: “como vc ousa dizer não para mim?”. Até perdi amizades por causa dos meus nãos. Mas não me arrependo, afinal, eu tenho que lidar com os nãos que recebo e ficar bem. Quem quiser permanecer do meu lado, seja amig@ ou amante, terá que lidar com isso.

  4. Sabe o que eu fiquei pensando, com o texto e lendo os comentários, que a nossa sociedade é atravessada pela lógica do consumo. E isso invariavelmente afeta todas as nossas relações, ainda que sejamos crítica, ainda que sejamos combatentes. Na lógica do consumo não cabe o não, se vc tem capital o não, não existe. Ai, talvez, se apresenta a subversidade do não, ele não é apenas a manifestação do seu desejo ao outro, ou a ausência de desejo, mas também o rompimento com a lógica do consumo,será? Acho que é muito mais complexo do que lidar bem com o não, porque não diz respeito só aos indivíduos dessa e daquela relação, mas de todos nós, dessa sociedade em que o gozo está no consumo. Fora isso, mudando um pouco, mas não pulando fora. Eu tenho pra mim uma questão, que a princípio parece ser contraditória. Defini há pouco, que o sexo é bom, o outro pra mim é bom quando me dá vontade de viver, e, talvez, é ai onde mora o amor, aliás é um plagio bem descarado do Caio Fernando Abreu. Mas aí temos o amor enquanto morte e o amor enquanto vontade de viver? Isso tudo me deixa muito aqui com meus botões!

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