As biscates também são mães

Por Silvia Badim*, nossa Biscate Convidada

Sim, é muito biscate poder ser mãe quando quiser, quando surgir a vontade de gerar uma vida, ou adotar uma vida para seguir junto com a nossa pelo caminho afora. A vida que nasce é uma vida biscateada se vem do prazer, do gozo de se permitir ser. Se vem da vontade lá de dentro, do útero – como metáfora – de dentro, porque biscate é mãe pela vontade. Quando a gente já sabe, e já pode, governar o próprio corpo. Ainda falta muito para que possamos assumir essas rédeas completamente, eu sei, mas a gente tenta.

Biscate sabe que filho vem do mais profundo amor de escolha. Uma biscate é mãe porque escolhe viver o ser mãe. É mãe que vibra a afirmação: eu quero. E sabe sem reticências que poderia não ser, e tudo bem. Mas a gente pode optar por deixar a barriga crescer e parir e embalar e cuidar de um novo ser. E pode deixar o desejo crescer e adotar e embalar e cuidar de um novo ser. Porque parir e criar pode ser cheio de prazer feminino.

Uma biscate curte o próprio corpo mudando, a barriga crescendo ou a vontade crescendo, e sabe que barriga e bunda e peitos são seus, e não apenas veículos de alguém que nasce lá de dentro. É peito-mulher e peito-leite, e vamos ao que interessa: a vida, que está aí para ser vivida até a última gota.

E eis que uma biscate é mãe, e tem essa pessoinha grudada em suas pernas, embalada pelos seus braços e aconchegada no seu colo tão farto de carinho. E então tudo se amontoa e respira junto com a gente, tudo que vem da filha ou da gente mesmo, tudo que vem das mamadas vorazes do bebê e dos desejos da mulher-mãe que oferece os seios. E claro, não há dúvida para uma biscate: só podemos ser as mães que somos como sujeito, e vivemos esse monte de coisas que pedem para serem vividas: trabalho, amigos, leituras, sexo, e o que mais fizer parte da gente. Somos esse todo que pede pulso, e que se move intensamente rumo ao anseio de viver feliz.

Os desafios não são poucos, e sabemos que mãe tem preguiça, tem sono, tem mau humor e dias de querer ficar sozinha. Tem tarefas aos montes, dias conturbados, dias derrotados e cinzas de doer a vista. Mas e a gente aprende a pedir ajuda. A gente aprende que o filho é nosso e é do mundo, e que nossos momentos preciosos são tesouros que não se negociam. Entre uma hora aqui e uma fugida acolá, seguimos. Uma biscate respeita seus momentos, para poder voltar mais inteira como mãe. Para poder ser mãe feliz.

Uma biscate trabalha, geralmente, e é provável que seja daquelas que ama o que faz, e se dedica para além dos afazeres burocráticos. Sim, uma biscate sonha e se empenha, e agarra as jornadas com suas pernas de andar firme. E o filho ou a filha, nesse tempo, fica na escola sem culpas: às vezes parte do dia, às vezes o dia todo. Às vezes na casa da avó, às vezes na tia, às vezes no vizinho  ou como couber no arranjo cotidiano. Faz parte da vida, e uma biscate sabe que a perfeição não existe. Ela vai lá, encontra a escola, discute a rotina, decide, pensa a educação partilhada e o filho no mundo. Ou, simplemente, agarra o que a vida oferece sabendo que nem sempre pode ser o melhor, mas é o possível. Pensa em si individuo, no filho individuo que vai e volta e nela que vai e volta cheia de coisas para trocar.

Uma mãe-biscate é individuo que faz sexo, e mais: que gosta de sexo. Sim, gosta com todas as letras e sabores. E sabe que mãe feliz é a mãe que goza, que não faz o filho de falo, que não projeta na filha a insatisfação da falta de gozo livre e pleno de prazer. Pode ter ou não ter casamento, pode ter namorado ou namorada, pode ser só, ter relação livre, poliamor, tanto faz, o que importa é a tentativa de felicidade. Pode doer, claro, uma biscate chora e sente os espinhos nas suas extremidades. Mas, sem receita de bolo ou fórmula mágica, vamos rumo a tudo que puder, ao que der, àquilo que seja vibrante e cheio de sorrisos.

Uma biscate não quer os padrões que engessam quaisquer realizações pessoais ou sexuais. Uma biscate-mãe-mulher se quer inteira. E dá uma banana para o dedo em riste e o moralismo de fundo de quintal. “Resolvam-se”, pensamos. E vamos em frente. Assim seguimos e assim o filho vai crescendo junto, a filha vai ganhando o mundo, e a cria desabrocha com a mãe-biscate de sorriso grande. Filho precisa é de amor, e isso uma biscate tem de sobra. Para o que der e vier.

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Silvia Badim é uma santista morando em Brasília, escrevendo no blog Estranhas Entranhas, gostando de Nina Simone, Bob Dylan, Billie Holiday e Chico Buarque. Diz ela, com auxílio dos Mutantes, que “seu peito é de sal de fruta, fervendo no copo d’água”, nós achamos que ela escreve lindamente espalhando sua entranhas vermelhas por aí e aqui. Você pode conhecê-la melhor na sua página do Facebook.

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18 ideias sobre “As biscates também são mães

  1. Fiquei tão feliz de encontrar esse texto aqui. Essa semana falei sobre a (quase) a mesma coisa: defendi o direito que os pais tem de ter uma vida sexual e afetiva livre . Sobre o seu post: amey, amey, amey. Muito bem escrito e que coisa, poético. Abalô.

  2. Muito bom o texto
    Sou mãe e sou biscate. Na época não me programei pra ser mãe (eu tinha 16 anos) mas aconteceu e eu abracei a maternidade já me preparando pra tudo. Apanhei muito e tive que aprender a me virar na marra, mas foi bom e acho que isso me tornou ainda mais biscate, parei de me importar com os padrões e com a moral e os bons costumes e passei a fazer o que eu julgava ser melhor pra mim e para o meu filho independente do que os outros iam achar. Falaram que eu era uma mãe desnaturada por colocar ele na escolinha pra poder trabalhar, por fazer faculdade e passar pouco tempo com ele, mas o tempo que passamos juntos é um tempo de qualidade, bem aproveitado. Hoje meu bebeco está ai com quase 3 anos, lindo, enorme e saudável, e desde pequeno já biscateando!

    • Eu tenho a impressão de que vamos além (biscate se elogia assim, na moral?), nós criamos filhos livres e felizes. Daqueles que não passam por cima da liberdade de nin guém, nem mesmo da própria.

  3. e problema de quem tem o dedo em riste, não é mesmo?! porque vai ter que achar alguma outra coisa para fazer com ele: apontar-nos parece perder a graça quando a gente segue em frente e os deixa para trás.
    e o que eu quero mesmo é ser um pai-biscate, porque filho a gente cria, mas não navega.

  4. Pingback: Ser periguete ou parecer periguete? |

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