Na Temperatura Certa

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A calçada ouvia seus passos. Ela sorria. Já nem tentava evitar, ela sorria. Não era boa, sempre tivera uma intuição. Toc-toc, o salto cantava, ela sorria e já findava a tarde. Sentia a brisa no corpo como a carícia de uma amante. Conteve-se pra não gargalhar. Girou o corpo, um misto de elegância e falta de jeito, despedindo-se da rua e entrou em casa. Bolsa na mesa, roupa no chão, cigarro, sofá. Manteve o sapato, claro, o salto fino lhe ajudava a lembrar. Pensou em vasculhar a geladeira, mas estava saciada. Não tinha fome a não ser de lembranças. Irônica, já forjava sua frase de efeito: quem disse que a vingança é um prato que se come frio não entende de culinária ou estava com tanta fome que comeu umas palavrinhas. Ela sabe, já provou: a vingança é um prato que se come de cabeça fria.

Foi em um restaurante que se conheceram, a fumaça do cigarro em espirais refaz a decoração simples e o cheiro bom de gordura e animação. Chegou afobada e com fome, mal reparou nas apresentações que a amiga fez, mergulhou o nariz no cardápio. O corpo todo pedia comida. Depois da animada interação com o garçom a respeito de carne de sol e suas formas de preparo, sentiu o olhar. Ele sabia olhar, ah, sabia, e a fome expandiu-se no corpo. Um vazio ansioso de saber-se vista por dentro. Devorada. O ditado não podia ser mais exato: juntou-se a fome com a vontade de comer.

As espirais de fumaça demancham-se, repara que o cigarro acabou. Decide que um vinho, um tinto, seria bom acompanhamento para o ruminar de memórias. Sôfrega, ela vê o vermelho escorrer da boca e decorar em arabescos o colo. Descarta o lenço assim como desfaz-se de todas as lembranças intermediárias. Uma casa construída na areia, hoje está para metáforas. Prefere correr para a recordação de hoje. Preparou com esmero. Aprendeu cedo que, na boa cozinha, planejamento e bons ingredientes são mais da metade do caminho. E fez assim: um quarto em rubro, boa música, velas, ela, ele. Manteve a temperatura: não brinque com fogo, não deixe talhar, acenda primeiro o forno, lembra os dizeres da mãe, enquanto sua e mexe, firme, a panela do desejo, sempre enorme a seus olhos de sempre menina. Primeiro temperou, deixou pegar gosto, depois manteve em banho maria por um bom tempo até que a química se fez e permitiu que os ingredientes se fizessem um, em alta temperatura.

Deixou que ele tudo provasse, que se regalasse, que se lambuzasse e exigisse, que se fartasse e só não abriu mão do salto. Barriga cheia? Então serviu, quente, o seu adeus. Gostou demais do olhar passando de satisfeito a interrogativo, daí a inquieto, depois ansioso, a seguir assustado e, por fim, desejoso. Gostou de ouvir todos os inúteis argumentos e acompanhar as ineficazes artimanhas. Gostou de menear a cabeça, sacudir os ombros, dizer não. Gostou de apreciar a hora exata em que ele tudo compreendeu e logo negou-se o entendimento e fixou-se numa ligação futura que não existirá. Gostou, gostou, gostou. Gostou especialmente de sair sem banhar-se, o cheiro no corpo, como alho e cebola quando se cozinha, os temperos todos presentes, sentindo o desespero dele como o último e morno pedaço aquecendo a língua. Gostou de ir embora de salto 15, do som do sapato na calçada, do novo balanço no corpo, mais leve, gostou da sensação de saciedade, gostou do prato inteiro, foi bom em preparo, execução e apresentação. Comida de butequim, ele lhe disse que ela era. Nunca, nunca defina um prato pela sua apresentação. Pois sim, quem disse que vingança é um prato que se come frio?

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