Requebra, Sim!

Existe uma energia vital que mora ali, por entre os quadris e a pélvis, por entre o umbigo e as pernas inquietas. Alguns chamam de kundalini, outros de energia tântrica. Alguns, mais ousados, de tesão. Outros, quem sabe, de desejo. E tem aqueles também que só conseguem sentir arrepios, e não colocam em palavras o impronunciável. Mas o fato é que ela existe. Ali, escondida, percorrendo o sangue e os órgãos mais íntimos, fazendo com que todos sintam, mesmo que timidamente, uma corrente elétrica acordada e dispersa pela cintura. Formigamento fresco de quase noite. Luz quente do nascer do dia.

Energia que invade sem pedir licença. Se não a queres, ou não a entendes, corra. Mas já aviso: correr é vão. Ela persiste, e se não for canalizada é capaz de estragos grandes, chamados carinhosamente de traumas e bloqueios. Pode-se até chegar a uma tal infelicidade, uma neurose ou um surto, daqueles bem desgovernados. Isso porque ela é pulso, e sua força devasta os pensamentos e controles, dos mais ousados aos mais moralistas. Chega até nas velhinhas ajoelhadas pedindo perdão, ou nos moços casamenteiros desejando a moça virgem, pura, protegida dessa devassa e ingrata energia.

Mas não tem refúgio. O corpo tem voz, e a energia é respiro. Ela fala por si, percorre os ossos até chegar ali no umbigo, faz as pernas moverem-se sem sentido e a fala titubear sem reza salvadora. A boca fica seca de repente, de uma sede que não passa. Água, suco, cachaça, nada faz passar a tal sede voraz, que parece consumir tudo por dentro.  Pode-se tentar chá quente, raiz forte, sossega leão aos montes, mas eu já tinha alertado: ela é persistente.

Nessa hora é que uma biscate alivia-se: a gente pode. A gente se permite cultivar e brincar com a energia pelo corpo. Reverenciamos. Acolhemos a força com os braços abertos e a vontade grande, férteis de seus encantos e poderes. Quase uma explosão de vida que salta incontida pelos olhos, pelas mãos e seios e, claro, pelos quadris. E aí a gente rebola, sim, é claro que a gente rebola.  Rebolar é dar vazão à força, é cuidar do canal aberto, é fluxo e gozo permitido. Pode rebolar dançando, rebolar andando, requebrar até o chão sozinha ou na festa cheia de gente. Subir na mesa, no palco, rebolar no banheiro ou no supermercado. Pode rebolar no sexo, rebolar na rua, rebolar no baile funk, no samba de fundo de quintal, na gafieira, no clube tecno, no show de rock. É, até no rock pode. Porque se não pode, a gente inventa.

Rebolar é movimento intenso, que faz circular tudo por dentro e por fora, que chama e convida todos aos olhares mais profanos e mais sagrados, aos prazeres mais místicos e mais mundanos. Tem julgamento, sim, e como tem. Mas no fundo, no fundo, todo mundo quer dar uma reboladinha, né não? Nem que seja lá escondido em pensamento ou em sonho inconsciente.

Mas essa gente nossa, biscateada, quer mesmo é rebolar sem disfarces, fazer a festa acontecer, soltar a música que vem da energia-mãe de toda a natureza, da força criadora e entusiasta do prazer.

E é por essas e por outras que uma biscate passa assobiando, requebrando e cantarolando:

Requebra, requebra, requebra sim… pode falar, pode rir de mim…

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