Uma Biscate de Classe

Por Luka Franca.*, nossa Biscate Convidada

E aí que um dia recebo pelo Facebook um convite inesperado, a Luciana me pedindo uma contribuição para o Biscate Social Club. Já se passou quase um mês do convite, mas finalmente entre um espacinho da militância e outro consegui sentar, formular e escrever algo para cá.

A questão é que a máxima de santa ou puta é algo premente na vida de toda mulher, você viver a sua sexualidade de forma plena, quebrando os tabus é algo que será alvo de repreensão, ou por que uma mulher na sua posição não deveria se comportar deste ou daquele jeito, ou por que na sua família acham estranho tu levares casos para dormir no teu quarto. É óbvio que junto a classe trabalhadora não seria diferente.

Talvez a classe trabalhadora seja tão conservadora quanto a burguesia, e apesar de acreditar no poder de mobilização e revolução desta classe também sei o quão conservadora pode ser e é, nesse contexto, uma mulher se emancipar, principalmente sexualmente não é quebrar menos tabus do que uma menina ou moça que more na região central de São Paulo ou qualquer cidade brasileira, com uma diferença: Se todas as mulheres viajam entre a dicotomia de ser santa ou puta, a tendência daquela da periferia ser realmente tomada por puta e por conta de quebrar tabus no que tange relacionamentos e sexualidade é muito grande.

Porém não apenas individualmente esta repressão por se assumir biscate e mulher dona de seus desejos e vontades, mas também coletivamente, pois normalmente as festas freqüentadas na periferia são tidas como locais que podem beirar ao reino desenhado por Pasolini em Saló. Engraçado que a grande mídia quando fala de casas de swing trata como se fosse algo exótico, e quando se trata das festas de funk é algo completamente repreensivo. Sinceramente acredito que deva ter tanto abuso em festas de funk quanto nas baladas universitárias da USP e da PUC, com casos tão sérios quanto os que são mostrados no Jornal Nacional quando o assunto é baile funk, ou será apenas delírio de boa parte do movimento estudantil brasileiro se preocupando com casos e mais casos de violência sexual ocorridas nos campus universitários? Mas estes não merecem uma série de reportagens como os casos dos bailes funk, porque espaço onde as biscates de periferia se divertem e vão até o chão devem ser criminalizados, fechados. Se for numa festa da medicina da USP é só um acidente.

A questão é no fim não é apenas enfrentar a tua comunidade, o pai, a mãe e a diretora da escola, mas também enfrentar todo um sistema que organiza já para criar um estereótipo completamente equivocado do biscatear da classe trabalhadora, pois aí se é a aproveitadora, a golpista, a puta e tudo mais, aquela que quer subir na vida e apenas isso, sem localizar o que é realmente se emancipar, se impor em uma sociedade tão difícil e já organizada para excluir as nossas formas de expressão mais populares, seja pelo brega, funk, forró. Tudo é tido como menor, baixo e alvo de um preconceito enorme.

Em geral, biscatagem é brega, é brega porque é popular, porque se hoje podemos dizer que queremos ser biscates é porque houve antes as varejeiras, as piriguetes, as popozudas e tantas outras que iam para as aparelhagens, bailes funk, pagodes, forrós e a única coisa que não pensavam era no que os outros achavam delas. Ser biscate é talvez uma das formas mais verdadeiras de se identificar com o brega e popular de maneira mais próxima. Ser biscate é ter classe, é ser brega e é ser popular.

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*Luka Franca é uma militante feminista que ilumina a rua com seu sorrir. Versão feminina do Menino Maluquinho, mulher mãe amante fogosa gostosa guerreira. Ligada no 220 e aumentando a pulsação. Colabora no Diário da Liberdade, escreve no Bidê Brasil e vai mudando o mundo no setorial de mulheres do PSOL e coordenando o cursinho Guerreira Maria Filipa, em Guaianases, da UNEafro-Brasil.

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3 ideias sobre “Uma Biscate de Classe

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