Biscate não tem coração

Por Priscilla Brito*, nossa Biscate Convidada

Uma biscate não acredita em contos de fadas. Não se derrama, apaixonada pelo primeiro “príncipe encantado” que aparece. Fala o que pensa, não aceita desaforo, adora gritar tão alto quanto inventam de gritar com ela. Às vezes teimosa, gosta de saciar os seus desejos, sozinha ou acompanhada.

Como tudo na vida um dia termina, pode acontecer dxs moçxs companheirxs das biscates resolverem terminar o relacionamento, seja ele qual for. Para o restante do mundo, deve ser o fim de um sonho (afinal, muita gente acha que estar junto é pensar em casamento) e é a chance de fazer chover expectativas sobre como as biscates devem reagir: se gostava mesmo tem que chorar por dias, ficar com aquela cara abatida de mocinha de novela, despertando a piedade de todo mundo.

Só que uma biscate não é assim. Ela não gosta dessa cara murcha de mocinha sofredora. Ela acha que é perda de tempo ficar no chão esperando abraços de quem está tão ocupado resolvendo a sua própria vida. Biscate machuca o pé, mas levanta para logo sair por aí sambando, procurando outras maneiras de ser feliz.

Ao ser assim, uma biscate logo vira alvo de comentários (novidade!). Começam a dizer que ela não amava de verdade. Não é uma moça decente, não pode casar nem ter filhos, porque não é de confiança. E isso porque era a biscate que recebeu o pé na bunda.

É pior ainda quando é a biscate que resolve terminar um relacionamento. Aí é como se dissessem “todo mundo já esperava, ela não é a mulher certa para você” ou que “deve ser porque ela quer viver na gandaia, ficar com todo mundo”. Afinal, ela não é vista como confiável, nunca.

E é uma pena que tanta gente pense assim, inclusive x(s) ditx(s) cujx(s) com x(s) qual/quais a biscate se relacionava.

O que as pessoas não percebem é que a biscate sofre sim. Porque quando ela ama, ama de verdade, intensamente, e ninguém esquece um amor assim de uma hora para a outra. Se o término é recente e você tiver intimidade suficiente para perguntar, provavelmente a biscate vai te contar que ainda sofre em alguma parte, que não esqueceu. O que acontece é que a biscate não resumiu a vida dela àquele(s) relacionamento(s). Ela tem outrxs amigxs, família, gosta de sair, de festejar, de sorrir. Ela sabe que nada dura para sempre, e que nessas voltas que a vida dá, amores acabam para dar lugar a outros.

Uma biscate tem sim um coração, e ele é enorme, capaz amar de verdade, de sofrer, mas também de guardar as lembranças de todos esses sentimentos com carinho e respeito. Só não peçam que ela corresponda às expectativas ou chore para sempre arrependida pelo que passou. Porque passou, e ela sente intensamente que o mundo está aí, repleto de alegrias prontas para serem vividas e de outras pessoas dispostas a compartilhá-las.

.

* Priscilla Brito é uma mulher inteligente, sensível, articulada e militante. Se perguntada, diz que tem problemas de concentração e pensa milhões de coisas ao mesmo tempo. Mas, sabe-se a boca pequena, que além de pensar, faz milhões de coisas ao mesmo tempo. E bem. Entre as coisas todas que pensa, pensa quase sempre em planos de como mudar o mundo a partir das inspirações feministas cotidianas. Para ela, ser biscate é uma coisa,assim, revolucionária. Convidada no nosso clube, escreve mesmo com regularidade é no Audácia das Chicas.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

7 ideias sobre “Biscate não tem coração

  1. Gostei bastante do texto, mas acho importante dizer: colocar padrões de comportamento para biscates não é muito legal. Tem biscate que gosta de ficar em casa comendo chocolate quando está deprimida e tem biscate que gosta de deixar pra lá e sambar até os pés cansarem. O bom de ser biscate é (como colocado no texto – e essa foi a parte que eu adorei) o fato de que não precisamos seguir padrões em qualquer situação, inclusive quando estamos sofrendo. Se quisermos sambar, sambaremos – e, se não quisermos, não há nada de errado com isso.

    • Frederica,

      exatamente por não acreditarmos em padrões de comportamento – não só pra biscates, mas para qualquer pessoa -é que sempre que possível, em prejuízo pro texto, usamos o artigo indefinido: uma biscate e não o artigo definido ou sem artigo, que leva a uma generalização. O uso do artigo indefinido visa relativizar a vivência de cada uma de nós que se dispõe a partilhar sua biscatagi.

  2. Comecei a ler e pensei: danou-se. Não sou biscate nada.
    Mas depois terminei, e o último parágrafo é bem isso mesmo:
    “Uma biscate tem sim um coração, e ele é enorme, capaz amar de verdade, de sofrer, mas também de guardar as lembranças de todos esses sentimentos com carinho e respeito. ”
    Então, eu sou uma biscate que chora, que fica com cara de mocinha abandonada de novela, mas que mesmo durante essa fase, gosta de ficar com os amigos e já sabe que vai guardar tudo com carinho.
    Lindo post, sua biscate.
    E coração ca’s mão procê!

  3. =) também não gosto de generalizações, meninas, acho que tem lugar para todo tipo de biscatagem… E que bom que vcs se identificaram!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>