Das noites. Dos botecos. Das cantadas.

Por Sílvia Sales*, nossa Biscate Convidada

Sou uma biscate da noite, da madrugada lunar, da ventania. Não é pra menos. Nascida às 23 horas de uma quinta-feira, antessala da tão esperada sexta, de mistérios, de (re)encontros, do porvir. Isso talvez, acho – toda trabalhada no fetiche pisciano – deu um empurrãozinho para esse encantamento pelos dias escuros, pelas noites claras de lua e estrelas. Há gentes. Burburinhos. Delícias do anoitecer. E, de boteco em boteco, lá vamos nós.

Música para ouvir, para dançar. Lembranças. Saudades doídas. Saudades boas. Saudades. Conversas ao pé do ouvido. Chopinhos. Risadas, entre um gole e outro. Escrachos. Reencontros e mais gentes, novas. Amantes, decerto, da soberana lua de Jorge, da noite de alegria.

Aí você vai dizer: Vixe! Esse papo seu tá qualquer coisa, você já está pra lá de Marrakesh. Bebeu? Escrevendo do boteco? Quase, porque hoje é quarta-feira, e para biscate não há dia marcado na folhinha para abraçar a noite, seguir rumo ao botequim, deliciar-se. O papo direto e reto? Biscate que curte sozinha a noite, um barzinho, um banquinho, um violão, uma breja estalando no gelo. Ou que curte um brega-corta pulsos sugerido pela Suzana; ou um brega-sambão lembrado pela Renata; ou um brega- Cult, como alardeia o Marcelo; ou um brega-retrô proposto pelo Pádua. Simplesmente apaixonada por uma meia-noite inteira.

Agora, vida de biscate sozinha pelaí nas noites tem seus percalços. Enfrentamentos. Nem tudo são flores. Ainda esbarramos em situações absolutamente bizarras, para não dizer deploráveis. Um chega junto patético, tosco, com cheiro insuportável de machismo no ar. Cantadas indesejáveis. Brucutus.

Amiga bisca, pergunto eu: Donde está escrito que nós não devemos sentar sozinhas à mesa do bar ou ajeitar-se no balcão? Melhor lugar não há. E entornar a breja sem incômodos e inconveniências? Em lugar algum, pois não? Bingo! E, se houvesse, a ordem expressa era transgredir. Por obviedades.

Mas o macho-que-se-acha-fodão ainda insiste (em sonhos de punhetas mal gozadas, por supuesto), que mulher sozinha no boteco está louca para dar pra ele, está caçando um sexo selvagem na madruga que cai e, quase sempre, crê piamente que só ele é capaz de proporcionar todos os prazeres do mundo e das fantasias da night. Rá rá rá rá. Sim, podemos desejar, querer e fazer muito, muito, muito mais. Sozinhas, inclusive. Até aqui, OK? Adelante.

Mas, querida amiga bisca, o desacompanhamento no boteco não dá o direito ao amigo macho de fazer a abordagem eu-sou-eu-e-boi-não-lambe. Nonsense. Peralá, mais devagar com o andor que a santa revida a qualquer tentativa de brucutulidades. Alguém devolve: mas ele tem o direito de “cantar”.

Calma aí. Há “cantorias” e “cantorias”. E você decide se quer, e se gosta. Agora, o que não pode é cantador achar que o “sozinha” no balcão do boteco, e já na terceira breja, significa necessariamente sinal verde para o abraço por trás, para o aconchego ou disponibilidade para o sexo. Porque, né, aí é o machismo “cantando” em alto decibéis. Violência e poluição sonora. E passar a mão na tua bunda assim, sem você querer, sem você pedir, sem você permitir? Por que? Porque você vadia sozinha pelo bar? Menos, põe muitão menos nisso.

A cantada arrebatadora tem que ter “quereres” dos dois lados. Mão de via dupla (mãos). Vontades. De ambos. Cumplicidade. Como se caetanear, tem que mexer alguma coisa dentro doida. Se conjuminar, aí deixa sentar. Noite. Enrosco de pernas por debaixo da mesa, cochichos lindamente convidativos, lambidinhas no ouvido, gemidos no alvoroço, beijo de borrar batom. Aí sim… Leva contigo. Recomendo. Levo comigo e digo em estado de quase gozo: Muito prazer, meu nome é Silvia. Acho que a noite ajuda a gente se ver.

PS: Esse post foi parido após um bate-papo na madrugada (claro,óbvio, sempre, e salve, salve!) com a bisca-mor-cucadospampas-satolepete-sociadessabagaça, a jornalista Niara de Oliveira. Experiências de biscate no boteco a ouvir as mais absurdas e, também, deliciosas cantadas. Porque eu, sozinha.

.

* Sílvia Sales é jornalista, botafoguense, generosa e expansiva que  não tem papas na língua e nem amarras, não gosta de meias verdades, papo-meia-boca ou vida-mais-ou-menos. Uma paraense pai d’égua na luta desde sempre, bordando na areia,  bebendo do rio. Feliz. Uma pessoa como as outras, que você pode conhecer melhor no  Facebook ou seguir no Twitter @silviarsales.

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46 ideias sobre “Das noites. Dos botecos. Das cantadas.

  1. Silvia, adorei o texto. E é bom sempre lembrar. Por mais que a gente ache que a essa altura do campeonato, não deveria ser mais necessário. É, infelizmente. Porque a gente não quer “não ir”. A gente quer o boteco, e quer poder escolher. Tão difícil assim?

  2. Adorei.
    Há cantadas.
    E há o sujeito-se-achando-no-direito-de-por-a-mão.
    E há o balcão, bom lugar pra conhecer gente nova, sem necessariamente querer sexo selvagem na madrugada.
    Não é que a gente não queira nunca, mas tem que saber se aproximar, e sentir.
    Se o sentir for recíproco, que seja o sentir de um tesão de uma noite só, que seja o sentir de algo que começa ali, e não tem hora pra acabar.
    Mas é isso, adorei, seja muito bem recebida aqui com a gente!

  3. Notívagas somos nós! Matutina jamais, né amiga!? Noite é noite até quando o dia amanhece sob as lentes do legitimo ray ban. Mandou bem! Beijokas e saudades dos tour pelos botecos da Berlouka.

    • Gente, que surpresa maravilhosa encontrar você aqui. Fica e não sai mais. Também muitas saudades das nossas noites soltas em Manga City. Obrigada, querida. Beijo, beijo, Sulinha

  4. Mulheres sem medidas são lindamente notívagas. E Silvinha é uma delas…Eu me vi, em seu texto, percorrendo bares e bares em um taxi – ficava à minha espera – pela noite belenense, na década passada. Ah! Tempos fodásticos… Amei, amiga linda!

    • Mulher, se você gostou, me abraça. E olhe, faça logo o roteiro de botecos pra quando eu chegar aí em Recife. Saudades. Super obrigada. Beijo procê, linda.

  5. É isso mesmo, Sílvia. Lindo texto.
    Pelo direito a ir aonde, como e quando bem quiser. De ficar só, por gostar da própria companhia. De se deixar acompanhar, quando houver interesse mútuo… e vontade, muita de preferência.
    Sem ser condenada, rotulada ou interpelada com e por isso.
    Sou tua fã. :)
    beijo, querida

    • Pois é. O texto é apenas um reforço, porque não custa lembrar. Uma honra imensa receber teu comentário, Brenda. Valeu muitão! Beijos!

  6. Minha biscate preferida,
    duvi-de-o-dó se todas as biscastes e “candidatas a” ,não se viram nesse texto delicioso! Consegues retratar fielmente as delícias e augruras das mulheres que amam a noite pelos mais diversos motivos e não porque estão “caçando” companhia.

    Perfeito,Sílvia. Agora,amiga,é fato pra mim que melhor do que estar sozinha, só mesmo desfrutar da noite, um barzinho, um violão e muitos “bons drink” junto a pessoas queridas, especiais e únicas…mais ou menos assim como tu, sabe?

    Beijos!!!

    • Lene querida, você sempre tão generosa e amiga. Muito obrigada pelo carinho, pela amizade e, também, pela caipirinha especial que só você sabe fazer. Cadê a cachaça pra gente brindar a nossa biscatage? Beijos mil!

  7. Amiga Sílvia, inesperadamente o sol da manhã deu lugar à noite que tanto amamos e passeei por antigos e novos botecos. Obrigada pela ode à noite e às biscateiras que nela vivem e persistem.
    Um beijão da amiga velha, gorda e cansada (mas nunca para biscatear, mesmo nas noites de chuva).
    Beth Mendes

    • E desde quando a chuva atrapalha a nossa biscatage, né? Amiga, já perdi a conta do tanto de tempo que a gente tá pelaí nas noites, de boteco e boteco, brindando a vida, vivendo e aprendendo. Obrigada pela companhia. Beijo maior do mundo pra ti, biscate-mor.

  8. As coisas não têm paz, já disse o Arnaldo Antunes. A noite também não tem paz, assim como a palavra sobre a noite não tem calmaria, pede o verbo “enfrentar”. Sílvia foi à luta vã com a palavra e nos deu minutos de imenso prazer. Que beleza! Brindemos.

  9. Sílvia, descobri teu artigo através do face da Alê! Amei! Como tu, também sou da noite e do fim de semana, nascida às 23:30 h de um sábado…rsrs. E também da água, escorpiana.
    Mana, infelizmente os homens ainda não estão preparados para esse tipo de situação (e sabe lá se vão estar preparados um dia!). E acreditam “picamente” no poder de suas cantadas! Costumam pensar só com a cabeça de baixo, que pena! Bj

    • Carlinha, te vi na barriga da tua mãe, e nem imaginas o quanto que estou feliz da gente estar aqui batendo papo sobre essas questões. Olha, de conversa e conversa, de luta em luta, a gente chega lá. Trabalhamos pra isso, e o BiscateSC é mais um espaço para esse debate. Obrigada mesmo pela visita. Volte sempre. Beijo!

  10. Li o texto e lembrei de uma música da Joyce. Poucas cantoras, aliás, marcaram tanto a minha infância quanto ela. Nas “cantigas de ninar” que embalavam o meu sono, o bicho papão era outro bem diferente daqueles que assustam inocentes criancinhas. Desde cedo, aprendi contigo a enfrentar os verdadeiros monstros. E a canção diz assim:

    “Sou de ceder minhas graças
    Não sou aquela que queres
    Pertenço ao rol das devassas
    Não quero que tu me faças
    Igual às outras mulheres”

    Te amo, mãe biscate!

    • Não é à toa que sempre vamos juntas ao show da Joyce. Cantava quase todo o repertório dela embalando o teu sono. Noites e madrugadas. Chorei, filha. Orgulho danado de ti. Te amo muitão, minha biscate linda. Beijo da mamuska.

    • Opa, que bom que gostaste! Venha sempre por aqui. Nós, biscas, adoramos visitas, comentários, participação, bate-papo. Grande abraço.

  11. Coisa boa de ler! Senti uma fluência de bate-papo no texto, sim, mas não deduzi que era inspirada no b ato-papo de verdade.
    Gostei muito to texto-gente, texto carne-senso.
    E, como macho que não canta à toa, ainda assim confesso; um mulher sozinha, ou a duas, numa mesa ou balcão na noite, aguardo a segunda breja, pra aproximação. Pra mi, tudo vai fluir mais claramente; até o NÃO será mais direto.

    • O bate-papo aqui é direto, reto e verdadeiro. O senhor é um cantador, né? E quem não é? Agora, brucutulidades não dá pra ouvir, nem aceitar. Inteligência, humor, gentileza; “cantada” boa essa, né? Obrigada, Gomes, pela franqueza.

  12. Olá, sou escritora e poeta mineira e achei muito legal seu post. Também ja passei por isso, é realmente desconfortante. É uma mente muito pequena dessas pessoas que não respeitam quem está no bar sozinha.

  13. Maravilhoso!! Isso vale também pra festa…bailes em que frequento! Me vi nesse texto… é bem assim que funciona hoje em dia… Não devia mas é… Hoje saio pra curtir uma festa com amigas e recebo cantadas e convites sem o menor cabimento… só pq estou sozinha, sem parceiro?? Então não temos a tão fala “liberdade” pra nos divertir em uma festa ou bar, sem que apareça alguém com um convite como se fossemos “garotas de programa” disponíveis?? Por isso maschamos… pelos nosso direito a liberdade! Pelo direito a usar a roupa que queremos! Pelo fim do machismo!

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