De você para você mesma

Nunca. Nunca mesmo vou me esquecer de um livro que li, com o seguinte título: A Moça e Seus Problemas. Não sei dizer com certeza em que ano ele foi escrito, mas tudo indica que tenha sido no início da década de 50, por um médico chamado Haroldo Shryock. Este livro aborda temáticas sobre  sexualidade e comportamento e fiz essa leitura quando tinha uns 15 anos de idade. Aquele momento decepcionante em que você passa por um sebo, julga o livro pela capa e pelo título, compra e… Enfim.

Como esperado, a obra reflete amplamente os valores morais extremamente conservadores da época. Fala sobre como uma moça virtuosa deveria se comportar, sobre namoro, sobre como a “imprudência” da juventude poderia ser um caminho sem volta para a “perdição”, sobre aspectos biológicos do corpo da mulher, de onde vem os bebês, sobre o que fazer com aquela “coisa nojenta” chamada menstruação e por aí vai. Mas o mais ah, digamos, assustador deste livro é a forma como a masturbação é abordada. Dentre outras questões, há menções de como esta pode prejudicar a saúde e levar uma pessoa – principalmente uma garota – à loucura irreversível.

Você aí, que tem plena consciência de que estamos no ano de 2012 e que agradece por estar livre desse tipo de pensamento acha mesmo que hoje está tudo 100% bem?

Não gente, não está. Conheço pessoas que jamais tiveram coragem de se tocar. Que acham isso feio. Que têm vergonha ou (!!!) nojo. Que pensam que esse tipo de estímulo é imoral e profano.  E penso que este é um resquício daquela época (somado a muitos valores religiosos). Ficariam surpres@s se eu lhes dissesse que essas pessoas que conheço são mulheres? Mulheres independentes financeiramente, inteligentes, queridas… Mas que não conseguem manifestar um amor genuíno pelo próprio corpo. Pessoas que não se sentem a vontade para descobrir a delícia que é dar carinho e prazer para elas mesmas.

Agora, como será a vida sexual de alguém que não conhece o próprio corpo?

Não, eu não sou extremamente experiente no assunto. Não sou médica, nem psicóloga e nem tive vários parceiros ao longo da minha vida. Só que é bem triste pensar que ainda há esse tipo de mentalidade circulando por aí. Que há inclusive quem pregue que é assim que tem de ser. Ainda existe uma permissividade em nossa educação que acha que o ato de marturbar-se é conveniente e saudável para os garotos. Já para as garotas, é sujo e inapropriado, devendo ser coibido.

Masturbar-se não é indecente. É normal, saudável, gostoso e importante. É algo da gente para a gente mesmo. Mulheres, é algo de vocês para vocês mesmas. Não há porque ter vergonha ou nojo. O corpo é de vocês e ele precisa – e merece – que vocês o conheçam melhor. Afinal, como querer dar prazer para alguém se não conseguimos fazer isso nem por nós?

Tive que amadurecer mais um pouquinho para entender que não é a moça que tem problemas… Mas sim aquele livro. E quem, nos dias de hoje, usa argumentos remanescentes dos anos 50 para profanar algo que é tão natural quanto comer, beber água ou dormir.

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9 ideias sobre “De você para você mesma

  1. Muito bom teu texto, Cláudia. É verdade, muitas mulheres têm problemas em se masturbar – e em admitir. É absurda a forma como tratam um tema tão natural, tão importante. Isso ainda é um tabu entre as mulheres. Me lembro que comecei a me masturbar quando tinha aproximadamente 6, 7 anos era algo tão natural e que me dava/dá prazer, mas depois vinha sempre um sentimento de culpa porque eu pensava que estava fazendo algo errado. Não que eu tenha sentido essa culpa no início, foi depois quando me flagraram (rs*). Me diziam que não era coisa de menina “decente”, que era safadeza… Então passei a me esconder e daí que vinha a culpa. O medo de ser vista e repreendida. Mas hoje desencanei dessa “culpa” e vivo livremente, sem restrições em ter prazer com meu corpo. : )

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