Luta, Coragem e Memória: Substantivos Femininos

O assunto aqui é sempre biscatagi, mas tem momentos que precisamos falar sério. Hoje é um desses dias. A nossa tão amada e louvada biscatice e a liberdade para biscatear não seria a mesma não fossem muitas mulheres que se privaram dos prazeres da vida para lutar pela liberdade de todos.

Além de pegarem em armas quando foi preciso na resistência à ditadura militar brasileira e aos horrores que ela impunha ao país, foram elas as grandes responsáveis pela Anistia. Sim, a tão questionada Anistia que era para ter sido ampla, geral e irrestrita — mas que só serviu até hoje para proteger o Estado e seus agentes criminosos, torturadores e violadores de direitos humanos — foi resultado direto da coragem e da luta das mulheres.

“A anistia sancionada por Figueiredo foi parcial, mesquinha e restrita. Não houve pacto. Houve imposição. De uma pequena maioria, num Congresso ainda emasculado pela legislação discricionária, associada à truculência habitual dos trogloditas do regime. Aos que estavam do lado dos perseguidos restou apenas se curvar à correlação de forças e aproveitar os elementos de avanço que a medida de qualquer forma representava (porque ninguém seria louco para se recusar a sair da prisão ou a voltar do exílio).” — observa  Chico Assis, em Os penduricalhos da mentira.

Era a luta possível e mesmo com assassinados ainda ocorrendo no país (vide o caso de Vladimir Herzog, assassinado em 1975, e a lista dos mortos oficiais a cada ano e ainda a lista dos desaparecidos políticos) não se intimidaram e foram à luta.

Foi a advogada Terezinha Zerbini que conseguiu entregar a uma autoridade norte-americana em visita oficial ao Brasil em 1974 uma carta onde denunciava as condições dos presos e exilados brasileiros.

“Paralelo a este trabalho de denúncia, havia um trabalho de assistencialismo aos presos políticos em várias regiões brasileira, realizado por grupos de mulheres, que possuíam familiares e amigos de presos ou exilados. Tais mulheres realizaram práticas políticas na assistência aos presos, naquela época.

A partir de 1975 – Ano Internacional da Mulher – com a fundação do Movimento Feminino pela Anistia no estado de São Paulo, mulheres de todo o Brasil iniciaram a campanha pela anistia política aos presos e exilados políticos.

Inicialmente, a campanha pela anistia assumiu uma forma mais amena, sendo as reuniões restritas a ambientes fechados.  Naquele momento era arriscado opôr-se ao regime militar, cuja legitimidade apesar de desgastada pela crise do Milagre Econômico, era imposta, ora pela força física, ora pela propaganda ideológica. Falar de oposição ao regime militar significava: ameaça de levante submisso e comunista  contra a defesa da ordem democrática.

Mas o clamor por anistia política, entoada por vozes femininas, de mães e esposas que imploravam, ao Estado, o perdão de seus entes queridos não podia ser ignorado. Aos olhos da sociedade, tratavam-se de mulheres dispostas a reconstituir seus lares desfeitos pela “ameaça comunista”.

Com esta justificativa, as mulheres brasileiras iniciaram a campanha pela anistia aos presos e exilados políticos, protegidas pelo papel da mulher na sociedade: defensora e protetora do lar. Naquele contexto, não havia como bloquear a ação daquelas mulheres.

Progressivamente a campanha ganhou fôlego e avançou no cenário nacional e  internacional, dando origem a vários movimentos e comitês pela anistia em todo o país.

No dia 4 junho de 1977, forças policiais cercaram o prédio da Escola de Medicina da UFMG,  e efetuaram várias prisões, minando o III Encontro Nacional dos Estudantes, em Belo Horizonte. O objetivo deste encontro era promover a reorganização da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Neste mesmo dia, várias pessoas manifestaram seu descontentamento com as atitudes do governo militar em relação à sociedade civil. Entre elas, destacou-se o discurso de Helena Greco, assustada com as cenas que havia presenciado e preocupada com a situação política e civil daqueles jovens (homens e mulheres), que reivindicavam uma realidade democrática para o país e o fim de todas aquelas perseguições, censuras e torturas.  As mulheres que se esforçaram para formar o núcleo do Movimento Feminino pela Anistia em B.H., aproveitaram a ocasião para convidar todas as mulheres mineiras a participarem de um ato de protesto contra o governo, vendo na figura de D. Helena, a representante maior daquela proposta. No dia 30 daquele mês foi fundado o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais, presidido por  Helena Greco.

As propostas iniciais do Movimento eram a luta pela anistia política e contra a discriminação da mulher. O núcleo mineiro foi um dos mais numerosos do país, chegando a congregar um total de 300 mulheres. Naquele momento, afloravam, de forma mais explícita, denúncias sobre as perseguições políticas, a situação dos presos políticos, dos cassados, dos exilados, dos desaparecidos e de seus familiares.

O principal motivo de integração das mulheres mineiras foi o mesmo que levou à desintegração do MFPA. Ou seja, a maioria das mulheres que se integraram ao Movimento o fizeram porque este era o único canal de participação possível naquele momento.

O principal motivo que levou o pioneirismo feminino à campanha pela anistia deve-se ao apelo humanitário da campanha. Ou seja, tratava-se de mulheres cumprindo seu papel designado pela sociedade: o de mãe e esposa, transmissoras de valores sociais e protetoras de seus entes queridos.”

(artigo de Anna Flávia Arruda Lanna, MULHERES E ANISTIA: ENTRE BANDEIRAS E FUZIS sobre o Movimento Feminino pela Anistia em Minas Gerais no período de 1975 a 1980)

Se hoje nós podemos biscatear livremente por aí — ou nem tão livremente assim, mas vamos enfrentando as adversidades com alegria — devemos isso às mulheres que subverteram o papel que lhes era permitido e foram além, levantaram bandeiras em nome da liberdade.

Fica aqui o pequeno registro do Biscate Social Club sobre a luta dessas mulheres. E para que essas histórias sejam conhecidas precisamos desarquivar o Brasil e promover o encontro dessa nação com a verdade e sua memória. Precisamos contar oficialmente, e com orgulho, a história da resistência ao horror oficializado pelo Estado. Para que se conheça, para que não esqueça, para que nunca mais aconteça!

Continuamos daqui, levantando outras bandeiras em nome da mesma liberdade.

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E para que conheçamos mais a história dessas guerreiras, assista ao filme “Que Bom Te Ver Viva” — baseado em depoimentos de mulheres (elas estão presentes no filme) que lutaram na resistência à ditadura, foram presas, torturadas e sobreviveram — e baixe em pdf o livro “Luta: Substantivo Feminino – Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura“.

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Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28 de março a 02 de abril de 2012.

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12 ideias sobre “Luta, Coragem e Memória: Substantivos Femininos

  1. Até a minha avó, que nunca foi ativa politicamente, embora não seja tapada, ajudou um militante. Meu padrinho, marido dela, trabalhava em Barra Mansa e só vinha nos fins de semana. Minha tia, filha mais velha da Vovó, estudava na Escola Nacional de Belas Artes e, um dia, apareceu em casa com um colega. O rapaz era conhecido da família, de algumas visitas amenas, mas, naquele dia, estava fugindo. Um apartamento com três mulheres que não tinham participação explícita era insuspeito. O rapaz passou uma noite e um dia inteiro lá. Vovó tremia de pavor só de pensar no que aconteceria se a polícia batesse à sua porta, mas deu toda a assistência que podia. O moço conseguiu fugir e ela não soube mais. Rezou por muito tempo, pedindo a Deus que ele estivesse bem, em segurança.
    Quando o marido chegou, no fim de semana, disse que aquilo era uma loucura. Mas não ficou bravo, nem fez nenhuma crítica — ele não era um troglodita, apenas um marido preocupado. Só disse à minha avó e à enteada, minha tia, que fossem cautelosas. Ele era meio conservador, mas não era insensível.
    Naquela ocasião, minha avó soube perfeitamente o que estava acontecendo no país. Caiu a ficha: um rapaz conhecido, de boa índole, estava fugindo da polícia. Não tinha cometido nenhum crime, apenas protestava contra a ditadura — sim, Vovó sabia muito bem que estávamos num regime ditatorial. Então, ela entendeu. E ajudou como pôde.
    Lembrando disso, enquanto lia seu texto, me bateu mó orgulho da minha velhinha.

    • Que linda história, Renata. Memória é substantivo feminino, somos nós que cumprimos esse papel na família desde sempre na existência da humanidade. O papel de contar casos, do registro da história de cada um, uma. Se ainda não o tinhas feito, está aqui o registro da história da tua avó contribuindo na luta, na resistência à ditadura. :)

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