Não Tem Graça

Esse texto é sobre todas aquelas coisas que não tme graça e só deixam o amargo na boca.

Sabe o que você nunca vai ver saindo da minha boca (ou dedos)? “Você é machista.” “Fulano é machista” “Sicrana é machista”. Eu sempre procuro dizer: esse pensamento é machista, esse posicionamento, esse discurso, esse comportamento…é machista. Firulas? Talvez. Mas eu, apesar de pensar que nós somos o que fazemos – e, dialeticamente, fazemos o que somos – não me sinto confortável em reduzir toda a subjetividade e complexidade de uma pessoa a uma informação/designação.

Tenho cá pra mim que somos forjados e nos construímos em uma sociedade cujos valores e práticas são machistas e, assim, eventualmente, por mais engajad@, militante, atent@ e preocupad@ com o feminismo que formos, vez em quando a gente enfia o pé na jaca, pisa no tomate, escorrega na berinjela e, pluft, repete um padrão, um dito, propaga uma idéia machista. E daí?

Daí nada. Sabe a canção: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima? Eu acho que devia ser bem assim. Quando alguém me faz a gentileza, o favor, a delicadeza de me apontar um comportamento machista (ou racista ou que revela preconceito de classe) eu procuro dizer: putz! Vacilei. E refletir como e porque aquilo aconteceu. E, quando é o caso, se houver alguém diretamente envolvido, pedir desculpas.

É a propósito disso esse post: porque é tão difícil para nós e, especialmente, pelo meu levantamento empírico não-científico, para os homens, admitirem que apresentaram um comportamento machista e repensarem  a situação?

Eu me considero – e não estou sozinha nisso, tem um monte de gente que concorda comigo o que faz com que, caso seja loucura, seja partilhada – uma pessoa bem tranquila e bem-humorada, com um lado Pollyanna que chega a ser irritante. Mas tem uma coisa que me tira do sério fácil, fácil. Quer ver? Coisas como essa:

não tem graça

Outro dia estava eu, passeando despreocupada na TL e pensando nas várias formas como iria me divertir no feriado, quando me deparo com um tuíte mais ou menos assim: “Se a sua namorada disse que não quer ganhar NADA de Páscoa compre mesmo assim. Ela vai ficar indignada se você aparecer de mãos vazias”.

Eu não vou nem comentar a idéia assimétrica de que os homens precisam comprar coisas para as mulheres, sempre e irrestritamente. Vou me focar na idéia que mais me irrita e que converge com a imagem aí em cima. Uma das formas mais insidiosas da cultura de manter o machismo à toda é deslegitimar o discurso feminino. Essas inocentes “brincadeiras” parecem (pelo menos a mim parecem, vocês não concordam?) indicar que uma mulher não sabe o que diz. E quem não sabe o que diz, não sabe o que quer e precisa de…(exato!) tutela.

Uma mulher, uma pessoa, tem que se responsabilizar pelo que diz. Se ela diz que não quer ganhar nada na Páscoa, mas intimamente deseja muito um ovo enorme e cheio de penduricalhos…azar. Se disse que não quer nada, é isso que deve ganhar: nada. Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.

Não me importa que “na prática” seja assim. As práticas são transformadas por ações intencionais, não por favores divinos ou abstrações metafísicas. Se “na prática” as mulheres continuam dizendo o que não querem pra ganhar o que querem e os homens continuam se aproveitando disso pra manter a hierarquia de privilégios, tá na hora da gente, gente que faz (rá!), sair do círculo e marcar posição. Não é não, e não só no sexo.

Ouvir o que é dito é pedagógico. Para o homem que escuta e passa a respeitar a palavra d@ outr@ pessoa e para a mulher que enuncia e tem a estrita fala reconhecida. É tempo de sairmos da explicação rasa: mas é só uma piada. Uma piada nunca é só, ela reflete padrões e pensamentos cristalizados na cultura.

Se você ri disso, tá na hora de rever os seus conceitos…

Toda e qualquer insinuação de: “ela não sabe o que diz”, “ela não sabe o que quer”, “ela diz uma coisa, mas está querendo outra” deve acionar imediatamente nosso alerta vermelho. É perigoso.

E, por favor, não me venham à caixa de comentários colocar uma imagem qualquer com um dicionário do homem onde tem alguma coisa do tipo “quando ele diz pra ela: você cozinha muito bem, quer dizer que ele não tem dinheiro pra pizza”. Primeiro porque não precisa ser nenhum gênio pra ver onde o calo continua apertando (não é ele que vai cozinhar – isso é papel da mulher, e não passa pela cabeça que ela possa pagar a pizza – afinal mulher é tudo dependente e só come porque o homem, generoso, bota comida na mesa). Mas, especialmente, porque se trata de um pareamento artificial. O discurso do homem não é contestado, questionando e tutelado usualmente na nossa sociedade.

Então, pra retomar o papo do início do post, se você, por um momento, achou engraçado esse tipo de situação em que o dito de uma mulher é tratado com leviandade e questionado em sua essência, não argumente dizendo que foi só uma piada, que na prática é assim mesmo ou que você é gente boa e nunca poderia ser considerada machista porque, veja bem, tem mãe e a considera digna de admiração porque ela é uma lutadora. Pare. Pense. Se não doer muito, até diga: obrigada por me alertar. Tente não reproduzir mais o mesmo tipo de idéia. E relaxe: nós vamos continuar errando. O que nos diferencia é continuar tentando não errar.

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68 ideias sobre “Não Tem Graça

  1. Brilhante, sem mais, é isso ai.. acabei de ficar puto mais cedo por conta disso e da resposta arrogante de um comentário completamente imbecil sobre forma física feminina e o como me emputece um assunto bacana, bem humorado e reflexivo invadido pro machismos ou coisas tidas como humor, mas que beiram um trem quarta série ofensivo.

    Essa piada postada, a primeira, fica me lembrando a lógica de alguns estupros porque “ela quis”, “ela insinuou”, “ela disse não, mas queria” e quejandos. A segunda não entendo como se pode ter graça. Será que uma pessoa muda a meu ledo é legal? se é porque uma mulher e não uma boneca inflável?

    Sei que é difícil não ser machista, ainda mais pra gente com o balagandã balouçante, mas qual a dificuldade de em o ser admitir, qual o lance do orgulho besta impedir a reflexão? Dói ver isso, pq é triste, pq é triste vc alertar que as pessoas estão sendo homofóbicas, machistas, racistas e verme que bate um ‘foda-se” na cara ou no comportamento dessas pessoas que acham que como não dói nelas ninguém mais sente.

    Brilhante e não é pq sou coruja, mas pq o texto é foda.

    • Admitir o erro é ter que mudar. E abrir mão de privilégio nunca é tranquilo e eu falo isso sentada num monte: acadêmica, classe média, etc. Por isso acho importante ir assim, de forma insistente e contínua, desenhar, conversar, ponderar, ouvir. Porque o mundo só muda se as pessoas mudarem.

      E obrigada pelo brilhante, ainda mais num texto tão fora do meu estilo.

      • Sim, admitir erro é ter de mudar.. e isso é difícil, sei bem disso com minha persona nada absorvente de críticas.. o lance é esse, se eu não consigo me mudar como mudar o mundo,né? E sim achei brilhante exatamente pela forma como saiu do seu estilo, direta, sem rococós, clara e sem também sair do eixo necessário para a critica.

  2. A vantagem de trocar o “Fulano é machista” por “O que Fulano disse/fez é machista” é justamente essa. Isso evita o erro de dividir o mundo entre machistas e não-machistas (pode trocar “machista” por “racista”, “homofóbico”, etc.) , que, além de impossível na prática (onde traçar a linha?), cria um salvo-conduto pra quem quer que tenha garantido seu lugar no lado “bom”.
    Na prática, não adianta a pessoa ter a história que for de militância libertária e tal. Cada ato em si é machista ou não. (E tenho visto muita gente se sair com essa: como assim, eu sempre defendi a causa das mulheres, vocês não podem me acusar de machismo)
    Aliás, é mais eficiente cada um se assumir machista, homofóbico, racista, elitista, etc. – porque a sociedade em que crescemos é assim, e ainda que numa escala reduzida foram esses os valores que absorvemos e que reproduzimos. Ter a consciência disso é o primeiro passo para diminuir as condutas preconceituosas. É uma batalha sem fim, mas dá pra ganhar.

    • Pensei o mesmo. Todo mundo, por mais bem-intencionad@ que seja, vai acabar tendo comportamento racista/sexista/homofóbico em algum momento da sua vida. Ficar na defensiva com argumentos como “Mas eu não sou sexista, eu sigo blogs feministas no Facebook! E repasso um monte de textos e imagens deles!” faz tanto sentido como dizer “Mas eu não sou misógino, amo minha mãe! ou “Não sou racista, até tenho um amigo negro!”

  3. Uma vez uma amiga compartilhou essa imagem do cinto de segurança para a irmã dela, dizendo que o marido da irmã precisava adquirir um desses. Eu apenas respondi: Ainda bem que quem dirige meu carro sou eu, pq o dia que alguém quiser me calar, olha, vai sofrer. E muito.

  4. Ai, Lu, morro de preguiça disso. Eu particularmente tenho o problema oposto – quando uma pessoa diz algo, eu tendo a ouvir o que ela disse. Não o que ela queria dizer. Então, minhas discussões vão no sentido de “cara, você não pode ficar chateado comigo porque você disse (ou, muitas vezes, não disse) tal coisa, e era para eu ter entendido”… acho que é pra dizer. Então, imagina… eu era aquela que, em época de faculdade, quando me chamavam pra tomar chope e eu tava sem grana (muito), dizia: “eu bem que ia, mas tô totalmente sem grana”. Deselegante, né? Mas era bom. Rolava uma vaquinha, me incluíam no programa. (dúvida: será que eu sou mulher mesmo?) :)

  5. A gente reproduz, sim, comportamentos.
    Machistas, racistas, homofóbicos, preconceituosos em geral.
    Preconceito de classe, de origem, de credo, de tudo.
    O negócio é acordar pensando em não errar.
    E olhem, eu tento fazer isso, todo dia.
    E acho que não tem nem um dia que eu consiga dormir sem perceber que, ao menos em pensamento, no tránsito, na fila, no trabalho, em qualquer lugar ou situação, algo como um “só podia ser (insira aqui um estereótipo qualquer) pra fazer uma coisa ruim dessas”.
    E isso já é bem ruim.
    Mas, como bem disse a Borboleta mais lindjá desse jardim de biscates:
    “E relaxe: nós vamos continuar errando. O que nos diferencia é continuar tentando não errar.”
    Ah, sim, claro:
    Eu acredito que mesmo sendo um tanto quanto “politicamente correta”, eu ainda sou uma pessoa interessante e divertida, né?? rs
    Beijos, Lu, sua linda!

    • Sim, baby, eu acredito que sou interessante e divertida justamente por ser correta. E política. E eu acho que o estar atento e forte – como na canção – é o que conta. Todos os dias erramos. Isso é ser gente. Todo dia tentamos não errar. Isso é ser gente boa ;-)

  6. “Uma piada nunca é só, ela reflete padrões e pensamentos cristalizados na cultura.”

    De novo a velha ladainha de que, se faço uma piada machista hoje, amanhã uma mulher é estuprada. Eu chamo de “Teoria do Efeito Borboleta Social”.

    Esse mecanismo nunca foi provado, mas é alardeado por todos os lados como uma verdade indiscutível desde que ser esquerdinha virou moda.

    Minha dica? Comece a pensar fora da caixinha, amplie seus horizontes, veja a vida como ela realmente é, observe todas as sutis nuances de cinza entre o preto e o branco – o mundo é bem mais complexo do que essa análise simplista e maniqueísta que você faz permitiria abarcar.

    Eu sei, uma vez dentro, é difícil largar, principalmente depois do pesado bombardeamento ideológico a que nossa geração foi exposta durante tantos anos. Mas faça esse esforço, dói no começo, mas não há nada como deixar a luz entrar e abrir os olhos para a beleza da realidade. E depois tem todo o fardo de ser “do contra” na turminha, imagina, ter idéias próprias que contrariem o partidão!

    Mas é o preço a se pagar pela sinceridade intelectual.

    • Gunnar,

      desculpa aí, mas você leu o texto? Onde foi mesmo que eu disse que você conta uma piada e uma mulher é estuprada? Eu não disse, mas posso dizer, que a cultura que sustenta o estupro como crime menor é a mesma que legitima essas piadinhas, mas não uma relação causa e efeito. Seu comentário é tão nonsense que por um momento pensei que era piada. Depois, lastimei, não parece ser, parece apenas que você acha divertido acusar sem refletir ou conhecer.

      Minha dica? Leia o texto, leia o blog e, quem sabe, seja mais gentil.

    • ah, mais uma coisa. se você quiser enviar comentários que se proponham ao debate e aprendizado mútuo, será bem vindo. Os comentários do tipo: vocês são mentes superiores, blábláblá sociedade islâmica, blá blá blá pobres homens… não serão aprovados.

  7. Concordo!! Vontade de passar esse texto para todos os seres humanos com quem convivo, e até para os que não convivo. Essas “brincadeirinhas” sem maldade nenhuma mostra muitas doenças de nossa sociedade. Doença de tempos… Beijos, Roberta

  8. Excelente, eu sempre tento (nem sempre consigo) falar sobre a cultura machista, homofóbica, racista ao invés de apontar o dedinho e dizer que fulano é machista, homofóbico, etc. Pq faz parte da cultura da maioria de nós coisas do tipo.

    É da nossa cultura achar que mulher fala uma coisa e pensa outra. E que “não” quer no fundo dizer “sim” (COMO EU ODEIO ISSO). Eu, quando adolescente inclusive questionava minha feminilidade por conta desse pensamento e concordava (absurdo total) que minha mente era “masculina”, já que sempre fui objetiva, direta, transparente, honesta e some times até meio grossa mesmo. Ou seja, uma mente feminina não é nada disso, olha que loucura.

    Eu tenho também diariamente atitudes ainda preconceituosas em relação a vários assuntos. Cada vez que consigo descobrir uma dessas e me corrigir é uma alegria pra mim. Me sinto orgulhosa de mim mesma, sabe? Até pouco tempo atrás, por exemplo, eu era a torcedora fanática que fazia piadinhas homofóbicas sobre o time adversário. Hoje aprendi o quanto isso machuca e é tão non sense…parei total. =)

    As vezes fico furiosa com certos estereótipos criados, para depois parar e pensar que também é um preconceito meu. Que preciso aprender que todos temos nossa etapa de evolução e assim como eu procuro melhorar a mim mesma, não dá pra sair julgando os que pensam diferente, precisamos emitir juízo de valor sobre ideias, pensamentos, não pessoas.

    Nesses momentos, o máximo que posso fazer é expor minha ideia a respeito, sabendo que vou apanhar de muitos mas que um só pode prestar atenção e achar interessante. E isso vale a pena total…

    Ah, eu sou chata pra caramba. Mas também sou divertida até por isso. =D

  9. Com todo respeito aos demais textos escritos e as postagens anteriores, mas este texto está maravilhoso. Disse o que veio para dizer. Não é não, sim é sim, talvez é talvez. Nossa palavra é nossa, somos donas de nossas vontades e temos condições de assumir o que acreditamos e falamos. Muito obrigada, muito obrigada mesmo por este texto. Me senti liberta com esse texto. Abraço

  10. Gostei muito do texto! Bem escrito, bons argumentos. E não estereotipa os machistas (na contramão de tantos estereótipos construídos para as feministas). Também acho preocupante as imagens depreciativas à mulher que continuam vindo em “piadas inocentes”, que perpetuam pensamentos e práticas machistas. E o pior é que, quando você analisa estas piadinhas e mostra que sua cabeça serve para algo mais do que pintar o cabelo, sempre tem alguém que, ao invés de parar e pensar no que você disse, vem te taxar de feminista radical, bigoduda, mal amada e aí vai. E o mais triste é pensar que tem tanta mulher por aí divulgando estas piadas e estereótipos. É lamentável.
    Também tenho um blog e um dos seus temas é analisar textos, propagandas e fatos que me fazem pensar sobre a condição feminina. Se puder, dá uma passada por lá: http://www.palavrasemtransito.blogspot.com

    Bjs

    Lia d’Assis

  11. Meio chato esse troço de “nossa geração foi bombardeada por anos de ideologia”,etc…. Sei lá eu penso por mim mesmo,escolhi minhas ideologias, companhias, comidas e bebidas.. e essa necessidade de “prova’ é meio encheção de saco, aliás, ladainha grossa de uma galera que fica com um problemão em cima de si quando tem de abrir mão de seus confortável locus cognitivo.

    Se alguém quer provas de algo sugiro leitura, muita, de muita gente de todas as áreas as ciências humanas, e todas, até as conservadoras, ou conservadores como Hayek e primos irmãos, José guilherme Melquior, que tava longe de ser comunista ou anarquista sendo um liberalzão econômico, “estado mínimo, peguemos leve coma igreja” e sem muito esforço ia ver ali que o barato da reprodução de comportamentos, de “leis sociais’ é mato. Aliás cito Durkheim que dizia isso no fim do XIX, inicio do XX, e Durkheim era tudo menos “bombardeador ideológico da esquerda”, e Weber, mesmo período, que de alguma forma identificação a reprodução de valores inclusive como base pra construção de sistemas inteiros (Vide “A Eica protestante e o Espírito do Capitalismo”).

    Então Caro Gunnar, sorry, mas isso ai foi provado sim senhor, embora a relevância da colocação nem necessitasse disso. E foi provado também por Freud, Lacan, Saussure, Levi-Strauss e vamo que vamo em tudo que é área possível que lida com a questão mesmo que indiretamente. Talvez não tenha sido provada na engenharia ou na medicina, mas eu também nunca procuraria um sociólogo ou historiador para extrair um rim ou construir uma ponte.

    E a relação entre piada machista e o estupro não está na ação final, mas na reprodução de elementos que acabam sendo parelhos e mantendo o arcabouço que mantém ambos os comportamentos, bastava ler pra entender.

    Sorry a longuice do trem e se pareceu soberbo, não foi a intenção, mas é que emputece um tanto coisas importantes tratadas como se fossem lixo.

  12. Pingback: Marcha das Vadias 2012 – Porque a culpa não é nossa! : Adriana Torres

  13. Já passei pela desagradável situação de dizer ‘não’ e a pessoa não acreditar em mim e continuar tentando, investindo e eu dizendo ‘não é não, qual parte do não você não captou?’. É muito difícil para algumas pessoas compreender que mulher tem discurso, tem atitude e tem posição firme. Tratar mulher como uma criança mimada e que não tem personalidade é um machismo escancarado para mim.

    Ótimo texto. Abraço! :D

    • Exatamente pela manutenção da idéia de que a mulher não sabe o que diz é que se passa por tanta situação que poderia ser resolvida de maneira direta, não é? Eu costumo procurar o caminho da delicadeza, mas quem tenta me infantilizar ou tutelar não sai feliz não :P

  14. Post lindo, digno de um artigo acadêmico! É justamente a atitude de não tipificar toda a pessoa por atitudes que ela reproduz da cultura, especialmente quando faz isso por ato falho e não por má fé (como alguns blogueiros que agora estão no xilindró andaram fazendo) que precisamos para o dia-a-dia e todas as derrapadas que damos.

  15. Texto brilhante!!!

    Outro dia uma ex colega de faculdade postou algo do gênero do Dicionário Feminino e eu pedi a ela com toda educação e calma que não postasse esse tipo de coisa, pois isso tornava a vida de todas as mulheres, e dela mesma, mais difícil na sociedade. Ela já ficou com raiva bem cedo, porque é daquelas pessoas que odeiam feministas, e disse que não ia parar p*rra nenhuma porque era uma brincadeira. Eu dei como exemplo o “não=sim”, dizendo que um cara já me forçou a ficar com ele e todos a minha volta não levaram a sério porque achavam que eu estava “me fazendo”. Ela então me atacou mais ainda e disse que eu tenho que aprender com quem andar. Me senti super agredida. É uma pena que ainda tenham mulheres que respondam com tanta raiva a uma tentativa educada de apontar um comportamento machista.

    • Uma outra atitude decorrente da cultura machista: culpar a vítima.

      Acho super engraçado (só que ao contrário) o argumento: é só uma piada, como se qualquer produção lingüística não fosse potencialmente agressiva ou difamatória.

  16. Entendo que seja uma questão sensível. Afinal, como minoria social, as mulheres estão expostas à discriminação. Mas eu não associo essa piada do “quando ela diz… ela quer dizer” a “mulher não sabe o que diz”.

    Por acaso tenho um relacionamento não amoroso com uma mulher que se encaixa quase à perfeição no “glossário” referido. Não quero generalizar a partir de um exemplo, mas eu rio não porque ela não saiba o que diz – ela é inteligente e sabe muito bem o que quer. Eu rio porque isso condiz com o fato de ela não querer ser explícita no que diz, de ser taxativa. Há alguns textos, feministas até, que falam da ambiguidade (e mesmo contraditoriedade) como uma caraterística bem feminina – a flutuação de humor etc e tal. Essa pessoa quer que eu adivinhe os pensamentos dela – aqueles testes que algumas aplicam nos amigos e namorados pra ver se estão em sintonia.

    Tenho várias amigas com que me relaciono de modo bem diferente disso. É pá pum. Elas falam não e é não mesmo; sim é sim; de boa é de boa.

    Muito do “glossário” se refere a uma situação de dengo, de charminho. E vários itens nem se referem exclusivamente a uma relação entre mulher e homem ou mesmo entre mulheres. O “sei”, por exemplo, é usado de modo irônico em vários contextos – mesmo entre homens. Mas, no caso de relação mulher/homem, há itens ali que são sim usados para desconversar (encerrar o assunto ou mudar de tema e não continuar com uma conversa por algum motivo desconfortável ou indesejada), para não dar o braço a torcer, para fazer birra, para ameaçar… São situações que ocorrem. E não porque a mulher não saiba o que fala, bem ao contrário – faz isso de modo bem consciente no mais das vezes (pelo menos até que fique algo automático de tanto repetir). Pelo menos é por esse motivo que rio disso.

    []s,

    Roberto Takata

    • Não negamos, Roberto, a existência de mulheres que se encaixam no tal glossário da piada. Elas existem. O que estamos dizendo (a Lu e eu assino embaixo) é que se as mulheres não querem ser tuteladas (e se os homens não querem tutelá-las) e querem que a sua palavra valha quando disserEM não a sexo ou a qualquer outra coisa, terão de aprender outras formas de fazer charminho. Porque não se pode viver nesse dois pesos e duas medidas e não podemos esquecer que muitas mulheres — aí incluídas as que fazem e as que não fazem esse charminho com palavras — se machucam pelo fato dos homens acharem que não de mulher é igual a sim, é “charme”. NÃO É.
      É claro que o puxão de orelhas sobre as piadas é para os homens e mulheres que se dizem anti-machistas ou feministas e dizem combater o machismo. Nos referimos aos homens e mulheres que tomam uma postura diferenciada diante do preconceito mas de vez em quando escorregam neles — e isso é normal — mas tem dificuldade em reconhecer, admitir. Ter uma atitude machista não é ser machista, e estamos todos sujeitos a isso.
      A mudança de comportamento, o combate ao preconceito, transformar esse mundo num lugar melhor para todos é tarefa de todos.

      (estou respondendo também a lithabacchi)

  17. Oliveira,

    Bem, muita coisa tem a ver com a idade tb. Até porque charminho (especialmente desse tipo) pra mulher de mais de, digamos, 24 anos começa a ficar um tanto esquisito.

    Mas não botaria culpa de casos de agressão a esse tipo de conversa. Há homens estúpidos, aos montes, e eles farão coisas estúpidas de qualquer modo.

    []s,

    Roberto Takata

  18. Muito bacana o texto. Não conhecia o blog e vou passar a seguir.

    Confesso que o texto me fez ver a coisa por outro ponto de vista. Eu realmente nunca tinha pensado que esse tipo de piada pode ter de fato um efeito ruim. Concordo que piadas refletem padrões de pensamento, e que é nocivo ajudar a transmitir a idéia de que a mulher não sabe o que quer e precisa ser guiada.

    Há apenas um problema na conclusão: esse tipo de visão é disseminada não porque haja algum tipo de conspiração machista para difamar as mulheres, e sim porque essa situação é muito, muito comum. Esse comportamento nas mulheres não é inventado, é observado.

    Abro aqui um enorme parêntese para dizer que eu entendo que a generalização não é aceitável, e que não se pode atribuir isso a TODAS as mulheres. Mas a parcela de vocês que age assim como na imagem do “dicionário” é tão grande que eu não me espantaria se fosse a maioria.

    Então ok, ao pensar em contar uma piada como essa devemos lembrar que isso não contribui para um mundo melhor; mas é preciso reconhecer que a idéia geral de que a mulher (ou melhor dizendo, uma grande parte delas) não se expressa com clareza não vem do nada. Para cada rara e admirável mulher que é objetiva e se faz entender com facilidade, eu conheço umas dez que justificam esse tipo de piada.

    Seu texto me lembrou muito a polêmica recente contra o dicionário Houaiss, que afirmava que um dos significados do verbete “cigano” era “velhaco, desonesto, golpista”, e sofreu grande pressão a editar o verbete. Algumas pessoas esquecem que o dicionário não inventa os significados das palavras, a língua evolui sozinha e o dicionário apenas registra as mudanças. A impressão das pessoas sobre os ciganos não vem do dicionário, o verbete é que escrito a partir dela.

  19. Sátiro, querido,

    repare bem, em nenhum momento eu afirmei que não existem mulheres que se comportam de forma A ou B. O que eu disse é que não importa. Se o homem (e as outras mulheres) querem um mundo menos ambíguo em relação à mulher, mais equitativo e justo, deve tratar o que ela diz exatamente da forma como foi enunciado. Se ela não ficar feliz, paciência, vai aprender a ser mais objetiva. Minha afirmativa é que é tutelar a mulher manter este padrão de comunicação: ela diz A e ele se sente à vontade para interpretar B.

    Segundo: o “dicionário feminino” não é como o Houaiss, desculpe, mas passa longe. O Houaiss consolida usos consagrados e sentidos vários para um palavra. O exemplo que eu coloquei aí em cima reduz a diversidade de cada palavra a uma interpretação machista e limitante do dito feminino. Eu não falei em conspiração machista, eu falei em estrutura machista, em cultura machista, essa mesma, insidiosa e cotidiana que faz com que, sem reparar, a gente repita padrões e ditos irrefletidamente. E que dificulta, enormemente, que os homens admitam seus equívocos e tentem agir de forma diferente.

  20. Concordo. Brincar de dividir o mundo em times, fulano é isso ou aquilo, é aceitar a natureza das coisas. Então um “homofóbico” por assim ser não estaria nada mais do fazendo a sua função: homofobicar. As ações sim são responsabilizadas e podem ser escolhidas e modificadas.

  21. Eu acho que você não consegue entender a motivação por trás desse “dicionário feminino” e do “não quero ovo de Páscoa” porque é uma mulher heterossexual que nunca teve uma namorada. Se você se relacionasse intimamente com mulheres (e isto não é uma brincadeira ofensiva sugerindo que você deveria), talvez a experiência lhe mostrasse que muitas mulheres se comportam exatamente desse jeito. Não é machismo, é generalização. É errado dizer que toda mulher se comporta assim? Sim, é. Claro que é errado generalizar dessa forma. Mas essas brincadeiras surgem de um padrão de comportamento real, não de uma fantasia que saiu da cabeça de um homem que não sabe enxergar as mulheres como elas são, e que soa engraçada para muitos homens porque eles já passaram por situações parecidas com suas parceiras.

    • Caro Rafael,

      sugiro você reler o texto. Eu afirmo claramente que não duvido que existam mulheres que reproduzem esse comportamento ambíguo entre fala e comportamento. O que estou trazendo pra discussão é que tanto o fato delas se comportarem assim como as piadas que se relacionam com isso são constitutivas de um padrão cultural machista que se alicerça e produz, dialeticamente, oo tutelamento da fala e do comportamento da mulher.

      O que estou ressaltando é que continuar reproduzindo essa situação, continuar rindo e disseminando essa idéia colabora para a manutenção do status quo. O que estou, finalmente, querendo apontar, é a dificuldade do homem hetero sair da zona de conforto e dizer: vixe, é mesmo! e tentar mudar de comportamento.

  22. Atrasado, como de costume, deixo minhas palavrinhas de apreço, Lu. Sempre fico naquela de colecionar frases, sacadas, ironias, chistes, prazeres da língua,… Porém (ai, porém…), dessa vez foi difícil equilibrar tanta belezura nas mãos e não deu pra eleger uma ou duas capazes de dar conta de quanto gostei do texto. Pensei em copiar e colar o texto inteiro pra mostrar aquilo que me apeteceu e aí me dei conta: pouco, muito pouco. Os comentários, em sua grande maioria (alguns desnorteados vieram em boa hora, senão não teríamos respostas tão cirúrgicas), foram tão bons quanto o post. Digo, sem medo de errar: até aqui, o que mais gostei no Biscate.

    Beijos, Lu!

  23. Pingback: Sookie Stakhouse e o feminismo

  24. Nossa! MARAVILHOSO! BRILHANTE! Não conhecia este espaço! Tomei conhecimento através da publicação deste texto por uma amiga no facebook, com o link do site! Com certeza vou divulgar tb! Este texto e quantos outros houver! Esta é uma luta de todOs nós! Parabéns! Adorei!

  25. Pingback: Buraco da Fechadura |

  26. Moça com borboleta nos olhos, gosto bastante de teus textos, viu?

    Confesso que sempre fui tratada como a grossa por sempre dizer o que eu pensava. Nunca fui charmosa, se é que me entende. (rs) Claro que, não assim, aos quatro ventos, mas quando era solicitada. E muitas vezes não acreditavam na minha resposta, porque, né, sou mulher e mulher não pensa assim ou não pensa assado. Já ouvi muito que sou marrenta.

    Como dizem por aí: ah coisa boba! Criando reboliço por isso? Crio e criarei sempre. Tento ao máximo ser coerente com minhas ideologias. Não julgarei uma amiga por se enquadrar neste padrão, mas apontarei a sua incoerência certamente. E quero muito que apontem as minhas, que são muitas. Fico me policiando para aquilo que já abri meus olhos. E para o que ainda não questionei?

    Passo por aqui, leio um texto desses e vou revendo meus conceitos, questionando uns, incorporando outros, pensando, me criticando e aprendendo a ser uma biscate. ;)

  27. Adorei o texto. É tão difícil no dia a dia, e até mesmo para um mulher, perceber onde o machismo se embute, que acabamos nos expressando ou nos comportando de for machista seguindo as linhas do patriarcado sem nem nos darmos conta. Fico me policiando para não cometer alguns erros, mais vez ou outra acabo aplaudindo uma musica ou uma piada machista sem nem perceber. :/

  28. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

  29. Pingback: O moralismo que existe em nós - Biscate Social ClubBiscate Social Club

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