Noite Porreta

Eu adoro viajar. Digo sempre, meio chiste, meio sério, que tenho uma mala permanente no juízo. Eu gosto tudo nas viagens, gosto da sensação de ser cada vez mais eu, sendo cada vez menos o que sei que sou. Em viagem os olhares novos me dizem de uma forma que eu nem sabia. A viagem me desenraiza de mim, permite-me o inesperado.

Como, por exemplo, viajar quase 4.000 km do Ceará a Santa Catarina para ter a noite temática mais divertida de que me lembro: que tal uma noitada nordestina, hein, hein, hein?

Interessantíssimo me reconhecer e desconhecer nos delicados estereótipos, rir dos pequenos equívocos, espantar-me com a abordagem pertinente e precisa. Estar tão longe de casa e sentir, na ponta da língua, o gostinho do sempre: escondidinho de carne de sol, baião, rapadura, farofa, tantos sabores íntimos. E os sons? a sanfona caprichada de Dominguinhos, a saudade de uma eu que nem fui ao ouvir Gonzaga, o sertão se fazendo perto em cada arrastado de sandália. É um lembrar-me: coxa com coxa e o cheirinho no cangote.

noite porreta

E, claro, porque há beleza na nossa sombra, descobri um Nordeste que não é o meu. Você já comeu Bolo Baeta? Pois eu nem sabia que existia. É dali, pertinho, vizinho, sabor Paraíba. Minha querida anfitriã, procurando uma receita pra partilhar na festa, tratou de ligar pra prima e pedir: passa aí a receita. Eu, na espreita. Biscate que é biscate não perde uma boa oportunidade, não acham?

Pois o bolo é fácil que nem eu. Sem surpresas e sem segredos no chegar, agrada quando já é. Tem um truque, claro. Mas é só um e, depois de desvendado, é só correr para o abraço. Tem um liquidificador? Então coloca lá, com jeitinho: três ovos, 3 colheres de sopa de manteiga, 3 xícaras de farinha de trigo sem fermento, 2 xícaras e meia de açúcar e (prestenção no pulo do gato) 3 xícaras de leite quente. É isso: o leite tem que estar quente. Daí passa tudo no liquidificador, derrama da forma untada, coloca no fogo médio por 50 minutos e tchanrã, molinho, saboroso, gostoso: bolo baeta.

Bom com café. Muito. Pra quando o travo da vida se chega, querendo ficar. Pra quando há amargos de saudade. Pra quando o sal dos olhos escorre, implacável. Porque é preciso uma certa doçura pra seguir biscate, sabe. Fica a dica.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

7 ideias sobre “Noite Porreta

  1. Minha famìlia é nordestina, sou suspeita para falar. Adorei a dica e a receita. Justo hoje que tou precisada de doce nessa vida. Caiu como luva. Uma beijuca!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>