Pretas, Escravas, Sinhás?

GUEST POST por Gilson Moura Henrique Junior*

"Negra Vendendo Caju", de Jean-Baptiste Debret

Quando se pensa em mulheres antes dos “modernos” tempos dos séculos XIX, XX e XXI, especialmente pós-1950, pensamos em escravas, em silêncio e na vitoriana figura da matrona massacrada e cuidadora. As negras escravas então são na maior parte as vítimas perfeitas, as ocultas, estupradas, jogadas no fundo do armário da dor onde Xica da Silva era apenas uma exceção libidinosa  e refúgio do preconceito que só dá poder à mulher através do sexo.

Sem negar a opressão, os estupros e a submissão da mulher na cama, na lama, na chuva, na fazenda, às vezes e frequentemente na porrada, será que podemos aprender a complexidade da questão feminina e, por que não, da escravidão com exemplos do contrário? Será que a mulher, especialmente as escravas, nunca puseram a cabeça pra fora desse mar de opressão?

Claro que sim e não só pelas peles brancas de Emma Goldman e Louise Bryant (magistralmente definida neste post da grande Niara), mas também em peles e mãos negras que foram à luta e sobreviveram apesar de toda marca fervente em suas peles de mulheres, escravas e negras.

A condição de escravo há tempos não pode mais ser vista sem a percepção de sua maior complexidade do que a vitimização constante da história oficial, que apequena inclusive a própria ideia de resistência, coloca. A questão feminina também não pode ser reduzida, como tudo aliás, dentro de limites que negam variações e que ocultam construções de resistência e de imaginário de resistência.

Se dos escravos foi percebida a condição de entes e atores que protagonizam movimentos de profunda resistência com revoltas e ações de negociação e conflito que permeiam toda a história da escravidão no Brasil, o que faltava para que entre o todo “genérico” denominado Escravos não fossem percebidas nuances que indicavam protagonismo também de seu corpo feminino?

Assim como João José Reis em seus “Rebelião Escrava no Brasil” e “Negociação e Conflito” nos trazem um belíssimo quadro de resignificação do escravo como mais que uma vítima de uma cruel realidade, mas também como agente e reagente a esta, a historiadora Sheila de Castro Faria nos traz no Dossiê África da edição de março da Revista de História da Biblioteca Nacional o rico quadro das Sinhás Pretas, mulheres que de escravas tornam-se senhoras e não só de sua liberdade, mas de uma forma de pensar que inclusive passa para outras mulheres e gerações o legado de sua liberdade.

Sim, estamos falando de mulheres que se libertam através da competência “profissional” como comerciantes e libertam outras, e conquistam protagonismo social em pleno período da escravidão, em pleno vigor de uma era de opressão oficializada e em especial pela tripla condição de negra, mulher e escrava. Estamos falando de mulheres que já no século XVIII atuavam como comerciantes ao ponto de não só trazerem uma arte de comércio presente em sua região de origem na África, mas dominarem uma parte do mercado e criarem uma espécie de “dinastia” baseada inclusive na aparente solidariedade feminina, negra e, por que não, escrava.

Não estamos falando de mulheres que se libertavam e viviam vidas discretas, com poucos bens e em habitações humildes, mas sim de pessoas que se libertavam do jugo do senhor acumulando riquezas e posteriormente bens que podiam ser deixados, como foram, para suas escravas e as filhas dessas. Interessante notar inclusive que geralmente as Sinhás compravam escravas e não escravos, que preferiam escravas, pessoas do sexo feminino e em geral nascidas na África e que não era incomum que a elas deixassem bens, assim como para suas filhas. Também não era incomum que as Sinhás fossem solteiras, mais um dado incomum para as mulheres deste período.

A condição de mulher, solteira, ex-escrava, negra, que talvez alimentasse páginas e páginas de livros água-com-açúcar na recriação de Isauras e Helenas lacrimosas morre diante do fato destas mulheres serem antes de tudo antíteses da condição comum da mulher no século XVIII, e ouso dizer que também do papel socialmente construído da mulher até hoje.

E se além disso tudo o papel exercido por elas na África e na América fosse um dado de  tal dinamização da economia que merecesse destaque por historiadores?

E se além disso conseguissem o que homens livres não conseguiram?

O papel dos escravos como vitimas da opressão não cabem em uma percepção histórica que os entenda como atores ativos da realidade. Oprimidos sim, escravizados sim, vítimas não. São vivos, resistentes ou não, lutadores ou não, mas ativos.

Da mesma forma a mulher em todos os períodos históricos sofreu com a opressão masculina de diversas formas, sofreu como posse, sofreu com diversas formas de domínio que ainda hoje atuam sobre a condição feminina, porém ainda assim não há nelas a lógica de coitadas, de vítimas inertes à opressão, de não resistentes.

A percepção de uma longa tradição de resistência que inclusive alimentam uma construção de imaginário de luta que vai além do comum e traz também uma tradição de tripla resistência contra a opressão de gênero, contra a escravidão e contra o racismo, é um dado de agregação às lutas pela emancipação de gênero da longa história de resistência.

E talvez estas mãos negras, mulheres, ex-escravas e revolucionárias mais um dado que alimenta a fome de superar a reação conservadora, mantendo uma antiga tradição.

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*Gilson Moura Henrique Junior é um ogro intolerante com altas doses de doçura, carioca, tricolor, da extrema esquerda incendiária que se define como “um malaco de classe poetizando respingos” e que veio a esse mundo para enfiar o dedo na ferida alheia. Quer conhecê-lo melhor (por sua conta e risco)? Ele escreve o blog Na Transversal do Tempo e você pode achá-lo no tuíter @redcrazydog.

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6 ideias sobre “Pretas, Escravas, Sinhás?

  1. finalmente um texto bom! o blog está abrindo espaço para novos autores e isso é ótimo, mas o nível está caindo vertiginosamente! (…)
    texto bem escrito e tema interessantissimo! parabens!

    • Cara Renata,

      Nós, que fazemos o Biscate, temos um jeito meio engraçado: aprovamo-nos e aos nosso discursos. O olhar do outro nos agrada, mas não nos define. Além disso acreditamos, de uma forma dialética, que a diversidade faz-nos dar saltos de qualidade. No que, claro, você pode discordar. Se quiser contribuir com a “melhora do nível do blog” oferecendo um post pra avaliação…

      Como você pode ter notado, tomei a liberdade de editar seu comentário retirando a parte que se referia a outro post. Sinta-se a vontade para dirigir-se ao post em questão e emitir sua opinião.

      De resto, tenho certeza que o autor elogiado vai agradecer seu entusiasmo.

      • Renata,, valeu pelo elogio, mas discordo um pouco do comentário a respeito do nível do Blog. Vejo na diversidade e qualidade dos posts aqui colocados um dos motivos pelo qual muito me orgulha ser um autor convidado e só o nível alto do espaço já é um estimulo para o esforço por textos de qualidade. Aprendi muito neste espaço e só por isso,pela qualidade dele, pude ter o material necessário para desenvolver a abordagem histórica por este viés.

        De novo agradeço o elogio, mas ele não precisava vir envolto em uma critica genérica ao blog com uma diversidade tão grande.

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