Tatazão

Por Érika Meneses*

Começo esse post pedindo desculpas pela incompletude das informações que vou oferecer. Quando a Luciana Nepomuceno me fez o convite – que muito me honrou – para dar uma contribuição ao Biscate Social Club, apresentando alguma personagem de que eu gostasse, eu só consegui pensar NELE: o Zé Tatá. O pedido de desculpas tem a ver com o fato de que, mesmo sendo esta uma figura histórica, que permanece no imaginário de nossa cidade, inexistem registros oficiais e pesquisas sobre sua história de vida. Para escrever esse texto, me baseio em crônicas de Blanchard Girão e Zenilo Almada, memorialistas cearenses, e nas narrativas de mulheres que foram prostitutas nas décadas de 1960 e 1970, na cidade de Fortaleza. As mulheres às quais me refiro foram personagens da minha dissertação de mestrado, sobre histórias de vida de ex-prostitutas idosas. E todas se recordam do (grande) Zé Tatá.

Esse personagem, mais que digno de figurar na quinta cultural do Biscate Social Clube, foi um proprietário de cabarés que se tornou famoso na noite fortalezense, lá pelos idos de 1960. José Vicente de Carvalho, vulgo Zé Tatá, foi o primeiro homem de Fortaleza a assumir sua homossexualidade, anunciando a quem quisesse ouvir que gostava, sim, de homem. Era conhecido por exigir respeito e não tolerar desrespeitos à sua pessoa. Zé Tatá garantia, por meio da fama de valente, a liberdade de circular pelas ruas do Centro da cidade sem ser importunado pela molecagem cearense. A força física era seu salvo-conduto para ir e vir livre das zombarias contra sua homossexualidade assumida.

Em suas crônicas sobre o meretrício em Fortaleza, Zenilo Almada dá destaque à figura de Zé Tatá, e o descreve como um homem alto e corpulento – aproximadamente dois metros de altura, pesando quase 120 quilos, “sempre bem trajado, sem muita afetação, com sandálias quase femininas, mas com roupas adequadas”. O cronista relata que Tatá participava do carnaval da cidade, no conhecido bloco das Baianas, fantasiado de Carmen Miranda – sempre sob aplausos.

Almada enumera, entre as casas de prostituição que foram de propriedade de Zé Tatá, a Pensão Ubirajara, na rua Major Facundo, no quarteirão entre as ruas Senador Alencar e São Paulo; a Boate Tabariz, que ficava no número 120 da rua Pessoa Anta, e a Pensão Hollywood, na Barão do Rio Branco.

Em uma escala de “elegância” no meretrício, as casas de prostituição de Zé Tatá são descritas, pelas próprias prostitutas que viveram o período, como um ponto intermediário entre o glamour das pensões galantes – casas de prostituição com orquestras e bailes, no Centro da cidade – e os prostíbulos menos sofisticados, localizados na antiga zona conhecida como “o Curral das Éguas” (sim, Fortaleza já teve uma zona de meretrício com esse nome infame. Passou a existir na década de quarenta, após uma ordem do prefeito que resultou na expulsão das prostitutas das ruas centrais da cidade para casas em um local mais discreto, na descida da rua General Sampaio, por trás da Estação Ferroviária Engenheiro João Felipe. Décadas depois, no final dos anos 60, as casas de prostitutas do Curral das Éguas foram removidas pelo governo estadual, para construção da avenida Leste-Oeste. Mas essa é outra história). Nas palavras das minhas entrevistadas, as mulheres do Zé Tatá não eram consideradas as prostitutas mais chiques da cidade, nem as mais bem remuneradas. Elas eram submetidas à vigilância constante do dono da casa, que cuidava para que os clientes fossem bem tratados e não tolerava confusões em seus estabelecimentos. A figura de Zé Tatá é erigida, nos discursos das mulheres da época, como um mito, a tal ponto que primeira referência que ouvi sobre ele foi: “nessa sua pesquisa você já falou de Zé Tatá? Porque se tu falar de prostituição em Fortaleza, e não falar em Zé Tatá, tu não falou foi nada!”.

A última casa de prostituição que Zé Tatá possuiu ficava próxima ao atual Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na avenida Alberto Nepomuceno. Pouco tempo depois da morte de Zé Tatá, a cidade de Fortaleza via desaparecer a era das pensões de meretrício, com seus salões apinhados de prostitutas excessivamente arrumadas, ostentando maquiagens marcadas e vestidos longos de veludo ou lamê em cores berrantes. A velha molecagem cearense deu um jeito de “mangar” – ou prestar sua última homenagem? – e apelidou de Tatazão o primeiro viaduto da cidade, construído nas proximidades da antiga casa de prostituição.

A história dele me impressiona demais. Já procurei registros em jornais antigos, em fontes variadas, com pouco sucesso nas buscas. O “Tatazão” resiste como um mito e como uma existência contada em poucas linhas – afinal, não é o tipo de história que interessa do ponto de vista oficial. Sabe-se que existiu, que foi biscate – ele mesmo – que foi chefe de um tanto delas –  e que prezava sua liberdade.

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*Érika Meneses é cearense arretada, bem-humorada e aquele ar de quem, distraída, vai aprendendo o mundo. Tem 28 e almeja se tornar uma verdadeira biscate – uma mulher que não quer abafar ninguém, mas faz o que quer, sem sofrer, sem se preocupar com o moralismo alheio. É jornalista, mestra em sociologia e está convencida de que não existem vidas comuns. Toda existência é extraordinária.

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6 ideias sobre “Tatazão

  1. Excelente, lembra a figura do Madame Satã e engraçado como remete à história da sede da prefeitura do Rio, cosnturida pra espantar a Vila Mimosa original, zona de meretrício, e carinhosamente apeliado de Piranhão.

    • olá ilustruissima Erika, como vai, aproveito esta oportunudade para lhe parabeniza-la pela pesquisa, comunicando-lhe que estou trabalhando no intuito de fezer a biografia de Zé Tatá, pois tive a honra e a satisfação de conhecê-lo pessoalmente por várias vezes. Portanto gostaria muito de comunicar-me com vc. atc. edson.

  2. Sou cearense radicado em salvador -Ba, hoje estava assistindo o jogo Ceara x Goias, e nao sei porque veio em mim a lembrança do Ze Tata, e comentando com meu filho, aluno de engenharia da ufba, que logo buscou na internet e achou esta beleza de narrativa. Nasci em 1950, portanto vivenciei a fase aurea do Ze tata, frequentei ainda sem muita experiencia e vida estes ambientes citados, portanto sou um veradeiro saudosista daquela epoca, acompahei muitas vezes na praça
    Ferreira, pois na epoca trabalhava na rua dos possinhos, edf.palacio Progresso, a passagem galantiosa do ZE tata, e logo a segui-lo a galera da molecagem, e me orgulho em dizer que meu primeiro casamento de quase 20 anos, foi com uma jovem oriunda daquelas areas. abraços aos conterraneos. Apartir de hoje serem leitor assiduo desses arigos. SDS-FRANCRI

  3. Olá Eri, quando se fala em historia de Fortaleze o grande mestre da historia, Nirez estará eternamente presente com seu grandioso trabalho e amor por nossa cidade.
    Acho que talvez poderia dar uma modesta contribuição para o seu também grandioso trabalho, pois história não seja diretamente minha praia, sempre fará parte do que faço e do que sou, pois a arquitetura é ao que estou ligado, desde os primordios de minha existencia. mas indo ao que disse sobre minha modesta contribuiçao, o Ze tatá, no ultimo estabelecimento de que se pode saber, em que. sei exatamente onde passou alguns anos, vizinho a igreja da sé, onde visualmente eu poderia identifica.
    Grande trabalho o seu vá em frente. poi você com certeza tem muito a contribuir com a história…!

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