Biscate Casada

Por Paula Bruk, Biscate Convidada*

Não, ela não está num casamento falido. @ parceir@ também não é um troglodita ou workaholic que não lhe dá mais nenhuma atenção. Ela não se submeteria a um macho dominador e também são aceitaria viver em um casamento morno. Não estou dizendo que todas as biscates casadas são assim, até porque elas odeiam formatos pré estabelecidos.

Ah, então pode ser sua vida sexual, né? Pode estar meio sem graça…

Na verdade a vida sexual dela vai muito bem, obrigada!

Mas com tudo isso ela ainda sai sozinha pro boteco? E chega bêbada de madrugada? Que piranha!!!

Prefiro chamar de biscate, mas cada um dá o nome que quiser. Ela não é apegada a rótulos.

E @ parceir@ não reclama? Deve ser um trouxa!!

É, não reclama mesmo. E está longe de ser trouxa. Nem poderia, trouxas dificilmente conseguem suportar viver ao lado de uma biscate. Mas é que essa biscatagem é mesmo apaixonante. É esse modo livre de levar a vida que fascina tanto. Para desfrutar a vida ao lado de uma mulher tão intrigante é preciso não privá-la da sua essência. Caso contrário, não será ela.

E não pense que nossa colega é uma obra do demônio e está sempre maltratando o marido, ou a mulher. Biscate casada também sabe dar mimos. Ela pode fazer um jantar requintado para agradar ao paladar de seu amor. Pode também mandar bem num miojo, ou simplesmente pedir uma pizza, se nenhum dos dois lados está afim ou não sabe cozinhar.

Não é nada fácil ser biscate casada. Ela vive seus conflitos internos e, é claro, externos. Biscate também tem família, e nem sempre mãe de biscate é biscate. Sempre tem as tias carolas, pais conservadores, um parente religioso que vai estar pronto para apontar o dedo indicador ou lançar aquele olhar de condenação. Mas a biscate vive além de todos esses julgamentos, porque ela já decidiu quem manda na sua vida: ela mesma.

O fato é que há algo revolucionário dentro dessa biscate. Algo que a impede de seguir padrões, de fazer o papel da boa moça só para agradar. Ela até poderia interpretá-lo muito bem e enganar muita gente, mas estaria também enganando a si mesma.

Todo mundo tem algo que aprisiona dentro de si e, o que aprisiona a biscate casada é certamente esse desejo de liberdade. Essa vontade de mandar a porra do falso moralismo que todo mundo tem pro meio do inferno e se lixar para as opiniões.

É claro que as vozes da hipocrisia ficam cochichando dentro dela a todo minuto. Mas a vontade de viver por viver, de guardar lembranças de boas companhias e dias amanhecendo regados a cerveja quente e risadas não dão espaço a esses burburinhos mentais.

Se ela se sente culpada? Pode ser. Nem sempre, mas às vezes é provável que bata uma vontade de ser uma pessoa melhor. Mas o que é ser melhor? É não sair de casa sem o marido? Não percorrer bares bebendo com uma aliança no dedo e um desejo contraditório consumindo o que resta de juízo depois de tantas doses de vodka? Ser uma pessoa melhor é ser a esposinha perfeita, que nunca fala de sexo no meio de outros homens? Que cuida da casa e esconde a bagunça do coração embaixo do tapete? Então ela quer ser uma pessoa pior. Ela quer ser muito pior.

A natureza da biscate casada às vezes pode ser assim mesmo. Boemia acelerada, em alta voltagem. Desejo e riso intensos. Essa biscate não gosta de dizer não a tudo o que tem vontade só por medo do que vão pensar dela.

E isso não significa que não exista amor pel@ parceir@. Pelo contrário, seu amor é incendiário, é furacão. Seu jeito de amar é terremoto do maior grau. É por isso que @ apaixonad@ pela biscate não ousa proibir-lhe. Porque ela se joga nas ondas desse tsunami sem medo e ainda consegue deixar o outro exatamente como ele é. Talvez um pouco despenteado, sem fôlego, confuso, mas inteiro. Inteiro pra ser também livre. Para ir aos botecos e amanhecer por aí se assim desejar. E se apaixonar também, por outra biscate, quem sabe.

É claro que nesse jogo de liberdade da nossa biscate amiga existem perigos em todas as mesas de bar. A paixão não escolhe suas vítimas. Mas a biscate sabe que não precisa se entregar a qualquer capricho. Ela até pode, afinal, cultiva sua própria liberdade. Mas às vezes é melhor se esconder das garoas e se molhar apenas nas maiores tempestades. Aquelas de pingos grossos e doloridos, que encharcam a roupa e a alma em poucos minutos e quando vão embora deixam o corpo cansado e febril por algum tempo, às vezes podem causar algum delírio. Delírio de remorso, talvez, ou de uma insanidade apaixonada. Mas isso passa. Passa como toda a tempestade passa.

E não ouse julgar essa biscate casada. Ela não promete nada e também não deixa de amar @ parceir@. Ela não é santa, está longe disso. Mas também não é puta (só quando lhe convém ser). Ela quer apenas beber os sabores da vida. Experimentar o doce e o amargo e poder escolher os dois.

Rótulos e julgamentos não se encaixam nela. Ninguém vai ser capaz de o coração de outra pessoa batendo no próprio peito, e eu tô falando do coração poético, esse que se mete em roubadas e sofre e ri. Ninguém jamais poderá sentir o sangue de outro queimando nas próprias veias. E se você não conhece a sua alma, não pode dizer porque ela escolhe caminhos tão sinuosos.

Apenas ame-a ou beba do seu riso fácil o quanto puder.

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*Paula Bruk é jornalista, professora, curiosa e mulher de militar. Um tempo em cada canto conhecendo e questionando gente e lugares diferentes. Pra seguir no twitter: @PaulaBruk

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26 ideias sobre “Biscate Casada

  1. Uau… não é pra principiantes ou principiantas (em alguns casos e não é inflexão de gênero).

    Amei o texto e ele é pleno em si mesmo, auto-explicativo. Prenhe de tudo, inclusive dos dramas da bisca e d@s apaixonad@s por elas. Mas não se navega pra sempre em mares calmos e depois das tempestades é aquilo,a vida parece maior.

  2. Minha Amada Irma que mora no Brasil, conhece tão bem a minha alma que me mandou este texto . E lendo , vi que eu lia a minha alma pois sou assim , sem tirar uma única linha ou acrescentar poucas palavras, que louco….. Adorei e chorei por ver que não estou sozinha neste mundo de “Biscate Casada”!!!

  3. Sim, somos assim!!! Queremos abraçar o mundo com as pernas, ser extremos e contradição, e que mal há nisso? Pq é necessário escolher um lado? Direita ou esquerda, sim ou não? Nossa época não se presta mais a carregar bandeiras, ideologias, assumir papeis rígidos, nossa identidade é plural, somos extremo centro, vivemos no equilíbrio da tensão, da diferença, celebrando a singularidade, e execrando essa mania mesquinha de nivelar tudo em generalidades. Cada relacionamento tem sua particularidade, é um encontro único. Pq então devemos normatizá-lo nas regras comuns de matrimônio e coisa e tal?
    Muito bom o texto! Vontade de colocar em um outdoor pra todo mundo ler!

  4. Sabe o que é mais interessante de tudo: A Biscate casada ama demais seu companheiro e seu companheiro a ama demais tbem. Amor. Sem posses. E justamente as pessoas direitas que torcem o nariz para a biscate casada dizendo que esta não ama tanto seu companheiro e não o respeita, talvez não viva esse amor plenamente, já que gasta muito tempo cumprindo as regras.

  5. Paula, esse texto foi enviado para mim por uma super amiga que se identificou com o texto e achou a minha cara também. Recebi como presente de aniversário e AMEIII!!! parece que você me conhece e fez para mim. Sou uma biscate de carteirinha!!!!! PARABENSSS PELO TEXTO!!!

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