Biscateando na Música: Ana Cañas e a Performance

Por Danilo Marques*
com perfumaria e chamego da bisca Luciana Nepomuceno*

Uma mulher múltipla. Ela é quem diz. E quem diz assim, quase soletra biscate. A Ana, mas podia ser maria, joana, eu ou você. Leveza e versatilidade, suavidade e molecagem. Uma sucessão de elogios. À Ana.

Ana Cañas é das melhores vozes dessa nova geração de cantoras brasileiras – porque uma voz possui um corpo e este corpo transmite uma carga de vontades e desejos -e também porque toda voz é performática. A da Ana é. Ana era estudante de Artes Dramáticas na USP quando em um teste para o teatro se deparou com uma canção de Ella Fitzgerald. Ana se apaixonou por Ella e foi decidido ali que mudaria de papel, seria cantora. Ou seja, até os 22 anos, Ana não seguia nenhum dos caminhos comuns às grandes intérpretes, cantar sequer estava no seu horizonte. E ter a audácia de se reinventar é o primeiro aceno da biscatagi que vamos encontrando nela.

Mais que a coragem de tomar as rédeas e arriscar o sonho, na constelação de forças do timbre de sua voz Ana buscava experimentação um algo mais que não conseguia encontrar nas demais cantoras contemporâneas, um eu lírico livre para tocar o que bem entender, como escolher e encarnando forte uma interpretação particular e festiva – representando uma mulher como ela, como muitas (e daí mais uma tintinha de biscatagi, essa tal liberdade e a vocação festeira).

 música

A autenticidade de sua performance foi reconhecida por nomes como Chico Buarque, Caetano, Toquinho e Seu Jorge (não que uma biscate precise da aprovação externa/masculina, mas boa companhia é sempre bem vinda) desde o tempo em que ainda buscava espaço como no piano-bar Baretto. Seu mérito se acentua ao se saber que, por valorizar sua vontade e desejo, recusou-se inúmeras vezes a tocar por modismo ou a cair no estereótipo chavão mulher bonita que é muito trabalhado na música mundialmente. Ana tinha um foco e sabia bem o que queria. Sua voz de veludo, interpretação audaciosa e a opção por um andamento imprevisível e muito inovador foram criando o cenário para o seu reconhecimento. E pouca coisa é tão biscate quanto escolher ficar fora das convenções.

O que mais surpreende é o tempo curto que sua determinação construiu uma carreira, em menos de cinco anos se dedicando a sua arte e já tinha um cd gravado e assinatura com um selo forte do cenário da música. Ana tinha suas composições já prontas sem nem saber tocar um instrumento com uma atmosfera jazzística, sem fazer jazz. Pra que mais? Já tinha sua voz extravasando de sua garganta.

Seu primeiro álbum Amor e Caos foi muito bem recebido pela crítica. Autoral, audacioso e além do que se rotula habitualmente MPB, a cantora marca nas canções do álbum uma atmosfera jazzística, usando opções estéticas pouco usuais, misturando sons e influências, porém de fácil assimilação devido ao carisma de sua estética meio roqueira dentro de sua poderosa voz de contralto. Destaque pra três das faixas: Devolve, moço, que possui uma deliciosa cadência entre um piano jazz e uma batida bem marcada ao estilo triphop. Super mulher com uma batida de triângulo seduzindo para um ritmo bem nordestino e uma letra super biscate, como o título sugere. Mandinga Não é uma das marcas dos caminhos inusitados, com temáticas divertidas e belíssimas vocais.

Seu segundo álbum veio coroar o trabalho e a força desta mulher que escolheu seu destino. Nunca deixando de lado sua curiosidade com literatura, poesia, teatro e pesquisando ainda mais sobre sonoridades a cantora consegue emplacar hits a parcerias importantes para sua carreira, como a canção Esconderijo, que alcançou estrondoso sucesso nas rádios. Com uma vibração entre o pop e algumas levadas próximas do reggae, encontrando-se ainda mais na performance. Mais surpreende é como amadurece nessa fórmula sem perder sua identidade. Convite para brindarmos com Gira.

Deixa eu cravar as minhas unhas em você
Deixa eu beber, deixa eu olhar
Pra tudo que você não gosta em você
Pra tudo que a gente não vê

Porque eu quero sair dessa casa
Porque eu quero bater as asas
E quero ficar mais solta
E quero ficar mais louca

Às vezes fico cansada
Às vezes fico animada
Às vezes quero você comigo
Às vezes quero o impossível

Cabeça gira, gira, gira, gira, gira…

Curiosa, aberta, imprevisível, fora do padrão e atraente, eis uma descrição bem biscate da cantora que vem fazendo diferença e criando seu espaço na Música Brasileira. Com estilo.

* Danilo Marques é músico, humanista e, de vez em quando, professor. Diz ele mesmo que é um diletante despretensioso, ensimesmado e errante. Dizemos nós que é moço sensível, inteligente e talentoso. Vice-campeão do #BonitoesdaTL, versão 2011. Fez do seu inferno particular um blog: Inferno de Dante e, de vez em quando, aparece no twitter: @dandi_.

*Luciana Nepomuceno é fã e amiga.

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