Fazemos isso pelo seu bem

Semana passada, o texto da Charô me inspirou muito. É bacana demais poder conhecer ou tentar entender através de uma experiência como seria o ponto de vista dos pais em relação à criação d@s filh@s. O título deste post remete à frase que mais ouvi (e ainda ouço) dos meus pais, desde que me entendo por gente. Não que eu acredite que seja assim só comigo… Acontece que eu “pertenço” a um grupo que para muita gente é bem seleto (ugh, essa palavra também me incomoda sobremaneira): sou filha única.

Não foi por opção deles, pois minha mãe tentou engravidar outras vezes. Infelizmente, adotar uma criança era uma ideia que eles não cogitavam. E enquanto havia alguns amiguinhos que “invejavam” o fato de eu ter um quarto só meu, ter todo o carinho e a atenção só para mim, ganhar todos os brinquedos (dentro do que meus pais tinham condições de me dar, porque nós nunca tivemos dinheiro sobrando)… Eu sonhava mesmo era com um@ irmãozinh@. Inclusive, sou a única filha única de toda a minha família, que é enorme (tenho mais de 30 prim@s).

Desde pequena, sofri com o excesso de proteção que os meus pais manifestavam. Seria injusto de minha parte dizer que eu tive uma infância ruim, mas estive longe, bem longe mesmo de ser uma criança 100% livre.  A hora em que todo mundo saía na rua para brincar, era a hora que eu tinha que voltar para casa, porque era perigoso – só para mim, porque todo mundo se conhecia e tinha a minha idade – e porque eu era “diferente”.

Princesinha da mamãe e do papai? #NOT

Na adolescência, ficou um pouco (bastante) pior. Foram incontáveis as minhas “fugas” para poder ficar até um pouco mais tarde fora. E não era para fazer nada de mais: eu queria ouvir música, passear, me divertir com os meus amigos. Nunca, nunca mesmo deixei de fazer qualquer obrigação ou de me sair bem na escola por causa disso. Contudo, a família dizia que eu fazia isso por ser rebelde e mimada… Só que ninguém nunca parou para ao menos tentar escutar como eu me sentia, sendo tão sufocada dentro de casa. Parecia que ninguém que me criticava teve adolescência ou inquietações.

Dentre os argumentos apresentados pelos meus pais para tentar justificar o porquê da minha vida precisar ter que ser tão vigiada e controlada por eles, os mais recorrentes eram:

“nós confiamos muito em você. Nos outros é que não confiamos;”

“mocinhas direitas não ficam na rua, caso contrário, ficam faladas;”

“tudo que fazemos é pelo seu bem. Um dia, você vai nos agradecer.”

Será que com os filhos únicos do sexo masculino as coisas são assim também?

Penso eu que a cultura machista que circunda a nossa educação seja uma das principais  responsáveis por ações como estas, autoritárias, impositivas e ameaçadoras. Hoje não culpo mais os meus pais por tais atitudes. Isto é um produto de uma sociedade que precisa urgentemente de uma transformação.

Não sou mãe. Nem pretendo ser, pelo menos por enquanto. Só acho que nós precisamos compreender que os pais devem sim participar, orientar, estabelecer limites para os filhos. Mas a linha entre ser presente e ser super protetor@ é bem tênue. Tomara que cada vez mais gente aprenda que educar e amar alguém envolve promover a autonomia. E nesta autonomia, está incluso o fato de permitir que este alguém aprenda, tenha suas vivências. Erre. Sofra. Cresça.

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11 ideias sobre “Fazemos isso pelo seu bem

  1. Brutalmente excelente… eu não sou filho único,mas sou o único homem, pra o privilégio baixar rolou greve das irmãs e sim, eles confiavam mais no cabeça de vento aqui que nas minas. Enquanto elas sempre foram mais maduras, ao menos a mais velha.

  2. Tenho dois irmãos e sei bem do que você está falando. Como no comentário de cima, só que ao contrário: tudo o que os meninos podiam eu não podia ou podia menos ou era um pouco mais observada.
    Mas creio que a sua relação seja dupla: conheço um rapaz que é filho único e era proibido de MUITA coisa pela mãe; super proteção, horários e tudo mais.

  3. ah Cláudia, senti-me contempladíssima pela sua história.
    Infelizmente é isso, sociedade machista, meninas/mulheres pagam o pato :/

  4. Flor, acho que você mistura duas coisas no post como se fossem as mesmas: a) filhos únicos e b) filhos superprotegidos. Estas condições não são inerentes uma à outra. Conheço gente muito superprotegida que tem irmão, às vezes mais de um. E vários filhos únicos que não foram nada superprotegidos…

  5. Obrigada pela referência ^_~ Também me identifiquei mas preciso dizer que tenho uma irmã. Outra coisa… Minha mãe, por um tempo, me criou sem enfatizar o “feminino”, o que não a impediu de ser castradora. Ou seja, dá para estragar a coisa toda, mesmo sem criar “menininhos ou menininhas”. Por isdo morro de medo dessa mãe superprotetora baixar em mim porque é bem facinho se deixar levar pelo bem querer que temos para com os filhos… Mas sei bem os estragos que isso causa, ai. Beijucas!

  6. Sou filha única por parte de mãe, e sério, é um saco. Sei muito bem como é ser a “diferente”, sempre foi e ainda sou assim, minha mãe não quer me deixar crescer com meus próprios erros. Minha familia toda é muito machista, mesmo eu sabendo que a culpa não é diretamente deles, mas da sociedade em que vivo.

  7. Bomm, tive uma criação exatamente dessa maneira e eram 4 irmãos, hoje tenho uma filha de 18 anos que desde os 17 anos está morando sozinha (estudando) uma distancia de 1300Km, o que eu posso dizer como mãe e amiga de outras mães que o problema é simples: medo do julgamento da sociedade. Minha filha sempre foi independente e temos uma relação de amor e cumplicidade. Ao mesmo tempo que vc recebe elogios pela criação sempre vem com uma observação: “eu não teria coragem, com o meu filho não daria”, sua filha é diferente…rsrs

  8. Eu não sei se exatamente o fato de ser filha única ou não interfere tanto nisso. Acredito que a superproteção machista independe dessas coisas. Aqui em casa muitas coisas eram justificadas pela idade (sou a mais nova), mas tive amigos que eram gêmeos, um menino e uma menina e ele podia sair livremente, enquanto ela só podia ir nos lugares se ele fosse (!) olha o tamanho do absurdo! Querem cercear nossa liberdade por todos os lados, isso vai desde o controle da nossa sexualidade, até o direito de ir e vir.

  9. Tenho somente um filho maravilhoso de 01 ano que é o meu tesouro, morro de medo de beirar a super proteção, pois jamais quero ver meu amorzinho sofrer, mas fazer o que, filhos são seres autônomos e não têm donos :)

  10. Tenh 3 irmãos, mas só cresci com um, o único de mesma mãe e mesmo pai. Nós andávamos bastante por aí, nessa regra de onde um vai, o outro precisa ir. Minha mãe dizia que nossa força estava na nossa união. Até hj encontro pessoas de idade, que nos viam andar por aí enquanto crianças: “eu sempre via você e seu irmão andando juntos, para todo lugar, mas sempre juntos.”.
    Mas daí a pré adolescência minha mãe já foi prendendo, fui a figura de irmã mais nova mesmo, aquela que de amigos só tem os amigos do irmão e o mais próximo que tem de sair é ver os irmãos sairem. Na adolescência, a proteção da minha mãe piorou, e o que eu mais escutava era “quando vc completar 18 anos…”. Muitas fugidas, assim como vc, só pra poder encontrar os amigos e andar por aí.

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