Meu maior amor

Brasileirão da Biscatagem
Fluminense, Gilson Moura Henrique Junior

Nem sei quando as vi pela primeira vez. Aquelas cores, aquele jeito, aquela forma de trânsito nas minhas mãos, corpo, pele, coração.

Era como uma marca na alma, um pedido, algo que aquele moleque de oito anos não entendia porque amava e derretia nos pés daquelas cores e passos, passes, gritos, gol.

Não foi simples essa paixão, nunca. A sedução ao redor não era parca e nem leve. Avôs amados, Pais encantados e heróicos, tios com badulaques, mas lá estava ela, a bandeira, a cor, as três cores, o grito, o urro, o gol.

O grito operário Luso, a marra Flamenga ou a Gloriosa marca da memória de artes antigas em preto e branco, pesavam sobre a mente para influenciar a escolha, mas não conseguiram tirar meus olhos, a alma, o corpo, o mundo daquele amor.

Havia nascido tricolor, amava o Fluminense, amava suas cores e nem ao menos sabia até vê-las bandeira, grito, chute, gol.

E o tempo passava naquela sedução tateante e encarnada, de inicio tímido o amor era como quem pega na mão e treme, como quem não se sabe ainda amando, como quem teme o mergulho. De criança que via e amava ver o campo, aqueles homens que vestiam-se do meu amor, aqueles corpos, saltos, chutes, aquele frenesi físico que perambulava sob meus olhos. Tudo me era amor de uma forma leve, longínqua, mas quente e viva.

 Cresceu o amor, cresceram as fomes, a paixão, a necessidade de tocar as cores, o escudo, o nome, o saber-se delas. A pele pedia, o corpo ansiava, a alma gritava por vê-las, por vê-los, ao grito, ao passe, ao chute, ao gol.

 O tempo não nos foi leve, não nos poupou do abalo, da queda, do ódio, do medo, da tristeza de ver o que faziam delas, das cores pelas quais tinha o amor dos que nunca abandonam ou trocam. O tempo chegou quando ávidos e tolos barões estupraram-nas, destruíram-nas, queriam tirar-lhes o nome, o Football, transformá-las em passado. E caíram, foram lançadas ao inferno.

 Como Orfeu fui, fomos, buscá-las e sem olhar para trás subimos, subimos e as amando, as tomando nos braços, as tomando como quem retoma aquele amor, agora maduro, sabido, comido, sensualizado e consuma um casamento, um livre casamento que devora, que reparte, que compartilha e tem o coletivo amor em um leito de grama e grito e urro e gol.

 Hoje somos isso, amantes, amados, queridos loucos e deitados sobre a tez de três cores que traduzem uma tradição, uma bandeira, uma tatuagem na alma

 Neste amor buscamos outros, outras, e seguimos.

 Meu primeiro amor.

 Meu maior amor.

 Tricolor.

 E não um time de três cores.

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