Na Bola, No Peito e Na Raça

Brasileirão da Biscatagem
Flamengo, Luciana

na bola, no peito e na raça

“Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia.” (Nelson Rodrigues)

Domingos da Guia

Você sabe quando só de estar perto lhe falta o ar, a mão gela e a taquicardia se apresenta acentuada? Sabe quando você tem vontade de gritar? E o corpo todo parece não se conter em si mesmo? O sangue batuca um samba nas veias e o pescoço lateja? Sabe quando o riso é mais solto e o choro mais sentido? E você não pensa em outra coisa, só: e se, e se, e se…?

Juan
Flamengo de 1996 a 2002
Campeonato Carioca: 1996, 1999, 2000 e 2001

Você sabe o que é não aceitar nenhum convite apenas na esperança de encontra-lo? Ver que ele faz tudo errado mas não conseguir afastar-se? Sabe o que é torcer as mãos, ansiosa, antes do encontro e, na hora, não conseguir dizer nada, garganta travada e sentimento em desalinho? Sabe o que é viajar 2.600 km para ficar ao seu lado por apenas duas horas e sentir que tudo vale a pena apenas para sentir aquela emoção?

Zizinho 1939 – 1950 Tricampeão em 1942/43/44

Você sabe o que é querer tanto, tanto, que dói fisicamente e se você fosse livre você se perguntaria se vale a pena, mas você não é livre, não mais, não pode sê-lo, está perdida? Você sabe o que é acordar e pensar em mimetismos de querer bem? E ansiar pela presença? E sentir-se só e só porque não há encontros naquele dia? Você sabe o que é ficar procurando notícias, interessar-se pelas bobices cotidianas, devanear sobre qualquer palavra?

Você sabe o que é ter o coração em desalinho só de ouvir o nome? E se emocionar com pequenas conquistas, pequenos avanços? Sabe o que é irritar-se, alegrar-se, desesperar-se, embelezar-se, animar-se, tudo por obra de uma presença? Sabe o que é ter o corpo em festa? A alma em festa? A vida em festa? Sabe o que é amar e amar e amar e amar até não se saber mais?

Junior
Flamengo de 1974 a 1993
Campeonato Carioca 1974, 1978, 1979, 1981 e 1991
Campeonato Brasileiro 1980, 1982, 1983 e 1992
Copa do Brasil 1990
Copa Libertadores de América 1981
Campeão Mundial 1981

Leandro Flamengo de 1978-1990
Campeonato Brasileiro: 1980, 1982, 1983 e 1987
Campeonato Carioca: 1979, 1981 e 1986
Taça Libertadores da América: 1981
Mundial Interclubes: 1981

É assim que eu torço Flamengo. Pra sentir tudo mais vivo e feliz em mim.  Há uma magia em saber-se Flamengo. Digo sempre que cada clube tem seu estilo. Entra e sai jogador, passa o tempo, o time muda, mas há alguma coisa, intangível e específica, que permanece. No meu Mengo é a vocação para a leveza. Meu time me faz feliz quando joga assim: leve, alegre, com vontade de vencer, sem medo de perder. Meu coração rubro-negro descompassado ri-se na beleza de encontrar raça e talento em tabelas rápidas, laterais que avançam como pontas, centro-avantes raçudos e atacantes bailarinos.

Poxa, será mesmo que alguém prefere ganhar de um a zero, espremido no seu campo, golzinho amarrado esperando um erro do adversário? Será mesmo que alguém prefere ser campeão com ajuda da arbitragem, jogando alguma coisa que lembra vagamente futebol? Será mesmo que alguém prefere seu time cheio de volantes (no sentido atual da palavra que equivale a futebol de bunda no chão – tipo Dunga, ao invés de significar sua concepção de origem, alguém que arma e desarma, que joga de cabeça erguida) a um time montado com poesia e talento?

Rondinelli – Deus da Raça
Flamengo de 1971 a 1981
Mundial Interclubes: 1981
Campeonato Carioca: 1974,1978,1979,1981
Campeonato Brasileiro: 1980

Eu prefiro a doce embriaguez de um jogo bem jogado, prefiro gols resultantes da vontade de vencer, gols com drible, com tabelinhas, jogo arquitetado, planejado, com espaço para o improviso da genialidade do craque. Eu prefiro meu time com ardor e fogo nos olhos. Com ímpeto. Prefiro ousadia e risco. Prefiro o time indo pra frente. Escolho a beleza. Quando vem com vitória junto, melhor ainda. Não me importa, mesmo, não sei quantos anos de jejum de títulos brasileiros. Eu me alimento é de troca de passes, é de gol olímpico, é de cabeçadas certeiras, é de desarmes precisos sem falta… Se outros são campeões com futebol medíocre e muita retranca e ficam satisfeitos com isso? Bom a mediocridade se alimenta de si mesma.

Eu sou mais meu Mengo. Do jeitinho que ele é: bola de pé em pé, com alegria, raça, amor, tesão…Eu sou mais meu Mengo como na música do Djavan: “ainda bem que eu sou Flamengo, mesmo quando ele não vai bem”. E quando ele vai bem então: que beleza! Que festa no Brasil! O riso mais solto, o passo mais leve, as pessoas mais gentis.

Carlinhos
Jogador do Flamengo de 1958 a 1969
Campeão Carioca 1963 e 1965
Campeão Brasileiro 1987 e 1992

Como alardeava Nelson Rodrigues: “A alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda ou mais dilacerada, ou mais santa, só sei que é diferente”. E eu nem falei da torcida; do Maracanã que é nosso (ah ah uh uh, o Maraca é nosso);, da incrível polarização que faz com que os torcedores dos outros times torçam contra com tanta paixão quanto torcem pros seus times, tendo o Mengo como farol; não contei as histórias divertidas (como a crônica do Paulo Mendes Campos na Suécia), não tratei das bandeiras, uniformes e cores, não fiz o histórico dos títulos, a trajetória dos ídolos…Eu nem falei do Zico! Há tanto a se amar no Flamengo que uma semana de biscatagem só pra ele ainda não seria suficiente.

Zico
Flamengo 1971 – 1990
Campeonato Carioca 1972, 1974, 1978, 1979, 1981, 1986
Campeonato Brasileiro 1980, 1982, 1983,1987
Copa Libertadores de América 1981
Campeão Mundiall, 1981

A alegria rubro-negra, pra mim, só equivale à alegria do grande amor. Aquele que tira o fôlego, o eixo, o norte, os pés do chão. Aquele amor de sempre ou o amor de agora. O amor de pra sempre, o amor de uma rapidinha no banheiro do aeroporto. O amor dos que se conhecem sem falar e os que não param de falar pra tentar chegar mais perto. O amor dos iguais, o amor dos dessemelhantes. O amor de alma, o amor de corpo. A alegria rubro-negra equivale à alegria do amor que é gozo. É de dançar na rua e do coração sapatear no peito. Do sangue acelerar, da respiração falhar, dos olhos nublarem. A alegria rubro-negra é de festejar hoje, esperar os amanhãs e sorrir dos ontens.

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11 ideias sobre “Na Bola, No Peito e Na Raça

  1. Meu avô era flamenguista. E atleticano. Mas antes de qualquer dos dois, torcia para o time de Itaguara, do qual ele foi presidente, o Conquistano.
    Eu aprendi a amar o Flamengo com ele. E o Galo também.
    Até que o Zico perdeu o penalti em 1986, mesmo ano da morte do meu avô, e não sei se por tranferência, ou o que foi, tomei birra e nunca mais Zico, nunca mais Flamengo, nunca mais Seleção Brasileira de Futebol.
    Já o meu Galo, bem, paixão eterna, é paixão eterna.
    Pode Guilherme errar quantos penaltis quisesse, pode Marques falhar, pode tudo. Eu não deixo de amar…
    Lindo texto, mesmo sendo sobre o Menguinho.
    ;-D

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