Santos, o prazer do jogo

Brasileirão da Biscatagem
Santos, Glauco Faria

“Sem você, eu não existiria”. A frase lugar-comum que sai vez ou outra de alguma novela mexicana ou de algum (a) amante desesperado (a) se aplica, sem exagero, à minha relação com o meu time, o Santos. Isso porque meu avô materno, mineiro, recebeu como recomendação médica, por conta de sua hipertensão, mudar-se para uma cidade litorânea (sim, isso se “receitava” em outras eras). O usual seria o Rio de Janeiro, mas seo Benedito preferiu ir para o litoral paulista, ficando mais perto do time pelo qual ele havia se afeiçoado, o Santos.

Não se sabe porque ele, que só acompanhava futebol pelo rádio, se apaixonou por um time que, àquela altura, tinha sido campeão paulista apenas uma vez, em 1935. Mas certamente já sabia que aquele clube tinha algo de diferente. Foi o primeiro do Brasil a ter uma linha ofensiva que fez cem gols em uma única competição (média incrível de 6,25 por partida em 1927) e primava por tratar bem a bola, ainda que não conquistasse naqueles anos 40 grandes títulos. Mas quem precisa de títulos quando se tem o talento e a técnica? Além de gols… Muitos gols.

Se é verdade que o gol pode ser comparado a um orgasmo pelo fã de futebol, nenhum outro time trouxe tanto gozo aos seus como o Santos, clube profissional que mais balançou as redes nesse planeta. Foram 11.817 vezes. Mas não serviu apenas os seus porque, em boa parte do tempo, seu jogo é arte e, portanto, trata-se de um amor livre, democrático, que deleita também os não santistas e supera rivalidades e sentimentos mais mesquinhos. Pois quem não sente prazer vendo um lance de um Ganso (cuidado com os trocadilhos…) ou pasma diante de um Neymar, perguntando a ele: “como você fez isso?” (qualquer semelhança com situações semelhantes em momentos íntimos fica a critério de quem lê).

Mas o Santos não é só o gol. É o que vem antes. É um time que sempre adorou as preliminares, que às vezes vale e deleita mais que a conclusão. Essa magia é parte da própria história do clube. São boleiros-artistas-arteiros que desfilam há décadas com a camisa santista e que fizeram do imponderável uma realidade. Que outro time consegue inverter a lógica e fazer o torcedor da cidade grande torcer para o time da cidade quase pequena?

Lembro de um causo contado por um saudoso dono de boteco de Pinheiros, o Vavá. São-paulino, ele foi ao Morumbi assistir a um SanSão num dia em que Pelé e cia. fizeram miséria e colocaram seis gols nas hostes tricolores. Mal percebeu e estava aplaudindo a atuação alvinegra no meio da torcida são-paulina quando os outros torcedores, contrariados com a atitude, passaram a reprimi-lo de forma pouco amistosa. Nisso, um torcedor, do tipo armário dois por dois, se levantou e decretou: “Deixa o garotão aí, ele tá certo”, encerrando a animosidade.

É esse tipo de encantamento que o Santos exerce sobre os rivais. Incentiva até traições ao clube amado, como a do Vavá. São torcedores que muitas vezes se deixam fascinar e, pegos com a boca na botija, fingem que não é com eles. “Não é nada disso que você está pensando. Estava só olhando…”

Mas para não dizerem que esse texto é só exaltação, é preciso contar o que foi viver um drama que  todo amante da bola quer evitar: o jejum de títulos, a seca. Sim, porque perder um ou outro campeonato é uma coisa, mas quando você fica anos a fio sem ganhar… Haja paciência pra aguentar os rivais. Ainda mais se boa parte desse período (18 anos) coincide com a sua adolescência. Em meio a turbulência afetiva, hormonal e ciclotímica desse período, seu time só leva couro. Um clube com história brilhante, mas você olha pro campo e só enxerga “inhos”. Ora o técnico é o Joãozinho, um lateral é o Flavinho, no ataque tem um Serginho Fraldinha. Ninguém conseguia se empolgar com um cardume de diminutivos.

Era fase, fase… O martírio acabaria e a adolescência também. Veio Giovanni, um camisa dez clássico, que fez a maior partida que já vi um jogador fazer. Depois, o time que sairia da fila, com Diego e o insinuante Robinho. De novo o Santos era arte. E, desde então, quantas vezes não foi, como ontem, em um inapelável 8 a 0 na competição mais importante do continente.

O que o presente do Santos mostra é o que toda sua trajetória tentou ensinar. Mais do que o jogo em si, o importante é dar prazer. E sentir. O resto é consequência.

 

Glauco Faria é daqueles caras que tem o jeitinho de colocar a palavra certa no lugar mais inusitado. Duplamente santista (mas tem simpatia pelo São Vicente A.C. e pela Portuguesa Santista), jornalista, membro (ui!) do Futepoca, Filho de Peixe e tem outros textos pela rede falando de coisas menos divertidas.

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2 ideias sobre “Santos, o prazer do jogo

  1. Aquele jogo do Giovani foi um dos jogos mais doloridos da minha vida, o prenuncio do inferno que viria.

    Eu só não acho sacanagem Santista poder escrever sobre seu time porque Nelson Rodrigues, Ele, relativiza cosmicamente tamanho dopping futeboleiro praiano com a inapelável hipérbole da glória.

    Bendito Futebol Brasileiro que tem Deuses de mil gols e de mil letras pra fundar isso, essa cosia, esse comichão, dito Bola.

    Ah, belissimo texto…

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