Se toquem: sobre Gerônimos e Pocahontas…

Outro dia enquanto tomava banho (sim, sempre há uma luz de reflexão no fim do banho) me lembrei de uma situação inusitada de uma conversa que escutei em uma mesa de lanchonete (não, não tenho costume de ouvir conversa alheia, mas estava sozinho, atoa e o assunto era interessante, como ocorre a todos que escutam as conversas alheias). Estava eu lá, mais ou menos no meio da regra sagrada da ordem do que lavar no banho (é… eu sigo a metodologia do “cabeça, ombro, joelho e pé”…) e, do nada, me estalou o quanto aquele papo adolescente explica em muito a nossa sociedadezinha conservadorazinha. Nome fictício do protagonista: Gerônimo. Por três motivos: não conheço nenhum Gerônimo; Gerônimo era o Chefe Apache que virou símbolo de valentia e macheza; e vai ajudar na piada…

Era uma roda normal de alunos de uma escola católica tradicional. A conversa, deus sabe porquê, descambou para aquele assunto que só ocorre entre meninos e meninas adolescentes quando há um ogro no grupo ou quando não há interesse sexual entre nenhuma das pessoas presentes: como tomar banho. Terreno escorregadio… todos os medos do sabão cair no chão… mas levaram a conversa.

A conversa me chamou, mesmo, atenção quando um dos meninos, que chamo de Descartes, disse que era adepto da técnica do “cabeça, ombro, joelho e pé” (todos pira). Foi interessante vê-lo expor cientificamente minha metodologia de lavar o corpo (que eu nunca tinha elaborado), que as meninas acharam infactível (imagina lavar o cabelo todos os dia e começar a limpeza de cima para baixo para que a água que escorre por você seja sempre limpa????)… Continuando o papo, alguns não tinham técnica nenhuma, mas todo mundo cheirava bem (pelo menos pareciam cheirar bem). Entraram no assunto alergia, muito produtivo, eram a perfumes, esponjas, determinados produtos, etc… Descobriram que tinha gente que só usava sabonete líquido, que já usava sabonete íntimo e que tinha a rykaa que tomava banho de banheira com sais da L’Occitane… Então, Gerônimo me solta a pérola: “eu não sei como vocês conseguem passar o sabonete na bunda! Só de pensar… já tenho medo de virar viado”…

Entre gritos de pavor, nojo, graça e de “como você se lava?”, Gerônimo passou por ogro que não lava a bunda e mudou-se de assunto… Na mesa, ninguém pareceu se tocar (talvez se Jerônimo tivesse se tocado nos poupasse da história), mas era tarde… diabo trabalha… na minha cabeça só pipocava: “que inferno de recalque é esse”?!?!?!?!

Como alguém pode se privar da higiene íntima por medo de virar Pocahontas? Na boa, o cara que diz que lavar (LAVAR!!! Ninguém falou em enfiar nada, fazer ligação direta, fio terra ou o escambau) a bunda pode lhe causar uma sensação de prazer a tal ponto de causar #MEDO de “virar” homossexual? Tipo, mesmo que ele estivesse “brincando” (e não estava), tem muito que conversar com o tio Freud… Primeiro, porque não deveria haver problema em ser homossexual (ou bisexual, ou gostar de fio terra, sei lá…); segundo, que pavor é esse que nos é quase que imposto e que nos impede de fazer coisas tão simples como tomar banho e nos tocar?; e terceiro, mas não menos importante, se ele não lava, aí é que ninguém vai querer mesmo!!!

Mas vamos ao ponto. O que nessa nossa sociedade, na nossa formação (porque, sim, isso faz parte da nossa formação cultural, é algo que está infundido no nosso imaginário), faz com que as pessoas não sejam, ainda jovens, capazes de descobrir seus próprios corpos? Por que isso é visto como uma infração, um pecado, uma aberração? Que inferno de repressão medieval é essa que, nem na felicidade de um bom banho, não nos permite ser livres?

Eu, que fui adolescente e estudante de escola católica tradicional na época em que o Bento ainda era XV, confesso que tenho medo com o que ainda acontece na geração Bento XVI. Se, nessa altura do campeonato, vive-se com medos que começaram a ser enfrentados no século XIX, há muito o que se temer para o século XXI. Que modernidade é essa? Deve tá certo o Bruno Latour que diz que “Jamais fomos modernos”… e gente por aí se afirmando pós-moderna… Me mata ver que essa verborragia inócua e estéril de desenvolvimento social morre quando [não] vamos ao mais simples: nossos corpos…

Enquanto tivermos medo de nos tocar, estaremos (eu, você e o Gerônimo) constrangendo nossos corpos como sempre foi feito e nosso único “progresso” vai ser a eterna permissividade consumista da introdução (recorrente) de novas formas de fazê-lo. No final, tem que fazer mesmo como #GÊNIO da lâmpada do Aladdin da Disney que, na década de 1990, já não tinha medo de ser Pocahontas…

Se toquem!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

12 ideias sobre “Se toquem: sobre Gerônimos e Pocahontas…

  1. Hahahaha, adorei o texto. Mas olha, acho que deve ser verdade essa coisa de gayzice e sabão na bunda… Você não viu a propaganda de um desodorante masculino que promete 48 horas de cheirinho bom sem sair de cima? Perguntei pra quem entende do assunto em casa, o marido ogro. Ele confirma, homem que é homem não se lava assim facinho não. Hahahaha, ploft, morri de rir. Beijuca e supertexto.

  2. A gente não sabe se ri ou se chora com tamanha idiotice… rsrsrs

    Credo! Primeiro, por ele ter um preconceito ridículo com o próprio corpo e segundo…. que futum não deve estar essa bunda! :P

    Abraço, ótimo texto!

  3. Pronto, Gerônimo descobriu de onde vêm os viados! hahahaha
    Gente, que tristeza. Que tristeza de pensamento tacanho, que horror de anacronismo, que gente nova mais recalcada, preconceituosa. Na casa desse chefe apache aí isso de repente é contato em tom de galhofa. Porque esse tipo de coisa se passa, se transmite, como doença.
    Que triste.

  4. uai. agora fiquei me perguntando se esse geronimo também tem medo de usar papel higienico. a coisa deve ta feia na poupança desse cidadão.

  5. Olá, gente! Adorei a repercussão do post. Que bom que gostaram!

    Bom, eu realmente não entendo esse lance do “não se limpar/lavar” direito. Pra mim, tem uma questão muito forte aí, muito recalque e, pior, muita frustração (tanto pelo fato de se reprimir ao sentir prazer em se tocar, quanto por sequer saber que se pode sentir prazer se tocando).

    Bom, pro pessoal que busca notícias do papel higiênico do Gerônimo, eu não fui perguntar, mas talvez as notícias de lá sejam: É por isso que suas avós, mães, tias e, eventualmente, vocês (mulheres que adoram um tanque, só essas, não todas) têm, históricamente, lavado tantas freadas de bicicleta… Ou vocês acham que tem gente que é capaz de se cagar todo dia???

    Até!

  6. Catzo, se alguém ainda tinha dúvidas quanto às origens das famosas (e nojentas) “freadas de bicicleta”, aí está. Agora, vamos combinar, imbecilidade não tem limites. Eu não curto pelos “lá” e não tenho receio de admitir: depilo mesmo; facilita a higiene. E, até agora, não senti nenhum sinal de mudanças na sexualidade.

  7. Pingback: Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia |

  8. Pingback: Orgasmo Masculino Fake: o Desejo X a Culpa |

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>