Porque biscate acredita, sim, em mágica!

Às vezes eu penso que tudo bem, que é normal estar assim, perdida para sempre. Sem tempo nem espaço, aberta, em compasso de espera de algo sem nome e sem cor, que vejo crescer dentro de mim. Passo a mão na barriga, acalento o vazio que encontro embaixo da coberta. Respiro com o algo que cresce em tecido conjunto. Não sei dizer se sou eu mesma, ou se é algo mais além de mim.

Só sei que assim é, e que assim seja. Assim meio sem jeito, meio atrapalhado e silencioso, como tudo que gesto para deixar no mundo. Tudo assim meio exagerado, meio poético, meio triste e reticente. E com algumas boas doses de esperança e de cores extravagantes, como as que uso na ponta dos dedos, com vontade de colorir tudo de vermelho vivo, rosa alegre, vinho vibrante – para cintilar os dias que se arrastam preguiçosos.

Às vezes eu sinto preguiça, como um direito conquistado. Uma enorme preguiça existencial, que se ergue como a sombra imensa da mangueira ao meio dia. Gesto a espera em preguiça. debaixo da grande sombra eu fecho olhos e ouso sonhar, um sonho cansado de acordar pela metade.

Fecho os olhos e apenas sinto. é bom sentir. Tudo vivo e dormente, com a barriga grande a espera de. Estico-me na grama sem pressa, e contemplo a dança das nuvens que flutuam em cima da minha cabeça. Vontade boba de flutuar também, de fugir uns 2 ou 3 dias, quem sabe, evaporar para depois materializar de novo, e trazer ao mundo esse tanto que ainda não tem nome. Feito mágica.

Penso como criança como seria bom poder fazer mágica. Então, por dentro, eu faço. Dou risada sozinha das minhas mágicas inventadas, e das tantas coisas que enxergo assim, quando o céu se abre nesse colorido que imagino vindo da ponta dos dedos, até tocar a nuvem gorda e recheada de mentira. Boa mentira inventada, com gosto de açúcar de caramelo, daqueles que grudam nos dentes.

Às vezes as mentiras são engraçadas. às vezes arrepiam, às vezes choram, às vezes nos fazem amar tanto. E são tão boas, que fico torcendo para que exista mágica capaz de transformá-las em realidade. Bom, como a mágica é minha, e a mentira também, eu invento. Um pó dourado qualquer, uma varinha brilhante, guardada com uma grande chave de tesouro, capaz de abrir o segredo: a realidade pode ser transformada.

Agarro a chave e o segredo grande. A realidade pode mudar. Podem existir tardes doces de sorvete, sono às duas da tarde, sonho de andar junto de mãos dadas e pés entrelaçados a beira mar. Água morna salgada, tecidos com renda florida, amor leve de dia de paz. Criança sorrindo, madrugadas de lua grande, poesias suspensas.

Solto o pó pelas ruas e banho-me de dourado, com a varinha nas mãos. Sim, a gente também pode fazer mágica.

Acompanham-se essas as cenas divertidas enquanto cruzo a grande avenida seca, enfeitada com ipês rosados. Os ipês também fazem mágica, e florescem majestosos na época mais dura do ano. Não deve ser fácil fazer flor na aridez de junho no cerrado. Mas as flores caem, rosas arroxeadas, e eu as cubro de dourado. Elas também são mágicas.

Ando de um lado ao outro do grande eixo, a chave pendurada no pescoço, as mentiras esparramadas pelo vasto concreto quente do rachar do dia. Os ipês estão lá, e me contam que é possível. Do sul ao norte sinto a beleza das magias, a enfeitar a grande travessia esturricada.

Em algum momento a trilha muda, e perco os ipês de vista. Sinto medo de perder a chave, de se esgotar o pó mágico, de perder o caminho em que acesso os meus segredos. É tudo tão frágil e tão efêmero, e tão vazio aqui sem o dourado e as nuvens cor de rosa.

Deixo um sorriso solto pela imensidão de nunca chegar inteira a onde se espera, de nunca saber ao certo quando será possível transformar a realidade. Mas existe a mágica. E eu acredito.

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