Vadias e Biscates, SOMOS TODAS!

Por Iara Ávila*, Biscate Convidada

Sim, eu sou uma vadia. Eu sou uma mulher da vida, uma Geni, uma biscate, uma piriguete. Eu também sou mãe, e sou trabalhadora. Sou igual a várias mulheres que conheço. E ao mesmo tempo diferente.

Partilho com elas o drama de ser mulher numa sociedade machista, mas sou branca e heterossexual, de família classe média, tive tudo que puderam me dar, embora não tudo o que eu quis aos 15-18 anos, porque sonhos de adolescente são, em geral, bem distantes das possibilidades paternas, ou até mesmo dos objetivos educacionais dos pais.

Partilho com essa mulheres saber que fui preterida para cargos de direção porque tinha filhos pequenos, partilho com outras mulheres saber que não fui escolhida porque era a menos bonita. Partilho com essas mulheres cantadas nojentas,  por exemplo grávida, de roupa de grávida e atravessando a rua.

Sei que a vida das colegas negras e homossexuais ou transexuais deve ser ainda mais difícil. Não lhes dão o direito de amarem, de terem seus nomes assim como o sentem. Nos documentos oficias, a não ser depois de longo, subjetivo e desgastante processo judicial ou administrativo.

Sei, ainda, que a vida das mulheres negras para conseguir emprego é ainda pior que para uma mulher branca, são em geral preteridas no mercado de trabalho, a não ser que embranqueçam, tenham traços mais parecidos com os das brancas e jamais usem cabelo afro, ou seja, ruim (ruim porque é de negra, não porque é enrolado). Óbvio que simplifiquei a questão, mas existem vários outros problemas adicionais ao de serem mulheres quando estas mulheres são transexuais ou negras.

Sou vadia, biscate, gosto de vadiar… Gosto de sexo, gosto de ser livre nas minhas escolhas sexuais e amorosas e isso nunca, jamais significou ou significará convite para estupro.  Porque eu escolho meus parceiros e não sou, portanto, objeto a ser escolhido. Enfatizo que meus parceiros também não o são. Somos apenas pessoas com o mesmo interesse.

Sim, sou gorda, mas há homens que me desejam, gostam de mim pelo que sou — não a gorda — gostam da inteligência, do papo, do humor, do carinho. Sei lá. Tantas coisas batem entre um casal. É pele, é momento. É limitado escolher somente por tipo físico. Mas cada um tem seu gosto e suas prioridades.

Sendo assim, por ser vadia, vou me policiar para nunca mais condenar outra mulher por suas escolhas amorosas e sexuais, por ser gordinha ou não, vaidosa ou não, condenar  suas escolhas de como criar seus filhos, ou de não tê-los, de casar ou não. Não vivi a vida alheia para saber o que levou tal pessoa àquele momento.

Desejo mesmo é que  todas as mulheres vadiem pelo mudo livres, aportando aonde quiserem, zarpando quando lhe aprouver, que as considerações a serem feitas ao chegar e partir pertençam a elas e a ninguém mais. Sim, elas sabem o que deixam para trás e quais são suas responsabilidades perante outras pessoas, por exemplo, e óbvio que isso lhes pesa, como deveria pesar a um homem também, ou a um trans ou gay. Não nos cabe julgar, não cabe a ninguém julgar.

Desejo, enfim, a todas as mulheres o que desejo a mim: que sejam livres na vida para serem elas mesmas, sejam biscates do mundo. Meu desejo como feminista é um só: liberdade para escolher sem ser julgada. Porque ser vadia é ser livre. Aos olhos do mundo seremos sempre vadias, por uma razão ou outra que nos impingem e que independe do nosso comportamento ou decisão. Que sejamos, então, vadias, e também biscates, com orgulho e unidas, sem condenar a coleguinha.

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* Iara Ávila é “baixinha, gordinha, nervosa, dentuça” e pede que devolvam seu coelhinho. Adora comentar novela, BBB e política e curte sambar essa “contradição” na cara das pessoas. Está lá na Brasólia rindo das bestagis do mundo e se indignando com machismos e preconceitos. No tuíter ela é a divertida @bete_davis, mas é vadia e não diva — segundo a Camilla Magalhães — e você pode acompanhá-la também no seu blog.

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9 ideias sobre “Vadias e Biscates, SOMOS TODAS!

  1. O texto da Iara (perfeito!) me fez refletir sobre uma questão interessante: tenho percebido que as mulheres estão mais solidárias umas com as outras, menos agressivas em apontar os erros das colegas. Como estou na faixa dos 40 (mentira, tenho mais que 40!), percebo uma diferença bem significativa em relação ao comportamento das mulheres no ambiente de trabalho nos últimos 15 anos. Já fui perseguida por chefe ciumenta no trabalho, preterida em cargos, de ser incompetente por ser mulher/jovem, acusada de dormir com o chefe para me promover etc. Hoje, tenho a impressão que as mulheres estão se apoiando mais ao invés de se trucidarem na arena da vida. Tenho encontrado mulheres mais sensíveis ao sofrimento das mulheres que são abusadas, negras, homossexuais ou que estão fora do padrão de beleza imposto. Quero muito acreditar que isso seja efeito da luta feminista e das discussões intensas que estão acontecendo nos últimos anos.Alguém mais percebe essa mudança?

    • Ana, pior que não sou tão otimista assim, talvez seja o meio onde vivo, e mesmo fora dele. Dois exemplos- já ouvi chefe mulher dizer que não gosta de trabalhar com mulher, e isso não faz muito tempo e atualmente, na novela das 9, temos a personagem Suelen, com uma vida sexual bem livre, apelidada na novela, e fora dela, de ariranha. Na minha TL constantemente vejo torcida contra personagem e xingamentos ao caráter dela do tipo vadia ( aliás adoram xingas as mulheres da novela de vadia) e biscate, dias desses presencia um debate altamente machista entre pessoas que curto. O caminho ainda é longo, infelizmente. Mas adorei que você gostou do texto. bjs

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