A Vida Não Está Para Biscate

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

(pode conter spoiler, mas quem se importa?)

Cecilia é a mais jovem das cinco irmãs Lisbon. Vivendo no subúrbio de uma cidade americana, vivendo sua vida de classe média americana, um dia Cecilia tenta o suicídio cortando os pulsos. Ela sobrevive e em uma conversa com o médico é questionada:

“O que você está fazendo aqui? Você não tem nem idade para saber como a vida fica amarga.”

Ao que ela responde:

“Obviamente o senhor nunca foi uma menina de 13 anos.”

E é colocando a câmera de frente para Cecilia, fazendo com que seus olhos quase fitem os nossos diretamente, que Sofia Coppola, diretora de As Virgens Suicidas, arremessa a todos os espectadores essa verdade, a princípio óbvia, mas que guarda consequências devastadoras para as mulheres. E durante todo o filme Coppola vai mostrar, com habilidade e sensibilidade, homens tentando decifrar os motivos da tragédia que se abate sobre as irmãs Lisbon.

Cecilia, Lux, Bonnie, Mary e Therese são as filhas de um casal católico, Ronald Lisbon (James Woods) e a senhora Lisbon (Kathleen Turner). Com idades entre 13 e 17 anos, elas vivem uma vida cheia de restrições impostas pelos pais, como proibição de namoros e festas. Até que a tentativa de suicídio de Cecilia mostra que a aparente felicidade da família é construída em cima do sacrifício das liberdades e sonhos de suas crianças.

 A começar pela ausência do nome da mãe, que nunca é mencionado, Coppola nos mostra através de símbolos sutis que a vida aqui não está pra biscate. Um plano particularmente inspirado é aquele em que a senhora Lisbon e Cecilia são vistas através das persianas da casa de uma vizinha, dando a impressão que estão sendo enquadradas por grades de uma prisão. Ainda assim, as garotas encontram seus meios de driblar os pais e exercer sua biscatice.

Os figurinos são usados de maneira muito inteligente para demonstrar o contraste entre as gerações de Lisbon. Enquanto a mãe usa cores sem vida, que se confundem com as cores da casa, passando a ideia de que não existe vida fora daquele lugar para ela, as filhas usam estampas alegres, ainda que não exageradas. E no momento em que elas vão pela primeira vez a um baile, é a roupa a maior preocupação de sua mãe, que trata de fazer vestidos que mais parecem sacos, como nota o narrador do filme.

E quando Lux (Kirsten Stewart) resolve exercer sua sexualidade, mesmo no momento em que a repressão dos pais atinge seu ápice, a direção de Coppola demonstra inteligência ao não relacionar isso com o abandono da garota por um jovem conquistador (Josh Hartnett) após uma noite de amor no campo de futebol. Pois ao perceber que foi deixada, Lux não esboça nenhuma reação, não derruba nenhuma lágrima. Mas fica inconsolável depois, quando a mãe a obriga a queimar seus discos de rock. E quando todas as irmãs são confinadas a uma espécie de prisão domiciliar, o resultado é previsivelmente uma tentativa de libertação, seja pela autodeterminação no exercício da sexualidade, seja pela via trágica do suicídio.

Vale notar como o roteiro, da própria Sofia e de Jeffrey Eugenides, autor do livro em que se baseia, retrata os homens. Eles nunca estão no controle da situação. Se colocam em situações constrangedoras, como a patética e infrutífera tentativa de suicídio de um garoto ao pular de uma janela sobre um jardim, vista com um olhar de condescendência por Cecilia. Uma fala do narrador é reveladora do domínio que as mulheres têm da ação. Em certo momento ele diz que o personagem de Hartnett, famoso por colecionar garotas na escola, se apaixonou por Lux, mas ela não se apaixonou por ele. Mesmo Ronald Lisbon assume mais uma posição de passividade em relação à esposa do que autoridade. Um interessante modo de mostrar que, afinal, é a mulher quem comanda seu destino.  O final do filme é pessimista, com uma estranha festa em que os convidados levam máscaras de respiração devido ao forte cheiro resultante de um vazamento químico e fazem piada com o suicídio das irmãs Lisbon. Mas ele esconde uma firme convicção de que ao não aceitar as amarras que a sociedade lhe impõe, a biscate será livre para fazer de seu mundo o que ela bem entender.

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*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

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5 ideias sobre “A Vida Não Está Para Biscate

  1. O livro veio de um sebo, nunca havia ouvido falar nele mas gostei do título; o filme vi tanto tempo atrás..gostei muito da sua análise e vou rever/reler. Tristíssima a situação das meninas, a vida dessa família. Ser biscate é complicado.

  2. Esse filme abriu meus olhos para o quanto nós, mulheres, temos o nosso poder de escolha tolhidos pelas amarras de convenções que não criamos e nem concordamos. A cena que Lux queima seus discos aos prantos debaixo de sermão da mãe é bastante forte: é quase uma metáfora a tudo que temos que passar antes de conhecermos o que queremos pra nós e lutar por isso. Sofia Coppola é show =)

      • Se as penitências são dessas, olhem que o nome de óliude da Lux Lisbon não Kristen, é Kirsten. Kirsten Dunst. Depois digam-me qual foi o castigo.
        (isto que fiz, entrar nos comentários assim, via conversa alheia, deste lado do mar chama-se ‘meter o bedelho’ . E não é estimavel)
        Pardon portanto, Ninna e Ânderson.

        E mais:
        1-Parabéns pelo texto, Ânderson. O tanto que me apetecia ficar a conversar sobre ele-texto – e também sobre o filme.
        Atinges um feito, que é não aceitar inteiramente nem uma nem outra das habituais interpretações d’ “As Virgens Suicidas”, mesmo pendendo aparentemente para um dos lados.
        2- Ainda aprendo com quem pensa, seja Deus louvado. A imagem das irmãs presas em casa, maçadas, desleixadas e enroscadas umas nas outras no chão do quarto como uma ninhada de gatinhos- e fiat lux, Lux!
        Está ali, se não tudo, muito. Mulheres. Presas, privadas de, sem poder. À espera do dia em que os outros resolvam-ainda mais- por elas. Quase resignadas, a encolher ombros irónicos, mas tão lucidas!
        Elas sabiam, claro. E então para quê mais conversa?
        Se todas sabiam tão bem que só há duas saidas-a dos outros e a delas.

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