Divergência semântica, conceitual ou preconceito enrustido?

imagem/postagem que suscitou debate e reforçou meu incômodo

Nos últimos dias começou a pipocar nas minhas redes sociais e em blogs que costumo ler as palavras cissexual e cissexismo. Na primeira vez em que os li me pareceram tão estranhos e tão sem significado que ignorei. Na segunda vez vieram acompanhados de dois textos (texto 1, da Hailey e texto 2, da Aquela Déborah) que tentavam dar conta de explicá-los. Daí em diante cada vez que comentei minha estranheza com essas palavras e conceitos surgiu uma discussão imensa a seguir. Então decidi trazer minha estranheza para cá.

Primeiro fiquei me perguntando se essa era uma discussão semântica, que respondia a uma demanda do movimento transgênero ou se era só coisa da academia (sim, eu tenho um certo preconceito com discussões meramente acadêmicas, principalmente se elas dizem se referenciar e/ou representar essas demandas). Achei a resposta em um texto de julho de 2010, uma tradução da FAQ (perguntas mais frequentes) do livro Whipping Girl da estadunidense Julia Serano.

Ok, a discussão não é exatamente nova e o livro remete a uma discussão do movimento transgênero nos EUA. Segundo o que consegui entender os trangêneros e/ou transexuais são definidos como não-normais em comparação a quem vive de acordo com seu sexo>corpo>gênero, ou seja, a ampla maioria da humanidade (ok, há divergências sobre isso também). Cisgênero ou cissexual é então a definição de todos que não sentem desconforto com seu sexo>corpo>gênero. E por que usar cisgênero ou cissexual como oposição para transgênero ou transexual? Para que os transgêneros e/ou transexuais não sejam tratados como não-normais. Isso, foi criada uma definição para quem está (ou pensa estar) de acordo com seu sexo>corpo>gênero, para que não se auto-intitulem normal e não produzam/reproduzam assim preconceito.

Até aqui tudo bem (ou quase). Mas junto com o termo e o conceito de cissexual foi criado também o termo e o conceito de cissexista. Ou seja, cissexista seria quem é (produz/reproduz) preconceituoso com transgêneros e/ou transsexuais. É aqui que acho que tudo complica.

“Eu sou cissexual. Isso não significa que a gente precisa ser cissexista. Cissexista é o “paralelo” do racismo, machismo e homofobia para a questão trans*. A sociedade é toda cissexista, porque se baseia na ideia de que o “normal” é ser cissexual e ser trans* é uma patologia, uma doença. Manjam? Não é difícil, não. E acho muito necessário, porque mesmo nós enquanto feministas somos criadas numa cultura cissexista e aí acabamos refletindo isso em discursos que associam, por exemplo, “ser mulher” a “ter útero” ou “ter vagina” ou ter um certo tipo de corpo. Isso é cissexismo, porque desconsidera todas as mulheres não-cissexuais, trans* (transgêneras, transexuais, genderqueer, etc). A discussão toda no final é sobre a relação entre identidade de gênero (eu me identifico como mulher) e corpo (no meu caso, que sou cissexual, tenho o corpo que a sociedade define como feminino – o que me coloca numa posição privilegiada neste aspecto).” — Comentário da Marília Moschkovich, numa das discussões que rolaram no Facebook por esses dias.

Entre as feministas é comum não apenas a empatia pelas demais minorias como o abraçar as causas e discussões das demais minorias, por entendermos que entre as mulheres temos negras, índias, lésbicas, transgêneros, transexuais. É o que entendo como solidariedade na luta. Sabemos do peso das palavras e expressões para perpetuação do machismo e opressão das mulheres e tentamos assimilar as reivindicações dos demais movimentos e não reproduzir — ou reproduzir o menos possível — preconceitos.

Mas nessa discussão sobre ser cissexual ainda não consegui entender como que posso reproduzir preconceito só por não me assumir/definir como cissexual. E cabe a pergunta: Não me assumir cissexual me transforma automaticamente em cissexista? Essa é a dúvida. Não, não gostei do termo. Mas no caso de ser uma reivindicação do movimento transgênero não me cabe opinião sobre ele, apenas adotá-lo ou não. Mas o fato de não adotá-lo me joga na posição de cissexista? No que não usar o termo, a expressão me faz produzir/reproduzir a fobia contra transgêneros e transexuais? Jamais usei a expressão normal para me definir diante de situação alguma. Chego quase a discordar de Caetano quando ele diz que “de perto, ninguém é normal” porque acho que nem precisa chegar tão perto assim. O conceito de normalidade traz “naturalmente” embutido uma série de preconceitos e considero quase uma afronta usá-lo.

Então, refaço a pergunta: Se não me considero normal o simples fato de não me auto-denominar cissexual reproduz preconceito contra transgêneros e/ou transexuais?

Tenho certeza sobre a importância do uso e da apropriação de termos e palavras são fundamentais na luta pela democracia de gênero. O melhor exemplo disso é a própria existência do BiscateSC, onde nos apropriamos de um termo pejorativo e o transformamos em orgulho. Percebo a dificuldade de muitas mulheres em se assumirem como biscates e respeito. A adesão é voluntária. Mas o fato de uma mulher não se auto-intitular como biscate não exatamente produz preconceito ou se configura como machismo.

Estou realmente incomodada com essa discussão. Não, não me entendam mal. A luta e a discussão de outra minoria não me incomoda, mas a imposição do uso de uma expressão para me definir com a qual não me identifico sim. E também não estou dizendo que não vou aderir a ela mais tarde, mas precisava compartilhar as dúvidas e o incômodo atuais.

Será preconceito meu enrustido?

Espero que meu desabafo ajude no debate.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

58 ideias sobre “Divergência semântica, conceitual ou preconceito enrustido?

  1. Eu acho, baby, que não é uma questão individual apenas. Não é porque eu não me considero normal que isso minimiza o fato de que a sociedade me considera. Não interfere no fato de que a sociedade está pronta pra mim e que eu gozo de privilégios por isso, tais como banheiros, discurso médico e jurídico, etc. Acho que se parece um pouco com uma discussão afim feminista que é a questão de raça. Se não falamos a “cor” do feminismo, a princípio ele é branco, né? Por isso há toda uma ênfase na problematização.Ou da questão de classe. Enfim, eu entendi que se eu simplesmente faço um post de “homem à delícia” e brinco com a coisa da banana sem problematizar, estou partindo de um padrão “natural” que vincula pênis/homem que é, mesmo sem-querer-sem saber-sem-pensar, ofensivo e cruel, ou seja, cissexista.

    Mas posso estar dizendo um monte de besteira, é um termo novo pra mim.

  2. Existe um texto resposta a uma crítica do Caetano ao novo livro do Vladmir Safatle que de certa forma trata deste assunto que acho que seria interessante de ler e “colo” abaixo:
    “Quando afirmo que devemos ser indiferentes à diferença é por defender que a vida social deve alcançar um estágio no qual a diferença do outro me é indiferente. Ou seja, a diversidade social, com sua plasticidade mutante, deve ser acolhida em uma calma indiferença. Que para alcançar tal estágio devamos passar por processos de abertura da vida social à multiplicidade, como as leis de discriminação positiva. Isso não muda o fato de não querermos uma sociedade onde os sujeitos se atomizem em identidades estanques e defensivas. Queremos uma política pós-identitária, radicalmente aberta à alteridade.

    Um exemplo: discute-se hoje o direito (a meu ver, indiscutível) de homossexuais se casarem. Mas por que não ir além e afirmar que o ordenamento jurídico deve ser indiferente ao problema do casamento?

    “Indiferença” significa, aqui, não querer legislar sobre as diferenças. Ou seja, por que não simplesmente abolir as leis que procuram legislar sobre a forma do casamento e das famílias, permitindo que os arranjos afetivos singulares entre sujeitos autônomos sejam reconhecidos? Não creio que isso seja arcaísmo, mas o verdadeiro universalismo.
    [Vladimir Safatle, na Folha de S. Paulo]

      • é caetano entro na fase do “foda-se” em relação a tudo então é meio sacal…já o Vladimir tá numa fase ótima tem um outro texto sobre cultura que eu assino embaixo.

  3. olha, eu acho muito importante o uso do termo “cis” (cisgênero, cissexual) justamente para enfatizar o sentido de gênero como um todo, ou seja, não só o das pessoas trans*, como uma construção social. isso evita que pessoas trans* sejam vistas como “desvios” a partir de nós, que somos tidxs como “normais”, e também possibilita que encaremos as questões de gênero de uma forma mais fluida, penso eu; não se trata de colocar você dentro de uma caixinha, de um rótulo “cis”, e sim dizer que o seu gênero, como o de todas as pessoas no mundo, foi construído socialmente, não está impresso no seu DNA e não depende do seu pênis/vagina/seios/whatever. depende apenas da sua autoidentificação como homem/mulher.

    eu tenho visto muita gente cis reagir com desconfiança em relação ao termo e, sinceramente, não entendo esse desconforto todo. eu sou mulher cis, fui apresentada ao conceito há cerca de um ano e desde então não tive nenhum problema em me assumir cis. embora, como disse, isso não me coloca em uma caixinha, de maneira nenhuma. uma pessoa cis, trans, intersexo, genderqueer ou o que for nunca estará 100% enquadrada no “perfil” de um determinado gênero, até pq o conceito de gênero é extremamente amplo e cada identidade é extremamente complexa. me dizer “cis” não muda absolutamente nada na minha identidade, mas muda a minha maneira de enxergar o outro.

    • Pois é, Letícia. Meu desconforto está em criar mais uma caixinha. Porque já são tantas… Começo a desconfiar dessa lógica de criar novas caixinhas para romper com as caixas antigas.
      E, sério que teu olhar sobre o outro mudou a partir da adoção do termo?

      • E como se romper a antiga?
        Se o uso de “uma nova caixinha” (como vc chama) for uma arma para romper a antiga, por que razão não usá-la, somente por estranhamento?
        E não é de se estranhar o uso de somente uma caixa para uma parcela da população que não é a “minha caixa”? Isso não me causa estranheza a cada menção?
        Por outro lado, se criam uma caixa para mim, que se contrapõe a outra caixa, então, eu estranho? É estranho por que razão? Por que agora a caixa é para mim?
        Por que acontece a estranheza?

        • Essa não é a primeira caixinha que criam para mim, Ivone. Embora tenha nascido branca, nasci pobre e mulher. A minha estranheza é com a discussão, porque até agora só tinha lido argumentos que me pareciam acadêmicos para justificar o uso do termo. Participo de passeata pela visibilidade lésbica sem ser lésbica e sem achar que estou fazendo um favor. As perguntas que fazes estou me fazendo também, e embora ache melhor ter mais dúvidas que certezas, essas respostas espero encontrar em breve.

          • Niara,
            não foi vc estar em alguma caixa ou não o que questionei, mas sobre sua fala sobre novas caixas e sobre uma específica.
            De qualquer forma, fiz as perguntas justamente para isso: para juntas as tantas que vc está se fazendo. ;-)

      • mudar, mudar, nem tanto, pq eu sempre tive uma certa noção de que meu gênero não era natural. mas, num mundo em que a identidade de certas pessoas é nomeada – como transsexual, transgênero, travesti – em função de identidades como a MINHA, que é tida como o normal, eu acho que me assumir “cis” é, sim, muito empoderador para essas pessoas. e, dependendo da maneira como vc olha, para vc também.

  4. “mas a imposição do uso de uma expressão para me definir com a qual não me identifico sim”. É por isso que frequentemente lembro que muitas pessoas trans* não se identificaram ( identificam) como transexuais ou transgêneros e nem travestis, e os termos também soam desconfortáveis para essas pessoas. Nomear o outro é sempre um processo violento e quando uma minoria identitária que vc mal conhece (vamos ser realistas o que vc sabe sobre questões trans*?) ousa nomear o grupo hegemônico sempre há comoção quanto a legitimidade. Curiosamente desconheço o esforço das feministas em desconstruir a patologização das identidades trans* e ainda estou por saber quais feministas brasileiras estão preocupadas com a revisão do DSM-IV para o V, mesmo a revisão transformando comportamentos que envolvem todos os gêneros em parafilia (cf. a mesma Júlia Serano em “Porque as feministas devem se preocupar com a revisão do DSM: http://feministing.com/2009/05/06/why_feminists_should_be_concer/) . É muito fácil vir discutir a legitimidade de um termo quando se está em posição privilegiada para questionar essa legitimidade. Além disso, desconheço o questionamento quanto a legitimidade dos termos “mulher/homem biológicos e/ou genéticos” que circulou e circula livremente por aí, e que são altamente prejudicais à emancipação de pessoas trans*, pois esses termos se baseiam em determinismo biológico. Grupos internacionais trans* questionaram as determinações e os abusos das ciências psi (psicologia, psiquiatria e psicanálise), porque seus métodos de análise pautavam-se em normas sexistas – i.e como uma mulher/homem deveriam ser/agir conforme padrões sexistas – e cissexistas – que não há possibilidade de manter um corpo ou performance ‘ambígua’ dentro das normas de gênero, e mesmo que haja trânsito de gênero este será diagnosticado e tratado, sendo a ‘cura’ condicionada a cirurgia de transgenitalização. Como explico no texto que foi lincado, a categoria cis é sobretudo uma categoria política, pois não se pretende em última instância delegar o que o sujeito sente ou é subjetivamente, pois seria impossível como também violento inferir tal coisa tanto para pessoas cis como trans*. Ser cis é politicamente desfrutar de privilégios os quais pessoas trans* não possuem no dia-a-dia. Assim como homens cis não podem abdicar de seu privilégio ante as mulheres cis – e isso está bem difundido no discurso feminista – pessoas cis não podem abdicar de seus privilégios simplesmente porque sentem desconforto em serem classificadas como tal. Antes verifiquem a origem desses desconforto e então voltaremos a falar.
    PS: Uma crítica terminológica ao termo cis e também à questão trans* que carece de genealogia tende a ser ideológica, por isso sugiro verificar a história da patologização das identidades trans* e as lutas pela emancipação identitária e morfológico-desconstrucionista pautadas principalmente pela teoria queer.

    • Bueno, (desculpa eu nem sei como me referir a ti, porque tu não assina — nem o perfil e nem o comentário) eu não critiquei, apenas expus as minhas dúvidas e eu mesma considerei que posso ter preconceito enrustido, não com transgêneros ou transexuais mas com a discussão. Infelizmente cada vez que surge uma nova demanda nesse debate da democracia de gênero não cai um dicionário no nosso colo e nem um manual de como se comportar a partir da nova demanda. Não acho que o cissexismo esteja entre as feministas, mas cada movimento identifica seus inimigos e se defende como achar melhor.
      Não acredito que assumir o termo cis mude comportamento ou realidade, embora seja ponto de partida e a mudança de fato, política, é bem mais complicada. Mas se tu estás dizendo que isso é imprescindível para a tua causa e para a visibilidade trans* (nem o uso desse asterisco eu entendo, mas vou usar até alguém me explicar) é óbvio que vou rever esse meu desconforto com a discussão.
      Preferi ser honesta e compartilhar minhas dúvidas do que sair adotando os termos por medo da patrulha do politicamente correto ou sem entender a motivação. Mas não vai adiantar dizer que não tenho desconforto com trans* e nem que não sou cissexista, né? Pelo tom do teu comentário já fui classificada como inimiga da causa. Chuiffff… :(

      • Eu sou a Hailey, e vc linkou o meu site e o meu texto que foi assinado como Transfeminismo. Meu comentário foi feito com o login do wordpress. Bem, o cissexismo está em tudo, assim como o machismo, racismo, classismo e outras formas de discriminação. O machismo está em tudo porque é institucionalizado, o Estado é machista como reflexo da sociedade. Assim também é com cissexismo. Eventualmente eu, vc, as feministas, as transfeministas, e tod@s iremos usar discursos cissexistas, assim como usamos discursos machistas, racistas, classistas. Viver é eternamente proferir discursos discriminatórios, porque a nossa própria subjetividade é construída dentro de uma ideologia excludente. Resta saber se iremos trabalhar para diminuir essa discriminação ou se iremos viver a partir de uma posição privilegiada reproduzindo a opressão para com outros grupos desprivilegiados. “Não acredito que assumir o termo cis mude comportamento ou realidade” – acredito que há consenso entre as feministas que assumir a existência do machismo, e assumir nossos discursos machistas é ponto de partida para combater o machismo não? Como vc mesmo disse a seguir: “embora seja ponto de partida e a mudança de fato, política, é bem mais complicada” devo dizer então as feministas para pararem de combater machismo porque é “complicado”? Pode-se fazer o mesmo paralelo com cissexismo. Complicado sempre será, se o grupo em questão é desprivilegiado.

  5. Niara, pra mim a questão é mais simples. Estamos falando de um grupo que por ser minoria, sofre preconceitos enormes e que é extremamente marginalizado. Usar o termo “cis” é trazer à luz que existem trans*. É obrigar aquele que escuta a pensar sobre isso. Eu acho que não usar o termo é uma omissão. Ninguém é obrigada a comprara todas as lutas, mas você sabe que não existe neutralidade. Não usar o termo cis é colaborar para a invisibilidade de um grupo oprimido.

      • Ai, Niara. Numa boa. Não foi isso que eu disse. Disse que é uma omissão, que só reforça uma estrutura que é, ela cissexista. Não que você é ou deixar de ser qualquer coisa. Centrar a coisa num julgamento sobre você não faz a discussão caminhar.

        • Não achei que estavas me julgando, Iara. Estava respondendo todos os comentários ao mesmo tempo e me irritei, mas não foi nem contigo e nem com teu comentário. Foi maus! Aliás, tua explicação foi a mais simples e fácil e começou a me convencer.

  6. Niara, se eu digo que não tenho cor, sendo branca, estou sendo racista. Mesmo que não de propósito. É o tal racismo estrutural. Rola o mesmo com cissexismo. Quem é o “neutro” precisa se reafirmar como específico pra não ser conivente com o esquema simbólico que trata as minorias como se fossem “Outros”.

    Tem um outro problema no teu texto, no comecinho. Você diz que a “ampla maioria do mundo” concorda identidade de gênero com sexo. Na real tem um debate importante aí que é uma diferença entre “sexo” e “sexo designado ao nascer”. Não é possível a gente contar o número de intersexos no mundo, porque muitos intersexos sequer têm manifestações exteriores dessa condição, então também não dá pra gente assumir que esse “sexo biológico” exista, assim, tão óbvio e evidente.

    • Marília, quando decidi escrever meus incômodos com a discussão sabia que estava dando a cara à tapa e que poderia se transformar numa enorme polêmica. Mas prefiri fazê-lo e estabelecer o debate e ter a oportunidade de entender melhor essa discussão e até de ser convencida dela. Não concorro para ser a ativista perfeita que usa todos os termos politicamente corretos e não discrimina ninguém, parto justamente do ponto oposto. Sou humana e não tenho nenhum problema em reconhecer minhas falhas e dúvidas. Aliás, o texto é justamente para isso. E acho que está funcionando.
      Mas se tem uma coisa da qual me orgulho é nunca ter comentado o texto de ninguém dizendo “o problema no teu texto” é. Acho arrogante, antipático e me irrita. — #prontofalei — Jamais concordei ou defendi essa tese do sexo biológico, mas vou reler o parágrafo para ver se está com esse sentido.

  7. Niara, obrigada pelo post. Mesmo. Porque trazido para cá pode chegar a gente como eu que tem toda empatia pela causa trans mas não vive essa realidade a ponto de ficar sabendo dessa discussão. Assim, a despeito de qualquer opinião, só o fato de trazer a discussão pra cá já foi dez, mil. Agora… Fico me perguntando para quê mais uma caixinha, como você disse. Entendo a importância de denominações na academia, nas discussões estruturais mas… Na vida pessoal, acho que tudo complica. Que eu não pareça alienada aos demais mas… Minha luta é pela queda das caixinhas, sempre. Inclusive essa que estabelece o trans como algo fora da curva.

    No mais, muitos beijos sua linda.

    • Algumas “caixinhas” são criadas para derrubar as paredes de outras.
      Estas outras sempre estiveram aí e permanecerão. Não desaparecem por boa vontade alheia. Achar que antes de afirmar identidades, todas serão eliminadas em nome de uma igualdade que nem reconhece e respeita as diferenças é ilusório. Este tipo de igualdade já é propagada em discursos e sabemos bem como funciona. O erro está justamente em chamar de caixinha.

  8. Vocês que me desculpem, mas e se eu escrevesse um texto aqui perguntando o seguinte:
    “se eu não me considerar branca, porque acho que é uma caixinha, desnecessária, sabem?, eu estou sendo racista?”

    Vocês publicariam? Vocês teriam alguma dúvida de que isso é racismo? Porque é que a caixinha “mulher” é boa? Por que é que a caixinha “Classe social” e a caixinha “raça”, na hora da gente discutir as empregadas domésticas, é boa?

    Vou precisar reescrever esse texto como se fosse sobre racismo pra verem o nível deste tipo de questionamento?

    “Mas nessa discussão sobre ser negro ainda não consegui entender como que posso reproduzir preconceito só por não me assumir/definir como branca. E cabe a pergunta: Não me assumir branca me transforma automaticamente em racista? Essa é a dúvida. Não, não gostei do termo. Mas no caso de ser uma reivindicação do movimento negro não me cabe opinião sobre ele, apenas adotá-lo ou não. Mas o fato de não adotá-lo me joga na posição de racista? No que não usar o termo, a expressão me faz produzir/reproduzir a fobia contra negros? Jamais usei a expressão normal para me definir diante de situação alguma. Chego quase a discordar de Caetano quando ele diz que “de perto, ninguém é normal” porque acho que nem precisa chegar tão perto assim. O conceito de normalidade traz “naturalmente” embutido uma série de preconceitos e considero quase uma afronta usá-lo.”

    e aí? deu pra sacar o teor do rolê?

    E, velho, na boa, me demito do Biscate. Autora levando discussão pro pessoal e se recusando a ver seus próprios privilégios, pra mim, é broxante. Infelizmente. (e pegar uma coisa que escrevi no Facebook e que só pode ser vista por redes de amigos e publicar aqui no meio do post sem nem me perguntar? meio chato né.)

    • Bueno, Marília, eu publiquei teu comentário como contribuição para ajudar na discussão justamente porque havia gostado da tua explicação. Rede social é pública, desculpaê se te ofendeste em ter sido citada, mas fiz dentro da ética tanto da blogosfera quanto do jornalismo — citei, dei crédito e disse de onde tirei.

      Aí, eu consigo estabelecer um debate até bacana com os ativistas trans* e só tu é intolerante desse jeito, dona da verdade. Não tenho direito de ter dúvida? De repente tu é a ativista perfeita, então? Tu não erra? Mas onde é que tu militas mesmo? Porque virtualmente, nega, todo mundo pode se pintar como perfeito. Eu prefiro ser honesta comigo mesma e minhas dúvidas e questionamentos. Não li num livro que era bacana ser feminista, aprendi na porrada do movimento estudantil e de um partido dito de esquerda, sofrendo a discriminação de gênero.

      E se demitir de um blog onde tu não estavas escrevendo há meses e não demonstrava interesse nenhum em voltar, mesmo com a minha insistência? Ah, tá. o.O

      • E só para fazer um esclarecimento necessário. Racismo é crime tanto quanto considero abominável e não estou propondo e nem ME propondo a sair discriminando ninguém (achei que tinha explicado isso), só questionei o uso ou não de um termo que todos afirmam aqui (e já começo a me convencer de sua necessidade) dar visibilidade a trans*, isso é bem diferente de ser racista, além de achar raso e escroto o exemplo. Mas…

        • Vale lembrar que o racismo nem sempre foi crime e só virou crime por causa da militância negra, em primeiro lugar. Em segundo, o fato de ele ser crime não faz com que ele deixe de existir estruturalmente. Ninguém é preso por ignorar que branco é raça – ou é? Eu não fiquei sabendo jamais de casos assim, pelo menos. Isso não torna essa atitude menos racista.

          Agora, sobre militância, se tu não acha que produzir conteúdo é militância, fico confusa. Não entendo isso vindo de uma blogueira e jornalista. Pra que fazer estes blogs, então? Não é militância? Ou tem uma hierarquia de práticas de militância? Militar no movimento estudantil é “mais válido” ou “mais transformador” do que militar disputando a hegemonia do conhecimento acadêmico ou do que militar produzindo conteúdo pra internet que peite o esquema dominante de pensamento? Sei não…

          (e antes fosse que eu fizesse “só” isso, né; ia ter mais tempo pra dançar na varanda com a Lu, quem sabe)

          • Qual é afinal o problema em eu ter dúvidas e expô-las de forma honesta, Marília? Não posso ter dúvidas ou não posso comentá-las? Alguém cria uma caixinha e me enfia nela e eu sou obrigada a aceitar sem questionar e sem sequer entendê-la? Minhas perguntas foram nesse sentido: EU QUERO ENTENDER. Não sou obrigada a levantar todas as bandeiras e o fato de ser blogueira ou jornalista não tem nada a ver com acreditar em militância virtual, o que fazemos aqui é ocupar um espaço, mas se isso não vier acompanhado de movimento real de pouco vai adiantar. É importante? É. Ou não estaríamos aqui.
            Quanto a tua comparação com racismo não vou comentar mais nada, tu forçaste a mão e sabes disso. Não discrmino trans* e nem ninguém. Mesmo que tratar trans* como não-normais um dia vire crime eu não me tornaria criminosa porque não os acho menos normais que eu (lembrando aqui que nunca usei a palavra normal para definir ou qualificar). Embora para ti, parece, eu esteja cometendo um crime, faltou dizer qual (tipificado ou não no código penal).

          • Niara, será que não ficou claro que estou falando de racismo estrutural quando eu escrevi “racismo estrutural”? Não quer dizer que você seja uma pessoa racista; é o mesmo com o cissexismo. Você pode não ser uma pessoa cissexista, mas reproduz o cissexismo estrutural. Assim como todas nós – alguém comentou ali em cima algo sobre isso.

            Sobre militância, olha, melhor deixar a discussão por aqui; na minha opinião toda militância é válida e essencial, e jamais vamos concordar enquanto você continuar hierarquizando tipos e militância e causas. Então simplesmente não vale a pena esse debate, neste momento e neste lugar, com você. pra mim.

          • “Não posso ter dúvidas ou não posso comentá-las? Alguém cria uma caixinha e me enfia nela e eu sou obrigada a aceitar sem questionar e sem sequer entendê-la?” NOSSA QUE COINCIDENCIA EXATAMENTE O QUE PESSOAS CIS TEM FEITO DURANTE SÉCULOS COM PESSOAS TRANS* QUE COISA NÃO. Dói né te enfiarem na “caixinha” contra sua vontade! Vc ainda tem essa opção de rejeitar essa identificação e voltar pro conforto da sua vida privilegiada cis, mas eu na sexta feira tenho que ir no psi ver se consigo laudo me diagnosticando trans* pq sem isso eu não altero meu corpo e nem meu nome, pra ver sabe se eu vivo um pouquinho melhor. É por isso que geralmente nós transfeministas temos pouco ou nenhum respeito por vcs, vcs esperneiam de posição de privilégio contra uma classificação que a nós já é bem velha e bem comum, e muito custosa por sinal. Além disso vc não me respondeu, eu não vi vc espernear quando a tal “caixinha” era classificando vc como “biológica”; ah espera como foi a “CIÊNCIA” que classificou assim pode né? É por isso que não tenho paciência, discute-se e discute-se e vcs não são SEQUER CAPAZES de perceberem a posição de privilégio e colonização que vcs se encontram…

          • Bueno, aí é que está a questão. Estou sabendo que fiz tudo isso com as pessoas trans* só agora. Sei que a luta, o incômodo e a discriminação são antigas para ti, mas eu só tomei conhecimento que tinha participação nisso agora. É claro que estranho e gostaria que tod@s pudessem espernear da mesma forma. Mas não tem como. Daí, o que faço? Falo abertamente sobre a questão ou vou ali me auto-flagelar? Desculpa, mas eu preciso entender sobre o que estou falando para poder de alguma forma contribuir na luta e não ser cissexista. Pode ser?
            Claro que tu não viste meu esperneio sobre a caixinha do biológico, nos conhecemos há pouco tempo e apenas virtualmente. Mas se quiseres posso relatar tin-tin por tin-tin mais de 20 anos de luta feminista, embora tu sempre apontarás que minha luta estava incompleta.
            Juro que estou tentando…

  9. eu aprendi o termo acerca de um mês, aliás aprendi um bocado de coisa junto. aprendi a respeitar mais a causa trans. e com isso entendi perfeitamente que sou cis. aliás assino embaixo do comentário da Letícia – “mudar, mudar, nem tanto, pq eu sempre tive uma certa noção de que meu gênero não era natural. mas, num mundo em que a identidade de certas pessoas é nomeada – como transsexual, transgênero, travesti – em função de identidades como a MINHA, que é tida como o normal, eu acho que me assumir “cis” é, sim, muito empoderador para essas pessoas. e, dependendo da maneira como vc olha, para vc também.”

    quanto a caixinha, o mundo tem um monte delas, preciso entende-las, me apoderar delas, saber quem sou nelas pra decidir o que fazer com elas. no caso sou cis, achei inevitável entender isso, e decido com a caixinha o mesmo que vc decidiu, antes de mim, Niara, antes de saber q a caixinha tinha nome, mas era caixinha, participar da caminhada lésbica e outras coisas do gênero. Afinal acho mais fácil a coisa ter um nome. bjs

  10. Gente, queria dizer em primeiro lugar que gosto de discussões. Gosto de discussões acaloradas e apaixonadas, como essa aqui. Mesmo que às vezes a gente meio que perca a mão, que fale um pouco mais alto. Faz parte.
    Achei o post da Niara extremamente honesto na sua dúvida. Eu também ouvi o termo há pouco, e tô olhando pra ele, de todos os lados, olhando pra ele junto com os outros termos, tentando me familiarizar e entender. Entender o termo, entender como usar o termo, entender quando usar o termo, entender por que usar o termo.
    Ainda tenho muito que entender, mas devo dizer que esse post da Niara e toda a discussão que se seguiu foram extremamente esclarecedoras pra mim. Do que é que se está discutindo.
    Quanto a todo o resto, ainda tenho um monte de dúvidas. E me atrevo a deixar aqui uma sugestão, que vai muito na linha desse espaço do Biscate: quem sabe não seria interessante chamar alguém para escrever um texto defendendo o uso do termo? Acho que a gente avança, vai adiante.
    Concordo com a Niara quando ela ressalta a necessidade de certa cautela na adoção de novos termos e de novas caixinhas – a necessidade de entender e de discutir, a abertura dela ao se expor aqui são louváveis.
    Concordo com muita gente acima que disse que as caixinhas já existem.
    Mas… posso dizer? Gosto da citação do Safatle. Gosto da idéia de que a gente deve mirar o pós. E, às vezes, tenho a sensação de que a gente pode estar desviando.
    Enfim. Muita coisa a ser discutida ainda. Vamos adiante. Com honestidade e abertura.

  11. Muito bom o tema proposto pela Niara. Suscitar o debate é sempre bom. E fecho com a Renata Lins. Também tenho várias dúvidas e, como perguntar não ofende, lá vou eu dar meu pitaco: “se sou hetero e devo usar cissexual para empoderar os trans, o que uso sendo hetero para empoderar os homo, os bi e outras orientações?” Ok! O termo pode ser relevante para o meio acadêmico, mas como explicar a uma pessoa que mal consegue definir o que é ser hetero, o que é ser trans, que agora sou CIS?! Tb fico com a sensação de que se patina e não se avança. Enfim, apenas especulações…tô engatinhando no assunto, mas com bastante boa vontade para aprender. E mais, sempre pela liberdade de escolha, use o termo quem quiser e se sentir à vontade. Beijos Biscas!

  12. Bem, eu li o debate todo e sinceramente só entendi algumas coisas bem claras:

    1 – Há um problema relacionado a trans* e a “normalidade” (Notem as aspas por gentileza) que precisa ser enfrentado e maturado

    2 – Há uma discussão que me parece muito mais virtual que cotidiana (Inclusive isso se reflete na ausência ou muito pouca coisa em Português, repito, em Português no Scielo e Google Scholar).

    3 – Há uma ânsia de “adequação” que já estimula uma fome em encaixotar pessoas de acordo com uma recategorização da linguagem que, pasmem, se pretende desencaixotadora de trans*, que não tenho dúvida que são oprimidos pela dicotomia com a “normalidade”, mas também tenho dúvida se a questão prática cotidiana se resolve com a mudança de terminologia e automática definição de papéis opressores até a ativistas que cotidianamente lutam ao lado dos trans*, mulheres, negros,lgbt, etc.

    4 – Há a meu ver um imenso equívoco em tornar obrigatório um momento de necessária reflexão até para que exista consenso e ação diante de um novo problema.

    Diante disso vi parte da discussão e lamento muito que novamente tenhamos a arrogância premiada pela omissão e lamento ver que uma dúvida é comparada a racismo. Aliás, lamento ver que metade do questionamento da Marília é porque não pode se assumir branca (como se alguém a impedisse a não ser o preço da posição) e veloz em repassar a outrem, como de costume, a lógica do “você é privilegiado”. É claro também que o tema é caro pra Marília, dado que nas minhas pesquisas ela é uma das pessoas que escreve sobre o tema inclusive constando em veículo da UFJF (Me foge agora se blog ou não). É claro também que há uma lógica de fixação em quem por algum motivo se sente incomodado com absolutamente do nada ser vinculado a alguma forma de opressão sendo um combatente tradicional das mesmas por toda a vida e que há uma lado que simplesmente ignora isso e acha um anátema.

    Acho desonesta a comparação entre a dúvida da Niara e racismo, acho lamentável a omissão da coletividade diante da cotidiana prática da Marília em rebaixar o debate com arrogância e posteriormente uma postura que faz uso de confusão terminológica e rococós proto-acadêmicos para justificar seus próprios preconceitos e problemas com relação ao que enoja seu proverbial elitismo. Acho lamentável tudo isso e agradeço aos céus por não precisar conviver cotidianamente com esse tipo de pessoa.

    Todo o debate, que estava sim me aproximando da ideia para tentar localizar o problema e pensar sobre ele, acabou por me afastar mais do assunto.

    Talvez por eu ser homem, branco e heterossexual eu seja automaticamente cissexista e isso me incomode, talvez, mas talvez também por eu academicamente ter um hábito que considerava de correção historiográfica de tentar problematizar questões em todos os viéses (É isso?) possíveis e ter encontrado trocentos problemas em toda a questão, ter debatido com colegas de História e Antropologia, com colegas militantes LGBT, com colegas militantes feministas do PSOL e mesmo com tudo isso permanecer com as mesmas dúvidas tanto práticas (É demanda do movimento isso? ou criamos ela para que seja pela influência internacional?) quanto teóricas (E todo o arcabouço cultural no plano antropológico? E o conceito de normalidade sendo usado como categoria reversa ao propor que quem não se redefine automaticamente como cissexual é automaticamente cissexista?).

    Meus pendores militantes podem não ser obviamente algo que tenha algum valor, mas o chão dá a gente a preocupação constante de como dialogar com a ponta e confesso que me parece que a omissão e a arrogância sustentam um problema pra quem sai de casa, do micro e do blog pra rua. Meus pendores acadêmicos dizem “Não obrigado!” à questão porque, repito, é um tanto confusa, deveras etnocêntricas, baseia-se em uma noção generalista de cultura, sociedade e humano sob o prisma eurocêntrico (englobando as culturas influenciadas diretamente pela europa).

    Com tudo isso me sinto extremamente incomodado como homem (cissexista?) no espaço do blog. É como se subitamente fosse da KKK no movimento negro. E tenho uma história de militância cotidiana profundamente ligada a lutas onde o que digo e olho e penso é fruto de autocrítica para evitar opressões a outrem, e mesmo com isso neste caso me recuso e ver-em como opressor.

    Consigo entender meu racismo, meu elitismo, meu machismo, mas cissexismo? como, cuma?

    Talvez seja minha estupidez atávica, que inclusive foi colocada pela Marília no facebook sem o corajoso uso do termo burro, mas de forma mais sutil e elegante. Talvez seja o fato que não tenha balacobaco na escrita ou ache a vida linda e fofa e ache um absurdo ter empregada, acho absurdo ter orgulho de ser branco (embora tenha orgulho de ascendência portuguesa, de ser carioca, de ser umbandista, tricolor e maluco) e ache racismo sim senhor, e não ache que precise explicar porque a Marilia é inteligente, muito mais que eu, o suficiente pra entender isso e está se fazendo de tola, ou apenas não seja consciente (No sentido de consciência de classe de Marx pela via de Thompson) do absurdo que escreveu.

    Diante do exposto meus textos estão ai e eu to aqui, ainda, sub-júdice e assustado diante do que vi. Até porque, como disse em um texto recente, não acho que existam homens feministas, no máximo simpatizantes e diante do que vejo do movimento além de homem, hetero, branco sou cissexista apenas por me identificar como homem, nada mais que isso.

    Como opressor não acho adequado estar em um espaço de luta contra a opressão, não acham? Pensemos a respeito.

    PS: Não ocultei nomes, não vou ocultar e o que eu tinha de dizer está aí.

    • Eu não precisei “me identificar” como cis. Eu sempre fui cis, esse termo é apenas uma palavra que define algo que eu já sou. O que acontece é que agora eu tenho uma palavra para definir pessoas não-trans, sem ter que recorrer a coisas inexatas e preconceituosas, como “nascida mulher” (mulheres trans tb nascem mulher, independente de serem designadas como homens ao nascer), “mulher biológica” (mulheres trans são compostas por algum material alheio à Biologia?!), etc. Tb não preciso dizer “A maioria das mulheres, exceto algumas mulheres trans, tem vagina”. Eu não preciso usar pessoas iguais a mim como o padrão a partir do qual mulheres e homens trans são definidxs. Não sei como um recurso assim, que tornou minha linguagem mais inclusiva e menos ofensiva, poderia me incomodar.

      Eu sinceramente não entendi o que vc quis dizer com o dilema de “se identificar” ou não como cis. Ninguém está pedindo pra que vc se apresente como “Naira, cis, brasileira, branca, estado civil, profissão, endereço e RG”. O que o movimento trans aponta é, entre outras coisas, para não usar “homem” e “mulher” como sinônimo de homem e mulher cis. Para não dizer coisas como “Mulheres tem vagina”, pq isso automaticamente exclui mulheres trans* (o asterisco é usado para indicar que trans está sendo usado como um “termo guarda-chuva”, que abarca todas as identidades de gênero não-cis. Vc poderia ter perguntado ou pesquisado, em vez de dizer em tom irônico que vai usar “até alguém te explicar”). Se, ao falar de mulheres com vagina, a pessoa explicar que está falando de mulheres cis, isso já contribui pra demonstrar que mulheres cis são apenas UMA categoria de mulheres, pois tb existem outras mulheres (p.ex: mulheres trans), que são tão mulheres quanto. Acaba com a idéia de que homens e mulheres cis são o “ser humano padrão”, a medida pela qual todxs xs outrxs devem ser julgadxs, e pessoas trans são um gênero à parte ou um desvio.

      Quanto a ter dúvidas e expô-las, isso é perfeitamente humano e honesto. O que não dá é pra ficar na defensiva qdo alguém responde às suas dúvidas. Vc perguntou se estava perpetuando cissexismo ao não se assumir enquanto cis, te responderam que não se identificar como cis perpetuava o cissexismo, te explicaram a razão, e vc se irritou. A Marília fez um paralelo pra apontar um preconceito embutido no teu raciocínio (não foi vc mesma quem perguntou se sua opinião não seria fruto de preconceito embutido?) e vc se irritou. A Hailey explicou a necessidade do uso do termo, e vc se irritou. Ela apontou que existe uma desatenção, por parte do movimento feminista, em relação ás demandas de mulheres trans, o que é mais uma razão para usar o termo, e vc se irritou. Pior, disse que, pelo “tom” dela, vc já estava sendo tratada como inimiga da causa, e que “não existe” cissexismo no movimento feminista. Existe, e eu poderia apontar vários exemplos. Apontar isso é te classificar como “inimiga da causa”?! Vc quer ouvir comentários e respostas, ou quer ouvir apenas o que te agrada?

      .

      • Vamos por partes, Natasha.
        Não me irritei com ninguém além da Marília no debate e não estou na defensiva. Estou lendo os argumentos, entendendo e vendo onde isso se encaixa na minha vida e identidade. Eu pesquisei “trans*” e não achei e só agora me dei conta que deveria ter feito a pergunta “porque o uso do asterisco junto da palavra trans” (me refiro perguntar ao google, aí aparece a explicação). Mas perguntei, sim. Uma amiga me explicou ontem em privado e por isso estou usando a expressão, e nesse sentido não fui irônica. Eu precisava da explicação mesmo. Pode não parecer normal, mas eu não tenho vaidade boba de dizer “não sei” em público. Não sei, pergunto. Não entendi, questiono. É esse o exercício.
        É certo que não expus apenas dúvidas, são mais dúvidas é verdade, mas também questionamentos. Ainda tenho alguns. A explicação da Hailey foi bacanérrima, principalmente a segunda, onde argumentou a lógica da luta trans* dentro do movimento feminista. Onde que eu me irritei com isso, se eu ainda a agradeci pelo comentário?
        Continuo achando o exemplo da Marília forçado demais e com ela eu já perdi a paciência (porque a reação dela desde o início é que estou cometendo um crime ao fazer meus questionamentos) e terei bem mais dificuldade de ouvir e ler seus argumentos. Aliás, foi ela quem primeiro traduziu a questão para mim e por isso eu a citei no texto. Os demais argumentos, que li com toda atenção, apontam na importância do uso/adoção da definição cis. Ok. Reproduzimos todos o cissexismo estrutural de alguma forma.
        Claro que tem um incômodo geral meu (e está nítido) que é com a criação de termos/expressões/caixinhas (tanto faz o nome) dentro da esquerda hoje, mais especificamente na discussão de gênero. Além disso, está me parecendo (e isso está dito nos comentários da Luciana, Charô e outras pessoas que vi opinarem sobre o assunto nas redes desde que essa discussão surgiu para mim) é que poucas pessoas entendem a questão cis e tem tantas ou mais dúvidas (talvez outras) que eu. E muitas pessoas, mesmo sem entenderem a questão, na ânsia na adequação à nova demanda já adotaram os termos e internalizaram “sim, eu sou cissexual/cissexista”. Sem se preocupar inclusive de como isso chega na rua. Porque se aqui, onde o nível de analfabetismo funcional é baixo e todos sabem ler e interpretar razoavelmente e tem acesso privilegiado à informação está complicado entender, imagina explicando isso na rua…
        Se eu cheguei ao ponto de escrever um texto a respeito é óbvio (pelo menos eu acho que sim) que quero ser convencida da discussão e porque achei (e estava certa) que não era só eu que não tinha informação suficiente a respeito. Para quê perderia tempo com uma pendenga desse tamanho se não quisesse ler/ouvir os argumentos? Não tenho tenho ânsia nenhuma de adequação, quero é entender a questão para poder contribuir na luta como sempre fiz.

        • Vamos por partes tb:

          EM RELAÇÃO À SUA REAÇÃO AOS COMENTÁRIOS DE OUTRAS PESSOAS:

          Esse foi o final da sua resposta à Hailey:

          “Preferi ser honesta e compartilhar minhas dúvidas do que sair adotando os termos por medo da patrulha do politicamente correto ou sem entender a motivação. Mas não vai adiantar dizer que não tenho desconforto com trans* e nem que não sou cissexista, né? Pelo tom do teu comentário já fui classificada como inimiga da causa. Chuiffff…”

          Hum…ela dá uma resposta que nem tem a ver pessoalmente com vc, e mesmo assim vc acusa o “tom” do comentário dela de ser ofensivo a vc (te classificando como inimiga da causa)? Meio complicado vc dizer que levou na boa o comentário dela. Idem com dizer que a Marília é dona da verdade, simplesmente pq apontou o privilégio presente em vc e no resto das pessoas que estavam comentando reclamando da “caixinha”, sendo que nós JÁ ESTAMOS em uma caixinha, e ela se chama “normal”. Eu prefiro tar numa caixinha que seja menos excludente e ofensiva pra outras pessoas.

          EM RELAÇÃO A CAIXINHAS:

          Se vc acha nossa reação exagerada, se imagine frente a um daqueles iluminados que sempre aparecem pra dizer que homem tb sofre com papéis de gênero, e a gente não devia lutar pelo feminismo, devia lutar “por todo mundo”. Esse papo das “caixinhas”, do “todo mundo”, só é usado por quem tem o privilégio de tar nas “caixinhas” mais legais, aquelas que, pelo menos de algum ponto de vista, lhes conferem vantagens. Vc pode não entender exatamente os motivos da criação do termo “cis”, mas a EXISTÊNCIA dele já não é prova suficiente de que não, as pessoas trans não acham que usá-lo é “criar mais uma caixinha”? E não foi vc que reconheceu, no seu próprio post, que não somos nós, enquanto pessoas cis, que devemos dizer ao movimento trans que termos elxs devem usar? Então a gente não tem nada que ficar reclamando só pq o movimento trans tirou a gente da caixinha “normais, corretxs, adequadxs, saudáveis”, e colocou a gente na caixinha “cisgênerxs”, uma caixinha que não atribui nenhum valor subjetivo à nossa identidade de gênero ou à congruência dela com o sexo designado pra nós ao nascer.

          EM RELAÇÃO A FALTA DE ENTENDIMENTO DA QUESTÃO:

          Ora…não é pra isso que serve a internet e o debate, pra debater essas coisas e difundir informação? E, na boa, não sei qual é a dificuldade em explicar o termo “cisgênerx”. Cis é quem se identifica com o sexo que lhe foi designado ao nascer, ué. Pô, vc iniciou esse post com um quadrinho que já dá conta da explicação. Pode ser que tenha gente com dificuldade em entender? Até pode, mas não é por isso que vamos continuar nos chamando de “normais”, biológicxs” ou usando homens e mulheres cis como o padrão da humanidade pelo qual se mede todo o resto. Não se continua perpetuando preconceito simplesmente pq “pode ficar difícil de entender” se a gente fizer de outro jeito.

          EM RELAÇÃO A “INTERNALIZAR” A IDÉIA DE CISGÊNERX/CISSEXISTA:

          Não sei exatamente o que vc quis dizer com isso. Como eu disse antes, minha autopercepção não mudou depois que conheci a palavra “cis”, eu simplesmente aprendi um novo nome pro que eu sempre fui. Realmente não entendo o que seria “internalizar” a condição de cisgênerx. Quanto a ser cissexista: sim, todxs nós podemos ser em algum momento, pois vivemos em uma sociedade cissexista. Assim como não é difícil ser machista, racista, classista, etc, em uma sociedade que espalha esses preconceitos por toda parte. Eu mesma já me peguei, depois de anos de leitura sobre assuntos trans, depois de pelo menos um mês de discussões transfeministas no Face, usando linguagem cissexista. A diferença é que eu percebi isso. A diferença é que agora, qdo eu escrevo um texto sobre mulheres, eu tomo cuidado pra não fazer presunções a respeito de “coisas comuns às mulheres” pensando apenas em mulheres que não são trans. A diferença é que eu penso antes de falar. Se isso é “internalizar que sou cissexista”, então isso é uma vantagem, isso me ajudou a ser mais inclusiva, a não tornar pior o dia de alguém com alguma frase escrota.

          • Eu não uso o termo normal para nada a não ser entre aspas justamente para evidenciar o quanto não gosto dele.
            Achei bacana teu esforço para desconstruir meu discurso e provar o quanto sou preconceituosa ou seja lá o que estás querendo provar. Mas não vou mais explicar o que disse ou o que tentei dizer porque teve gente que entendeu e não viu nenhuma intenção escusa camuflada das minhas entrelinhas. Expus minhas dúvidas, coloquei o debate na roda e mesmo tendo alguns dissabores, hoje tem mais pessoas familiarizadas com o termo e a discussão cis que ontem. Mesmo com tantos “defeitos” apontados por ti e pela Marília, acho que o saldo foi positivo.
            Obrigada pelas contribuições.

    • Sabe, Gilson, pensei muito antes de responder esse seu comentário e fiquei torcendo pra você vir aqui e apaga-lo. Mas você não apagou, então estou contando que você o sustenta. Se um dia retirá-lo, retiro minha resposta que segue:
      Começando de baixo:
      “Como opressor não acho adequado estar em um espaço de luta contra a opressão, não acham? Pensemos a respeito.”

      Se você acha que opressor e oprimido estão necessariamente em lugares distintos, concordo que seu espaço não é esse, não por ser o opressor mas por pensar nessa perspectiva tão oposta à linha do blog que é a de deslindar as contradições. Inclusive a de opressor e oprimido serem, muitas vezes, o mesmo em relação a si mesmo.

      “Até porque, como disse em um texto recente, não acho que existam homens feministas, no máximo simpatizantes e diante do que vejo do movimento além de homem, hetero, branco sou cissexista apenas por me identificar como homem, nada mais que isso.”

      Não é política do biscate achar que não existem homens feministas, até onde fui informada. Eu nunca achei que precisa ter ovário pra ser feminista (ou útero, vagina, etc). Basta ter senso crítico, sensibilidade e abertura, pra começar. E eu recomendo muito o post aqui do nosso blog intitulado Não tem graça onde se diz que não estamos acusando ninguém de ser machista, mas de apresentar atitudes machistas. Ninguém está dizendo que você é cissexista por ser homem cisgênero. Cissexista é, por exemplo, o comportamento de dizer “homem biológico” versus “outra designação”. Você dizer “sou homem” como se a sua identificação fosse mais legítima por você ter um pênis é uma posição cissexista aprendida e naturalizada. Não faz de você uma pessoa ruim. Faz de você uma pessoa que cresceu em uma sociedade que naturaliza essas posturas, só isso.

      “Meus pendores militantes podem não ser obviamente algo que tenha algum valor, mas o chão dá a gente a preocupação constante de como dialogar com a ponta e confesso que me parece que a omissão e a arrogância sustentam um problema pra quem sai de casa, do micro e do blog pra rua”

      Não tem ninguém aqui julgando a sua militância, antes o contrário, não é? E dialogar as pessoas no mundo virtual é menos legítimo que na rua? As pessoas que escrevem e problematizam as questões vividas por elas com ao Haley são menos pessoas porque não estão na sua rua? No seu partido? No seu movimento seja ele qual for? Você acusa a marília de arrogante e sei que lá, mas não se omite de usar as suas referências sejam teóricas, sejam pessoais pra subsidiar o seu discurso. Porque ela, ou qualquer outra pessoa, usar as próprias referências é arrogante mesmo a não ser no critério diferem da sua opinião?

      “Acho desonesta a comparação entre a dúvida da Niara e racismo”.

      Não foi dito que a Niara é racista, mas que a dificuldade de reconhecer as características da sociedade que privilegiam as pessoas cis esquivale à dificuldade cotidiana das pessoas reconhecerem seus privilégios simplesmente por serem brancas. Não tem nada de desonesto em traçar paralelos desde que não se fundamentem em ofensas pessoais ou acusações.

      Quanto à omissão da coletividade, supondo que eu faço parte da coletividade que você indica, já que não há nenhum outro nome além do da Niara e da Marília…
      …tenho muitas coisas pra responder, mas começo com uma identificação plena com a Marquesa de Merteuil. Diz ela pro Visconde de Valmont…”sabe porque não voltei a casar? Para que nenhum homem se ache no direito de achar que pode me policiar”. Repare que nem é para que nenhum homem tenha o direito, mas para que nenhum homem tenha o direito de achar que pode.

      Não preciso lhe dar explicações sobre o que comento, quando comento ou como comento. Nem eu nem nenhum outro autor ou colaborador desse espaço. O nojo, assim como a grosseria, indico, é todo seu. De minha parte acho que a Niara fez um post com muitas questões relevantes para as quais várias pessoas tem boas indicações de caminho pra pensar e indícios de respostas e as pessoas vieram aqui indicar esses elementos. Não vejo como uma pessoa pensar/escrever muito sobre algo lhe diminui, essa lógica me escapou totalmente. Se existem diferenças de estilo, visões de mundo, etc. entre Marília e Niara, entre você e marília, entre quem quer que seja com quem quer que seja isso não dá o direito de cobrar de ninguém posição em relação ao texto. Inclusive, só pra nomear, o meu pensamento sobre o conteúdo do post é o enunciado no primeiro comentário ali em cima postado.

      “Há a meu ver um imenso equívoco em tornar obrigatório um momento de necessária reflexão até para que exista consenso e ação diante de um novo problema.”

      Ninguém te obriga a deixar de usar os termos que quiser. Não é obrigatório. É uma opção. Há uma discussão e pessoas que dizem: é cruel naturalizar homem=pênis, é cruel apagar pessoas que não se enquadram. Você opta ouvir essas pessoas ou não.

      “Há uma ânsia de “adequação” que já estimula uma fome em encaixotar pessoas”

      Não tem ninguém querendo encaixotar ninguém. Só se aponta que usar indiscriminadamente certos temas, conceitos e ideias apagam quem não se define por estas ideias, conceitos e temas. A Natasha explicou muito melhor no comentário dela aí em cima sobre caixinhas.

      “Há uma discussão que me parece muito mais virtual que cotidiana”
      Cotidiana pra quem? Eu estou me posicionando a partir de narrativas que li sobre pessoas que diariamente sofrem por serem descritas como “fora da curva” simplesmente por serem elas mesmas.

      É isso, preferia que o seu e o meu comentário fossem apagados. Mas permanecendo um, fica o outro.

      • Obrigada por responder, Luciana. Eu não consegui.

        E Gilson, você criticou os comentários da Marília e quem ficou calado sobre eles. Pois se é pra me pronunciar sobre eles, quero dizer que achei super pertinente a comparacão de não aceitar o termo cissexual com não aceitar a existência de raca branca. Se a Marília já não tivesse feito a comparacão, eu teria feito, porque foi exatamente o que eu pensei enquanto lia o texto. Substitua o termo cis por “brancx”, “homem”, e veja o que acontece. São todos simplesmente nomes pra categorias que não é aceitável chamar de simplesmente “normal”.

      • Bem, Luciana, mantenho o comentário e mais, acho que você optou por um caminho, faz parte e mais distorceu o que escrevi, mas a vida é assim…

        Não acho que você tenha que dar satisfação, mas acho sim que não deva se omitir, é uma lógica minha particular e que é um dos inúmeros pontos em que divergimos que eu sempre achei que invariavelmente acabariam em choque.
        Diante do exposto e do que li e do endosso à postura da Marilia e da clara inadequação minha neste espaço me retiro da equipe.

        Os textos que cá estão, caso ainda interessem permanecer e os vindouros já postados assim ficam, mas deste momento em diante me retiro da equipe.

        • eu gostaria, por favor, que você apontasse o que eu distorci. O que apontei no seu pensamento que não era o que você queria dizer e, se puder, o que você realmente queria dizer que não era o que apontei.

          No mais, sim, escolho meu caminho a cada momento e espero estar escolhendo sempre um que não me faça apontar o dedo pra ninguém e dizer como a pessoa DEVE agir. Como lhe disse em privado, digo aqui: divergir em ideias não me faz gostar menos de você, mas não dou o direito de alguém determinar meu comportamento.

  13. Niara, entender e aceitar o termo cis pra mim é ponto inicial pra se reconhecer os privilégios que se tem por ser cis e comecar a se livrar um pouco do cissexismo (que todas temos). Nós que somos mulheres, e sabemos o que é estar do lado menos privilegiado do machismo, temos como pelo menos fazer a comparacão com o machismo.

    Pense que certas pessoas são machistas sem saber, porque o machismo é estrutural. E pense que um homem machista comeca a escutar sobre o machismo e as atitudes que ele toma que são machistas, qual a atitude você espera dele? Que tal tentar fazer o mesmo reconhecendo seu privilégio cis. Eu não acho que “eu não sabia” ou “ninguém me explicou” é desculpa pra propagar preconceito. A gente escorrega e vai continuar propagando preconceitos, porque fomos criadas numa sociedade cissexista, machista, racista, classista, etc. Mas o mínimo que temos que fazer é escutar, buscar informacão e pedir desculpas a quem se ofende e tentar fazer melhor da próxima. É o que eu estou tentando fazer.

    A gente pode não virar militante da causa, mas eu acho que o mínimo é a gente fazer o esforco pra não propagar o cissexismo.

  14. Rendeu heim!? Mas só pra dizer, que muitas coisas ficaram claras depois desse seu texto para mim! Acho super válido o seu questionamento, pois não tem como adota um termo se você não o entende. E graças a esse texto as coisas estão mais claras para mim! Valeu!

  15. Então Niara,

    Nascemos numa sociedade cis! A gente não pode achar que essa desconstrução é simples e pode ser feita da noite pro dia, sem sofrimento. Talvez seja esse o seu desconforto. Mesmo entre pessoas militantes que na vida prática defendem as pessoas trans* de abusos cotidianos (e eu sei que você seria a primeira a fazer um barraco se alguém a sua volta tentasse discriminar uma pessoa trans*) é difícil associar essa luta a um termo que evidencia um privilégio (o privilêncio de ser cis numa sociedade cissexista).

    Faço um paralelo com aquela discussão se existe homem feminista, porque ser homem já é um privilégio, mas a gente sabe que dá pra ser homem e buscar não ser machista. Então dá pra ser cissexual E combater o cissexismo. Como podemos combater o cissexismo? Impedindo que uma pessoa trans* seja discriminada num banheiro público, por exemplo. E usando o termo “cis”, por que não? Vamos defender o termo, que faz parte da luta.

    Tudo é aprendizado. E o termo Cis foi criado por um motivo bem forte, é uma palavra que visa desconstruir isso que está enraizado. Usá-lo é uma forma de apoiar essa desconstrução.

    Tem uma coisa que as pessoas não perceberam no seu texto: é que você menciona um desconforto mas não sabe identificar muito bem da onde ele vem. Será que seu desconforto é com o papel de feminino que a sociedade impõe? Porque uma pessoa pode não se sentir mulher o suficiente, nos termos impostos pela sociedade, e daí a achar que o termo cis não lhe cabe. Porque, né, vamos combinar, apenas a pessoa pode dizer se ela é mulher, homem, elfo, andrógino, apenas a pessoa pode identificar a qual gênero ela pertence. Então rola uma subjetividade aí – só você pode se definir o quanto cis você é nesse ordenamento atual do mundo. Tem dias que você está mais cis, tem dias que não… Enfim.

    Compliquei?

    Ufa. Pessoal da militância me diga se escrevi alguma bobagem. Estou aqui pra aprender.

    Beijos.

    Amanda

    • Amanda, querida.
      Não sei de onde vem esse desconforto. Se soubesse ficaria mais fácil. Mas povo foi logo deduzindo (e talvez até eu) que é minha luta pela manutenção do privilégio cis, o qual só descobri que tenho há poucos dias e o qual nem chego a sentir ou desfrutar no meu dia a dia, porque só tem osso na minha vida e não me sinto privilegiada em nada — embora saiba que sou em alguns aspectos. Mas saber é uma coisa, sentir e vivenciar é outra. Né?
      Sempre tive problemas com imposições, nasci rebelde. Sou uma questionadora no mundo. A mim não basta dizer “é assim porque é assim”. Perco um tempo danado argumentando e justificando com homens que não querem ser taxados de machistas e se perdem no meio da discussão feminista. Acho válido fazer isso, ninguém nasce sabendo e quando nos tornamos militantes de esquerda, por exemplo, não cai no nosso colo um manual de como não reproduzir o machismo, racismo, homofobia, agora tem o cissexismo também. Não é simples. Por não ser simples não quer dizer que não faremos nada, eu não desisto diante de dificuldades. Mas preciso entender.
      Hoje sei bem mais que na terça-feira, quando escrevi o texto. Mas ainda não me sinto apta na discussão.
      Enquanto isso só me cabe reconhecer meu cissexismo.
      Qual o próximo passo?
      Beijos!

  16. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>