Duas mulheres, muitas mulheres

O papel da mulher na História varia tanto quanto a mesma História. Fixar a mulher, como qualquer coisa, em uma entidade entendida como um tipo apenas, formatada diante de estereótipos, é torná-la não mulher, não viva, esquecê-la, encaixotá-la.

A mulher não nasce oprimida e nem se torna vítima, frágil ou cor de rosa choque, tudo é construído, mantido, transformado, desconstruído, reconstruído, no decorrer dos tempos, resistências, ações e omissões.

A mulher é a mulher e suas circunstâncias, parafraseando Ortega Y Gasset.

Uma das mais interessantes descobertas de minha vida de historiador foi a mutabilidade da mulher não só no decorrer do tempo, mas do espaço.

A mulher e seu papel são variáveis tanto na história quando na divisão de classe, e a liberdade veste muitas roupas e comportamentos nesse ínterim, inclusive vestindo fardas.

Se escravas iam além do papel de cativas trazendo tradições de comércio e tornando-se senhoras delas e de outros a partir de sua arte comercial, o que diríamos de mulheres que saiam do papel de Esposa-mãe e tornavam-se revolucionárias de arma em punho? Ou que saiam do papel de vítima de abuso pra sair de um estupro cravando alfinete no pênis do agressor ou responder à violência doméstica lançando um ferro antigo de passar roupa na cabeça do marido violento?

Mulheres resistem. E não resistem apenas de forma visível, mas resistem inclusive com a apropriação do espaço de poder doméstico e avanço diante do espaço de poder público. Em múltiplas formas de luta as mulheres se organizam e ocupam papéis mais ou menos radicais na defesa de seus direitos, anseios e liberdades.

 Desde o feminismo Materno de grupos Estadunidenses do início do Século XX até as Socialistas do mesmo período passando pela queima dos sutiãs e pelas Pagu, as Mulheres rompem com o domínio sobre si de diversas formas no decorrer da História, algumas vezes mediando, outras vezes tocando fogo.

Duas personagens fazem parte desta reflexão de forma enfática. As duas fazendo parte de descobertas recentes, uma via documentos, outra via memória.

Falamos aqui da revolucionária Alzira, participante da Coluna Prestes, e de uma certa Violeta Moura Chamarelli, vulgo minha avó, que no início do Século XX, em período próximo, tocaram fogo nas ruas e sertões, sapateando na cara de uma sociedade que via a ambas como demônios sedutores, serpentes e subversivas formas de andar pelo mundo.

Enquanto Alzira saía do Rio Grande do Sul para se enamorar de Miguel Costa e acabar presa enquanto liderava patrulha de revolucionários em Uauá na Bahia, Violeta ia de trem todo dia para o centro da cidade do Rio, sendo alvo, ambas, de ações e julgamentos que as tinham por prostitutas.

Alzira sai de sua família e vai pro mundo, Violeta vai pro mundo antes que o tempo autorizasse.

Alzira usou o corpo como quis e bem entendeu, ou nos braços de quem amava ou nos braços de quem queria, ou por tesão ou por interesse, como quis e desejou e foi feliz, e jogou sinuca e tomou cachaça e não sofreu na prisão até sua anistia.

Violeta viu a opressão trocar de mãos e tentar bater nela, e ali, magra, frágil, mostrou uma força e uma raiva que impede domínios e que mostra pra fascista que com os braços soltos o adversário reage.

Alzira lutava contra Arthur Bernardes, Violeta contra uma sociedade conservadora e hipócrita, um marido fascista e uma ideia que mulher que trabalhava podia ser estuprada no trem.

Alzira queria mudar o mundo por uma ideia. Violeta resistia ao mundo e o mudou por vontade própria, nem sempre consciente.

Ambas exerceram papéis tomados à força das mãos do roteirista.

Uma virou soldado, outra enfermeira.

Enquanto Alzira lutava ao lado de homens para transformar o Brasil, Violeta transformava o Brasil no cotidiano, inclusive amando livremente sob os olhos de rapina do fascista torturador a mando de Getúlio, enquanto amava comunistas o marido os matava.

Alzira e Violeta viveram nos anos 1920 e 1930 no mesmos país que a muitas outras mulheres oprimiu e que a História tende a tornar todas boas donas de casa e virginais senhoras , avós que não viveram.

Alzira e Violeta viveram e por vezes ofenderam, urraram, gozaram, maltrataram os olhos de quem não entendia como que uma mulher podia sair do papel original e brilhar em palcos diferentes.

Só descobri e entendi Alzira quando entendi e descobri Violeta.

Violeta que me comparava a seu algoz pela personalidade e autoritarismo, Violeta que m e defendia em minhas rebeldias, que me ensinava a ler, a ser duro. Violeta e eu nunca fomos amorosos um com o outro, e nem podíamos.

Alzira que me ensinou a vê-la, Violeta.

A ambas um muito obrigado.

PS: Quem quiser saber mais sobre a Alzira é só clicar aqui e ler o maravilhoso artigo de Maria Meire de Carvalho chamado “A invenção das Vivandeiras: Mulheres na marcha da Coluna Prestes”.

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4 ideias sobre “Duas mulheres, muitas mulheres

  1. Gostei tanto, Gilson.
    E mais, inspirou-me e entusiasmou-me. Já me explico mas, antes, o devido muito e muito obrigada por teres trazido Violeta Chamarelli a visitar o BSC.

    - Nos teus posts costumo encontrar informação e rigor. Neste, encontrei ainda mais: a ‘História’ lado a lado com a ‘história’. A mulher “como nós”, a mulher que não é feita de bronze, de mármore ou “feita gravura” de livros escolares, mas de carne e osso. Uma avó, querem mais humano? E tão activa e interveniente como a mais heroica das heroínas–>redundo de propósito…
    - E encontrei uma ideia. Todos temos ou tivemos avó. E avô. E tio,tia,primo afastado que nasceu lá para trás no tempo. Que nos conta a história deles? O que me conta a história das minhas avós sobre a condição feminina? Sobre o aceitavel e o inaceitavel na ‘circunstãncia’ que foi a delas? Que lutas ganharam e que lutas perderam? O que me contam sobre mim? Pois contam-me muita coisa, agora que o Gilson me fez pensar no caso.
    A história da vida privada (*), dos anónimos, das nossas antepassadas, das nossas mulheres.Mães das nossas mães, mães dos nossos pais. Gostava de a contar. Ou de a ir contando. E vocês?

    (*) Existe uma “HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA”, coordenada por Dubuis, G. et al: 1987, Éditions du Seui, traduzida em Portugal e no Brasil, bem como muitos outrostrabalhos sobre o tema, por norma menos abrangentes do que a obra citada. Não quero fazer uma coisa que já está feita e bem feita e,mesmo que quisesse, não disporia de meios para tal. Interessam-me testemunhos,logo textos necessariamente confinados a uma certa época. Testemunhos vindos preferencialmente de descendentes directos ou, se tal for impossivel, de familiares das mulheres cuja vida é relatada. Confirmados e fiaveis.

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