O sangue da maçã

Violações

Ele era bonito, era jovem. Era alto. Era astrólogo.

A gente se encontrou num congresso de ioga. Eu tinha quinze anos e muito frio de gente. Estávamos num camping, os deserdados do congresso. Felizes. Participamos, com um povo grande, da produção de um tabule – comida coletiva com ar de propaganda de Marlboro, daquelas em que o pessoal se reunia na beira de uma fogueira, com um violão, à noitinha.
Voltamos do congresso no mesmo ônibus, ele com a namorada, eu calada, olhando e achando-o bonito.

Nos encontramos depois num aniversário. Pouco cheguei a conversar com ele. Estava no meio de uma frase qualquer – possivelmente sobre Isadora Duncan – quando ele engoliu as palavras e minha boca, assustadoramente. Como era de hábito, aceitei sem entender. Ele me beijou a noite toda e no fim da festa me raptou para um quarto. Sem roupa, na penumbra, tentei buscar motivos aceitáveis para não trepar com ele. Nós dois nus e eu gelada de medo. Eu era virgem e não ia dizê-lo. Não ficava bem. Calculei freneticamente uma data de menstruação que impedia grandes avanços, naquele tempo pré-camisinha.

Não me lembro como adormeci.

Foi longa e sofrida a noite.

Ele era bonito. Era jovem. Era astrólogo.

A outra foi em casa. Mas foi bem menos sombria. O cenário era um assalto: em dado momento, o sujeito me puxou prum quarto e me mandou – com ajuda do revólver, bem entendido – baixar a calça. Inventei uma desculpa venérea. Não sei se colou, mas ele topou levar só uma chupada. Ajoelhei, cumpri a tarefa conscienciosamente e engoli, no final. Não ficava bem.

E no entanto, ali, tudo estava em ordem. O revólver deixava tudo claro. Eu mantinha minha integridade. Foi quase um favor que prestei, afinal a vida do cara era aquilo ali. Estava na ordem das coisas. Era um assalto. Eu tinha que obedecer.

E ele tinha uma juventude usada.

Não era bonito. Não era alto. Não era astrólogo.

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* O texto relata histórias reais e por isso a autoria será mantida em sigilo.
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