Qual a relevância de mostrar os peitos num protesto?

Por Robson Sobral*

A liberdade guiando o povo, Eugène Delacroix

É uma pergunta recorrente nesses dias após Marcha das Vadias e após Rio+20. Uma pergunta recorrente e vinda da boca de mulheres ditas modernas, independentes, bem resolvidas. E cá estou eu triste e desapontado com elas, porque ouvir isso da boca de senhoras criadas para serem donas de casa é algo muito mais simples para meus preconceitos aceitarem. E aí que preconceito se mostra, de novo, um obstáculo.

Primeiro, um tantinho de história.

Não, as feministas do anos sessenta não tiraram os sutiãs e queimaram em protesto. Elas levaram sutiãs, sapatos e artigos de beleza e jogaram no lixo no concurso de Miss America. Quiseram pôr fogo, mas foram impedidas. A mídia, essa danadinha, escolheu chamar a ocasião de bra-burning e o fogo que não pegou lá pegou em vários outros protestos feministas pelo mundo. Ainda assim, sem, até onde sei, peitos de fora. Perfeito, não? Um exemplo de protestos sem “desviar do assunto” para os peitos de quem protesta, sem se rebaixar.

Nessa história de desviar do assunto, o exemplo mais usado é o do FEMEN, principalmente por quem não associa o nome aos peitos. FEMEN é o grupo de ativistas ucranianas que geralmente usa o topless como ferramenta. “Ninguém sabe pelo que elas protestam, mas vão lá ver os peitos”, diz a menina moderna e descolada (e algumas mulheres mais adultas também). Da última vez em que li a respeito, protestavam contra o preço do gás russo vendido para a Ucrânia. Confesso que o que me chamou atenção para ler a respeito foram os peitos. Invalidou seu protesto? Primeiro, de que a minha opinião vale em relação ao gás na Ucrânia? Eu nem sei achar com precisão a Ucrânia no mapa. Está ali, naquele quebra-cabeça chamado um dia de URSS, em algum lugar. Mas elas falaram e falam cada vez mais e os seus peitos de fora fizeram-nas serem ouvidas. Não ligo para onde será sediada a EuroCopa, mas, por causa de seus protestos, agora sei o quão sério é o problema do turismo sexual na Ucrânia. Novamente, minha opinião não vale de nada lá, mas vale sobre o que acontece aqui, ali na Paulista, na Rio+20, na rua e da minha porta pra dentro: posso pensar sobre o assunto.

Ó, meu Deus! Isso é tão apelativo, Guillem March

No que tange a se rebaixar, a p ergunta óbvia é: segundo o juízo de valor de quem? Dos homens? Da moda? Do opressor? Das mulheres? Só porque o homens gostam de vê-las despidas, elas não podem se despir? Qual a liberdade em deixar de fazer o que se gosta só porque quem te oprime também gosta? Por que não decidir o seu próprio juízo de valor? Por que não ter direito de ser recatada ou periguete? Freira ou profissional do sexo? Elas só querem ser o que quiserem, inclusive ferramenta de protesto. A postura delas é criticada, sim, até por pessoas inteligentes e a quem respeito, mas, independente da eficiência ou não da ferramenta, e eu a considero eficiente, visto estarmos aqui discutindo-a; quem somos nos para rebaixá-las por isso? Independente do protesto, temos o direito de avaliar alguém pelo que ela faz com seu corpo?

É agora que minha opinião vale: quando aceito cada um como livre para se valorizar como quiser. O valor de quem se deita com todos ou nenhum, de quem adora se sentir desejada só importa para si. Porque quando eu olho para uma mulher e me acho no direito de estimar quanto ela vale, sou eu a me rebaixar, a me mostrar incapaz de viver bem com a liberdade dela de fazer o que quiser de si; sou eu a me mostrar limitado e esquecer que apenas a minha vida está sob a regência do meu juízo de valor. O conceito fica mais óbvio quando pensamos na Marcha das Vadias, já que lá a reivindicação básica é a soberania sobre o próprio corpo, não apenas em relação ao aborto ou contra o estupro, mas pelo direito de usá-lo como quiser, até para protestar; pelo direito de se ver como quiser e não ser vítima disso; de se sentir satisfeita consigo mesma seja pelas suas próteses nos seios ou sua circunferência tatuada do lado da cabeça raspada; de mostrar seu corpo em nú artístico ou filme pornô.

Uma mulher já valeu tanto quanto era obediente ao marido, tanto quanto trazia de dote, quanto casava-se virgem ou por quantos divórcios não passou. Hoje, apesar de ainda haver quem a avalie por esse valores, geralmente uma mulher vale tanto quanto o uso que faz de seu corpo. Usá-lo é coisa de piranha, de quem não tem senso do ridículo nem se valoriza, de quem não tem capacidade para usar outra coisa. Nossas novas feministas querem que se dane a cotação, querem ser apenas mulheres. Para isso usam uma ideia que não é nova, lembremos das camisetas “100% preto”: mais do que se rebelar contra o opressor, seja ele o homem, a mídia ou a sociedade, tomam dele suas ferramentas. Tomam o significado de vadia, biscate ou o que for e desarmam quem as ofende com “no seu conceito ou no meu?” ou “sou, sim, mas por minha escolha”. Tomam de volta seus corpos, tão usados pelo opressor, para dizer o que o opressor não quer ouvir. Não importa qual a ferramenta, a ideia, o conceito usado contra elas, o tomam e se orgulham disso. É a coragem de quem responde ao opressor: isso é meu e quero de volta!

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Robson Sobral* não liga se sua esposa sai por aí vestida de biscate. Além disso, é designer profissional, ser humano amador e apreciador da mulher. O resto é consequência. Você pode conhecê-lo melhor no twitter @robsonsobral ou no seu site.

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19 ideias sobre “Qual a relevância de mostrar os peitos num protesto?

  1. SusPEITO que muitos homens discordarão, muitas mulheres concordarão caladas e muitas outras discordarão pra agradar alguém, que não a sí mesma. Nunca tinha percebido que a única profissão (das quais consigo me lembrar agora) em que a mulher recebe salário superior ao homem, é sendo uma profissional do sexo, mas quando quer mostrar seu corpo por algo além do dinheiro, não pode, ah, quer dizer, no carnaval pode.

  2. É um bom texto. Concordo que as mulheres tem o direito de fazer o que quiser com seus corpos. Não concordo que não devam ser julgadas pelas outras pessoas, até pq se não fossem julgadas nem fariam nada disso… já que não seria “chocante” e não ganharia midia.

    Mas sabe o q eu não entendo? A mulher bota o peito de fora pra chamar a atenção para uma causa. O homem presta atenção por causa disso, toma conhecimento do que motivou o protesto e a protestante fica feliz. Aí a mulher reclama que outras usam o corpo para se promover e que o homem enxerga as mulheres como pedaços de carne. Aí você poderia me dizer que a mulher tem o direito de ser um pedaço de carne, se quiser. Aí outras feministas discordam porque a mulher não pode ser vista dessa forma e protestam…….

    Feminismo é chato pra caramba, né?

    vê aí o q vc acha: http://www.umavelhiceprecoce.blogspot.com.br/

    abraços

      • Eu vim de lá antes de vir para esse blog. Foi por isso que refleti sobre a chatice das feministas.

        Entendi que vcs querem o direito de ser chatas, assim como os machistas. Se ser descompromissada com a lógica é o “barato” de vcs, me desculpe. Dá uma lida no meu blog e vê lá o que vc acha.

        Beijos

        • Caro,

          sinceramente, seu comentário, assim como seu post, indicam que você ou a) não leu nada sobre feminismo; b) leu mas não entendeu; c) leu, entendeu, mas decidiu ignorar. Como alternativa para os casos a e b, indico com veemência o Blogueiras Feministas (http://blogueirasfeministas.com/). Para o caso c, vamos combinar que não faz sentido eu perder o meu e o seu tempo argumentando, não é? Até porque, nesses casos, a “lógica” que você reivindica que tenhamos é concordar com você, né?

    • Cacildis!
      Ou você não entendeu nada ou seu machismo cego não lhe deixou ver.
      Desenhando:
      O corpo é meu e, quando eu tomo consciência disso, eu decido o que fazer com ele, seja tirar a roupa em um protesto ou vesti-lo ainda mais. Mulheres como a Mulher Melancia, não estão usando seus corpos para chamar a atenção por que querem ou por que entendem que seus corpos lhe pertencem. Elas assim o fazem por que a única maneira de ganhar mais do que o homem é vendendo o seu corpo. Ou seja, não há liberdade.
      Entende a diferença?

  3. “Da última vez em que li a respeito, protestavam contra o preço do gás russo vendido para a Ucrânia. Confesso que o que me chamou atenção para ler a respeito foram os peitos” – Perceba o quão contraditório você acabou sendo na sua postagem.
    Você diz que as mulheres, ao mostrarem os peitos, só tendem a “rebaixar” a sua imagem. OK. Mas, não foi você quem disse que o que te fez dar atenção à uma notícia da Ucrânia foram os peitos das mulheres?
    A sociedade é pacata. Não tem olhos para ver o comum. A única maneira de fugir do monótono e clichê, é se destacando. É como você quer que uma sociedade regida por valores fundamentalistas dê atenção a um “bando” de mulheres pedindo pelo aborto, à não-violência sexual para com elas?
    E, essa ideia de que a mulher ter que se cobrir… Por que? Os homens cobrem as tetas quando vão para a praia e querem um bronzeado, ou, simplesmente quando SENTEM CALOR?
    A sociedade é ridiculamente a mesma, por séculos afins. As mulheres, quer outrem queira, ou não, vão conseguir os direitos que merecem dessa forma: mostrando os seios. Ou melhor, da maneira que BEM ENTENDEREM.
    A sociedade TEM que mudar. Já que os homens (que sempre foram a prioridade) não fazem nada, sobra para as mulheres mostrarem as tetas a fim de que eles vejam!
    Ah é, sou uma feminista, sou uma chata mesmo.

  4. Parabéns, texto fantástico!

    Ouço muito, de muita gente que respeito e acho inteligente, falar mal da marcha das vadias, dizer que não tem nada a ver usar o termo “vadia” ou mostrar os peitos, mas me pergunto POR QUE, então, isso incomoda tanto? Aí você mesmo disse: por que as mulheres “tomam de volta seus corpos, tão usados pelo opressor, para dizer o que o opressor não quer ouvir”.

    As pessoas tentam deslegitimar a nossa luta, mas às vezes nem é babaquice, é ignorância. Eles não sabem que até a mulher mais “livre” da atualidade ainda tem que lidar com violência, abuso e falta de respeito que alguns homens nem sonham, e nem percebem que isso faz mal não só as mulheres. Todas as pessoas são induzidas seguir estereótipos, aí sobra para mulher estuprada ser acusada de ter culpa, gays ou até pessoas “confundidas com gays” serem espancadas e homens violentados sem poder ou ter coragem de admitir e denunciar. É absurda a situação, mesmo no Brasil, mesmo em 2012. Por isso é preciso lutar e falar sobre o assunto.

    Muito bom mesmo você ter direcionado a marcha ao direito de liberdade sobre o corpo mais do que sobre os outros temas, poucos textos falaram com essa profundidade, e concordo completamente. Maravilhosa também a parte sobre o valor atribuído à mulher na história. o/

  5. Quando há uma ideia, procuro saber também quem diz. Pode ser até um indício de uma pré-falácia – acusação de minha parte a quem escreve e não à ideia que defende -, mas tenho o costume de reivindicar a identidade. De antemão, antes do texto, procurei saber e pensei “é um homem? lá vem…”. Então com certo pé atrás, coisa bem comum de minha parte hoje em dia circulando na internet, li todo o texto e me surpreendi positivamente. Me desculpe pela minha desconfiança, mas hoje em dia só assim. E parabéns, adorei o argumento, muito lúcido.

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