Um(ns) Final(is) Infeliz(es)

Quando ela o conheceu, tudo era diferente. Ela era ela e ponto. Usava aquelas roupas viçosas e coloridas, como sempre gostara. Seu perfume era marcante e sua maquiagem brilhava tanto quanto seu sorriso. Havia sim quem achava tudo aquilo uma cafonice sem precedentes, mas ela não ligava. Como disse, ela era ELA. E ponto. E se orgulhava muito disso.

Pensando ela que havia encontrado a “sua metade”, começou a namorá-lo. No princípio, tudo era mágico. Declarações apaixonadas, flores, presentes. Juras infinitas de amor. Aos olhos de todo mundo que conheceu aquele casal, parecia que aquele era um relacionamento perfeito. Parecia que ele a amava mais que a própria vida. Parecia tanta coisa bonita que acabou ficando bem difícil entender o que na verdade se passava.

Tudo começou com algumas pequenas censuras. Sabe aquele ciúme bem de leve que em algum momento todos enxergavam como se fosse “bobagem de casal”? Pois é. E de tanto todos acharem aquilo normal – ela inclusa – acabaram por não perceber o que aquilo realmente representava.

- Com essa saia, você não sai de casa comigo!

- Mas, quando você me conheceu, eu usava justamente essa saia! Por que isso agora?

- Porque agora você é minha mulher. Minha! E mulher minha não se veste feito puta. E mais: não quero que converse ou ande junto com aquela fulaninha lá. Não a vejo como uma boa influência para você.

Silêncio. Obediência e troca de roupa. Tristeza, que foi rapidamente relevada. Afinal, ela o amava e achava que no fundo, tinha razão. Agora, ela era comprometida e tinha que se policiar mais em relação às suas atitudes. Mesmo que boa parte de seus dias tenha se transformado num verdadeiro inferno.

E ela, sempre com a culpa rondando seus pensamentos, foi deixando de ser quem era. Perdeu seu brilho, seu sorriso. Não fazia mais o que gostava, afastou-se dos amigos e da família. Cobria seu corpo, como se sentisse vergonha e medo dele ao mesmo tempo. E ainda assim, achava que estava tudo bem. Que era assim que tinha de ser e que o orgulho que um dia tanto teve de ser como era se transformou em dor.

A partir daí, foi um passo para que toda essa violência passasse da moral para a física. Ela começou a apanhar por qualquer motivo, bastava contrariá-lo. Com medo de denunciar e de perder a vida ou de colocar a vida de sua família em risco, calou-se. E só parou de sofrer quando foi morta. Morta por aquele que mais amou. Por aquele que deveria (ele prometeu isso!) proporcionar a ela felicidade.

Finais tristes como este infelizmente não são exceções. Ainda hoje, mulheres têm sua existência ceifada todos os dias. A violência contra a mulher não é um mero problema de casal e deve ser coibida efetivamente. Afinal, “ELA” poderia ser eu, você, uma amiga, sua mãe, ou alguém que você goste muito. Esta poderia ser a história de qualquer uma de nós, biscates ou não. Basta ter nascido mulher.

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Uma ideia sobre “Um(ns) Final(is) Infeliz(es)

  1. Pessoas muito próximas a mim vivem esse tipo de coisa. São duas pessoas, uma em casa ou fora dela. Essa é uma das portas de entrada pra violência. Um final triste que muitas vezes dura uma vida…

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