A escolha de Ana

Gato, vim aqui pra esclarecer algumas coisas. Olha só, nessa cidade fria, às vezes uma garrafa de vinho não é suficiente para aquecer o corpo e a mente, então, acontece de a gente querer outro corpo pra, quem sabe, pegar fogo junto. Estava tudo bem, tudo delícia. Eu gostava da facilidade da nossa relação. Ligação, bar, risos, conversas, mão aqui, beijo, tesão, sexo. Mas aí você vem e estraga tudo.

Você tira da sua cabeça que precisa me recompensar por eu ser tão boa e agradável companhia afetiva e sexual. Você acha que eu quero um prêmio. E então, você me surpreende com uma frase meio tacanha do tipo: “ah, minha linda, você tem todos os requisitos pra ser uma mulher com quem eu tenha um relacionamento sério”. Oi?

Mas não satisfeito em achar que eu tenho 5 anos de idade e que leio Branca de Neve todas as noites antes de dormir, você ainda tem a sordidez de me pedir algo em troca da super recompensa que você vai me dar. Afinal, você quer namorar comigo e que mulher no mundo não quer ter um namorado? Hein, me diga? Então, voltando ao assunto, você me pediu uma coisinha em troca. Mas é claro que é pro meu bem, porque você se preocupa comigo, não é mesmo? Para que eu tenha a honra e a sorte de ser a sua namorada, só tenho que emagrecer. Claro.

Bom, eu não sei o que se passa nessa sua cabeça, e depois dessa não estou nem um pouco a fim de descobrir, mas vou mastigar algumas coisas pra você, gato.

Primeiro, que você não é parâmetro para a minha vida. Chegou há poucos meses e quer sentar na janelinha de um bonde que está rodando há mais de 30? Por favor, né? Segundo, my dear, eu sou feliz com esse corpo, que você parece gostar bastante quando estamos sós, mas que por algum motivo parece ter vergonha de aparecer em público ao lado dele.

É esse corpo que diz quem eu sou, qual é a minha história. As minhas cervejas para afogar as mágoas, os chopes para comemorar com os amigos, a minha cicatriz da cirurgia do coração (e isso não é uma metáfora), o biscoito de queijo da mamãe, as manchas de sol da preguiça de passar protetor, meu cabelo camaleônico, minhas unhas vermelhas, minhas bochechas que já receberam tantos beijos amorosos, isso tudo sou eu. Esse é meu corpo que amou, foi amado, sofreu e fez sofrer. Enquanto você tem vergonha dele, eu sinto um orgulho tremendo.

Veja bem, gato, é por isso que não vai dar certo entre a gente, sabe? Eu gosto muito de mim, mas muito mesmo, entende? Eu me respeito demais. Cada estria, cada celulite, cada sardinha, cada pé-de-galinha é parte de uma história que só eu posso contar. E você não tem os requisitos de um cara que mereça participar desse bonde.

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46 ideias sobre “A escolha de Ana

  1. Fui eu que escrevi esse texto e não tô lembrando? Não, eu não conseguiria produzir coisa tão linda.

    O incrível é que não só os gatos que não entendem que a gente ta bem do jeito que tá. Todo mundo se surpreende se você diz que não faria plástica nem se tivesse todo dinheiro do mundo porque tá diboua do jeito que tá.

    Confesso que volta e meio vem uma neura (vou vestir uma calça e não cabe mais… grrrr) mas quase 100% do tempo, também curto muito a minha história contada em cada “imperfeição”

    Um beijo do fundo de cada celulite amada que encobre o meu corpinho, para o seu <3

    • Ai Tâmara, obrigada!!!
      Olha, é incrível mesmo como as pessoas não gostam de outras pessoas que se gostam, que se aceitam, acham que não é verdade. Afinal, a regra é ser infeliz e insatisfeita né?
      Um beijo no coração tb!

  2. Sensacional… E aposto que o retardado do ex-pretendente tb. não é um Adonis ou tem barriga de tanquinho… Gostei do seu blog… convido-a a conhecer o meu, quer dizer, do meu livro. Abraços e mais sorte com os próximos seres apaixonados que encontrrar por ai.

    • Oi marcelo! Então, não conheci o gato que inspirou esse texto, mas tb acho que ele não é nenhum Adonis. E mesmo que fosse jamais teria o direito de fazer qualquer comentário sobre o corpo de alguém.
      O blog não é meu, mas uma construção coletiva de várias biscates!

  3. Adorei o texto e vou aproveitar a deixa para um desabafo: recentemente uma ex do atual bofe surgiu do mundo dos mortos-vivo e passou a me comparar fisicamente com ela. Disse que eu era velha, acabada, caída etc. como se o que estivesse em jogo nos relacionamentos fosse apenas a aparência física! Fiquei chocada porque não espero mais esse nível de superficialidade nas pessoas… Detalhe: ela tem 46 anos (mas nunca casou ou teve filhos, logo deve ter uma forma física um pouco melhor do que a minha) e eu tenho 44! Ou seja, chegar nessa idade ainda avaliando o efeito da gravidade nos peitos, é um pouco demais para a minha cabeça… O meu contraponto definitivo para o bofe (que também já não é nenhum menino e nem é um exemplo de forma física): – Fio, se ela está sendo implacável com a minha aparência, imagina o que ela pensará da sua! Rá! Vale para os dois lados ou só eu tenho que ser perfeita?

  4. Belo texto. Uma ode ao corpo, esse corpo considerado acima do peso, errado, imperfeito, negativo, demoníaco. Nada mais transgressor que aceitar a si mesma,..

  5. Lis, parabéns pelo texto! Esta ditadura da aparência enche o saco! E homens e mulheres precisam mudar esta concepção. Eu também fico muito triste quando vejas as próprias mulheres brigando entre si e se criticando por um padrão de beleza. Sempre me irrito, por exemplo, com aqueles posts que amigas postam pra criticar a suposta ditadura da magreza colocando umas mulheres magras de bíquini versus umas gordinhas, pra dizer que na verdade o segundo jeito é que é bonito. Peraí gente! Num tem que existir só uma forma de beleza não! O negócio não é substituir a ditadura da magreza pela ditadura das gordurinhas, das curvas ou dos músculos. A questão é que felizmente existem mulheres em várias formas, com alturas e pesos distintos, com cores diferentes de pele, cabelo e olhos, com peitos, bunda e pernas em proporções próprias. E todas podem ser lindas, sensuais, mas principalmente gostarem de si, se cuidarem tanto por motivos de saúde quanto para sensualizar geral quando tiverem vontade, e também num estar nem aí pra ser sexy quando não estiverem afim.
    Mulheres queridas, vamos acabar com o sexismo, não dar moral para os homens machistas, não fomentar a disputa entre nós mesmas, vamos curtir umas as outras deixando de lado críticas e comentários maldosos, e espalhar muito feminismo por este mundo, porque está precisando!!!

  6. Muito bom,essa vai para qualquer um que cria uma espécie de projeção física baseada nos estereótipos tidos como ideais por uma sociedade doente que simplifica e limita o pensamento humano como se houvesse a necessidade de criar e adequar terceiros a seus parâmetros pessoais fundados na sordidez da futilidade.

  7. A blogosfera tem dessas: nos surpreende com um blog maravilhoso por dia, daqueles que nos perguntamos “POR QUE CARALHOS NÃO CONHECIA ISSO ANTES?”.
    Que texto perfeito!
    Sensacional.
    Obrigada.

    Grande abraço

    Ligia

  8. Texto lindo……………………………………………………… Conheço cada sardinha de quem inspirou a história e ela é a pessoa maisinrivel que já conheci…. Lis, vc conseguiu traduzir em palavras tudo que eu queria falar pra esse boçal……. bjo e saudade

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  11. Pingback: Inventário de uma alma rebelde, de bisca |

  12. Uauu! Parabéns. Adorei o texto.. adorei a essência do texto!
    Triste é pensar que beira à utopia esse amor-próprio na nossa sociedade. Que bom seria se soubéssemos amar nossos corpos, do jeito que amamos os outros..

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