Alcova Biscate #00

[Olá, vocês estão sendo convidados a entrar na nossa alcova. Fantasia, realidade, desejos, memória, tudo junto e misturado. Quem traz tudo pra gente é noss@ nov@ colunista: M. Merteuil. Fiquem à vontade. Bem à vontade.]

O dia estava quente, para um inverno tardio. E ela foi trabalhar, colocando calcinha e sutiã combinando, de renda. Vermelho. Bordeaux, melhor definindo. Já é indicio de má intenção, dirão alguns. É tão clichê, diriam outros. Não se importou, era para ela. Em um dia quente, nada como usar de clichês para se sentir sexy. Sensual. Mas sem perder a elegância, afinal, revistas e sites sempre ressaltam essa linha tênue, entre ser sensual mas não ser vulgar!

Terminou de se vestir. Roupa séria, de propósito, para ressaltar que a lingerie vermelha era só para ela.

Maquiagem suave. Esqueceu o batom vermelho M.A.C., optou por um mais clarinho, quase natural. Natural sim, mas nunca sem maquiagem: base, blush, sombra (sombras: escura na linha dos cílios, iluminadora nos cantos e perto da sobrancelha… ah, os tutoriais de make de hoje em dia…).

Rímel à prova d’água. Delineador. Marrom. Não pode ser muito óbvia, é dia. Lembra-se sempre das dicas!

De uma dica para outra, não foi difícil chegar nas dicas que falam sobre enlouquecer os homens na cama. E daí para lembrar que na véspera, poucas horas antes, recebeu a mensagem.

“Oi. To com sdd.”

Assim, só isso.

Lembrou da amiga, de faculdade, que falava:

“Daí o cara que você não vê há meses aparece. Liga ou manda mensagem dizendo que tá com saudade. Há quanto tempo…, diz ele, as reticências sugestivas. Pois é, a gente responde, deixando também as reticências. (ah, os diálogos de reticências…) E ele: Então, você sumiu, fiquei sabendo que estava namorando… E a gente: nada, terminei (mentira – ou não). E aí ele lança que a gente podia sair para tomar um chopp. E a gente sai e trepa. E ele acha que era só ele que estava “com saudade”. Gargalhada. Biscate.

E isso virou nossa piada interna, nosso código.

Saudade demais.

Suspiro. Tesão. Desejo. Vontade. Necessidade.

Foi trabalhar, mais um dia irritante previsto adiante.

Na hora do almoço, aquele colega que estava de férias aparece.

Ela pensa: nossa, saudade demais…

Ele passa na sala, oferece um café, uma coca-cola. Reticências.

Ela lembra: por que não?

A tensão sexual – adorava essa expressão, indefinível mas palpável – sobrecarrega a sala de partículas cintilantes.

Ela pensa: por que não?

Mas não é hora e nem lugar. Não vai rolar.

Decide então sair para almoçar.

Em casa. Sozinha.

E lá, tira da gaveta o amiguinho.

E pensa: por que não?

Passa a língua pelo céu da boca, e sente um arrepio.

Por que não?

A cama ainda está desfeita, os travesseiros no encosto, o notebook ao lado.

Mas faltava algo. E ela lembra.

Faltava. Não falta mais.

A pesquisa ainda está no histórico, aquele vídeo que a deixou molhada na véspera, que a inspirou, inconscientemente, a usar a lingerie vermelha, combinando.

Very hot natural sex.

http://www.redtube.com.br/124269

Pornografia, livre, na internet.

Um casal, que parece perfeitamente compatível.

Um homem que parece de verdade, normal, e não os tipos tatuados e de cavanhaque, excessivamente musculosos, de cabeça raspada, cara de mau, que costumam aparecer nesses filmes, que ela garimpava pela net.

Ela lembra como foi, quando encontrou. Pornô woman friendly. Que coisa, né? Ter que ter uma categoria “amigável para mulheres”.

E mesmo nessas, era difícil encontrar algum que fosse bom.

Excitante? Sim, vários, mas bom, bom? Raro, muito raro.

Apertou o  play, e começou a assistir, ainda de roupas. Pegou o óleo, tirou a roupa, e começou a sessão. Estava com saudade de si.

E apesar do sexo heteronormativo com um casal caucasiano muito jovem, o padrão na a incomodou nem um pouco, naquela hora.

Lembrou de sexo adolescente, de amassos escondidos, de sarros dentro do carro, de trepar na garagem do prédio, ou de gozar na mão do namoradinho, no sofá da sala, enquanto estavam sozinhos em casa, nos minutos roubados, com medo de alguém aparecer.

Saudade demais.

A língua no céu da boca, o pau de borracha vibrando. E ouvindo os gemidos que soavam verdadeiros, gozou com vontade.

Por que não, ora?

 Olhou as horas, estava atrasada. Banho, retocar a maquiagem, e voltar para o trabalho. Mais um turno. Mais acesa do que antes, mas agora a lingerie era … bege. Vermelho era o batom.

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