Combo Biscate ou Essa Tal Felicidade

Nasceu na Inglaterra, no mesmo ano que Peter Pan. Nesta época, discutia-se as cidades e se pensava em alternativas para reunir campo e urbano, como as idéias de Ebenezer Howard propostas em seu livro Garden Cities of Tomorrow. Também foi o ano de uma tragédia no futebol, no jogo entre Escócia e Inglaterra, arquibancadas cheias, tão cheias que cederam, morreram 25 pessoas e 500 ficaram feridas. Foi neste ano, justo 1902, que ocorreu a primeira corrida de automóveis em Portugal e Euclides da Cunha publicava seu Os Sertões no Brasil. Mas para a Gladys, que nascia em Edmonton, nada disso importava. 

essa tal felicidade

Gladys Aylward, muito jovem, por volta dos seus 14 anos, já trabalhava como empregada doméstica. Filha de operários, aprendeu cedo as dificuldades. Gostava de ler. Lia sobre a China, porque não? E, com 26 anos, quando foi tocada por uma mensagem missionária, foi o que quis: juntar a missão à vasta China. Decidiu ser missionária na China, como não. E, se fosse fácil, não haveria este post, logo, foi difícil. Procurou a Missão Para o Interior da China, fez o treinamento de três meses e…foi rejeitada. Porque era pouco instruída. Mas não era pouco decidida e formou-se só. Lia, lia muito. A Bíblia ou sobre a China, livros da biblioteca ou emprestados dos patrões. Ela lia. E pregava nas praças de Londres, como treino para o que viria. Aceitou trabalhar para um casal que acabava de voltar da China e aprendeu mais. Enquanto a China não chegava e o casal não precisava de seus esforços, foi trabalhar junto às prostitutas do porto. Era formada em dificuldades, a mulher Gladys. Sem agência que a quisesse mandar pra China, começou a fazer economias e comprou, enfim, uma passagem só de ida. Ia encontrar-se com a viúva Lawson e com ela trabalhar. 

Gladys partiu, em seus já 30 anos, para a China, em uma viagem de trens e lombos de mula que durou 30 dias. Levava um fogareiro, uma panela, uma mala com roupas, pouco dinheiro e os olhos cheios de futuro. Yangcheng é o lugar que vai transformar Gladys e ser por ela tocado. Corajosa e sem dinheiro, Gadys sugere à viúva a criação de uma pousada. E assim é feito. Gladys cuida das mulas, um cozinheiro é contratado e a sra. Lawson entretem os viajantes com histórias da Bíblia. Gladys – a que não era suficientemente instruída – logo tratou de aprender a língua. Mas não havia de ser fácil, eu disse, a viúva morreu e Gladys ficou sem dinheiro. 

 Sem dinheiro, num país distante, de hábitos diferentes, conhecendo precariamente a língua, o que faz uma mulher? Ora, vai trabalhar de “inspetora de pés”, claro. A nova lei da China não incluía mais o enfaixamento dos pés das mulheres. Ela é a inspetora adequada, pode entrar no quarto das mulheres sem escândalo e tem os pés normais para servir de exemplo. E lá vai Gladys bater-se com os costumes enraizados e convencer pais e mães que o melhor é deixar os filhos crescerem livres. Ou, pelo menos, deixar os pés livres para crescerem. Logo era querida e conhecida por muitos. Ficou fluente na língua. Os desafios parecem surgir espontaneamente pra ela os desdobrar. Uma rebelião entre os presos? Ela logo acalma. Mas não fica na pacificação apenas, começa um trabalho de assistência, consegue a doação de teares e moinhos para cereais, começa uma criação de coelhos, dá aulas de higiene pessoal. É boa em transformação, essa Gladys. 

Gladys vivia, vestia-se, comia, mantinha-se como as pessoas do lugar. Em 1936 torna-se, oficialmente, cidadã chinesa. Por estes tempos, começa a adotar órfãos. É assim, vai andando entre as vilas, vê uma mulher explorando ou vendendo ou maltratando uma criança (provavelmente sequestrada) e já arranja um jeito de tomá-la pra si. Ela tem amor pra dar, a Gladys. Além de seus filhos, moravam na pousada muitas outras crianças órfãs a quem ela acolhia com comida, carinho e pregação. 

Mas eu disse que não era fácil nada disso, então veio a Guerra. Guerras são dolorosas, sabe-se. São especialmente cruéis – e poucos recordam-se disso ao provocá-las, mantê-las ou justificá-las – com as crianças. E são muitas as que se refugiam junto a Gladys: umas 200. Mas a pousada também já não é um lugar seguro, toda a vila onde Gladys mora está em risco. Corria 1938. Há enviados do governo para buscar as crianças. Levam cerca de 100. Gladys percebe que não voltarão para buscar as demais e vai, ela mesma, acompanhá-las. Valente, eu acho. Ela, um ajudante e cem crianças atravessando montanha e floresta. Foram aproximadamente 21 dias de viagem (outros dizem um mês, outros 15 dias), 21 dias de fome, de angústia, de medo. Andaram, atravessaram rio, perderam-se entre árvores. Ela chorou, não precisavam me dizer, eu sei, eu sinto. Ficou sem dormir. E não perdeu nenhuma criança, levou-as toda para segurança.

É claro que ficou doente. Tifo, pneumonia, dores externas e internas. Ela sofria. Perdeu parcialmente a memória (e quem gostaria de lembrar-se de tantos nãos da vida?). Mas recuperou-se e…claro, começou tudo de novo. Voltou às suas pequenas transformações, a grande Gladys. Em 1947 teve que ir à Inglaterra fazer uma cirurgia e ficou lá, recuperando-se, sempre trabalhando, recolhendo fundos para as missões. Em 1953 tentou voltar à China, mas teve o visto negado. Desistiu? Não, foi para Taiwan. Fundou um orfanato. Trabalhou com as crianças até morrer em 1970.

Tudo isso lhe parece coisa de filme? Pareceu também a outros que fizeram um dos filmes que me arrebata: A Morada da Sexta Felicidade**, com Ingrid Bergman. Sobre o enredo, quando a revista Newsweek publicou a resenha, um leitor, desconhecendo a origem da narrativa, enviou uma carta dizendo: para um filme ser bom, sua história tem que ser crível. Sabe o que mais? A Gladys não gostou muito do filme não (diferentemente de mim). Não gostou de ser representada por Ingrid Bergman (demasiado alta, demasiado bonita) e nem de ter cenas romanceadas com um belo Capitão. 

Inacreditável e admirável Gladys.

E a biscatagem, podem perguntar-me…ora, fica por conta da Ingrid Bergman, claro.

Ou vocês não sabiam que um senador norte-americano se deu ao trabalho de subir à tribuna para “acusá-la” de ser uma ‘cultivadora do amor livre’ e “denunciar” que “Ingrid Bergman cometeu uma afronta à instituição do casamento”. A origem da polêmica? Bergman – casada – apaixonou-se por Roberto Rossellinni – casado – e os dois ousaram viver a paixão. Bergman engravida de Rossellinni e ambos deixam as respectivas famílias para viverem juntos. Ela, claro (o claro é ironia, viu, gente) foi praticamente banida de Hollywood, chamada de vagabunda pelos (anteriormente) fãs e acusada de mau exemplo para as mulheres norte-americanas. Além disso, foi proibida de ver a filha do primeiro casamento por anos. Sim, as línguas sabem ser ferinas quando vigiam a cama alheia.

Disse ela, biscate da cabeça aos pés: “Eu não tenho nenhum pesar. Eu não teria vivido minha vida no modo que eu fiz se eu fosse preocupar sobre o que pessoas iriam dizer.

PS(1). Chama-se a Sexta Felicidade porque, segundo a tradição chinesa, há cinco felicidades: riqueza, longevidade, saúde, tranquilidade e boa morte.

PS(2). Pode-se fazer todo tipo de crítica a esta evangelização não solicitada e etnocêntrica. Mas nenhuma eu consigo fazer a pessoas como Gladys e Ingrid: amorosas, valentes e generosas.

 

 

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