Estela

Por Lis Lemos*

Estela era meio “peixe fora d’água”. Era uma menina que não estava “bem encaixada” no mundo. Estela tinha 15 anos e sentia vontade de beijar os meninos e também as meninas, gostava quando um deles escorregava a mão e ela ia parar ora na sua bunda, ora nos seus seios. Gostava de tocar os seios macios de suas amigas. Estela gostava de sentir prazer. E isso era condenado na escola católica onde estudava. E em boa parte do resto do mundo.

Estela era a menina que todo mundo pegava. Para os meninos era um deleite; para as colegas era uma vadia. Esse sentimento dúbionão mudou tanto, ainda vemos, hoje, na reação de tantas garotas e garotos. Estela era desejada e invejada. Ela quebrava padrões estabelecidos de comportamento para meninas cis* de classe média, estudantes de Ensino Médio.

Ela era um pouco mais velha, ou eu que era a mais nova da turma. Era sempre um babado saber “pra quem Estela deu”. Hoje vejo que ela não dava. Se doava toda em suas relações. Os hormônios dos garotos pulavam quando ela passava com seu jeans apertado e a camiseta transparente de uniforme mostrando o sutiã colorido. Todos a desejavam, mas ela escolhia apenas alguns.

Os desprezados a xingavam. Para eles, Estela era puta, galinha, vagabunda. Despeito e machismo exalando de poros tão jovens. Os preferidos também teciam comentários terríveis sobre a menina. Machismo daquele tipo que separa mulher pra casar e mulher pra transar. Ninguém nunca quis namorar Estela.

Do lado das meninas, os adjetivos não eram diferentes. Ninguém queria ser amiga dela, aquele velho medo de ficarem faladas. Machismo também havia ali, mas imagino que éramos mais vítimas daquele julgamento que faziam de Estela e tínhamos medo de ser tratadas como ela. Tínhamos vergonha dos nossos desejos, dos nossos corpos.

Hoje vejo que o que mais incomodava era que Estela era livre. Ainda deve ser. A menina gostava de sexo e o fazia, com quem ela escolhia, em lugares que achasse mais apropriados. O banheiro da casa onde estava rolando a festinha da turma podia ser bem confortável, ou era tesão daquele puro que não tem controle e vai ali mesmo. Nunca saberei.

* Lis Lemos é nascida no cerrado, escolheu viver perto do mar. De múltiplas palavras: jornalista, feminista, mestranda, mas nada disso é importante. O que importa mesmo é a paixão por pamonha à moda, torresmo e cerveja. Ah, e seu amor incondicional pelas pessoas. Todas elas. — A Lis escreve sexta-feira sim, sexta-feira não aqui no BiscateSC.

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9 ideias sobre “Estela

  1. Já fui uma Estela,resolvi ser as meninas que a apontavam,por ser mais comodo,mas,depois que se experimenta da liberdade,nunca mais vc se livra dela,rs.
    Hoje voltei a ser Estela,e como me sinto?Saciada pela dose de liberdade que experimento cada dia mais.
    Lindo texto.

    • Obrigada, Késia! Que bom que vc resgatou a Estela. Hoje eu sou Estela tb, mas teci mtos comentários horríveis sobre as Estelas que passaram pela minha vida. Esse texto é uma espécie de mea culpa.

  2. Curti! Confesso,quando mais nova já senti raiva (talvez inveja enrustida) de algumas “Estelas”, hoje em dia, depois de aprender a apanhar bastante da vida, simpatizo com muitas delas e talvez até (veja só!) seja uma delas =)

  3. adorei o texto!!! nunca fui uma Estela e tinha alguns conceitos preconceituosos.. hoje já não penso da mesma forma: cada um faz o que quer com o seu corpo, com sua vida, com seus amores.. ser livre eh fundamental pra mim. Torco para que as pessoas se descubram, se aceitem, se revelem (ou que nao, como queiram)

    Quem sabe agora eu esteja me tornando uma! tentando ser livre, leve e estela.

  4. Esse texto me serviu de experiência , pois nunca fui Estela e até algum tempo atrás fazia comentários maldosos sobre elas , achei de muita inteligência .. estou amando o blog , porque me trás liberdade , gostei muito

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