Fidelidade biscate


Pois é, a gente carrega certo fardo social. Um fardo a ser reinventado.

Biscate carrega amores entre os quadris, cintilância entre os olhos, vontade de mundo. Vontade de abraçar a vida e as pessoas em tons quentes. Vontade de vida. Vontade de se perder entre muitos rostos, de se encontrar entre muitos amores, de latejar e querer a vida pulsante e corrente como fluxo de rio. A gente carrega isso entre os ossos, essa vontade arraigada de um querer-mundo que não se esgota, de um querer-vida que não se encerra em si mesmo. A gente se perde e se encontra muitas vezes entre as possibilidades de vida que aparecem entre as janelas, entre os desvarios e verdades que cruzam as avenidas por onde passamos, pelos nossos trânsitos de ser.

Mas existem encontros grandes e únicos, e a gente os revencia. E, acreditem, a gente encontra. De repente aparece aquela pessoa ali, certa, que nos desperta a vontade de vida conjunta. Sabemos que biscate pode casar sim, fazer casa, fazer família e morrer de amores pelo companheiro ou companheira de vida. E biscate pode ser fiel, claro que pode, porque fidelidade não é pacto moral, é pacto de comunhão para a vida. E é muito biscate querer essa vida assim, descaradamente, vivida na intensidade e na verdade de dois.

Biscate é bicho atento, e a gente sabe que o caminho de um relacionamento conjunto é processo denso, é encontro e afinamento, é reviravolta e enfrentamento, é ousadia de querer. E a gente quer. Porque quando se ama, o querer é via expressa. E de mão única: a gente vai.

E o amor, ah, o amor. Esse é forte de arder as vísceras. E a gente sabe que o coração é pulso que se segue, e uma biscate só quer ser feliz pelo coração e pelo desejo. E às vezes na vida a gente encontra aquele um ou aquela uma e…pronto. A gente quer é isso, e só isso. Claro que os caminhos são tortuosos e existem desvios, mas, sim: pode chegar o momento em que – depois de ter-se experimentado tantos sabores – a gente quer uma só pessoa. E com ela, a gente quer tudo.

Só que muitas vezes vem o fardo biscate, e a gente tá na berlinda. Dá para acreditar na fidelidade de uma biscate? Biscate é aquela vai atrás de todos os assobios? É aquela que dá trela para todas as olhadas audaciosas? A que nunca se satisfaz com um casamento? Acho que dá para desconfiar que a resposta é um não bem redondo…

Além disso, resta-nos sempre a pergunta cabal: afinal, o que é fidelidade? Respondo-me muitas vezes: fidelidade é pacto de dois (ou de três, ou quatro, para quem escolhe um relacionamento poliamoroso). E pacto para a vida, e pacto também com a gente mesmo. E a gente consegue ser fiel porque, afinal, somos fieis ao que queremos.

Porque quando a gente escolhe e – de repente – a gente escolhe, a gente escolhe pelo desejo mais profundo de poder ser. A gente não escolhe porque precisa, porque quer modelo, porque quer segurança. A gente escolhe porque quer ser feliz pelo que vem de dentro. Talvez essa seja a grande vantagem de se relacionar com uma biscate: a gente tá porque quer. Porque a gente sabe que pode não querer, e tudo bem. Mas quando a gente quer, a gente quer com uma força de derrubar barreiras grossas e enfrentar dragões que cospem fogo. De enfrentar feiuras e abismos. De fazer careta para espantar a morte.

E não que o caminho seja liso e isento de desvãos, porque nenhum caminho o é. Relacionar-se não é caminho fácil de quererzinho que logo se esvai, amar é processo intenso de muitas reviravoltas e sopros de furacão, casa sem cama arrumadinha, sobressaltos e espantos, febres e frios, loucuras e desencontros. Porque quando se quer ser de verdade, não se espera final feliz de novela. Espera-se processo de construção, dores e delícias, verdades bonitas e feias, avessos e vicissitudes, coisas que respiram e se transformam para serem cada vez melhor.

Acho que a gente acredita mesmo naquela fidelidade de Vinícius de Moraes:

“…e não me reste de tudo, ao fim

Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber

Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe

Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa

De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida”.

 Axé seu Vinícius. Porque a gente acredita.

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20 ideias sobre “Fidelidade biscate

  1. Texto lindão. Gosto muito da sua forma de sentir intensamente e intensamente nos comover em letras. Eu só me pego pensando porque a palavra fidelidade tem que ser conectada a uma exclusividade corporal quando, em tantos outros vínculos afetivos relevantes o corpo não é rifado dessa maneira….

    • Ah gentes! Eu não acho que a fidelidade esteja ligada a exclusividade corporal não, acho que é pacto! pode estar ligada, ou não. acho que é meio o que tentei escrever no texto. é pacto de fidelidade para a vida, e nesse pacto, os envolvidos escolhem, decidem, vivem de muitas formas! tem pactos que não cabem, e tem pactos que cabem, mais pessoas. a liberdade do corpo é também liberdade de escolha! pode-se escolher ser só de um, ou não. e nos dois casos, pode haver fidelidade!

      • eu entendi que é pacto…só ando pensando porque este pacto, sabe? porque não temos este tipo de ideia em relação a outros afetos…porque manifestar carinho e desejo de estar perto, por exemplo, de amigos, segurando na mão ou dando cafuné é tão diferente de enfiar a língua na orelha de alguém ou passar a mão nos mamilos? porque há prazeres que só podem advir de uma pessoa? são caraminholas que ando pensando, sem resposta nehuma…

        • Ah sabe Luciana, acho que não precisa ser assim mesmo. Não precisa advir de uma só pessoa, não. Somos seres possessivos, formados em padrões morais, e tudo isso é muito difícil de ser desconstruído. Fora que pode existir mesmo o prazer de estar com uma só pessoa. Tudo isso é escolha. tem muita gente hoje que opta por um relacionamento poliamoroso, ou relacionamentos mais livres e abertos, onde não existe essa visão de que a fidelidade é fidelidade corporal, onde os envolvidos se envolvem afetivamente e sexualmente com mais de uma pessoa. é escolha, e é possível. eu já transitei um tanto por esse mundo e hoje opto por estar com uma pessoa só. Escolhas, escolhas, e a gente tem que escolher mesmo pelo coração!

          • então, sei tudo isso. O que me inquieta é que – sabemos nós- as escolhas não são expressões de um essência, de uma identidade desprovida de referências e tal. As escolhas são processos decorrentes de vivências, referências culturais, construções simbólicas, leituras, etc. E escolhas tem consequências que não recaem só sobre quem escolhe…então, claro, minhas caraminholas multiplicam-se pensando em todo o contexto, as pequenas mudanças, os laivos de liberdade, as grandes dores e tal. E, especialmente, na necessidade de reconstruir discursos, sempre.

  2. É assim que penso sou fiel por escolha (…)Essa mulher casada e incrivelmente biscate, sabe que é responsável por suas escolhas e que tem todos os problemas domésticos para resolver. Então, ela encarna uma “biscate social”, faz todo o ritual com a família e reserva seu tempo com o homem que escolheu pra ser seu parceiro.(…) (por Mira Lima)

  3. Adoro você Silvia!! Todos os seus textos são maravilhosos. Parece que você consegue me enxergar e me escrever.. até melhor que eu! kkkkkk O buscare e as buscares são os meus mais novos vícios. Vício de uma biscate nova!

  4. e Luciana Nepomuceno é a borboletanosmeusolhos tabém junto com a Silvia. Vocês (biscates) me fazem abrir os olhos todos os dias para certas situações, sentimentos guardados e tantos outros desejos em mim.. Gosto muito desse blog! Tanto que o mesmo já tem um aplicativo no meu celular!! Continuem assim. E eu continuarei aqui, enlouquecidamente apaixonada.

  5. Todas ama Luciana Nepomuceno! Love Lú! E você está certa. Não dá para reproduzir discursos. a gente precisa de reconstruções. de um lado, e de outro. claro, temos valores, recursos, padrões, leituras, programas que moldam e, por vezes, maculam as escolhas. Sociedade machista e moralista. Bom é poder escolher e ser fiel ao que realmente queremos, depois de passear pelas amarras e pelas desconstruções, depois de viver e experimentar…escolher o desejo e o coração!

  6. Sim sim sim. Sempre. Mesmo que no início o susto de se perceber seja tão grande que a gente não consiga engolir o tamanho do sapo. E aí, com o tempo, e com mais leituras, mais discursos e mais textos.. o sapo vira um cappuccino maravilhoso com sabor de aceitação. De dever cumprido. De ser quem você é e apreciar até a última gota do seu cappuccino/nova você.

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