Impasses

Por Raquel Stanick*

Não era porque houve o não. Existia algo que era legal. E tinha um nome de sua vontade que era além de mim. O que eu não quis admitir foi a dor que porventura viesse. Não adiantou porque doeu mesmo assim. E eu não sei mais lidar com isso.

Talvez eu simplesmente ame você. Real, latente, cru, em carne, sangue, ossos, alma, belezas e horrores. Sei o que você é e sabê-lo dói. Ah, dói muito. Todas as minhas ilusões ainda moram naquele lugar onde acreditam em felizes. E sempre. Claro que chorei quando me despedi delas. Ainda hoje, vez ou outra, penso em lhes telefonar. Mas perdi o número quando te conheci. Junto com a cabeça.

Enfim, quem tinha que fazer isso era eu. Aqui. Magoar você. Fazia tempo que eu não sentia nada… Nessa porra de cidade sozinha enquanto você não me quer, e eu tenho que continuar distante.

Porque você não me quis…

O que me entristece é que nos damos bem. Mais do que com muitas que você vá tentar e com muitos que eu vá tentar. Você realmente não acha triste, triste, triste, de chorar mesmo e para sempre, que você queira que sejamos amigos apenas porque era uma boa possibilidade e ao alcance da sua mão e do resto de nossa suja matéria, o sentirmos algo que nos ultrapassasse?

É, eu complico, eu sei, mas eu entendo isso que é nomeado como meu. Corpo. Pois é, tesão é foda.

Eu sou vacinada e eu te quero. Eu trepo com montes de caras além de você e te quero. Eu quero brigar com você e te quero. Eu queria não querer, mas eu quero.

Ontem eu me masturbei pensando em você. E foi ótimo. Ruim foi pensar que se fosse na “vida real” você me recomendaria, pelo “bem” da nossa amizade que eu não fizesse isso. Fantasiar.

Só, e sempre porque você não “poderia” corresponder. Pensei ter te contado que é mais simples que isso… então acho tão estranhas suas desculpas. Principalmente porque sempre sonho com você.

Eu só queria que meu corpo me desse o direito. Mas você negou. Óbvio que eu me apaixonei. Ou sei lá como se chama isso de pensar em você agora, por exemplo.

Há muito tempo resolvi dizer o que penso. Não me calo diante do desejo. Então quando hoje verbalizei o “morra!” foi uma forma de dizer que eu desejo que você morra para mim. Dentro de mim. Não para o resto do mundo. Ou materialmente.

E tenho certeza, porque já o fiz antes e muitas vezes, que cedo ou tarde eu cometo esse assassinato sem deixar pistas que me denunciem.

Quero que morra a pessoa que foi desonesta comigo e com você mesmo. A que olhou descaradamente para aquela outra mulher na minha frente sem antes ter me enxergado.

Não acho legal gente assim. Não acho tampouco que isso é liberdade e sim uma forma assustadora e cheia de dentes afiados de tentar magoar as pessoas.

Então mato mesmo. Morrendo de rir.

E triste eu já fiquei. Enlutei meu coração quando notei que você ainda precisa de certos tipos de atitude tão bobas para se afirmar como homem. Porque não sou uma donzela casadoira que precisa ser “espantada” para “parar de correr” atrás de você, e sim a bruxa má, se liga e vê se morre logo.

Enfim, assumo que te escrevi somente porque amanhã está passando por aqui um filme que muitos da nossa vibe, nossa turma, nosso grupo, nossa tribo, nos recomendaram assistir juntos.

E aí, vamos? Eu compro a pipoca dessa vez. Juro.

* Raquel Stanick, de acordo com ela mesma, não é, mas está, artista visual, entre mil outras e tantas coisas (inclusive quase sempre apaixonada) lá pras bandas da Paraíba. Delicada, arruaceira, mocinha do bem, mulher da noite, poeta do amor fácil e da vida difícil (e outras tantas vezes o inverso), é, a partir de hoje, não apenas biscate na vida mas biscate-fixa-escrevente no nosso clube. Quer mais Raquel? Ela é colunista da Revista Mostra Plural, se desalinha em Todas Essas Coisas Sem Nome e ainda tem este blog onde você esbarra em um pouquinho do lindo trabalho dela: Ceci, n’est pas un blog 

 

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15 ideias sobre “Impasses

    • Isabela, uma das coisas que valorizamos por aqui é a diferenciação. Este é o estilo de Raquel, a linguagem “cotidianizada”, a escrita feito língua, deslizante, convidativa e subversiva. Não é que ele não saiba usar as vírgulas, ela só prefere a subversão ;-)

      • Isabela, valeu o toque. realmente meu “estilo” é quase uma busca da linguagem falada e espetada em letras e talvez venha de minha trajetória como artista visual que trabalha basicamente com fotografia. muitas vezes quando releio o que escrevi sinto que quis pegar o sentimento e mostrá-lo sem o photoshop da organização. abraços.

  1. Adorei o texto, Raquel. E me lembrou uma história – quando, no consultório do analista, queimei as fotos de um cara. No terraço. Fizemos uma pequena fogueira ritual. Fogo é bom, purifica, clareia.
    Às vezes tenho certa pena de não ter guardado algumas. Mas naquele momento, matei o cara. E olha, tava precisando.

  2. “ah, esses rituais e exorcismos. são tão biscates e revolucionários, não é? eu adoro! rsrsrrsrs”.

    Também adoro e é muito isso mesmo. Sempre queimei as fotos dos meus ex, desde o primeiro. Nada mais libertador…engraçado, mas é!

    Amo o blog de vocês e tenho que confessar: tem muita mulher machista por aí! Fiquei impressionada com certos comentários, inclusive, de familiares próximos. É impressionante o tamanho do preconceito e da desinformação. Tento quebrar com esses paradigmas, mas, às vezes, chega ao nível da insuportabilidade. E olha que sou paciente. Sei que é complicado ir contra uma sociedade patriarcal, desigual, religiosa (de religião, não de Deus), preconceituosa (…). Pagamos caro pelo livre pensar, inclusive, muitos, literalmente, perderam suas cabeças ao longo da História, mas daí a nem questionar o que lhe é imposto, nem duvidar e pior, azucrinar quem critica, complica demais.
    O blog de vocês é a prova viva que existem muitas cabeças pensantes por aí e que, apesar da “força das regras sociais”, nós (me incluo nesta, se me permitem), não admitimos que nos imponham só por assim dizer, pelo simples “bem estar”. Somos mulheres, somos vivas, repletas, intensas, amadas, odiadas…somos muito, tudo e nada…somos e ponto! E se pra isso tivermos que gerar mal estar nos mais conformados, façamos! Quem sabe essas conformadas não se transformam em pessoas inconformadas? Já é um início…

    Um grade abraço de agradecimento a todas e parabéns pelo blog.
    Kati R.

  3. Por um momento pensei que eu mesma tivesse escrito isso ou que alguém havia roubado tudo o que se passava na minha cabeça. Pois é. Chorei. To querendo matar alguém. Alguém que insiste em pensar que a amizade pode ser melhor que tudo o que poderíamos fazer caso nossas forças e ideias fossem unidas. Alguém que insiste em pensar que ser diferente um do outro é ruim. (E eu que vejo isso como um complemento e um tempero tão sexy). É a vida. Morra!

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