Meu feminismo e suas limitações (ou como expiar certas angústias biscates)

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

feminismoJeane, minha filha, desça do seu falso pedestal libertário-fajuto-pequeno-burguês! Aceite que algumas escolhas de vida de certas mulheres lhe causam perplexidade e te geram o maior preconceito. Esse mesmo, esse tal do preconceito que você diz querer tanto combater. Esse preconceito chinfrim de só aceitar o que é o revolucionário, só concordar com o dissonante prafrentex e querer dançar na disritmia, no intuito de chocar incautos, pra ver essa vida severina fica mais colorida.

Você acha lindo apoiar uma mulher que luta com os seios nus. Que se autoproclama vadia por gosto e ironia.  Que quer transgredir as engessadas normas de gênero. Que defende o direito de ser bissexual, de transar com travestis, de curtir a sexualidade como e se quiser. Que põe silicone no peito, na bunda e canta “minha buceta é o poder”. Que queima sutiãs e faixas de misses. Que lê com mestria e desenvoltura os textos da fanchona-filófosa-cult Judith Butler.

Ok. Tudo isso aí é cool pro seu feminismo incandescente e libertário. A comadre Jeane adora abraçar o que está na ponta de lança dos direitos humanos e das múltiplas identidades de gênero, tout court, né não?

Agora quero ver confessar a sua pouca capacidade pra lidar com as escolhas de muitas outras mulheres. Aquelas escolhas, Jeane, que você considera difíceis (talvez porque não sejam a sua opção de vida, do qual tanto se orgulho, é que narciso acha feio o que não é espelho, lembra?).

Pois confesso:

Realmente sinto dificuldade em me solidarizar com uma moça que escolhe ser dona de casa ou evangélica ou apenas cuidar de filhos e da família (putz , e quando isso vem tudo junto?). Sinto dificuldade em me irmanar com esses seres humanos que fizeram escolhas tão diferentes das minhas.  Do meu pedestal, me questiono: como uma mulher usa a sua potencial liberdade pra se fechar em círculos de opressão? Por que tantas se posicionam contra o aborto, aceitam religiões patriarcais, por que votam em partidos conservadores, por que chamam outras de putas, por que têm ódio mortal d@s exs de seus companheir@s ao ponto de incitar a rivalidade e a violência contra elas próprias?

Mas não sou melhor (e nem pior) do que ninguém não… Lembro que uma das lutas atuais do feminismo, embora o clichê seja fácil (e não é na prática),  é de respeitar as mulheres em suas escolhas. Não dá pra querer que todas sigam o mesmo caminho da militância, ainda que no campo cotidiano. Isso é um tipo gravíssimo de desvio totalitário. Não posso decidir por todas. Não tenho esse direito. Elas são elas. No entanto, devo perseguir um ideal: de gostar das mulheres, de defendê-las, de não rivalizarmos umas com as outras, como tanto essa cultura quer. E, principalmente, trabalhar para que essas escolhas,de toda e qualquer mulher, sejam efetivamente opções e não defesas justificadas pra ausência de oportunidade.

Com toda a licença pra escolher o diferente, somos mulheres-irmãs, no que a sociedade nos excluiu, nos restringiu e nos subalternizou.  Luto pra minar esse sistema masculinista e opressor e  cessar  já com esta guerra fratricida umas contra as outras. Sem maternalismos e sem mais para o momento.

Era isso. Precisava expurgar essa culpa com vocês. Ser feminista é caminhar por dilemas difíceis e desafiar preconceitos. Muitas vezes, o meu mesmo.

.

Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

 

 

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18 ideias sobre “Meu feminismo e suas limitações (ou como expiar certas angústias biscates)

  1. Concordo com você, todos temos preconceitos e lutamos contra eles, mas às vezes eles põem as asinhas de fora. Mas é importante também considerar que nem sempre é exatamente uma escolha entre ser livre e oprimida. Muitas mulheres (a maioria?) estão tão imersas na cultura machista e opressora que nem sabem que existem outras possibilidades de vida.

  2. Esse texto foi direto no ponto. Há tantos dilemas e muitas mulheres que se dizem feministas acabam saindo por aí cagando regras. Camille Paglia já dizia que esse era o grande mal do feminismo como movimento. E tinha razão (apesar das minhas restrições sobre o que ela diz/escreve). Como disse Ádria no comentário, nem sempre essas mulheres “escolheram”, mas como é que dá para saber isso? Ninguém é o arauto da verdade absoluta e conviver é um grande desafio.

  3. Eu me considero feminista, mas sou contra o aborto por uma série de razões que não cabem aqui falar. Quando eu menciono isso em algum momento, as amigas sempre me olham diferente, e eu sinto que elas julgam a minha opinião pior que as outras. Fora isso, defendo que ser dona (ou dono) de casa é sim uma cupação digna, assim como ficar em casa e cuidar dos filhos também. Não foi minha escolha, mas super respeito, e não acredito que isso seja necessariamente se submeter a um círculo de opressão, mas simplesmente optar por ter uma vida diferente.
    O que eu quero dizer é que eu sinto muito isso de as pessoas quererem impor a todo custo seu ponto de vista e nem escutar os argumentos, nem tentar compreender o outro lado. Óbvio que eu tenho meus próprios preconceitos, e acho que o importante nesta situação é ter consciência deles, ou tentar rastreá-los na medida do possível.

    • Entendemos, por aqui, que a mulher deva ter o direito de decidir se quer ou não abortar. As convicções pessoais devem se inserir nesse contexto e não o contrário. Ninguém vai obrigar alguém a abortar, mas a recíproca deveria ser verdadeira. Da mesma forma, estruturalmente, em busca de uma sociedade mais igualitária, que cada pessoa seja responsável pela sua vida é desejável. Se existem arranjos que permitem essa liberdade, sejam eles quais forem, não tem porque contestá-los. Apenas, destaque-se, no tipo de sociedade em que atualmente nos inserimos, a possibilidade de manter autonomia e liberdade sem independência financeira é mais difícil.

      De resto, é consenso no clube que a imposição do que quer que seja, inclusive – ou principalmente – convicções, não dá em boa coisa ;-)

      • Hm, por isso que eu disse que não cabia eu expor as minhas razões, pq não era a minha intenção neste tópico. O que eu queria dizer era justamente isto: as pessoas já partem da premissa que o ponto de vista da outra pessoa está errado sem ao menos ouvir as suas razões. Daí surgem nossos preconceitos.

  4. Oi Jeane!
    A minha dificuldade é com mulheres que usam o corpo para obter benefícios, que usam a sexualidade como único meio de se expressar, que se vestem como se fossem carnes expostas em açougue. Nem é tanto mpelo sexo livre, isso não me incomoda, mas o fato dessa sexualidade ser vista cm, uma super libertação, sendo que para mim,também é uma forma de opressão.
    Mas cm vc, estou aprendendo a lidar com isso. Sou evangélica, quero me casar, mas não abro mão de minha independência intelectual e financeira e nem me sinto oprimida com minhas escolhas. Acho que na verdade, a opressão se apresenta quando aquilo que vc escolhe lhe faz mal, te impede de pensar diferente, se movimentar de outra forma se não a já estipulada, quando a mulher se sente presa em uma ideologia e o p´roprio feminismo pode representar algo nesse gênero, muitas vezes.
    Mas vamos caminhando e vamos aprendendo a lidar com as diferenças =).

  5. Sabe, precisava escrever esse texto pra provar que eu não sou tão libertária como eu pensava. Sou conservadora com conservadores e isso não é bom. Mas penso que o exercício de rever essas práticas também é saudável. É difícil pra caramba o diálogo com quem pensa diferente e o feminismo tá cheio de correntes diversas pq não somos de forma alguma um grupo homogêneo. Mas é essa diversidade que nos enriquece. Fico feliz que tenham gostado do texto, a Luciana que é a responsável por ele vir parar aqui. Beijo a tod@s!!!

  6. Eu concordo em partes com você. Acho que ninguém tem o direito de meter o dedo na vida de ninguém. Se a moça resolveu casar com o pastor, ter 5 filhos, ser dona de casa e submissa, escolha dela.
    Mas se essa mesma moça resolve meter o dedo nos MEUS direitos e nos direitos das outras pessoas, aí é outra história.
    Se ela quer ser ”recatada”, ok. Mas ela não pode me impedir de ser biscate. Também não pode me humilhar por ser biscate.
    Se ela não quer abortar, ok. Mas ela não pode querer tirar esse direito das outras pessoas.
    Porque se ela quiser meter o dedo na minha vida eu vou lutar contra isso SIM, não importa se ela é mulher.
    Uma mulher machista pode ser tão ou mais opressora que um homem machista. Até porque, num mundo onde criar os filhos é ”coisa de mulher”, muitos machistas foram criados assim por mães duas vezes mais machistas que eles próprios.
    E eu não vou achar elas mais simpáticas que os homens opressores só porque são mulheres. Não vou bater palma pra ela só porque ela é minha sister.

  7. excelente o texto,confesso que é a primeira vez em que acesso esse blog que tive conhecimento elo programa da Fatima bernades , mas ó adorei sinto que aqui começarei filtrar recicalr certos conceitos que na boa não os quero mais!!! Parabéns adorei o texto.

  8. Ola pessoal ;

    nao entendi direito mas me parece que o começo é uma contradição a confissão, mas bem se entendi direito as pessoas aceitam as coisas pois são treinadas a aceitar não por opção mas por uma situação no ira a mulher é subjulgada por que elas nao se revoltam contra o sistema ?? por que foram treinadas e como nos humanos somos uma maquina de observar e copiar elas observam outras mulheres aceitando o subjulgamento e aprendem que isso é o certo, um exemplo que uso muito é tem uma religiao na bolivia chamada menonita , nessa vila eles com medo que seus filhos abandonem a comunidade ensinam a matematica e outras materia erradas para desencorajar as pessoas a sair da comunidade, pois bem alguem que aprendeu nessa comunidade que 2+2 são 8 mesmo que voce explique e mostre toda a teoria de como se chegar ao resultado correto, eles nao aceitam a mudança e ainda acreditam no que aprenderam erroneamente, a conclusão que chego é que a mudança é muito dificil de acontecer poquissimas pessoas aceitam a mudança pois tudo que é diferente da gente agente tem medo!!!!

  9. Oi Jeane, eu consigo entender o seu ponto de vista, mas venho aqui dizer o meu, pra que vc tbm tente entender. Eu fui dona de casa, trabalhando apenas como mãe em tempo integral e isso foi escolha minha, escolha que pude fazer por ter um ótimo relacionamento com um marido que sempre foi muito companheiro até o dia que o casamento acabou. No entanto eu nunca fui mulherzinha submissa, sempre agi e vivi como quis, não fiquei parada, estudei, fui excelente mãe enquanto os filhos eram pequenos e sempre vivi minha sexualidade intensamente mesmo que com um único homem e não me arrependo disso. Quando meu casamento acabou não fiquei chorando com cara de coitada, curti meu luto pelo tempo necessário, arregacei as mangas e fui trabalhar, namorar, curtir a vida. Porque minha querida Jeane a vida tem que ser vivida intensamente e o diferente não é ruim, são apenas outras escolhas que todas nós temos direito de fazer. Parabéns, seu texto é excelente e adoro esse cantinho aqui!

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